SERIA A LÍNGUA FALADA MAIS POBRE QUE A LÍNGUA ESCRITA?

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1 SERIA A LÍNGUA FALADA MAIS POBRE QUE A LÍNGUA ESCRITA? COULD SPOKEN LANGUAGE BE POORER THAN WRITTEN LANGUAGE? RESUMO Após algumas observações sobre os 500 anos da língua portuguesa no Brasil, argumento que a língua falada é mais complexa do que a língua escrita, contrariamente ao que postula a gramática tradicional. Palavras-chave história do português brasileiro língua falada e escrita gramática oração ensino do português como língua materna. ABSTRACT After some reflections on the 500 years of the Portuguese language in Brazil, I argue that the spoken language is more complex than the written one, contrary to traditional grammatical assumptions. Keywords history of Brazilian Portuguese spoken and written language grammar sentence teaching Portuguese as mother tongue. ATALIBA T. DE CASTILHO Professor titular de Filologia e Língua Portuguesa (USP) e presidente da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina 85 impulso nº 27

2 Foi necessário esperar até o século xviii para que a língua portuguesa efetivamente se tornasse a língua majoritária do País. APRESENTAÇÃO N os últimos 500 anos temos falado e escrito a língua portuguesa no Brasil. Nos três primeiros séculos, apenas 30% dos habitantes falavam a língua de Portugal, e nem todos a escreviam. Os outros 70% eram aloglotas, ameríndios e africanos. Entre 1 e 6 milhões de indígenas, não se sabe ao certo, falavam uma das 220 línguas brasileiras aqui encontradas. Além deles, cerca de 18 milhões de africanos escravizados e trazidos para cá desde o século XVI falavam uma das muitas línguas da cultura banto e da cultura sudanesa. 1 Foi necessário esperar até o século XVIII para que a língua portuguesa efetivamente se tornasse a língua majoritária do País. Ainda hoje em dia restam 160 línguas indígenas, faladas por uns 220 mil indivíduos, e raras línguas crioulas de base africana, como é o caso do dialeto de Helvécia. 2 Que língua é essa que falamos, e que escrevemos (tão pouco)? Continua a ser o português europeu? Ou já falamos o brasileiro? Bem, essa é uma discussão que começou no Romantismo, e somente neste século passou a merecer um tratamento mais científico. De fato, tem-se notado que desde o século XIX começaram a aparecer no português do Brasil alguns elementos fonéticos e gramaticais divergentes do uso europeu. Vejamos alguns poucos exemplos. Pronunciamos todas as vogais anteriores à vogal tônica, como em telefone, enquanto os portugueses as reduziram, dizendo tulfón. Às vezes deixamos cair as vogais iniciais, como em tá, por está, mantidas pelos portugueses em seu modo característico de atender ao telefone: está? está lá? Também alteramos bastante a gramática. Para ficar só num caso: no quadro dos pronomes pessoais, mantivemos eu e ele para a primeira e a terceira pessoas, mas estamos substituindo progressivamente tu por você e nós por a gente. Vós praticamente desapareceu. O problema é que você e a gente levam o verbo para a terceira pessoa, e com isso a morfologia verbal reduziu as seis terminações diferentes a apenas três: eu faço, você / ele / a gente faz, eles fazem, desaparecendo fazes, fazemos e fazeis. Se a morfologia verbal se simplifica, torna-se obrigatório manter o sujeito da oração, pois ficará difícil saber se em saía à noite o sujeito será eu, você, ele, a gente. Com isso, vai desaparecendo o sujeito elíptico, passamos a ter uma média de 80% 1 RODRIGUES, 1986, e CASTILHO, 1998a. 2 BAXTER & LUCCHESI, impulso nº 27 86

