Pedro Celso Campos (1) Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

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1 HUMAN ECOLOGY The role of communication in the quality of life of seniors: considerations about the body and the mind on the third age ECOLOGIA HUMANA O papel da Comunicação na qualidade de vida da pessoa idosa: considerações sobre Corpo e Mente na Terceira Idade Pedro Celso Campos (1) Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho Resumo Com o acentuado envelhecimento da população, muitos pesquisadores procuram respostas para uma velhice com mais qualidade de vida. Todos concordam que não basta viver mais, é necessário viver bem. Uma das principais preocupações é com a medicina preventiva que busca preparar o corpo e a mente para uma terceira e quarta idade mais felizes. Neste artigo queremos destacar a contribuição dos processos comunicacionais no envelhecimento saudável, relacionando Comunicação, Saúde e Terceira Idade. Também queremos chamar a atenção dos estudantes de jornalismo para essa pauta cada vez mais presente do envelhecimento demográfico, visando, ainda, contribuir com a superação de potenciais conflitos intergeracionais resultantes do envelhecimento populacional. Palavras-chave: Comunicação, Idoso, Corpo, Saúde, Integração. Abstract With the continued aging of the population, many researchers look for answers for aging with quality of life. All agree that living longer is not enough, it is necessary to live well. One of the main concerns is with the preventive medicine that aims to prepare the body and the mind for a happier third age. In this article we want to highlight the contribution of the communication processes for a healthy aging, correlating Communication, health, and the Third age. We also want to call the attention of the journalism student for this subject that is progressively more present, that is the demographic aging, aiming also to contribute with the overcoming of potential conflict between generations resulting from the population aging. Keyword: communication, seniors, body health, Integration. (1) Pedro Celso Campos é doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (2006), tem pós-doutorado na mesma área pela Universidade de Sevilha (2008), integra o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação-FAAC da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho UNESP e sua pesquisa na área do jornalismo ambiental e da ecologia humana relaciona Comunicação, Saúde e Qualidade de Vida da Pessoa Idosa / 120

2 Communication + Management + Education + Leadership + Informing Science + Peace Culture + Politics + Sociology + Economy + REVISTA indizada, incorporada o reconocida por instituciones como: LATINDEX / REDALyC / REVENCYT / CLASE / DIALNET / SERBILUZ / IBT-CCG UNAM /EBSCO Directorio de Revistas especializadas en Comunicación del Portal de la Comunicación InCom-UAB / / Directory of Open Access Journals (DOAJ) / / Yokohama National University Library jp / Stanford.edu, / University of Rochester Libraries / Korea Fundation Advenced Library.kfas.or.kr / / / fr.dokupedia.org/index / / Universitè de Caen Basse-Normandie SICD-Rèseau des Bibliothéques de L'Universitè / Base d'information Mutualiste sur les Périodiques Electroniques Joseph Fourier et de L'Institutè National Polytechnique de Grenoble / Biblioteca OEI / / / / / / Cit.chile, Journals in Electronic Format-UNC-Chapel Hill Libraries / / / / / / / / / / / EBSCO /www.opac.sub.unigoettingen.de / / / / / / / / / / / www. /phoenicis.dgsca.unam.mx / / / / / / / / / / / / / +++ / Universal Impact Factor No bureaucracy / not destroy trees / guaranteed issues / Partial scholarships / Solidarity / / Electronic coverage guaranteed in over 150 countries / Free Full text /Open Access INTRODUÇÃO Chama atenção nos estudos sobre envelhecimento o fato de que esse processo não ocorre de forma igual para todas as pessoas - apresentando características que exigem atenção específica para cada sujeito mas que isto ocorre de modo diferenciado em cada sociedade, em cada região do mundo. As pesquisas indicam que em determinadas regiões o processo se desenvolveu de forma mais gradual, quando se comparam as taxas de fecundidade e de mortalidade. Em outras, entretanto, a velocidade do envelhecimento é duas vezes mais rápida, o que está a exigir dos governantes medidas mais eficientes no que se refere ao atendimento das necessidades desse grupo social, especialmente no que se relaciona com a saúde pública e preventiva. A pesquisa Saúde, Bem-Estar e Eenvelhecimento -SABE, financiada pela Organização Pan-Americana de Saúde, em colaboração com a Organização Mundial da Saúde, em 2003, envolvendo sete países da América Latina e Caribe, revelou claramente essa situação, conforme relata Martha Peláez, assessora de Envelhecimento da OPAS, na apresentação da pesquisa que, no Brasil, teve o apoio da USP, FAPESP e Ministério da Saúde, sendo 108 / 120

