Apresentação no painel da Conferência Expresso 40 anos, em comemoração ao aniversário do jornal Expresso -1-

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1 Reflexões Lusofonia Celso Lafer sobre a CPLP: - sonhos e realidade Apresentação no painel da Conferência Expresso 40 anos, em comemoração ao aniversário do jornal Expresso Lisboa, 7 de janeiro de Entender as características e os modos de funcionamento da "grande máquina do mundo" - para falar com Camões - é não só o desafio teórico do estudioso das relações internacionais como um ingrediente indispensável para quem, na prática, se dedica à condução da política externa de um país e aos desafios de traduzir necessidades internas em possibilidades externas. Faço estas observações a título preliminar, porque o contexto que levou à criação da CPLP em 1996 está ligado a uma mudança no funcionamento da "máquina do mundo" que trouxe a caducidade da "constituição material" da vida internacional. Esta, no pós-segunda Guerra Mundial, foi essencialmente dada pelas relações de conflito e cooperação entre duas superpotências - EUA/URSS - que, na sua dinâmica, ensejou a abertura para a polaridade Norte/Sul. O fim da Guerra Fria inaugurou um mundo de polaridades mais indefinidas, flexibilizadoras do funcionamento da "máquina do mundo". Abriu, assim, novas oportunidades de concertação, de geometria variável entre os países, distinta da prévia rigidez da correlação de forças, dando margem para a afirmação de um potencial a ser explorado, de valores e percepções compartilháveis. É o caso da CPLP, como também, para dar um outro exemplo oriundo deste contexto, da institucionalização, na década de 1990, das cimeiras ibero-americanas. Estas têm como ponto de partida o fraternal reconhecimento de um acervo cultural comum e de uma riqueza das origens e dos méritos de sua expressão plural que aproximam os seus integrantes, não obstante as diferenças de escala e projeções e, do ponto de vista linguístico, o da realidade de duas línguas próximas, mas distintas: o espanhol e o português. No trato do campo dos valores, que diz respeito às afinidades que resultam das formas de conceber a vida em sociedade, como disse o presidente Fernando Henrique Cardoso em Celso Lafer é professor emérito do Instituto de Relações Internacionais da USPe ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil em 1992 e em VOL 21 N" 4 ABR!MAI/jUN 2013

2 Brasília em 31 de julho de 2002, na sessão inaugural da IV Conferência de chefes de Estado e de governo da CPLP "o idioma traz consigo um estilo próprio de compreender e de interagir com o mundo". Neste quadro, como afirmava com imaginação diplomático-cultural Andre Malraux: "La culture ne connait pas des Nations mineures, elle ne connait que des Nations fraternelles ". Nesta visão, no âmbito da qual a cultura favorece uma atmosfera de entendimento e facilita a consecução de objetivos políticos e econômicos, o ponto de partida da CPLP foi a língua portuguesa e o que significa como herança cultural compartilhada e potencial de solidariedade cooperativa. Daí o seu antecedente, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa criado em 1989 no Brasil, em São Luis do Maranhão. Concebida e criada na última década do século XX, a CPLP - para a qual muito contribuiu a dedicação do embaixador e homem público brasileiro José Aparecido de Oliveira - foi impulsionada por um Portugal democrático, pós-colonialista, já inserido na União Europeia e por um Brasil redemocratizado, ambos atentos na identificação, na década de 1990, de novos espaços institucionalizados de articulação diplomática. Esta aspiração encontrou ressonância nos demais membros originais da CPLP - Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, que detectaram com base na reciprocidade e interesses, novas e solidárias possibilidades de cooperação importantes para, no mundo pós-guerra Fria, atender às suas necessidades internas e ao processo de suas respectivas consolidações nacionais. O fator linguístico, o idioma português, é o dado identificador da CPLP. É por isso que, além dos membros fundadores, o acesso de qualquer outro Estado tem como condição o uso do português como língua oficial. Neste contexto, a atual pretensão de ingresso da Guiné-Equatorial na CPLP passa pela efetiva implementação da adoção do português como língua oficial. O fator linguístico tem, no entanto, a sua modulação, como é o caso, com outras características, da Organização Internacional de Francofonia no âmbito do qual o centro