3 de sujeitos preenchidos, e diminuímos sensivelmente sua posposição outra novidade não documentável em Portugal. Significaria então que já nasceu a língua brasileira? Algumas dificuldades impedem uma resposta taxativa, pois muitos dos fenômenos diferenciadores são atestados no português medieval. Indo por aqui, o português do Brasil seria considerado uma conservação do português europeu, e a pergunta então não é se temos uma nova língua por aqui, e sim por que eles mudaram a língua por lá... Muito provavelmente, o português do Brasil está combinando conservadorismos e inovadorismos, seguindo, de todo modo, uma direção distinta daquela do português europeu. Em todo caso, trata-se de um quadro complexo que não pode ser caracterizado por simplificações do tipo estamos acabando com a língua portuguesa, foi só mudarem a língua para os trópicos, e vejam que espantosa degeneração!, os portugueses, sim, é que sabem falar direito. Não poderei aqui elaborar mais detalhadamente essas idéias sobre a pretensa decadência do português no Brasil. Se você não quer ficar repetindo bobagens desse tipo, que lemos todos os dias nos jornais, acompanhe as pesquisas que um grupo de lingüistas vem fazendo. 3 Uma coisa é certa: presentemente a língua falada é de todos, e apenas a língua escrita continua pertencendo à gente escolarizada. Infelizmente, nem tantos quanto os primeiros, pois como sabemos ainda hoje há milhões de brasileiros que não sabem escrever. Apesar da vitória numérica da língua falada, a língua escrita continua obviamente a ter sua importância. As condições de produção separam essas modalidades. Quando falamos estamos em presença do interlocutor, e por isso acertamos o rumo da conversa o tempo todo, o que afeta a seleção dos recursos da língua. Quando escrevemos, a ausência do leitor nos obriga a uma explicitude maior, afinal não podemos acompanhar por suas reações se estamos sendo claros ou não. Também isso afeta os tipos de recursos da língua que movimentamos. Simples, não? Pois é, então por que nossos manuais escolares se fundamentam exclusivamente numa modalidade, a escrita, deixando de lado a língua falada? Por que já chegamos à escola falando? Examinemos isso um pouco mais de perto. É bem sabido que a gramática tradicional apóia-se na língua escrita, privilegiando nesta modalidade a língua literária não a língua escrita corrente, dos jornais, por exemplo. Uma observação freqüente nesses textos é que a língua escrita é mais complexa e mais formal do que a língua falada, vista a segunda como uma variante mais pobre e mais informal que a primeira. Ora, pesquisas sociolingüís- 3 CASTILHO, 1998b, MATTOS & SILVA, 1999, e ALKIMIN, no prelo. 87 impulso nº 27

4 ticas sobre o português desenvolvidas no Brasil mostram o equívoco de afirmações tão esquemáticas, e apontam para a rica heterogeneidade das línguas naturais. A persistência de nossos livros escolares em afirmações em que ninguém mais acredita mostra que o ensino fundamental e o ensino médio do português ainda não se beneficiaram da enorme quantidade de pesquisas sobre a oralidade desenvolvidas no Brasil. Também não estão sendo consideradas as expressas recomendações a esse respeito, formuladas nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Neste trabalho, quero chamar sua atenção para os prejuízos dessa fixação na língua escrita. Menciono os estudos sobre o português falado no Brasil, examino rapidamente a estrutura da oração nessa modalidade, e concluo com algumas reflexões sobre como incorporar a língua falada em nossas práticas escolares. Tudo isso sem excluir a língua escrita, é claro! O que estou propondo é um cardápio menos monótono. PESQUISAS BRASILEIRAS SOBRE O PORTUGUÊS FALADO 1. Premeditando a coisa Um conjunto de fatores desencadeados nos anos 70 e 80 favoreceram a eclosão do movimento científico de que resultou a preparação da Gramática do Português Culto Falado no Brasil, a ser publicada em 2001: a expansão dos cursos pós-graduados de Lingüística, o surgimento dos projetos coletivos de pesquisa e a insistência de vários lingüistas em que passássemos a dispor de gramáticas descritivas que refletissem o uso brasileiro da língua portuguesa. Em 1969 foi fundada a Associação Brasileira de Lingüística, e a partir de 1972 passaram a ser implantados os Programas de Pós-Graduação em Lingüística e Língua