SINGULAR E PLURAL: HISTÓRIAS DE VIDA DE ALUNOS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

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1 8 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA Departamento de Educação Campus I SINGULAR E PLURAL: HISTÓRIAS DE VIDA DE ALUNOS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Salvador 2010

2 9 SANDRA REGINA SANTOS DO VALE SINGULAR E PLURAL: HISTÓRIAS DE VIDA DE ALUNOS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Monografia apresentada ao Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia como requisito de aprovação do Curso de Pedagogia com Habilitação nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.. Orientadora: Profª Tânia Dantas Banca Examinadora Profª Tânia Dantas Profº Olivia Matos Profº Rilza Cerqueira SALVADOR 2010

3 10 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho aos alunos da Escola Tempo de Aprender I e II, Ataíde, Anísio, Adimilson, Eduardo, Enéas, José Roberto, Mariano que com suas singularidades me ensinaram muito.

4 11 AGRADECIMENTOS Agradeço este trabalho a todos que participaram da minha educação acadêmica, a minha mãe, mulher de garra e perseverança que com sua humildade e exemplo contribuiu para minha emancipação, as minha filhas Carine e Larissa e a todos meus familiares, que me apoiaram em todos os momentos e aos amigos que interferiram e ajudaram positivamente nos resultados deste trabalho

5 12 RESUMO O presente trabalho é um estudo sobre as narrativas de si desenvolvida numa classe de Educação de Jovens e Adultos, durante a realização do Projeto Pedagógico Conto e Reconto: Conhecendo Machado de Assis. Neste contexto foi solicitado aos estudantes que construíssem a sua autobiografia tendo como eixos norteadores: a sua infância, memórias da escola e histórias de vida. Analisando os relatos dos 8 participantes do projeto pode-se perceber que o recurso das narrativas de si contribuiu para a autoreflexão e oportunizou aos estudantes o reconhecimento de si e da sua realidade histórica, promovendo mudanças na sua realidade. Palavras chave: EJA, Autobiografia, Identidade, Emancipação.

6 13 ABSTRACT This work is a study on the narratives, developed a class of young and adult education, during the completion of the educational project "tale and re-telling: knowing Machado de Assis". In this context was asked a student to construct their autobiography having as guiding axes: his childhood memories of school and life stories. Analyzing the reports of 8 participants of the project can understand that the use of narratives, helped to self reflection and students backed and recognition of their historical reality, promoting changes in their reality. Key word: EJA, autobiography, identity, emancipation.

7 14 Não sou areia onde se desenha um par de asas ou grades diante de uma janela Não sou apenas a pedra que rola nos mares do mundo, em cada praia renascendo outra. Sou orelha encostada na concha da vida, sou construção e desmoronamento, servo e senhor, e sou mistério. A quatro mãos escrevemos o roteiro para o palco de meu tempo: o meu destino e eu. Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a sério. Lya Luft ( 2009)

8 15 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 08 CAPÍTULO 1 2. Escrita de si Vida, narração e autoformação Projeções do eu Reconhecimento do ser e estar do mundo Caminhos a percorrer: (re) construção da identidade Educação e exclusão Educação como prática de liberdade: emancipação 21 CAPÍTULO 2 3. Educação de Jovens e Adultos: direito negado Caminhos e descaminhos na Educação de Jovens e Adultos Novas possibilidades: Programa SESI Educação do Trabalhador Unidade-caso da pesquisa 33 CAPÍTULO 3 4. Relatos, entrelugares: autobiografia 37 CONCLUSÃO 45 REFERÊNCIAS 47 ANEXO 1 ANEXO 2

