CAPÍTULO 1 DIREITO MARÍTIMO E PROCESSO CIVIL UM DIÁLOGO NECESSÁRIO

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2 PREFÁCIO CAPÍTULO 1 DIREITO MARÍTIMO E PROCESSO CIVIL UM DIÁLOGO NECESSÁRIO É clássica a afirmação de que o Estado, no exercício do seu poder soberano, exerce três funções: legislativa, administrativa e jurisdicional 1. O presente estudo recairá sobre essa última a atividade jurisdicional, revisitada e contextualizada no Estado Constitucional de Direito a partir de uma análise pós-positivista de que o elemento interpretativo é indissociável do conceito de jurisdição, tendo sido necessária a opção por um paradigma hermenêutico adequado, de modo a não corroborar com parte da doutrina processualista brasileira, devotada a um modelo meramente silogístico de aplicação do direito e conceitos históricos dos institutos fundamentais do direito processual civil (jurisdição, ação e processo). Dessa forma, a ideia inicial de que há atividade jurisdicional somente quando o Estado-juiz declara direitos, não mais subsiste. No acesso hermenêutico, conforme se verá adiante, o exercício da função jurisdicional refletirá a própria essência da atividade judicante, qual seja, um poder ou uma autoridade conferida por lei, em sentido estrito, a agente, órgão ou instância, em virtude da qual se atribuirá sentido à norma, diante da problematização do caso concreto, prevenindo-o ou solucionando-o, superando, assim, a metodologia positivista de que a decisão é um ato de mero silogismo (em que texto e norma se confundem), como pretende parte da doutrina processual, que ainda insiste em separar os fenômenos da compreensão, interpretação e aplicação do direito. 1. CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de direito processual civil: teoria geral do direito processual: módulo processual de conhecimento. 24. ed. São Paulo: Atlas, v. 1. p

3 MÔNICA PIMENTA JÚDICE A doutrina vem há muito tempo se preocupando em distinguir a jurisdição das outras funções estatais 2, principalmente no tocante à atividade do Estado administrador. É certo que tal distinção é importante para a adequada compreensão do instituto, porém, convém reconhecer que, a despeito da distinção entre elas, há pontos em comum, pois em todas as três funções do Estado há manifesta atividade interpretativa que evidencia o próprio poder soberano (uno e indivisível). Tal assertiva leva a crer que em todas as manifestações de tal poder há de se atentar também para os princípios norteadores da organização do Estado 3 Democrático de Direito, bem como para as características estruturais dessa organização (art. 125 da CF). De modo que, além de ser absolutamente necessário que o juiz respeite a equidade dos procedimentos previstos, ele também deve respeitar a coerência de princípios que compõem a integridade da comunidade. Isso leva a crer que, em um Estado Democrático de Direito, legalidade e legitimidade, cada uma com sua qualidade, são características peculiares do poder. 4 Dessa perspectiva um tanto renovada impõe-se, tanto mais quanto se considere que, assim como a atividade administrativa não está mais isoladamente centrada só no Poder Executivo, também a atividade jurisdicional vem sendo praticada por outros agentes, órgãos e instâncias, inclusive do terceiro setor (v.g. conselho tutelar, na área da criança e do adolescente). Igualmente os tribunais de arbitragem, aos quais se vem reconhecendo também natureza jurisdicional, para dirimir conflitos que envolvem o Poder Público; os órgãos de regulamentação e fiscalização de atividade profissional, de forma que a função judicante, em sentido largo, vem sendo consentida, por meio de lei (em sentido estrito), a agentes, órgãos ou instâncias não integrantes da estrutura judiciária estatal (art. 92 da CF), na tendência à desjudicialização dos conflitos, a exemplo 2. CÂMARA, Alexandre Freitas, Lições de direito processual civil: teoria geral do direito processual: módulo processual de conhecimento, cit., 2013, p CÂMARA, Alexandre Freitas, Lições de direito processual civil: teoria geral do direito processual: módulo processual de conhecimento, cit., 2013, p A legitimidade é a qualidade do título do poder e a legalidade a qualidade do seu exercício. (SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 15. ed. rev. e atual. nos termos da reforma constitucional. São Paulo: Malheiros, p. 426). 22

4 DIREITO MARÍTIMO E PROCESSO CIVIL UM DIÁLOGO NECESSÁRIO dos tribunais desportivos (art. 217 da CF), dos tabelionatos (arts. 982 e A do CPC, Lei n /2007), das comissões de conciliação prévia na Justiça do Trabalho (art. 625-D da CLT, Lei n /2000) 5, da arbitragem (art. 1º da Lei n /96) e do Tribunal Marítimo (art. 1º da Lei n /54), sendo este último a matéria deste estudo. É nesse cenário que a análise do processo marítimo brasileiro será realizada, à luz do direito processual civil contemporâneo. O presente trabalho encontra-se dividido em duas partes: a primeira aborda os procedimentos jurisdicionais marítimos (art do CPC/73) e a segunda, a revisão judicial das decisões do Tribunal Marítimo, passando pela análise do novo Código de Processo Civil (CPC/15), que atribuiria força de título executivo judicial aos acórdãos marítimos. Nessa linha de raciocínio, uma abordagem da Lei n /54, conhecida como Lei Orgânica do Tribunal Marítimo (LOTM), será realizada à luz do direito processual civil contemporâneo, em especial sob a égide do princípio da efetividade (art. 5º, LXXIV, da CF), corolário de um Estado Constitucional, que permite uma mudança de paradigma legitimador da função judicial do Estado (rectius: composição justa dos conflitos) e, via de consequência, o resgate institucional da Corte Marítima. Nada mais atual que, a despeito da natureza do provimento estatal, ele encontre estabilidade processual. Urge o enfrentamento desse estado de coisas, mediante o implemento de uma política judiciária em mais de uma frente: mudança de mentalidade do jurisdicionado brasileiro; efetiva informação à população quanto aos outros modos de resolução de conflitos; valorização destes últimos, mesmo no âmbito dos processos judiciais em curso; prévio encaminhamento dos contraditores aos agentes, órgãos e instâncias capacitados à composição justa do conflito; concepção residual do acesso à Justiça estatal, de modo a valorizá-la e preservá-la para a recepção das lides relevantes para a comunidade, efetivamente complexas, ou ainda aquelas que, em razão de 5. MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Acesso à justiça: condicionantes legítimas e ilegítimas. São Paulo: Revista dos Tribunais, p

5 MÔNICA PIMENTA JÚDICE peculiaridades da matéria ou das pessoas envolvidas, não comportam resolução por outros meios, inclusive as ações ditas necessárias. 6 Nesse cenário é que o presente trabalho se desenvolve, de modo que se evidencie, a cada passo aqui discutido, a necessidade de um diálogo renovado sobre o direito marítimo brasileiro, inserido em um Estado Constitucional, à luz do direito processual civil contemporâneo, a fim de possibilitar que as decisões do Tribunal Marítimo, qualificado para matérias relacionadas a questões marítimas, não fiquem à margem do sistema jurídico do país, mas que, ao invés, se acompanhe a tendência internacional de conferir estabilidade institucional àquele a quem compete verificar a autoria de um acidente da navegação. 6. MANCUSO, Rodolfo de Camargo. A resolução dos conflitos e a função judicial no contemporâneo estado de direito. Revista dos Tribunais, São Paulo, v. 98, v. 888, p. 9, out

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