DESVENDANDO A ESTÉTICA DE UM NOVO BRASIL A classe C e o sistema de objetos no espaço residencial

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESIGN MESTRADO EM DESIGN DESVENDANDO A ESTÉTICA DE UM NOVO BRASIL A classe C e o sistema de objetos no espaço residencial MARÍLIA MATOSO DE ALBUQUERQUE RECIFE Março de 2012

2 UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESIGN MESTRADO EM DESIGN DESVENDANDO A ESTÉTICA DE UM NOVO BRASIL A classe C e o sistema de objetos no espaço residencial MARÍLIA MATOSO DE ALBUQUERQUE Dissertação apresentada no Programa de Pós- Graduação em Design da Universidade Federal de Pernambuco em atendimento aos requisitos para obtenção do grau de Mestre. Orientadora: Dra. Kátia Medeiros de AraújO RECIFE Março de

3 Catalogação na fonte Bibliotecária Gláucia Cândida da Silva, CRB A345d Albuquerque, Marília Matoso de. Desvendando a Estética de um novo Brasil: a classe C e o sistema de objetos no espaço residencial / Marília Matoso de Albuquerque. Recife: O autor, f. : il. Orientador: Kátia Medeiros de Araújo. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal de Pernambuco, CAC. Design, Inclui bibliografia e anexos. 1. Design Sociedade de consumo. 2. Arquitetura de interiores. 3. Consumo (economia). I. Araújo, Kátia Medeiros de. (Orientador). II. Titulo CDD (22.ed.) UFPE (CAC )

4 UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESIGN PARECER DA COMISSÃO EXAMINADORA DE DEFESA DE DISSERTAÇÃO DE MESTRADO ACADÊMICO DE MARÍLIA MATOSO DE ALBUQUERQUE Desvendando a estética de um novo Brasil: A Classe C e o sistema de objetos no espaço residencial ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: DESIGN E ERGONOMIA A comissão examinadora, composta pelos professores abaixo, sob a presidência do primeiro, considera a candidata MARÍLIA MATOSO DE ALBUQUERQUE. Recife, 26 de abril de Prof. Kátia Medeiros de Araújo(UFPE) Prof. Gentil Alfredo Magalhães Duque Porto Filho (UFPE) Prof. Maria Grazia Cardoso (UFPE) 2

5 A casa era uma casa brasileira, sim Mangueiras no quintal e rosas no jardim A sala com o cristo e a cristaleira E sobre a geladeira da cozinha um pinguim A casa era uma casa brasileira, sim Um pouco portuguesa, um pouco pixaim Toalhas lá da ilha da madeira E atrás da porta, arruda e uma figa de marfim A casa era assim ou quase A casa já não está mais lá Está dentro de mim Cantar me lembra o cheiro de jardim A coisa é coisa brasileira, sim O jeito, a maneira, a identidade enfim E a televisão, essa lareira Queimando o dia inteiro a raiz que existe em mim A casa era assim Um pouco portuguesa e pixaim Geraldo Azevedo 3

6 Pobre gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual. Joãozinho Trinta 4

7 AGRADECIMENTOS A José Carlos, Rosália, Mariana e Thiago por todo o amor, suporte e apoio que tem me proporcionado em vários longos anos de convivência. À Kátia Araújo, minha orientadora, pelo acompanhamento durante os últimos 24 meses mesmo estando às voltas com o seu trabalho como Vice-coordenadora do CAC e como Próreitora de Assuntos Estudantis da UFPE. Ao professor Leonardo Castillo pela oportunidade de realizar meu estágio de docência na disciplina Design e Entorno Urbano, cujo aprendizado e a contribuição para minha formação de mestre foram de caráter essencial. Às amigas de mestrado Cecília, Gabriela, Lucyana, Carolina, Quésia e Bárbara pelas conversas animadoras e palavras de carinho nos momentos de desespero. A L&L, B&A, B&E e R&C; por abrirem a porta de seus lares e me deixarem invadir os seus cotidianos sempre com um enorme sorriso no rosto. 5

