Polifonia e interdiscursividade em um blog: da liberdade de expressão 2.0 aos negócios 3.0

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1 Polifonia e interdiscursividade em um blog: da liberdade de expressão 2.0 aos negócios 3.0 Elke Streit de OLIVEIRA (CEFET-MG) Ana Elisa RIBEIRO (CEFET-MG) Resumo: Este trabalho discute dois elementos dialógicos da análise do discurso a polifonia e a heterogeneidade constitutiva (ou interdiscursividade) e os aplica ao ambiente discursivo de um blog constituído do post sobre o lançamento de um carro e os comentários dos consumidores. Pretendemos refletir sobre esse fenômeno, que tem sido discutido no âmbito dos conceitos de Web 2.0 e Web 3.0. (ou Web semântica). Palavras-chave: Polifonia; Interdiscursividade; Web 3.0. Abstract: This paper discusses two dialogical elements of Speech Analysis polyphony and constitutive heterogeneity (or interdiscursivity) applying them to a discursive environment of a Blog made of a main post about the release of a car and the consumers comments. We intend to think on this phenomenon, which has been discussed in relation to the concepts of Web 2.0 and Web 3.0 (or Semantic Web). Key words: Introdução A rede de computadores hoje constitui um meio de informação digital bem diferente daquele configurado em sua origem militar, na década de 1960, nos Estados Unidos, quando era denominada de ARPAnet. Graças ao seu uso no ambiente universitário que propiciou o desenvolvimento científico e tecnológico desse meio nas últimas décadas, a rede passou a ser comercializada e amplamente difundida entre usuários comuns, que se beneficiaram do protocolo da Internet ((IP), criado em 1983; mas o benefício maior se deu com a criação do sistema de hipertexto World Wide Web (WWW) por Tim Berners-Lee, em 1991, que facilitou a navegação na rede. A partir de então, a rede tem se expandido pelo mundo em Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 1 -

2 proporções geométricas, abarcando todas as possíveis temáticas contidas na comunicação humana. WEB 2.0 A partir de 2002, com o advento dos weblogs e da tecnologia RSS, praticamente qualquer usuário da rede passou a ter acesso ao compartilhamento de seus documentos e dados, verbais e em multimídia, à medida que os softwares e interfaces foram evoluindo e se adequando às necessidades do internauta. Inaugurou-se, assim, o que Tim Berners-Lee denominou de Web a democratização da rede. Na prática, o termo Web 2.0 significa a abertura da rede a praticamente qualquer pessoa que tenha um computador e uma conexão com a Internet para os fins de busca, pesquisa, comunicação, relacionamento, publicação, enfim, ações que envolvem a circulação de conteúdos digitais. Muitos sites foram criados a partir de então para atenderem às demandas dos usuários. Para citar alguns: Google, Wikipedia, Orkut, Twitter, Baixaki e blogs em geral. O hipertexto eletrônico, portanto, é feito por pessoas e para pessoas com o objetivo de conectarem-se para os mais variados fins. Contudo, a exposição, armazenagem e circulação de informação cresceram ao ponto crítico de inspirarem um sentimento de impotência no usuário diante de seu volume e um de seus problemas passou a transparecer: a necessidade de filtragem e seleção do conteúdo realmente pertinente a partir do mar da rede hipertextual. WEB 3.0 Os mecanismos de busca por documentos na rede fazem a seleção de informações: sua lógica consiste na classificação decrescente por número de acessos aos documentos triados a partir de palavras-chave. Entretanto, sob essa lógica sintática, os softwares de busca não podem garantir que o resultado seja Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 2 -

3 realmente relevante para quem o solicita. Cabe ao ser humano contextualizar a informação. Para os visionários da tecnologia da informação, em um futuro próximo, viveremos uma realidade em que a pessoa será cada vez mais poupada do trabalho da busca por meio de mecanismos inteligentes que interpretarão e contextualizarão todos os dados sobre o usuário cuja coleta se dá, alheia a esse usuário, todas as vezes em que ele estiver na rede; a essa nova era da relação humano-máquina chamamos Web Semântica, ou Web 3.0. Parafraseando o grande pacifista e ativista pelos direitos civis Martin Luther King Jr., Berners-Lee discursou: Eu tenho um sonho para a Rede [no qual computadores] se tornam capazes de analisar todos os dados na Rede o conteúdo, links e transações entre pessoas e computadores. Uma Rede Semântica, que tornaria isso possível, ainda está para surgir e, quando surgir, os mecanismos de comércio, burocracia e de nossas vidas diárias serão tratados por máquinas falando a máquinas. Os 'agentes inteligentes' que as pessoas têm apregoado há gerações irão finalmente se materializar. (Tim Berners-Lee, 1999) (Nossa tradução). Quando Tim Berners-Lee disse isso em 1999, antes de criar a World Wide Web, estava se referindo a um estágio tecnológico que ainda não se consolidou nestes dias e que consiste na transformação de todos os documentos digitais da Web em dados, transformando a World Wide Web em World Wide Database (SPIVACK, 2006). Hoje isso tem sido feito em pequena escala, por pessoas e para demandas muito restritas como de um site de uma instituição educacional, do governo ou comercial. No futuro, entretanto, ao invés de alguém procurar por um certo produto, sob o critério do menor preço, em vários sites de vendas, dispensando muito tempo em navegação, com a Web Semântica essa pessoa só precisará digitar uma frase como quero uma câmera digital de R$400,00 de boa marca. Neste caso, o software não só atenderá à especificação do produto e do valor, como também interpretará o que é uma boa marca (nem muito boa, nem regular); tudo isso com base em uma contextualização de todos os dados de que o software Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 3 -

