Legitimidade de parte

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1 Legitimidade de parte * Conteúdo da aula: - Introdução: teoria da ação - Condições da ação - Legitimidade: conceito - Discussão de casos - Conclusões. * Teoria da ação (breve introdução) Digressão inicial, para tratar da doutrina das ações. Apenas no início do século XIX é que começou a se pensar a ação como um direito autônomo, separado do direito material (polêmica WINDSCHEID e MUTHER). Antes disso, imaginava-se a ação como um aspecto do direito subjetivo, o aspecto belicoso que ele assume quando ferido. Basicamente, há de um lado a doutrina concretista e, do outro, a abstratista. Quem bem analisa a questão, em poucas linhas, é EDUARDO COUTURE 1 : Admitida la autonomía del derecho de la acción, la doctrina perdió unidad y comenzó a dividirse em numerosas orientaciones de las cuales trataremos aqui de dar uma breve reseña. Por un lado, se manifestó la corriente de doctrina denominada del derecho concreto de obrar. Sostiene, en lo sustancial, esta línea de pensamiento, que la acción (pretensión) sólo compete a los que tienen razón. La acción no es el derecho; pero no hay acción sin derecho. En contraposición a esta corriente de pensamiento, surge otra para la cual la acción constituye lo que se denominó con escasa felicidad técnica, un derecho abstracto (por oposión a concreto) de obrar. Para esta corriente de ideas, que se prolonga hasta nuestros dias, y que hoy parece dominar el panorama doctrinal, tienen acción aun aquellos que promueven la demanda sin un derecho válido que tutelar. La a, se dice con deliberada exageración, es el derecho de los que tienen razón y aun de los que no tienen razón. Como exposto, trata-se da posição atualmente predominante. Existem, porém, autores que defendem a ação como direito concreto, com uma roupagem um pouco distinta (é o caso, por exemplo, de JOSÉ IGNACIO BOTELHO DE MESQUITA). Dentre as diversas posições existentes, destaca-se a de LIEBMAN, autor italiano que teve grande influência no direito processual brasileiro (especialmente em relação a BUZAID, autor do anteprojeto do CPC 1973). 1 Fundamentos del Derecho Procesal Civil. 3 a ed., p EPD legimatio ad causam Página 1 de 10

2 Como é cediço, tal autor formulou a doutrina das condições da ação (adotada por nosso Código). O ponto de partida é a distinção entre o direito cívico de petição e a ação (poder-se-ia afirmar que o primeiro é gênero da qual a ação é espécie, com características próprias). O direito de petição, que pode ser dirigido a qualquer Tribunal ou órgão estatal (CR, art. 5º, XXXIV, a ) é efetivamente incondicionado. Já o direito de ação (CR, art. 5º, XXXV), de seu turno, que é unido a uma situação específica (causa petendi), necessita de certos requisitos, certas condições. Daí é que se fala em condições da ação. Assim, fala-se em direito abstrato, porém condicionado (o que seria um meio termo entre a teoria abstrata e concreta). * Condições da ação A posição de LIEBMAN a respeito das condições da ação pode ser bem vislumbrada no Manuale de Diritto Processuale Civile. E o assunto foi bem analisado por CÂNDIDO DINAMARCO, ao traduzir tal obra (nota 103 do tradutor) 2 : O que afasta nosso Mestre dos abstratistas mais extremados é a distinção, que ele faz, entre a ação como garantia constitucional (esta sim, incondicionada) e a ação como instituto disciplinado a nível de (sic) direito processual civil; a primeira assegura o respeito da lei ordinária ao instituto da ação, que por sua vez constitui una specificazione, una determinazione, un particolare grado de condensazione da garantia constitucional (op. cit. [L azione nella teoria del processo civile], n. 7, p. 47). São as condições da ação que realizam essa especificação, revelando-se no plano concreto de una fattispecie determinata ed esattamente individuata (op. loc. cit., n. 6, p. 46). Pelo CPC, a carência de ação leva à extinção do processo sem mérito (art. 267, VI). Para LIEBMAN, a ausência de alguma das condições da ação, como não poderia deixar de ser (já que não existe ação), leva à extinção do processo sem julgamento de mérito (ora, se não há ação, como é possível a análise do mérito?). Além disso, para LIEBMAN, a repropositura somente é admitida se houver uma modificação naquilo que causou a carência de ação. Neste sentido o autor, em seu Lezioni di Diritto Processuale Civile 3 (grifos nossos): 2 Manual de Direito Processual Civil. 3 a ed., 153. EPD legimatio ad causam Página 2 de 10