irradiador do francês é a França. Em Portugal e no Brasil o português é, tanto idioma oficial quanto língua nacional - e por isso são os dois centros irradiadores do idioma. Nos demais países que integram a CPLp, inclusive Timor Leste que a ela se incorporou, depois da sua independência, em 2002, o português como idioma oficial e língua de comunicação, convive com outras línguas. Esta convivência entre idioma oficial e línguas nacionais em muitos integrantes da CPLP não coloca em questão a importância de um espaço lusófono, pois além da língua como base de entendimento existe o dado da língua como fator de inserção na "máquina do mundo", nisto se incluindo o mundo dos negócios. O português não é, como o inglês, a língua internacional de comunicação dos nossos dias, mas tem um potencial neste sentido porque, para recorrer a Fernando Pessoa, é uma língua universal, pois tem o poder de "responder na íntegra a todas as formas de expressão possíveis". Foi a esta universalidade do idioma que aludiu o presidente Fernando Henrique Cardoso no seu discurso em Lisboa de 17 de julho de 1996, por ocasião da sessão de abertura da cimeira instituidora da CPLP, apontando como elementos de sua ampla permanência o dado, que era na época" a terceira língua mais falada no mundo ocidental. São duzentos milhões de falantes espalhados pelos cinco Continentes - portanto, dando à nossa língua uma boa base humana e geográfica para a sua projeção". Daí o alcance e significado de um dos objetivos gerais da CPLP previstos no art. 3 a, dos seus Estatutos, que trata da materialização de projetos e difusão da Língua 226 POLfTICA EXTERN A

3 REFLEXÕES SOBRE A CPLP: LUSOFONIA - SONHOS E REALIDADE '".J Portuguesa que é hoje o idioma de mais de 230 milhões de falantes. Este é um objetivo relevante para a diplomacia brasileira porque é um ingrediente de projeção internacional do nosso país e foi por isso que, como chanceler do presidente Fernando Henrique Cardoso, ao te-tna conferi importância, na minha gestão, além de considerá-io, hoje, como parte da minha responsabilidade na sustentação da nossa língua comum como membro da Academia Brasileira de Letras. Daí a importância do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa como passo importante para a defesa da unidade essencial da língua e do seu prestígio internacional. Com efeito, como aponta Evanildo Bechara, meu confrade filólogo na ABL, o Acordo simplifica as regras de utilização da língua, trata da uniformização da grafia e não da língua, é benéfico para a unidade intercontinentallusófona, facilita o intercâmbio cultural, reduz custos na produção de livros e facilita a difusão bibliográfica e de novas tecnologias. A Declaração de Maputo da IX Conferência dos chefes de Estado e de governo da CPLp, de 20 de julho de 2012, reitera a relevância do papel aglutinador do idioma no seu item Xv, congratulando-se" com a aprovação das recomendações relativas à promoção da Língua Portuguesa designadamente como fator de unidade e de convivência cultural, como língua de trabalho nas organizações internacionais, em especial na UIP - União Interparlamentar - e no sistema das Nações Unidas, bem como no que respeita à formulação de estratégias de políticas públicas e desenvolvimento da Língua Portuguesa em particular no contexto do Timor Leste". A CPLP, desde a sua concepção original, não se cinge à difusão e promoção da língua portuguesa, pois partindo deste cimento comum, criou uma organização internacional, com personalidade jurídica própria que se inseriu no espaço do multilateralismo contemporâneo pós-guerra Fria. Nesta vertente, contempla tanto objetivos voltados para processos internos de cooperação em todos os domínios entre seus membros (art. 3 b dos Estatutos), quanto objetivos voltados para processos externos de concertação diplomática nos fóruns internacionais (art. 3-a dos Estatutos). É, assim, a expressão, como aponta o embaixador Gelson Fonseca Jr., de um multilateralismo que opera, ao mesmo tempo, "para dentro", visando reforçar os vínculos e a identidade entre seus membros, quanto "para fora", projetando ideias e propostas, em instâncias multilaterais mais amplas. E a vertente "para dentro" conjugada com a "para fora" que distingue a CPLP de outras instâncias voltadas primordialmente para a articulação diplomática em foros multilaterais a exemplo da atuação do Grupo do Rio ou o do G20 comercial no âmbito da OMe. O grande evento de uma bem-sucedida convergência entre a vertente de cooperação "para dentro" e