4 da Web disporá, provenientes do banco de dados formado por todas as vezes em que o usuário navega a rede, estabelecendo, assim, conexões semânticas entre esses dados. Para tanto, contudo, faz-se necessária uma mudança completa no funcionamento da rede como se dá hoje, por meio do desenvolvimento de um navegador universal mais inteligente que lide melhor com todos esses dados, adicionando capacidade semântica aos sites. O paradigma 2.0 de conexão entre pessoas deverá ser substituído por um novo paradigma 3.0 o de conexão de dados. Prenúncios da WEB 3.0 Há muitos softwares no mercado capazes de executar relações entre dados. Os mash-ups, que funcionam em plataformas cruzando dados, conectam, por exemplo, um site de uma imobiliária ao Google Maps; os widgets, que também dependem de uma plataforma como, por exemplo, um blog, adicionam à página da rede funções como previsão do tempo e fuso horário, atualizando-os automaticamente; e o Web Fountain, sistema de exploração de dados de redes de relacionamentos, utilizado pela IBM para pesquisa de mercado e popularidade. A questão sobre esses softwares é que todos se alimentam dos dados garimpados na própria rede, provenientes dos documentos produzidos por seres humanos no contexto da comunicação humana. O que hoje empresas como a Radar Network, de Nova Spivack, pesquisam é uma forma de transformação de todos os mais de seis bilhões de documentos da rede em dados dos quais um software semântico, uma inteligência artificial, extrairá sentido nos moldes da inteligência humana. Ontologias e softwares de inferência As ontologias são arquivos constituídos de um conjunto de informações garimpadas da rede (domínios) e que definem as relações entre grupos de termos. Essas ontologias são feitas a partir de uma metodologia associada a um suporte tecnológico como, por exemplo, a Methontology. A construção de ontologias é muito trabalhosa e demanda muito tempo pois depende do trabalho de engenheiros Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 4 -

5 na produção de dados por meio da conceitualização detalhada de cada termo ou palavra até esgotá-lo, formando uma taxonomia; um software de inferência (Reasoning Engine) deriva novos fatos e associações às informações pré-existentes no banco de dados ontológicos. As ontologias têm sido usadas com o objetivo de: compartilhamento de uma compreensão comum da estrutura de informação entre pessoas e softwares; capacitação do reuso do conhecimento do domínio; explicitação dos pressupostos dos domínios; análise do conhecimento do domínio; dentre outros. Tais usos estão longe do ideal de Berners-Lee, mas têm interessado às áreas de educação, software, governos e negócios, embora sua atuação seja restrita e limitada face ao enorme investimento de tempo e recursos demandados na construção de uma ontologia. Implicações Esse estágio em que nos encontramos de dependência da inteligência e trabalho humanos na construção de ontologias e nos processos de contextualização de dados, entretanto, não significa a ausência de implicações de toda ordem à relação das pessoas com a tecnologia da informação. Dentre elas figura a coleta não consensual e uso de dados dos usuários da rede por softwares implantados em sites de empresas, com a finalidade de oferecer seus produtos e serviços. Esse fenômeno já acontece na base da combinação sintática e pode ser detectado nas pop-ups que surgem durante a navegação oferecendo algum produto relacionado a uma palavra que o usuário digitou, por exemplo, em um . Associada a essa questão, estão os métodos de combinação e interpretação de dados baseados na lógica matemática presente tanto na abordagem sintática quanto na (futura) abordagem semântica de triagem de informação. A abordagem da rede e da construção de softwares sob essa lógica, a exemplo dos métodos estatísticos de pesquisa, enseja uma problemática de conversão de elementos de naturezas distintas: o discurso humano e os dados informacionais. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 5 -