9 16 INTRODUÇÃO Esta pesquisa surgiu da necessidade de responder a uma inquietação, após a conclusão de um projeto pedagógico intitulado Conto e Reconto: conhecendo Machado de Assis, que ocorreu durante o período de 17 de fevereiro a de 24 abril de 2009, desenvolvido com uma turma de Educação de Jovens e Adultos do Programa SESI Educação do Trabalhador, dentre uma das atividades propostas foi a construção da escrita de si dos alunos envolvidos no projeto. Após uma resistência inicial, os estudantes começaram a construção das autobiografias tendo como norteadores três eixos temáticos: memórias de infância, lembranças da escola e histórias de vida, essa proposta metodológica estava lastreadas numa perspectiva dialógica, reflexiva e emancipatória, esta atividade mobilizou-os tanto que não queriam parar de escrever. Para Souza: A utilização e vinculação das histórias de vida e, mais especificamente, da abordagem biográfica, como uma possibilidade de autoformação, evidenciam-se porque permitem colocar o sujeito numa posição de ator e autor do discurso da vida. ( SOUZA, 2006, p. 39) Nesta perspectiva de autoformação, surgiu um questionamento: Será que a escrita de si contribui para o resgate da identidade e emancipação nos alunos da educação de jovens e adultos? Buscando responder a esse questionamento, a presente pesquisa terá como objetivo geral fazer uma análise das autobiografias dos alunos na perspectiva do reconhecimento da educação como espaço de (re)construção identitária e emancipatória. Tendo como objetivos específicos compreender e conhecer, a

10 17 importância das recordações vivenciadas pelos autores sociais e as contribuições no processo emancipatório através das narrativas autobiográficas. Como a presente pesquisa será um estudo de caso, Gil (2009, p.54) afirma que: o estudo de caso consiste no estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos, de maneira que permite seu amplo e detalhado conhecimento, tarefa praticamente impossível mediante outros delineamentos. Os sujeitos da pesquisa são os atores sociais da educação de jovens e adultos, que está constantemente sendo alvo de debates na esfera política e social, mas poucos são os avanços que ocorrem nesta modalidade da educação. Se a vocação ontologia do homem é a de ser sujeito e não objeto, só poderá desenvolvê-la na medida em que, refletindo sobre suas condições espaços-temporais, introduz-se nelas, de maneira crítica. Quanto mais for levado a refletir sobre sua situacionalidade, sobre seu enraizamento espaço-temporal, mais emergirá dela conscientemente carregado de compromisso com sua realidade, da qual, porque é sujeito não deve ser simples espectador, mas deve intervir cada vez mais. ( FREIRE, 2003, p. 61) As narrativas de si oportunizadas pela autobiografia contribui de forma significativa para a reflexão e autoformação dos sujeitos envolvidos no processo das narrativas para Peréz (2006, p. 181): narrar a vida, escrever sua autobiografia é, do ponto de vista da formação, um exercício de autotransformação: a escrita como uma experiência e como dispositivo de autoconstituição. Esta pesquisa está dividida em três capítulos, no Capítulo 1, enfatizamos os conceitos de narrativas de si, novo paradigma de autoformação, que traz contribuições importantes para a educação, será embasado nos teóricos: Josso (2004, 2008), Souza (2006, 2006), Dantas (2008), Catani (2006) e Delory-Momberger (2008), em Reconhecimento de ser e estar no mundo e Caminhos a percorrer: (re) construção da identidade, discutiremos os novos conceitos de identidade na era da pós-modernidade tendo como referências Hall (2006), Silva ( 2009) e Bauman (2005), já em Educação e

11 18 exclusão, e Educação como prática de liberdade:emancipação os autores que nortearam esses pressupostos foram, Freire (2003,2009), Gentilli ( 1995) e Haddad ( 2007), confrontaremos a relevância da educação na emancipação dos indivíduos. No capítulo 2, será feito um recorte na Educação de Jovens e Adultos: direito negado, breve histórico do EJA, onde contextualizaremos a educação de jovens e adultos no âmbito das políticas públicas e movimentos populares, tendo como pressupostos teóricos: Haddad (2000, 2007), Freire (2003, 2009) e Freire (1995), em Novas possibilidades - Programa SESI Educação do Trabalhador, iremos abordar um programa de educação de jovens e adultos pioneiro no Brasil, finalizaremos este capítulo trazendo unidade-caso da Pesquisa, ou seja, a contextualização da pesquisa, está proposta metodológica está, em Gil (2009) e André ( 2001). No capitulo 3, Relatos, entrelugares: autobiográfia, é feito a análise dos textos autobiográficos construídos pelos alunos durante o Projeto, Conto e reconto: conhecendo Machado de Assis e os conceitos teóricos apresentados durante a pesquisa. Está pesquisa aborda à educação de jovens adultos e as possibilidades, oportunizadas pelas narrativas de si; no contexto de reflexão e auto-formação, espero contribuir para uma analise desse novo recurso pedagógico.

