CHELAS BURACA CASAL VENTOSO GALINHEIRAS

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1 CHELAS BURACA CASAL VENTOSO GALINHEIRAS 5

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3 O Sr. Bentley...09 A Puta da Velha...20 O Bairro Vermelho...24 O Demónio...33 O Senhor Royce...36 Jesus é a Sua Luz...42 É Aquela Base...48 A Proposta O Ácer...74 Miss Joyce...84 Synger...91 As Criancinhas O Passado O Corcunda Alvíssaras A Menina das Joaninhas

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5 O Sr. Bentley Senhor Bentley, o Passarinheiro, o Passarão, o Enraba-Passarinhos. O Lambe-Lambe, o paneleiro corno-de-merda, peneirento, o caga-lume, o apaga-lume, o arrebita-a-nabiça, ai arrebita-arrebita!; senhor Bentley, o Visitador de Cemitérios. Ó. Não raramente o senhor Bentley veste-se à René Magritte e finge-se belga. De chapéu de coco na tola e chapéude-chuva dependurado no braço direito (evita que desate em saudações nazistas cada vez que passa por ciganos, pretos, maricas, polícias-sinaleiros e cãezinhos de três patas) passeia na rua com metade de um coco preso à face com um elástico, a gritar: Não tenho cara! Não tenho cara! Ó! A minha cara! Onde está a minha cara?! EU QUERO A MINHA CARA DE VOLTA! SEUS CARALHOS DE MERDA ABAUNI- LHADA, DEVOLVAM-ME A CARA! Depois encolhe os ombros, resignado, e dirige-se calmamente para o banco de jardim, senta-se, retira a casca de coco do rosto, deposita-a aos pés, abre a gabardina, de- 9

6 compõe o vestuário, amachuca-o, distorce as linhas plácidas do rosto, dá às mãos um ar sinistro e deformado e cacareja timidamente: Uma moedinha (cof) pó ceguinho (cof-cof). Passando mulheres, de qualquer idade ou raça, invariavelmente escolhe a mais decrépita, a mais acabada, a mais enrugada e, lascivo, diz-lhe: És mesmo boa. Fodia-te toda. És mesmo boa. Fodia-te toda. A moedinha (cof) pó ceguinho (cof-cof). Boa. Fodia-te. Moedinha. Cof. De vez em quando dá vigoroso salto no banco de jardim, espeta uma estalada na testa e exclama: É segunda-feira! E lá vai ele a correr como uma florzinha, liriozinho do campo, ecoando na rua em lampejos exclamativos absurdos o dito: É segunda-feira! É segunda-feira! O senhor Bentley é homem de hábitos. Necessita de hábitos para contrabalançar, dar equilíbrio ao seu carácter impulsivo, feito de actos momentâneos e explosivos. O próprio senhor Bentley não sabe do que é capaz, o que aprontará no minuto seguinte. Os hábitos dão-lhe base segura, são o eixo da sua vida. Às segundas, quartas e sextas visita cemitérios. Senhor Bentley (o paspalho, paspalhão, dez reis de mel coado, o-anda-por-aí-aos-tombos, o forreta, somítico, judeu, o nababo das rolhas) mal entra no cemitério (escolhido ao calhas, os dias da visita jamais se alteram, contudo o cemitério a visitar é ditado pela sorte) faz razia às campas: rouba todas as flores que consegue carregar. Põe grinaldas à volta do chapéu de coco, empilha-as pescoço abaixo, coloca colares de flores à volta dos braços como se fosse acrobata circense, usa o chapéu-de-chuva para levar outros tantos. Lá 10