8 RESUMO Os interiores domésticos são o reflexo da sociedade em que vivemos e podem revelar aspectos importantes que ajudariam a entender como os homens utilizam o lar para formação da sua identidade. Esta dissertação procura então, desvendar a relação entre design e cultura no âmbito das habitações, com foco nas práticas de consumo relacionadas à organização das residências e suas implicações para a nova classe média brasileira ou a chamada classe C. A idéia fundamental é procurar padrões de gosto nos objetos nas residências de quatro famílias da Região Metropolitana do Recife e a partir daí construir uma rede de conexões que pode ajudar o futuro do design e da arquitetura voltado para as massas que hoje é voltada quase que exclusivamente para as classes AB. Palavras-chave: arquitetura de interiores, design de produto, consumo ABSTRACT The domestic spaces are representative of the society in which we live and can reveal important issues that could help to understand how men use home to form their identity. This work tries to discover the relationship between design and habitation culture, focusing on consumption practices relationed to home organization and its implications to the new Brazilian middle class or the famous C class. The main idea is to look for taste patterns in four Brazilian families houses living in Recife Metropolitan Area and furthermore built a network which can help the future of design and arquitecture directioned for the masses which today is almost totally dedicated to the AB classes. Keywords: Interior arquitecture, product design, consumption. 6

9 LISTA DE FIGURAS Capítulo 2 Figura 1 Revista Minha Casa [41] Figura 2 Revista Minha Casa [41] Figura 3 Imagem de Reforma do Programa Lar Doce Lar [43] Figura 4 Imagem de Reforma do Programa Lar Doce Lar [43] Figura 5 Imagem de Reforma do Programa Lar Doce Lar [43] Figura 6 Imagem de Reforma do Construindo um Sonho [44] Figura 7 Imagem de Reforma do Construindo um Sonho [44] Figura 8 Ambiente da novela Aquele Beijo [45] Figura 9 Ambiente da novela Aquele Beijo [45] Figura 10 Folder de Lojas Populares de Móveis, Eletrônicos e Objetos para o lar [49] Figura 11 Folder de Lojas Populares de Móveis, Eletrônicos e Objetos para o lar [49] Figura 12 Folder de Lojas Populares de Móveis, Eletrônicos e Objetos para o lar [49] Figura 13 Folder de Lojas Populares de Móveis, Eletrônicos e Objetos para o lar [49] Figura 14 Exposição dos Produtos nas Lojas Insinuante [50] Figura 15 Exposição dos Produtos nas Lojas Insinuante [50] Figura 16 Exposição dos Produtos na Loja EletroShopping [51] Figura 17 Exposição dos Produtos na Loja EletroShopping [51] Figura 18 Ambiente montado com modulados da Dellano [53] Figura 19 Ambiente montado com modulados da Dellano [53] Figura 20 Cadeira favela [54] Figura 21 Cadeira Chifruda [54] Figura 22 Cadeira Astúrias [54] Figura 23 Cadeira Tupinambá [54] Capítulo 3 Figura 24 Tipologia do do Janga [66] Figura 25 Fachada do Janga [66] Figura 26 Tipologia do apartamento do Engenho do Meio [68] Figura 27 Fachada do Engenho do Meio [68] Figura 28 Tipologia do apartamento do Vasco da Gama [70] 7

