RACIOCÍNIO LÓGICO CONHECENDO OS AUTORES CARMEN SUELY CAVALCANTI DE MIRANDA

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1 RACIOCÍNIO LÓGICO CONHECENDO OS AUTORES CARMEN SUELY CAVALCANTI DE MIRANDA Sou graduada em Serviço Social e Filosofia, Especialista em Serviço Social e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Atuo como Assistente Social desde 1981 e atualmente exerço a profissão de Assistente Social na Unidade de Saúde Familiar e Comunitária, uma Unidade de atenção básica em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde da cidade de Natal. Leciono desde 1996 na Universidade Potiguar as disciplinas: Filosofia, Ética, Metodologia Científica, Cultura Brasileira, Filosofia da Educação. Desde 2010 estou na Direção do Curso de Serviço Social desta mesma Universidade. IVICKSON RICARDO DE MIRANDA CAVALCANTI Sou graduado em Filosofia e Especialista em Ética pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Sou professor de Filosofia desde o ano de Iniciei minhas atividades profissionais como professor substituto do Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Lecionei no ensino médio na rede pública da cidade de João Pessoa. Fui professor do Instituto Federal de Alagoas. Atualmente sou professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte atuando no campus de Apodi. Leciono as disciplinas de Lógica, Filosofia, Epistemologia e Metodologia Científica.

2 CONHECENDO RACIOCÍNIO LÓGICO A disciplina de Raciocínio Lógico, que você inicia agora, é de fundamental importância para sua vida prática. Se você observar quando queremos pensar, falar ou escrever corretamente, precisamos primeiro ordenar no pensamento, isto é, precisamos utilizar a lógica. Nem sempre raciocinamos da maneira correta, às vezes tomamos uma decisão ao invés de outra, agimos diversas vezes de maneira ilógica. Através do Raciocínio Lógico nos apropriamos de ferramentas que contribuem para aprimorar a arte de pensar corretamente. Qualquer profissional que utilize o raciocínio como ferramenta de trabalho para resolver problemas de ordem administrativa ou financeira, problemas matemáticos, de planejamento ou de estratégia, entre outros, utiliza como matéria prima para o seu trabalho a arte de pensar. Utilizar o pensamento exige cada vez mais o estudo de disciplinas voltadas ao aprimoramento, treinamento e aplicabilidade do pensamento. Convidamos você a percorrer conosco os vários momentos que compõem esta disciplina percebendo gradativamente sua utilidade no seu diaa-dia.

3 1 O QUE É LÓGICA? 1.1 Contextualizando O que é? Por que a lógica integra a estrutura curricular de um curso de graduação? Seja qual for a pergunta, essas são questões que muitos estudantes fazem quando têm que cursar uma disciplina de Raciocínio Lógico. Para que você possa entender a importância dessa disciplina, é fundamental que saiba, em primeiro lugar, o que é a lógica, conhecimento cuja aplicabilidade se faz presente desde a Grécia quando os primeiros pensadores, os filósofos, utilizavam a lógica para distinguir o argumento correto do incorreto, até a nossa atualidade, com os computadores e toda tecnologia da informação - a base do funcionamento de um computador está na eletrônica e na lógica. E até mesmo para uma boa redação é indispensável coerência, clareza e coesão no desenvolvimento das ideias. E nisto a lógica pode e vai ajudá-lo muito. Por outro lado, desenvolver um pensamento que se preocupa com o aspecto lógico torna-se um desafio para o aluno que está compreendendo e exercitando operações mentais. Ou seja, a lógica possibilita ao aluno educar sua forma de pensar, de estruturar suas ideias e concepções. Assim, esperamos que as pistas para a resposta do que é a lógica e de sua importância, você possa começar a encontrar neste nosso primeiro capítulo que tem como objetivos: situar os mecanismos do pensamento; definir a lógica; explicitar o raciocínio lógico; evidenciar a importância desse conhecimento para o ser humano. 1.2 Conhecendo a teoria Os mecanismos da inteligência Vivemos em uma realidade complexa e em constante transformação. Se olharmos para um passado recente veremos como ocorreram transformações