7 vai ele, o senhor Bentley engrinaldado, a deambular cemitério afora aproveita e treina o choro, altera a configuração do rosto, as linhas cavam fundo na pele. Aí está o senhor Bentley, perfeita fotocópia do perfeito sentimento de luto. Estou em período de nojo...! choraminga para os mortos ao redor porque os vivos vivem muito lá por fora, nos trabalhos lá por fora, com a puta da família, das criancinhas e dos patrões. Ao menos o cabrão do senhor Bentley não se sujeita a chefes de um corno porque é dono de casas arrendadas. O olhito meio-fechado, meio-aberto, intercepta ao fundo o canto de campa miserável em abandono evidente há décadas. O senhor Bentley dá um salto (a imitar o lírio do campo, faz de conta estar no ballet), emite um gritinho panasca e, semeando pétalas e néctar podre no chão, corre aos saltinhos até ao alvo. Ah! Branca e pura não! Suja, encardida, abandonada como me apraz! De súbito perfila o corpo em pose militar e cumpre o ritual. O senhor Bentley precisa de rituais e hábitos senão o seu centro desmorona-se. Cuidadoso retira de si cada grinalda e colar de flores, depositando-os leve e lentamente no chão, sem que nenhum toque na pedra tumular. Compenetra-se da santidade do solo sagrado e dedica-se nos momentos iniciais a um exercício budista: varre com os olhos o espaço do cemitério, fixa-os, plano a plano, na terra que suporta as centenas de campas e imagina milhares de corpos, debaixo do chão, a apodrecer, a apodrecer, a apodrecer... vê os ossos movimentados centímetro a centímetro pelos vermes cuja sagrada e interminável tarefa é a de digerir toda a carne humana morta. Cerra os olhos e vê os bichinhos a nutrirem-se, plácidos. Impunes. Impávidos. 11

8 Ouve-os a mastigar sem dentes: morf-morf-morf. Distingue os sucos dos corpos, enxerga os amorosos bichinhos surfarem devagar de centímetro de carne apodrecida para centímetro de carne apodrecida, embrulhada em roupa que já foi de moda e custou um balúrdio, os olhos da cara. Imagina os parentes a zaragatearem: tás parvo?! Dar essa porrada de dinheiro por um fato que vai ser comido pela terra?! Mais vale deitar o dinheiro ao lixo! Imagina o invisível, desconhecido primo/tio/ o raio que o parta, a repontar, rilhando os dentes: parece mal! Parece mal enterrá-lo como um maltrapilho, um vagabundo sem eira nem beira! Parece mal! O senhor Bentley tem as mãos cruzadas à frente, por cima do bem-bom. Inclina-se para trás, faz uma curva propositadamente acentuada, abre a boca e alarga os lábios num sorriso cínico: um sorriso entendido. Ele entende a impermanência da vida e da morte. Tal como tem o entendimento do mundo. Retoma a verticalidade do esqueleto, fecha os olhos e enche os pulmões de ar. Sente os mínimos odores do sepulcrário, começando no cheiro da morte e decomposição o cheiro mais doce para ele, o único que lhe dá vontade de permanecer e divertir-se no mundo. A seguir vem o cheiro agridoce dos vermezinhos, nham, um guisado de vermes calhava bem. Depois acode o cheiro bolorento dos caixões a desfazeremse em pó; o aroma marmóreo das campas; a essência húmida da terra e do húmus; o perfume das árvores e das flores e das plantinhas. O cheiro dos ratos. Das baratas. Dos gatos. 12

9 E dos homens. Vivos. Na pele dos coveiros a síntese aromática realizava-se. (Ai que vontade de os espremer, espremer, como roupa molhada.) Tinha de fazê-lo para bem da sua estrutura mental, às segundas, quartas e sextas: contemplar a impermanência visitando necrópoles ao acaso. O momento sagrado eclipsou-se e ele pôs mãos à obra! Ah sim, now comes the fun part!, dizse em francês, alemão e inglês. (Cabrão: só porque sabe bem que eu não me entendo com nenhum dos idiomas.) O senhor Bentley pega nas grinaldas uma a uma e enquanto chora baba e ranho deposita-as no túmulo, velando o morto tal como vira ciganos a fazer. Ai tão bom que ele era! grita. Tão bom homem! (Pára por instantes e dá uma olhadela rápida aos dizeres baços na pedra.) Ai tão boa que ela era! A mãe dos meus filhos! Finouuuuuu-se! Morreu! Ai coitadiiiiiinha! Ai, a puta morreu-me! Como é que eu vou ganhar a vida agora! A puta da mulher dos meus cinco filhos bastardos morreu-me nos braços! Não pude acabar de fazer o sexto! Nem o sexto me deixou acabar de fazer, a desgraçada da mulher! Custava-lhe muito, merda?! Custava?! Fez de propósito, a velhaca! De propósito! (Calou-se e respirou.) Ai tadiiiinha deeeela! TADINHA... deeeeeeeela...! Arrancou rosas amarelas, gladíolos e gerberas às macheias, lançou-os sem respeito nenhum para a enegrecida 13

