A transição dos servidores celetistas para o regime estatutário

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1 A transição dos servidores celetistas para o regime estatutário Prof. José C. Geromel Representante dos Professores Titulares no CONSU Durante a última eleição para Reitor da Unicamp apareceu, com maior intensidade, uma demanda de parte expressiva de nossos servidores que por iniciativa da administração central da universidade, começou a ser analisada no âmbito das Unidades de Ensino e Pesquisa, DGRH e PG. Ela se referia à possibilidade de transição para o regime estatutário (ESUNICAMP) de servidores contratados no regime CLT. Ressalto queaquele nãoera omomento adequado paratratar deuma questão dessa natureza. Ademais, naquela oportunidade, ao contrário dos demais candidatos que se posicionaram a favor do pleito, manifestei minha opinião que essa decisão só poderia ser tomada após ampla discussão e participação de toda a comunidade universitária, para que uma avaliação precisa e completa dos custos envolvidos fosse realizada. A atual administração colocou na ordem do dia da última reunião do CONSU, sem prévia discussão, a votação de uma deliberação que aborda exatamente esse tema para os servidores contratados entre 1985 e Na oportunidade, ponderei aos meus pares a necessidade de maiores discussões com a comunidade e de basearmos a nossa decisão em estudos mais precisos sobre impacto orçamentário. Propus a sua retirada de pauta. O Plenário, a meu ver, de forma açodada, inclusive por não implicar em nenhuma perda aos interessados, não acolheu a minha proposta e aprovou a mencionada deliberação por larga maioria. Mesmo já estando em pleno vigor, julgo importante levar ao conhecimento de toda a comunidade da UNICAMP, que os custos envolvidos naquela decisão são expressivos e impedirão que um ciclo virtuoso de gestão com forte disponibilidade de recursos orçamentários possa ter início e perdure pelas próximas décadas na nossa universidade. Naquela reunião do CONSU, de forma equivocada, o Sr. Reitor informou que parte expressiva da folha de pagamento do pessoal inativo da UNICAMP não seria coberta com recursos da universidade. Em seguida, respondendo a uma indagação a ele endereçada 1, fui informado o que já era do entendimento geral, a saber: A folha de pagamento dos inativos é paga exclusiva e integralmente pela UNICAMP, subtraindo-se do montante total os valores contributivos arrecadados dos seus servidores. 1 A carta e a resposta estão na minha página pessoal na internet. 1

2 N o Servidores ano Figura 1: Distribuição dos servidores celetistas contratados entre É importante salientar que esse sistema elementar de financiamento não se apoia sobre a constituição de um fundo, mas simplesmente aporta para a folha de inativos os recursos orçamentários necessários para que o seu pagamento mensal possa ser efetivado 2. É nesse contexto que faço, em seguida, uma estimativa dos gastos envolvidos na transição para estatutários dos servidores celetistas contratados entre os anos 1985 e Segundo dados oficiais, fornecidos pela AEPLAN, são servidores que podem optar, não incluídos os que já estão aposentados pelo INSS 3. O gráfico da Figura 1 indica quantos adquirem o direito à aposentadoria, segundo as regras do ESUNICAMP, em cada ano a partir de 2013 considerado o ano 1. Inicialmente, apresentamos três tabelas. A Tabela 1 mostra o custo total que tem a universidade para pagar o salário de um servidor celetista. Nela, devemos salientar que a coluna de inativos aparece com custo zero tendo em vista que, ao se aposentar, o servidor passa a receber seus proventos do INSS. A Tabela 2, da mesma forma, mostra o custo total que tem a universidade para pagar o salário de um servidor estatutário. Nota-se que ela não reflete o aporte do servidor estatutário que reduz a contribuição da Unicamp a título de insuficiência financeira na composição mensal da folha de inativos. Entretanto, é preciso enfatizar que é essa tabela que reflete a situação correta pois o aporte de 2 O montante que a UNICAMP complementa para fechar a folha de inativos é, atualmente, da ordem de 50%. Esse montante é denominado insuficiência financeira. 3 Não está claro se os que já estão aposentados podem, de fato, optar. Assim sendo, não foram incluídos na simulação. Se forem incluídos os custos serão maiores que os calculados. 2