4 na medicina, na educação, nas comunicações, nas tecnologias, enfim, nas várias áreas do conhecimento e de sua aplicação. Essas transformações foram possíveis porque o homem, elemento desse conjunto infinito de seres que compõem a realidade, também se transforma cotidianamente. Usa para isso sua razão e sua inteligência. Razão e inteligência são, portanto, faculdades que possibilitam ao homem construir conhecimentos que, aplicados à realidade, garantem sua vida no planeta. Razão e inteligência são conceitos fundamentais no processo de produção do conhecimento verdadeiro. Vejamos cada um deles de forma detalhada. a) O que é a razão? A palavra razão no nosso cotidiano é empregada em vários sentidos. Veja alguns dos usos mais comuns: Uma razão de ser... Qual a razão de tudo isso? Você tinha razão O homem é um animal racional Ele ficou revoltado e com razão É uma atitude irracional Usamos razão com o sentido de certeza, lucidez, motivo, causa. Todos esses sentidos constituem a nossa ideia de razão. Podemos dizer que a razão tem não só a função de perceber os fatos que provocam as sensações, como também de avaliá-los, julgá-los e organizálos (COTRIM, 1989, p. 20). Assim, por meio da razão tomamos conhecimento da realidade. Apesar das funções anteriormente descritas, o dia a dia evidencia fatos que são incompreensíveis pela razão. Bem ilustrativo para o que acabamos de dizer são as palavras de Pascal (apud CHAUÍ, 2001, p. 58), filósofo francês do século XVII: O coração tem razões que a razão desconhece. Esta frase traz a compreensão de que muitas vezes agimos motivados pelas paixões ou sentimentos deixando de lado a nossa atividade consciente, intelectual isto é, a razão.

5 Do que vimos acima, existem situações que a razão não consegue compreender. Nesse momento, ela apela para outra faculdade de nossa mente: a inteligência. Diante de uma dificuldade ou problema, nossa razão aciona a inteligência. b) O que é a inteligência? Quando falamos em inteligência de imediato algumas questões vêm à tona: existem pessoas mais inteligentes que outras? As mulheres são mais inteligentes que os homens, porque possuem maior sensibilidade e guardam, por maior tempo, informações na memória? Só os homens possuem inteligência? Quem é mais inteligente: um cientista ou um índio? Um professor universitário ou um pedreiro? Se adotarmos o conceito clássico de Inteligência como a capacidade mental de raciocinar, planejar, resolver problemas e aprender, as respostas a essas questões parecem lógicas. Ou seja, com certeza se julga que algumas pessoas são mais inteligentes que outras e essa diferença tem um teor ideológico, ou seja, considera o modelo social, o status quo das pessoas comparadas, a classe social, entre outros. No entanto, quando adotamos a visão de inteligência proposta pelo psicólogo norte-americano Howard Gardner, tudo depende do que estamos fazendo, onde e por que, ou seja, a simples comparação de um cientista com um índio, de um universitário com um pedreiro, não significa nada a não ser que se possa contextualizar esta abordagem. O que estamos dizendo, com Gardner, é que se estamos no meio da selva e precisamos ir de um lugar a outro sem qualquer instrumento específico, o índio nos será mais útil, pelo fato de conhecer a região. Nesse caso sua inteligência será mais efetiva que a do professor universitário. Se precisamos construir ou fazer algum reparo em casa, provavelmente, o pedreiro terá uma inteligência mais efetiva. Para Gardner (apud TRAVASSOS, 2011) A inteligência [...] é a capacidade de solucionar problemas ou elaborar produtos que são importantes em um determinado ambiente ou comunidade cultural.