12 19 CAPÍTULO 1 2. ESCRITA DE SI Na história de humanidade encontramos evidências de que o ser humano buscou registrar os fatos cotidianos que ocorriam no seu grupo, a exemplo das pinturas feitas nas cavernas em que foi notado as primeiras formas de representar aspectos sociais, caracterizando com isso o reconhecimento da importância de se deixar marcas ou registrar as primeiras narrativas de si. Para Delory-Momberger (2008 p. 35). o ser humano apropria-se de sua vida e de si mesmo por meio de histórias. Antes de contar essas histórias para comunicá-las aos outros, o que vale só se torna ele mesmo por meio de figurações com as quais representa sua existência. Através dos tempos, o homem vem tentando construir a sua história por meio das narrativas orais e escritas, para representar num espaço-tempo o percurso das suas lembranças e apropriar-se da consciência de si. Este processo de interação entre passado e futuro se interligam e confluem para o que Souza conceituou: A arte de evocar, narrar e de atribuir sentido às experiências como uma estranheza de si permite ao sujeito interpretar suas recordações em suas dimensões. Primeiro, como uma etapa vinculada à formação a partir da singularidade de cada história de vida e, segundo, como um processo de conhecimento de si que a narrativa favorece. (2006, p.62) As narrativas orais e escritas fazem parte do imaginário dos sujeitos e constitui uma importante ferramenta para o reconhecimento da historicidade sócio-cultural que permeia as relações sociais, para Delory-Momberger, cada um representa sua existência segundo sua trajetória e construções diferentes que integram as restrições, os valores, as dinâmicas ou o peso de seu meio socioprofissional (DELORY- MOMBERGER, 2008 p. 38).

13 20 A escrita de si na contemporaneidade sofreu influências dos modelos de narrativas lineares, onde a desconstrução do sujeito e das histórias individuais contestava as narrativas tradicionais.... o modelo dominante que está na base das representações e das práticas biográficas contemporâneas foi amplamente herdado da Europa iluminista e do movimento de pensamento que se desenvolveu na Alemanha... (DELORY- MOMBERGER, 2008, p.39). Neste momento histórico em que as sociedades passavam por momentos de transição, com o declínio da aristocracia e a inserção da burguesia no poder que trazia no seu bojo uma nova concepção de indivíduo independente e responsável por seu destino, capaz de reconhecer-se e mudar a sua história. Nesse contexto, surge a necessidade da escrita de si, a princípio nos moldes religiosos depois seguindo uma vertente mais filosófica, estes dois modelos biográficos vão perpassar durante séculos até ressignificar-se na modernidade. A inspiração religiosa da escrita de si nos moldes da espiritualidade deu-se no século XVII que tinha no seu bojo a ideologia da igreja católica, onde o indivíduo deveria ter um contato mais próximo com Deus. Neste paradigma, os diários íntimos de confissão era um instrumento de fé. Já na vertente filosófica advinda do iluminismo alemão, onde com o dinamismo das sociedades emergentes o individuo passa a ser o dono do seu destino, a escrita de si passa a ser utilizada para interpretações de situações e experiências de si. Segundo Delory-Momberger (2008, p.50) é na forma de consciência de si que define o indivíduo da sociedade burguesa que se situa o modelo biográfico da narrativa de formação. Um dos percussores esse novo movimento de ressignificação da autobiografia foi Philippe Lejune ( 1975) que intitulou pacto autobiográfico, tendo como pressupostos a identidade entre autor, narrador e personagem principal e como base a exploração da subjetividade baseando-se no autoconhecimento.