Portuguesa, hoje em número de 52. Este fato novo na vida universitária brasileira teve diversas conseqüências: o surgimento da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Letras e Lingüística, em 1984, a fundação de dezenas de revistas especializadas com publicação regular, a concessão de bolsas a jovens brasileiros, que partiram para o exterior em busca de doutorado em áreas ainda não existentes no Brasil, a organização sistemática de seminários e congressos, e o estabelecimento de uma política de aquisição de bibliografia especializada. A instalação da Lingüística entre nós e a profissionalização dos lingüistas brasileiros teve por efeito a busca de uma temática de interesse para o desenvolvimento da cultura nacional. Os lingüistas sentiram o peso de suas responsabilidades sociais e políticas. Sem descurar de sua formação teórica, eles passaram a buscar assunto para suas pesquisas nas dezenas de línguas indígenas brasileiras que sobreviveram à colonização e na variabilidade do português brasileiro. Daí para a organização de projetos coletivos de investigação foi um passo, logo dado pelo Projeto impulso nº 27 88

5 de Estudo da Norma Lingüística Urbana Culta (UFBA, USP, Unicamp, UFPE, UFRJ, UFRS, a partir de 1970), pelo Projeto Censo Lingüístico do Rio de Janeiro, hoje Programa de Estudos de Usos Lingüísticos (UFRJ, desde 1972), e pelo Projeto de Aquisição da Linguagem (Unicamp, a partir de 1975). Já nos anos 90 surgiram o Projeto Variação Lingüística do Sul do Brasil (UFPR, UFSC E UFRS, desde 1992), o Programa de História do Português (UFBA, desde 1991), o Projeto do Atlas Lingüístico Brasileiro (UFBA, UFJF, UEL, UFRJ, UFRS, desde 1997), entre tantos outros. Outro fato que assinalou este período foi a crescente preocupação para que dispuséssemos de bons dicionários e de boas gramáticas, mais conformes ao uso brasileiro do português. Duas novas gramáticas foram publicadas, assinalando a busca da mudança: em Portugal, a de Mira Mateus et al. 4 e, no Brasil, a de Cunha e Cintra. 5 Coincidência ou não, no mesmo no de 1985 são publicados no país quatro livros em que foi avaliada a gramática tradicional, adotada em nossas escolas. 6 Mesmo partindo de perspectivas diferentes, seus autores confluíam na defesa da preparação de uma nova gramática do português, mais atenta às alterações que se vinham notando na realidade lingüística do país. O surgimento entre nós dos estudos sobre a língua falada daria uma importante resposta aos planos desses autores. 2. Descobrindo a língua falada A partir dos anos 60, grupos de pesquisadores afiliados a várias universidades brasileiras se engajaram na tarefa de documentar, descrever e refletir sobre a língua falada. Em toda a sua história, a Lingüística sempre esteve atravessada pela idéia de que a língua falada é a manifestação primordial da linguagem e seu objeto primeiro de estudos. Mas esses belos propósitos só puderam se transformar em ações efetivas depois de uma inovação tecnológica, a invenção do gravador portátil. Podia-se, finalmente, pôr em marcha um programa sistemático de investigação da oralidade. Pela primeira vez a América Latina antecipou-se à Europa e aos Estados Unidos num movimento científico. A língua falada forneceu a matéria-prima para essa virada. Em 1964, Juan M. Lope Blanch, lingüista espanhol radicado no México, obteve do Programa Interamericano de Lingüística e Ensino de Idiomas (Pilei) a aprovação de seu Proyecto de Estudio Coordinado de la Norma Lingüística 4 MIRA MATEUS et al., CUNHA & CINTRA, ILARI, 1985, PERINI, 1985, LUFT, 1985, e BECHARA, impulso nº 27

