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1 Do Discurso à Prática: Uma Experiência de Comunidade de Aprendizagem Lynn Alves 126 Estamos interconectados com o mundo. É essa a sensação que temos ao sermos bombardeados de informações que são veiculadas pelas diferentes mídias impressas, televisivas e telemáticas. A Galáxia de Gutemberg vem sendo nos últimos quarenta anos invadida por uma nova forma de comunicar, de produzir conhecimentos e saberes a comunicação através das redes telemáticas e em especial a Internet que, desde das experiências iniciais da Arpanet (EUA) e Minitel (França), vem crescendo vertiginosamente, o que torna impossível apontar nesse momento dados numéricos deste crescimento que está em constante mutação. A aldeia global concebida por McLuhan e Powers (1996), nas décadas de 1960 e 1970, possui hoje uma outra configuração interativa, possibilitando a emergência de comunidades de aprendizagem. Para Rheingold, 2 essas comunidades se constituem em agregações sociais que surgem na Internet formada por interlocutores invisíveis que podem ter interesses que vão do conhecimento cientifico ao conhecimento espontâneo, utilizando esses espaços para trocas intelectuais, sociais, afetivas e culturais, permitindo aflorar os seus sentimentos, estabelecendo teias de relacionamentos, mediadas pelo computador, conectados a uma linha telefônica e um modem.

2 Ainda segundo o autor, as pessoas nas comunidades virtuais fazem quase tudo o que as pessoas fazem na vida real, mas deixam para trás nossos corpos. 3 Estes ambientes que surgem na década de 1970 são potencializados hoje pela Internet, caracterizando uma nova forma de viver que no dizer de Turkle seria a vida na tela. Nestes últimos tempos, o computador tornouse algo mais do que um misto de ferramenta e espelho: temos agora a possibilidade de passar para o outro lado do espelho. Estamos a aprender a viver em mundos virtuais. Por vezes, é sozinhos que navegamos em oceanos virtuais, desvendamos mistérios virtuais e projetamos arranha-céus virtuais. Porém, cada vez mais, quando atravessamos o espelho, deparam-se-nos outras pessoas (Turkle, 1995:11-2). A emergência destas comunidades podem configurar o que Lèvy (1994) denomina de uma inteligência coletiva, que se constrói no ambiente de rede, mediante uma necessidade pontual dos seres humanos, que intercambiam os saberes, trocando e construindo novos conhecimentos, estabelecendo assim, um laço virtual auxiliando os seus membros no aprendizado do que desejam conhecer. Ainda para este autor, esta inteligência não prescinde da inteligência pessoal, do esforço individual e do tempo necessário para aprender, pesquisar, avaliar e integrar-se a diversas comunidades, sejam elas virtuais ou não. Tranqüilizando os apocalípticos, Lèvy pontua que a rede jamais pensará por nós. É importante ressaltar que o processo de construção do conhecimento do coletivo para o individual não se constitui em uma abordagem nova, que emerge a partir da mediação das mídias telemáticas. Trata-se de uma perspectiva que vem sendo discutida desde a década de 1920 pela escola soviética (Luria, Leontiev), especialmente por Vygotsky (1995). Para este teórico, o desenvolvimento 127