3 conduzida, em nosso país, pelas professoras da USP Maria Lúcia Lebrão e Yeda A. de Oliveira Duarte, (Cf. LEBRÃO -2003). Ao historiar a natureza desse estudo da OPAS, os pesquisadores Alberto Palloni e Martha Peláez observam: Nas sociedades da região (AL e Caribe), onde a diminuição da mortalidade e da fecundidade está concentrada em poucos anos, a velocidade do envelhecimento é muito mais elevada do que em áreas como a Europa Ocidental e América do Norte, onde a diminuição da mortalidade e da fecundidade ocorreu mais gradualmente, em períodos de tempo mais prolongados. Os contrastes entre a velocidade do envelhecimento na América Latina e no Caribe, de um lado, e América do Norte, Oeste dos Estados Unidos e Europa Ocidental, por outro lado, é surpreendente... De fato, indicam que a velocidade do envelhecimento na região será ao menos duas vezes mais elevada que em outras regiões do mundo levando à passagem de uma sociedade jovem a uma mais idosa. A principal implicação dessa regularidade é que a transição para sociedades mais idosas nos países da região se acelera quando suas distribuições de idade ainda estão relativamente jovens. A pesquisa também revela que quatro países da região Argentina, Barbados, Cuba e Uruguai estão em estágios muito avançados do processo de envelhecimento, enquanto os outros três Chile, México e Brasil estão ligeiramente atrás dos precursores. Com efeito, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística- IBGE 1, desde os anos 1960 que a taxa de crescimento da população brasileira vem experimentando paulatinos declínios, intensificando-se juntamente com as quedas mais pronunciadas da fecundidade. No período , a taxa de crescimento da população recuou de 3,04% ao ano para 1,05% em Mas, em 2050, a taxa de crescimento cairá para 0,291%, que representa uma população de 215,3 milhões de habitantes. Segundo as projeções, o país apresentará um potencial de crescimento populacional até 2039, quando se espera que a população atinja o chamado crescimento zero. A partir desse ano serão registradas taxas de crescimento negativas, que correspondem a queda no número da população. Vale ressaltar que se o ritmo de crescimento populacional se mantivesse no mesmo nível observado na década de 1950 (aproximadamente 3% ao ano), a população brasileira chegaria, em 2008, a 295 milhões de pessoas e não nos 189,6 milhões divulgados pelo IBGE. Essas informações podem ser encontradas no estudo do IBGE Uma abordagem demográfica para estimar o padrão histórico e os níveis de subenumeração de pessoas nos censos demográficos e contagens da 1 Cf. acessado em 27/04/ / 120

4 população, que traz ainda a projeção da população do Brasil, por sexo e idade, para o período A Revisão 2008 incorpora a revisão da trajetória recente e futura da fecundidade, com base nas informações provenientes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2002 a 2006, cujo nível limite se estabiliza em 1,5 filho por mulher (hipótese recomendada). Esses dados indicam a urgência de se discutir políticas públicas sobre envelhecimento em todos os níveis da sociedade, envolvendo o Estado e a Sociedade. Naturalmente não se pode excluir desse processo o papel da Universidade Pública e dos Meios de Comunicação. Com efeito, têm crescido, amplamente, nos últimos anos, os programas da Universidade Aberta à Terceira Idade que permitem aos idosos exercitarem corpo e mente no ambiente saudável e seguro dos campi universitários. Também os meios de comunicação estão se abrindo cada vez mais para essa pauta tão humana e tão destacada do envelhecimento demográfico. Em algumas instituições de ensino superior já existe uma tendência