6 Durante muito tempo, baseado na concepção clássica de inteligência, buscava-se mensurar a inteligência com bases em testes. Com estes obtínhamos o QI (QUOCIENTE DE INTELIGÊNCIA). Como surgiram estes testes? Com o intuito de tentar prever o sucesso das crianças nas escolas, os liceus, as autoridades francesas, no início do século, solicitaram a Alfredo Binet que criasse um instrumento que pudesse indicar em que nível tais crianças deveriam ser inseridas. O instrumento criado por Binet buscava as respostas das crianças nas áreas de linguística e matemática, pois os currículos franceses privilegiavam tais disciplinas. Este instrumento deu origem ao primeiro teste de inteligência, desenvolvido por Terman na Universidade de Stanford, na Califórnia: a Escala de Inteligência de Stanford-Binet. Vários outros testes de inteligência vieram à tona a partir de Binet, formando a ideia de inteligência como algo capaz de ser mensurado. A partir de seus estudos sobre inteligência humana, Gardner desenvolveu a teoria das inteligências múltiplas. Nos seus estudos, concluiu que o cérebro do homem possui oito tipos de inteligência. Porém, a maioria das pessoas possui uma ou duas inteligências desenvolvidas. Isto explica porque um indivíduo é muito bom com cálculos matemáticos, porém não tem muita habilidade com expressão artística. Segundo Gardner (apud TRAVASSOS, 2011), as inteligências são: Lógica voltada para conclusões baseadas em dados numéricos e na razão. As pessoas com esta inteligência possuem facilidade em explicar as coisas utilizando-se de fórmulas e números. Costumam fazer contas de cabeça rapidamente. Linguística capacidade elevada de utilizar a língua para comunicação e expressão. Os indivíduos com esta inteligência desenvolvida são ótimos oradores e comunicadores, além de possuírem grande capacidade de aprendizado de idiomas. Corporal grande capacidade de utilizar o corpo para se expressar ou em atividades artísticas e esportivas. Um campeão de ginástica olímpica ou um dançarino famoso, com certeza, possuem esta inteligência bem desenvolvida. Naturalista voltada para a análise e compreensão dos fenômenos da natureza (físicos, climáticos, astronômicos, químicos).

7 Intrapessoal pessoas com esta inteligência possuem a capacidade de se autoconhecerem, tomando atitudes capazes de melhorar a vida com base nestes conhecimentos. Interpessoal facilidade em estabelecer relacionamentos com outras pessoas. Indivíduos com esta inteligência conseguem facilmente identificar a personalidade das outras pessoas. Costumam ser ótimos líderes e atuam com facilidade em trabalhos em equipe. Espacial habilidade na interpretação e reconhecimento de fenômenos que envolvem movimentos e posicionamento de objetos. Um jogador de futebol habilidoso possui esta inteligência, pois consegue facilmente observar, analisar e atuar com relação ao movimento da bola. Musical inteligência voltada para a interpretação e produção de sons com a utilização de instrumentos musicais. Figura 1 A Teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner Fonte: A Teoria das Inteligências Múltiplas (GARDNER, 1985). Como funciona a nossa inteligência no processo de apreensão da realidade? O primeiro passo da inteligência é a apreensão do fato novo; nessa etapa não chegamos a nenhuma conclusão acerca do problema que se apresenta. Logo após a apreensão, estabelecemos ideias sobre o fato apresentado. A comparação das ideias nos leva a formular juízos a respeito do problema investigado. Nesse momento, nossa inteligência ordena os juízos buscando uma conclusão final para solucionar o problema. A operação mental que de dois ou mais juízos conclui outro juízo é o que chamamos de raciocínio. Todo profissional que possui como ferramenta de

8 trabalho o raciocínio, seja para resolver problemas de ordem administrativa ou financeira, problemas matemáticos, de planejamento ou de estratégia, entre outros, utiliza como matéria prima para o seu trabalho a arte de pensar. Mas afinal o que é um juízo? Podemos definir um juízo como um ato pelo qual o espírito afirma alguma coisa de outra, por exemplo: "Deus é bom", ou "o homem não é imortal" são juízos, enquanto um afirma de Deus a bondade, o outro nega do homem a imortalidade. [INICIO DE CAIXA DE TEXTO] Um juízo necessariamente apresenta três elementos: 1- Um sujeito: é o ser de que se afirma ou nega alguma coisa 2- Um atributo ou predicado: é o que se afirma ou nega do sujeito 3- Uma afirmação ou uma negação [FIM DE CAIXA DE TEXTO] Assim, podemos dizer que o juízo é a forma central de todo pensamento. A expressão verbal de um juízo é a proposição. Podemos dizer que uma proposição pode ser definida como uma frase que admite dois valores lógicos: verdadeiro (V) ou falso (F). [INICIO DE CAIXA DE TEXTO] A proposição se compõe dos seguintes termos: 1 - Sujeito 2 - Predicado 3 Verbo. Chamado cópula (isto é, elo), pois liga ou desliga os dois termos sujeito e predicado [FIM DE CAIXA DE TEXTO] Para ser uma proposição uma frase deve, necessariamente, apresentar estes termos. [INICIO DE CAIXA DE TEXTO] Exemplo de frases que não são proposições:

9 Silêncio! Quer jogar futebol? Eu não estou bem certo se este quarto me agrada. [FIM DE CAIXA DE TEXTO] [INICIO DE CAIXA DE TEXTO] Exemplos de frases que são proposições: A lua é o único satélite do planeta terra. (V) A cidade de Natal é a capital do estado da Paraíba. (F) O numero 10 é ímpar. (F) [FIM DE CAIXA DE TEXTO] Um estudo mais aprofundado sobre proposições será feito nos próximos capítulos. Agora vamos voltar à discussão sobre a inteligência. Como você viu acima, o interesse para medir a inteligência determinou uma série de estudos entre psicólogos. O resultado foi a elaboração de TESTES DE INTELIGÊNCIA. Veja como funciona um teste de inteligência a partir do exemplo a seguir (COTRIM, 1989, p. 32-4). Via de regra os testes de inteligência giram em torno de questões que devem ser respondidas em tempo estipulado e ao final somam-se os acertos para obter um resultado. TEMPO 10 MINUTOS 1. Qual o objeto não pertinente a esse grupo? a. Panela b. caneta c. prato d. faca e. metal 2. Uma caneta sempre tem a. Tinta b. tampa c. tamanho d. pena e. metal 3. Que número vem a seguir nesta série? 4; 4; 8; 13; 18; 24; 30; 37; 44; 52; Ordene estas palavras de modo a formar uma sentença. Se a sentença exprimir verdade escreva V e se exprimir falsidade exprima F. POSSUI PESSOA AMOR NENHUMA ( ) 5. O amor está para alegria, assim como o ódio está para a... a. Angústia b. solidão c. saudade d. tristeza e. lágrima 6. Qual o objeto não pertinente a este grupo? a. Lápis b. panela c. caderno d. livro e. caneta 7. Uma cadeira sempre tem a. Quatro pés b. madeira c. estofamento d. assento e. apoio para os braços

10 8. Que número vem a seguir nets série? 1/2; 1/4; 1/8; 1/16; O sol está para a sensação visual, assim como o alimento está para a a. Sensação olfativa b. sensação auditiva c. sensação tátil d. sensação cinestésica e. sensação gustativa 10. Ordene as palavras de maneira a formar uma sentença. Se a sentença exprimir verdade escreva V e se exprimir falsidade escreva F. PONTOS FRANÇA PISA. AS TORRES SÃO TURÍSTICOS E DA EIFFEL. ( ) 11. Qual o objeto não pertinente a este grupo? a. Pneu b. volante c. rédeas d. faróis e. para-choques 12. Um livro sempre tem a. capa b. ilustrações c. massa d. dedicatória e. ensinamentos escolares 13. Que número vem a seguir nesta série? 6; 8; 10; 12; 14; 11; 8; 5; Sócrates está para a Filosofia, assim como Freud está para a a. química b. biologia c. psiquiatria d.parapsicologia e. reflexologia 15. Ordene estas palavras de maneira a formar uma sentença. Se a sentença exprimir verdade escreva V e se exprimir falsidade escreva F. BRASIL DA AUQRELA DO BARROSO COMPOSITOR É ARI O. ( ) 16. Na palavra involuntariamente, qual é a penúltima letra, imediatamente anterior ao 3º n? ( ) 17. Que número vem a seguir nesta série? 4; A; 10; B; 8; C; 14; D; Somente os homens possuem razão. Assim sendo, qual destas alternativas logicamente encadeadas é correta? a. Os homens perdem a razão com a idade b. A razão é uma faculdade maravilhosa c. O peixe não possui razão 19. Qual a letra errada nesta série? B; D; L; N; P; O; Z; Q; M; ( ) 20. Qual o número errado nesta série? 1; 12; 25; 33; 207. Veja a classificação a partir dos acertos. CLASSIFICAÇÃO NÚMERO DE RESPOSTAS CORRETAS Superior 20 Ótimo 15 a 19 Bom 10 a 14 Regular 5 a 9 Inferior 0 a 4 Caso você tenha curiosidade seguem as respostas esperadas para que possa testar a sua inteligência. Vamos vê-las?!

