COMENTÁRIOS DAS PROVAS DE DIREITO PENAL DO TRE PB Autor: Dicler Forestieri Ferreira

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1 Saudações aos amigos concurseiros que realizaram a prova do TRE PB. Analisei as questões de Direito Penal (área judiciária e área administrativa) e estou disponibilizando o comentário das mesmas. Na minha humilde opinião, as questões seguiram o nível normalmente cobrado pela Fundação Carlos Chagas (FCC) e não apresentaram muita dificuldade. Não creio que existam questões de Direito Penal passíveis de recursos. Abaixo seguem as questões e os comentários. Analista Judiciário (área judiciária) 45. De acordo com o Código Penal, quando o agente mediante uma só ação culposa pratica dois ou mais crimes não idênticos e não resultantes de desígnios autônomos, configura se hipótese de concurso (A) material de crimes e aplica se a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um terço. (B) material de crimes e aplicam se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. (C) formal de crimes e aplicam se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. (D) material de crimes e aplica se a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade. (E) formal de crimes e aplica se a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade. Concurso formal Art. 70 Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplica se lhe a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade. As penas aplicam se, entretanto, cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e os crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos, consoante o disposto no artigo anterior. Parágrafo único Não poderá a pena exceder a que seria cabível pela regra do art. 69 deste Código. Concurso material Art. 69 Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. No caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de detenção, executa se primeiro aquela. 1º Na hipótese deste artigo, quando ao agente tiver sido aplicada pena privativa de liberdade, não suspensa, por um dos crimes, para os demais será incabível a substituição de que trata o art. 44 deste Código. 2º Quando forem aplicadas penas restritivas de direitos, o condenado cumprirá simultaneamente as que forem compatíveis entre si e sucessivamente as demais. 1

2 Questão que visava confundir o candidato com os conceitos de concurso formal e concurso material de crimes. Porém, facilmente resolvida pela literalidade do art. 70 do CP. GABARITO: E 46. No peculato culposo, a reparação do dano (A) se precede à sentença irrecorrível, reduz de um terço até a metade a pena imposta. (B) se precede ao recebimento da denuncia, extingue a punibilidade e se lhe é posterior, reduz de um terço a pena imposta. (C) se precede à sentença irrecorrível, extingue a punibilidade e se lhe é posterior, reduz de metade a pena imposta. (D) não extinguirá, em nenhuma hipótese, a punibilidade, uma vez que para a caracterização do tipo penal do peculato é irrelevante a efetiva obtenção da vantagem ilícita. (E) se precede ao recebimento da denuncia, reduz de um terço até a metade a pena imposta. Art. 312 [...]. Peculato culposo 2º Se o funcionário concorre culposamente para o crime de outrem: Pena detenção, de três meses a um ano. 3º No caso do parágrafo anterior, a reparação do dano, se precede à sentença irrecorrível, extingue a punibilidade; se lhe é posterior, reduz de metade a pena imposta. Conforme o art. 312 do CP, existem 3 tipos de peculato: peculato doloso, peculato culposo e peculato mediante erro de outrem. Podemos observar pelo dispositivo legal reproduzido acima que, quando no peculato culposo ocorre a reparação do dano antes da sentença irrecorrível, a punibilidade fica extinta. Porém, se ocorre após a sentença irrecorrível, a pena é diminuída da metade. Enfim, vemos que a questão é a reprodução literal do dispositivo mencionado. GABARITO: C 47. Mário, policial militar, em uma diligência de rotina encontra João, foragido da Justiça. Quando descobre tratar de criminoso foragido, Mário exige de João a quantia de R$ ,00 para não o conduzir à prisão. Pedro, policial militar parceiro de Mário, vê a cena e prende Mário e João, antes que João entregasse o dinheiro exigido para Mário. Neste caso, Mário cometeu crime de (A) corrupção ativa consumada. (B) concussão consumada. (C) concussão tentada. (D) corrupção ativa tentada. (E) condescendência criminosa. 2

3 Concussão Art. 316 Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi la, mas em razão dela, vantagem indevida: Pena reclusão, de dois a oito anos, e multa. A concussão está prevista no art. 316 do CP e tem como característica o fato de pertencer à classe dos crimes formais. Os crimes formais, diferentemente dos crimes materiais, não necessitam da ocorrência do resultado pretendido para a caracterização da consumação. Dessa forma, o fato de Mario receber ou não a quantia exigida (vantagem indevida) não é relevante para a consumação do crime, que se consumou com o simples ato de exigir. GABARITO: B Analista Judiciário (área administrativa) 42. A respeito da Lei penal no tempo e no espaço considere: I. Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. II. A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado. III. Para os efeitos penais, consideram se como extensão do território nacional as embarcações brasileiras de natureza pública, privada ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem. IV. Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro, os crimes contra o patrimônio ou a fé pública de autarquia ou fundação instituída pelo Poder Público. De acordo com o Código Penal brasileiro, está correto o que consta APENAS em: (A) II, III e IV. (B) I, II e III. (C) I, II e IV. (D) III e IV. (E) I e II. Os conceitos cobrados nessa questão são comumente abordados pela FCC e, para a resolução da questão, analisaremos cada afirmativa de forma individualizada. I. Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. Lei penal no tempo Art. 2º Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. Parágrafo único A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado. 3