10 campa, impeliu-se para cima da pedra tumular e desatou aos saltos enraivecidos, os pés esmagando as flores a cada impacto, trucidando-as nas solas dos sapatos. Um homem, do outro lado do cemitério, aproximou-se do espectáculo de queixo caído e ar estupefacto. Tinha entradas no crânio e o cabelo era todo negro. Usava óculos de vidro fino e aros de metal. Vestia fato escuro e devia ter quarenta anos. Aproximou-se a princípio a passo vigoroso, mas diminuiu a velocidade à medida que alcançava o senhor Bentley, homem demente. É preciso ter cuidado com estes doidos à solta por aí... O senhor Bentley bem o via. Saltava cada vez mais alto, as costas curvadas com o exercício, no rosto um esgar de dar medo. Todavia o chapéu de coco permanecia firme na cabeça e só o chapéu-de-chuva balançava no seu braço direito. Eh... psst... eh eh lá? Atreveu-se o espectador. O senhor Bentley deteve-se num ápice. Retesou o corpo, aplainou as rugas da face e observou o infinito. De seguida desceu da campa, deu dois passos e rojou-se até ao homem atónito. Ai a minha vida! gritou em desespero, a agarrar-lhe os fundilhos do casaco escuro e a babá-lo de ranho e choro. A minha querida mulher! Perdi-a! Perdi-a! Parecia sincero. O homem teve um instante de dúvida. Senhor Bentley atracara-se a ele. O homem conseguiu desprender-lhe as garras da roupa e acercou-se da campa. Leu: Elvira Guimarães, filha adorada, Mulher?! É uma criança que morreu aos seis anos no século XIX! vociferou e dirigiu o olhar enojado primeiro para ele e depois para os estragos no fato. Você é doido! Doido! disse ao afastar-se e a limpar o ranho e a baba com o lencinho de bolso. O senhor Bentley encolheu os ombros e teve um sor- 14

11 riso satisfeito. Arranjou-se: desvincou a gabardina cinzenta, abotoada de cima abaixo, confirmou a firmeza do chapéu de coco e abriu o guarda-chuva. O dia apresentava-se sem nuvens e não chovia há semanas, porém o senhor Bentley nunca saía de casa sem ele. Começou a correr pelo cemitério em direcção à saída, derrubando vasos, velas, flores, retratos, o que for que estivesse na passagem, dando impulso ao chapéu aberto, para cima e para baixo, para cima e para baixo, allez-hop!, até atingir o portão gradeado e levantar voo. O senhor Bentley é do mais ordinário que há. A voar pela cidade, força o ranho para a entrada da garganta, mesmo ali a tocar no sininho, faz pontaria a algum incauto transeunte e escarra certeiramente no alvo escolhido. Três quatro cinco! Três, quatro, cinco! Semana proveitosa! Olha ali... um menino de bibe! Cinco anos, na certa! Ó! É o trezentos e quarenta e seis! imita a voz de sorteio da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa três, quatro, seis. Trezentos e quareeeeeentaeseeeeeeeeiis! Acerta bem no nariz do fedelho. Semana proveitosa! Trezentos e quarenta e seis! Contactarei o Guinness. Senhor Bentley, mais comummente conhecido por Enraba-Passarinhos, ganhou a alcunha aos quatro anos. Possuía na época uma pilinha muito pequenininha. Tão pequenininha que um tio maldoso lhe dizia: isso nunca mais cresce. Só vai servir para enrabar passarinhos! A família escarneceu semanas a fio, meses inteiros, anos seguidos. Mesmo depois da tragédia, a alcunha continuava a produzir idênticas gargalhadas. Bentley, petiz de quatro anos, na noite da pública humilhação, esperou que a família adormecesse e saiu do quarto. Foi buscar a garrafa de álcool à casa- 15

