A DETECÇÃO DA SEROPOSITIVIDADE PARA O VIH NA GRAVIDEZ

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1 1 A DETECÇÃO DA SEROPOSITIVIDADE PARA O VIH NA GRAVIDEZ Autores: Graça Rocha 1, Lúcia Pinho 2, Luís Marques 2, Marta Brinca 2, Rosa Afonso 2, Paulo Correia 2, Eulália Afonso 2, Isabel Ramos 2. Departamento de Medicina Materno-Fetal, Genética e Reprodução dos Hospitais da Universidade de Coimbra (Director: Professor Doutor Agostinho Almeida Santos) 1-Consulta de Doenças Infecciosas Hospital Pediátrico de Coimbra 2- Maternidade Dr. Daniel de Matos ( Serviço de Obstetrícia: Directora - Drª Annette d Almeida e Serviço de Neonatologia: Directora - Drª Rosa Ramalho). INTRODUÇÃO Nos últimos anos, nos países desenvolvidos, praticamente todos os casos de infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) na criança ocorrem por transmissão materna. A identificação das mulheres com infecção VIH, antes ou durante a gravidez, é indispensável, para que seja iniciada terapêutica à mulher e depois à criança para prevenir a transmissão perinatal. Assim, a determinação dos anticorpos para o VIH deve ser proposta, tanto nas consultas pré-concepcionais, como a todas as grávidas. A identificação precoce das mulheres infectadas é crucial para a sua saúde e a das crianças. A detecção no período ante-natal da infecção materna possibilita a adopção das seguintes medidas: 1-ínicio da terapêutica anti-retroviral e da profilaxia das infecções oportunistas na grávida; 2- profilaxia com zidovudina durante o parto e administração à criança nas primeiras 6 semanas de vida, para reduzir o risco de transmissão vertical; 3- nos Países, como em Portugal, onde existem alternativas à amamentação, as mulheres infectadas não devem amamentar; 4- ínicio nas crianças às 6 semanas de vida da profilaxia para o Pneumocystis carinii;

2 2 5- detecção de infecção na criança, para que a terapêutica antiretrovírica seja iniciada precocemente, 6- pesquisa da infecção no companheiro e acompanhamento, se estiver infectado, e ensino de métodos de prevenção da transmissão. O rastreio da infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) deve ser efectuado em todas as grávidas. O risco de transmissão vertical numa grávida infectada e não detectada é de aproximadamente 25%. Esta taxa pode descer a menos de 2% quando é efectuada terapêutica profilática com anti-retrovíricos ante-natal, intra-parto e à criança. OBJECTIVO: Os autores apresentam um trabalho retrospectivo sobre as mulheres nas quais a infecção pelo VIH foi detectada pelo teste de rastreio efectuado durante a gravidez. MATERIAL: Em Coimbra, na Maternidade Daniel de Matos, foram seguidas nos últimos sete anos 76 grávidas infectadas pelo VIH. Em 35 (46%) o diagnóstico de seropositividade foi efectuado na gravidez. MOMENTO DO DIAGNÓSTICO 54% 46% Durante gravidez Prévio à gravidez

3 3 RESULTADOS: Destas 35 grávidas 17 (49%) eram Nuliparas e apresentavam uma idade média de 26,2 anos (min. 15 anos e máx. 39 anos). Em 31 dos casos a infecção era pelo VIH 1 e em 4 pelo VIH2. TIPO DE INFECÇÃO 4 31 VIH 1 VIH 2 VIA DE INFECÇÃO VIA TRANSMISSÃO Nº (%) SEXUAL 21 (60%) TOXICODEPÊNCIA 11 (34,4%) TRANSFUSÃO SANGUÍNEA 3 (8,6%) A via de infecção foi em 21 casos(60%) sexual, em 11 a toxicodependência e em 3 por transfusão sanguínea. Em 15 (43%) a detecção foi feita na Consulta de Gravidez dos Centros de Saúde. ESTADO DO PARCEIRO ESTADO Nº (%) NÃO INFECTADO 17 (49%) INFECTADO 14 (40%) DESCONHECIDO 4 (11%)

