A linguistica aplicada e o professor de língua inglesa: novas formas de pensar a prática pedagógica

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1 A linguistica aplicada e o professor de língua inglesa: novas formas de pensar a prática pedagógica Prof. Ms. Catia Aparecida Vieira Barboza (UNISUAM / UNIABEU / SEE-RJ) RESUMO: O objetivo deste artigo é falar sobre a Linguistica Aplicada e seu papel no desenvolvimento de novos rumos para a prática docente no ensino de línguas estrangeiras, principalmente, da língua inglesa. O professor recém formado e principalmente aqueles estão afastados da pesquisa devem observar a importância de uma prática pedagógica mais reflexiva e mais comprometida com um ensino de melhor qualidade e que atenda às necessidades dos alunos. Nosso foco neste artigo será principalmente os professores que atuam ou que têm intenção de atuar em escolas públicas. Palavras-chave: ensino; linguistica aplicada; língua inglesa; prática pedagógica. ABSTRACT: This article aims at talking about the Applied Linguistics and its role in the development of new paths to the teaching practice concerning foreign languages, mainly, English as a Foreign Language (EFL). The recently graduated teacher and the teachers that have not had contact with the last tendencies in this kind of research should observe the importance of a more reflexive pedagogical practice that may fill the needs of the students. Our focus will be the teachers that work or intend to work in Brazilian public schools. Keywords: teaching; Applied Linguistics; English language; pedagogical practice. 19

2 Revista Semioses Rio de Janeiro Vol. 01 N. 05 Agosto de 2009 Semestral A linguistica aplicada e o professor de língua inglesa: novas formas de pensar a prática pedagógica A Linguística Aplicada Antes de discutirmos as questões mais empíricas, convém apresentarmos a Linguistica Aplicada (LA), que tem como foco principal estudos sobre questões de uso da língua e pesquisas envolvendo aprendizagem e ensino de línguas estrangeiras e de língua materna. Segundo Lopes (1996), a LA é entendida aqui como uma área de investigação aplicada, mediadora, interdisciplinar, centrada na resolução de problemas de uso da linguagem, que tem foco na linguagem de natureza processual, que colabora com o avanço do conhecimento teórico, e que utiliza métodos de investigação de natureza positivista e interpretativista. (LOPES, 1996: 22-23) Complementando este pensamento, Cook (2003), afirma que a LA se propõe a investigar problemas que possam decorrer do uso da língua problemas educacionais e sociais. Ao definirmos a LA, também é importante ressaltar a relação entre a Linguistica propriamente dita e a LA que tem sido ponto de grandes discussões por parte dos lingüistas aplicados, visto que, os pesquisadores da área defendem a existência destas disciplinas em contextos bastante distintos. Cook (2003) define a Linguistica como a disciplina acadêmica comprometida com o estudo da língua de uma forma geral. Como qualquer disciplina, a linguistica procura generalizações dos aspectos reais, e, portanto, em certo ponto está comprometida em representar realizações abstratas da língua ao invés de expor a forma como ela é experimentada no mundo real.1 (COOK, 2003: 09) Para o autor a teoria e descrição linguistica não podem ser usadas diretamente na resolução de problemas reais e a LA não se propõe simplesmente a ser uma aplicação de teorias linguisticas. O que os pesquisadores da LA defendem é que esta é uma área de estudos interdisciplinar, transdisciplinar e até mesmo indisciplinar, pois, como afirmam Aronowitz e Giroux (1991), as fundações do conhecimento legítimo desmoronaram. Há novos objetos de conhecimento socialmente construídos e novos modos de vê-los, que radicalmente transgridem os limites disciplinares. 2 A situação atual do professor de língua inglesa Tendo apresentado a LA agora podemos observar o quadro atual do ensino de língua inglesa, especialmente nas escolas públicas. Para isto, apresentamos algumas reflexões de pesquisadores de diversas regiões do Brasil. Vários pesquisadores comprometidos com a LA têm refletido sobre a atitude do professor e dos alunos de língua inglesa. Lopes (1996) observa a existência de uma certa adoração da cultura estrangeira por parte de alguns professores, fato que segundo o autor reflete um modelo social vigente de crescente valorização do estrangeiro e absorção de certos modelos culturais. Entretanto, podemos perceber que os objetivos quando nos referimos à aprendizagem de uma língua estrangeira por parte dos alunos são os mais variados e a atitude de adoração normalmente não se apresenta com tanta freqüência. Afetivamente, os alunos reagem à aprendizagem da língua estrangeira de formas diferentes e muitas vezes com medo e receio (cf. BARBOZA, 2008a). Como professores, devemos ter essa percepção e adequar nossas práticas pedagógicas a objetivos mais concretos, coerentes com a realidade social dos 20