3 128 e a aprendizagem ocorrem mediante um processo de internalização que se dá no decorrer das interações sociais mediadas por instrumentos e signos, que são elementos mediadores, os quais atuam no nível inter e intrapsíquico, respectivamente, possibilitando a transfiguração de funções psicológicas elementares em funções psicológicas superiores. Os saberes, informações e conhecimentos são socializados no coletivo (nível interpsíquico) e posteriormente o individuo dá significado a estas construções coletivas, internalizando novos saberes (nível intrapsíquico). Creio que esta deve ser a concepção que trafega nas comunidades de aprendizagem, existentes na Internet e construídas mediante interesses comuns dos sujeitos que interagem neste locus de aprendizagem. Contudo, apesar da proliferação dessas comunidades, percebe-se ainda a existência de resistências e dificuldades de convivência com estes espaços, que vejo como fruto, sobretudo, de três fatores: primeiro, porque os indivíduos têm que aprender a lidar com a diferença, o que sempre é algo complexo; segundo, porque esses ambientes exigem posturas autônomas (algo que a educação tradicional nunca incentivou); terceiro, porque necessitam interagir com suportes tecnológicos e ambientes digitais que, para muitos, ainda são realidades novas e distantes do seu cotidiano e de sua cultura. E, quando estas comunidades atendem a demandas da educação formal, percebemos uma acentuação dos fatores acima relatados, em função ainda de uma cultura e de uma concepção cristalizada da educação como um processo de assimilação de um conhecimento pronto que ainda persiste na maior parte dos alunos e professores, apesar dos discursos renovadores e dos avanços realizados nos processos de ensinar e aprender. Isso gera uma grande dificuldade desses sujeitos sustentarem o desejo de saber, indo além do senso comum, o que faz emergir, muitas vezes, uma nova categoria na educação: os evadidos online.

4 É importante ressaltar que as dificuldades acima pontuadas não se referem apenas às comunidades telemáticas, mas existem e persistem no cotidiano das relações presenciais, seja nos espaços de aprendizagem regular, isto é, instituições de ensino, seja nos diferentes espaços de aprendizagem, como a rua, por exemplo. Enquanto uma pesquisadora que busca estar atenta a minha práxis, venho procurando vivenciar situações de aprendizagem, nas quais possa aprender com o outro a ressignificar o meu fazer pedagógico, indo além da teorização. Isso fez com que emergisse o meu desejo de socializar uma experiência de comunidade virtual de aprendizagem vivida por mim e por um grupo de dezesseis alunos. Delineando a Proposta A experiência 4 surgiu a partir da realização de duas disciplinas (na modalidade de ensino presencial), denominadas Projeto Colaborativo de Aprendizagem em Rede e Educação a Distância, cada uma com trinta horas/aula, que se constituiram nas últimas disciplinas de um curso de especialização (pós-graduação lato sensu) em Informática e Educação, com carga horária total de 360 horas. O curso ofereceu disciplinas que objetivavam uma articulação teórica/prática e outras que enfatizavam a interação com os suportes tecnológicos. As disciplinas que ministrei tinham uma grande afinidade teórico/prática, por isso foram desenvolvidas de forma interligada, objetivando discutir os limites e possibilidade da construção coletiva de conhecimento em ambientes virtuais, contextualizando a modalidade de EAD desde da década de 1920 no cenário nacional e internacional, refletindo sobre compassos e descompassos das experiências realizadas utilizando as mídias digitais. Utilizamos os espaços da sala de aula convencional, do laboratório de informática conectado a Internet para realização das atividades 129

5 presenciais e elaboramos uma proposta de trabalho para os momentos não presenciais. Construção do Trabalho Online A nossa intenção foi construir coletivamente (sujeitos do processo: professor e alunos) um ambiente de aprendizagem utilizando as ferramentas free que encontramse disponibilizadas na Internet, para construção de comunidades de aprendizagem e realização de cursos a distância, vivenciando todas as dificuldades em interagir com estes suportes tecnológicos, bem como os limites de um curso a distância, a fim de propor novas possibilidades. 130 A Escolha das Ferramentas Atualmente existem na Internet uma infinidade de ferramentas que podem possibilitar a construção de comunidades de aprendizagem. Estes suportes devem ser escolhidos considerando o objetivo do projeto, buscando estabelecer interface com mais de uma ferramenta ao mesmo tempo, já que cada uma pode oferecer possibilidades diferentes. As ferramentas mais comuns são: As assíncronas, que se caracterizam por promover a comunicação em momentos distintos sem a presença dos sujeitos. Dentre estas, cito as seguintes: a) Listas de discussão objetivam agregar um grupo de pessoas que visam discutir uma determinada temática. O Yahoogrupos 5, o Grupos 6 e a Msn Grupos 7 oferecem hoje espaços para criação destas comunidades assíncronas, totalmente em português e autoexplicativos. A minha experiência tem mostrado que as listas vinculadas ao Yahoogrupos apresentam menos problemas de interface e mais possibilidades pedagógicas na medida em que os listeiros podem criar um ambiente para disponibilização