12 de-banho e serviu-se do isqueiro do tio quando penetrou no quarto. Mesmo em pequenininho, o Enraba-Passarinhos via tão bem no escuro como os gatos e as corujas. Regou o bigode e o cabelo ao tio e alumiou-os com o isqueiro que repousava na mesinha de cabeceira ao lado dos cigarros e da dentadura. Foi uma festa!, recorda amiúde o senhor Bentley. Primeiro a cara dele alumiou-se e a chama movia-se erraticamente de um lado ao outro do quarto. O miúdo desviavase. Depois a chama plantou chamazinhas no quarto e saiu para a sala. O miúdo foi atrás. A bola de lume ponteava o topo do corpo do tio parecendo ao Enraba-Passarinhos uma bola de futebol, um sol minúsculo descido dos céus à terra, filho bastardo do sol lá de cima. Foi a primeira vez que visitou um cemitério. Aí, aos quatro anos de idade, contemplou pela primeira vez a impermanência da vida e da morte. Com o tempo veio a gostar da alcunha que o falecido tio lhe pusera. (Não raramente o senhor Bentley veste-se como René Magritte e finge-se belga.) O senhor Bentley voa com o guarda-chuva e do céu grita, sem respeito nenhum: Olha uma preta! Uma preeeeta! É uma preeeeeeeeta! Racista do cabrão. O senhor Bentley uma vez seduziu um cavalo (pocotó-pocotó). Enrabou-o pelo nariz, recorda lacrimoso. O cavalo pensou tratar-se de um mosquito a entrar-lhe narina adentro. Seduziu-o em seguida, após a cópula, com uma cenoura. (Pocotó-pocotó.) O Anglo-Árabe afastou-se, lânguido e mais à frente baixou a cabeça para a erva verde. O senhor Bentley apanhou um desgosto, nem o primeiro nem 16

13 o último, mas não deixava de ser um desgosto. O senhor Bentley tem nome de carro dispendioso, porém é personagem do mais ordinário que há. Animal, besta de primeira. Usa sempre chapéu-de-chuva, fato cinzento completo, colete, chapéu de coco e gabardina abotoada até ao último botão. Assemelha-se a cavalheiro inglês. A idade é indeterminada, mas é velho. Enraba o gato quando o apanha a dormir (purr-purr). O senhor Bentley é bom porque não bate às criancinhas em público. Ao ver a puta de uma criancinha adopta a figura de lírio do campo e dirige-se à criatura produzindo minúsculos saltos e risos de cigarra, os bracinhos adejando como asas de pássaros. Que querido! Tome um docinho diz à minguada criatura babante. E um conselho gratuito: às velhas que te babam e beijam, morde-as no pescoço! Remédio santo. Afasta-se a imitar um avião vrum-vrum -, voltejando e bem no fim da rua consegue gritar ainda: No pescoço, é no pescoço, criatura! O senhor Bentley arranca o rabo a lagartixas para oferecer a passarinhos como dote. É um santo homem, suspiram as beatas quando o descobrem de flores na mão (roubadas no cemitério, de campa recente porque são novas e frescas e cheiram bem, o doce aroma esconde a futura corrupção a existir nelas em semente) para oferecer às namoradas dos outros: meninas de firmes carnes, firmes mamas, firmes nalgas, firme tudo, menos os escrúpulos ou convicções porque não estamos em tempo de tê-los. O senhor Bentley gosta de coleccionar chapadões de gajas boas. Tem lá aquela mania, o que é que se há-de fazer. Não grama lésbicas (fufas do caralho! Fufas! A raça humana caminha para a extinção por causa das fufas!), mas punheta-se no delírio de as imaginar esfregando-se, sininho 17

