UMA CORRELAÇÃO ENTRE CONSTRUÇÕES IMPESSOAIS COM O PRONOME ELES NO PB E THEY SINGULAR NO INGLÊS

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1 UMA CORRELAÇÃO ENTRE CONSTRUÇÕES IMPESSOAIS COM O PRONOME ELES NO PB E THEY SINGULAR NO INGLÊS ELIZETE MARIA DE SOUZA 1 Faculdade de Letras, Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 Pampulha Belo Horizonte MG Brasil Resumo. O presente estudo investiga a correlação entre as construções impessoais com o pronome eles no Português Brasileiro (doravante PB) e as construções com o pronome they singular no idioma inglês. Os resultados mostram que em ambas as línguas exite uma tipologia das construções impessoais que estabelece uma hierarquia dessas construções tanto no inglês quanto no Português Brasileiro. Palavras-chave. Construções impessoais. Português Brasileiro. Inglês. Tipologia dos impessoais. Abstract. This study investigates the correlation between impersonal constructions with they pronoun in Brazilian Portuguese (hencefor BP), as well as they singular in English idiom. The results show that in both languages there is an impersonal tipology whitch establishes an hierarchy to these kinds of structures in BP and in English. Keywords. Impersonal constructions. Brazilian Portuguese. English. Impersonal tipology. Introdução Em geral, o pronome eles, no Português Brasileiro (doravante PB), aparece em construções em que seu antecedente pode ser facilmente recuperado no contexto linguístico. (1) Os meninos num dão sossego, cada dia eles aprontam uma com a gente. Neste tipo de construção, existe uma correspondência total de traços phi (traços de gênero, número e pessoa) do pronome e de seu antecedente, i.e., tanto o pronome quanto o antecedente carregam os mesmos traços, como mostra o exemplo em (1): 3ª 1 Este trabalho conta com o apoio do Centro Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e faz parte de um Projeto maior desenvolvido no Núcleo de Pesquisa e Variação (NuPeVar), da Faculdade de Letras da UFMG, sob a orientação da profa. Dra. Jânia Martins Ramos. 1

2 pessoa, masculino, plural. Entretanto, observa-se também no PB contemporâneo a ocorrência do pronome eles em construções cujo antecedente nem sempre apresenta os mesmos traços do pronome. Vejam-se as sentenças (2-5): (2) Na Savassi, eles sempre fazem isso. (3) O povo de Belo Horizonte, eles são muito receptivos. (4) O caro malandro com jeitão de carioca, cê vê que eles pegam uma ginga. (5) Eles chamam de prainha, mas é um areião perto daqui. [SOUZA, 2007] As sentenças (2-5) mostram as diferentes possiblidades de ocorrência do pronome eles no português. Em (2), temos um antecedente feminino, singular. Em (3) e (4), temos um antecedente masculino, porém singular. Já em (5), o pronome eles aparece sem estar relacionado a qualquer antecedente anteriormente expresso no contexto linguístico. De modo geral, as sentenças (2-5) mostram que o único traço comum à todas as sentenças é o traço de pessoa. Buscando comparar dados do Português Brasileiro atual com dados de outras línguas, encontramos no idioma inglês um uso muito semelhante àquele observado no PB. Trata-se de construções impessoais com o pronome they singular, assim chamado por ser um pronome plural que retoma um antecedente singular com sentido plural (6). Há também construções como (7), quando não há um antecedente relacionado ao pronome. (6) In Spain, they eat late. (7) They re knocking on the door. [SIEWIERSKA & PAPASTATHI, 2011: 576] Diante das constatações acima mencionadas, verifica-se, portanto, uma correlação entre as construções impessoais com o pronome eles no PB e they singular no inglês, o que justifica a análise aqui proposta. 1. A noção de impessoalidade O termo impessoal é usado para cobrir uma ampla gama de construções. Do ponto de vista estrutural, a impessoalidade está associada com a ausência de um sujeito canônico. Um sujeito canônico é aquele realizado por um argumento verbal que é completamente referencial e manifesta propriedades morfossintáticas de sujeito (Siewierska, 2008, p tradução nossa). 2 Assim, as construções impessoais incluem: (a) aquelas com sujeito que não é completamente referencial; ou seja, podem sustentar um Caso diferente do nominativo canônico; 2 A canonical subject is to be understood as one that is realized by a verbal argument which is fully referential and manifests the morphosyntactic properties of subjects in a language (SIEWIERSKA, 2008: 116). 2