3 Daí presupposti processuali si distinguono le codizioni dell azione che abbiamo già menzionato, e che riguardano non la regolarità del processo, ma l esistenza dell azione proposta. La loro mancanza impedisce anch essa l esame del mérito, ma per motivi molto diversi, che non riguardano soltanto quel processo, ma l azione in sè, la quale non potrà perciò essere proposta nemmeno in altro processo finchè non mutano lê circostanze di fatto rilevanti (se non sopravviene l interesse ad agire o se l attore non acquista la legittimazione che prima gli faceva difetto ecc.). Dos pressupostos processuais distinguem-se as condições da ação, antes já mencionadas e que não dizem respeito à regularidade do processo, mas à existência da ação. A sua falta (das condições) também impede o exame de mérito, mas por motivos diversos, que não dizem respeito ao proceso, mas à ação em si, à qual não poderá ser proposta nem mesmo em outro processo enquanto não modificadas as circunstâncias de fato pertinentes (se não sobrevem o interesse de agir ou se o autor não adquire a legimitação que inicialmente faltava etc.). Diante disso, conclui-se que, para LIEBMAN, a extinção em virtude da carência da ação, apesar de ser questão processual, não admite a repropositura até a solução do problema (v.g., a aquisição da legitimidade ad causam pelo autor) tese que não foi transportada pelo legislador para nosso Código. De se consignar, ainda, que LIEBMAN, na última edição de seu Manual, afastou a existência da legitimidade de parte, afirmando que esta estaria inserida no interesse de agir (posição que não foi transferida para o CPC). * Legitimidade: conceito Legitimidade pode ser definida como a pertinência subjetiva entre os sujeitos da relação de direito material e da relação de direito processual. Ou seja, a coincidência / identidade entre as partes na relação jurídica processual e na relação jurídica material. Pode-se entender, ainda como a pertinência subjetiva / titularidade, de quem se apresenta no pólo ativo, do direito material subjacente (o mesmo em relação ao pólo passivo). O art. 6 do CPC deixa claro o funcionamento desta condição da ação: ninguém poderá pleitear, em nome próprio, direito alheio, salvo quando autorizado por lei. Assim, legitimidade para causa tem quem pleiteia em nome próprio o reconhecimento de direito próprio. Não se justifica o entendimento de que terá legitimidade para a causa apenas quem for efetivamente o titular do direito ou obrigação em que se funda o pedido formulado na inicial. 3 1ª ed., p. 27. EPD legimatio ad causam Página 3 de 10