a vertente de concertação diplomática "para fora" nos fóruns internacionais, foi a atuação dos membros da CPLP para que o Timor Leste pudesse assumir sua condição de nação livre e soberana no mundo pós-guerra Fria. O presidente Fernando Henrique Cardoso nisto se empenhou pessoalmente, tendo visitado Timor Leste em janeiro de 2001, e tanto o embaixador Lampreia quanto eu, como seus ministros das Relações Exteriores, trabalhamos no plano diplomático da articulação diplomática e no das iniciativas de cooperação para viabilizar este objetivo. Cabe destacar o papel da ONU neste processo e a ação da sua administração transitória admiravelmente chefiada por um brasileiro que se notabilizou como um dos grandes quadros da ONU: Sergio Vieira de Mello. Registro que um dos meus grandes momentos como chanceler foi o de ter representado o Brasil nas solenidades da independência do Timor em 20 de maio de 2002 e de 227 V0L21 N"4 ABR/MAI/jUN 2013

4 ter participado da IV Conferência de chefes de Estado e de governo da CPLP, realizada em Brasília no dia 31 de julho de Nela formalmente ingressou como membro Timor Leste,levando, assim, a bom termo, "uma epopeia que tanto significou e tanto dignificou a história do mundo lusófono", para valer-me das palavras do presidente Fernando Henrique Cardoso Na vida de uma instituição, um dos elementos importantes é "a ideia da obra a realizar", para evocar uma conhecida formulação de Maurice Hauriou. No caso da CPLP, o ponto de partida da "ideia a realizar" da sua obra como organização internacional multilateral foi o potencial agregador da solidariedade e cooperação do valor do idioma. Todo valor tem a sua historicidade e, no caso da CPLP, uma das suas características é a de que a origem da sua base de sustentação axiológica é plural. Não representa, assim, um desdobramento da gestão do fim de um Império Colonial, como é o caso da Commonwealth. Todo valor pressupõe, como dizia Miguel Reale, um suporte na realidade, para não ser uma abstração, mas pressupõe igualmente o dever ser de um sentido de direção que se projeta no tempo. Na avaliação da CPLP, do seu ser e do seu dever ser, cabem sempre algumas considerações preliminares a respeito do seu suporte na realidade que dá o contorno do seu potencial concreto de efetivação. Neste sentido a primeira observação é a de que o sistema internacional contemporâneo é heterogêneo e pluralista, vive crises econômicas e tensões de hegemonia e de equilíbrio regionais, nele operando forças centrífugas de atração. Estas são responsáveis por descontinuidades e fragmentações que contrastam com a dinâmica mais unificadora da década de Com isto o que estou querendo dizer, para os propósitos da minha exposição, é que a CPLP é uma entre muitas instâncias de articulação diplomática e de cooperação de seus Estados-membros que têm outros vínculos regionais políticos, econômicos e de segurança relevantes. A isto cabe adicionar tanto o dado da emergência econômica e política na vida internacional da China, que não se colocava com estas características na década de 1990, quanto o deslocamento para o Pacífico de um componente importante da dinâmica econômica mundial, com seus muitos desdobramentos de articulação institucional e de redes econômicas e políticas. Por outro lado, numa perspectiva geopolítica cabe lembrar que, por isso mesmo, no cenário contemporâneo, o Atlântico Sul vem merecendo maior atenção diplomática e, neste contexto, Portugal (Continente, Madeira e Açores), Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, que integram a CPLP, têm, em conjunto, um peso próprio, na medida em que têm o potencial de uma articulação Europa, América, África. O que me parece claro apontar, numa avaliação inicial a propósito do ser e do dever ser, é que a CPLP vem contribuindo para adensar os laços e criar redes de interação entre todos os seus membros de uma maneira que não ocorreria sem a sua existência. Um indicador é o da movimentação de pessoas que circulam entre seus membros que, segundo estimativa de 2010 do Banco Mundial, é da ordem de quase um milhão de pessoas, o que enseja novos desafios para a atividade consular dos integrantes da CPLP. A corrente de comércio entre os países-membros cresceu. Era de US$I,4 bilhão em Foi de US$ 10,4 bilhões em Tem, assim, relevância, o mercado interno dos países 228 POL!TICA EXTERNA