3 (b) aquelas que apresentam sujeitos sem propriedades canônicas de sujeito; i.e., não são completamente referenciais e geralmente possuem leitura genérica, arbitrária ou específica; (c) um sujeito que não é um argumento verbal - um expletivo; i.e., o sujeito pode ser realizado não como argumento verbal, mas meramente como um lugar preenchido sem manifestar propriedades semânticas ou propriedades referenciais; (d) aquelas sem sujeito. Os casos incluídos na classe (b) vão nos interessar mais diretamente aqui, isto é, os casos em que o DP sujeito possui leitura genérica, arbitrária ou específica. De acordo com Egerland (2003), um único item pode comportar leituras distintas, como é o caso do item man no sueco. (8) Man maste arbeta for att fórtjäna uppehället man must work to earn a living (9) Man arbetade i tre manader for att lösa problemet. Man worked for three months to solve the problem (10) I gar pa eftermiddagem blev man fast anställd. Yesterday afternoon was man permanently employed [EGERLAND, 2003: 1] Em (8), o item man apresenta leitura genérica, jou seja, o sujeito man refere-se a um conjunto quase universal de indivíduos, aproximadamente equivalente a people, everyone ou anyone. Em (9), a referência de tempo é episódica e o sujeito possui uma leitura existencial, ou seja, a expressão man denota um grupo de indivíduos não específico, equivalente a some people ou someone e, portanto, possui leitura arbitrária. Já em (3), o sujeito man equivale a 1ª pessoa do singular I, e por isso apresenta uma leitura específica. Uma distribuição semelhante pode ser observada com relação ao item on no francês. (11) On doit travailler jusqu a l age de 65 ans. (genérico) On must work until the age of 65 years. (12) On a travaillé pendant deux mois pour résoldre le problème. (arbitrário) On has worked for two months to resolve the problem (13) Hier soir on a été congédié. (específico) Yesterday evening ON was fired [EGERLAND, 2003b, apud KRZEK, 2010: 79] 3

4 Em francês, a expressão on em (11) apresenta leitura genérica, podendo ser parafraseada por as pessoas em geral. Em (12), tem-se uma leitura arbitrária, cuja expressão on pode ser parafraseada por algumas pessoas. Por fim, em (13), a expressão on apresenta uma leitura específica, podendo ser parafraseada por nós. A utilização de paráfrases, tal como sugere Egerland (2003), constitui um critério importante para explicar o caráter impessoal das construções em análise aqui. Outra forma de descrever e analisar a distribuição dos casos de leitura genérica e arbitrária do item eles pode ser feita com base na tipologia de impessoais de 3ª pessoal, plural, postulada por Cabredo Hofherr (2003, 2006), assumida por Siewierska e Papastathi (2011). Esta tipologia prevê cinco tipos diferentes de usos de impessoais de 3ª p. pl.: a) the universal, b) corporate, c) vague, d) inferential e e) specific existencial, exemplificadas em (14-18), respectivamente. (14) In Spain, they eat late. (15) They changed the tax laws last year. (16) They ve found his bike in the back of a barn. (17) They ve been frying chips here. (18) They re knocking on the door. [SIEWIERSKA & PAPASTATHI, 2011: 576] Veja-se que os dados em inglês (14-18) parecem manter uma simetria com os dados em português (2-5), apresentados na introdução deste trabalho. Segundo Siewierska e Papastathi (2011, p. 581), Os principais critérios usados no desenvolvimento desta tipologia são: grupo em oposição à identidade individual do referente, especificidade do referente, referência específica de tempo, inclusão do falante entre o arranjo de referentes potenciais e o ancoramento no tempo e na natureza inferencial do evento denotado tradução minha 3 - (SIEWIERSKA & PAPASTATHI, 2011, p. 581). Em linhas gerais, estes critérios mostram que a distribuição das ocorrências do pronome eles está ancorada numa tipologia que explica as ocorrências dessas construções impessoais, tanto no PB quanto no inglês. Vejamos nas sessões subsequentes como as construções impessoais se comportam nas duas línguas. 3 The major criteria used in developing this typology are: group as opposed to individual identity of the referent, specificity of the referent, specific time reference, inclusion of the speaker among the range of potential referents, anchoring in time and the inferential nature of the denoted event (SIEWIERSKA & PAPASTATHI, 2011, p. 581). 4

5 2. As construções impessoais com o pronome eles no PB Conforme vimos anteriormente, o pronome eles recupera antecedentes de diferentes tipos semânticos com muita naturalidade. Vejamos a sentença (19). (19) A galera tava lá desde cedo. Eles tinham saído no sábado. (SOUZA, 2007, p. 115) Este tipo de retomada seria, a priori, não justificada pela falta de compatibilidade de gênero entre o antecedente a galera e o pronome eles. Entretanto, essa aparente incompatibilidade de gênero não impede que este tipo de construção ocorra na língua analisada. Em PB, é também comum o uso do pronome eles em retomadas pronominais com antecedentes sintaticamente marcados como singular, tanto feminino, como em (19), quanto masculino (20). (20) O sertanejo é assim, eles confiam na sua palavra. (Souza, 2007) Temos aqui claramente um antecedente singular, sendo retomado por um pronome plural. As sentenças (19-20) colocam em discussão uma condição que prediz sobre a correspondência de traços entre pronomes e seus antecedentes, i. e.: CONDIÇÃO A. Em geral, os pronomes concordam em gênero e número com seu antecedente. Entretanto, não é isso que os dados mostram. As sentenças (19-20) não satisfazem a Condição A, e isso se justifica por uma razão muito simples: Em (19-20), não há correspondência de traços (sintáticos) de GÊNERO e de NÚMERO entre o pronome e seu antecedente. Porém, existe uma compatibilidade de traços SEMÂNTICOS, o que permite a ocorrência dessas sentenças na língua portuguesa A partir desta constatação, torna-se mais fácil compreender a ampla abrangência da tipologia dos impessoais proposta por Cabredo Holfher (2003), já explicitada. Vejamos, a seguir, algumas considerações sobre as construções impessoais com o pronome they singular, no inglês. 3. As construções impessoais com o pronome they singular no inglês. No inglês, um uso semelhante do pronome they em construções impessoais foi observado há tempos, trata-se do pronome they singular, assim chamado por ser um pronome plural que retoma uma forma singular com sentido plural. Nessa língua, os genéricos são apontados como porta de entrada para o uso de they singular, o que nos 5