4 E, para saber se o direito está sendo pleiteado em nome próprio não é preciso, também, formular nenhum juízo hipotético ou condicional. Basta verificar se o autor, na inicial, afirma ser titular do direito pleiteado; bem como se o réu é apontado como o sujeito passivo do direito pleiteado. Muitas vezes, quando se aponta a ilegitimidade, na verdade já se ingressa na análise de mérito da questão o que não é, em absoluto, o espírito da lei ou da teoria de LIEBMAN. Por sua vez, existem diversas outras definições para a legitimidade de parte: ZANZUCCHI: Titularidade do poder de agir, enquanto se destine a um fim determinado, ou seja, na identidade da pessoa do autor com a pessoa a quem a lei dá, no caso concreto, o poder de agir, ou seja, a ação destinada àquele fim. LIEBMAN: titularidade (ativa e passiva) da ação. ATHOS GUSMÃO CARNEIRO: coincidência em tese entre a pessoa do autor e do réu e a pessoa a quem, em tese, a lei atribui a titularidade ativa ou passiva da pretensão posta em juízo. - CHIOVENDA: "a identidade da pessoa do autor com a pessoa favorecida pela lei, e da pessoa do réu com a pessoa obrigada" (teoria concreta) Pelo art. 3º do CPC, a presença da legitimidade é necessária para propor e contestar ação. Porém, a parte ilegítima passiva deve contestar, exatamente para apontar sua condição de ilegitimidade (CPC, art. 301, II preliminar de contestação). Nosso sistema prevê a legitimidade ordinária (direito próprio em nome próprio) e extraordinária (direito alheio em nome próprio, apenas em hipóteses previstas na lei CPC, art. 6 o, parte final). Além disso, há a figura da representação, em que, para a supressão da incapacidade processual da parte, necessária a presença do representante no pólo da relação processual (CPC, art. 8º). Exemplos clássicos: pais, representando / assistindo seus filhos menores (CC, art. 3º e 4º), o síndico representando o condomínio / espólio representando o inventariante (CPC, art. 12). * Casos concretos: EPD legimatio ad causam Página 4 de 10

5 - panorama geral 1) A afirma que sofreu esbulho e ingressa com ação de reintegração de posse. Não provada a posse ou o esbulho, a ação é improcedente ou deve ser extinta pela ilegitimidade? 2) Acidente de veículo. A (agindo com culpa) atinge B. Pela força da colisão, B (diligente) acaba por atingir C. C ingressa em juízo em face de B. Este deverá alegar ilegitimidade ou pleitear improcedência? 3) Condômino ingressa em juízo para defender a posse de área comum do condomínio. Qual a natureza de sua legitimidade? 4) Representante em relação ao menor absolutamente incapaz, assistente em relação ao menor relativamente incapaz e síndico em relação ao condomínio. Ao suprirem a incapacidade da parte legítima, tornam-se partes? - problemas 1) Honorários advocatícios sucumbenciais (CPC, art. 20): legitimidade para cobrança é do advogado ou da parte litigante? 2) Legitimidade passiva para pleitear expurgos inflacionários do FGTS, referente aos planos econômicos dos fins dos anos 80, início dos anos 90? 3) Legitimidade passiva para discutir a majoração da alíquota de FGTS, ocorrida por força da LC 110/01? 4) Causa em que o MP atuou como fiscal da lei (CPC, art. 82). Sentença proferida e ausência de recurso da parte. MP tem legitimidade para recorrer? 5) Locação garantia por fiança. O fiador é parte legítima para figurar na ação de despejo ou somente deve figurar em ação de cobrança de aluguéis (L /81, art. 62, I)? 6) Fiador é parte legítima passiva para figurar em execução / cumprimento de sentença proferida em ação de despejo da qual ele não figurou no pólo passivo? 7) Débito condominial. Imóvel vendido / arrematado / leiloado. A legitimidade passiva é do atual ou do anterior proprietário? 8) Débito condominial. Imóvel vendido. Escritura não registrada, mas novo adquirente já na posse do apartamento. Qual é a parte legítima passiva? EPD legimatio ad causam Página 5 de 10