6 de textos, imagens, banco de dados, agenda, bate papo e realizar até enquetes com os seus membros. Neste espaço virtual, ficam disponíveis todas as mensagens enviadas pela lista, com o nome do remetente, o dia e o assunto, constituindo um grande banco de dados das discussões ocorridas, onde os interatores 8, podem resgatar as informações veiculadas sempre que tiver interesse. Além do ambiente do Yahoogrupos apresentar uma interface amigável, clean, o usuário pode configurá-lo para uma das oito matizes disponíveis. Um dos problemas do Yahoogrupos é que não podemos salvar as discussões da seção de bate-papo, para realizar esta tarefa é preciso utilizar a opção print scren, o que dificulta a interação posterior com as informações discutidas no chat. b) Blogs diários eletrônicos criados para os usuários construam suas anotações diárias pessoais, permitindo que os visitantes interajam com os seus discursos, ficando disponível para ser lido e comentado por qualquer pessoa ou apenas restrito ao seu proprietário. No Brasil, citamos o site da Globo.com 9 que oferece este ambiente totalmente em português e gratuito. c) Fórum 10 espaço criado para realizar discussões sobre uma determinada temática. Assemelha-se a uma lista de discussão, com a diferença de que os usuários tem acesso a todas as mensagens postadas, separadas por temas, metaforizando a concepção de árvore do conhecimento construída por Michel Authier e Pierre Lèvy 11. d) Whiteboard (quadro branco) espaço onde os usuários podem deixar avisos, textos, 131

7 imagens ou qualquer outro tipo de informação. Esta foi à única ferramenta que não foi utilizada durante as disciplinas. Estas ferramentas podem ser fechadas para um determinado grupo ou abertas para todos os usuários que trafegam na infovia da rede. e) Equitext 12 ferramenta criada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul que possibilita a construção de textos coletivos. Os usuários podem incluir, excluir, alterar e colocar observações nos parágrafos que vão sendo construídos coletivamente. É necessário enviar um para o suporte técnico, pedindo autorização para criar um texto. 132 As ferramentas síncronas, que se caracterizam por possibilitar a comunicação em tempo real. Destas, destacamos as seguintes: a) Chats 13 estas ferramentas são bastantes conhecidas e utilizadas nas comunidades de aprendizagem. Existem vários canais que possibilitam a realização de encontros on-line, inclusive criando salas particulares para a realização das atividades. Estes ambientes não exigem nenhum cadastramento anterior, os usuários escolhem o nickname ou apelido, digitam uma senha e podem entrar na sala. Atualmente existem ambientes que disponibilizam para o internauta a criação do seu próprio chat, sem necessidade de ter um servidor, como por exemplo: o ambiente da Msn.com.br e cjb.net 14, possibilitando assim, uma certa privacidade para um grupo de pessoas que desejam conversar sobre determinado tema sem a interferência de desconhecidos.

8 A realização dos chats com objetivos pedagógicos deve estabelecer algumas regras que serão construídas junto com o grupo, para possibilitar a participação de todos, bem como o atendimento das demandas dos usuários. Estas regras não têm o objetivo de tolhir ou inibir a participação dos sujeitos. Muito bem contrário; o objetivo é dar voz a todo o grupo, possibilitando a construção coletiva do conhecimento. b) Videoconferências - ferramentas que possibilitam a troca instantânea de discursos sonoros (falas) e imagéticos (vídeo), possibilitando que indivíduos que se encontram em ambientes separados possam realizar diálogos, vendo-se e escutando-se. Na Internet, existem alguns softwares que mediam as videoconferências, a exemplo do Netmeeting, embora estas experiências ainda se encontrem limitadas por conta da velocidade da conexão das redes. c) Softwares de mensagens instantâneas - programas (geralmente gratuitos) que permitem que um grupo de pessoas cadastradas numa rede possam identificar aqueles que se encontram online naquele instante e permitem envio instantâneo de mensagens, abertura de chats exclusivos, diálogos com trocas de sons, compartilhamento de imagens de vídeo, envio de s, troca de arquivos. Dentre os mais difundidos atualmente, temos o ICQ, o YahooMessenger, o MSN Messenger, o AOL Messenger, dentre outros. A partir da análise destas ferramentas, selecionamos os suportes que utilizaríamos durante nossas atividades a distância. 133