14 Vida, narração e autoformação Com as novas demandas da sociedade moderna, as histórias de vida foram aos poucos sendo utilizadas nos diversos campos das ciências humanas, onde o sujeito começa a romper as barreiras da hegemonia determinista difundida nos princípios do capitalismo, onde o individuo era apenas mais uma peça na engrenagem social, a escrita de si oportunizou um resgate da individualidade deste sujeito histórico. A biografização como função social desenvolveu-se de maneira convergente, a partir da década de 70, em que a educação foi um dos percussores desse novo movimento de resgate da autobiografia, nas três últimas décadas a escrita de si tem oportunizado vários trabalhos acadêmicos através de autores como Freire (1999): fui alfabetizado no chão do quintal da minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz. Por meio da narrativas de si, Paulo Freire, de forma singular discorre sobre a sua trajetória de vida. Na França, Marie-Christine Josso, em 1988, articulava a sua tese de doutorado a abordagem autobiográfica, onde destaca que a história de vida narrada é, assim, uma mediação do conhecimento de si na sua existencialidade que oferece, para a reflexão do seu autor, oportunidades tomadas de consciência dos vários registros de expressão e de representação de si, assim como sobre as dinâmicas que orientam a sua formação ( JOSSO, 2008, p. 19). A autobiografia por ter uma proposta reflexiva, permite aos atores sociais uma apreensão das alterações sociais e culturais que é por eles vivenciada, proporcionando contribuições para a formação e a autonomia. Em seu trabalho sobre autoformação, Catani afirma a proposta de escrita de relatos autobiográficos dá aos indivíduos a possibilidade de articular, por meio das narrativas que produzem sobre si, as experiências pelas quais passaram adotando a própria trajetória profissional de sentido... (CATANI, 2006, p. 16).

15 Projeções do eu A escrita de si oportuniza ao seu autor não só momentos de recordações, mas ressignificar fatos e acontecimentos para uma melhor apreensão das experiências e aprendizagens decorrentes destas lembranças, contribuído para a consciência de si, como sujeito histórico e social, imprimindo suas marcas na sua própria história e na sua autoformação. A construção autobiográfica, segundo Delory-Momberger (2008, p. 63), inscreve-se numa dinâmica temporal que articula estreitamente três dimensões passado, presente e futuro, ao debruçar para a construção da escrita de si os autores passam por momentos de ir e vir, ao buscar rememorar momentos passados, nos deslocamos para nos projetar no presente e na busca incessante para um domínio do tempo futuro. Essa possibilidade de deslocamento permite ao autor se reconhecer como sujeito de sua autoformação ao longo da vida no decorrer da sua existência, articulando com isso a mediação de suas experiências e uma aprendizagem significativa. Segundo Souza (2006, p.61) de fato, os sujeitos, ao evocarem lembranças e recordações-referências sobre suas experiências significativas, buscam trazer para a sua narrativa a autenticidade relativa à sua escolha e aos episódios que narram através da linguagem articulada. Essa possibilidade de articulação advinda das narrativas de si e a construção de sentido determinam uma tríade que são: a relação com o mundo a qual o autor está inserido, consigo mesmo e a sua experiência formadora. De acordo com Peréz : O ato de narrar sua própria história, mais do que contar uma história sobre si, é um ato de auto conhecimento. Pela narrativa, o sujeito constrói uma cadeia de significantes que estrutura de formas (visível e invisíveis) de representar o mundo e compartilhar a realidade social, ao mesmo tempo em que engendra sonhos, desejos e utopia. ( PEREZ, 2006, p.180)

16 23 Esta proposta metodológica da autobiografia oportuniza aos discentes vivenciar todo o processo de construção e formação como autores sociais, essa experiência de análise de recordações que inferiram referências ao percurso da sua vida e com isso resgatá-la no seu processo de autoformação. Segundo Dantas: Esses relatos, ao serem analisados, vêm favorecendo o redimensionamento das experiências de formação e das trajetórias profissionais e trazem para a prática atual novas maneiras de conduzir o ensino. ( DANTAS, 2008 p. 125). Esse paradigma epistemológico da escrita de si, significa para Josso (2004, p. 40) falar de recordações-referências é dizer, de imediato, que elas são simbólicas do que o autor compreende como elemento constitutivo da sua formação. Nesta perspectiva de biografização e autoformação, onde os atores sociais deixam de serem leitores passivos e passam a serem autores efetivos da sua própria história de vida, refletindo sobre as vivências e inferindo significados, experiências e as contribuições para a sua autoformação. 2.2 Reconhecimento de ser e estar no mundo A identidade é uma construção ou podemos dizer produção social e cultural que nos é (imposta) oportunizada a partir do nascimento, e ao longo do tempo vamos nos apropriando desses simbolismos do qual fomos apresentados, esse interacionismo entre meio e ambiente em que estamos inseridos contribui para nosso processo identitário. Para Silva: O processo de produção da identidade oscila entre dois movimentos: de um lado, estão aqueles processos que tendem a fixar a identidade; do outro, os processos que tendem a subvertê-la e a desestabilizá-la. É um processo semelhante ao que ocorre com os mecanismos discursivos e

