PODER JUDICIÁRIO Justiça Federal de Primeira Instância SEÇÃO JUDICIÁRIA DO ESTADO DE SERGIPE 1ª VARA FEDERAL D E C I S Ã O

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1 PODER JUDICIÁRIO Justiça Federal de Primeira Instância SEÇÃO JUDICIÁRIA DO ESTADO DE SERGIPE 1ª VARA FEDERAL Processo nº Classe 1 AÇÃO CIVIL PÚBLICA Autor: MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL Réus: MUNICÍPIO DE PROPRIÁ/SE E OUTRO D E C I S Ã O 142: Adoto, inicialmente, o relatório da decisão proferia nas fls O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SERGIPE MP/SE ajuizou Ação Civil Pública em face do MUNICÍPIO DE PROPRIÁ/SE e da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL CEF objetivando a nulidade de contrato de prestação de serviços financeiros celebrados entre os réus. Sustenta, inicialmente, a competência da Justiça Federal para processar e julgar o feito, dada a circunstância de a CEF ser parte, subsumindo-se o caso à norma de competência inserta no art. 109, inciso I, da Constituição da República. Defende, também, o cabimento da ação civil pública, prevista no art. 129, III, da CF/88 e no art. 1º da Lei n /85, por ser ela a via adequada para reprimir danos ao patrimônio público, ao meio ambiente, ao consumidor, a bens de valor histórico, turístico, paisagístico, dentre outros direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos da sociedade, assim como a legitimidade do Ministério Público para aforá-la, com base na CF/88 e na LACP, esta complementada pela Lei n /90, e a legitimidade de qualquer pessoa, física ou jurídica, para figurar no pólo passivo da ação, inclusive em litisconsórcio. Depois passa a narrar os fatos, afirmando que instaurou Procedimento Administrativo com vistas a esclarecer denúncia efetuada pelo sindicato dos empregados em estabelecimentos bancários no Estado de Sergipe à Procuradoria Geral de Justiça, noticiando que o Prefeito do Município de Própria-SE teria negociado a folha de

2 pagamento dos servidores a banco diverso do BANESE Banco do Estado de Sergipe, em manifesta afronta à Constituição Estadual. Diz que a Prefeitura Municipal encaminhou ao parquet o Ofício nº 52/2008, acompanhado de diversos documentos, dentre eles cópia do Termo de Contrato n. 41/2008, celebrado entre ela e a CEF, e cópia da dispensa de licitação para a contratação daquela, apoiando-se, para tanto, no art. 24, inciso VIII, da Lei n /93. Afirma que, da análise do material apresentado, dessume-se que, no dia 14/04/2008, os requeridos celebraram um contrato de prestação de serviços financeiros, através do qual aquela Municipalidade obrigou-se a centralizar na CEF 100% (cem por cento) da sua folha de pagamento, da receita e da movimentação financeira, pagamento a credores e fornecedores, movimentação de fundos do Poder Executivo Municipal, depósitos judiciais, arrecadação de todos os tributos cobrados pelo Município e concessão de crédito aos servidores ativos e inativos, pensionistas e estagiários da Prefeitura Municipal, e órgãos da administração direta e indireta. Em contrapartida, a CEF desembolsou a o equivalente a R$ ,00 (seiscentos e cinqüenta mil reais) creditado ao Município de Própria em conta de livre movimentação do ente público. Acrescenta que desse material verificam-se evidentes indícios de atos inegavelmente lesivos ao erário municipal, e ofensivos aos princípios constitucionais da Administração Pública estabelecidos na CF, na CE e na Lei n /93. Alega, também, que, objetivando a solução do problema, encaminhou ao Município Recomendação solicitando a anulação do contrato e a realização de procedimento licitatório voltado a negociar prestação de serviços bancários para pagamento de salários, garantido participação igualitária de todas as instituições bancárias, mas que, apesar dos esforços empreendidos por aquele representante promotorial, o Município quedou-se silente. Assevera que, durante o Procedimento Administrativo, foram ouvidos servidores municipais, os quais afirmaram que, em decorrência do contrato em questão, foram forçados a abrir contas na CEF condição para receber seus vencimentos gerando-lhes prejuízos, uma vez que as taxas utilizadas pelo BANESE para concessão de empréstimos consignados, créditos pessoais, carteira de crédito imobiliário etc., são por demais atrativas comparadas às ofertadas pelas demais instituições bancárias, além de eles terem de pagar vultosas taxas caso desejem realizar transferências bancárias. II