10 Figura 29 Fachada do Vasco da Gama [70] Figura 30 Tipologia do apartamento do Timbi [72] Figura 31 Fachada do Timbi [72] Figura 32 Tipologia apartamento vendido para a classe C [73] Figura 33 Tipologia apartamento vendido para a classe C [73] Figura 34 Tipologia apartamento vendido para a classe C [73] Figura 35 Tipologia apartamento vendido para a classe C [73] Figura 36 Planta baixa residência do Janga [78] Figura 37 Janga: Sala de Jantar [79] Figura 38 Janga: Sala de Jantar [79] Figura 39 Janga: Sala de Estar [79] Figura 40 Janga: Sala de Estar [79] Figura 41 Janga: Sala de Estar [79] Figura 42 Janga: Quarto Filhas [79] Figura 43 Janga: Quarto Filhas [79] Figura 44 Janga: Quarto Casal [80] Figura 45 Janga: Quarto Casal [80] Figura 46 Janga: Quarto Casal [80] Figura 47 Janga: Cozinha [80] Figura 48 Janga: Cozinha [80] Figura 49 Janga: Banheiro [80] Figura 50 Janga: Banheiro [80] Figura 51 Janga: Escritório [80] Figura 52 Planta Baixa Residência do Engenho do Meio [84] Figura 53 Engenho do Meio: Sala de Estar [85] Figura 54 Engenho do Meio: Sala de Estar [85] Figura 55 Engenho do Meio: Sala de Estar [85] Figura 56 Engenho do Meio: Cozinha [85] Figura 57 Engenho do Meio: Cozinha [85] Figura 58 Engenho do Meio: Cozinha [85] Figura 59 Engenho do Meio: Sala de Jantar/Escritório [85] Figura 60 Engenho do Meio: Sala de Jantar/Escritório [85] Figura 61 Engenho do Meio: Sala de Jantar/Escritório [85] 8

11 Figura 62 Engenho do Meio: Quarto Casal [86] Figura 63 Engenho do Meio: Quarto Casal [86] Figura 64 Engenho do Meio: Quarto Casal [86] Figura 65 Engenho do Meio: Banheiro e Área de Serviço [86] Figura 66 Engenho do Meio: Banheiro e Área de Serviço [86] Figura 67 Engenho do Meio: Banheiro e Área de Serviço [86] Figura 68 Engenho do Meio: Banheiro e Área de Serviço [86] Figura 69 Engenho do Meio: Quarto Filhas [86] Figura 70 Engenho do Meio: Quarto Filhas [86] Figura 71 Engenho do Meio: Quarto Filhas [86] Figura 72 Planta Baixa Residência do Vasco da Gama [90] Figura 73 Vasco da Gama: Circulação [91] Figura 74 Vasco da Gama: Sala de Estar/Jantar [91] Figura 75 Vasco da Gama: Sala de Estar/Jantar [91] Figura 76 Vasco da Gama: Terraço [91] Figura 77 Vasco da Gama: Terraço [91] Figura 78 Vasco da Gama: Terraço [91] Figura 79 Vasco da Gama: Quarto Filhos [91] Figura 80 Vasco da Gama: Quarto Filhos [92] Figura 81 Vasco da Gama: Quarto Filhos [91] Figura 82 Vasco da Gama: Quarto Filhos [91] Figura 83 Vasco da Gama: Banheiro [92] Figura 84 Vasco da Gama: Banheiro [92] Figura 85 Vasco da Gama: Cozinha/Área de Serviço [92] Figura 86 Vasco da Gama: Cozinha/Área de Serviço [92] Figura 87 Vasco da Gama: Cozinha [92] Figura 88 Vasco da Gama: Cozinha [92] Figura 89 Vasco da Gama: Cozinha [92] Figura 90 Vasco da Gama: Quarto Casal [92] Figura 91 Vasco da Gama: Quarto Casal [92] Figura 92 Vasco da Gama: Quarto Casal [92] Figura 93 Planta Baixa Residência do Timbi [96] Figura 94 Timbi: Sala de Estar [97] 9

12 Figura 95 Timbi: Sala de Estar [97] Figura 96 Timbi: Sala de Estar [97] Figura 97 Timbi: Quarto Casal [97] Figura 98 Timbi: Quarto Casal [97] Figura 99 Timbi: Quarto Casal [97] Figura 100 Timbi: Banheiro [97] Figura 101 Timbi: Área de Serviço [97] Figura 102 Timbi: Circulação [97] Figura 103 Timbi: Quarto Filho [98] Figura 104 Timbi: Quartos Filhos [98] Figura 105 Timbi: Quartos Filhos [98] Figura 106 Timbi: Cozinha [98] Figura 107 Timbi: Cozinha [98] Figura 108 Timbi: Terraço [98] Figura 109 Timbi: Terraço [98] Figura 110 Timbi: Terraço [8 Figura 111 Timbi: Terraço [98] Figura 112 Evolução das Cozinhas [103] Figura 113 Evolução das Cozinhas [103] Figura 114 Evolução das Cozinhas [103] Figura 115 Evolução das Cozinhas [103] Figura 116 Design de Marteen Baas [105] Figura 117 Design de Marteen Baas [105] Figura 118 Design de Marcel Wanders [105] Figura 119 Design de Marcel Wanders [105] 10