6 9) Débito condominial. Promessa de compra e venda. Compromissário comprador já está na posse do imóvel. Qual é a parte legítima passiva? 10) Acidente de veículo. Causador do dano é segurado. A seguradora é parte legítima passiva para figurar como ré? 11) Acidente de veículo. Carro causador do dano dirigido por motorista de empresa. Quem é parte legítima? 12) Acidente de veículo. Carro causador do dano de propriedade do irmão do motorista. Quem é parte legítima? 13) Acidente de veículo. Carro que sofreu o dano é de propriedade de amigo do motorista. Quem é parte legítima? 14) Acidente de veículo. Buraco na via pública que, aliado à alta velocidade de ambulância da Secretaria de Saúde do Estado de SP, causou o acidente. Quem é parte legítima? 15) Acidente de veículo. Caminhão da transportadora A, que prestava serviços para a empresa B, provocou o dano. Quem é parte legítima? 16) Acidente de veículo. Veículo que provocou acidente, no DETRAN, ainda é de propriedade de A. Porém, veículo foi vendido e já foi entregue a B. Quem é parte legítima? 17) Notícia vexatória e inverídica publicada no jornal X, assinada pelo jornalista Y, como fotos do fotógrafo W e diretor de redação Z. Quem é parte legítima para a ação indenizatória? 18) Multa aplicada em propriedade rural, por desmatamento. Imóvel vendido. Quem é parte legítima passiva? 19) Dano moral. Pessoa que sofreu o dano é falecida. Herdeiros têm legitimidade ativa para pleitear indenização? 20) Imóvel locado. Locador X, proprietário do imóvel Y. Quem é parte legítima ativa? 21) Seguro de vida. Seguradora A, corretora B. Ocorre o sinistro, mas a seguradora se nega a pagar os valores. Quem é parte legítima passiva? 22) Sentença condenando pessoa jurídica a indenizar o autor. Na execução, há legitimidade passiva dos sócios que não participaram do processo de conhecimento? Há alguma forma de atingir os bens dos sócios? 23) Inscrição indevida em cadastro restritivo. Há legitimidade do órgão cadastral ou somente de quem promove a inscrição? EPD legimatio ad causam Página 6 de 10

7 - processo coletivo 1) Pessoa jurídica de direito público pode ser parte legítima ativa para processo coletivo? 2) O que significa dizer que a legitimidade, no processo coletivo, é concorrente, disjuntiva e exclusiva? 3) No processo coletivo, quem é o titular do direito? Coletividade ou quem figura no pólo ativo da demanda? 4) No processo coletivo, quem tem legitimidade para figurar no pólo ativo? Defende-se direito de quem? 5) A legitimidade do MP é ampla e irrestrita ou apresenta algumas limitações? 6) Qual a natureza da legitimidade do autor coletivo (LACP, art. 5º e CDC, art. 82) na ação coletiva. Hipótese de legitimação ordinária, legitimação extraordinária ou representação? - coisa julgada e rescisória 1) Falsa sentença de carência, por ilegitimidade de parte, admite rescisória? Se não, admite-se a repropositura da mesma ação (mesmas partes, causa de pedir e pedido)? 2) Efetiva sentença de carência, por ilegitimidade de parte, admite rescisória? Se não, admite-se a repropositura da mesma ação (mesmas partes, causa de pedir e pedido)? * Conclusões No tocante às situações conflitantes, de casos concretos, não é possível realizar qualquer afirmação genérica. Além do estudo do direito objetivo aplicável, fundamental a análise jurisprudencial, especialmente do STJ. Atualmente, o assunto que mais tem preocupado os julgadores é a legitimidade do MP para a defesa de direitos individuais homogêneos (muitas discussões do STJ a respeito desse tema). Outro ponto de divergência (doutrinária, mais que jurisprudencial / prática) diz respeito à natureza da legitimação do autor coletivo nas ações civis pública. Na doutrina, diversas posições: (i) legitimação ordinária (BARBOSA MOREIRA) (ii) legitimação extraordinária / substituição processual (majoritária: ADA PELLEGRINI, DINAMARCO, TEORI ZAVASCKI) (iii) representação (THEREZA ALVIM, que afirma ainda existirem aspectos da legitimação extraordinária) EPD legimatio ad causam Página 7 de 10

