UNIVERSIDADE PAULISTA UNIP ÍNDIOS ONLINE: O USO DA INTERNET EM TRIBOS INDÍGENAS

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1 UNIVERSIDADE PAULISTA UNIP ÍNDIOS ONLINE: O USO DA INTERNET EM TRIBOS INDÍGENAS Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Comunicação da Universidade Paulista UNIP para a obtenção do título de Mestre em Comunicação. SIDNEI MARCIANO PEREIRA SÃO PAULO 2010

2 SIDNEI MARCIANO PEREIRA ÍNDIOS ONLINE: O USO DA INTERNET EM TRIBOS INDÍGENAS Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Comunicação da Universidade Paulista UNIP para a obtenção do título de Mestre em Comunicação, área de concentração Comunicação e Midiática, sob orientação da Profa. Dra. Bárbara Heller. SÃO PAULO SP 2010

3 Pereira, Sidnei Marciano Índios Online: o uso da internet em tribos indígenas / Sidnei Marciano Pereira São Paulo, f.: il. Dissertação (mestrado) Apresentada ao Instituto de Ciências Sociais e Comunicação da Universidade Paulista, São Paulo, Área de Concentração: Comunicação e Midiática Orientação: Profa. Dra. Barbara Heller 1. Índio. 2. Representação indígena. 3. Mídia cinematográfica. 4. Ciberespaço. I. Título.

4 SIDNEI MARCIANO PEREIRA ÍNDIOS ONLINE: O USO DA INTERNET EM TRIBOS INDÍGENAS Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Comunicação da Universidade Paulista UNIP para a obtenção do título de Mestre em Comunicação, área de concentração Comunicação e Midiática. Data de Aprovação: BANCA EXAMINADORA: Profa. Dra. Bárbara Heller (Orientadora) Universidade Paulista UNIP Prof. Dr. Milton Pelegrini Universidade Paulista UNIP Prof. Dr. Sérgio Amadeu da Silveira Faculdade Cásper Líbero

5 DEDICATÓRIA À minha mãe Josepha Pereira pelo apoio em todos os momentos e incentivo para nunca desistir.

6 AGRADECIMENTOS À minha orientadora Barbara Heller por todo o apoio e palavras de alento nos momentos difíceis. À minha família em geral, principalmente a Jô, Milton e Tiago que me acolheram em sua casa na cidade de Campinas/SP. Às minhas irmãs Suzana, Sandra e meu irmão Saulo pela compreensão neste período no qual me dediquei mais aos estudos do que a família. Um agradecimento muitíssimo especial à minha irmã Solange e minhas sobrinhas Phâmela e Phaola por me receberem em sua casa sempre que precisei ficar mais tempo em São Paulo. A todos que direta e indiretamente contribuíram para que eu dedicasse total atenção à pesquisa e foram solidários nos momentos de sufoco e cansaço, nesses 24 meses de luta e perseverança.

7 RESUMO Nossa pesquisa traz breve histórico da gênese da Comunicação Mediada por Computador (CMC) com o advento do computador e da Internet, além de relatos sobre a utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) por povos indígenas no território brasileiro, como ponto de partida para chegarmos à análise do nosso objeto de pesquisa, o site Índios Online. Também traçamos um pequeno panorama sobre a gradativa representação do indígena na mídia cinematográfica brasileira, para depois analisar a utilização pelos índios da tecnologia do vídeo e da internet nas aldeias. Por fim, analisamos a representação virtual dos índios na rede mundial de computadores, a Internet, por meio do site Índios Online, além de um breve estudo sobre a temática das reportagens publicadas no site e entrevistas para identificarmos a internet na visão do índio, buscando compreender o uso e o significado da Internet na vida dos indígenas e colhermos informações sobre a opinião dos mesmos a respeito dessa novidade nas aldeias. Nas considerações finais apresentamos algumas reflexões sobre a utilização da Comunicação Mediada por Computador, comentando suas vantagens e possíveis desvantagens na utilização desses recursos tecnológicos por tribos indígenas brasileiras. Palavraschave: índio, representação indígena, mídia cinematográfica e Internet.