9 A nossa comunidade de aprendizagem teve como interface as ferramentas do Yahoo (que disponibilizou os serviços de agenda, chat, lista de discussão, banco de textos e imagens), do Equitext (que possibilitou a construção coletiva de textos), o Blog da Globo.com (nosso diário de bordo virtual, onde foram registrados os aspectos subjetivos que emergiram durante a experiência), o fórum (onde fizemos a tentativa de dar continuidade às discussões teóricas iniciadas na sala de aula presencial e na lista de discussão) e o chat (que se constituiu em mais um espaço síncrono para discussão teórica). As duas disciplinas do curso, já referenciadas anteriormente, possuíam uma home page inicial construída por mim e com links para todas as ferramentas relacionadas acima, incluindo o item Trilhas que tinham uma vinculação com a página Educação a distância: limites e possiblidades. Em conjunto com os alunos, foram estabelecidos pontos teóricos 17 que foram escolhidos por estes sujeitos, a fim de construir novas páginas, utilizando o Front Page para subsidiar a discussão das temáticas. 134 Premissas da Proposta Para realização da nossa empreitada pedagógica, foram estabelecidas as seguintes premissas: 1. Todos nós podemos modificar as produções dos colegas, desde que solicitemos previamente autorização dos mesmos. A autorização poderia ser feita através do Forumnow 18 ou da lista de discussão. 2. Cada aluno deverá ser responsável por pelo menos uma página em html sobre a temática discutida, isto é, Educação a distância: limites e possibilidades e apresentar três inserções na página de outra pessoa. 3. As páginas deverão ter links com a página inicial e com outros sites disponíveis na Web. 4. Todos os envolvidos no projeto terão a senha

10 para alimentar as páginas, modificando-as, linkando-as, enfim construindo um grande hipertexto sobre a temática referenciada. 5. As páginas serão hospedadas no site do GeocitiesYahoo Construiremos um Blog, nosso diário de bordo virtual, onde falaremos sobre o processo subjetivo de construção dessa experiência. 7. Realizaremos encontros no chat com o objetivo de discutir as questões ligadas à temática. Para tanto, estabeleceremos algumas regras a fim de alcançarmos nossos objetivos. 8. As ferramentas indicadas no menu do ambiente do Yahoogrupos (Agenda, Favoritos, Banco de Textos, Banco de Imagens, Enquete e Banco de dados) serão exploradas por todos os cursistas, sendo que cada aluno ficará responsável pela manutenção de uma ferramenta. A distribuição desta tarefa será realizada presencialmente em data a ser estabelecida. Obs: Todos poderão contribuir nos diferentes espaços, mas sempre haverá alguém responsável pela manutenção de um deles. 9. Todas as ferramentas elencadas acima deverão ser contempladas e utilizadas durante o curso. Os alunos e professor terão liberdade para criar outros itens no menu. 10. E finalmente, todos os envolvidos no projeto terão uma senha de acesso que será divulgada em data a ser estabelecida. Como já foi dito anteriormente, por conta da afinidade entre as duas disciplinas todo o trabalho foi interligado e contínuo. A nossa intenção era discutir as questões ligadas a ambientes de aprendizagem e EAD, vivenciando, experimentando, teorizando, dando significado a partir da prática, exercitando a ação/reflexão. No entanto, tivemos 135