14 rente a sininho, tlintlim, ai se eu fosse gaja! Ai se eu...! Le bordel!, diz-se em francês. (Por vezes sente ânsias de possuir bigode só para ter o prazer de o enrolar.) Era uma galdéria, putéfia! Dava-me ao primeiro que aparecesse e lançasse modesto piropo, declara, exsudando luxúria. É muito mau para os vagabundos. Destrata-os de todas as maneiras em que consiga pensar. Finge-se compadecido, passa a mão esquerda pela cara e depois desabotoa, cerimonial, dois botões da gabardina, insere a mão e ressurge com a carteira. Compõe largos, teatrais gestos a abri-la e retira uma nota de cinquenta euros ou, em ocasiões raras, cem euros. A nota brilha. Vem sem vínculos nem rasgões. O senhor Bentley mira-a, o rosto de súbito limpo, e torna a metê-la na carteira e a guardá-la no bolso do colete, seguindo em frente, sem olhar para o desalojado. Este atribuiu-lhe epítetos cuspidos entredentes: caaaa-brão. Saaaaaa-cana. Sefossesmaséàconadatuamãe. Ao chegar à porta de casa descai as costas, usa o chapéu como bengala, convence o lábio inferior a pender e o rosto a cavar profundas linhas na pele. Babando, na aparência um idoso de oitenta anos, recolhe-se ao lar onde a mulher decrépita e paciente o espera com o lanche. É muito bom ser bonzinho diz-se o senhor Bentley caminhando pela rua da cidade. É bom ser santo em vida, ajudar os pobrezinhos, praticar a caridadezinha porque assim morre-se e vai-se para o céu conversar com os anjinhos, ter diálogos iluminados com Deus, jogar gamão e 18

15 strip-poker com os Santos e os Apóstolos, mandar caroços de pêssego à tola dos pecadores que malharam com os cornos no inferno. Suspira, enche os pulmões de oxigénio e finaliza: É bom ser bonzinho. 19

16 A Puta da Velha Acorda e exclama, feliz: Hoje sonhei que bebia por um copo de vidro brilhante vinho tinto. Que bem me soube! A sua periclitante e surda esposa desce em passos miudinhos e periclitantes do leito conjugal para lhe ir preparar o pequeno-almoço. De súbito ele dá-se conta da presença da bem amada e de imediato assume a máscara octogenária: as profundas rugas florescem ao longo do rosto, produzindo bifurcações entre si; a pele amarelece e tem o aspecto do papel velho. Ele sentia intensa consideração pela mulher a quem amorosamente no íntimo chamava a puta da velha. Estimava a Puta da Velha como se fora um botãozinho de rosa mumificado pelo tempo. Ó! O meu botãozinho de rosa! Múmia da minha vida! A senhora Bentley era um mistério para ele. Velha, surda e de vista toldada, quase opaca, movia-se em pas- 20