6 Tendências de Análise do Discurso A análise do discurso (AD) é um campo de pesquisa recente cujas abordagens mudaram radicalmente nos últimos trinta anos graças às influências do dialogismo de Bakhtin e do historicismo de Michel Foucault. Ambas linhas de pensamento problematizaram o objeto do discurso para além de seus elementos linguísticos, sintáticos ou semânticos. Conceitos como polifonia e heterogeneidade passaram a elencar a lista de elementos constitutivos do discurso, lançando luz sobre a complexa rede de vozes, valores e ideologias que constituem uma cadeia enunciativa. A mudança na abordagem da AD também tem forte influência da Pragmática que deixa de considerar o texto como recipiente de uma mensagem a ser decodificada, abrindo-o para tantos significados quanto as variáveis que incidem sobre o texto: os sujeitos enunciadores, as escolhas linguísticas, o contexto sóciohistórico, o suporte da mensagem, os gêneros (coerções externas e internas) etc. Nessa lógica, a cena da enunciação passa a ser vista como elemento constitutivo do significado e não um elemento ilusório que reproduziria conteúdos elaborados em outro lugar. A discursividade não é um suporte de idéias, doutrinas ou ideologias, mas um dispositivo constitutivo da construção do sentido e dos sujeitos que aí se reconhecem (MAINGUENEAU 1997, p. 50); o discurso mobiliza forças sociais. Essa abordagem de AD vem ao encontro do paradigma do hipertexto que se constitui não apenas de discurso verbal escrito, mas da hipermídia. O hibridismo nas formas como os discursos se apresentam associado à forma como o hipertexto se constitui enunciados ligados a enunciados na rede hipertextual, significação aberta, mobilidade demanda uma compreensão discursiva que pretendemos problematizar com a lógica de Web semântica. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 6 -

7 Dialogismo Os estudos literários de Mikhail Bakhtin lançaram os fundamentos filosófico à concepção do discurso chamados de Dialogismo. As unidades do discurso no dialogismo são os enunciados, unidades reais de comunicação, cujas fronteiras são delimitadas hipertextualmente por outros enunciados, formando, assim, uma rede discursiva interligada por escopos intencionais ou 'visadas'. Tais unidades não prescindem de um interlocutor tanto quanto de um enunciador e, de maneira perene, produzem enunciados responsivos, ativos ou passivos, de interlocutores reais ou imaginários. Essa questão da interlocução dos enunciados está fundamentalmente ligada à concepção radical de alteridade, em Bakhtin. Para o pensador, não há enunciado sem um destinatário pois a comunicação humana existe em função da relação com o outro. Por fim, o enunciador não é um Adão bíblico, só relacionado com objetos virgens, ainda não nomeados, aos quais dá nome pela primeira vez. As concepções simplificadas sobre comunicação como fundamento lógico-psicológico da oração nos lembram obrigatoriamente esse Adão mítico. ( ) O falante não é um Adão, e por isso o próprio objeto do seu discurso se torna inevitavelmente um palco de encontro com opiniões de interlocutores imediatos (na conversa ou na discussão sobre algum acontecimento do dia-adia) ou com pontos de vista, visões de mundo, correntes, teorias, etc. (no campo da comunicação cultural). Uma visão de mundo, uma corrente, um ponto de vista, uma opinião sempre têm uma expressão verbalizada. Tudo isso é discurso do outro (em forma pessoal ou impessoal), e este não pode deixar de refletir-se no enunciado. O enunciado está voltado não só para o seu objeto mas também para os discursos do outro sobre ele. (BAKHTIN, 2006, p. 300). Heterogeneidade e polifonia Dessa forma, o enunciado é heterogêneo, pois é constituído de e para os outros discursos já enunciados anteriormente a si, e sua heterogeneidade é caracterizada pelas teorias, correntes, visões de mundo e ideologias nele presentes. As vozes que enunciam os elementos constituintes da heterogeneidade discursiva, Bakhtin chama de polifonia. Ambos conceitos, entretanto, não são pacíficos entre as correntes linguísticas e de AD. No presente trabalho, adotaremos o conceito de heterogeneidade em Dominique Maingueneau que, não se Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 7 -

8 distanciando da abordagem bakhtiniana, a entende como a presença de discursos outros (pontos de vista, teorias, ideologias) em um dado discurso. Também manteremos o conceito original de polifonia elaborado por Bakhtin, em sua obra Estética da Criação Verbal, o qual não prescinde da presença de mais de uma voz na cena enunciativa. Analisaremos nosso corpus com base nesses dois elementos de AD. Heterogeneidade A heterogeneidade é o elemento da análise do discurso que corresponde aos princípio dialógicos do enunciado no que diz respeito à expressividade e juízo de valor das palavras; à inter-relação entre língua, ideologia e visão de mundo como elementos da produção do sentido; e à imprescindibilidade da sociedade e da história na análise do discurso. Ela é definida como a presença do(s) discurso(s) do(s) outro(s) em dado discurso. Heterogeneidade Mostrada (HM) Na heterogeneidade mostrada, é possível localizar (um) discurso(s) outro(s) em um dado discurso de forma não-marcada textualmente (discurso indireto livre, alusões, ironia, pastiche) e de forma marcada (ou explícita: discurso direto, indireto, aspas). Não analisaremos a HM em nosso corpus para o presente trabalho porque produziria um volume de informação não comportado nestas páginas. Heterogeneidade Costitutiva (HC) Na heterogeneidade constitutiva (ou interdiscursividade) o discurso é dominado pelo interdiscurso fenômeno de multiformidade discursiva, de discursos atravessados por discursos que estabelecem delimitações recíprocas quando ideologicamente antagônicos. Dessa forma, o discurso não é um mero espaço para o outro, mas ele mesmo se constitui de outros. Nesse sentido, temos: Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 8 -