11 uma longa caminhada e penso que o desafio não foi concretizado. Por que? Esta pergunta, que esteve presente em muitos momentos de nossa caminhada, foi socializada com os alunos, com quem busquei a interlocução, na tentativa de implicálos no processo, de encontrar soluções, alternativas para as dificuldades que afloravam a cada instante. Mas O Caminho Trilhado... Estávamos vivendo um momento diferente das disciplinas anteriores, na medida em que, além das aulas presenciais, realizávamos atividades a distância, adotando uma metodologia que exigia a participação ativa dos sujeitos, indo além da mera transmissão de informações. Nos encontros presenciais, discutíamos os textos, esclarecíamos as categorias teóricas e metodológicas que pautaram a proposta de trabalho e interagíamos com os suportes tecnológicos, já que três alunos não dispunham de computador conectado a Internet em casa para participar das atividades propostas, limitando-se ao laboratório da instituição. É interessante pontuar que, apesar de já estarem no final de um curso de especialização cujo objeto era a articulação tecnologia e educação, havia sete alunos que apresentavam muita dificuldade para utilizar os elementos tecnológicos, embora o curso tenha contemplado disciplinas que visavam essa instrumentalização A dificuldade de acesso e de interação foram aspectos que dificultaram o alcance dos objetivos propostos, mas não podemos deixar de sinalizar que, no laboratório, os pares que tinham afinidade se ajudavam mutuamente, resgatando a perspectiva vygotskiana de que se aprende com o outro que atua na zona de desenvolvimento proximal, mediando as relações. Este outro, aqui compreendido não só como sujeito, mas ainda como instrumentos e signos que também atuam como elementos mediadores no processo de apropriação da técnica.

12 O grupo era composto por apenas dezesseis pessoas, de faixa etária que variava entre 22 e 50 anos, com formação nas áreas de letras, história, biologia, geografia, pedagogia e informática. Apesar de ser um grupo pequeno, havia momentos de desintegração entre eles, fato que vinha ocorrendo ao longo de todo o curso, intensificados nas disciplinas finais, que tinham como premissa a construção coletiva do conhecimento, já que enfatizavam a colaboração, exigindo dos sujeitos do processo de ensinar e aprender o exercício do seu papel de interator. O Revés do Processo Para realizar o exercício de aprender com o diferente e romper com o modelo de prática tradicional, centrada no discurso do professor, tentamos concretizar um processo de troca que tinha como base a comunicação síncrona e assíncrona. Contudo, a experiência de produzir coletivamente apontou diferentes reveses em cada ferramenta utilizada, como podemos ver na análise abaixo. Equitext: A Menina dos Olhos A proposta foi construir, no Equitext, um texto sobre ambientes colaborativos, tentando articular a vivência dos envolvidos e os referenciais teóricos sobre a temática, dando coerência e coesão ao discurso. Porém, esse objetivo não foi atingido, apesar de ter sido registrado cinqüenta e seis participações e inferências dos alunos, durante a construção, pois a produção se configurou em uma grande colcha de retalhos, fato este que foi apontado pelos próprios sujeitos do processo, no Blog, na lista de discussão e no fórum. Todavia, apesar da consciência que alguns alunos tinham do subaproveitamento da ferramente, eles não se sentiam à vontade ou mobilizados para ir construindo os nós de sentido na experiência de escrita coletiva, embora fossem constantemente incentivados a fazê-lo. Esta situação caracterizava uma certa passividade frente a algo que os incomodava, mas não o suficiente que 137

13 eles propusesse ou realizassem mudanças. Somente no fórum (espaço destinado às discussões teóricas, que não ocorreram) foram postadas cinqüenta e uma mensagens, sendo que vinte e duas registravam a fragmentação do texto coletivo. O que pode ser percebido nos seguintes discursos: 20 Sujeito 1 Pessoal, acho que precisamos rever as colocações no Equitext. Talvez fazer uma revisão no texto inteiro, de forma que todos participem. O que acham? Sujeito 2 Por que aquele que detecta o erro não faz o conserto? 138 Sujeito 3 Concordo plenamente mas efetivamente o que faremos princesa? Sabe de uma? Poderíamos em sala brincar de quebra cabeças, cada grupo de alunos montaria uma ordem e no final fecharíamos com texto mais coeso.uma aula presencial diferente com o Equitext. Ops... será que Professor e vcs aceitariam como sugestão? Talvez não tenhamos tempo... Daria certo com os alunos?.o vc pensa. Desculpe demorar de responder. Apenas o sujeito 3 tentou reconstruir o texto, imprimindo-o e recortando os parágrafos, como se fosse um grande mosaico de idéias. Os demais se mantiveram no nível da queixa, inclusive sinalizando que o professor deveria fazer essa reestruturação, como aponta o Sujeito 4: Concordo com vc, porém o nosso tempo neste momento é muito curto. Será que a análise final do material não deveria ser feita por um orientador, de modo a verificar o que está fora ou não do contexto? Esta analise poderia ser feita via , além de indicar um material que sirva como base teórica. Na verdade, os alunos não imergiram na lógica da ferramenta, que exige uma interlocução coletiva, onde todos