11 1 d (faca) 2 c (tamanho) Nenhuma pessoa possui amor (F) 5 d (tristeza) 6 b (panela) 7 d (assento) 8 1/32 9 e (sensação 10 As torres 11 c (rédeas) 12 c (massa) gustativa) Eiffel e Pisa são pontos turísticos da França (F) c 15 O 16 - M (Psiquiatria) compositor da Aquarela do Brasil é Ari Barroso (V) 17 12; F 18 c (O peixe 19 - O não possui razão) É como se pudéssemos, a partir desses testes, identificar nossa capacidade de inteligência. A questão a se considerar é que estes instrumentos não levam em conta nosso momento atual, nossa história. Supõem um homem universal Definindo a lógica Até aqui você foi apresentado às duas faculdades da mente humana responsáveis pelo conhecimento da realidade razão e inteligência. Uma vez que o conhecimento produzido por estas duas faculdades busca a verdade e tem como manifestação o pensamento, é preciso estabelecer algumas regras para que essa meta possa ser atingida. Entra em cena a lógica enquanto ramo da filosofia que cuida das regras do bem pensar, ou do pensar correto, sendo, portanto, um instrumento do pensamento. É LÓGICO!

12 Quantas vezes você já utilizou essa expressão? Será que nas situações utilizadas era realmente lógico? Em que você se baseou para fazer tal afirmação? De uma maneira geral, quando usamos a expressão É LÓGICO, quase sempre estamos nos referindo a algo que nos parece evidente, ou quando temos uma opinião muito fácil de justificar (MACHADO, 2000). Portanto, podemos iniciar essa tentativa de definir a lógica afirmando que ela representa o aperfeiçoamento do pensamento, a arte de pensar corretamente. O ato de pensar corretamente antes de executar qualquer ação é, comprovadamente, um ponto positivo para que tal tarefa seja executada com total sucesso. Criar estratégias, relacionar informações e levantar hipóteses são habilidades essenciais não apenas para a prática escolar, mas para diversas situações do cotidiano. Mas afinal, o que é lógica? Lógica, do grego λογική, logos, significa palavra, pensamento, ideia, argumento, relato. Apesar de ser um ramo da Filosofia, não é de propriedade exclusiva do filósofo. Todo aquele que deseja entender e desenvolver raciocínios matemáticos e científicos deveria estudá-la. Segundo o filósofo Régis Jolivet (apud COTRIM, 1989, p. 199) a lógica é a ciência das leis ideais do pensamento e a arte de aplicá-las corretamente na procura e demonstração da verdade. Não há consenso quanto à definição da lógica. Registra-se uma pluralidade de definições que evidenciam a diversidade de estudos que são abrangidos pela Lógica. Destacamos algumas definições que servem para iniciar a nossa reflexão. [INICIO DE CAIXA DE TEXTO] "O estudo da lógica é o estudo dos métodos e princípios usados para distinguir o raciocínio correto do incorreto." Irving Coppi "A lógica trata de argumentos e inferências. Um de seus propósitos básicos é apresentar métodos capazes de identificar os argumentos logicamente válidos, distinguindo-os dos que não são logicamente válidos."