9 Para Maingueneau, a identidade de uma formação discursiva é sempre indissociável de sua relação com as ações discursivas através das quais se constrói sua identidade: 'A definição da rede semântica que circunscreve a especificidade do discurso coincide com a definição das relações desse discurso com seu Outro [ ]'. CHARAUDEAU; MAINGUENEAU 2008, p. 262). Compartilhando do entendimento de Maingueneau, olharemos para nosso corpus como uma rede semântica cuja constituição implica a relação interdiscursiva do discurso com seu outro. Analisaremos aqui a relação da interdiscursividade com a lógica da garimpagem de dados, isto é, da seleção de conteúdo relevante para certo objetivo. Polifonia A polifonia é o elemento da análise do discurso que corresponde aos princípios dialógicos do enunciado no que diz respeito à forma composicional de um discurso, isto é, na alternância de enunciados; conjugada à alternância está a relevância da atividade responsiva, ativa ou passiva, a um enunciado cuja existência se dá necessariamente em uma relação com a alteridade. Quando Bakhtin lançou reflexões sobre a polifonia, em A Estética da Criação Verbal, ele se referia às vozes das personagens que se enunciam em uma obra literária, orquestradas pelo autor da obra, sujeito enunciador-orquestrador. Analogamente, um ambiente discursivo do hipertexto digital possui vozes orquestradoras as pessoas responsáveis pela seleção do conteúdo publicado e vozes que se enunciam no dado ambiente, submetidas à seleção. Isso é o que ocorre em um blog: o blogueiro publica conteúdos de sua autoria ou não, de acordo com seus critérios; leitores podem enviar comentários que passarão pelo crivo do blogueiro. Este é o enunciador-orquestrador de seu blog. Polifonia como Centro (PC) A PC é a polifonia propriamente dita, isto é, a que apresenta, dentre as vozes presentes em um discurso, a voz do orquestrador. Alguns linguistas a imaginaram como sendo detectáveis por marcas textuais, mas no entendimento dos Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 9 -

10 genebrinos a polifonia não se estabelece nos enunciadores ou pontos de vista, mas na existência de vários locutores reais ou representados (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2008, 388p). Esse é o entendimento de que compartilhamos neste trabalho e entendemos que o blog é um ambiente discursivo polifônico por nenhum outro motivo que não a existência de vários locutores. Polifonia Autêntica (PA) O conceito de PA foi elaborado por Bakhtin quando este analisava as obras de Dostoievski. Segundo Brait (2006), ao estudar as obras do escritor russo em O romance polifônico de Dostoiévski e seu enfoque na crítica literária, Bakhtin aponta para o fato de que os heróis em Dostoiévski, ao contrário dos heróis dos romances de outros autores, defendem posições filosóficas autônomas de seu autor e contraditórias entre si. A concepção filosófica do próprio autor figura sem destaque e o herói se constitui autônomo de seu autor. Ele entende como polifonia autêntica essa escrita com multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis. Entendemos que, assim como as obras do escritor russo, o hipertexto eletrônico é o ambiente discursivo para a realização da PA, pois vai ao encontro da textualidade ideal descrita por Roland Barthes, chamada de hipertexto de computador (LANDOW, 2006, p. 3-4): texto composto por blocos (lexia, em Barthes) conectados eletronicamente por múltiplos caminhos, elos ou trilhas em uma textualidade sem um desfecho e perpetuamente interminável ( ). Nesse texto ideal, diz Barthes, as redes [réseaux] são muitas e interagem, sem que nenhuma delas seja capaz de superar as demais; esse texto é uma galáxia de significantes, não uma estrutura de significados; não tem começo; é irreversível; obtemos acesso a ele por meio de várias entradas, nenhuma que possa ser autoritariamente declarada como a principal; os códigos que ela mobiliza se estendem até onde os olhos alcançam, são indetermináveis... os sistemas de significado podem assumir o controle desse texto absolutamente plural, mas seu número nunca está fechado, baseado em que está na infinidade da lingagem. (In: LANDOW, p. 3) (Tradução nossa) Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