3 Tece comentários acerca da inexigibilidade de licitação para a utilização de instituição financeira oficial para abrigar os depósitos das disponibilidades de caixa dos municípios, por ser medida compulsória estabelecida na Constituição Federal e em lei complementar (LRF), bem como da necessidade de realização de procedimento licitatório para a contratação de serviços bancários para a realização do pagamento de servidores, uma vez que não se confundem com as disponibilidades de caixa, sujeitas ao monopólio de instituições financeiras oficiais. Sustenta ainda que o contrato firmado entre os requeridos é flagrantemente inconstitucional, haja vista sua dissonância com os postulados da Constituição do Estado de Sergipe, estabelecidos no seu art. 148, o qual determina que em se tratando de recursos financeiros originários do próprio Estado e dos seus Municípios, o banco oficial de depósito será o BANESE, ressalvados os casos em que não houver agência deste na localidade. Requer a concessão de medida liminar para que seja determinado: 1) a suspensão da vigência do contrato de prestação de serviços financeiros celebrado entre o Município de Própria e a CEF; 2) que os recursos financeiros originários do Município sejam depositados no BANESE, de acordo com o art. 148, da CE; 3) ao Município de Própria a obrigação de realizar, dentro do prazo máximo ora sugerido de 90 (noventa) dias, procedimento licitatório destinado à contratação de serviços bancários relativos à centralização e ao processamento de 100% (cem por cento) da folha de pagamento de seus servidores, ativos e inativos, sob pena de multa diária de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), ressalvados os valores relacionados às disponibilidades de caixa do Poder Executivo Municipal, que deverão ser depositados em instituições financeiras oficiais, conforme determina o art. 164, 3º, da CF/88, o art. 148 da CE e o art. 43 da LC nº. 101/00; 4) ao Município de Própria a obrigação de restituir, no prazo de 120 (cento e vinte) dias, proporcionalmente ao tempo contratado já transcorrido, os valores desembolsados pela empresa pública federal, a título de remuneração do contrato de prestação de serviços financeiros celebrados com a CEF, sob pena de multa diária de R$ 5.000,00 (cinco mil reais). E acrescendo: Juntou os documentos de fls. 44/134. Através da decisão de fls. 136/142 reconheci a competência desta Justiça Federal para processar e julgar o feito, e a legitimidade do Ministério Público Estadual para ajuizar a demanda, bem assim III

4 determinei a citação dos requeridos para responderem à ação, resguardando-me para analisar o pedido de antecipação dos efeitos da tutela após a formação do contraditório. Foi publicado edital para conhecimento de terceiros (fl. 149). A Caixa Econômica Federal apresentou defesa, fls , acompanhada dos documentos de fls , através da qual argúi, preliminarmente, a ilegitimidade do Ministério Público Estadual. No mérito, sustenta a impossibilidade de transferência das disponibilidades de caixa (incluindo a abertura de contas e a folha de pagamento) do Município para instituições financeiras privadas e a caracterização da CEF como instituição financeira oficial (pública). Defende, também, a possibilidade de sua contratação com dispensa de licitação, com base no art. 24, VIII, da Lei n /93. O Município de Própria deixou transcorrer o prazo para defesa sem qualquer manifestação, conforme certidão de f Os autos retornaram conclusos para apreciação do pedido de antecipação dos efeitos da tutela. É o relatório. Passo a decidir. Antes de analisar o pedido de tutela de urgência, esclareço que a preliminar suscitada pela CEF, de ilegitimidade do Ministério Público Estadual já foi apreciada na decisão de fls , contra a qual a CEF não se insurgiu. Naquela oportunidade, assim me manifestei: Ultrapassada a questão da competência, que não se confunde com legitimidade e que antecede esta, há de se registrar a legitimidade do Parquet, uma vez que ele não está defendendo interesse da União, ou de suas respectivas autarquias e empresas públicas caso em que seria legitimado o Ministério Público Federal mas sim interesse municipal. Então, possuindo legitimidade para defender tal interesse e litigando contra uma Empresa Pública Federal, correto o ajuizamento nesta Justiça. É o que se retira do precedente a seguir transcrito, oriundo do STJ: RECLAMAÇÃO. USURPAÇÃO DE COMPETÊNCIA. AÇÃO DE IMPROBIDADE DIRIGIDA CONTRA EX- GOVERNADOR E OUTROS. COMPETÊNCIA DO E. STJ. PRECEDENTES DA CORTE ESPECIAL. IV