13 Wesley Salmon "A tarefa da lógica sempre foi a de classificar e organizar as inferências válidas, separando-as daquelas que não o são. A importância desta organização não deve ser subestimada, pois usam-se as inferências (de preferência válidas) tanto na vida comum como nas ciências formais, sendo um exemplo a matemática." Jesus Eugênio de Paula Assis "Para Aristóteles, a lógica é a ciência da demonstração; (...) para Lyard é a ciência das regras do pensamento. Poderíamos ainda acrescentar: (...) é a ciência das leis ideais do pensamento e a arte de aplicá-las corretamente na procura e demonstração da verdade." Maria Lucia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires FONTE: Strecker, [FIM DE CAIXA DE TEXTO] E por que estudar Lógica? Há inúmeras razões! Uma delas liga-se ao nosso tempo. Vivemos a era pós-industrial, na qual os principais produtos da mente humana são as ideias. Neste novo ambiente, terão vantagens aqueles que têm raciocínio lógico e sabem conferir concretude ao processo criativo. problemas: Para desenvolver um raciocínio correto nos deparamos com dois Estabelecer a forma correta do pensamento para que ele possua validade; Estabelecer a forma correta do pensamento para que ele corresponda a algum fato da realidade (COTRIM, 1989, p. 199). É exatamente com o objetivo de responder esses dois problemas que a lógica se divide em duas grandes partes: a lógica formal e a lógica material. A lógica formal se preocupa com os caminhos que devem ser seguidos pelo pensamento para este ser correto, ao passo que a lógica material volta-se para a garantia da correspondência verdadeira entre nosso pensamento e a realidade. Sobre estas duas grandes divisões da lógica você irá saber mais no capítulo III A importância da lógica

14 Acreditamos que agora que você já tem uma compreensão inicial do que seja a lógica, fica mais fácil entender a sua importância para um curso de nível superior, principalmente sua importância para o exercício profissional. Senão vejamos: o que mais esperamos dos alunos, profissionais, enfim, dos seres humanos é que possam pensar de forma cada vez mais crítica e com argumentos, com base e critérios logicamente válidos. Por outro lado, quando fazemos afirmações sem argumentos não oferecemos ao nosso interlocutor motivo para aceitar nosso ponto de vista. Quando apresentamos argumentos, iniciamos um diálogo em que estaremos abertos a rever nossos argumentos em função de argumentos mais sólidos e válidos. Todo esse exercício de argumentação exige critérios válidos e é nesse momento que entra a lógica. Sobre a importância da lógica Lewis Carol (apud SOARES; DORNELAS, 2011) afirma que ela [a Lógica] lhe dará clareza de pensamento, a habilidade de ver seu caminho através de um quebra-cabeça, o hábito de arranjar suas idéias numa forma acessível e ordenada e, mais valioso que tudo, o poder de detectar falácias e despedaçar os argumentos ilógicos e inconsistentes que você encontrará tão facilmente nos livros, jornais, na linguagem cotidiana e mesmo nos sermões e que tão facilmente enganam aqueles que nunca tiveram o trabalho de instruir-se nesta fascinante arte. Como você pode observar, este conhecimento é uma exigência cada vez maior no nosso cotidiano, no sistema escolar e na vida em sociedade, na medida em que nestes contextos é necessário o desenvolvimento da capacidade de distinguir entre um discurso correto e um incorreto, a identificação de falácias, o desenvolvimento da capacidade de argumentação, compreensão e crítica de argumentações e textos. Ao lado de sua importância no nosso cotidiano, a lógica é hoje presença constante em concursos para ingresso no mundo do trabalho. As questões de lógica se apresentam como problemas que exigem um caminho com possibilidades que levem a uma solução até aqui estamos no campo do raciocínio. Uma vez encontrada a solução é preciso que seja validada aqui está o espaço da lógica.