8 ABSTRACT Our research provides a brief history of the genesis of ComputerMediated Communication (CMC) with the advent of computers and the internet, and reports on the use of Information and Communication Technologies (ICTs) by indigenous peoples in the brazilian territory, as a starting point to get to the analysis of our research object, the Indian Online site. Also draw a small picture on the gradual representation of indigenous media in brazilian cinema, in order to examine the use by indians of video technology and the internet in the villages. Finally, we analyze the virtual representation of indians in the World Wide Web, the internet, through the Indian Online site, beyond a brief study on the subject of news reports and interviews on the site to identify the internet in view of the indians, seeking understand the use and meaning of the internet in the lives of indigenous people and to glean information about the views of the same about this news in the villages. The closing remarks present some reflections on the use of ComputerMediated Communication, commenting on its advantages and possible disadvantages in their use of technology for brazilian indian tribes. Keywords: indian, indigenous representation, media cinema and Internet.

9 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Imagem reproduzida da página inicial do blog AJI em 10 de dezembro de Figura 2: Imagem reproduzida da página inicial do CIR, 10 de dezembro de Figura 3: Imagem reproduzida da página inicial do site COIAB em 10 de dezembro de Figura 4: Imagem reproduzida da página inicial Associação em 10 de dezembro de Figura 5: Imagem reproduzida do blog Estudante Indígena em 10 de dezembro de Figura 5: Imagem reproduzida do blog Estudante Indígena em 10 de dezembro de Figura 7: Imagem reproduzida da página inicial do IDETI em 10 de dezembro de Figura 8: Imagem reproduzida da página inicial do Inbrapi em 10 de dezembro de

10 Figura 9: Imagem reproduzida da página não localizada em 10 de dezembro de Figura 10: Imagem reproduzida da página de busca em 10 de dezembro de Figura 11: Imagem reproduzida da página inicial Nhandeva em 10 de dezembro de Figura 12: Imagem reproduzida da página Como ajudar em 10 de dezembro de Figura 13: Imagem reproduzida da página inicial da APIO em 10 de dezembro de Figura 14: Imagem reproduzida do blog SITOAKORE em 10 de dezembro de Figura 15: Imagem reproduzida da página inicial Warã em 10 de dezembro de Figura 16: pesquisa sobre o índio em site de busca em 5 de março de Figura 17: imagem do índio na internet em 5 de março de 2009 Figura 18: Imagem reproduzida da página inicial do site 72

11 Índios Online, 28 de março de Figura 19: Imagem reproduzida a partir do item Oca, site Índios Online, 28 de março de Figura 20: Imagem reproduzida a partir do item Oca, site Índios Online em 7 de agosto de Figura 21: Imagem reproduzida da página inicial do chat em 28 de março de Figura 22: Imagem reproduzida da página inicial do chat fora do ar em 7 de agosto de Figura 23: Página principal com o novo local de acesso ao chat em 10 de outubro de Figura 24: Ao clicar no anúncio do chat abrese esta página para acesso, 10 de outubro de Figura 25: Imagem da sala de batepapo vazia em 10 de outubro de 2009, depois da modificação 85 Figura 26: Imagem reproduzida da página Nações, 28 de março de Figura 27: Imagem reproduzida da nova página Mapa, 10 de agosto de

12 Figura 28: Imagem reproduzida da página inicial do Arco Digital em 28 de março de 2009, antes da reformulação do site 91 Figura 29: Imagem reproduzida da página inicial do item Diários, 28 de março de Figura 30: Imagem reproduzida da parte inferior da nova página Arquivos, 10 de agosto de Figura 31: Imagem reproduzida da nova página Arquivos, 10 de agosto de

13 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 Análise reportagens de abril/ Gráfico 2 Estatísticas das atividades 101 Gráfico 3 Análise dos temas abordados 102 Gráfico 4 Análise reportagens de maio/ Gráfico 5 Estatísticas das atividades 110 Gráfico 6 Análise dos temas abordados 111 Gráfico 7 Análise reportagens de junho/ Gráfico 8 Estatísticas das atividades 119 Gráfico 9 Análise dos temas abordados 120 Gráfico 10 Análise do segundo trimestre 121 Gráfico 11 Análise reportagens de julho/ Gráfico 12 Estatísticas das atividades 125 Gráfico 13 Análise dos temas abordados 126 Gráfico 14 Análise reportagens de agosto/ Gráfico 15 Estatísticas das atividades 131 Gráfico 16 Análise dos temas abordados 132 Gráfico 17 Análise reportagens de setembro/

14 Gráfico 18 Estatísticas das atividades 139 Gráfico 19 Análise dos temas abordados 140 Gráfico 20 Análise do terceiro trimestre 141