5 (omissis). 3. Consectariamente, a ação de improbidade proposta em data em que vigia a Lei nº /2003, que alterou o art. 84, do CPP, deveria ter sido manejada pelo MPF, razão pela qual, manifesta a ilegitimidade ad causam do Ministério Público Estadual que calcou a sua titularidade na premissa da inconstitucionalidade da lei, afastada pela Corte Especial. 4. Sob essa ótica é cediço no E. STJ que: "PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. TUTELA DE DIREITOS TRANSINDIVIDUAIS. MEIO AMBIENTE. COMPETÊNCIA. REPARTIÇÃO DE ATRIBUIÇÕES ENTRE O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL E ESTADUAL. DISTINÇÃO ENTRE COMPETÊNCIA E LEGITIMAÇÃO ATIVA. CRITÉRIOS. 1. A ação civil pública, como as demais, submete-se, quanto à competência, à regra estabelecida no art. 109, I, da Constituição, segundo a qual cabe aos juízes federais processar e julgar "as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de acidente de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e a Justiça do Trabalho". Assim, figurando como autor da ação o Ministério Público Federal, que é órgão da União, a competência para a causa é da Justiça Federal. 3. Não se confunde competência com legitimidade das partes. A questão competencial é logicamente antecedente e, eventualmente, prejudicial à da legitimidade. Fixada a competência, cumpre ao juiz apreciar a legitimação ativa do Ministério Público Federal para promover a demanda, consideradas as suas características, as suas finalidades e os bens jurídicos envolvidos. 4. À luz do sistema e dos princípios constitucionais, nomeadamente o princípio federativo, é atribuição do Ministério Público da União promover as ações civis públicas de interesse federal e ao Ministério Público Estadual as demais. Considera-se que há interesse federal nas ações civis públicas que (a) envolvam matéria de competência da Justiça Especializada da União (Justiça do Trabalho e Eleitoral); (b) devam ser legitimamente promovidas perante os órgãos Judiciários da União (Tribunais Superiores) e da Justiça Federal (Tribunais Regionais Federais e Juízes Federais); (c) sejam da competência federal em razão da matéria as fundadas em tratado ou contrato da União com Estado estrangeiro ou organismo internacional (CF, art. 109, III) e as que envolvam disputa sobre direitos indígenas (CF, art. 109, XI); (d) sejam da competência federal em razão da pessoa as que devam ser propostas contra a União, suas entidades autárquicas e empresas públicas federais, ou em que uma dessas entidades figure entre os substituídos processuais no pólo ativo (CF, art. 109, I); e (e) as demais causas que envolvam interesses V

6 federais em razão da natureza dos bens e dos valores jurídicos que se visa tutelar (...)" (REsp /SE). (...). 1 (O original não contém negritos). Para tornar mais claro tal fundamento, há de se ter em mente que os Estados e Municípios quando ajuízam ação contra a Caixa Econômica Federal, devem fazê-lo, obviamente, por força de norma constitucional, perante a Justiça Federal. Assim, não há razão para que o Ministério Público Estadual, um ente estadual, não possa fazê-lo. Assim, reitero os fundamentos ali exarados para manter a legitimidade do Ministério Público Estadual. Ultrapassada esta questão, faz-se necessária uma análise dos requisitos e pressupostos indispensáveis para o deferimento da antecipação dos efeitos da tutela. Com efeito, assim dispõe o art. 273 do Estatuto Processual Civil: O juiz poderá, a requerimento da parte, antecipar, total ou parcialmente, os efeitos da tutela pretendida no pedido inicial, desde que, existindo prova inequívoca, se convença da verossimilhança da alegação e: I - haja fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação; ou II - fique caracterizado o abuso de direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório do réu. Acrescenta o 2º, do mesmo artigo: 2º - Não se concederá a antecipação da tutela quando houver perigo de irreversibilidade do provimento antecipado. Para que seja deferida a medida pleiteada, portanto, devem estar presentes: 1) a verossimilhança das alegações, calcada em prova inequívoca e, concomitantemente, 2) fundado receio de ocorrência de dano irreparável ou de difícil reparação, ou fique caracterizado o abuso de direito de defesa ou manifesto propósito protelatório do réu. 1 Origem: STJ - SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, Classe: PET - PETIÇÃO Processo: UF: RJ Órgão Julgador: CORTE ESPECIAL, Data da decisão: 18/05/2005 Documento: STJ VI