14 podem modificar o texto de todos, não existe uma única autoria, isto é, não existe o meu texto, mas o nosso texto. Os parágrafos, embora sejam adicionados individualmente, sinalizando o nome, dia e horário de quem introduziu a última modificação, podem (e devem) ser modificados e não pertencem a ninguém em especial, mas ao grupo responsável pelo texto. Embora os alunos não tenham interagido com a lógica do Equitext, esta ferramenta ocupou o lugar da grande descoberta, na medida que estes faziam questão de apontar, nos momentos presenciais e a distância, o potencial da mesma. Sujeito 3 O Equitext entretanto foi o menino dos meus olhos; apesar de não ter acessado um monte de vezes descobri logo um monte de coisas; demorei de escreve lo e fiquei chateada porque ele ainda estava aberto hoje vou tentar não escrever HyperCiber paper (Neologismo do texto do equi com os caminhos que decidi). Sujeito 5 Minha principal descoberta, foi o Equitext. Foi realmente incrível trabalhar com essa ferramenta. É interessante (e sintomático) o fato de uma ferramenta mobilizar tanto os sujeitos, pela novidade, pela riqueza e pela possibilidade de uma escrita coletiva, e, ao mesmo tempo, ser tão pouco explorada por eles próprios. É mais interessante ainda refletir sobre como esses alunos (também professores) podiam vislumbrar uma série de aplicações (ricas) da ferramenta com os seus alunos e se relacionar com a sua dificuldade de interação. Esse peradoxo me trazia a dúvida: Seria possível professores que não conseguem vivenciar a experiência de produzir no coletivo, respeitando a diversidade, conseguirem, com seus alunos, concretizar tal desafio? Não estariam estes professores sendo incoerentes com o discurso? 139

15 140 O Blog como a Grande Vedete É interessante pontuar como os sujeitos do processo de ensinar e aprender sentem-se mobilizados para falar de si mesmos, de suas angústias, dificuldades, de registrar a queixa, de exibir-se. O Blog ocupou no imaginário dos discentes do curso um espaço de prazer. Inicialmente, a participação era tímida, frases rápidas e recadinhos, que foram passando por uma nova configuração mediante a participação dos pares. O sujeito 3 que, desde adolescente, tinha o hábito de escrever no seu diário, começou a fazer os registros, seguindo a lógica dos diários adolescenciais, inserindo imagens, poemas, frases, e muito texto. Esta prática começou a ser imitada por outros membros do grupo. Mas não se tratava apenas uma cópia, reprodução do que o outro estava fazendo, mas de uma ressignificação do que vinha sendo feito, com a marca pessoal de cada sujeito do processo. O Blog se constituiu em mais um espaço para denunciar os entraves que imobilizaram a participação coletiva do grupo, em geral relacionados com suas dificuldades de relacionamento. Sujeito 6 Os destemperos emocionais, os psíquicos difíceis contribuíram de forma negativa muitas das vezes. Todavia de tudo existem dois lados. O processo de aprendizagem durante todo o ano, que convivemos juntos, foi fantástico. Nunca seria possível descobrir como viver com o diferente é tão complicado e, por conseguinte como precisamos nos educar para isso Ou ainda Sujeito 7 Todavia não posso afirmar que os problemas de convivência, nesta turma, tenham sido superados. Perdemos um tempo precioso e tenho convicção de que a produção coletiva teria sido bem melhor caso as