de se integrar os programas da Terceira Idade com os cursos de graduação voltados para as áreas de Humanas e Ciências Sociais Aplicadas, visando a preparação dos jovens para uma compreensão melhor desse fenômeno demográfico e contribuindo, de alguma forma, para a superação dos potenciais conflitos geracionais decorrentes. Iniciamos este artigo com breves considerações sobre a presença do idoso na sociedade de consumo dos nossos dias onde ele se torna alvo de todo tipo de publicidade voltada à venda de bens e serviços. Seu corpo, que denuncia a idade nas praças, nas ruas, nos supermercados, no trânsito etc, vai se tornando alvo preferencial de toda uma campanha relacionada com saúde e bem-estar. Crescem, assim, as preocupações com o exercício físico, já praticado gratuitamente em inúmeras academias ao ar livre em várias cidades. O idoso já não precisa esconder o corpo, o que importa é exercitar-se e manter-se saudável. Não é raro vermos senhores de elevada idade praticando exercícios ao ar livre usando bermudas ou até mesmo sem camisa. Tempos atrás não era usual mostrar o corpo assim, esperando-se do idoso um comportamento discreto. Agora, porém, vivenciamos a cultura do corpo que pode ser belo se cuidarmos dele e se soubermos aliar os cuidados com o corpo e os cuidados com a mente, conforme o slogan latino mens sana in corpore sano. Compreendemos, entretanto, que as convenções sociais relacionadas com o corpo humano mudaram muito ao longo do tempo. O CONCEITO DE CORPO FRÁGIL As pesquisas médicas ocupam-se amplamente das fragilidades do corpo humano, principalmente as decorrentes da idade avançada. Desde cedo o 110 / 120

5 corpo é alvo de inúmeras campanhas de saúde pública e muitas fortunas se desenvolvem com o comércio de produtos para o corpo. Na idade produtiva o corpo deve estar apto para o trabalho todo o tempo e em plena forma, pois não basta trabalhar, é preciso produzir mais. Mais além do trabalho em si, o objetivo buscado é o desempenho, a concorrência, a superação dos limites. A observação capitalista sobre as potencialidades do corpo humano acentua-se com o próprio surgimento do capitalismo. Com efeito, a partir do século XVIII desenvolve-se toda uma arte do corpo: Começa-se a observar de que maneira os gestos são feitos, qual o mais eficaz, rápido e melhor ajustado. É assim que nas oficinas aparece o famoso e sinistro personagem do Contra-Mestre, destinado não só a observar se o trabalho foi feito, mas como é feito, como pode ser feito mais rapidamente e com gestos melhor adaptados. ( Foucault, 1979). Também nessa época já existe a noção de que é necessário cuidar do meio ambiente porque a doença decorre das reações do corpo ao ambiente insalubre. Por isto, no alvorecer do capitalismo e da urbanização, a nova medicina social dá a sua contribuição para a correta circulação da água, a destinação dos esgotos, a disposição dos cemitérios e abatedouros de gado que antes funcionavam em pleno centro de Paris, por exemplo. O desenvolvimento das cidades, o aparecimento de uma população operária pobre que vai tornar-se o proletariado no século XIX, aumentará as tensões políticas no interior das cidades. Com a aglomeração, logo surgiriam as epidemias, a violência e a necessidade de se organizar o espaço urbano. Conta ainda Foucault que é a partir de 1780 que aparece o cemitério individualizado, em lugar afastado, com o sepultamento em caixões individuais, com sepulturas onde as famílias escrevem o nome de cada um. Portanto, a noção de respeito ao cadáver é mais uma medida de profilaxia ambiental do que um ensinamento religioso ou algo parecido. É uma prática que se inscreve nas medidas político-sanitárias de respeito aos vivos no final do século XVIII 2. Esse mesmo corpo, antes desprezado e ignorado, surge, em nossos tempos de consumismo desenfreado, como a grande seara cosmética onde é possível plantar e colher incessantemente, sempre com os melhores resultados. Vende-se de tudo para o novo corpo, desde próteses de silicone a remédios para emagrecimento, dietas milagrosas, roupas que realçam as curvas do corpo, associando-se o corpo estético e belo aos mais diferentes produtos como carro, cerveja, investimentos, destinos turísticos, alimentos etc. 2 ) Com base em textos antigos, Michel Foucault dá conta que no Cemitério dos Inocentes, no centro de Paris, os corpos dos pobres e indigentes eram amontoados de tal forma, antes do Séc. XVIII, que as pilhas superavam a altura dos muros e alguns caíam nas ruas laterais. 111 / 120