11 Uma textualidade cujo acesso se dá por várias entradas (hipertextualidade) sendo que nenhuma delas pode ser declarada a principal, é uma textualidade polifônica autêntica. A escolha do corpus se deu, portanto, pelo fato de em tal ambiente encontramos elementos da AD em evidência nos enunciados como, por exemplo, a vozes advindas de outros enunciados, orquestradas por seu autor (PC) que, no caso, é o mediador do blog; ou vozes que se representam sem orquestração, sem unicidade ideológica, mas como sujeitos de si mesmas (PA). Também trata-se de um excelente exemplar de heterogeneidade, em especial a constitutiva, que nos apontará a diversidade de teorias, pensamentos, opiniões e ideologias que constituem o interdiscurso na rede. A partir da análise desses elementos, refletiremos sobre a visão do discurso no campo da AD em detrimento da visão de discurso que fundamenta a formação dos bancos de dados. Nossa hipótese é que, independentemente dos avanços nos estudos de Inteligência Artificial e produção de softwares semânticos, a comunicação humana requer uma abordagem heterogênea e polifônica e, segundo Foucault, deve ser compreendida a partir do princípio de sua formação pela dispersão. Sendo assim, a realização do sonho de Berners-Lee de uma rede dotada de inteligência humana passará necessariamente por essas considerações, ou será mais uma ferramenta de produção de dados homogeneizantes, por meio de cálculos de probabilidades. Corpus Propomo-nos aqui a analisar o ambiente discursivo de uma página digital da revista Quatro Rodas onde encontram-se tanto o texto sobre o lançamento de um novo carro da GM o Agile - como 256 comentários de leitores, postados do dia 24/09/2009 a 14/12/2009. Um dos propósitos dessa página é a circulação de informação sobre o tema da reportagem o carro; além disso, também serve à revista especialista (órgão jornalístico) à GM (fabricante do carro) como fonte de dados. O valor dos comentários apresentados está na opinião do leitor (relevante Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

12 para a revista) da reportagem e na opinião do consumidor do produto (relevante para a GM) e poderá se converter em dados, por meios abordados anteriormente neste trabalho (mineração de dados para a construção de ontologias e interpretação semântica de softwares inteligentes). Metodologia Este estudo de caso, que faz parte de uma pesquisa para dissertação, é uma análise do corpus a partir dos comentários e sua relação com o texto jornalístico e os demais comentários, à luz dos conceitos de polifonia de centro e polifonia autêntica, de Bakhtin; e o conceito de heterogeneidade mostrada e constitutiva, de Maingueneau. Para viabilizar a análise, enumeramos os enunciados-comentários e repetimos o número usando letras para aqueles postados mais de uma vez. Como a publicação dos comentários se dá dos mais recentes para os mais antigos, enumeramo-os de forma decrescente para que seus números correspondessem de forma crescente à sua posição temporal: o comentário nº1 foi o primeiro comentário, postado em 24/09/2009,`às 14h14min; o nº233, foi o último, postado em 15/12/2009, às 20h33min. Uma vez identificados esses elementos no discurso, refletimos sobre sua implicação interdiscursiva e a complexidade com que os discursos se constituem, especialmente no hipertexto. Concluímos com uma reflexão sobre o paradigma da AD e a produção de bancos de dados informacionais. Análise do corpus Nossa análise tem como foco a constituição da enunciação dos comentários à matéria jornalística sobre o lançamento do novo carro da GM. O ambiente da enunciação permite que os enunciadores se constituam não necessariamente com informações verdadeiras sobre seus nomes, experiências relatadas e informações; entretanto, nem a verdade, nem as implicações psicológicas da enunciação nos Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

13 interessa nesta análise, mas sua interdiscursividade. O espaço dos comentários, inclusive, tende a tornar-se um campo de batalha ideológica cujo moto é a guerra entre as montadores e os produtos que estas oferecem no mercado. Dentre os enunciados, observamos aqueles que são evidentes apologias ou ataques ao produto; opiniões ponderadas e com argumentos desapaixonados; discussões de baixo calão que fogem ao tema etc; como veremos a seguir. Há enunciados postados mais de uma vez, seja acidentalmente ou intencionalmente; e há enunciados que questionam esse fenômeno. Assim, dos 256 enunciados, 233 são inéditos. Há enunciadores que enunciam-se mais de uma vez, seja postando o mesmo comentário (como explicado acima), seja postando um comentário diferente, algumas vezes dando sequência a um debate. O primeiro enunciador, Péricles, segue o protocolo dos comentários, dando sua opinião desapaixonada sobre carro: acho q os faróis poderiam ser menores, é um tanto exagerado; já o segundo enunciador, thiago araujo, não poupa na crítica e a estende a outras montadoras: Incrível como conseguiram fazer um carro tão feio, sempre gostei da GM, mas esse aí parece um carro coreano. E assim vários enunciados constituem a teia discursiva da página da Quatro Rodas, a maioria deles discutindo o carro tema da reportagem. Todos esses enunciados possuem algum valor em uma possível garimpagem de dados para uma pesquisa de mercado; mesmo os elogios suspeitos, advindos de funcionários da GM e as críticas suspeitas, advindas de funcionários das outras montadoras, podem conter informações de mercado relevantes. Entretanto, o terceiro enunciador - Otavio -, que posta seu comentário três vezes seguidas, traz ao blog informações que desviam o debate de seu objeto principal e desencadeia enunciados-responsivos cujos dados podem ser considerados irrelevantes para um programador de uma ontologia que vise a opinião do leitor ou do consumidor sobre o carro. O fato de Otavio ter postado o mesmo texto três vezes seguidas pode indicar sua necessidade em enfatizar o que tem a dizer ou lapso no manejo da ferramenta comentários. Tendemos a concluir Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