17 sos lentos e precavidos através da casa, pouco saía, parecia conhecer o caminho e o sítio das coisas de cor; não falava tão-pouco. A ausência de palavras aumentava o mistério e recrudescia no seio do cônjuge aquele amor patético, absurdo. Outro motivo que o prendia a ela era a absoluta liberdade a que tinha acesso e que raras vezes na existência tivera o privilégio de experimentar. Podia dizer palavrões a torto e a direito; praguejar como um demónio; gritar que nem um danado que não obtinha nem o esboço da mais leve censura. Ó, paraíso... A liberdade é o valor mais alto exclamava, satisfeito, após finalizar o opíparo pequeno-almoço (doces de morango, pêssego e marmelada à escolha; manteiga verdadeira; pão quente acabadinho de sair do forno a lenha; bife grelhado e salada de alface com azeite, nada de vinagre, arrebenta o fígado; leitinho saído das tetas de alguma desconhecida vaca rural; café quase a sério, não pode ter do outro, faz-lhe mal; maçãs, pêras maduras; ameixas vermelhas e uvas) pega no chapéu-de-chuva (come sempre de chapéu de coco à mesa, o raio do homem é parvo) e sai de casa. Cá fora vê o vizinho de décadas, uma ratazana gorda a limpar os bigodes, e cumprimenta-o: Bom-dia vizinho toca com o dedo indicador e polegar esquerdos na borda do chapéu sem o retirar. O rato guincha em resposta. Afinal como foi que o senhor Bentley se apaixonou? O fenómeno exacto não é de conhecimento público, mas as consequências sim. O senhor Bentley recebeu a seta do cupido e passou a fazer coisas extraordinárias: lavava-se todos os dias; apresentava ar miserável e olheiras longuís- 21

18 simas; exalava suspiros audíveis a vários quilómetros à volta; trazia flores (compradas em floristas); tornou-se tímido, corando em todo o rosto (até atrás das orelhas); gaguejava de modo hilariante; tinha fantasias estapafúrdias de a pôr no altar branco com rendinhas brancas e orar-lhe. Nada das badalhoquices do costume, romanticamente abdicava do chuveiro dourado. Ainda hoje, anos passados sobre o casamento, persistia a fantasia de lhe orar. Enamorara-se do amor platónico e com ele viera o precioso dom da liberdade. Eis a explicação do fenómeno. O que farei hoje? demandou-se, dedo mindinho a bater no lábio inferior. Já sei! Transformo-me em mosca! Vou ao bairro das putas! Muito o cabrãozinho gostava das excursões ao bairro vermelho. O senhor Bentley possuía certas capacidades consideradas miraculosas, mas que para ele não passam de truques de feira, reles artifícios de magia. Não raro o senhor Bentley ia assistir a espectáculos mágicos só para irromper aos gritos raivosos a meio da apresentação de fabulosas mágicas, ameaçando os prestidigitadores com tenebrosos castigos, a vociferar. A verdade estava acima de tudo e não era correcto distorcê-la, fazer-se crer a verdade dependente de um ponto de vista ou de um truque de ilusionismo cujo cínico intuito era fazer as pessoas magicarem ser possível não existir porra de verdade nenhuma no mundo. O senhor Bentley era da opinião irreversível (e para si fundamentada em factos incontornáveis) que todos os mágicos deviam ser mortos (à paulada), chacinados em conjunto, de preferência num grande espectáculo televisivo que ao menos beneficiasse outras pessoas e servisse de aviso futuro para os que pensassem enveredar pelo caminho maligno porque Menti- 22

19 roso!, porque Absolutamente Mentiroso! da magia. Após ser expulso do teatro ou da sala de espectáculos ou do recinto feito para a ocasião à estalada e ao murro, levado para o exterior aos arrastos por três ou quatro seguranças, agarrando as abas do chapéu de coco -, o senhor Bentley dava-se por satisfeito e contava as nódoas negras e amassos na epiderme. Quarenta e dois. Aumentaram! E tinha um ar desolado. Se realmente lhe começassem a dar ouvidos as feridas seriam em menor número. O senhor Bentley encolhia os ombros, abria o chapéu-de-chuva e voava para casa. Afastou as recordações e elevou-se para o céu. Rodopiou a extraordinária velocidade. Em segundos transformara-se em mosca, o chapéu de coco, liliputiano, na cabeça. É bem safado. Ou pelo menos, os actos têm a aparência da safadeza. Ele acredita que não se pode julgar ninguém pelos actos. Não lhe importa que matem e esfolem gente a torto e a direito; ou defraudem a empresa; ou ponham os cornos à mulher os actos não atestam a verdadeira natureza de quem os praticou. 23