15 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AAIDF Associação dos Acadêmicos Indígenas do Distrito Federal AEIP Associação dos Estudantes Indígenas Pankararu AJI Ação dos Jovens Indígenas AIESA Adolescentes Indígenas Educadores em Saúde APIB Articulação dos Povos Indígenas do Brasil APIO Associação dos Povos Indígenas do Oiapoque Apoinme Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste Minas Gerais e Espírito Santo CEF Caixa Econômica Federal CINEP Centro Indígena de Estudos e Pesquisa CIPI Comissão Indígena da Propriedade Intelectual CIR Conselho Indígena de Roraima CMC Comunicação Mediada por Computador Conapir Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial CNPI Comissão Nacional de Política Indigenista COEPP Central de Organização das Escolas Públicas de Pankararu COIAB Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira

16 CONEG Conselho Nacional de Entidades Gerais CTI Centro de Trabalho Indigenista DIREC Diretoria Regional de Educação ETA Estação de Tratamento de Água ENIAC Electronic Numerical Integrator And Calculator EUA Estados Unidos da América Funasa Fundação Nacional de Saúde Funai Fundação Nacional do Índio Gesac Governo Eletrônico Serviço de Atendimento ao Cidadão GMI Grupo de Mulheres Indígenas HTML Hypertext Markup Language HTTP Hypertext Transfer Protocol HPG Home Page Grátis ICB Instituto do Cacau da Bahia IDETI Instituto das Tradições Indígenas INBRAPI Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual ISA Instituto Socioambiental OSCIP Organização da Sociedade Civil de Interesse Público MC Ministério da Comunicação

17 MCT Ministério da Ciência e Tecnologia MEC Ministério da Educação MinC Ministério da MTE Ministério do Trabalho e Emprego ONG Organização nãogovernamental PAC Programa de Aceleração do Crescimento PUC Pontifícia Universidade Católica TI Terra Indígena TIC Tecnologia da Informação e Comunicação UBES União Brasileira dos Estudantes Secundaristas UESC Universidade Estadual de Santa Cruz UFBA Universidade Federal da Bahia UFRR Universidade Federal de Roraima UNB Universidade de Brasília Unesco Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e WWW Word Wide Web

18 18 SUMÁRIO INTRODUÇÃO CAPÍTULO I Tecendo a Rede Gênese da Comunicação Mediada por Computador Espaço cibernético: a arte do controle Ciberespaço Espaço de euforia e disforia 1.4 Novas possibilidades para índios e não índios 2. CAPÍTULO II Rede verde e amarela 2.1 Índios na rede digital Ação dos Jovens Indígenas (AJI) Conselho Indígena de Roraima (CIR) Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) Associação Guarani Nhe ê Porã Estudante Indígena Instituto das Tradições Indígenas (IDETI) Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (Inbrapi) 52

19 Warã Instituto Indígena do Brasil Posto Indígena Kambiwá Associação Artísticol Nhandeva Associação dos Povos Indígenas do Oiapoque (APIO) Organização de Mulheres Indígenas do Acre Associação Warã CAPÍTULO III Arcos e flechas digitais Da tela do cinema à tela dos computadores Caminho das Índias na Internet Índios Online: como tudo começou Análise do site Índios Online Análise das reportagens publicadas no Índios Online Análise das entrevistas 142 CONSIDERAÇÕES FINAIS 151 REFERÊNCIAS 154 SITES VISITADOS 158 APÊNDICES 160

20 20 INTRODUÇÃO A sociedade pósmoderna, como pensam Stuart Hall (1998), Anthony Giddens (2002) e outros, é caracterizada pela velocidade das mudanças, pelo excesso de informações, pelas novas tecnologias. Sociedade acelerada, complexa, que parece não ter mais fronteiras. Chamada sociedade de informação, em rede, do conhecimento. O desenvolvimento da informática possibilitou a disseminação de outra forma de comunicação: mediada por computadores, que está sendo utilizada até por índios. Ao completar 15 anos de existência no Brasil, a internet ainda é um veículo que tem muito a ser estudado e explorado, principalmente no que se refere à Comunicação Mediada por Computador (CMC). No quadro brasileiro, o perfil das pessoas que participam das conversações na Web já foi bastante alterado, a partir da popularização da internet. A mudança no perfil de usuários acompanha o desenvolvimento de novas possibilidades tecnológicas de base digital: Estamos vivenciando um processo de informatização dos espaços urbanos, marcada pelo surgimento das redes telemáticas, da internet móvel e pelo desenvolvimento da computação portátil... (LEMOS e VALENTIM, 2007, p. 49). No Brasil, os índios do século XXI procuram, aos poucos, se adaptar e utilizar a Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Apesar das sucessivas perseguições ocorridas desde a colonização portuguesa, a população indígena do Brasil vem se mobilizando a fim de se organizar, reivindicando sua identidade étnica e seus direitos, utilizandose para isso até de recursos tecnológicos sofisticados, como a internet.