13 LISTA DE GRÁFICOS E TABELAS GRÁFICOS Capítulo 2 Gráfico 1 Evolução da Classe C [37] Gráfico 2 Evolução da Classe C [37] Gráfico 3 Composição dos Gastos da Classes C em 2011 [38] TABELAS Capítulo 2 Tabela 1 Definição das Classes Econômicas [36] Capítulo 3 Tabela 2 Padrão de Aquisição Família do Janga [81] Tabela 3 Padrão de Aquisição Família do Janga [81] Tabela 4 Padrão de Aquisição Família do Janga [81] Tabela 5 Padrão de Aquisição Família do Janga [81] Tabela 6 Padrão de Aquisição Família do Engenho do Meio [87] Tabela 7 Padrão de Aquisição Família do Engenho do Meio [87] Tabela 8 Padrão de Aquisição Família do Engenho do Meio [87] Tabela 9 Padrão de Aquisição Família do Engenho do Meio [87] Tabela 10 Padrão de Aquisição Família do Vasco da Gama [93] Tabela 11 Padrão de Aquisição Família do Vasco da Gama [93] Tabela 12 Padrão de Aquisição Família do Vasco da Gama [93] Tabela 13 Padrão de Aquisição Família do Vasco da Gama [93] Tabela 14 Padrão de Aquisição Família do Timbi [99] Tabela 15 Padrão de Aquisição Família do Timbi [99] Tabela 16 Padrão de Aquisição Família do Timbi [99] Tabela 17 Padrão de Aquisição Família do Timbi [99] Tabela 18 Ideário de Consumo x O que foi observado [107] Tabela 19 Características mais observadas x Características menos observadas[107] 11

14 SUMÁRIO Introdução [13] Objetivos [16] Considerações Metodológicas [17] 1. Referencial Teórico 1.1. Estilos de vida na contemporaneidade [21] 1.2. Cultura e Consumo [25] 1.3. Modos de Morar no Brasil [30] 2. A nova classe média brasileira 2.1. Quem é a classe C [35] 2.2 Os meios de comunicação [41] 2.3. O que o mercado oferece [48] 3. Uma vista de dentro 3.1. Composição Familiar [58] 3.2. O espaço doméstico [65] 3.3. Artefatos e Gostos [75] Conclusão [107] Bibliografia [110] Anexos [114] 12

15 INTRODUÇÃO A arquitetura de interiores e sua relação com o design compõem um dos maiores mercados de consumo da sociedade atual. Objetos domésticos além de artefatos de necessidade básica também constituem um campo revelador da identidade e ferramenta pela busca de prazeres materiais para exibição e preenchimento de vazios e vontades. Os objetos em nossas vidas são mais que meros bens materiais. Temos orgulho deles, não necessariamente porque estejamos exibindo nossa riqueza ou status, mas por causa dos significados que eles trazem para nossas vidas. Um objeto é um lembrete de uma boa memória que nos traz boas recordações ou até uma expressão de nós mesmos, desvendando nossa personalidade e identidade. Ao refletir sobre a relação dos seres humanos com os interiores domésticos, procura-se compreender quais são os espaços e objetos relevantes para o público estudado, e o que os torna importantes. Tendo como base as alterações sociais mais recentes e a intensificação da circulação de objetos, procurou-se construir um objeto de estudo que exigiu a interdisciplinaridade ao aproximar o design e as ciências humanas. As pesquisas sobre cruzamento de objetos e interiores domésticos vem ganhando interesse e estão avançadas fora do Brasil, principalmente na Holanda e na Inglaterra (Hekkert, Desmett, Grovers, Schoormans) 1. Mas estudos específicos sobre a relação de objetos com grupos de pessoas sendo desenvolvidos lado a lado com o público carecem de mais aprofundamento, já que a maioria dos trabalhos acima fornece resultados a serem aplicados e na metodologia projetual dentro das indústrias, e voltado para a realidade econômico-social desses países. Estudos envolvendo a nova classe média brasileira ou a classe C 2 (que representa hoje mais de 50% da população) ainda são escassos no campo da arquitetura, do design e da antropologia, já que esse público ainda é recente no Brasil, e somente foram contemplados em pesquisas no campo do marketing ou da publicidade. 1 Pesquisas publicadas em periódicos de design e marketing entre os anos de 2004 a 2009 com foco na relação de usuários com objetos em ambientes. 2 Entende-se por classe C aqueles que ganham de R$ 1.126,00 a R$ 4.854,00 segundo pesquisa de NERI, Cortes Marcelo (coord.): A nova classe média: o lado brilhante dos pobres (2010). 13