5 REFLEXÕES SOBRE A CPLP: LUSOFONIA - SONHOS E REALIDADE que formam a CPLp, cabendo a ressalva que as populações dos PALOP e do Timor Leste caracterizam-se por níveis de renda e índices de desenvolvimento humano que circunscrevem o seu poder aquisitivo. O PIE interno da CPLP corno um todo, em 2011, segundo estimativas do governo brasileiro, somou US$ 2,8 trilhões - ou 4% do PIE mundial- mas carrega, numa visão de conjunto, o desnível oriundo do fato do Brasil representar 87% do PIE da CPLP. Cabe, no entanto, observar, a propósito da dinâmica econômica que o anuário da Economist prevê que, em 2013, estarão entre os países de maior crescimento do PIE Timor Leste 8,3% - sexto lugar e Moçambique 8,2% - sétimo lugar. Estima-se que o peso dos países da CPLP no comércio mundial total de mercadorias era, em 2010, da ordem de 2% das exportações e de 1,8% das importações, tendo também corno característica o peso do papel do Brasil nesta porcentagem. No plano dos investimentos, a intensidade dos fluxos e do estoque de investimentos é significativa. Há uma dinâmica própria, que independe da CPLP, no que tange à relevância dos investimentos de Portugal no Brasil, assim como dos investimentos brasileiros em Portugal. No âmbito dos PALOP, em especial Angola e Moçambique, e para isso vem contribuindo a CPLP, tanto para Portugal quanto para o Brasil, são áreas importantes de investimento os setores de exploração e processamento de recursos naturais e da construção de infraestrutura. Atuam em Angola e Moçambique importantes empresas brasileiras como a Odebrecht, a Andrade Gutierrez, a Camargo Corrêa, a Queiroz Galvão, a Petrobras e a Vale e existem linhas de crédito e mecanismos de empréstimo patrocinados pelo governo brasileiro. Um dos objetivos da CPLP é o da cooperação em todos os domínios entre seus membros. A vertente de cooperação tem um significado todo especial para os PALOP e para Timor Leste, pois está ligada às suas prementes necessidades internas e aos grandes desafios inerentes aos seus respectivos problemas de consolidação nacional. Trata-se, portanto, de uma cooperação que se coloca sob o signo da solidariedade e é nesta moldura que têm atuado Portugal e o Brasil. No caso do Brasil trata-se de uma diretriz da política externa em perfeita consonância com a Constituição de 1988, que estabelece entre os princípios que regem as relações internacionais do país a /I cooperação entre os povos para o progresso da humanidade" (CF, art. 4, IX). No campo da cooperação com os PALOP e o Timor Leste, o Brasil vem operando na instância multilateral da CPLp, com objetivos alinhados às propostas de desenvolvimento do milênio da ONU, e destaco a utilidade do treinamento em cooperação internacional e apoio a programas nacionais de governo eletrônico. No âmbito da cooperação bilateral, o Brasil atua por meio da ABC, a Agência Brasileira de Cooperação. Esta cooperação bilateral contempla projetos trilaterais com o Japão e o EUA. A pauta da cooperação é diversificada e compreende projetos de responsabilidade do Brasil, estimulados pela existência da CPLP em áreas como: saúde pública (por exemplo, malária, diagnóstico laboratorial de AIDS e outras doenças infecciosas, produção de medicamentos antirretrovirais, controle de câncer, saúde oral, tuberculose); formação de recursos humanos num sentido amplo (como capacitação em recursos hídricos, inspeção fitossanitária; ensino, artesanato, forças de segurança e de diplomatas que cursam o Instituto Rio Branco) agricultura (e, neste campo, chamo a atenção para a transferência das lições apreendidas no desenvolvimento agrícola do Cerrado brasileiro, para Moçambique, fruto da parceria com a EMBRAPA e a Agência japonesa JICA; desenvolvimento da horticultura em Cabo Verde; transferência de tecnologia em Guiné-Bissau para a exploração sustentável do 229 VOL 21 N" 4 ABR/MAI/JUN 2013

6 agronegócio do caju; extensão rural em São Tomé e Príncipe; apoio para a agricultura familiar em Timor Leste; contribuição para a consolidação e aprimoramento institucional (por exemplo, apoio para a realização de censo demográfico em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe; de fortalecimento da Agência de Aviação Civil de Cabo Verde; de apoio à implementação do Sistema Nacional de Arquivos em Moçambique e Timor Leste; da capacitação jurídica de magistrados em Moçambique, do fortalecimento do setor Justiça em Timor Leste, assim como o reforço ao seu Parlamento). A Agência Brasileira de Cooperação aponta que os PALOP, juntamente com Timor Leste são, no tocante à alocação de recursos, os principais beneficiários da cooperação técnica brasileira. Entre 2005 e 2011, nas Presidências Lula e