6 Culta de las Principales Ciudades de Iberoamérica y de la Península Ibérica. 7 Seu projeto representava uma notável mudança de rumo dos estudos dialetológicos: deixava-se de privilegiar o falar residual de pequenas comunidades rurais, perdidas en los varicuetos de una sierra, partindo-se para a linguagem padrão das grandes metrópoles que iam surgindo, as quais alteraram a proporção população rural versus população urbana na organização demográfica das nações latino-americanas. Lope Blanch mostrava, por exemplo, que em vários países da América Latina metade da população habitava suas capitais, o que poderia afetar o espanhol (ou o português) falados no país, dada a previsível força de irradiação da variedade da capital. Desde o começo, o Proyecto previa a inclusão da América portuguesa, além da Espanha e de Portugal. Convidado a opinar sobre o assunto, o prof. Nélson Rossi, da Universidade Federal da Bahia, e delegado brasileiro no Pilei, apresentou um texto ao Simpósio do México. 8 Ele pondera ali que, contrariamente à América espanhola, a execução do projeto no Brasil não poderia limitar-se à capital do País, e nem mesmo ao Rio de Janeiro: arrisco a impressão de que a cidade do Rio de Janeiro, apesar de sua excepcional significação como aglomerado urbano e como centro de irradiação de padrões culturais, não daria por si só a imagem do português do Brasil. 9 Ele desenvolve então suas idéias sobre o policentrismo cultural brasileiro, e argumenta que desenvolvendo-se o projeto em cinco capitais, sendo quatro fundadas no século XVI (Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo) e uma no século XVIII (Porto Alegre), estariam abarcados doze milhões e meio de habitantes aproximadamente, o que equivale a um sétimo da população atual do país. 10 Desconhecendo esses arranjos, conhecendo porém o Proyecto de Lope Blanch, propus sua adaptação a parte do País, num texto intitulado Descrição do Português Culto na Área Paulista. 11 Informado por Nélson Rossi das decisões tomadas no Pilei, e por ele convidado a integrar o projeto mais amplo, aceitei suas ponderações e desisti do plano anterior. Finalmente, a 11 de janeiro de 1969, aproveitando a presença de vários professores brasileiros reunidos no III Instituto Interamericano de Lingüística, promovido pelo Pilei na Universidade de São Paulo, juntamente com o II Congresso Internacional da Alfal, o prof. Rossi convocou uma reunião de que participaram os futuros coordenadores das equipes do Projeto, que viria a ser conhecido entre nós como Projeto NURC : Albino de Bem Veiga (Porto Alegre), Isaac Nicolau Salum e 7 LOPE BLANCH, 1964/1967, ROSSI, 1968/ ROSSI, 1968/1969, p ROSSI, 1968/1969, p CASTILHO, impulso nº 27 90

7 Ataliba T. de Castilho (São Paulo), além do próprio Rossi, coordenador do Projeto em Salvador. Posteriormente, seriam indicados Celso Cunha (Rio de Janeiro) e José Brasileiro Vilanova (Recife). Reuni num livrinho editado pelo Conselho Municipal de Cultura de Marília os documentos então gerados. 12 Para discutir a metodologia da pesquisa e seus rumos no País, foram realizadas 14 reuniões nacionais do Projeto: I, Porto Alegre, 1969; II, Capivari, 1970; III, Recife, 1971; IV, Rio de Janeiro, 1971; V, Salvador, 1972; VI, Porto Alegre, 1973; VII, São Paulo, 1974; VIII, Recife, 1974; IX, Rio de Janeiro, 1975; X, Rio de Janeiro, 1977; XI, Salvador, 1981; XII, Rio de Janeiro, 1984; XIII, Campinas, 1985; XIV, Porto Alegre, Designadas as equipes locais, cuja listagem aparece em Castilho, 13 teve início o trabalho de documentação da fala de 600 informantes de formação universitária, selecionados entre pessoas nascidas na cidade, filhas de pais igualmente nascidos na cidade, divididos por igual em homens e mulheres, distribuídos por três faixas etárias (25-35 anos, anos, e de 56 anos em diante). A fala dos informantes foi gravada em três situações distintas: diálogo com o documentador (DID), diálogo entre dois informantes (D2) e aulas e conferências (EF). A equipe nacional desistiu de realizar as gravações sigilosas previstas no projeto original. As entrevistas eram tematicamente orientadas, fundamentando-se em cerca de 20 centros de interesse, abrangidos por mais de 4 mil quesitos. As gravações foram realizadas entre 1970 e 1977, tendo-se apurado um corpus gigantesco, constante de entrevistas com informantes, totalizando horas de gravações. Começou então a árdua tarefa de transcrever parte desse corpus, organizando-se o corpus compartilhado, um conjunto de 18 entrevistas por cidade, selecionadas de acordo com os parâmetros sociolingüísticos do projeto, e distribuídas a todas as cidades participantes. Amostras do corpus começaram a ser publicados a partir de 1986, em São Paulo, 14 Rio de Janeiro, 15 Salvador, 16 Recife 17 e Porto Alegre. 