7 Quanto ao primeiro dos requisitos, são três as questões a serem resolvidas: 1) a possibilidade de as Pessoas Políticas de direito público interno contratarem com instituições financeiras não oficiais a prestação de serviços envolvendo o depósito de suas disponibilidades de caixa e os serviços de que se valem para realizarem o pagamento de seus servidores; 2) o enquadramento da CEF como instituição financeira oficial; 3) a possibilidade de contratação da CEF através do procedimento de dispensa de licitação. Em relação às duas primeiras dessas questões, sobre a contratação de instituições financeiras não oficiais pelo Município, e do enquadramento da CEF como instituição financeira oficial, as Constituições Federal e Estadual assim dispõem: Constituição Federal/88: Art A competência da União para emitir moeda será exercida exclusivamente pelo banco central. (...) 3º - As disponibilidades de caixa da União serão depositadas no banco central; as dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e dos órgãos ou entidades do Poder Público e das empresas por ele controladas, em instituições financeiras oficiais, ressalvados os casos previstos em lei. Constituição Estadual/89 Art As disponibilidades de caixa do Estado e dos Municípios, bem como dos órgãos ou entidades do Poder Público e das empresas por ele controladas serão depositadas em instituições financeiras oficiais, ressalvados os casos previstos em lei. Parágrafo único. Tratando-se de recursos financeiros originários do próprio Estado e dos seus Municípios, o banco oficial de depósito será o Banco do Estado de Sergipe S/A - BANESE, ressalvados os casos em que, na localidade, não exista agência deste Banco. As referidas Cartas Políticas, portanto, estabelecem a obrigatoriedade de depósito das disponibilidades de caixa dos Municípios VII

8 em instituições financeiras oficiais. E mais: a Constituição Estadual determina que na hipótese de os recursos financeiros serem originários do próprio Estado ou de seus Municípios, o banco oficial para depósito será o Banco do Estado de Sergipe S/A BANESE. Assim, é necessário observar a distinção entre a disponibilidade de caixa do Município e o depósito da folha de pagamento dos servidores públicos municipais. A disponibilidade de caixa se traduz nos valores pecuniários de propriedade do ente da federação e a ele disponíveis, destinados essencialmente à consecução de suas políticas públicas, enquanto que o depósito relativo à sua folha de pagamento é de propriedade dos servidores titulares das contas utilizadas, não estando disponíveis ao Município, por se constituírem em autênticos pagamentos de despesas (despesas liquidadas) daquela Pessoa Política, conforme previsto no artigo 13 da Lei 4.320/64. Dessa forma, os depósitos da folha de pagamento do ente municipal, por não se caracterizarem com disponibilidade de caixa dos municípios, não se encontram abrangidos pela norma restritiva dos arts. 164, 3º, da CF/88 e 148 da CE/89. Nesse sentido já se posicionou o Supremo Tribunal Federal: EMENTA: CONSTITUCIONAL. ESTADOS, DISTRITO FEDERAL E MUNICÍPIOS: DISPONIBILIDADE DE CAIXA: DEPÓSITO EM INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS OFICIAIS. CF, ART. 164, 3º. SERVIDORES PÚBLICOS: CRÉDITO DA FOLHA DE PAGAMENTO EM CONTA EM BRANCO PRIVADO: INOCORRÊNCIA DE OFENSA AO ART. 164, 3º, CF 2. Somente a disponibilidade de caixa do ente municipal está submetida ao depósito compulsório em instituições financeiras oficiais, podendo outras modalidades de disponibilidades de recursos financeiros, a exemplo de verbas postas à disposição dos servidores municipais ou dos fornecedores do município ser depositadas em outras instituições bancárias. 2 STF Rcl-AgR 3872/DF Tribunal Pleno Rel. Min. Marco Aurélio, j. 14/12/05, pub. DJ 12/05/06, p. 05. VIII