Dilma, receberam cerca de 40% dos recursos destinados a este fim. O orçamento do atual programa de cooperação, vigente até 2012, é de US$ 58,5 milhões. Entre 2005 e 2011 o montante de execução financeira dos projetos brasileiros implementados nos PALOP e Timor Leste é da ordem de US$ 30,5 milhões, distribuídos, porcentualmente, da seguinte maneira: 25,18% Moçambique; 18,57% Timor Leste; 19,27% Guiné-Bissau; 12,46% Cabo Verde; 18,06% São Tomé e Príncipe, 6,42% Angola. Um indicador da relevância política atribuída a um Estado são as viagens presidenciais. Neste sentido, na perspectiva da política externa brasileira cabe lembrar, em relação aos PALOP, que o presidente Lula foi à Angola em 2003 e 2007 e a presidente Dilma em 2011; que o presidente Lula foi a São Tomé e Príncipe em 2003, a Cabo Verde em 2004 e à Guiné-Bissau em 2005; e que o presidente Lula foi a Moçambique em 2003 e 2008 e a presidente Dilma em São significativas também as visitas das Altas Autoridades dos PALOP ao Brasil. Dos países que integram a CPLP, Guiné-Bissau é o que vive a maior tensão política institucional, requerendo apoio externo para um processo de transição que propicie segurança interna e garantia de direitos. Neste contexto, a CPLP tem dado a sua contribuição, colaborando com a ONU, a União Africana, a União Europeia, a CEDEAO e outros PALOP. A Declaração de Maputo de 20 de julho de 2011 reitera a importância do apoio da CPLP no acompanhamento regular da situação interna da Guiné-Bissau, com vista à normalização política, institucional e social do país. Este elenco indicativo dos ingredientes do adensamento das interações e da vertente de cooperação voltadas "para dentro" do espaço lusófono da CPLP tem o lastro de muitas informações obtidas no Itamaraty e traduzem, como é natural, uma perspectiva brasileira da matéria. Esta será complementada pelas abalizadas e mais qualificadas visões dos ex-presidentes do Timor Leste, José Ramos Horta, e de Moçambique, Joaquim Chissano - que viveram na pele, em posições de alta responsabilidade, os hiatos entre os sonhos e realidades da lusofonia. Com eles tenho a honra de compartilhar este Painel, moderado pelo diretor-adjunto do Expresso, Nicolau Santos. Cabem, para ultimar esta exposição, referências indicativas da vertente dos processos externos de concertação diplomática nos foros internacionais. Esta tem uma dimensão de apoio recíproco e endosso às candidaturas a cargos e funções no âmbito do Sistema das Nações Unidas, prática consagrada, de projeção internacional da1usofonia, reiterada na já mencionada Declaração de Maputo de 20 de julho de É, para o Brasil, uma interessante instância de articulação complementar ao GRULAC. No plano mais geral esta concertação permite articular posições sobre a reforma e a revitalização do Sistema. das Nações Unidas. Nisto se inclui, como explicita a Declaração de Maputo, o tema do i r, 'r POLfTICA EXTERNA

7 REFLEXÕES SOBRE A CPLP: LUSOFONIA - SONHOS E REALIDADE Conselho de Segurança e o apoio à integração do Brasil como um membro permanente, assim como o apoio à reivindicação africana contida no Consenso de Ezulwiny (dois membros permanentes da África a serem escolhidos pela União Africana); o compromisso com a resolução de conflitos por meios pacíficos, a importância dos esforços permanentes da diplomacia preventiva e da mediação e a validade do empenho em proteger populações sob ameaça de violência, em consonância com os princípios e propósitos da Carta da ONU. Destaco como área relevante do potencial de concertação as posturas voltadas para o desenvolvimento sustentável, a transição para uma economia verde e inclusiva e o inventariamento dos recursos naturais, inclusive da plataforma continental, e de sua exploração sustentável. Para concluir, numa avaliação sobre o que é sonho e o que é a realidade da CPLP, cabe lembrar que, diante de um copo de água pela metade, tanto é possível a perspectiva de que ele está mais para vazio quanto a que ele está mais para cheio. Eu me posiciono, com base no exposto, pela validade da segunda perspectiva ciente, evidentemente, das limitações existentes, mas entendendo que a lusofonia vale a pena pois, para evocar Fernando Pessoa "Tudo vale a penal se a alma não é pequena" e o sopro do Espírito que vem inspirando a lusofonia - e que enfuna a viagem da sua inquietação universal, para recorrer a outro poeta da nossa língua comum, Miguel Torga - não é pequeno. 231 VOL 21 N" 4 ABR/MAIIJUN 2013

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