21 21 Então, nos perguntamos: quais os benefícios e os problemas a que estão expostos os índios brasileiros ao desbravarem a floresta virtual, imensa e sem fronteiras, que é a rede mundial de computadores? Tratase, efetivamente, de processo de inclusão, ou apenas ilusão da participação das comunidades indígenas na comunidade ciberespacial? São questões relevantes que justificam o estudo, a ser desenvolvido na linha de pesquisa Contribuições da Mídia para a Interação entre Grupos Sociais, que congrega pesquisas sobre os processos de mediação das linguagens que dinamizam modalidades comunicativas em grupos sociais. A dissertação é de caráter exploratório, permeada por questões teóricas e filosóficas propostas por pesquisadores das novas transformações comunicativas, como CASTELLS, 1999; GIDDENS, 2005; HALL, 1998; KOZINETS, 2002; SANTAELLA, 2003; SODRÉ, 2002; do ciberespaço, CAZELOTO, 2007; LEMOS e VALENTIM, 2007; LÉVY, 1998 e 1999; SILVEIRA, 2003; e do conhecimento científico, GEPHART, 2004; GODOY, 1995; VERGARA, 2005; TRAVANCAS, 2006; YIN, 2001; MOREIRA, 2004; BARDIN, 1988; AYROSA e SAUERBRONN, 2004, os quais compõem o quadro do nosso referencial teórico. O problema de pesquisa visa estudar e compreender se e como a influência da CMC fortalece a autonomia e emancipação indígena, no Brasil, na luta por seus direitos. Dada a enorme variedade de atividades realizadas na internet para se comunicar e defender direitos, como, por exemplo, protestar por e blogs, criar comunidades em sites de relacionamentos, fóruns, chats etc., é imprescindível delimitar a pesquisa para não nos perdermos no emaranhado de tramas da rede mundial de computadores. Por isso, selecionamos o site a fim de analisar seu conteúdo e estratégias utilizadas para a luta e defesa dos direitos indígenas.

22 22 Escolhemos o site pelo fato de ele ter a participação inicial de sete povos indígenas: kiriri, tupinambá, pataxóhãhãhãe e tumbalalá, na Bahia; xucurukariri e karirixocó, em Alagoas, e pankararu em Pernambuco e, posteriormente, a inclusão de mais seis tribos: truká, em Pernambuco; tupiniquim e guarani, no Espírito Santo; potiguara, na 1 Paraíba; terena, em Mato Grosso do Sul; e pankararu, em São Paulo. A análise de seu conteúdo abarcou as páginas disponíveis no menu do site e as reportagens publicadas. Delimitamos a pesquisa das reportagens nos últimos seis meses de publicação: de abril a setembro de 2009, com início no mês em que se comemora o Dia do Índio, e final em setembro, mês que antecedeu a apresentação do prérelatório para a qualificação da dissertação. Nas transcrições dos enunciados dos índios manteremos a maneira pela qual escrevem, sem corrigir erros de sintaxe e concordância, tampouco sem assinalálos com a sigla sic, para manter o texto o mais próximo possível do original. Este trabalho tem por objetivo geral conhecer e analisar como os índios utilizam a internet para reivindicar direitos políticos, entendidos aqui como civis e territoriais, a fim de entender o potencial dessa ferramenta na autonomia e emancipação indígena. E, por objetivos específicos, identificar quais os aparatos necessários para a utilização da internet pelos índios, equipamentos, programas e recursos. Por fim, compreender o potencial da CMC utilizada por tribos indígenas brasileiras. A priori, não partiremos de hipóteses preestabelecidas, pois estamos preocupados com o processo e não simplesmente com os resultados ou produto. O interesse do pesquisador qualitativo está em verificar como determinado fenômeno se manifesta nas atividades, procedimentos e interações diárias. 1 Os pankararu, originários da Aldeia Brejo dos Padres, em Pernambuco, começaram a migrar para São Paulo a partir de 1950, fugindo da seca, da fome e do conflito com posseiros.