6 O corpo, antes cuidado para produzir com o melhor resultado, agora oferece ao mercado sua última oportunidade de gerar um lucro extra ao ser preparado para o envelhecimento sustentável. Aparece, assim, o conceito burguês de Terceira Idade em que todos são estimulados a cuidar da saúde corporal para estarem aptos a seguir vivendo com qualidade. Do ponto de vista da comunicação, esse corpo será sempre um livro aberto através do qual é possível resignificar toda a história de uma pessoa ou grande parte dela. Como um outdoor ambulante, ele informa sobre as origens, a ocupação, o estado mental e psicológico da pessoa observada. Com o assessório da vestimenta, o corte do cabelo, o calçado, o perfume.. esse corpo é pura comunicação que atua no sentido de atrair ou afastar as pessoas. Na quarta idade e adiante, será um corpo recluso, cuidado por terceiros, já praticamente invisível à sociedade. A fragilidade excessiva agora recomenda esconder o que antes era mostrado. Espera-se que todos guardem na memória a imagem de um corpo exuberante, sadio, belo, estético. É comum, nas mídias sociais, blogueiros mais velhos exibirem fotos mais jovens. Entretanto, a visão do corpo frágil pelas ruas da cidade enquanto as condições de saúde permitem - tende a nos levar a uma atitude de respeito e consideração, fruto da educação recebida no lar, na escola, em parte da mídia onde são passadas noções de ética, cidadania, inclusão social, aceitação da alteridade etc. É uma grande sorte, para um mundo melhor e menos violento, quando os jovens são ensinados a rejeitar qualquer tipo de preconceito, seja de raça, ideologia, cor, status socio-econômico, cultural, de gênero, étnico etc. Infelizmente esse mundo ideal não existe em toda parte, todo o tempo. Se existisse não veríamos jamais os casos de violência contra idosos denunciados pela mídia quando são descobertos. E os que não são comunicados pelos mais variados motivos? No entanto, quando são divulgados, geram revolta na sociedade que não aceita tanta violência. Podemos discutir, então, o papel da comunicação no sentimento de respeito aos idosos. Mas qual comunicação? Que instâncias comunicacionais podem contribuir com o fortalecimento desse segmento social, empoderando-o, fortalecendo-o coletivamente, criando uma mentalidade de convívio civilizado? COMUNICAÇÃO E INTEGRAÇÃO Através dos meios de comunicação convencionais, os produtores de bens e serviços dirigem-se permanentemente ao segmento da Terceira Idade chamando a atenção desse rico filão do mercado de consumidores. Esta é uma comunicação vertical, especialmente dirigida ao consumo - e surte seus efeitos, claro. Mas há um outro tipo de comunicação, defendida na pesquisa 112 / 120

7 acadêmica e em outros fóruns onde nem sempre a razão de tudo é o lucro. Neste caso trata-se de situar o idoso como sujeito da história e não como objeto de consumo. Também no bom jornalismo de serviço à comunidade podemos ver situações em que o objetivo não é falar para o idoso, mas sobre o idoso, dando-lhe espaço e voz para que manifeste o seu olhar sobre o mundo, sobre a realidade à sua volta. Esta é a comunicação que empodera, que valoriza, que respeita. E não é difícil produzi-la porque o idoso tem muitas histórias, basta buscar o contexto adequado para situar depoimentos e histórias de vida, criativamente. Ressalta-se, aqui, o papel a ser exercido pelos responsáveis, pelos familiares, afinal, pelos profissionais que cuidam da pessoa idosa, notadamente na idade mais avançada. Essas pessoas devem ter preparo para não privar o idoso dos seus programas favoritos na TV, no rádio etc. Muitas pesquisas revelam que isto é fator de saúde, de equilíbrio para a pessoa que já não pode mais sair de casa. Essa orientação deve estar presente nos cursos de preparação dos cuidadores de idosos, agora cada vez mais comuns em toda parte devido à elevada procura de profissionais dessa área. Todavia, enquanto a pessoa sente-se em condições, outro modo de comunicação muito salutar é possível e necessário. Trata-se da comunicação horizontal, pela integração, que pode se dar em