18 As amostras das três últimas cidades ainda estão incompletas. Em 1988, representantes do Projeto do Português Fundamental (sediado no Centro de Lingüística da Universidade de Lisboa) e do Projeto NURC/Brasil firmaram um protocolo de intercâmbio de dados, de tal sorte que atualmente ambas as equipes dispõem de elementos para eventuais comparações entre as modalidades européia e americana do português falado culto. 12 Idem, Idem, 1990, pp CASTILHO & PRETI, 1986 e 1987, e PRETI & URBANO, CALLOU, 1992, e CALLOU & LOPES, 1993 e MOTTA & ROLLEMBERG, SÁ et al., HILGERT, impulso nº 27

8 De acordo com a metodologia do Projeto, a análise dos materiais assim recolhidos se faria a partir de um Guia-Questionário, que forneceria um roteiro básico para a pesquisa, visando a assegurar a comparabilidade dos resultados. A comissão brasileira adaptou a versão espanhola já publicada desse roteiro. 19 Os quesitos compreendiam três setores: Fonética e Fonologia, Morfo-sintaxe e Léxico. A partir de 1978 as análises tiveram início, tendo seguido duas grandes direções: estudos gramaticais e estudos de pragmática da língua falada. Parte desses trabalhos foi publicada em coletâneas. 20 Muitos textos foram publicados em revistas científicas e anais de congressos, outros são teses, como Menon. 21 O estudo do léxico de São Paulo foi empreendido por Enzo Del Carratore, permanecendo inédito. O do Rio de Janeiro foi concluído e publicado. 22 Para a história do Projeto NURC e a bibliografia gerada até 1990, ver Castilho. 23 As análises gramaticais já em 1981 mostravam que haveria problemas para a continuação dos trabalhos, na forma como eles tinham sido concebidos no final dos anos 60 pelo projeto congênere do espanhol da América, acolhido pelas equipes brasileiras: 1. não tinha havido uma discussão sobre a especificidade do oral, e os instrumentos de análise tomavam a língua escrita como ponto de partida; 2. o modelo teórico adotado, que combinava elementos da gramática tradicional com uma sorte de estruturalismo mitigado, não dava conta de uma série de fenômenos típicos da modalidade falada; 3. novas tendências da indagação lingüística, surgidas posteriormente à concepção do projeto, mostravam-se mais sensíveis à modalidade falada, particularmente as aproximações entre a sintaxe e o discurso. Para uma análise dessas e de outras questões, ver Castilho. 24 Apesar desses acidentes de percurso, deve-se reconhecer que esse projeto se mostrou plenamente vitorioso em sua fase de coleta e organização dos dados. Graças a ele, a Lingüística brasileira se manteve atualizada quanto à organização de inventários da língua falada, fenômeno cuja extensão vem caracterizada por Blanche-Benveniste e Jeanjean. 25 Fora do domínio do espanhol e do português, desenvolveram-se outros projetos sobre a língua falada. Limito-me a mencionar brevemente apenas os que se fundamentaram em registros magnetofônicos. Nos Estados Unidos, os primeiros de que tenho notícia são o estudo sobre o inglês falado em Nova York, de Labov, 26 o método para o levantamento da fala de 19 CUESTIONARIO, 1971 e CASTILHO, 1989, PRETI & URBANO, 1990, e PRETI, 1995, 1997 e MENON, MARQUES, CASTILHO, 1990b. 24 Idem, 1984 e 1990a. 25 BLANCHE-BENVENISTE & JEANJEAN, impulso nº 27 92