14 pela primeira opção, pois seu comentário é escrito em letras maiúsculas com conteúdo contundente. Segue abaixo seu comentário na íntegra: ACABEI DE VOLTAR DA EUROPA E DIGO PRA VOCES..NÓS SOMOS O RESTO DO RESTO DO MUNDO...DOS POPULARES LÁ VI: RENAULT CLIO GEREÇÃO MAIS MODERNA QUE A NOSSA LIXO,PREÇO EUROS,OU SEJA QUASE REAIS (MESMO PREÇO QUE A "CARROÇA" GERAÇÃO ATRASADA DA RENAULT AQUI),LA VEM COM ABS E AIR BAG...VI PEUGEOT VERDADEIRO" 207,NÃO O LIXO DE 206,5 DAQUI...VI O CORSA DE LÁ QUE NEM SE PARECE COM O NOSSO LIXO DAQUI...E VI POR ULTIMO,O CARRO POPULAR QUE VAI ACABAR COM TODOS ESSES CONCORRENTES: NOVO FORD FIESTA EUROS,ABS,AIRBAG DE SERIE DESIGN MUITO LINDO,IMPRESSIONANTE DE PERTO (BATI FOTOS),O PAINEL É SHOW DE BOLA...MUITO MELHOR QUE O LIXO FIESTA DAQUI...VOLTEI DE LÁ COM A CERTEZA DE QUE SE INFERNO EXISTE,FOMOS SORTEADOS COM O BILHETE "PREMIADO".PIOR QUE ISSO É A FALTA DE ESPERANÇA DE SERMOS 1 MUNDO,A IGNORANCIA QUE IMPERA NO BRASIL,A FALTA DE CIVILIDADE E CLARO,O DESRRESPEITO DA MONTADORAS COM O BRASIL QUE VENDE SUCATAS COM MESMO PREÇO DAS VERSÕES MAIS MODERNAS DE LÁ...BOM,FAZ PARTE DO PACOTE MISÉRIA BRASILEIRA SEM FIM. Em seu comentário Otavio, não se limita a avaliar o carro em questão, ou outros carros do mercado brasileiro. Ele constrói seu ethos com os seguintes elementos: a autoridade de quem conhece a Europa (experiência de uma minoria de brasileiros); o nós, o resto do mundo ; e a certeza de seus pressuposto. Além disso, ele apresenta os seguintes fatos: os carros europeus são melhores e mais baratos do que os brasileiros; os consumidores europeus são mais respeitados do que os brasileiros; o Brasil não é Primeiro Mundo e a Europa é; o Brasil nunca será Primeiro Mundo. Embora o enunciador use a primeira pessoa do plural, incluindo-se no grupo brasileiros, suas críticas indicam um distanciamento tomado do objeto o Brasil, confirmando sua autoridade conferida pela visão de fora, de quem acaba de chegar da Europa, Primeiro Mundo. Ele não pactua com a situação de não- Primeiro Mundo do Brasil. Portanto, seu enunciado é atravessado por vários pressupostos: o de que o Brasil não é Primeiro Mundo porque os brasileiros são ignorantes, não possuem civilidade e por culpa das multinacionais. Essa interdiscursividade constitui seu enunciado caracterizando sua heterogeneidade. Imaginemos a garimpagem dessa enunciação e sua conversão em dados para uma pesquisa de mercado. Possivelmente o enunciado de Otavio, postado três Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