17 24 lingüísticos nos quais se sustenta a produção de identidade ( SILVA, 2009, p.84). A identidade muitas vezes é utilizada como meio para fixação e condicionamento, assim como também tentam fazer com a linguagem, mas esses dois simbolismos escapam, por estarem sempre em movimento, influenciando e sendo influenciado pelo meio social e cultural que está envolvido. Segundo Stuart Hall (2006, p.10)... distinguirei três concepções muitos diferentes de identidade, a saber, as concepções de identidade do: a) sujeito do Iluminismo; b)sujeito sociológico e; c)sujeito pós-moderno. Essa caracterização das concepções de identidade descritas por Hall, no sujeito do Iluminismo fundamentava-se na homogeneidade e concepção da pessoa humana como indivíduo totalmente centrado, unificado... Estudos posteriores de Freud que com sua teoria do inconsciente problematizou ainda o conceito de identidade, segundo Hall: A teoria de Freud de que nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente, que funciona de acordo com uma lógica muito diferente daquela da Razão, arrasa o conceito do sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada. (HALL, 2006, p.36). Esse pensamento de Freud (2006) citado por Hall repercutiu ao longo das três ultimas décadas causando profundas discussões, influenciando outros pensadores com Jacques Lacan que investigou processo de identidade a partir da criança, sua teoria validava as relações com o outro nos sistemas simbólicos. Na atualidade, o dinamismo das sociedades e ao crescente desenvolvimento dos aparatos tecnológicos surge o sujeito pós-moderno, neste novo paradigma histórico a

18 25 identidade passa a ser discutida na teoria social e para alguns teóricos como Hall( 2006) para ele a identidade na pós-modernidade é aberta, fragmentadas e contraditória. Numa linha paralela de argumento, Bauman (2005) argumenta que as indeterminações do mundo atual, levam o indivíduo coletores de sensações, colecionadores de experiências, antes éramos compelidos por um universos de valores estáveis com a família, a escola, a igreja e hoje estes valores sociais estão se diluindo, ocorrendo com isso uma desestabilização de papéis. Partindo desses pressupostos podemos perceber que as transposições identitárias, percorrem um longo caminho, até os dias atuais ainda se percebe que a concepção do sujeito Iluminista está presente em algumas classes sociais a exemplo das mais desfavorecidas, que acreditam nas concepções deterministas para a sua situação social. Aos poucos, essas transformações vêm ocorrendo, independentes da consciência dos sujeitos envolvidos no processo. A construção identitária é um processo lento e gradual, que o homem ao longo do tempo vai construindo e desconstruído e essa pluralidade de relações estabelecidas, através do ambiente em que está inserido, tornando-se um ser social e cultural. A identidade torna-se uma convenção socialmente necessária, mas na pósmodernidade, onde as mudanças são constantes e fluidas para Zygmunt Bauman (2005, p.22) a fragilidade é a condição eternamente provisória da identidade... A fragilidade defendida por Bauman concerne ao fato da fluidez das relações humanas e sociais, num mundo cada vez mais globalizado, onde a cultura midiática é o principal meio de informação e formação em que os atores sociais muitas vezes viram coadjuvantes no palco das suas vidas.