23 23 Os pesquisadores qualitativos não partem de hipóteses estabelecidas a priori, não se preocupam em buscar dados ou evidências que corroborem ou neguem tais suposições. Partem de questões ou focos de interesse amplos, que vão se tornando mais diretos e específicos no transcorrer da investigação (GODOY, 1995, p. 63). A metodologia inclui pesquisa bibliográfica e revisão da literatura pertinente ao problema de investigação e a cibercultura, para embasar as orientações teóricas que darão suporte ao estudo. Será analisado o site Índios Online, escolhido a partir dos motivos já justificados, delimitando o objeto de pesquisa e as reportagens nele divulgadas. Segue abaixo breve relato dos métodos e estratégias de análises que foram adotados. Dentro das várias áreas do conhecimento científico, há dois tipos de estudos principais que podem ser seguidos: pesquisa quantitativa e pesquisa qualitativa. As duas vertentes são chamadas de natureza da pesquisa. A pesquisa de natureza quantitativa procura mensurar, enumerar, medir, quantificar, provar estatisticamente hipótese anteriormente estabelecida. Já a pesquisa de natureza qualitativa define suas proposições à medida que o estudo é aprofundado. Os focos se definem aos poucos, conforme a pesquisa se desenvolve. Na pesquisa qualitativa sobre a qual este trabalho assenta suas bases, é de suma importância à descrição dos fenômenos. Para Gephart (2004, p. 455), um importante valor da pesquisa qualitativa é a descrição e o entendimento das atuais interações humanas, os significados e os processos que constituem a organização da vida real. Desta forma, este trabalho será de natureza qualitativa, por ser pesquisa que estudará as relações humanas, históricas

24 24 e sociais, para entender significados. Segundo Godoy (1995, p. 58), a natureza da pesquisa qualitativa não procura enumerar ou medir os eventos estudados, nem emprega instrumental estatístico na análise dos dados. Parte de questões ou focos de interesses amplos, que se definem à medida que o estudo se desenvolve. Envolve a obtenção de dados descritivos sobre pessoas, lugares e processos interativos pelo contato do pesquisador com a situação estudada, procurando compreender os fenômenos segundo a perspectiva dos sujeitos, ou seja, dos participantes da situação em estudo. O ambiente e as pessoas nele inseridas devem ser olhados holisticamente: não são reduzidos a variáveis, mas observados integralmente. Quando um pesquisador de orientação qualitativa planeja desenvolver algum tipo de teoria sobre o que está estudando, constrói o quadro teórico aos poucos, à medida que coleta os dados e os examina. Os dois principais paradigmas de pesquisa, dentro das ciências sociais, são o positivista e o interpretativista. O primeiro busca descobrir a verdade sobre determinado assunto e estuda a realidade objetiva, controlando variáveis e hipóteses (Gephart, 2004). É mais indicado para pesquisas quantitativas. Por sua vez, a pesquisa interpretativista, ainda para Gephart (2004, p. 456), descreve significados e conhecimentos; produz a descrição do propósito dos membros e define uma situação: entende a construção da realidade. O paradigma de suporte da nossa pesquisa será interpretativista, pois focalizaremos a interpretação, em vez da quantificação, e daremos ênfase à interpretação que os próprios participantes têm do fenômeno da CMC, que está sob análise. Durante o desenvolvimento deste trabalho, também será usado o estudo do tipo

25 25 exploratório, pois a elaboração de páginas na internet por índios brasileiros é atividade inovadora, contemporânea e carente de referenciais teóricos. O estudo de caráter exploratório, segundo Travancas (2006), tem por objetivo organizar dados relevantes sobre o tema para serem, posteriormente, fontes de pesquisa, as quais suscitarão novos questionamentos e investigações. Métodos tradicionais, como a etnografia, têmse aberto para novas possibilidades. Uma delas é a netnografia. Tratase de abrir as portas para o estudo de outras tribos e outras culturas: as comunidades virtuais e a cibercultura, como será estudado neste trabalho. Se historicamente os estudos sobre os povos indígenas estavam condicionados aos deslocamentos do pesquisador até as comunidades, para permanecer in loco, a partir da utilização da rede mundial de computadores o contexto do encontro entre observador e observado transformouse consideravelmente. Para o estudo das comunidades virtuais e da cibercultura, Kozinets (2002) menciona que diversos antropólogos têm sinalizado para a necessidade de adaptação das técnicas próprias do método etnográfico. Nesse sentido, a netnografia é considerada uma nova metodologia de pesquisa qualitativa que incorpora as técnicas da etnografia tradicional ao estudo de comunidades e culturas emergentes a partir da Comunicação Mediada por Computadores. Assim, como lembram Ayrosa e Sauerbronn (2004), os relatos têm o valor de uma observação etnográfica, embora ninguém esteja fisicamente junto (VERGARA, 2005, p. 197). Por isso escolhemos o método netnográfico para as entrevistas, pois não estaremos fisicamente juntos. Adotamos o estudo de caso para análise do site Índios Online. O estudo de caso representa a estratégia ideal quando o pesquisador tem pouco controle sobre os eventos e quando o foco se encontra em fenômenos