associações, clubes, igrejas etc. Há alguns anos vem crescendo, em todo o mundo, a compreensão de que a Universidade Pública, financiada pelos contribuintes, tem uma dívida social com as pessoas idosas, das quais recebeu apoio e sustentação em toda a sua vida de contribuintes e pagantes de impostos. Por isto vem se ampliando, cada vez mais, o número de idosos nos programas denominados Universidade Aberta à Terceira Idade. Ali, além da integração, as pessoas também são desafiadas a aprender mais, a estudar coisas novas, a discutir novas abordagens para assuntos que antes julgavam imutáveis e empedernidos. É necessário cuidar mesmo no ambiente universitário para que a integração não se transforme em segregação. Por isto é sempre aconselhável quando possível - implantar as UNATIs junto aos Departamentos de Comunicação Social ou de Ciências Sociais, de modo a estimular o contato com os jovens que lidam com as artes da linguagem, da estética, da expressividade verbal, da produção textual, afinal, da Comunicação. Um exemplo prático desse tipo de UNATI pode ser observado na Faculdade de Comunicação da Universidade de Sevilha, na Espanha, onde os idosos têm seu próprio curso universitário, mas convivem todo o tempo com os jovens. Esse convívio irá estimular o sentimento de pertença social, de cidadania, unindo a experiência do idoso com as expectativas do jovem. Cidadania é a afirmação do indivíduo dentro do espaço público, onde tem o direito de ser tratado como igual e não como excluído. Esse é um aprendizado fundamental em uma sociedade considerada doente pela intolerância e o preconceito. 113 / 120

8 Historicamente, o conceito de cidadão aparece como resultante da Revolução Francesa, mas só vai se desenvolver na sociedade capitalista de fundo positivista que difunde a ideologia de que todos são iguais perante a lei. É necessário constatar, porém, que os séculos de capitalismo desenfreado e de destruição da natureza, em função do lucro privado, evidenciaram que isto não vai além da pregação ideológica, porque as oportunidades não são iguais. Até 1930 a cidadania era bastante incipiente no Brasil, segundo Canoas (2008) 3, levando mais de meio século para se firmar no país. Só em 1988 foi promulgada a chamada Constituição Cidadã que realmente se preocupa com o cidadão, apesar de muitas normas não terem sido ainda regulamentadas. Pela primeira vez a Constituição contempla a questão ambiental e a pessoa idosa, além dos direitos do consumidor. Não tenhamos ilusão, porém, pois sempre será necessário lutar pela afirmação dessa cidadania e mesmo assim ela jamais será plena pois, como vimos em sua origem, será sempre uma concessão do estado burguês, como também observa Canoas (2008): A extensão e o conteúdo da cidadania variam conforme as metas e objetivos que o Estado traça para a sociedade. Desta forma, podemos concluir que a cidadania estará sempre dentro dos limites possíveis do Estado. 3. Decorre daí o importante papel da escola, da família, dos meios de Comunicação, da Universidade etc na constante preparação e afirmação da cidadania, em um processo de educação continuada. É na Universidade Aberta à Terceira Idade que esse processo atingirá o seu ápice, quando cidadãos maduros convivem com futuros profissionais e as gerações se encontram nesse ágape da natureza humana fulcrada na busca do saber e do conhecimento. São inúmeros os especialistas da área de gerontologia que valorizam essa exercitação da mente e essa integração comunicativa como importantes elementos que contribuem com a qualidade de vida da pessoa idosa. Cabe destacar que os programas universitários voltados para idosos cumprirão tanto melhor sua finalidade quanto mais seus dirigentes se lembrarem que estão lidando com um público interessado em aprender, que tem noção do processo de conhecimento. Muitas vezes são pessoas que trazem toda uma bagagem cultural ou de experiências práticas e que pode interagir em trabalhos de grupo bem organizados. A educação bancária, que Paulo Freire tanto critica no ensino convencional, destinada a depositar ideias na cabeça dos jovens, torna-se pior ainda no caso dos idosos que preferem 3 ) Cf. CANOAS, C.S. A Cidadania na Velhice. In SOARES,N. e JOSÉ FILHO M. (Orgs.) UnATI-Construindo Cidadania. Franca-SP: UNESP, / 120