20 Lá vou eu, bzz-bzz, voando no céu etéreo, chapéu de coco na tola. Tenho mil olhos. Ó, a visão das coisas é medonha! No bairro vermelho (ou bairro das putas), situado no centro da cidade (todos os caminhos vão dar às putas) há diversão garantida. Ziguezaga pelo centro do bairro, uma longa espiral que vista de cima tem a cor azul-cobalto (a cor dos telhados), mas no chão apresenta-se vermelha, cor dominante nas paredes e caminhos. É como se o propósito da cor e da forma fosse o de enevoar o espírito dos homens, embriagá-los, baralhar o equilíbrio, envolvê-los num véu opaco. O senhor Bentley aprecia o mistério do mundo, mistério presente nas pessoas. Gosta de ver o ar atrapalhado dos outros quando presos na imprevista armadilha do mistério, não obstante seja mistério procurado, como é o caso do bairro vermelho. A atmosfera carrega os perfumes fortíssimos, contribuintes para o ar aparvalhado dos homens na busca do 24

21 prazer momentâneo. São odores que picam o interior das narinas; o cheiro do suor da pele; o odor do hálito de mil bocas cariadas e mal limpas, com resquícios de comida a apodrecer entre os dentes; o aroma do sujo que se disfarça no odor do perfume forte. Escolheu uma das casas, entrou pela janela, percorreu corredores enrolados cujas cores predominantes eram o púrpura e o ameixa, e escolheu a ranhura inferior de uma porta fechada para penetrar num dos quartos. Viu um homem nu estendido sobre a cama de casal. Era gordo e alto, tinha bigode negro e pêlos escuros espalhados no corpo, mais intensamente no peito e barriga. Aos pés da cama estava uma mulher de baixa estatura, magra, a pele pálida, os cabelos castanhos-claros um pouco encaracolados, em parte atados num rabo-de-cavalo para retirálos da cara. Curvava-se na direcção da barriga do cliente e procedia a rigoroso trabalho de sucção. O senhor Bentley observou da parede, em silêncio cerimonial, durante dez minutos. E nada. Durante horas os dois tentam as posições mais estrambólicas (incluindo a de candelabro italiano), mas ele é incapaz de atingir o orgasmo. Desiste enfim e a mulher sai do quarto, cansadíssima, depois de pegar num leve roupão de seda. O homem adormece na cama. Na face marcados ainda os sinais da incompreensão, espanto e a semente do pânico que ameaça irromper se o caso se repetir. Homem que fode e não se vem não pode ser! Não é natural! Ora bem, pensou o senhor Bentley com o seu chapéu de coco (não raramen- 25

22 te o interlocutor privilegiado dos seus monólogos brilhantes, e melhor não podia havê-lo, por isso tão renitentemente se separava dele à noite, quando juntava os pés frios aos pés mornos, calejados e deformados da esposa a quem acabara de oferecer uma prece), aqui jaz um homem desconsolado, não se veio. A ausência do orgasmo dará azo a angustiantes questões do género: serei homem? Estes centímetros de carne que de vez em quando incham de sangue dão-me a certeza de pertencer ao género masculino? Mas não basta tê-lo, devo servir-me do instrumento que me confere a masculinidade. E se ao servir-me ele não funcionar, ter defeito, estar avariado? E se não tiver arranjo? Serei homem? Um carro continua a ser carro se não funciona? Se não funciona vendem-no por tuta-e-meia para o ferro-velho e lá lentamente o extirpam de portas, peças, acessórios, até se transformar no esqueleto de um carro. Depois esmagamno e levam o quadradinho minúsculo do que já foi um objecto em uso para alguma fábrica onde o reduzem a metal líquido. Sem alma nem identidade. Perco a identidade se, fodendo, não me venho? Não me vindo sou homem à mesma? As mulheres não têm este problema. Elas não deixam de ser quem são porque uma peça vital do organismo foi à vida. Agora nós! Connosco a história é outra! Para as fêmeas nada mais fácil do que ser fêmea. Se soubessem a sorte... quem me dera... Antes que terminasse o pensamento que nascia no interior do sonho confuso, o senhor Bentley-Mosca viu ali diversão e rodopiou até à testa do fulano nu adormecido na cama de dossel, o suor do corpo já seco. Passou através da testa a acomodou-se numa dobra da sua mente, não mosca, mas antes o holograma do insecto, e teve a genial ideia de fazer crer ao homem que de facto acordara e se transformara em fêmea. 26