26 26 contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real, como orienta Robert Yin (2001, p. 19). Iniciamos o estudo por meio da apresentação, via internet, da proposta de pesquisa aos membros do site Índios Online. Procedemos ao acompanhamento online das reportagens publicadas no site, selecionando as matérias publicadas em período determinado, e classificamos as reportagens em categorias, facilitando o estudo do objeto analisado. A construção dos dados se deu a partir de entrevistas online semiestruturadas. Elaboramos questões em ordem predeterminada, mas dentro de cada questão foi relativamente grande a liberdade, permitindo que outras questões fossem levantadas, dependendo das respostas dos entrevistados, segundo orienta Moreira (2004, p. 55). Foram entrevistados online um usuário da internet na tribo indígena pankararu, em Pernambuco, um dos gestores do site Índios Online e o coordenador da ONG Twydêwá, Sebastian Gerlic, idealizador da Rede Índios Online. Os critérios de seleção dos entrevistados não foram rígidos: escolhemos usuário, gestor e coordenador para colher informações sobre opiniões a respeito do uso da internet em aldeias indígenas brasileiras. Além das entrevistas online, também houve análise de conteúdo do site Índios Online, na tentativa de verificar quais as posturas políticas, ideológicas e sociais presentes. A análise de conteúdo, segundo Bardin (1988), definese como conjunto de técnicas de análises das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção dessas mensagens.

27 27 Concluímos a análise do site e das informações coletadas utilizando as três fases cronológicas delimitadas por Bardin (1988): Préanálise: fase de organização do trabalho em que se deve escolher os documentos que serão submetidos a análise, formular hipóteses e objetivos e elaborar indicadores que fundamentem a interpretação final. Exploração do material: a análise propriamente dita. Se a préanálise for feita de maneira cuidadosa e convenientemente concluída, esta fase representa a administração sistemática das decisões tomadas anteriormente, envolvendo operações de codificação em função das regras previamente formuladas. Tratamento dos resultados obtidos e interpretação: os resultados brutos são tratados de maneira a serem significativos e válidos. A partir deles, o analista pode fazer inferências. A pesquisa bibliográfica e revisão da literatura foram desenvolvidas no período de agosto a dezembro de A análise do site Índios Online iniciouse no mês de março de 2009, e as entrevistas no segundo semestre do ano corrente. Concluímos uma préanálise dos dados da pesquisa nos meses de agosto e setembro de Como a internet é dinâmica e de fácil atualização, em agosto de 2009, o Índios Online alterou o visual do site. Como já estávamos com a análise completa, utilizamos essa mudança para traçar paralelo do antes e depois do Índios Online. Estabelecidas nossas estratégias e objetivos, dividimos esta dissertação em três capítulos. No primeiro há breve histórico da gênese da CMC, com o advento do computador e da internet, tecnologias que possibilitaram o desenvolvimento de novo mercado da informação e do conhecimento, o ciberespaço, descrevendo seus pontos positivos e negativos. Nesta pesquisa não interessa a técnica em si. Contudo, é essencial expor as grandes tendências da evolução tecnológica para abordar as