15 1.2.4 Desenvolvendo o raciocínio lógico Como você viu até aqui, ter raciocínio lógico significa raciocinar bem. Mas, o que fazer para aprender a raciocinar bem? Sabemos que algumas decisões na nossa vida são intuitivas, mas existe uma fórmula de aprimorar a nossa capacidade de raciocinar. E a lógica é essa ferramenta que lhe capacita a aprimorar seus argumentos, garantido cada vez mais sua validade. O raciocínio lógico hoje é uma exigência em provas de concurso, bem como em psicotestes de empresas para seleção de funcionários para cargos específicos. O conhecimento de alguns mecanismos de análise das questões, bem como a realização de exercícios, é um treino efetivo para desenvolver um bom raciocínio. Nesse sentido, vamos destacar três tópicos que vêm sempre sendo explorados nas questões apresentadas em concursos, são eles: o raciocínio verbal, o raciocínio numérico e o raciocínio visuo-espacial. [INÍCIO DO ÍCONE SAIBA QUE] Antes de situar esses tipos de raciocínios é importante que você saiba que para responder qualquer tipo de questão envolvendo raciocínio lógico é necessário ter claro que, nestas questões, o raciocínio pode seguir um caminho lógico ou um caminho ilógico (BOTELHO, 2011). O caminho lógico se efetiva no contexto da lógica matemática. Apresenta uma ordem que pode ser crescente, decrescente ou constante. O caminho ilógico envolve outros raciocínios fora da lógica matemática. São questões que utilizam os meses do ano, os dias da semana, as fases da lua, as letras do alfabeto. [FINAL DO ÍCONE SAIBA QUE] Retomando a explicação anterior, veja o quadro a seguir: Crescente Decrescente RACIOCÍNIO LÓGICO RACIOCÍNIO ILÓGICO Semana/ Meses Fases da lua

16 Constante Letras do alfabeto Voltemos aos três tipos de raciocínio citados anteriormente: o verbal, o numérico e o visuo-espacial. Comecemos por exemplificar o raciocínio verbal. Considere a sequência. Qual a próxima letra? B, D, G, K, O primeiro ponto a considerar é que estamos diante de um raciocínio lógico sequencial verbal crescente. B D G K P Pula 1 pula 2 pula 3 pula 4 Vamos entender: 1. É uma sequência de letras (por isso sequencial verbal) 2. A distância entre elas é crescente 3. Portanto o caminho é lógico 4. Assim a próxima letra da sequência será a letra P numérico. Agora vejamos uma questão desenvolvida com base no raciocínio Considere a sequência. Qual o próximo número? 77; 49; 36; 18; decrescente. Estamos diante de um raciocínio lógico sequencial numérico

17 [INÍCIO DO ÍCONE SAIBA QUE] É importante lembrar que as questões envolvendo raciocínio lógico trabalham com as operações: adição, subtração, multiplicação, divisão, radiciação e potenciação. [FINAL DO ÍCONE SAIBA QUE] Veja a resolução da questão: x7 4x9 3x6 1x8 Vamos traduzir: 1. É uma sequência de números (por isso sequencial numérica) 2. A sequência está em ordem decrescente 3. Portanto o caminho é lógico 4. A operação utilizada foi a multiplicação 5. Assim o próximo número da sequência é 8 Quando falamos dos caminhos que um raciocínio pode seguir na resolução das questões de raciocínio lógico, destacamos o caminho lógico exemplificado nas questões acima e o caminho ilógico. Vamos agora exemplificar uma questão que seguiu o caminho ilógico. Considere a sequência. Qual a próxima letra? JJASOND Veja que, diferente das questões anteriores, não há uma sequência previsível. Ora é crescente, ora decrescente não há continuidade. Estamos diante de um caminho ilógico. Sabendo que este tipo de raciocínio trabalha com meses do ano, identificamos aí a resposta a nossa questão. Veja que as letras correspondem à inicial dos meses do ano começando com o mês de junho - (junho, julho,

18 agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro). Neste caso a próxima letra da sequência será a letra J, referente ao mês de JANEIRO. Vamos a um exemplo de um raciocínio numérico que seguiu o caminho ilógico: Considere a sequência. Qual o próximo número? 2; 12; 16; 17; 19 Primeiro ponto a considerar: o caminho do raciocínio é lógico ou ilógico? Vamos considerar o intervalo entre os números Veja que, entre os números da sequência apresentada, não há nem uma ordem crescente, nem uma ordem decrescente, nem mesmo uma constância. Nesse caso o caminho a seguir será o ilógico. E neste caso recorremos às letras do alfabeto. Veja que a sequência de números apresentados começa com a letra D. No caso o próximo número depois de dezenove a iniciar com a letra D será 200. Passemos agora a exemplos de raciocínios visuo-espaciais.

