Inventário da Arquitetura Moderna Religiosa da Cidade de São Paulo

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1 Inventário da Arquitetura Moderna Religiosa da Cidade de São Paulo Melissa Ramos da Silva Oliveira: Arquiteta, doutoranda em Geografia, IG/UNICAMP, Campinas, SP. Professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, SP, Brasil. Carolina Pereira Leal: Graduanda do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Anhembi Morumbi. São Paulo (SP), Brasil. Nota: Dedico este estudo a todas as pessoas que me incentivaram, que continuem nessa busca onde todo o conhecimento é apenas o começo. Resumo A arquitetura religiosa influenciou e até hoje influencia os costumes, os valores e a distribuição das cidades. Apesar de seu programa permanecer o mesmo, o seu volume se juntou a novos estilos, com formas e detalhes inovadores, muito diferente das igrejas ornamentadas do passado. Como o Brasil é o maior país católico do mundo, estudar sua arquitetura religiosa é muito importante para reconhecer a sua própria história e preservar os edifícios de grande valor simbólico para o seu povo. Este trabalho tem como objetivo mostrar os resultados de um inventário da arquitetura religiosa católica moderna na cidade de São Paulo. Neste trabalho, foram pesquisados nos registros da Cúria Metropolitana de São Paulo 285 igrejas que receberam o título de paróquias, de 1920 até o presente. Da análise da tipologia, foram identificadas 126 igrejas que são ou contêm arquitetura moderna. Entre estes, foram selecionados igrejas que têm tipologia moderna evidente para realizar um estudo fotográfico e informações detalhadas. Neste artigo, apresentamos um estudo de cinco igrejas que se destacam e são símbolos da arquitetura moderna na cidade de São Paulo: Capela Mãe Santina da Igreja do Salvador, Igreja São Domingos e Igreja São João Bosco. Palavras-chave Inventário, arquitetura religiosa, arquitetura moderna, São Paulo. Inventory of the Modern Religious Architecture in the São Paulo City Abstract The religious architecture had influenced, and until this day influence the customs, values and the distribution of cities. Despite its program be the same, its volume has joined the new styles, with forms and innovative details, very different from the past ornate churches. As Brazil is the largest Catholic country in the world, study their religious architecture is very important to recognize its own history and preserve the buildings of great symbolic value for its people. This paper aims to show the results of an inventory of religious modern architecture Catholic in the city of São Paulo. In this work, were researched in the record of the São Paulo Metropolitan Curia 285 churches that received the title of parishes from 1920 to present. From an analysis of the typology, we identified 126 churches that are or contain modern architecture. Among these, we selected churches that have modern tipology evident to conduct a photographic study and detailed information. In this paper, we present a study of five churches that stand out and are symbols of modern architecture in the city of São Paulo: Chapel Mãe Santina da Igreja do Salvador, São Domingos Church and São João Bosco Church. Keywords Inventory, religious architecture, modern architecture, São Paulo. 1