4 4 Em 17 casos (49%) o companheiro não estava infectado, 14 (40%) estavam infectados, sendo a sua seropositividade detectada na maioria após o conhecimento na mulher e em 4 era desconhecido o seu estado EVOLUÇÃO DA GESTAÇÃO EVOLUÇÃO Nº DE CASOS Interrupção médica de gravidez 5 Abortamento espontâneo 1 Outra instituição 1 Abandono consulta 1 Consulta externa 27 Parto termo Gestação curso Parto pré-termo Destas 35 grávidas em 5 foi realizada interrupção terapêutica da gravidez, uma teve um abortamento espontâneo, uma outra abandonou a consulta e outra foi seguida noutro Hospital. Das 27 restantes 4 estão em curso, 21 foram gestações de termo e em dois casos ocorreu prematuridade respectivamente com 27 semanas (gemelar) e 33 semanas de gestação Resultados perinatais: Dos 23 partos, 16 foram cesariana. Dos 24 Recém-Nascidos: 2 Mortes Fetais( 1 dos fetos da gravidez gemelar de 27 semanas e 1 outro de 33 semanas toxicodependente com caso social grave). 22 Nados Vivos: 2 dos quais foram prematuros( 1 da gravidez gemelar de 27 semanas e outro de 33 semanas). Todas as crianças são seguidas no Hospital Pediátrico de Coimbra com excepção de 2 que foram transferidas para centros de acolhimento fora da zona centro.

5 5 Das vinte mães 8 eram de ascendência Africana e 4 estavam infectadas pelo VIH 2 (Guiné), 10 eram primíparas e em 10 o pai não estava infectado. Apresentaram durante a gravidez : CO-INFECÇÕES SISTÉMICAS E GENITAIS CO-INFECÇÃO Nº DE CASOS VHC 4 VHB 10 HPV 3 HERPES GENITAL 1 GERMENS VAGINAIS Candida albicans Ureaplasma Chlamydea Apresentavam como coinfecções 4 VHC,10 VHB, 3 HPV macroscópicos,1com Herpes genital primário e outros germens(8 Candidas albicans, 5Clamydia, 7Ureaplasma) INTERCORRÊNCIAS AMEAÇA DE PARTO PRÉ-TERMO AMEAÇA DE ABORTO INFECÇÃO URINÁRIA (E. Coli) 2 casos 2 casos 1 caso Registaram-se como intercorrências: 2 Ameaças de Parto Prematuro 2 Ameaças de Aborto 1 infecção urinária por E coli

6 6 ESTADO IMUNOLÓGICO E CARGA VIRAL Células TCD4+ Carga viral sanguínea 500/mm3 10 casos >200 e <500/mm /mm cópias/ml 6 >1000 e <10000 cópias/ml /ml 5 desconhecida 6 Das 20 mulheres 6 apresentavam carga vírica <1000 ; 3 >1000 e <10000; 5 >10000 ( 1 com ) e 6 não fizeram(4 eram VIH 2). As populações linfocitárias 10 apresentavam CD4 K500, 8 eram >200 mas <500 e 2 <200 Todas fizeram profilaxia AZT/terapêutica durante a gravidez, mas uma não fez intra-parto por o parto ter ocorrido na ambulância. Os 20 recém-nascidos fizeram AZT durante 6 semanas: O peso médio de nascimento foi de 3220 gr (min 850 gr e máx 3900gr). O recém-nascido nascido na ambulância, filho de pais toxicodependentes, veio a falecer aos 2 meses de idade (tinha 2 testes de pesquisa de DNA do VIH negativos) de causa não esclarecida 19 têm idade actual entre os 7anos e os 10 meses: não estão infectados normal crescimento e desenvolvimento vivem com os pais

7 7 Comentários: O rastreio universal na gravidez da infecção pelo VIH é imprescindível para diminuir a infecção pelo VIH na criança. Permite ainda a detecção de infecção nos companheiros e a instituição de medidas de profilaxia nos não infectados. A gravidade de um diagnóstico de seropositividade numa grávida exige que esta seja seguida por uma equipa multidisciplinar que lhe proporcione a ela e à sua família apoio médico, social e psicológico. Bibliografia Connor EM, Sperling RS, GelberR. et al. Reduction of maternal infant transmission of human immunodeficiency virus type 1 with Zidovudine treatment. Pediatric AIDS Clinical Trials Group Protocol 076 Study Group. N Eng J Med. 1994; 331: European Mode of Delivery Collaboration: Elective Caesarean section versus vaginal delivery in prevention of vertical HIV1 transmission: A randomised clinical trial. Lancet 1999;353: Public Health Service Task Force Recommendations for use of Antiretroviral Drugs in Pregnant HIV-1-infected Women for Maternal Health and Interventions to reduce Perinatal HIV-1 Transmission in the United States, August30,2002.

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