16 É fato que há uma lacuna de trabalhos específicos que ajudem a divulgar e movimentar o maior mercado consumidor brasileiro e entender como se formou e como vai se desenvolver a maior parcela da população nacional seja na educação, nos hábitos domésticos, na evolução do emprego e renda, e no comportamento dentro da sociedade. Esta também é a classe dominante do ponto de vista econômico, pois concentra mais de 46% do poder de compra dos brasileiros em 2009, superando as classes AB, estas com 44% do poder total de compra. Estudar essa parcela da população pode ajudar a entender o comportamento e desvendar perfis de mais da metade dos habitantes brasileiros (Neri, 2010). Na arquitetura há um novo paradigma que é na verdade o paradigma científico da complexidade que vem sendo apropriada de maneiras diferentes, como a que impulsionou o movimento pós-moderno desde a contracultura dos anos 60 e se caracteriza pela multiplicidade na estética e por abraçar cada vez mais públicos tão diferentes (Baltazar, 2002). A dissertação em questão procura trazer para o campo do design e da arquitetura a discussão sobre os espaços e objetos como uma produção de ações e modos de vida, bem como sobre a importância de um entendimento da dinâmica social e às necessidades específicas de um grupo que representa uma grande parcela da população brasileira, focando nos seguintes aspectos: 1) Estudo dos espaços residenciais como reveladores da vida moderna através da organização dos interiores com os artefatos, 2) Estudo do mercado atual de objetos para a classe C para compreensão do que está ao alcance desse público, 3) Influência dos meios de comunicação e das famílias na formação do capital cultural, 4) Proposição de soluções e melhorias para o diálogo entre design e residência A partir desses pressupostos procurou-se desvendar os motivos os quais o design ainda é prioridade das classes AB, pouco se observando esforços para trazer bons projetos para as massas, por parte dos profissionais e do mercado, como afirmou Cardoso (2004): 14

17 Mesmo nos objetos mais bem sucedidos, tanto do ponto de vista projetual quanto comercial, permanece no Brasil uma enorme discrepância entre o custo aparente do design e o poder de compra da maioria da população. Evidentemente, nenhum designer e nem mesmo o campo como um todo detém o poder de reverter ou mesmo alertar de modo fundamental um processo cultural tão amplo quanto à desigualdade social, a qual exerce uma influência negativa sobre a atuação profissional por restringir a abertura de mercado. Estudar o modo como estão sendo construídas as relações de continuidade e hibridização entre sistemas locais e globais do desenvolvimento cultural é hoje um grande desafio para pensar sobre cidadania e identidade na coexistência de etnias e nacionalidades nos cenários de trabalho e consumo. Dentro deste contexto, a pesquisa é de extrema importância para inserir a maior parcela da população nacional no processo de conhecimento cultural num país tão diversificado e multicultural como o Brasil. 15