8 (iv) categoria distinta (já que distinto do processo individual NELSON NERY JR) Dúvida que se coloca, de outro turno, é se a extinção do processo pela carência permite ou não a repropositura da mesma ação. Textualmente, dispõe o Código (art. 267, caput), que o processo é extinto, sem julgamento do mérito, em virtude da ausência de uma das condições da ação (i.e., legitimidade, interesse e possibilidade jurídica nos termos do inciso VI de referido artigo). Por sua vez, o art. 268 é claro ao afirmar que somente não se admite a repropositura de ação extinta sem julgamento do mérito nos casos de litispendência, perempção e coisa julgada (ou seja, quando presente qualquer dos pressupostos processuais negativos). Assim, pela letra da lei, a decisão que dá pela carência da ação, no direito processual civil pátrio, é meramente processual, não atacando o mérito e assim não sendo apta a produzir coisa julgada material sendo possível, portanto, a repropositura da mesma ação. Porém, pela realidade de extinção / ajuizamento da mesma ação inúmeras vezes, sem qualquer restrição (situação kafkiana) e com base nas lições de LIEBMAN (que, nesse caso, não foram para o CPC, como já visto), há autores que sustentam que da análise das condições da ação é possível a produção da coisa julgada material ou, simplesmente, que tais condições tratam, na verdade, de matéria de mérito. É o que afirma, por exemplo, LOPES DA COSTA: Se o juiz decide que o réu não deve ao autor, terá negado a existência da relação ajuizada, ter-se-á manifestado sobre o pedido de condenação do réu a pagar. Terá julgado improcedente a ação" Autor que bem sistematiza o assunto é TESHEINER 4, que arrola três correntes básicas quanto ao tema: (a) apreciação das condições da ação não envolve o mérito, (b) qualquer sentença não meramente processual será de mérito e (c) apesar das condições da ação serem parte do mérito pois não tratam da relação processual o regramento é distinto, já que não há coisa julgada na carência da ação (TESHEINER). Ainda, de TESHEINER, vale reproduzir o seguinte trecho: E preciso, porém, chamar-se a atenção para o fato de que, ao contrário do que parece resultar da leitura dos repertórios de jurisprudência, são relativamente raros os casos de ilegitimidade produtores de verdadeira carência de ação. Freqüentemente, o que se nega é a legitimidade no sentido chiovendiano, numa 4 Eficácia da sentença e coisa julgada no processo civil, p EPD legimatio ad causam Página 8 de 10

9 indevida transposição de um conceito próprio de uma teoria concreta para outra, abstrata, propiciada pela identidade de expressão, o que facilmente gera equívocos. ARRUDA ALVIM 5, firme na lei, afirma: Os pressupostos processuais (positivos e negativos) e as condições da ação, outrossim, ficam fora do mérito (v. art. 267, IV, V e VI). (...) Esta forma de classificação das sentenças reveste-se de importância digna de nota, pois tem conseqüências práticas de porte, e a nossa lei limitou a eficácia da sentença que decida com base em matéria processual (na qual, em parte, as condições da ação) ao próprio processo (v. art. 268). Em sentido inverso, WALTER CENEVIVA 6 afirma: Se a sentença, apreciando a legitimidade do autor, o deu por parte ilegítima para a causa, resultaria, por força do art. 268, que não revestiria o característico de coisa julgada. Mas, reveste. Sobre aquele que, alegando um certo direito sobre certo réu, ingressa em juízo com pedido determinado e tem repelida sua pretensão pelo Estado, por não ser parte legítima, recai a vedação de reiterar ação idêntica. Ainda, PONTES DE MIRANDA 7, que criticava a posição do Código de 39: A construção da situação jurídica em que fica o ferido com a extinção do processo pelo fundamento do art. 267, VI, merece toda a atenção. Trata-se de sutil problema de técnica jurídica construtiva. (...) Mas temos de atender a que a decisão de que se trata concerne ao processo. A possibilidade jurídica, a legitimidade da parte e o interesse processual não são, aí, objeto de coisa julgada material. Ou seja, divergência. Porém, a partir do texto legal, pode-se afirmar que o entendimento é que a sentença de carência não produz coisa julgada, sendo possível a repropositura da ação, sem óbice. A respeito desse tema, FLÁVIO YARSHELL 8, de forma lógica: (...) diante de uma sentença terminativa fundada em carência de ação, de duas uma: ou o sistema reputa admissível a repetição da mesma demanda (mesmas partes, causa de pedir e pedidos) caso em que, de fato, a sentença terminativa está excluída do âmbito da ação rescisória; ou o sistema, ao reputar inadmissível a repetição da mesma demanda, deve abrir ao interessado o canal da desconstituição, via ação rescisória. 5 Manual, V. 1, p REPRO 21/59. 7 Comentários ao Código de Processo Civil, p Ação rescisória, p EPD legimatio ad causam Página 9 de 10