16 relações interpessoais se constituíssem de uma forma mais amadurecida. Que pena!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 21 O exercício de escuta, de tolerância e de aceitação do outro neste grupo ainda está em processo de gestação, embora a nossa experiência tenha se constituído em um grande exercício para todos nós. O descompasso das relações interpessoais no grupo intensificou a dificuldade de construir coletivamente, onde todos os sujeitos pudessem intervir e interferir na produção do outro, culminando com a produção de conhecimento e sentido nos ambientes virtuais, mediante essas trocas interativas. Havia uma preocupação em se posicionar frente às informações que foram disponibilizadas no fórum, no Blog, na lista de discussão, no equitext e na página em html construída por cada sujeito e disponibilizada na rede, já que não sabiam conviver com a diferença, com a interlocução do outro. Por isso, o sujeito 3 fez a reconfiguração do texto fora da ferramenta, a fim de evitar novos embates, já que interferir no texto do outro poderia significar desqualificação daquele que fez a primeira escrita. A dificuldade de lidar com a crítica e se defrontar com o seu não-saber paralisava estes sujeitos, colocando-se em posições bem ambivalentes, já que não conseguiam alcançar os objetivos da proposta nem em nível individual nem no coletivo. Contudo, depois dos primeiros e tímidos contatos com o Equitext e o Blog, começaram a participar, contribuindo com o seu olhar mesmo que descontextualizado do todo. Da Reinvenção da Roda à Construção de Sentidos A lista de discussão, o fórum e o chat deveriam se caracterizar como ambientes para estabelecer discussões teóricas, contudo, elas não aconteciam apesar das constantes chamadas realizadas por mim, sinalizando uma dificuldade em pensar teoricamente sobre os problemas que 141

17 envolvem a prática pedagógica em ambientes de aprendizagem, acentuando, assim, um fato que observamos cotidianamente na nossa prática enquanto professores: a dificuldade que os alunos têm de ler, sistematizar e escrever, respaldado por um conhecimento já construído teoricamente. Prefere-se inventar a roda, circulando sempre num discurso vazio de significado. Surgem, assim, questões como: onde anda o desejo destes sujeitos em aprender? O que os leva a buscar cursos de especialização quando não existe o desejo de aprofundar teoricamente os seus conhecimentos? Somente a necessidade do título? Como transpor o discurso da queixa, do desagrado das aulas em uma perspectiva tradicional que se limita à transmissão de informações, para emergir uma proposta que ocupe um lugar diferente, de sujeitos autônomos? Segundo Preti 142 ter autonomia significa ser autoridade, isto é, ter força para falar em próprio nome, poder professar (daí o sentido de ser professor) um credo, um pensamento, ter o que ensinar a outrem, ser possuidor de uma mensagem a ser proferida. Em outras palavras, é ser autor da própria fala e do próprio agir. Daí a necessidade da coerência entre o dizer e o agir, entre a ação e o conhecimento, isto é, não separação desses dois momentos interdependentes (2000:131). Por que é tão difícil professar as concepções, os desejos? Percebe-se nas comunidades de aprendizagem a existência de sujeitos que optam por apenas observar o que acontece, exercitando assim a sua pulsão escópica, o seu desejo de ver. Freud (1976) diria que esta pulsão é fundamental para despertar o desejo de saber. Contudo, o desejo de saber do grupo envolvido no trabalho não foi mobilizado, indo de encontro à perspectiva do autor.

