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1 wilbett oliveira partes EDITORA EXPRESSO EDITORA

2 wilbett oliveira partes 1ª edição 2003

3 Copyright by 2004 Wilbett Rodrigues de Oliveira projeto editorial: Wilbett Oliveira Capa: Amour et psique, Gérard Diagramação: Elias Carolino Impressão Gráfica Araçá Contatos: Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia autoridade por escrito do editor. 048p Oliveira, Wilbett Rodrigues de partes / Wilbett Rodrigues de. - São Mateus : Editora da Facet, p. 1. Poesia brasileira I. Título. CDD CDU (81)-1 Impresso no Brasil Printed in Brazil Editora da Factef Teixeira de Freitas, BA

4 ALGUMAS PALAVRAS Sou graduado em Letras (CEUNES/UFES) e pós-graduado em Literatura Brasileira (UNIVERSO, RJ). Comecei a escrever desde cedo. Recordo-me que nas séries iniciais recitava textos de Vinicius, Drummond, Bilac. Acredito que a minha inclinação para a poesia começara aí. Publiquei meus primeiro poemas - Os Anjos Proscritos e Outros Poemas - em parceria com Valdo Motta, com quem aprendi (e tenho aprendido) muito. Em seguida vieram Facho (1980) e Sombras e Sinais (1982) livros que trazem poemas voltados para uma reflexão do ser e estar-no-mundo: a eterna díade homem versus mundo. Em Logos (1995), prevalece ainda o jogo de palavras e a tônica volta-se mais para o eu e os conflitos existenciais, além da veneração à deusa-poesia. Em Nominal (2003), superei um pouco as brincadeiras que podemos fazer com as palavras. O jogo, a luta com o nome não é senão uma busca pelo detalhe ou atalho/ para o eterno/ ou mesmo o norte,/ ou o ermo/ o erro/ a outra margem. O falar diz mais que o escrever : a busca pela palavra absoluta que revele a procura, o vivido e o dividido, diria Valdo Motta. No mais, vou escrevivendo... Talvez.

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6 PREFÁCIO O poeta é um ser alado e bendito, amaldiçoado pela dúvida, cujo afã é o verso e a finalidade o poema. Artur da Távola Sem dúvida nenhuma, encontramonos diante de um Eu poético privilegiado pela agudeza da observação do mundo que o cerca. A poesia metafísica de Wilbett brinca- esconde na profundeza dos conceitos espalhados em versos brancos, cuja sintonia entreabre os nossos lábios em seguida exclamações de admiração pela beleza do todo. A transcendência do que é dito aflora a cada instante da leitura, e em nuanças de provocação, incita o leitor a participar da essência da poesia o que o torna um infinito deleite de reflexões. Assim, caminhar pelas veredas de seus versos é caminha por sobre a filosofia mais pura e mais moderna tão admirável e tão simplesmente tecida com palavras da atualidade, por vezes com requintes de (re)criação do vocabulário. Se a deusa-poesia é soberana e exigente, o autor de Partes cumpre a sua missão de escolhido, disparando a inspiração para o mais recôndito território de sua musa, e, no embebedar de notáveis, ao mesmo tempo que a oculta/revela, num lindo jogo de palavras e conceitos, Por isso, não há, realmente, o que salientar, pois a beleza do todo se revela em múltiplas cadeias de um corrente encantatória. São

7 pedacinhos, são partes, são relíquias! Sagradas relíquias de um ser inspirado, que vai tecendo aqui e ali a teiamor de instantes colhidos na solidão, no gozo, na tentação, na impressão do vôo mais puro. A construção poética se faz no garimpo das pedras puras, dispersas no vazio da inconsistência existencial de um ser dilacerado, que anseia pela condição de oráculo do discurso mais belo que a literatura grega nos legou: a poesia. E ele o consegue! A singularidade desse discurso reside na poemática do desejo; na caça ao belo; na invenção; na diluição de um homo modernus e, ao mesmo tempo, tão marcadamente poeta de um poetar distante do materialismo modernista. As coisas ditas nesse magnífico livro são tão belamente ditas, que só nos restas dizer: estamos diante de uma obra de arte. Sem mais explicações, postos que o inexplicável reside na poesia: De per si! Maria Eli de Queiroz Romancista, poeta, trovadora, jornalista e mestra em Literatura Brasileira (UFRJ)

8 PARTES partes de mim insinuam-se enunciam-se nos espelhos não trago nenhuma conclusão sou feito mesmo é de incertezas e só o estranho me inquieta

9 TENTAÇÃO um fio na boca melíflua de uma aranha um rio na pele lisa de uma canoa e um poeta a senti-lo sem nunca tocá-lo sem nunca tê-lo ao tato

10 VÔO afogar-se no gozo perpétuo de afrodite consumir-se num inferno de dante esboçar um vôo ícaro e entregar-se a um amor pleno

11 TEIAMOR o amor é uma teia que nos rende se nus enredamos em nós o amor é uma tenda que nus atende se nus atentamos a sós

12 GOZO quando estamos a sós cios quem-mão-nus quando estames a sóis fios semêm-amos

13 ESCORPIÃO deserto em seu corpo porto e pântano e cravo-lhe um veneno letal inevitável condição de estar no mundo

14 GARIMPO garimpo seu corpo inexorável lancelot lançando-se a um amor sem fim indecifrável caminho por onde loucos se conduzem e se tornam escravos vassalos inominados aventureiros