28 28 mutações sociais e culturais que as acompanham. Iniciamos o segundo capítulo com breve relato da apropriação das TIC por povos indígenas no território brasileiro, como ponto de partida para chegar à análise do objeto de pesquisa, o site Índios Online. No terceiro capítulo, há breve panorama sobre a gradativa representação do indígena na mídia cinematográfica brasileira, tomando como ponto de partida os termos 2 índio primitivo, índio documentado, índio patriótico e índio tecnizado, de Robert Stam, para depois analisar a utilização pelos índios da tecnologia do vídeo e da internet nas aldeias. Apresentamos à análise da representação virtual dos índios na rede mundial de computadores, a internet, por meio do site Índios Online, mantido pela organização não 3 governamental (ONG) Thydêwá, composta por índios e não índios, além de breve estudo sobre a temática das reportagens publicadas no site. Elaboramos questões para identificar a internet na visão do índio. Por exemplo: para você, o que significa a internet? A tecnologia pode descaracterizar o índio e a sua cultura? As respostas para essas e outras perguntas que aplicaremos na entrevista ajudarão a entender o uso e o significado da internet na vida dos indígenas, além de saber a opinião a respeito dessa novidade na aldeia. Nas considerações finais há algumas reflexões sobre a utilização da CMC, comentando vantagens e possíveis desvantagens na utilização dos recursos tecnológicos por tribos indígenas brasileiras. 2 3 Índio documentado, índio patriótico e índio tecnizado são categorias utilizadas por Robert Stam, em seu texto Imagens cinematográficas dos índios brasileiros, publicado na obra de Lauerhass, Ludwig e Nava, Carmen. Brasil uma identidade em construção, e foram aplicados neste artigo graças à clareza que oferecem aos estudiosos da imagem do índio na mídia audiovisual. Na língua pankararu thydêwá significa esperança da terra.

29 29 1. CAPÍTULO I TECENDO A REDE 1.1 GÊNESE DA COMUNICAÇÃO MEDIADA POR COMPUTADOR Para se conhecer mais sobre a CMC, é preciso compreender o que é o ambiente digital e sua abrangência, a partir de breve ensaio sobre o desenvolvimento da tecnologia e infraestrutura. Os computadores modernos tiveram como precursoras as primeiras calculadoras capazes de armazenar programas. O primeiro computador eletrônico foi construído em 1945 para cálculos balísticos. Chamavase Electronic Numerical 2 Integrator And Calculator (ENIAC), ocupava por volta de 100m, consumia 140 quilowatts, pesava 30 toneladas e ficava isolado em ambiente refrigerado, onde cientistas em uniforme branco o alimentavam com cartões perfurados, e que de tempos em tempos emitiam listagem de dados em formulários contínuos. Outro passo decisivo foi a invenção do microprocessador, em 1971, por Ted Hoff, permitindo multiplicar inúmeras vezes a capacidade de processamento das primeiras máquinas. Isso viabilizou a redução do tamanho dos computadores e permitiu o surgimento dos microcomputadores. No final dos anos 70, o computador diminuiu de tamanho, aumentou a

30 30 capacidade de processar informações e foi sendo absorvido em várias atividades econômicas. Esse desenvolvimento tecnológico deu início a nova fase na automação da produção industrial: robótica, linhas de produção flexíveis, máquinas industriais com controles digitais etc. A busca constante de produtividade por várias formas de tecnologia (aparelhos eletrônicos, computadores e redes de comunicação de dados) foi tomando corpo e assumindo grande valor nas atividades econômicas. Segundo relata Lévy (1999, p. 32), a informática perdeu aos poucos a postura de técnica, deixando de ser utilizada apenas no setor industrial para fundirse às telecomunicações, à editoração, ao cinema e à televisão. A fusão facilitou a difusão da internet a ponto de, hoje, permear a vida em todos os momentos. A internet começou em 1958, para evitar que as comunicações fossem interrompidas em ataque com armas nucleares. A ideia era construir uma rede que evitasse a existência de um centro e de única rota de comunicação. A comunicação seria feita por pacotes de informações enviadas de forma redundante por várias rotas, em uma rede em que todos os pontos se comunicariam. Assim, se uma bomba destruísse alguns pontos da rede, as informações continuariam a ser enviadas pela malha de comunicação intacta. Pouco mais de duas décadas depois, a ideia havia se tornado imensa rede, que só conectava instituições educacionais e de pesquisa. Diferentemente de hoje, quando milhões de pessoas têm acesso à internet a partir da residência, do trabalho ou de sua biblioteca na escola ou na universidade, pública ou privada. Em suma, atualmente as ferramentas de criação de sites na web permitem que, praticamente qualquer pessoa, com um pouco de conhecimento em informática, com acesso ao computador e à internet, coloque uma página na web e contribua para a definição desse meio e do que ele pode fazer.

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