19 Questões de raciocínio visuo-espacial apresentam uma quantidade de figuras em linhas e a última figura vem em branco para que você identifique o desenho. O primeiro passo é analisar linha por linha. Cada linha segue uma lei de formação. O passo seguinte é identificar a lei de formação da primeira linha que se repete na segunda. Assim é razoável que esta mesma lei de formação se repita na terceira linha. No caso das figuras, você identifica que existem orelhas para fora e orelhas para dentro. As orelhas para fora serão positivas e as orelhas para dentro serão negativas. Assim vejamos, na primeira linha temos: +2-1 = 1 Na segunda linha temos: =1

20 A terceira linha necessariamente seguirá a lei de formação das duas primeiras. Assim vejamos: 1-1 =0 Em todas as questões apresentadas você pode perceber que é necessário um constante treinamento para que cada vez mais você possa se apropriar de mecanismos que darão maior capacidade de raciocínio. 1.3 Aplicando a teoria na prática Agora é hora de articular a discussão teórica até aqui desenvolvida com a vida prática. Entre outros temas, discutimos a razão humana. Vamos pensar um pouco sobre essa faculdade que possibilita ao homem estabelecer uma articulação entre pensamento e realidade. Um olhar atento e reflexivo sobre nosso cotidiano deixa evidente como por vezes, e sem nenhum esforço, mudamos de ideia; ao mesmo tempo, é possível por meio desse exercício, perceber como, algumas vezes, nos apegamos a alguma ideia sem saber de onde veio, principalmente, se percebemos que alguém quer se apropriar assumindo sua autoria, ou mesmo querendo nos fazer mudar de ideia. Por que isso acontece? São as ideias que nos são caras? Ou será nosso amor próprio que está em jogo? Dito de outra maneira: por que é tão difícil mudarmos nosso ponto de vista e aceitar o ponto de vista do outro? Na verdade poucos de nós param e refletem sobre a origem das nossas convicções. Acreditamos, grande parte das vezes, naquilo que nos acostumamos a aceitar como verdade. E nesse caso, usamos nossa razão para encontrar argumentos capazes de justificar nossas convicções. Você sabe como os cientistas modernos designam esse apego incondicional (no sentido de que muitas vezes nem sabemos a origem daquilo que defendemos) as

21 nossas crenças e aos nossos (pré)conceitos fazendo com que busquemos razões para justificá-los? Saiba que esse mecanismo recebe o nome de RACIONALIZAÇÃO. Apesar de ser uma palavra pouco compreendida é um mecanismo presente na vida de cada um de nós. Apegamo-nos aos nossos (pré)conceitos, as nossas convicções e buscamos boas razões para justificá-las. Difícil é admitir a ideia de estarmos errados e reconstruir nossos conceitos e convicções. 1.4 Para saber mais LIVRO Título: O cérebro nosso de cada dia Autor: Suzana Herculano-Houzel Editora: Vieira e Lente Ano: 2002 Uma boa indicação para aprofundar seus conhecimentos na área da neurociência você pode encontrar neste livro de Suzana Herculano-Houzel, O Cérebro Nosso de Cada Dia. Nesta obra, ela fala de maneira clara para leigos como funciona nosso cérebro e como tudo acontece dentro dele. Conta o fato que ocorreu quando o fantástico físico Albert Einstein faleceu. Com permissão da família, seu cérebro foi retirado e estudado. Conclusões: o cérebro de Einstein era do tamanho do cérebro médio das mulheres, ou seja, tinha um cérebro pequeno. 1.5 Relembrando Neste capítulo você aprendeu que: O homem usa suas faculdades da razão e da inteligência para construir conhecimentos que, aplicados à realidade, garantem sua vida no planeta.

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