15 vezes em letras maiúsculas e marcado por certezas, não apresente dados relevantes, já que compara mercados de dois continentes distintos, generalizando todos os produtos do mercado brasileiro como lixo. Mas seu ethos e os discursos que invoca são, de fato, irrelevantes para a questão? Quem decide isso são os leitores- enunciadores do blog, como veremos a seguir. Otavio não passa despercebido por vários leitores-enunciadores da página, que conferem ao seu enunciado mais relevância do que à reportagem: os enunciadores seguintes navegam pelo novo tópico inaugurado por ele: leandro (24/09/ :56) meu caro otavio, adiantaria as montadoras lançarem os mesmos carros da europa, com a mesma tecnologia, etc, se o brasileiro médio não tem dinheiro nem pra comprar comiga?? se liga, o buraco é muito mais embaixo!! Cassio (24/09/ :38) O buraco é mais embaixo ainda. Não é que o brasileiro não tem dinheiro para comprar, tanto é que os preços dos carros de lá são até menores do que a gente paga aqui por modelos bem inferiores. O problema é a nossa tributação, que eleva o custo lá nas nuvens! E o mais triste é que a receita tributária não reverte em serviços para nós: Um quarto do nosso PIB é para despesas com a dívida pública, problema que os países de "primeiro mundo" não têm (ou pelo menos não nessa dimensão). Observador (24/09/ :13) Parabéns Sr. Cássio. Enquanto nossos executivos sonham com BMW Audi - Mercedes - ômega - na europa Mercedes é taxi, e os outros são carros familiares. Sr. Leandro - deve ser funcionário público - o problema do Brasil é que a lei seca não está sendo cumprida. Temos um bêbado dirigindo a nação...e ainda por cima deixou o mercado automotivo ser cartelizado por poucas e ruins montadoras. Ado a Ado - cada montadora no seu quadrado - -- terreno dividido, cartas super marcadas. A solução realmente seria o BOICOTE. Chega de pagarmos fortunas por carroças. Se uma mera diminuição do IPI já aumentou as vendas nestes patamares. Imagine o que preços reais e de mercado não fariam pela nossa fota. Não venham com o sentimentalismo barato de dizer: não temos comida...pois como disse o poeta " a gente não que só comida - a gente quer inteiro e não pela metade"...acordem...o poder é nosso e em nosso nome deve ser exercido... MG (24/09/ :30) Já está na hora de parar de falar mal dos produtos brasileiros. Nem tudo que vem de fora presta. Aposto que muitos de vocês que estão falando mal vão comprar um ou ficar babando quando virem pelas ruas. Um dos motivos que no Brasil não tem carros melhores é a alta tacha de impostos que temos que pagar. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

16 A polifonia no ambiente discursivo dessa página, que é análogo ao de um blog (texto + ferramenta comentários), é autêntica pois, ainda que haja alguma triagem dos comentários antes de serem publicados, flagramos uma grande variedade de pensamentos e ideologias presentes na sociedade, muitos deles, inclusive, antagônicos. Essa polifonia é imprescindível à constituição de uma cena enunciativa com valores democráticos - a presença de tantas vozes quantas se enunciarem, com o mais variado repertório de opiniões e pontos de vista. Nisso consiste o paradigma de WEB 2.0, descrito por Tim Berners-Lee e, considerando o volume de blogs e de movimento de postagens entre os usuários da rede, esse paradigma condiz com os fatos. O enunciado-responsivo de leandro ao enunciado de Otavio apresenta um discurso de cunho materialista no senso-comum da sociedade brasileira a de que os brasileiros são pobres e essa é a causa de seus males. leandro concorda com Otavio quanto aos carros brasileiros serem inferiores aos europeus, mas discorda que seja um problema de ordem cultural (ignorância e falta de civilidade do brasileiro), mas econômico (pobreza, falta de dinheiro). Como argumento, ele diz que os brasileiros não têm dinheiro nem pra comprar comida. Ele corrige seu interlocutor mostrando que entende que sua análise (de natureza materialista) é mais profunda que a de Otavio (de natureza cultural) ao dizer que o buraco é mais embaixo. Mas Cassio se enuncia em seguida, trazendo uma reflexão a seu ver melhor do que a de leandro e Otavio, pois diz que o buraco é mais embaixo ainda. Para Cassio, o problema é de ordem administrativa e tributária: altos impostos que encarecem os produtos e em maioria destinados ao pagamento de dívida pública, ao invés de aplicados em serviços públicos. Cassio, embora não mencione diretamente e traga informações menos apaixonadas, retoma a tese de primeiro mundo X terceiro mundo, do catalizador da discussão - Otavio. O Observador se enuncia refutando a generalização no argumento de Cassio, de que o problema dos brasileiros é a alta tributação e as dívidas públicas. Ele lembra que há um grupo de brasileiros que consomem carros europeus Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

17 nossos executivos, a quem questões de tributação e de baixa qualidade do serviço público não dizem respeito. Também refuta leandro, dizendo que ele deve ser funcionário público e, no final de seu comentário, que falar de fome é sentimentalismo barato. Para o Observador, portanto, o discurso materialista da pobreza, além de sentimentalismo barato, é associado ao funcionalismo público. Em seguida, ele lança sua própria tese com humor e sarcasmo: o problema do Brasil é o descumprimento da lei seca, pois um bêbado o dirige. A menção aqui é clara ao presidente Lula, que dirige o país e a quem é atribuído o alcoolismo, principalmente por seus desafetos. O Observador associa o presumido alcoolismo de Lula às decisões quanto a permitir a formação de lobbies de montadoras ruins, e vai além: sugere uma solução o boicote. Contrapondo ao 'funcionário público', o enunciador cita Arnaldo Antunes ( o poeta ): a gente não quer só comida - a gente quer inteiro e não pela metade. Conclui deixando claro que não se sente representado pelo 'dirigente alcoólatra' e convoca os eleitores a uma atitude, dizendo ser necessário exercer o poder que emana dos cidadãos. Já MG reprova as críticas aos produtos nacionais e contrapõe com a afirmação de que nem tudo que vem de fora é bom. Retoma a tese de Cassio, de que o problema é a carga tributária e desautoriza os enunciadores precedentes questionando seus ethos: constituem-se como avaliadores críticos, mas, na verdade, vão comprar um ou ficar babando. Sua enunciação denota um patriotismo ferido. Nesses exemplares de enunciados que constituem a amostra extraída da rede discursiva tecida no site da Quatro Rodas flagramos, portanto, um repertório rico de pensamentos, pressupostos, juízos de valor e ideologias que oferecem uma amostra da complexidade das relações discursivas enquanto fato humano e social. Sua simples existência atesta sua relevância. Contudo, a relevância do que não é relevante para o mercado o enunciado de Otavio - pode passar despercebida por garimpeiros de dados e criadores de ontologias que, na confecção e uso de seus bancos de dados e softwares, acabam por limitar a abordagem sobre o internauta a Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