18 OBJETIVOS 1.1 Objetivo Geral Entender como a nova classe média brasileira se comporta em relação à composição do espaço residencial dentro do mercado de produtos domésticos existentes, estudando sua formação educacional e seu conhecimento acerca da formação do lar e conseqüentemente, como o profissional de arquitetura e design, que hoje é voltado para classes AB, pode contribuir com a melhoria de vida da maior parcela da população nacional. 2.1 Objetivos Específicos 1) Entender como foi formada a composição do interior doméstico relacionando a lógica do espaço residencial com a informação trazida pelos produtos que habitam tais moradas. 2) Numerar fatores dinâmicos que influenciaram o apego e a escolha dos objetos entre: gosto pessoal, influência da mídia, gosto por certo tipo de design, informação, moda, valor econômico. 3) Estudar a interação das pessoas com os objetos e o significado que estes exprimem dentro dos interiores domésticos formando um padrão de gosto da classe C. 16

19 CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS Para este volume foi adotada uma abordagem fenomenológica onde o próprio fenômeno é estudado em seu estado bruto buscando a consciência do sujeito através da expressão das suas experiências, não existindo uma verdade absoluta e sim uma reação de causa e efeito. Pretende-se assim verificar a problematização apresentada construindo e descobrindo respostas (e quando possível, propondo soluções) e também negando fatos inseridos no contexto do problema. Como método de procedimento foi utilizado o método estruturalista, procurando explorar as inter-relações através das quais o significado é produzido dentro de uma cultura. No tocante à parte empírica, a pesquisa foi qualitativa se desenvolvendo numa situação natural, rico em dados descritivos com um plano aberto e flexível. Foram utilizadas as seguintes técnicas de pesquisa: observação direta e entrevistas semi estruturadas (ver anexo), mas que não seguiu uma linearidade, mudando-se o foco da conversa pelo entrevistado algumas vezes. A escolha do tema deveu-se ao fato de que a classe C constitui hoje a maior parcela consumidora do Brasil, porém esse público não é atingido pela evolução e valorização do profissional do design, que está atrelado diretamente às classes AB principalmente no que concerne a projetação de produtos para interiores domésticos, notando-se aí uma grave lacuna entre profissional e usuário. Para compor esse campo e desvendar a lacuna da relação usuário x profissional e suas implicações, esse trabalho foi construído com a seguinte estrutura: no capítulo 1 foi montada base de pensamento que doutrinou a pesquisa através da leitura dos principais autores nacionais e também internacionais que abordam temas como os interiores domésticos, design de objetos, cultura e consumo e a antropologia da arquitetura residencial. O referencial foi dividido em três partes: Estilos de vida na Contemporaneidade (Harvey, Hall, Sennet, Baudrillard, Moles e Bauman) que tenta explicitar como o comportamento e as diferentes identidades que permeiam o mundo de hoje pode revelar aspectos importantes 17

20 acerca do universo material dos produtos; Modos de Morar no Brasil (Freyre, Forty, De Botton, Lemos, Bonduki e DaMatta) onde se procura fazer um panorama da moradia no Brasil e como a noção de casa e espaço doméstico evoluiu até tornar-se aspecto importante para o estudo social dentro das diferenças de classe no país e Cultura e Consumo (Bourdieu, Douglas, Slater, Cardoso, Frampton, Canclini e de Moraes) procurando desvendar aspectos relacionados às práticas culturais dentro do mercado globalizado e diverso do design hoje. No capítulo 2 foi estruturado o campo de poder simbólico descrevendo o público estudado na pesquisa, cuja informação foi coletada principalmente em publicações na área de economia e negócios, como os meios de comunicação são influenciadores diretos dessa classe através da TV e de revistas, e o contexto atual do mercado de objetos para interiores voltados para a classe C e suas inspirações. No capítulo 3 é descrita a experiência da observação e das entrevistas realizadas em quatro residências de classe C durante o período de agosto a novembro de 2011 representando uma parcela do grande público estudado. As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas para melhor compreensão do seu conteúdo. A partir daí é traçado uma conexão dos padrões de gosto e das principais influências que essas pessoas têm ao utilizar objetos domésticos como revelador de suas identidades. Para tal é relatado os detalhes da estrutura social dessas famílias como formação escolar, raiz familiar e vida profissional. Também foi necessário analisar detalhes da arquitetura dessas residências através de plantas e das imagens dos ambientes e também do local e contexto em que estão inseridos e como foram adquiridos os produtos que habitam esses ambientes, construindo assim uma rede que ajudou a descobrir padrões de gostos respeitando as diferenças de cada grupo. No final de cada descrição foram montadas tabelas de como foram adquiridos os objetos e como estes dados se comportam em comparação com as quatro residências. Por fim, faz-se uma análise geral dos casos cruzando os principais dados obtidos com os objetivos e perguntas do trabalho e também com os principais autores do referencial. 18