19 Caminhos a percorrer: ( re) construção da identidade Como já vimos, a identidade é um conceito complexo e que requer do individuo uma postura reflexiva sobre o seu ser e estar no mundo, fazendo uma análise sobre as influências a que estamos sendo objetos e sobre as nossas influências no meio sócio-cultural do qual fazemos parte. Para Freire (2003, p. 17): somente um ser que é capaz de sair de seu contexto, de distanciar-se dele para ficar com ele; capaz de admirá-lo para, objetivando-o, transformá-lo e, transformando-o, saber-se transformado pela sua própria criação... Nesta perspectiva de distanciar-se oportunizada pelas narrativas de si, os atores sociais vão aos poucos resgatando suas lembranças e memórias, reconhecendo-se e apropriando-se dessas experiências e ressignificando o seu processo identitário. As narrativas de si para Catani et al. (2006, p. 23) oportunizam... suscitar processos de transformação de identidade, de reestruturação das representações ou construções de novas competências... Utilizando a fala de Catani para corroborar para a utilização das narrativas de si na Educação de Jovens e Adultos, segmento da educação que requer uma metodologia mais reflexiva e contextualizada, os autores sociais envolvidos nesse processo, muitas vezes, desconhecem a importância de ser e estar no mundo. Esse empoderamento identitário, vivenciado após as narrativas de si, contribui para a emancipação, a auto-estima, e conseqüentemente há uma aprendizagem mais significativa possibilitando aos educandos uma postura mais autônoma, questionadora e reflexiva alcançando uma transformação individual, que contribuirá para mudanças no seu contexto social.

20 Educação e exclusão O que difere o ser humano dos outros animais é a sua capacidade de aprender, esforçando-se para perceber a realidade a sua volta, reconhecendo e utilizando a sua aprendizagem ao longo da vida. No próprio processo de apreensão do conhecimento há uma consciência que nos impulsiona a compreendermos a nós e ao outro no espaço sócio-histórico em que estamos inseridos. Além disso, o homem e somente o homem é capaz de transcender, de discernir, de separar órbitas existenciais diferentes, de distinguir ser do não ser ; de travar relações incorpóreas. Na capacidade de discernir estará a raiz da consciência de sua temporalidade, obtida precisamente quando atravessando o tempo, de certa forma até então unidimensional, alcança o ontem, reconhece o hoje e descobre o amanhã (FREIRE,2003, p.63). Esse conceito antropológico do homem nos remete à importância da educação, que pode ocorrer em diversos espaços, sejam eles formais e não formais, mas uma forma educacional não pode sobrepujar a outra, quando a educação não formal é a única forma de aprendizagem do individuo ou quando o sujeito devido às necessidades econômicas e sociais que não permitem acesso e manutenção na escola lhes é negado um direito básico à escolarização. No início deste novo século, 13.6% dos brasileiros com 15 anos ou mais são considerados analfabetos e 27,3% freqüentaram menos de quatro anos de escola (INEP, 2001). Esses dados nos confrontam com uma herança de exclusão que vem ao longo de cinco séculos sendo disseminada na educação formal no Brasil. Segundo Haddad ( 2008 ), há dois consensos que podem ser encontrados em qualquer parte deste país e entre qualquer grupo social: a grande importância da educação para a construção de uma sociedade justa, democrática e sustentável; e a insuficiência do sistema público de ensino para garantir, com quantidade e qualidade, este direito.

21 28 A educação formal é constantemente objeto de estudos e discussões em vários segmentos da sociedade, mas os estudos seguem uma linha de verticalização onde os sujeitos que compõe esse universo escolar, alunos e professores, muitas vezes são excluídos desses debates, fórmulas para melhorar o qualidade da educação, muitas vezes não condiz com a realidade enfrentada nas escolas. Essas disparidades entre educação e qualidade que permeiam o espaço escolar no Brasil, onde há uma concentração de renda nas mãos de poucos e a maioria da população vive em condições de pobreza e a única forma de educação formal é a escola pública, que também sofre reflexos dessas desigualdades sociais. Segundo Gentilli: A argumentação é poderosa: após décadas de gestão estatal, o que se encontra é um sistema sofrível em todos os termos, espelho de uma sociedade absurdamente desigual, onde nichos de razoável qualidade canalizam recursos públicos desproporcionais para o atendimento de estratos já bem aquinhoados da sociedade. Além disso farta politicagem deforma o caráter presumivelmente de serviço público,beneficiado setores intermediários do sistema educacional (burocratas), em conluio com o uso político menor de um sistema gigantesco e fundamental para as famílias em geral. Em suma, inépcia, corrupção, clientelismo, favorecimento, mau uso dos recursos públicos, refração e controles democráticos, eis o quadro presente da escola no Brasil, a grosso modo. Por que, então, insistir na receita? Melhor não seria experimentar uma estrutura alternativa a um sistema educacional unicamente reconhecido como fracassado.( GENTILLI, 1995, p.45) Responder a essas perguntas não é tarefa fácil, haja vista o contexto histórico em que a educação foi implementada no Brasil, mas também se não houver uma mudança efetivamente e consistente dos sujeitos que lidam diretamente com o problema: governo, sociedade, professores, alunos, o discurso acima mencionado não será modificado.