18 uma combinação de dados escolhidos arbitrariamente, com foco em certos interesses em detrimento de outros. Na prática, podemos considerar que essa lógica já faz parte das práticas de pesquisa de mercado, que buscam apresentar produtos com base nos dados computados que revelam o pensamento de um nicho, e não de indivíduos. No que tange a rede, contudo, essa lógica de seleção e direcionamento de dados implica não só uma pesquisa de mercado, mas uma invasão na vida privada do usuário da rede, que tem sua navegação invadida por publicidades, inclusive em sua caixa de s. Digamos que Otavio comece a ser exposto a propagandas sobre carros com itens de série completos. Seria uma conclusão razoável de um sistema de garimpagem que seja esse o produto que ele procura. Entretanto, sua enunciação, analisada em seus elementos interdiscursivos, deixa dúvidas sobre se essa é a questão; de fato, sua enunciação não indica que ele esteja sequer em busca de algum produto. Otavio e seus interlocutores são enunciadores na rede, antes de serem consumidores de produtos, ainda que enunciadores em sites de produtos. Considerações Finais Este trabalho apresenta uma visão do estágio em que os programadores de softwares e ontologias estão em relação ao sonho de Berners-Lee de um navegador da rede semântico e universal que, ao coletar e interpretar dados de todas as movimentações na rede, poupará os usuários do trabalho de buscas, oferecendo a eles produtos, serviços e informações. A questão que levantamos é a do conflito entre aquilo que é arbitrariamente considerado dado relevante sobre uma pessoa por programas e ontologias e o que realmente é relevante para a pessoa navegadora da rede. Analisando alguns enunciados em uma página de reportagem sobre o lançamento de um carro, percebemos que os navegadores da rede não podem ser reduzidos a consumidores e seus enunciados a dados de Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

19 mercado. O ciberespaço, como o espaço físico, são lugares de enunciação, de discurso e de vivência, cheios de vozes e interdiscursos; entretanto, quando uma pessoa navega a rede e é assediada por campanhas publicitárias elaboradas com base em um perfil individual construído com dados coletados e interpretados por um software, ela não está necessariamente sendo servida, mas (de)limitada pela lógica desse software. A coleta de dados em si pode constituir uma agressão à liberdade de ser; inclusive, à liberdade de deixar de ser, de crer, de pensar, de gostar. O perfil de uma pessoa como é construído na rede, portanto, não deixa de ser uma forma de massificação apesar da aparente individualização do internauta. Referências Bibliográficas BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, BRAIT, Beth. Bakhtin: dialogismo e polifonia. São Paulo: Contexto, BREITMAN, Karin. Web semântica. São Paulo: LTC, CARDOSO, Jorge. The semantic web vision: where are we now?. IEEE Intelligent Systems, September/October, CHARAUDEAU, P. MAINGUENEAU, D. Dicionário de análise do discurso. 2 ed. 2 reimp. São Paulo: Contexto, CORCHO, O. FERNÁNDEZ-LÓPEZ, M. Et. Al. Building legal ontologies with METHONTOLOGY and webode. Universidad Politécnica de Madrid. Madrid, FONTANILLE, Jacques. Semiótica do Discurso. São Paulo: Contexto, KOTLER, Philip. Marketing 3.0: as forças que estão definindo o novo marketing centrado no ser humano. São Paulo: Campus-Elsevier, LANDOW, George P. Hypertext 3.0: critical theory and new media in an era of globalization. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

20 MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. 3ª ed. Campinas: Pontes, MAINGUENEAU, Dominique. Cenas da enunciação. São Paulo: Parábola editorial, MAINGUENEAU, Dominique. Gênese dos discursos. São Paulo: Parábola editorial, MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. 4ª ed. São paulo: Cortez, MARKOFF, John. Enterpreneurs see a web guided by common sense. In: The New York Times. November 23, ORIHUELA, José Luis. Blogs e blogosfera: o meio e a comunidade. In: Blogs: revolucionando os meios de comunicação. São Paulo: Thomson:, WEB 3.0. Disponível em: Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação

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