2 Muito se fala sobre arquitetura moderna no Brasil, porém a arquitetura religiosa moderna não possui grande destaque nessa temática. É comum encontrarmos estudos sobre arquitetura religiosa barroca, fruto do período colonial. Nesse sentido, a escolha desse tema partiu da crença de haver poucos exemplares religiosos modernos na cidade de São Paulo. Arquitetura Religiosa Moderna, arquitetura dos monumentos perdidos Cerca de 25 anos atrás aconteceu um debate onde se levantaram questões sobre as razões, consequências e viabilidade de construção de uma nova catedral em Evry, na França. Na ocasião foi discutida a questão das comunidades religiosas criarem novos signos e, assim, os edifícios religiosos tornaram-se um dos principais símbolos da cidade, sendo importante para a identidade de uma cidade. Também foi levantada a questão de que uma cidade precisa de seus núcleos residenciais autos suficientes, áreas verdes, sistema viário distribuído, porém necessita, também, de uma centralidade e de monumentos. Quando uma cidade vai se erguendo com praças, teatros, prédios, de uma forma desordenada, sem possuir um centro marcante, torna o espaço triste, sem interesse, com seus espaços marginais abandonados. A arquitetura religiosa passa a ser o tema discutido na realidade francesa. Assim sendo, discutir monumentalidade na arquitetura significa ir além do senso comum e entrar em um grande debate, implicando, portanto, correlacionar o espaço físico com o ideológico/cultural. Os edifícios comuns têm uma grande importância como pano de fundo na cidade, de forma que os edifícios monumentais consigam exercer os seus valores de coletividade, que irão definir o espaço cívico de uma cidade. Para ocuparem o espaço e terem o seu valor, eles podem se utilizar de eixos urbanos, abertura de praças, isolamento dos edifícios, uso de materiais empregados, escala em relação aos edifícios de fundo, entre outros, sem se esquecer do objeto em questão para que e para quem serão projetados. Os modernistas racionalistas negaram os princípios básicos da monumentalidade, negou-se a centralidade, a hierarquia entre os edifícios. São cidades compostas apenas de monumentos, e onde não se consegue ver monumento algum! (SANTOS, 1989). A arquitetura religiosa constituiu-se como uma possibilidade de mostrar a volta à monumentalidade. Isso aconteceu nos últimos trinta anos e, sendo o Brasil o maior país católico no mundo, entende-se, portanto, a importância característica para a arquitetura e para a população. Essa religiosidade nacional começou com o fato de que os escravos foram proibidos de venerar seus deuses e celebrar seus cultos. Assim, os realizavam em celebrações tomadas como católicas pela igreja. Essa síntese simbólica marca profundamente a religiosidade popular, propiciando a convivência pacífica, na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma família ou até mesmo no mesmo indivíduo, de vários credos e vários tipos de fé diferentes (SANTOS, 1989). É assim que este país se torna terreno fértil para o restabelecimento de templos de todas as origens, que sempre encontram aqui fiéis seguidores, muitos deles católicos de batismo. A 2

3 espiritualidade dos brasileiros, incluindo o seu catolicismo, é bastante aberta e eclética, como, aliás, sua cultura. Nos séculos XVIII e XIX viajantes estrangeiros condenaram a exuberância das igrejas brasileiras, o aspecto teatral da celebração, os rituais, romarias e o fato do culto não se centralizar aos santos. Esses aspectos são muito importantes para compreender a aceitação de mudanças das comunidades religiosas. Existem no país inúmeras igrejas porque precisavam conquistar novos territórios e a Alma dos gentios. Além disso, muitas vezes, elas estavam ligadas ao Estado e exerciam funções administrativas, porém suas construções eram difíceis e demoradas e dependiam, muitas vezes, da colaboração dos fieis e dos próprios padres. Urbanisticamente, pode-se dizer que as igrejas coloniais procuravam se estabelecer nos locais mais altos para serem marcos na paisagem e, na maioria das vezes, conservavam um espaço vazio, diante da sua fachada, denominado de largo para, assim, impor sua monumentalidade. Algumas igrejas projetadas e construídas depois de 1930 possuem mudanças arquitetônicas, sendo que a principal caraterística é a ausência de um modelo, de um estilo da época. Porém, os símbolos mais marcantes como o círculo remetendo ao céu, a parábola hiperbólica que remete a montanha sagrada, o triângulo a trindade, a iluminação zenital ao espírito santo, entre outros, permanecem. Pode-se dizer que a Igreja de São Francisco de Assis (figura 1), construída 1932, em Belo Horizonte, projetada por Oscar Niemeyer, pode ser o marco desse novo tipo de arquitetura no Brasil. Figura 1. Igreja de São Francisco de Assis. Fonte: Passa-se a utilizar o concreto aparente para fazer desse novo material premissas para a nova arquitetura religiosa. Na maioria dos casos, seu programa é funcional, pouco alterado e o que permanece mais obscuro é a localização deste monumento de acordo com os outros edifícios da cidade, ora debatendo-se entre a invisibilidade urbana, ora mostrandose como monumento ou edifício modelo. Porém, um ponto que se fez forte na arquitetura religiosa desde sempre e tentou-se sobreviver, apesar da escassez de espaço para as novas igrejas: o espaço que é quase uma extensão da nave, um local para as festas e representações litúrgicas, bem como catequeses. Outra tradição que se mantém é a praça da igreja, que ainda é sinônimo de encontro, tendo, muitas vezes, uma força de civismo maior que a própria igreja. 3