22 Educação como prática de liberdade: Emancipação A educação contribui para a produção e reprodução da sociedade na qual ela está inserida, fato incontestável como vimos no texto acima. Passamos por um momento de transição onde os paradigmas tradicionais de educação estão sendo questionados e os atores sociais desse processo são levados a refletir: Mais uma vez os homens, desafiados pela dramaticidade da hora atual, se propõem para si mesmos como problema. Descobrem que pouco sabem de si, do seu posto no cosmo, e se inquietam por saber mais. Estará, alias, no reconhecimento do seu pouco saber de si uma das razões desta procura. Ao se instalarem na quase, senão trágica descoberta do seu pouco saber de si, se fazem problema deles mesmos. Indagam. Respondem, e suas repostas os levam a novas perguntas. ( FREIRE, 2005 p. 31) Essa metodologia dialógica difundida por Paulo Freire ( 1979,1996,2005,2009) que ao longo da sua vida discutiu a relevância da autonomia dos educandos e a postura reflexiva dos atores sociais envolvidos no processo educacional um dos postulados da vasta obra de Freire: Como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha.não posso ensinar o que não sei. Mas, este repito, não é saber de que apenas devo falar e falar com palavras que o vento leva. É saber, pelo contrário, que devo viver concretamente com os educandos. O melhor discurso sobre ele é o exercício de sua prática ( FREIRE, 1996, p. 95). Um dos aspectos importantes dessa fala de Paulo Freire é o discurso humanista, onde os atores sociais desse processo se perpetuam no outro, para Chaves (2006 p. 173)... quando você ensina uma parte de você passa a fazer parte da vida de seu aluno... nesta perspectiva de educação onde se privilegia a alteridade, o diálogo resultará numa vivência educacional mais prazerosa. Essa nova possibilidade proporcionada pela educação dialógica, onde o sujeito busca ampliar sua percepção da realidade local e global, refletindo sobre o seu ser e estar no

23 30 mundo, a fim de buscar meios para intervir em seu grupo e, de modo significativo, promover mudanças para sua condição de vida e de seus semelhantes. É preciso considerar que esse processo, permeado pelo diálogo, interação e troca, valorizando e ressaltando os saberes de cada indivíduo para que impere o respeito e estimulando a reconhecer-se e reconhecer o outro. Esse novo contexto da educação onde os atores sociais tem nome e voz contribui para as transformações e segundo Freire, se antes a transformação social era entendida de forma simplista, fazendo-se com a mudança, primeiro das consciências, como se fosse a consciência, de fato, a transformadora do real, agora a transformação social é percebida como processo histórico em que subjetividade e objetividade se prendem dialeticamente. ( FREIRE, 2009 p.30) Nessa nova concepção problematizadora e libertadora da educação requer do educador uma postura humanista, e reflexiva da sua práxis, ressignificando seus conceitos e trazendo para o espaço escolar os conhecimentos que seus educandos trazem consigo, essa riqueza de experiências e saberes não pode ser excluída ou tratada simplesmente como senso comum. Conscientização e emancipação são os verbos que deveriam nortear toda prática pedagógica, principalmente na educação de jovens e adultos, onde os saberes sociais são muitas vezes preteridos, e elevados os conhecimentos científicos, não relacionando estes diversos saberes com o universo social no qual o individuo está inserido.

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