21 Como fechamento da dissertação é apresentada a conclusão ressaltando os principais pontos observados e fazendo uma análise de como a arquitetura e o design podem contribuir para a vida desse público que hoje é ainda pouco lembrado nas pesquisas sobre novas tendências e hábitos culturais. Essa pesquisa não tem o intuito de analisar todo o público de classe C que é bastante grande e diverso, e é importante esclarecer que as quatro residências estudadas podem diferenciar bastante de outros lares com as mesmas características, ainda mais se estudadas em outras regiões do Brasil onde os fenômenos podem ser bastante diferentes. Ainda assim, foi extremamente esclarecedor estudar essa pequena parcela e conseguir descobrir conexões e semelhanças que podem representar, com certeza, grande parte da maior parcela da população brasileira. 19

22 20

23 1.1 ESTILOS DE VIDA NA CONTEMPORANEIDADE As transformações dos estilos de vida na pós-modernidade vêm configurando mudanças nos interiores residenciais e nas relações do homem com o objeto doméstico. Segundo Harvey, (1976), a época em que vivemos hoje é condicionada pela racionalização da produção e consumo em massa de bens materiais na vida urbana, principalmente nos aspectos relacionados ao lar. As velhas identidades que por tanto tempo estabilizaram o mundo social estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. Para Hall (1999), as diferenças pessoais começam a ficar mais evidentes e dá-se início a uma era de fragmentação produzida onde as distinções sociais se dão pela aquisição de todo tipo de símbolo de status, seja na moda, na música ou nos interiores domésticos. Para esses autores, nunca foi tão importante entender os artefatos como personificadores e como reveladores dessas identidades fragmentadas da contemporaneidade onde a classe C, objeto deste estudo, também se insere consumindo símbolos que remetem a significados que podem revelar muito sobre os aspectos das vidas destas pessoas. Já para Sennet (1976) numa visão do público e privado, esses símbolos remetem a várias épocas, ampliando o mundo das escolhas e da variedade de possibilidades de estilos de vida e mercadorias. Vive-se um neo-ecletismo desconstrutivista, onde é possível que o homem identifique-se e com música clássica do século XIX e viva numa casa de arquitetura high tech. Há um caos dentro da ordem, um resgate da memória coletiva ampliando as possibilidades de relações humanas com objetos de épocas, tribos e materiais diferentes. Há a possibilidade de ser igual, seguir um padrão e encaixar-se dentro de perfis ou ser diferente por gosto ou contracultura. Porém ainda não é claro que esta afirmação se aplique às classes menos favorecidas onde as possibilidades de escolhas são menores e o acesso à informação também é escasso, principalmente no Brasil que ainda caminha para oferecer à população serviços básicos como educação e saúde. 21