9 Detroit proposto por Shuy et al. 27 e o pioneiro estudo sobre a conversação, de Sacks et al. 28 Vinte anos depois, as sugestões contidas neste último motivaram um ambicioso programa, intitulado Conversation and Grammar: Ono & Thompson. 29 Esse projeto busca as relações entre as categorias pragmáticas da conversação e as categorias gramaticais da sintaxe, uma hipótese lançada entre nós por Dias de Moraes, 30 Marcuschi 31 e Castilho. 32 Na França, lembre-se a pesquisa sociolingüística do francês falado em Orleans, de Blanc-Biggs, 33 e o fecundo Groupe Aixois de Recherches en Syntaxe, organizado na Universidade de Aix-en-Provence. 34 Esses trabalhos tiveram uma forte repercussão em Portugal. 35 Na Itália, devem ser lembradas as pesquisas de Sornicolla 36 e aquelas ligadas ao Lessico Italiano di Frequenza Batalhando por uma gramática da língua portuguesa falada no Brasil As pesquisas brasileiras sobre a língua falada passaram por uma grande aceleração, depois que apresentei em 1987 à Associação Nacional de Pesquisa e Pós- Graduação em Letras e Lingüística, a convite da profa. Maria Helena Moura Neves, um projeto de preparação coletiva de uma gramática do português falado, com base nos materiais do Projeto NURC/Brasil. O Projeto de Gramática do Português Falado (PGPF) teve início em 1988, tendo esgotado sua agenda em Uma de suas motivações foi aproveitar os ricos materiais do Projeto NURC, que vinham sendo maiormente examinados por pesquisadores em Análise da Conversação, Análise do Discurso e Lingüística do Texto. O I Seminário do PGPF debateu o plano inicial, o de preparar uma gramática referencial do português culto falado no Brasil, descrevendo seus níveis fonológico, morfológico, sintático e textual. Reconheceu-se nesse primeiro encontro que seria impossível selecionar uma única articulação teórica que desse conta da totalidade dos temas que se espera ver debatidos numa gramática descritiva, numa gramática de referência como a que se planejava escrever. As primeiras discussões 26 LABOV, SHUY et al., SACKS et al., ONO & THOMPSON, DIAS DE MORAES, MARCUSCHI, CASTILHO, BLANC-BIGGS, BLANCHE-BENVENISTE et al., 1979, BLANCHE-BENVENISTE & JEANJEAN, 1987, e BLANCHE-BENVE- NISTE, 1990a. 35 NASCIMENTO, SORNICOLLA, VOGHERA, 1992, e DE MAURO, impulso nº 27

10 cristalizaram esse reconhecimento, tendo-se decidido dar livre curso à convivência dos contrários no interior do projeto. Como forma de organização, os 32 pesquisadores que atuaram no projeto, afiliados a 12 das maiores universidades brasileiras, distribuíram-se por grupos de trabalho (GTS), sob a coordenação de um deles, para a realização das tarefas previamente agendadas: 1. Fonética e Fonologia, coordenado inicialmente por João Antônio de Moraes, e posteriormente por Maria Bernadete M. Abaurre; 2. Morfologias Derivacional e Flexional, coordenado por Margarida Basílio e Ângela C. S. Rodrigues, respectivamente; 3. Sintaxe das Classes de Palavras, coordenado inicialmente por Rodolfo Ilari, e posteriormente por Maria Helena Moura Neves; 4. Sintaxe das Relações Gramaticais, coordenado inicialmente por Fernando Tarallo, e posteriormente por Mary Kato; 5. Organização Textual- Interativa, coordenado por Ingedore G.V. Koch. Cada GT traçou o perfil teórico que pautaria suas pesquisas. Os textos discutidos e preparados no interior de cada GT foram posteriormente submetidos à discussão pela totalidade dos pesquisadores, reunidos em seminários plenos. Foram realizados dez seminários plenos, terminados os quais os textos debatidos eram reformulados e publicados em uma série própria, editada pela Unicamp 38 A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) tem financiado as atividades, também apoiadas vez e outra pelo Conselho Nacional de Pesquisas. A partir de 1990, solicitou-se ao prof. Mílton do Nascimento que debatesse os problemas teóricos suscitados pelos trabalhos apresentados, na qualidade de assessor Acadêmico do PGPF. Isso ocorreu sistematicamente a partir do IV Seminário, resultando daí alguns textos, um dos quais apresentado ao Centro de Lingüística da Universidade de Lisboa, em 1993, em reunião convocada pelos drs. Maria Fernanda Bacelar do Nascimento e João Malaca Casteleiro. 