15 ORÁCULO buscar a res-posta o posto mais alto o poço mais fundo para que não matem o nosso discurso

16 LABIRINTO perder-se no labirinto de seus lábios é entrar num jogo em que não nos pode faltar o fio de ariadne

17 PERDIÇÃO se me demoro no limiar do amor é melhor resignar-me morrer de medo ou esconder-me num verso a sorver de um amor que me consome

18 SOLIDÃO num porão uma alma à lama num roupão um corpo à cama

19 INSTANTES essa coisa de não ter mais saco e ser assim tão seco e não ser o lume e não ter um rumo e ter um caso não reduz ninguém ao ermo o cerne (ou o sumo) se esconde sempre em cada um

20 DE PER SI...em nomes e nomes nisso se resume a vida de homem? Valdo Motta ser liame consistir-se em instantes consumir-se em nomes e numes em nomes em números em nomos em númenos e nomes e numes e nomes

21 CONDIÇÃO teio pela terra e larvo meu poema sou meu próprio labirinto e que teseu nenhum se arrisque a me desafiar

22 AS COUSAS QUE SOMOS somos uma cousa só por uma causa diante de todos os casos

23 DILUIÇÃO um incerto paira em mim naquilo que mais espero um inserto pausa em mim naquilo que mais revelo um inverno passa em mim naquilo de que mais deserto

24 A CA(L)ÇADA um pedaço de pão à borda da calçada e a cal a comer-lhe a borda um menino à borda da calçada e a fome a bordo a roer-lhe

25 HOMO MODERNUS ser como esfinge num silêncio profundo levar a vida (simulacro das coisas) porque vale quanto pesa

26 IMPRESSÃO meros seres reles ser vis que dando-se sendo-se indo-se im-pressionam-se

27 VAZIO sinto que estou vazio prenhe de nada num sentimento que esvazia prende e mata

28 SECA a agrestividade seca a alma-lâmina do homem bicho pedra ê o sol se põe no homem de repentes em repentes afinadas fontes brutas pedras então singular condição outras heras

29 VIVER sob o inexorável silêncio das palavras o substancial soba deplorável situação das coisas a cena circunstancial

30 NÓS ah peixes de nós em que espadas espinhos agulhas e enguias o último signo ah feixes de nós em que chamas faíscas e labaredas o último lenho ah seixos de nós em que mármores granizos em gessos e em pedras a última construção

31 INVENÇÃO in vento versos sob o ver me verve em canto só o ver-me sob o verso

32 INCONSISTÊNCIA as cousas esgotam-se em coisas que são: casuais é preciso a-tirar a lição das coisas os casos desgastam-se em cenas que são: causais é preciso atiçar o fogo da paixão

33 CENA nu desgrafite da palavra um poesia vadia nudez grafite da má lavra uma vadia poesia

34 METADESTINO o tempo refina os olhos e nos dilacera a íris um inferno de dante ainda nos queima o horizonte

35 IN-SÔNIA perdi-me à noite sem ter-me dado a noite

36 O CAOS E A TEIA transito entre o caos sou a teia e ateio palavras inquietas invento a barbárie sou o miolo do pão pra fome que ainda resta

37 FLUORESCER fluoresço-me em sua íris sou o brilho da vez pausando em tuas varandas

38 ÓRBITA teus olhos gris sei-os entumecidos em minha órbita tua palavra giz sêmem-te germinando aéreos frutos

39 INDAGAÇÃO se a vida é frágil pra que discutir o indizível re-velar o óbvio o ócio, o óbice o óbito e o obstante?

40 AVISO não insista em me ensinar o caminho que per-sigo a porta o veio ou o viés onde eu venho não lhe importa

41 DESEJO como um cupim rói as vértebras deste tempo devoro seu fetiche como um cupim entra os poros, lento penetro seu corpo por dentro em sendo um cupim cumpro o meu desejo de carpir esta lavoura sem fim

42 PREDIÇÃO nos cais dos homens os mares na mesa dos homens os bares no caos dos homens os males no caso dos homens os lares

43 POEMÁTICA as fezes dos deuses o ethos os feudos o céu dos servos o logos os féis a verve do versos o viço o vício e os vates

44 EIS-ME quanto mais me dizem que sou isso e aquilo é que me detôo me desoutro me transoutro me re-faço trans-passo o mesmo eu

45 A PROCURA ETERNA esparramar as coisas remover as cinzas não nos conduz ao esteio da vida à eterna procura

46 INSISTÊNCIA ser via viver aos trapos e barrancos (ou em barracos) arrancar o sustento da vida à margem da miopia dessa gente

47 SINGULARIDADE ser assim singular como a outra margem

48 ENTRE UMA E OUTRA COISA entre o meu ir e o meu penar traços e riscos estradas distintas entre o meu vir e o meu voltar canções e vinhos vindas e vidas

49 SUMÁRIO algumas palavras, 5 prefácio, 7 partes, 9 tentação, 10 vôo, 11 teiamor, 12 gozo, 13 escorpião, 14 garimpo, 15 oráculo, 16 labirinto, 17 perdição, 18 solidão, 19 instantes, 20 de per si, 21 condição, 22 as cousas que somos, 23 diluição, 24 a cal(l) çada, 25 homo modernus, 26 impressão, 27 vazio, 28 seca, 29 viver, 30 nós, 31 invenção, 32 inconsistência, 33 cena, 34 metadestino, 35 insônia, 36 o caos e a teia, 37 fluorescer, 38 órbita, 39 indagação, 40 aviso, 41 desejo, 42 predição, 43 poemática, 44 eis-me, 45 a procura eterna, 46 insistência, 47 singularidade, 48 entre uma e outra coisa, 49

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