9 Além disso, impõe a Constituição do Estado de Sergipe que, dentre essa disponibilidade de caixa, os recursos financeiros originários do próprio Estado e dos seus Municípios sejam depositados no Banco do Estado de Sergipe S/A - BANESE, que será banco oficial para este fim. Destarte, ainda que a Caixa Econômica Federal CEF seja uma instituição financeira dotada integralmente de recursos públicos e de ser a União a única detentora do seu capital social, não pode ser considerada instituição oficial para abarcar toda a disponibilidade de caixa do Município de Própria, tendo em vista a restrição da Carta Estadual de que tais verbas devem ser obrigatoriamente depositadas no BANESE. Ressalte-se que esta norma da Constituição Estadual não contraria o preceito do art. 164, 3º, da Constituição Federal; apenas mantém as disponibilidades de caixa do Estado de Sergipe e de seus municípios em um banco estadual, não possibilitando a sua transferência para a iniciativa privada. Com isso, tem-se que as disponibilidades de caixa do Município de Própria devem ser, necessariamente, depositadas junto a uma instituição financeira oficial, bem assim que os recursos financeiros originários do próprio Município ou do Estado de Sergipe devem ser depositados no Banco do Estado de Sergipe S/A BANESE. De outro lado, os depósitos relativos à folha de pagamento dos servidores municipais ou qualquer outro que se caracterize como pagamento de despesa, por não ficarem disponíveis à Municipalidade, podem ser efetuados noutras instituições financeiras oficiais ou privadas. A terceira questão a ser resolvida neste feito reporta-se à possibilidade de contratação da Caixa Econômica Federal CEF pelo Município de Própria através do procedimento de dispensa de licitação. Nesse ínterim, verifico que a CEF é uma empresa pública destinada, primordialmente, à execução de políticas públicas do Governo Federal, operando no setor habitacional, administrando o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço FGTS e diversos programas sociais, a exemplo do Bolsa Família, além de outras finalidades. IX

10 Contudo, a CEF também exerce atividade típica do setor bancário, inclusive mantendo contas correntes e de poupanças de pessoas físicas e jurídicas desvinculadas de qualquer política pública do Governo Federal. Dessa forma, a norma do art. 24, VIII, da Lei n /93 3, que prevê ser dispensável a licitação para a aquisição de bens produzidos ou serviços prestados por órgão ou entidade que integre a Administração Pública, não pode incidir indistintamente em toda e qualquer contratação dos serviços por ela prestados. A CEF, enquanto empresa pública, está dispensada de licitação, quando o contrato tiver por objeto a consecução de políticas públicas, a exemplo dos planos habitacionais. Mas quando o objeto do contrato for relativo a atividade bancária típica, sujeita-se às regras de mercado, à livre concorrência e aos demais princípios da ordem econômica estampados na CF/88, e, assim, deve se submeter ao procedimento licitatório. Sobre o tema, veja-se o julgado abaixo, cujo entendimento adotado é aplicável ao presente caso: ADMINISTRATIVO. LEITURA DE HIDRÔMETROS E IMPRESSÃO SIMULTÂNEA DE CONTAS COM ENTREGA AO CONSUMIDOR. ECT. SERVIÇO POSTAL. INEGIBILIDADE DE LICITAÇÃO. ART. 25, LEI N.º 8.666/93. VIABILIDADE DE COMPETIÇÃO. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. - A existência de várias empresas especializadas, descaracteriza a inviabilidade de competição, desautorizando a contração por inexigibilidade de licitação, nos termos do art. 25 da Lei n.º 8.666/93. - A leitura de hidrômetros por meio eletrônico com impressão simultânea de contas de consumo de água, não apresenta as características de serviço postal que conferem exclusividade à da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos - ECT. - A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos - ECT, como empresa pública, quando não exerce atividade postal 3 Art. 24. É dispensável a licitação: (...) VIII - para a aquisição, por pessoa jurídica de direito público interno, de bens produzidos ou serviços prestados por órgão ou entidade que integre a Administração Pública e que tenha sido criado para esse fim específico em data anterior à vigência desta Lei, desde que o preço contratado seja compatível com o praticado no mercado; X