39 A ESTRUTURA DA ORAÇÃO NO PORTUGUÊS FALADO Se é verdade que o português falado é mais pobre do que o português escrito, segue-se, entre outras coisas, que as orações nessas duas modalidades serão complexas na língua escrita e simples na língua falada. Vamos verificar essa afirmação, começando pela língua escrita. Como construímos uma oração quando escrevemos? Para início de conversa, é reconhecido há muito tempo que uma oração é um verbo que seleciona os termos com os quais ele vai organizar essa oração, seja na língua escrita, seja na língua falada. Enquanto empreendimento sintático, conclui-se portanto que para construir uma oração partimos do léxico, escolhemos ali 38 CASTILHO, 1990b e 1993, ILARI, 1992, CASTILHO & BASÍLIO, 1996, KATO, 1996, KOCH, 1996, NEVES, 1999, e ABAURRE & RODRIGUES, no prelo. 39 NASCIMENTO, 1993b. impulso nº 27 94

11 um verbo adequado ao que queremos expressar, selecionando a seguir os termos projetados por esse verbo. Quer dizer que os verbos se distinguem de outras classes porque têm a propriedade de selecionar seu termo-sujeito e o seu ou os seus termos-complementos. Sujeito e complementos mantêm com o verbo uma relação sintática forte, comprovável pela proporcionalidade que podemos estabelecer entre eles e os pronomes, essa classe primitiva de que derivam os nomes. Bom, a gramática tradicional ensina que o pronome é uma classe derivada, e o nome uma classe primitiva. Mas que pena, pois é exatamente o contrário! Mas deixa pra lá. Além desses termos, podem comparecer também os adjuntos, que por não serem pronominalizáveis não exibem essa relação sintática forte. Tudo isso se passa em nossa mente no momento em que vamos lançar ao papel um texto, forçosamente constituído de orações. Mas acontece que escrever é uma atividade solitária. Como já disse antes, o interlocutor não está presente, não interage conosco enquanto escrevemos, não interfere visivelmente nesse ofício. Tais condições de produção têm como resultado um conjunto de orações voltadas para a sintaxe. Qual é o resultado disso? Orações tipologicamente simples, dotadas de sujeito, verbo, complementos e adjuntos. Imagine que você está escrevendo um capítulo de sua autobiografia, e vai narrar como conseguiu seu primeiro emprego. No remanso do seu escritório, algumas orações que provavelmente escorreriam de sua pena seriam algo como: (1) O Diretor da Folha me chamou e me incumbiu de escrever sobre televisão. O que temos em (1)? O velho feijão com arroz de sempre: sujeito verbo complemento. Mas imagine agora que você está conversando com alguém, que de repente pergunta: (2)()Como você começou a escrever sobre televisão na Folha? Uma resposta provável dada aliás por uma senhora de 60 anos, numa entrevista recolhida pelo Projeto nurc é a seguinte: (3)()olha Francisca... eu... como você sabe... u:ma pessoa um Diretor lá da Folha certa feita me chamou e me incumbiu de escrever sobre televisão... Uma variante perfeitamente possível desse enunciado poderia ser como segue: 95 impulso nº 27

12 (4)()televisão... bom... olha Francisca... eu... assim... um Diretor lá da Folha me chamou... tá entendendo? e então... quer dizer... me incumbiu de escrever sobre televisão... tá? televisão... Em (3) e (4), nota-se que várias vezes o falante abandonou a estrutura propriamente sintática da oração, contida em (1), introduzindo em determinados espaços expressões discursivas de monitoramento da fala (olha Francisca / como você sabe / tá entendendo? / quer dizer / tá?). Foi igualmente introduzido o substantivo televisão, por meio do qual esse falante esclarece o assunto sobre o qual pretende falar, fornecendo a moldura da proposição. Em sua primeira menção, esse substantivo atua como tópico dessa oração, e em sua segunda menção, como seu antitópico. Observando mais de perto (3) e (4), nota-se que duas estruturas aí se cruzaram: uma estrutura orientada para a sintaxe, constituída por sujeito, verbo e complementos, na