4 Afirmativa correta representando a literalidade do art. 2 o do CP. II. A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado. Afirmativa correta representando a literalidade do parágrafo único do art. 2 o. III. Para os efeitos penais, consideram se como extensão do território nacional as embarcações brasileiras de natureza pública, privada ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem. O conceito de territorialidade é encontrado no artigo 5 o do Código Penal. Territorialidade Art. 5º Aplica se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido no território nacional. 1º Para os efeitos penais, consideram se como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras, de natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem, bem como as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, que se achem, respectivamente, no espaço aéreo correspondente ou em alto mar. 2º É também aplicável a lei brasileira aos crimes praticados a bordo de aeronaves ou embarcações estrangeiras de propriedade privada, achando se aquelas em pouso no território nacional ou em vôo no espaço aéreo correspondente, e estas em porto ou mar territorial do Brasil. Vejamos a tabela abaixo para sintetizar o assunto. AERONAVE OU EMBARCAÇÃO PÚBLICA OU A SERVIÇO DO GOVERNO MERCANTE OU DE PROPRIEDADE PRIVADA ESPAÇO AÉREO, PORTO, AEROPORTO OU MAR TERRITORIAL BRASILEIRO LEI BRASILEIRA LEI BRASILEIRA ESPAÇO AÉREO, PORTO, AEROPORTO OU MAR TERRITORIAL ESTRANGEIRO LEI BRASILEIRA LEI ESTRANGEIRA A afirmativa está errada, pois as embarcações privadas, se estiverem em território estrangeiro, não são consideradas extensão do território nacional para a lei penal. IV. Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro, os crimes contra o patrimônio ou a fé pública de autarquia ou fundação instituída pelo Poder Público. Art. 7º Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: I os crimes: a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da República; b) contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, de Estado, de Território, de Município, de empresa pública, sociedade de economia mista, autarquia ou fundação instituída pelo Poder Público; c) contra a administração pública, por quem está a seu serviço; d) de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil; II [...]. 4

5 Afirmativa correta representando a literalidade do parágrafo único do art. 7 o. GABARITO: C 43. Mário, valendo se da condição de funcionário público, cogita em subtrair cinco computadores de propriedade do Estado que se localizam na repartição pública que trabalha. Para ajudá lo na subtração convida Douglas, advogado da empresa particular GIGA e seu amigo intimo. Neste caso, considerando que Mário e Douglas subtraíram somente dois computadores, (A) apenas Mário responderá pela prática de peculato tentado, uma vez que Douglas não era funcionário público não se comunicando circunstância pessoal. (B) apenas Mário responderá pela prática de peculato consumado, uma vez que Douglas não era funcionário público não se comunicando circunstância pessoal. (C) eles responderão pela prática de crime de peculato tentado em concurso de pessoas. (D) eles responderão pela prática de crime de peculato consumado em concurso de pessoas. (E) apenas Mário responderá pela prática de concussão consumada, uma vez que Douglas não era funcionário público não se comunicando circunstância pessoal. Veremos na questão seguinte que os atos praticados na fase de cogitação não são puníveis. Portanto, o fato de pensar em subtrair cinco e efetivamente subtrair dois computadores em nada muda o crime de peculato (art. 312 do CP). Peculato Art. 312 Apropriar se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá lo, em proveito próprio ou alheio: Pena reclusão, de dois a doze anos, e multa. 1º Aplica se a mesma pena, se o funcionário público, embora não tendo a posse do dinheiro, valor ou bem, o subtrai, ou concorre para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio, valendo se de facilidade que lhe proporciona a qualidade de funcionário. Além disso, o crime de peculato só pode ser praticado por um funcionário público, ou seja, é um crime próprio. Dessa forma, o fato de Douglas não ser funcionário público não impede que ele pratique o crime de peculato em concurso de pessoas com Mario, pois a condição de funcionário é elementar para a consumação do crime e, conforme o art. 30 do CP, tal circunstância (elementar) se comunica aos que sabiam de sua existência. Circunstâncias incomunicáveis Art. 30 Não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter pessoal, salvo quando elementares do crime. Assim, se Douglas era amigo íntimo de Mario, então sabia da condição de funcionário público que este possuía e também pode ser responsabilizado pelo crime de peculato. 5