11 típica, sujeita-se às regras de mercado, à livre concorrência e aos demais princípios da ordem econômica estampados na CF/88. - Não viola o monopólio postal conferido à Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos - ECT, a contratação por licitação de empresa prestadora de serviços de leitura de hidrômetros com impressão e entrega simultânea de contas de consumo ao consumidor final. - Caracterizada a viabilidade de competição, justifica-se a antecipação da tutela para suspender a contratação por inexigibilidade de licitação até o julgamento final da ação. - Prequestionamento estabelecido pelas razões de decidir. - Agravo de instrumento improvido. Agravo regimental prejudicado 4. No caso dos autos, a parcela dos serviços que poderiam se contratados com a Caixa Econômica Federal CEF, tendo em vista a imposição contida nos artigos. 164, 3º da CF/88 e 148 da CE/89, em especial o repasse da folha de pagamento dos servidores municipais, não se enquadra naqueles executados pela CEF, vinculados a políticas públicas do Governo Federal, e tampouco naqueles cuja exploração ou exercício lhe é exclusivo, a exemplo dos serviços de Loteria e de penhor civil. Serviços dessa natureza caracterizam-se como atividade tipicamente bancária, devendo a CEF se sujeitar, em iguais condições, com as entidades privadas, aos princípios constitucionais da ordem econômica e ao procedimento licitatório. Destarte, razão não há para lhe garantir uma posição privilegiada em relação às demais instituições financeiras que porventura estejam interessadas em contratar com o Município de Própria, e que, ao final das contas, até poderiam apresentar uma proposta mais favorável àquela Municipalidade. Assim, a contratação de serviços bancários pelo Município que impliquem no repasse da folha de pagamento de seus servidores deve ser necessariamente precedida de licitação, o que não foi observado no caso em análise. 4 TRF 4ª Região AG /RS 3ª Turma Rel.(p/ Acórdão) Des. Fed. Federal Silvia Goraieb, j. 01/12/2005, pub. DJ 08/03/2006, p XI

12 Verifico, outrossim, que o passar do tempo dificulta sobremaneira, quiçá impossibilita a restituição ao estado inicial dos bens e direitos envolvidos, além do que emperra a possibilidade de uma contratação com maiores vantagens para a municipalidade e, por conseguinte, para o bem dos habitantes daquela cidade, de forma que a suspensão imediata dos seus efeitos é medida que se impõe. Em face do exposto, DEFIRO A MEDIDA LIMINAR pretendida, para suspender os efeitos do contrato de prestação de serviços financeiros celebrado entre o Município de Própria e a Caixa Econômica Federal CEF (nº 41/2008). Concedo um prazo de 30 (trinta) dias para as requeridas cumprirem integralmente a liminar deferida, adotando-se todas as providências necessárias para tal. Ressalto que após o prazo de 30 dias estipulados no parágrafo acima, enquanto não for contratada, mediante licitação, uma instituição financeira para a prestação de serviços bancários relativos à folha de pagamento dos servidores municipais, estes deverão ser necessariamente prestados pelo banco oficial do Estado, o BANESE (Banco do Estado de Sergipe). Fixo multa diária no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) para o caso de descumprimento das determinações acima. Intimar o MPF para se manifestar de que forma pretende intervir no feito, como parte ou como o fiscal da lei, na forma dos 1º e 2º, do art. 5º, da Lei n /85, e, se for o caso, requerer as medidas que pretende ver adotadas. Após, digam as partes se pretendem produzir provas, justificando-as. Intimar. Aracaju, 08 de junho de XII

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