3 Ativo Inativo Salário 100, 00 0, 00 Encargos 29, 45 0, 00 Total 129, 45 0, 00 Tabela 1: Custo de um servidor celetista. cada servidor(correspondente a 11% do seu salário) deveria formar um fundo para pagar a sua aposentadoria no futuro e não ser gasto mensalmente, no presente, para compor a folha de inativos da universidade. Ativo Inativo Salário 100, , 00 Encargos (SPPREV) 22, 00 0, 00 Total 122, , 00 Tabela 2: Custo de um servidor estatutário. ATabela3mostraocustototal parapagar osaláriodeumservidorestatutário e leva em conta os aportes dos ativos e inativos que reduzem a contribuição mensal que deve ser feita pela universidade a título de insuficiência financeira. Os servidores estatutários ativos foram enquadrados em duas categorias distintas, a saber, Ativo (SEM direito ao abono permanência) e Ativo (COM direito ao abono permanência). Ativo (SEM) Ativo (COM) Inativo Salário 100, , , 00 Encargos (SPPREV) 22, 00 22, 00 0, 00 Insuficiência financeira ( )33, 00 ( )22, 00 ( )11, 00 Total 89, , 00 89, 00 Tabela 3: Custo de um servidor estatutário com compensação financeira. Nota-se que o custo para pagar um servidor ativo com direito ao abono permanência é o mais alto pois ele deixa de contribuir com 11% do seu salário, mas por outro lado, não é necessário contratar outro servidor para substituí-lo. Com base nos dados disponíveis, construímos um simulador para calcular os custos envolvidos na eventual transição de todos os servidores celetistas contratados entre os anos 1985 e As seguintes hipóteses simplificadoras foram a- dotadas: Cada servidor, celetista ou estatutário, se aposenta imediatamente após ga- 3

4 Custo líquido anual (R$ Milhões) Cenário 1 Cenário ano Figura 2: Simulação temporal de dois cenários relevantes. nhar esse direito. Assim sendo, no decorrer do tempo, assumimos que o número de aposentadorias segue o gráfico da Figura 1. Como já dissemos, se isso não ocorrer, os custos serão maiores do que os calculados. A universidade paga os proventos integrais durante os próximos 20 anos após o início da aposentadoria. Não levamos em conta os aumentos salariais devidos a quinquênios, sextaparte e progressão na carreira. Novamente, devemos salientar que se esses efeitos fossem considerados, os custos seriam maiores do que os calculados. A Figura 2 mostra, no decorrer de cada ano, a partir de 2013, o custo líquido obtido em salários médios anuais que foi convertido em R$ Milhões atuais 4. Dois cenários distintos foram considerados. Em ambos os cenários, o custo de um servidor celetista é aquele dado na Tabela 1. No Cenário 1 o custo de um servidor estatutário é o dado na Tabela 2 enquanto que no Cenário 2 o custo de um servidor estatutário é o dado na Tabela 3. Esses dois cenários foram incluídos pois acreditamos que a situação real (que é perfeitamente possível de ser simulada pela administração da UNICAMP) se situa entre ambos. O resultado da simulação mostra que no primeiro ano a universidade terá um ganho líquido que se situa entre 130 (Cenário 1) e 700 (Cenário 2) salários médios anuais. Entretanto, esse fato não se mantém no decorrer do tempo e a partir do 5 o ano (Cenário 1) e do 6 o ano (Cenário 2) a universidade terá que arcar com um 4 Segundo informação da AEPLAN, o salário médio anual dos servidores celetistas que ingressaram entre 1985 e 1988 é aproximadamente R$ , 00. 4

5 gasto líquido para assim permanecer até o final. Logo, o custo total da transição para o regime estatutário de todos os servidores celetistas contratados entre 1985 e 1988 situa-se, aproximadamente, entre (Cenário 1) e (Cenário 2) salários médios anuais. Ou dizendo de outra forma, isso corresponde a um custo líquido médio de 750 salários médios anuais em cada ano, durante os próximos 39 anos. Ou ainda, isso corresponde a um custo líquido aproximado de R$ 72 milhões em cada ano durante os próximos 39 anos. Esses custos são obviamente expressivos e terão, por si só, enorme impacto no orçamento da universidade. Essa conclusão torna-se muito mais grave se pensarmos que os demais servidores celetistas 5 solicitarão, com toda razão, o mesmo tratamento. Ademais, é também preciso ponderar que não se pode ver essa questão por um viés estritamente financeiro. Há que se levar em conta que os diferentes regimes de contratação de servidores não podem diferenciá-los nos seus direitos. É nessa trilha de raciocínio que os servidores celetistas da Unicamp começaram a receber, recentemente, o adicional de salário relativo à sexta-parte. Mas assim procedendo, para realmente garantir a igualdade de tratamento, devemos propor que os atuais servidores estatutários recebam um salário adicional por ano de trabalho, o que corresponde ao fundo de garantia que os servidores que agora se tornam estatutários receberam quando ainda eram celetistas. Como se vê, minha posição naquela reunião do CONSU não foi de intransigência, mas de cautela para que uma decisão daquele quilate pudesse ser tomada, de forma democrática e aberta, mas levando-se em conta todos os seus aspectos relevantes. A saber, a igualdade de direitos de todos os servidores - celetistas e estatutários e o respectivo impacto financeiro que a universidade deverá fazer face no decorrer dos próximos anos. - 5 Segundo a AEPLAN, a universidade conta atualmente com um total de servidores celetistas ativos que foram admitidos a partir de

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