3 Catia Aparecida Vieira Barboza alunos. Absorver totalmente esta cultura estrangeira pode ser um objetivo muito elitizante e como afirma Lopes (1996), muito distante do propósito da maioria das pessoas que aprendem uma língua estrangeira no Brasil. Segundo o autor, na maioria das escolas de nível médio, a utilização de uma abordagem instrumental, ao invés do tradicional ensino das quatro habilidades seria muito mais adequada aos alunos. Desta forma, ter conhecimento e refletir criticamente sobre sua prática devem ser ações permanentes no cotidiano do professor de língua estrangeira. A situação atual, entretanto, segundo Celani (2002) é de abandono. A autora mostra que este quadro de carência se evidencia em todos os tipos de escola, mas que se destaca mais particularmente na escola pública. A raiz deste problema muitas vezes se evidencia na própria formação dos professores que geralmente está orientada por uma ênfase aos aspectos teóricos da aprendizagem e às técnicas de ensino, como se aprender a ser professor de inglês se restringisse a aprender a usar técnicas. Nos cursos de formação, pouco ou nada se fala em termos de reflexão sobre a natureza e a função social desta prática. Segundo Dutra e Mello (2004) 3, uma parte da LA voltou-se para a discussão sobre o desenvolvimento do professor e a prática reflexiva por que o professor passou a ser visto como um ser pensante influenciado por suas crenças. Nunnan (1998) afirma que os eventos da sala de aula não podem ser propriamente compreendidos a menos que a perspectiva do professor seja considerada, haja vista que professores possuem estilos pessoais, conhecimentos, crenças e competências distintas em relação ao processo de ensino/aprendizagem de língua estrangeira (LE). Esses aspectos estão presentes no seu desempenho enquanto aprendizes em cursos de formação de professores e, posteriormente, na sua prática de sala de aula, e, portanto, necessitam ser investigados. (OLIVEI- RA, 2004: 45) 4 Fica evidente que a formação completa de um professor não acontece somente durante o período da graduação, mas é um processo contínuo de aprendizagem. Duarte (1996:37) destaca o papel da aprendizagem significativa, segundo a autora, aprender significativamente é o que ocorre quando se leva em consideração os objetivos pessoais do aluno e, portanto, a ênfase a ser dada é no aluno situado no seu momento histórico, determinado por uma contexto socioeconômico, político, cultural e religioso 1. O foco é que o professor se reconheça enquanto aprendiz e enquanto professor. A pesquisadora está vinculada a um grupo de pesquisadores da PUC-SP que desenvolveram um programa de formação contínua de docentes de Inglês que tem como proposta o aprimoramento linguistico, o aprimoramento da formação profissional e a formação do multiplicador. Duarte (2002) descreve os aspectos afetivos envolvidos no processo ensino-aprendizagem, que vê como um processo único. A pesquisadora ministrou um módulo que tinha como objetivo promover uma reflexão retrospectiva sobre as diferentes formas sob as quais diferentes tipos de aprendizagem ocorreram nas histórias de vida dos professores participantes do módulo. Segundo a autora, muitas vezes 21