10 Abaixo se apresenta julgado que entendeu pela formação da coisa julgada no caso de ilegitimidade de parte: PROCESSUAL CIVIL. ILEGITIMIDADE PASSIVA. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO. INDEFERIMENTO DA INICIAL. SENTENÇA SEM RECURSO. EFEITOS. COISA JULGADA MATERIAL. - A sentença que indefere a petição inicial e julga extinto o processo, sem o julgamento de mérito, pela falta de legitimidade passiva para a causa, faz trânsito em julgado material, se a parte deixar transcorrer em branco o prazo para a interposição do recurso cabível, sendo impossível o novo ajuizamento de ação idêntica. - Recurso especial conhecido e provido. (STJ RESP / SP Rel. Min. César Asfor Rocha m.v. DJ 5 MAR 01) STJ julgando contra o CPC. Perplexidade? Vale conferir o seguinte texto, de JOSÉ DE OLIVEIRA ASCENSÃO 9 : "Em Portugal e no Brasil o papel da jurisprudência é significativo. Muitas soluções tidas por assentes, nos últimos tempos de vigência do Código Civil português de 1867, eram de facto muito mais de filiar na jurisprudência que no Código, a que formalmente se referiam. E o mesmo diremos de muitas das soluções hoje obtidas no Brasil. (...) Quanto ao Brasil, há uma excessiva desenvoltura da jurisprudência perante a lei, que por vezes leva a soluções claramente contra legem. Mas essa tendência não tem levado à proclamação teórica da independência do juiz perante a lei. E até podemos dizer que essa mesma liberdade jurisprudencial se torna um óbice à formação de correntes jurisprudenciais estáveis, pois cada juiz facilmente põe de novo tudo em questão, impressionado sobretudo pelas particularidades do caso concreto." Porém, pelo outro lado: PROCESSO CIVIL. AÇÃO RESCISÓRIA. REQUISITOS. SENTENÇA DE MÉRITO. CONCEITO. CONDIÇÕES DA AÇÃO. ILEGITIMIDADE. INADMISSIBILIDADE DA AÇÃO. MAIORIA. I - Prevê o art. 485, CPC, como um dos requisitos de viabilidade da ação rescisória, a sentença de mérito. E mérito, nos termos do sistema processual vigente, é aquele que define a relação jurídica posta, a pretensão deduzida em juízo. II - Tendo o acórdão rescindendo decidido pela ilegitimidade de uma das partes, não ingressou ele no mérito da demanda, tornando inadmissível a ação rescisória. III - A circunstância de o acórdão ter concluído pela improcedência, em vez de ausência de uma das condições da ação, não autoriza a admissão da rescisória. Equívoco desse porte, terminológico, não tem o condão de transformar um instituto jurídico em outro. (STJ AR 932 / SP Rel. Min. SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA m.v. DJ 5 MAI 03) 9 O Direito: introdução e teoria geral; uma perspectiva luso-brasileira, p EPD legimatio ad causam Página 10 de 10

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