18 Quando questionados sobre a sua não implicação no processo, eles se calavam. Mas estabeleci como exigência para concluir a avaliação quantitativa das disciplinas um posicionamento quanto a este aspecto no Blog e aí foram relatadas diferentes justificativas, como por exemplo: Sujeito 8 Exercitei pouco a minha autonomia. Infelizmente toda a riqueza de potencialidades do ambiente disponibilizado não foi por mim explorado. Isto prova que existência dos meios é condição necessária mas não suficiente 22. Além disto, ressalta-se que o apoio, orientação e estímulos para despertar a motivação sempre estivem presentes por parte do facilitador. O que faltou? E onde ficou a colaboração? Quase não colaborei comigo imagine com os outros. Tínhamos todas as condições disponíveis. Sinto que se houvesse maior tempo os resultados seriam melhores. Mas tempo é uma questão de prioridade. Não pude priorizar. Alguns compromissos profissionais incluindo deslocamentos em viagens afetaram-me. O tempo realmente ficou curto. Mas a semente foi plantada. Vencido o obstáculo citado não enxergo outro que possa me atrapalhar. Vamos a luta companheiro!!! Sujeito 9 Nem sempre a oportunidade que nos surge de sermos autônomos no que fazemos, nos é agarrada com tanta sabedoria e grandeza. Por muitas vezes por questões de não estarmos habituados com esta nova concepção ou novas mudanças, ou por problemas particulares que não nos permitem fazer tudo o que queremos. Vários foram os obstáculos que impediram o meu avanço nas disciplinas Ensino Colaborativo e EAD. A proposta inovadora, no início não causa impacto, digo, aquela pressão típica na execução das tarefas para conclusão de uma disciplina. Mas, ao decorrer das aulas 143

19 presenciais pude perceber que além de ser algo inovador, que vinha para quebrar as amarras da Educação tradicional, era algo em que eu poderia estar livre para extravasar meus potenciais Sujeito 8 Belíssimo Diário, fui convidada a refletir sobre minha autonomia intelectual nestas disciplinas o que me fez pensar sobre essa grande conquista almejada por todo ser humano. Confesso que fiquei bastante mobilizada, pois percebi que não me sinto intelectualmente autônoma para discursar ou até mesmo usar meus conhecimentos sobre NT autonomamente. Porém descobri que minha capacidade intelectual foi bastante ampliada após essas disciplinas o que me permite afirmar que tudo que aprendi será usado como conhecimentos prévios para novas descobertas que, com certeza, continuarei a buscar. (...) Carinhosamente, 144 Os relatos dos sujeitos envolvidos no processo (apenas dois alunos não fizeram o registro) confirmam que as questões subjetivas interferem significativamente no caminhar do grupo, resultando não só em frustrações, mas em perdas qualitativas para o crescimento intelectual e afetivo dos indivíduos. Portanto, os aspectos pontuados não podem ser esquecidos ou preteridos no processo de ensinar e aprender presencialmente ou a distância. Aprender a lidar com a diferença, investir no processo de construção da autonomia, interagir com os suportes tecnológicos e trilhar os caminhos do desejo tornam-se condições sine qua non para construir conhecimento. Concluo o texto com um agradecimento especial a estes interlocutores que possibilitaram pensar/repensar o meu fazer pedagógico, pois sem a existência destes sujeitos parceiros não existe aprendizagem.

20 Notas 1 Texto fruto de uma experiência de construção de um ambiente de aprendizagem junto a alunos de pós-graduação Tradução da autora do artigo. 4 Ministrei as disciplinas Ambientes colaborativos e Educação a Distância em um curso de especialização nos meses de agosto a outubro/ Interator aqui compreendido na perspectiva de Machado (2002), enquanto sujeito que participa ativamente, experimentando, negociando, construindo mediante a sua imersão nos diferentes espaços Supports_Demo/9 LÈVY, Pierre e AUTHIER, Michel. As árvores de conhecimentos. São Paulo: Escuta, www. equitext.pgie.ufrgs. 13 e /www3.prossiga.br/chat/ Neste caso, é necessário dar o download do programa e instalar no computador ou acessar o go.icq.com utilizando o ICQ online. 16 Este software normalmente vem com o pacote Windows. 17 Histórico da EAD; Aspectos legais; Ações públicas e privadas; Perspectativas instrucional ou construtivista; Tutor ou professor? Netiqueta e Direito autoral e a Internet;. Instituições de EAD no Brasil;. Experiências de EAD e Universidade Corporativa Os textos dos sujeitos foram transcritos na integra, sem correção gramatical. 21 Relato de dois membros do grupo. 22 Grifo meu. 145

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