9 discutir os assuntos ao invés de engolirem tudo que ouvem. Daí a necessidade de não focar as atividades da UNATI apenas na recreação. Se concordarmos com a pedagogia de Paulo Freire, se acatarmos a visão de rede exposta por Manuel Castells, então aceitaremos que o conhecimento não está só com o professor. Ele não é dono da verdade, porque toda verdade é relativa, no plano material. O que se espera do professor é que ele seja um organizador, um facilitador dos saberes coletivos, que seja uma oportunidade de voz e de manifestação para todos os saberes. Aprendendo junto, alunos e professores poderão desvendar novas formas de abordagem, novos modos de estudar a realidade, novas técnicas de ensinar e de aprender. Mas isto só será possível quando, pelo diálogo e pelo respeito civilizado, todas as instâncias compreenderem que só a humildade diante do conhecimento nos leva a adquirir mais conhecimento. A arrogância, a prepotência, o dogmatismo tendem a nos afastar do conhecimento. Por isto Pascal indaga: Onde está o saber que perdemos com o conhecimento? A boa organização dos cursos da Universidade Aberta à Terceira Idade deve começar pelo conhecimento do perfil dos alunos potenciais. Quem é o idoso hoje? De que geração ele vem? Como ele se relaciona com as novas tecnologias? Quais os desafios que se colocam hoje para a qualidade de vida da pessoa idosa? É aconselhável lembrar, por exemplo, que o senhor de 70 anos, hoje, era adolescente nos anos 60 e pertence à chamada geração babyboomer, fenômeno de explosão demográfica ocorrido logo após a Segunda Guerra Mundial. Essa geração foi para a Universidade, protestou contra a Guerra do Vietnã, proclamou um novo estilo de vida baseado no despojamento dos hippies, na paz e no amor. É uma geração que se deixou embalar pelo romantismo, pelo rock and roll e depois mandou seus filhos para a Universidade também. É uma geração que não se intimida com as novas tecnologias e se adapta muito bem às novidades de nossos tempos. Mas é preciso que a UNATI apoie essa busca do idoso pelo contato com as tecnologias que vão permitir o diálogo com as novas gerações. Isolar o idoso do mundo digital não é uma boa medida para quem está preocupado com a qualidade de vida da pessoa idosa. A marginalização a que muitos idosos são expostos, principalmente em segmentos populacionais mais humildes, é prejudicial porque reduz o nível de informação e de comunicação, portanto de interatividade. Na Sociedade da Informação, em que todo conhecimento está ao alcance de um clic, a participação plena do idoso é conveniente e necessária. Em outros tempos o idoso exercitava outras formas de comunicação, muito mais baseada no saber oral transmitido de geração em geração, o que contribuía, também, para manter a autoridade, o protagonismo do idoso sobre o grupo, como lembra Bobbio: 115 / 120

10 Nas sociedades tradicionais e estáticas, que evoluem lentamente, o velho reúne em si o patrimônio cultural da comunidade, destacando-se em relação a todos os membros do grupo. O velho sabe por experiência aquilo que os outros ainda não sabem e precisam aprender com ele, seja na esfera da ética, dos costumes, das técnicas de sobrevivência etc. Mas, nas sociedades evoluídas, as transformações cada vez mais rápidas, quer dos costumes, quer das artes, viraram de cabeça para baixo o relacionamento entre quem sabe e quem não sabe. Cada vez mais o velho passa a ser aquele que não sabe em relação aos jovens que sabem, e estes sabem, entre outras razões, também porque têm mais facilidade para aprender. (Bobbio: ). Ao proporcionar um continuado exercício para a mente, o papel da Universidade Aberta à Terceira Idade é tão significativo na boa qualidade de vida da pessoa idosa que já está a exigir a devida regulamentação por parte do Ministério da Educação e Cultura e do governo, em geral. Medidas como o Estatuto do Idoso, a Política Nacional do Idoso, o Conselho Nacional do Idoso têm contribuído para conscientizar a sociedade sobre o respeito ao cidadão idoso. Isto já se reflete na obrigatoriedade do estacionamento privativo no comércio e da preferência em filas de bancos, lojas etc. Igualmente não passa desapercebida na sociedade a excelente contribuição que dão alguns meios de comunicação ao colocarem em debate a questão do envelhecimento e do conflito geracional, como