6 mostra que os genéricos têm um papel fundamental para a ocorrência das construções impessoais não só no inglês, mas também no português. 3.1 Ascenção e uso do pronome they singular no inglês O uso do pronome they singular é identificado como bastante antigo no idioma inglês e sua ocorrência tem sido apontada como natural tanto na língua falada quanto na língua escrita. Sua entrada na língua teria ocorrido no Middle English, por volta do final do século XIV, período em que o inglês tem alterados os estatutos pronominais; ou seja, de acordo com a literatura a datação do aparecimento de they singular no inglês, por volta dos séculos XIV e XV, corresponde exatamente à alteração do inglês para uma língua de sujeito não nulo. De acordo com Warenda (1999), a ambiguidade proporcionada pelo uso do pronome he em contextos genéricos, associada às vantagens de se ter um pronome singular genérico verdadeiro, tomado como um gênero neutro, serviu como porta de entrada para o uso de they singular no inglês. Entretanto, segunda Warenda (1999, p. 103), alguns experimentos conduzidos por Janet Hyde mostraram que ao ouvir he, as pessoas não pensam no gênero neutro; ao contrário, é no masculino que as pessoas pensam. Quando os falantes precisam de um pronome de gênero não específico, eles usam o pronome they e não he. Por causa dessa postura dos falantes ingleses, por volta da metade do séc. XVIII, mais precisamente em 1850, o Parlamento Britânico decretou uma lei determinando o uso de he como um pronome genérico. De acordo com os gramáticos, o uso de they seria uma violação à regra de concordância que, em geral, estabelece que um antecedente como everybody não deve ser substituído por um pronome como they. Mais precisamente no século XVIII, houve todo um trabalho para que as pessoas se sentissem culpadas ao quebrar a regra de concordância ao usar they para se referirem a um antecedente de gênero não específico, com em (21-22). Mas isso não impediu que as duas formas fossem usadas em contextos semelhantes: (21) a. Everyone takes their time finding a seat. b. Everyone takes his time finding a seat. (22) a. If a student is getting a low grade, they might want to go talk to the teacher. b. Is a student is getting a low grade, he might want to go talk to the teacher. Nos exemplos acima, they é usado como um pronome cujo padrão estaria em desacordo com o estatuto gramaticalmente singular do antecedente. Mas, como se vê, os antecedentes everyone e an student são retomados naturalmente tanto pelo pronome they quanto pelo pronome he. Os dados (21a) e (22a) podem ser tomados como evidências de uso do pronome they genérico na língua. A observação dessas construções com they no inglês levaram estudiosos como Siewierska e Papastathi (2011) 6

7 a estabelecer para o inglês uma tipologia dos impessoais, com base na Tipolgia de Cabredo Hofher (2003), sendo possível identificar uma hierarquia para estas construções impessoais. Considerações finais A comparação entre diferentes línguas consubistancia um importante meio de investigação do comportamento das línguas naturais. O estudo aqui resumidamente apresentado mostra que existe uma estreita correlação entre as construções impessoais com o pronome eles no PB e o pronome they singular no inglês. As construções analisadas mostram que existe uma tipologia dos impessoais que estabelece uma hierarquia de impessoalidade que se ancora numa relação marcada pela relação grupo em oposição à identidade individual do referente, especificidade do referente, referência específica de tempo, inclusão do falante entre o arranjo de referentes potenciais, etc. O estudo mostra, ainda, que o comportamento das construções impessoais identificado no português e no inglês parece se repetir em outras línguas, tais como o francês, e o alemão, apontando novas direções de estudos. Referências EGERLAND, V. Impersonal Man and Aspect in Swedish. University of Venice. Working Papers in Linguistics, v b. SIEWIERSKA, A. Introduction: impersonalization from a subject-centered vs. agent-centered perspective. Transaction of Philological Society. Special issue Impersonal Constuctions in Grammatical Theory : 1-23, SOUZA, E. M. (2007) O uso do pronome eles como recurso de indeterminação do sujeito. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras, UFMG, Belo Horizonte. WARENDA, A. (1999). They by Amy Warenda. Ms. 7

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