4 Revista Semioses Rio de Janeiro Vol. 01 N. 05 Agosto de 2009 Semestral A linguistica aplicada e o professor de língua inglesa: novas formas de pensar a prática pedagógica as formas pelas quais aprendemos determinam em parte, as formas pelas quais ensinamos. Propostas para repensar a prática pedagógica do ensino de LE Como observamos nos tópicos anteriores, o professor de LE deve estar sempre repensando sua prática pedagógica, a pesquisa em LA faz com que a cada dia este profissional possa promover mudanças e tornar suas aulas mais dinâmicas e efetivas. A experiência com alunos de Estágio Supervisionado nos mostra um retrato do atual quadro do ensino de língua inglesa. É comum ouvirmos no relato de estagiários a observação de uma prática de professores pouco comprometidos com mudanças e com uma aprendizagem realmente significativa. Os relatórios nos mostram que muitos dos atuais profissionais estão há muito tempo longe do ambiente acadêmico e poucos se interessam em reciclar e ampliar seus conhecimentos em cursos de especialização e pós-graduação. Observamos que as mudanças promovidas pelos PCN s e leis relativas ao ensino, não tem estado acessíveis a estes profissionais. Muitos não receberam nem leram a estes documentos e parece não ter havido um comprometimento institucional com a atualização destes profissionais. A proposta de um trabalho mais ligado à realidade do aluno no sentido de incentivar o ensino de língua inglesa para fins específicos (ESP English for Specific Purposes), principalmente a modalidade de leitura instrumental que foi sugerida nos PCN s, parece ter sido pouco divulgada e temos relato de profissionais matriculados em cursos de pós-graduação que nunca sequer ouviram falar deste tipo de trabalho, e continuam enfatizando o uso das quatro habilidades em suas aulas, ou adotam um modelo que prioriza um estudo puramente gramatical desvinculado da realidade. Uma proposta para um ensino da língua inglesa mais significativo e estimulante para alunos e professores, passa por uma reavaliação da formação destes profissionais e posterior atualização daqueles que já estão formados a mais tempo. Segundo Dutra e Mello (2004: 31) 5, A reflexão só emerge na vida de um professor, no nosso caso de línguas estrangeiras, quando há uma abertura para entendê-lo como profissional em constante desenvolvimento e formação. Assim, a formação completa de um professor não acontece somente durante o período da graduação, mas é um processo contínuo de aprendizagem. Abrahão (2004) e Celani (2002) apresentam diferentes programas de formação profissional contínua desenvolvidos em diferentes universidades brasileiras. O ponto de convergência destes diversos grupos foi exatamente a reflexão e a transformação da prática docente de profissionais recém formados e dos já em atuação. Através de pesquisas com coleta de dados utilizando entrevistas e questionários, e com a participação de professores e alunos, foi possível para estes professores observar sua prática de forma mais crítica. Dentre as várias formas apresentadas para aperfeiçoar a prática destes docentes, o incentivo ao trabalho com a leitura em língua estrangeira é importante pelo fato de que também atua para uma melhor compreensão da própria língua materna (cf. BARBOZA, 2008b). O professor deve direcionar a leitura para um objetivo específico. Farrell (2003) e Kleiman (1998) nos mostram que no ato da leitura as pessoas normalmente acionam seus conhecimentos prévios sobre o tópico. Uma 22

5 Catia Aparecida Vieira Barboza vez que o aluno identifique o tópico em questão, a compreensão do texto e a solução das tarefas propostas deverão ser suficientes para que ele atinja seu objetivo principal, que não é a tradução do texto em sua íntegra, mas um entendimento global do que está sendo exposto. Tal prática também pode se mostrar produtiva na leitura em língua materna. É importante também, que o professor não se comprometa simplesmente em concluir o conteúdo gramatical proposto para sua disciplina, mas que também se comprometa em tornar esse conteúdo relevante para o aluno em forma de textos em língua estrangeira com os quais eles possam ter contato em sua rotina fora do contexto escolar. Desta forma, a escolha dos textos a serem trabalhados também é outro ponto de extrema importância. Os textos podem atrair a atenção do aluno, por exemplo, ao usarmos um texto contendo instruções para utilizar um aparelho celular ou um equipamento eletrônico como um Mp3 ou TV que sempre estão presentes em seu dia a dia. Também podemos falar de assuntos relativos ao contexto cultural de nosso país o que facilita a compreensão por utilizarmos um conhecimento prévio que o aluno já tem de sua própria cultura. Textos que relatem a cultura de outros países também são interessantes, pois apesar de o aluno não dominar previamente o assunto, ele muitas vezes é despertado através da curiosidade sendo que estes textos podem atuar interdisciplinarmente, colaborando com outras áreas de conhecimento. Outra forma de atrair o interesse do aluno e despertar seu desejo de aprender é fazer com que ele seja mais ativo na aprendizagem, e não somente um receptáculo de conteúdos que ele não sabe para o que servem. Fazer com que ele pesquise e busque informações, que ele apresente ou demonstre o conhecimento que obteve em sua pesquisa, se for um trabalho bem gerenciado, pode dar muitos frutos e motivar a todos. Citamos como exemplo uma professora que, lecionando em uma escola pública da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, pediu a seus alunos que fotografassem exemplos de palavras cognatas e de anglicismos na cidade. Seus alunos buscaram em shopping centers, lojas, ruas, todos os lugares possíveis e ficaram motivados e em sua curiosidade descobriram que usamos muito mais palavras da língua inglesa do que imaginamos e que esta cultura tem grande influência para nós. A mesma professora também promoveu outra atividade na qual os alunos deveriam fazer uma apresentação teatral de suas músicas favoritas. Os alunos não precisavam cantar as músicas, mas deviam fazer uma representação como se fossem os próprios cantores. Com o interesse e a motivação, muitos até cantaram e se interessaram em fazer da apresentação de cada grupo a melhor. A professora filmou seus alunos, e eles se sentiram como se estivessem na TV, podendo assistir suas próprias apresentações. O aprendizado se deu nos exemplos citados, não simplesmente como pura absorção de conteúdo, mas como algo mais significativo e que com certeza trouxe algo a mais para estes alunos. Podemos dizer que houve um trabalho com a cidadania, a cultura, o conhecimento e descoberta de si mesmos e de sua importância no processo de aprendizagem. Considerações Finais As reflexões e teorias apresentadas neste artigo apesar de breves, tiveram como objetivo apresentar uma visão geral do que é a prática pedagógica no ensino da língua inglesa atual- 23