tem ocorrido em novelas, por exemplo. São muito produtivos, também, os filmetes educativos apresentados nos intervalos da programação em rede. Na verdade, toda a sociedade deve estar envolvida nesse processo de estudo e conhecimento sobre a questão geracional que vai se tornando cada vez mais presente entre nós, já não sendo mais possível ignorá-la ou fingir que ela não existe. Essa educação para a inclusão, por exemplo, deve ser meta do ensino básico onde, muitas vezes, o aluno é ensinado a separar e não a incluir, como observa Morin (2003): Na escola primária nos ensinam a isolar os objetos (de seu meio ambiente), a separar as disciplinas (em vez de reconhecer suas correlações), a dissociar os problemas (em vez de reunir e integrar). Obrigam-nos a reduzir o complexo ao simples, isto é, a separar o que está ligado; a decompor, e não a recompor; a eliminar tudo que causa desordens ou contradições em nosso entendimento. Em tais condições, as mentes dos jovens perdem suas aptidões naturais para contextualizar os saberes e integrá-los em seus conjuntos. (Morin, ). A questão do envelhecimento é semelhante à questão ambiental. Sempre achamos que isto não é problema nosso, é assunto do governo e da 116 / 120

11 sociedade. Mas todo mal que fazemos contra o meio ambiente resulta em prejuízos para nós mesmos e para nossos descendentes. Do mesmo modo não podemos ignorar a questão do envelhecimento demográfico porque o idoso de hoje sou eu amanhã, se tivermos a felicidade de envelhecer. Cada vez mais devemos compreender que o idoso não está inserido na sociedade, ele é a própria sociedade, na medida em que o envelhecimento é um processo que se dá de modo diferenciado para cada pessoa. Para Bobbio (1997-9) a velhice não é uma cisão em relação à vida precedente. É uma continuação da adolescência, da juventude, da maturidade que podem ter sido vividas de diversas maneiras. À medida que avança o percentual de idosos no país, avizinhando-se o cenário de uma sociedade majoritariamente idosa, tornam-se necessárias políticas públicas que vão resultar em mais respeito e consideração com essas pessoas 4. Naturalmente, estamos diante de uma pauta que os meios de comunicação não podem ignorar, muito menos os futuros jornalistas que hoje estão nos bancos da universidade. Com tal objetivo foi criado, na Faculdade de Comunicação da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP, O Grupo de Estudos Idosomídia, voltado para a pesquisa e a extensão, acessível em alunos de Jornalismo que estudam, espontaneamente, a questão do envelhecimento demográfico. Eles se reúnem semanalmente para discutir o assunto e desenvolvem, permanentemente, atividades de pesquisa e extensão financiadas e apoiadas pela Pró-Reitoria de Extensão da UNESP/PROEX. É uma tentativa de preparar melhor os futuros jornalistas, de modo que vivenciem as questões sociais ao invés de receberem apenas ensino teórico. Com efeito, o aluno de jornalismo não suporta mais o excesso de aulas teóricas. Com as novas mídias sociais, com a comunicação instantânea via blogs, twitter, facebook etc todo mundo se tornou produtor de conteúdos. A chamada Geração Y 5 que chega aos bancos escolares procura desafios maiores e mais interessantes caracterizados por uma formação sistêmica que vê o todo e não apenas a parte. O projeto político-pedagógico de graduação em Jornalismo, da Universidade Estadual Paulista, persegue o perfil de um profissional crítico, capaz de ver a floresta e não apenas a árvore, em 4) Trata-se de um importante contingente populacional que, certamente, tem experiência de vida, qualificação e potencialidades a oferecer à sociedade. Em termos absolutos, significa que o País deve estar preparado para atender, já, demandas sociais, sanitárias, econômicas e afetivas de magnitudes muitas vezes desconhecidas de uma população que se incrementa anualmente em meio milhão de idosos ao longo da primeira década deste século e de mais de um milhão ao chegar em Cf. LEBRÃO (2003). 5 ) Convencionou-se, na mídia, sem autoria precisa, classificar de Geração Y os nascidos entre 1982 e 2000, tal como se conceitua Geração Z os nascidos a partir de Os idosos de hoje, na faixa de 52 a 69 anos, são da Geração Baby Boomers, nascida entre 1943 e / 120

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