24 É por isso que as moradias são os locais mais apropriados de desvendar essas identidades fragmentadas da classe C já que Sennet (1976) também afirma que a vida nos interiores domésticos começa a adquirir valor maior que a vida pública e as relações humanas começam a se voltar para dentro e a premissa do conhecer a si mesmo é uma maneira de conhecer o mundo passa a ser fundamental para a construção do caráter da maioria dos homens, independente de classe. A construção do individualismo moderno está ligado à construção do espaço construído e à identificação através do objeto e do espaço. Passa-se a usar bens materiais como atributos e associações próprias à personalidade íntima, construindo-se uma liberdade individual através da aquisição de bens de consumo. A capacidade de obter prazer depende não só dos objetos em si, mas da relação espacial que eles mantêm. O embelezamento dos utensílios estaria associado ao processo de valorização da atividade doméstica numa tentativa de unir as necessidades do bom funcionamento da casa com a obtenção do prazer pessoal. Harvey (1992) também reforça as afirmações de Sennet quando diz que nunca os objetos domésticos junto com a indústria de vestuário estiveram tão conectados à identidade do homem e à construção do modo de vida observado no mundo atual. Considerando a mudança de local, de tempo e de cultura, as transformações do homem hoje tem se moldado dentro desses padrões nas sociedades organizadas e globalizadas. As pessoas procuram um eu nos artefatos residenciais: elas buscam ser individuais, mas ao mesmo tempo se adequar aos padrões, surgindo aí os ideais de beleza e moral. E um dos grandes desafios deste trabalho é desvendar que idéias são esses e como eles podem influenciar profundamente os setores ligados à arquitetura e o design. Considerando-se que o design e a arquitetura influenciam a construção de valores, as práticas e os hábitos das pessoas por meio dos artefatos e do espaço construído, entende-se que esses profissionais são co-responsáveis pela qualidade dos produtos que são criados e engendrados na sociedade. Segundo Ono (2006), os objetos e as sociedades moldam-se e influenciam-se em uma relação dinâmica no processo de construção material e simbólica do mundo e considerando-se que o designer necessita demonstrar a sua atitude criativa na complexa teia de funções e significados, na qual as percepções, ações e relações se entrelaçam, buscando a adequação dos artefatos às necessidades e anseios das pessoas e a melhoria da qualidade de vida da 22

25 sociedade. Estão esses profissionais ligados aos estilos de vida adotados pelas classes menos favorecidas? Que produtos são então criados dentro deses aspectos? No campo dos artefatos, Baudrillard (1968) afirma que criar objetos é criar hábitos e a funcionalidade dos objetos modernos torna-se a historicidade do objeto antigo sem, todavia deixar de exercer a função de signo. Os novos objetos nada mais são que novos símbolos e o consumidor não compra o objeto, mas esse significado simbólico que traz o objeto. Baudrillard ainda afirma que o indivíduo constrói o mundo através da utilização (totalização prática do mundo pelo indivíduo) x posse (totalização da abstração do mundo). Só uma organização complexa de objetos que se relacionam uns com os outros constitui cada objeto em uma abstração suficiente para que ele possa ser recuperado pelo indivíduo na abstração vivida. Essa abstração exalta as qualidades da pessoa e abole as neuroses do cotidiano através dos hábitos, da representatividade e da personalização. Essas afirmações se conectam com Moles (1975) quando este explicita que o objeto é um elemento do mundo exterior fabricado pelo homem e que este pode manipular e o prazer associado aos produtos é como um benefício que pode ser social, psicológico (usabilidade), fisiológico (conforto), ideológico (cultura). Os objetos não falam por si, falam por meio da linguagem (emoção do usuário x mensagem do objeto). O objeto é mediador do homem na sociedade e o papel do objeto é modificar ou resolver uma situação mediante um ato em que o utilize. Essa organização complexa de objetos citadas por Moles e Baudrillard podem ser encontradas dentro dos interiores domésticos que se configuram como o ambiente mais fácil de conectar e desvendar abstrações e símbolos do cotidiano. Essa complexidade torna-se ainda mais difícil nas moradias da nova classe média, onde os espaços residenciais são bastante complicados e carecem muitas vezes de estruturas e soluções arquitetônicas decentes. Os objetos como constituidores de práticas e de um imaginário social, contribuem para a construção das identidades sociais, tornando-se, como define Bauman (2001), artefatos símbolos da contemporaneidade. Essas identidades sociais se configuram como uma mistura do capital cultural do público estudado ao que é oferecido a elas no campo dos objetos. A indústria da arquitetura e do objetos tem um poder muito importante na legitimação dos 23

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