qual se concentra o núcleo proposicional, e uma estrutura orientada para o discurso, constituída por expressões de monitoramento da interlocução e do próprio texto que está sendo produzido. Observe, neste caso, o uso do recurso epilingüístico quer dizer. Por outras palavras, identificamos na oração escrita uma só estrutura, a estrutura sintática, que poderia ser assim representada: O -> S V O. Já na língua falada essa estrutura de base vem permeada por diferentes elementos, que constituem a estrutura discursiva da oração. Para representar as duas estruturas, Tarallo-Kato et al. 40 assim representaram a oração na língua falada: O -> [...Tópico (Sujeito... Verbo... Complemento 1... Complemento 2)... Antitópico]. Nesta representação, os termos entre parênteses constituem a estrutura sintática. O tópico, o antitópico e as reticências, enfeixados pelos colchetes, constituem a estrutura discursiva. Através das reticências, os autores indicaram os espaços que podem ser preenchidos por expressões discursivas de variada ordem, algumas das quais aqui exemplificadas. À primeira vista, a oração na língua falada é uma verdadeira bagunça. Mas basta verificar que as expressões discursivas têm uma distribuição previsível, isto é, algumas só podem vir no começo da oração, enquanto outras aparecem apenas no fim, para concluir que as mesmas regularidades identificadas na estrutura sintática são encontradas igualmente na estrutura discursiva. Tanto isso é verdade, que você nunca diria: 40 TARALLO-KATO et al., impulso nº 27 96

13 (4 a) * tá? tá entendendo? televisão... eu... assim... um Diretor lá da Folha me chamou... e então... quer dizer... me incumbiu de escrever sobre televisão... bom... olha Francisca... Em suma, enquanto na língua escrita predomina quase categoricamente uma estrutura a sintática, na língua falada precisamos operar com duas estruturas a sintática e a discursiva, dadas as respectivas condições de produção. Onde está, então, a pobreza da língua falada? Estas rápidas observações mostram que a língua falada é mais complexa do que a língua escrita. Na escrita, não precisamos monitorar a interação, podemos voltar atrás e corrigir o que não saiu bem, e com isso acabamos por produzir uma linguagem pasteurizada. Por fala, ao contrário, diferentes processos constitutivos se cruzam, exigindo um investimento muito maior, de que resulta uma linguagem mais complexa. Muito mais poderia ser dito a respeito das complexidades do oral. O PGPF produziu mais de duas centenas de ensaios, além de diversas dissertações e teses. Na falta de tempo e espaço, convido os interessados à leitura desses trabalhos, e à reflexão sobre eles. Sobretudo, peço que desde logo tirem da cabeça esta história da pobreza da língua falada. A riqueza da língua falada faz dela um grande assunto para a sala de aula. Por que, então, não se insere a consideração do oral em nossas práticas escolares? LÍNGUA FALADA E ENSINO Publiquei em 1998 um livrinho intitulado A Língua Falada no Ensino de Português. 41 Sustento ali que, antes de mais nada, está na hora de alterar as relações professor/aluno em sala de aula. Até aqui, temos considerado bom o professor que cumpre programa que ele não preparou, pois lhe foi imposto pela Secretaria da Educação, dá as provas e avalia os alunos segundo parâmetros que podem não coincidir com as expectativas destes. Por outras palavras, esse bom professor leva a seus alunos soluções a problemas que nem um deles formulou! Estranho, não? Depois disso tudo ainda ficamos espantados pelo fato dos alunos não aprenderem a gramática de jeito nenhum. Então, tome aulas de reforço, ou tome reprovação! Creio que uma razão muito singela está por trás desse malogro. Quero insistir neste ponto: são dadas aos alunos respostas a perguntas que eles não formularam. Não havendo curiosidade, não há ciência, não há aprendizado. 41 CASTILHO, 1998a. 97 impulso nº 27

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