6 Revista Semioses Rio de Janeiro Vol. 01 N. 05 Agosto de 2009 Semestral A linguistica aplicada e o professor de língua inglesa: novas formas de pensar a prática pedagógica mente e do que podemos fazer para que esta prática se torne mais significativa e produtiva. Destacamos aqui a importância de uma formação profissional mais consciente e mais comprometida com a reflexão e a autocrítica, e de incentivar a formação e a procura de espaços para que os profissionais da área possam reciclar e ampliar seus conhecimentos. Apre- sentamos também a pesquisa na área de Linguistica Aplicada como um caminho para esta prática docente e formação ativa e reflexiva. Acreditamos ser importante que as novas diretrizes e parâmetros sejam do conhecimento de todos e que todos busquem novas formas de motivar a si mesmos e a seus alunos, fazendo de cada aula um espaço de troca e descoberta. REFERÊNCIAS: ABRAHÃO, Maria Helena Vieira. Prática de ensino de língua estrangeira: experiências e reflexões. São Paulo: Pontes Editores/ArteLíngua, BARBOZA, Catia Aparecida Vieira (2008a). A leitura instrumental como instrumento para um melhor aproveitamento escolar: reflexões e pontes entre LI e LM. In: Revista Científica Semioses, (Textos Livres) nº 4, Agosto 2008, ISSN X. BARBOZA, Catia Aparecida Vieira (2008b). Estruturas metafóricas e discurso: Um estudo empírico sobre os conceitos e a importância do estudo da língua inglesa no curso supletivo. In: Miranda, Maria Geralda de et alii. Olhares sobre o discurso: Língua, linguagem e cultura. Rio de Janeiro: HP Comunicação Editora, CELANI, Maria Antonieta Alba. Professores e formadores em mudança: relato de um processo de reflexão e transformação da prática docente. São Paulo: Mercado de Letras, COOK, Guy. Applied Linguistics.Oxford: Oxford University Press, FARRELL, Thomas S. C. Planejamento de Atividades de Leitura para Aulas de Idioma. Tradução Itana Summers Medrado. São Paulo: Special Book Services Livraria, (Portfolio SBS 6) HUTCHINSON, Tom; WATERS, Alan. English for Specific Purposes: A learning-centred approach. Cambridge: Cambridge University Press, KLEIMAN, Ângela. Texto e Leitor: Aspectos Cognitivos da Leitura. São Paulo: Pontes,

7 KLEIMAN, Ângela. Oficina de Leitura: Teoria e Prática. São Paulo: Pontes, LOPES, Luiz Paulo da M. Oficina de Linguistica Aplicada: a natureza social e educacional dos processos de ensino/ aprendizagem de línguas. São Paulo: Mercado de Letras, LOPES, Luiz Paulo da M. (org.). Por uma linguistica aplicada indisciplinar. São Paulo: Parábola Editorial, Notas: 1 - Tradução do texto original em inglês; 2 - Aronowitz e Giroux (1991) apud Lopes (2006); 3 - Dutra e Mello. A prática reflexiva na formação inicial e contínua de professores de língua inglesa In: Abrahão, Maria Helena Vieira. Prática de ensino de língua estrangeira: experiências e reflexões. São Paulo: Pontes Editores, ArteLíngua, Nunnam (1998) apud Oliveira (2004). 5 - Dutra e Mello. A prática reflexiva na formação inicial e contínua de professores de língua inglesa In: Abrahão, Maria Helena Vieira. Prática de ensino de língua estrangeira: experiências e reflexões. São Paulo: Pontes Editores, ArteLíngua, Catia Aparecida Vieira Barboza 25

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