4 Brasília foi a cidade onde surgiram exemplos sublimes de arquitetura religiosa moderna. É uma exceção quando o assunto é a praça que circunda a Igreja. A mesma já conhecida na arquitetura como cidade exceção, onde Niemeyer criou uma implantação com seus edifícios-símbolos; possui a Catedral (figura 2) localizada numa praça autônoma devido à separação do Estado com a Igreja e, também, para valorizar o monumento. Figura 2. Catedral de Brasilia. Fonte: A Igreja esteve por muitos anos ligada diretamente ao Estado. Porém, em 1952, foi fundada a CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com o intuito da igreja penetrar nos diversos meios da sociedade, atuando como porta voz dos oprimidos. Com o golpe militar de 1964, ela tentou uma aproximação com o regime militar, mesmo tendo fiéis em sua maioria combatendo o regime. Isto posto, evidencia-se que a arquitetura sofreu a influência desse Estado político, caracterizando divergências de postura de uma Igreja conservadora, de um Estado conservador e de uma arquitetura em crise de identidade. A Catedral do Rio de Janeiro (figura 3), por exemplo, fez uma má interpretação da monumentalidade de Brasília. A Catedral foi construída onde antes existia o morro de Santo Antônio que é o lugar tradicional da uma igreja que, depois de arrasado, deu lugar à catedral que tenta superar sua altura com a própria construção. Porém, fazendo isso, ela se colocou no mesmo patamar dos prédios do entorno e, assim, a monumentalidade lhe é negada. Figura 3. Catedral do Rio de Janeiro. Fonte: Como bons exemplos pode-se citar a Igreja de Alagados em Salvador (figura 4) e a Igreja do Centro Administrativo de Salvador (figura 5), ambos do arquiteto João Figueiras Lima, o 4

5 Lelé. A primeira, para não criar contraste com as outras obras extremamente pobres do bairro, procurou fazer uma construção que utiliza a mesma técnica local (tijolo, telha de barro e madeira). A segunda igreja reforça sua presença, impondo-se como um marco, pela sua forma escultórica em concreto armado. Figura 4. Igreja de Alagados, em Salvador. Fonte: SANTOS, 1989, p. 48. Figura 5. Igreja do Centro Administrativo de Salvador. Fonte: SANTOS, 1989, p. 48. Arquitetura Religiosa Moderna em São Paulo O trabalho de inventário iniciou sua pesquisa 1 na Cúria Metropolitana da Cidade de São Paulo, onde foram pesquisadas todas as igrejas que viraram paróquias a partir de até os dias atuais. A pesquisa foi realizada no livro de Batismo da Cúria Metropolitana de São Paulo, que está organizada por bairros, onde foram constatadas 285 Igrejas batizadas no século passado. Levantadas as igrejas e seus bairros, o estudo partiu para um levantamento fotográfico dessas 285 igreja. A partir das imagens, inciou-se uma análise tipológica das igrejas para 1 Essa pesquisa resulta da iniciação científica da aluna Carolina Pereira Leal, orientada pela professora Melissa Ramos da Silva Oliveira, no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Anhembi Morumbi, no ano de Vale ressaltar que a pesquisa iniciou-se nos registros a partir de 1920, pois consideramos o início do modernismo no Brasil com a Semana de Arte Moderna de