6 Se dois computadores foram efetivamente subtraídos da repartição, então o crime de peculato se consumou e não se pode falar em tentativa conforme veremos na questão seguinte. GABARITO: D 44. Quando o agente impede voluntariamente que o resultado de um crime se produza, está configurada a hipótese de (A) arrependimento eficaz e o agente só responderá pelos atos já praticados. (B) arrependimento posterior e o agente só responderá pelos atos já praticados. (C) arrependimento posterior e a pena do crime tentado será reduzida de um a dois terços. (D) arrependimento eficaz e a pena do crime tentado será reduzida de um a dois terços. (E) desistência voluntária e a pena do crime tentado será reduzida de um a dois terços. TENTATIVA DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA ARREPENDIMENTO EFICAZ ARREPENDIMENTO POSTERIOR RESULTADO COGITAÇÃO PREPARAÇÃO EXECUÇÃO CONSUMAÇÃO O caminho do crime (inter criminis) está representado pelo gráfico acima. Nele estão ilustradas todas as fases que o agente, ao praticar um crime plurissubsistente, deve percorrer até alcançar o resultado. Tomemos como exemplo um crime de homicídio. A fase de cogitação é interna. Ou seja, o agente que comete o delito não exterioriza seu pensamento e, por isso, os atos praticados nessa fase não podem ser punidos. Ou seja, o fato de uma pessoa pensar em matar alguém não pode ser punido. A fase de preparação também é interna e, regra geral, os atos nela praticados também não são puníveis. A exceção está quando o ato praticado consistir em crime autônomo. Assim, se o possível agente de um crime de homicídio compra uma corda para enforcar um desafeto seu, tal ato não poderá ser punido, pois o simples fato de comprar uma corda não é considerado crime. Porém, se ao invés da corda ele adquirir uma arma ilegalmente, tal fato poderá ser punido, pois constitui um crime autônomo. A fase de execução se inicia com a agressão do bem jurídico tutelado pela lei. 6

7 A tentativa é caracterizada quando não ocorre a consumação por circunstâncias alheias à vontade do agente. Assim, se o agente disparar vários tiros em seu desafeto, com o intuito de matá lo, e nenhum atingir a vítima, terá ocorrido a tentativa, pois o homicídio não se concretizou por circunstâncias alheias à vontade do agente. Art. 14 Diz se o crime: Crime consumado I consumado, quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal; Tentativa II tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Pena de tentativa Parágrafo único Salvo disposição em contrário, pune se a tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços. Pelo parágrafo único do art. 14 do CP, vemos que a tentativa, salvo disposição em contrário, deve ser punida com a pena do crime consumado diminuída de um a dois terços. Assim, no exemplo dos tiros que não atingiram a vítima, a pena a ser aplicada deverá variar entre 2 anos e 16 anos e 8 meses. Na desistência voluntária, o agente pode prosseguir, mas, voluntariamente, para de praticar o crime durante a sua execução. Seria o caso do agente sacar a arma, disparar um tiro, errar, e, tendo condições de efetuar um outro disparo, resolve desistir de matar a vítima. Desistência voluntária e arrependimento eficaz Art. 15 O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados. Conforme o art. 15 do CP, o agente que desistir de prosseguir na execução do crime voluntariamente responderá apenas pelos atos já praticados. Continuando nosso exemplo, aquele que desistisse de efetuar novos disparos responderia apenas por tentativa de homicídio. A fase da consumação ocorre quando todos os elementos do tipo são realizados. O arrependimento eficaz ocorre durante a consumação quando o agente se arrepende e atua em sentido contrário, buscando impedir que o resultado ocorra. No caso do exemplo da desistência voluntária, se o tiro tivesse acertado a vítima e, após o autor do disparo vê la se contorcendo de dor no chão, se arrependesse do que fez, resolvesse levá la ao hospital e ela conseguisse se salvar, estaria caracterizado o arrependimento eficaz. Também conforme o art. 15 do CP, o agente que se arrepender e conseguir impedir que o resultado do crime se produza responderá apenas pelos atos já praticados. Continuando nosso exemplo, o agente causador dos disparos que levou a vítima ao hospital e a salvou responderia apenas por tentativa de homicídio. No arrependimento posterior, o agente percorre todas as fases do crime e alcança o resultado, mas, antes do recebimento da denúncia ou da queixa, ele age voluntariamente buscando sanar o dano ou restituir a coisa. 7

8 Arrependimento posterior Art. 16 Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços. Conforme o art. 16 do CP, o arrependimento posterior não é cabível nos crimes cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa. Assim, no crime de homicídio não é cabível o arrependimento posterior. Porém, vou citar outro exemplo: Suponha que um ladrão furte um CD de um carro e, no dia seguinte, ainda não tendo sido feita a denúncia ou a queixa, ele voluntariamente resolva devolver o CD ao real dono. Neste caso terá ocorrido o arrependimento posterior. Ainda pelo art. 16 do CP, vemos que o arrependimento posterior é uma causa obrigatória de diminuição da pena de um a dois terços. Finalizando, percebemos que a questão é a reprodução literal do art. 15 do CP. GABARITO: A Encerro por aqui estes despretensiosos comentários e me coloco a disposição no fórum concurseiros (www.forumconcurseiros.com) para sanar alguma possível dúvida oriunda deste trabalho. Bons estudos e até a próxima! 8

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