6 averiguar quais apresentavam elementos modernos a sua composição plática, como os grandes rasgos de vidro, os jogos de luz natural, o concreto aparente, a estrutura como forma de composição, entre outros aspectos. Dessa análise, chegou-se a um número final de 40 igrejas que são ou contêm traços modernistas. Na etapa posterior, foi realizada a visita à essas 40 igrejas. Nesse artigo, escolhemos três igrejas que consideramos significativas da arquitetura moderna religiosa em São Paulo: Capela Mãe Santina da Igreja do Salvador, Igreja São Domingos e Igreja São João Bosco. A paróquia São João Bosco, localizada na Zona Oeste de São Paulo (Figura 6), possui uma planta circular que rompe com os preceitos anteriores ao moderno que valorizavam a igreja com planta em formato de cruz. É construida em concreto armado e praticamente não possui ornamentos na parte externa nem na interna. Sua iluminação, realizada por meio de elementos vazados com vidros coloridos, cria efeito cênico a fim de trazer o espectador, no caso os fiéis, uma emoção. Figura 6 Igreja São João Bosco. Foto: Carolina Pereira Leal A Igreja de São Domingos (figura 7), localizada em Perdizes, foi projetada pelo arquiteto Franz Heep. A igreja possui a fachada envidraçada, que amplia a iluminação e visibilidade dos fiéis. Construida em concreto armado, foi pintada de branco e apresenta uma fachada limpa e clean, sem ornamentos uma característica da arquitetura moderna. Na parte interna, possui pinturas sagradas desenhadas na própria argamassa, o que garante uma identidade a essa igreja. Outro bom exemplo é a Igreja Mãe do Salvador, mais conhecida como Igreja da Cruz Torta (figura 8), onde, diferentemente de muitas igrejas paulistas, é circundada por jardins. Os arquitetos Francisco Segnini e Joaquim Claudio Barreto almejaram criar uma igreja aberta, que propiciasse missas campais ou de permanência dos fiéis, caso superlotasse a nave. Além disso, sua estrutura, em concreto armado aparente e a mistura de materiais como vidro, madeira e tijolo aparente, faz da igreja um conjunto diferente, se comparado às habituais igrejas clássicas. A igreja possui iluminação de uma maneira muito diferente: as laterais são abertas ora ventilados, ora não, com painéis de madeira ou vidro, sem contar a iluminação zenital no altar que mais parece uma iluminação cênica ao local. O painel do altar também realizado em concreto também rompe, de certa forma com os preceitos ditados pela época. 6

7 Figura 7. Igreja São Domingos. Foto: Carolina Pereira Leal Figura 8. Igreja Mãe do Salvador. Foto: Carolina Pereira Leal A pesquisa nos mostrou que a arquitetura religiosa sofreu pouquíssimas alterações no que tange a questão do seu programa. E a sua estrutura espacial também permanece praticamente a mesma, com a igreja dividida em altar e nave. As mudanças mais significativas nesse tipo de arquitetura estão na sua volumetria, tipologia e ornamentação. Em um processo de mudança lento, as igrejas se adaptaram a essa nova arquitetura. Os arquitetos voltam-se para si, para depois alimentar uma discussão em torno dessa nova identidade arquitetônica, deixando, assim, tendências e técnicas construtivas universais seculares, para adotar, ou tentar adotar, essa nova intenção, desprovida de elementos neoclássicos e barrocos, que utilizam, sobretudo, novas técnicas e materiais oriundos dos avanços tecnológicos, sem deixar de se questionar sobre a importância das mesmas nas cidades, em função do seu impacto junto à comunidade. A simplificação das fachadas não implica, contudo, na falta de complexidade das novas igrejas, que tentam adaptar-se ao meio. Essas igrejas tentam fazer com que os fiéis alcancem elevação espiritual, assim como em todas as outras igrejas. Referências BENEVOLO, Leonardo. História da Arquitetura Moderna. São Paulo: Perspectiva,

8 BRUAND, YVES. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva. CÚRIA METROPOLITANA DE SÃO PAULO. Livro de batismo. Volumes I, II, III e IV. Acesso em 15 Set FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Martins, Fontes, PEREIRA, Paulo Cesar Xavier. São Paulo a construção da cidade. São Paulo: Rima, PEVSNER, Nikolaus. Origens da arquitetura moderna e do design. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, SANTOS, Cecilia Helena Godoy Rodrigues dos. Porque as catedrais não eram brancas. Projeto (São Paulo), São Paulo, n. 128, p ,

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