23 Uma adolescente de dezassete anos, com o corpo já quase adulto. Quis saber como o homem no sonho se comportaria. Surpreendido notou a ausência de pânico. Sou o António, dizia-se o homem, enquanto tocava incrédulo no rosto, nas mamas, no estômago e nas coxas. Não sou...? De facto és!, gritou o senhor Bentley na sua voz bzzbzz (o António não ouviu). Num corpo de gaja! Reflecte no koan: sou um homem a sonhar que é mulher ou uma mulher a sonhar que é homem transformado em mulher? António captou o pensamento e julgou-o seu. No sonho permaneceu parado alguns momentos frente ao espelho, nu ainda (nua), a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão, as sobrancelhas juntas, a mão direita passando levemente o dedo no rosto liso. À porta apareceu um homenzinho mirrado e cinzento, de aparência estranha e alienígena, cujos olhos eram maiores que o tamanho normal, parecendo esbugalhados e de lábios muito finos. O seu nariz desaparecia entre duas delgadas pregas cortadas verticalmente no rosto e por onde o ar entrava. Tinha o cabelo ralo e rugas por toda a pele. Sem dizer palavra o António/Antónia percebeu que tinha de o seguir. Antes de sair do quarto percebeu-se nu/nua. O homenzinho cinzento e magro, de estatura inferior à da rapariga tremelicante à sua frente, foi ao guarda-vestidos e tirou um roupão vermelho de seda, estampado com amarilis nas costas e na parte inferior e entregou-lho. Ele/ela foi apertando-se ao longo do sinuoso corredor, seguindo o homem, sem pista do que se passaria. Mantinha com embaraço (embaraço que o desnorteava. Não era o seu embaraço, mas o dela), a cabeça inclinada para o solo. Reparou na cor carmim das unhas. Estreitou as sobrancelhas. Levou de novo as mãos à face 27

24 como que a lembrar-se das feições. Entra e espera disse o homenzinho numa voz frágil e sem autoridade. Afinal o tipo teria alguma autoridade? Pensou que não. Depois pensou que certamente era isso o que ele queria que as mulheres pensassem. Entrou no quarto e reparou que era quase idêntico ao que deixara minutos atrás. Em cima da cama de dossel estava uma criança de dez ou onze anos, uma menina negra de grandes olhos negros brilhantes e cara bolachuda. O cabelo estava cortado rente. Tinha os cantos dos lábios grossos virados para baixo. António-mulher pensou que, se fosse homem no momento, a comeria. A menina negra vestia uma camisola branca de alças, deixando ver os seios do tamanho de nozes. Mantinha as pernas cruzadas em cima da cama. As coxas eram altas e grossas, semelhantes às de um adulto. Sim, tinham sido essas coxas que a puseram no bairro vermelho. Olá? Como te chamas? perguntou António-mulher e estremeceu na doçura da voz. Kunzi disse, levantando os olhos das mãos que repousavam no centro das pernas cruzadas e tornando a descê-los. António-mulher ia perguntar o que estava ali a fazer, mas envergonhou-se. A pergunta era estúpida, irrelevante. Fazia o mesmo que todas as mulheres do bairro. Gelou. Todas. Todas! Incluindo ela, que não era mulher! Pulou da cama onde se sentara, o movimento bruto e seco, a mão direita engalfinhando ambos os lados do roupão, puxando-os para a garganta. 28

25 Ah! Pensou o senhor Bentley contentíssimo. Isto está a animar! Só faltam as pipocas, caralho! Um filme destes não se vê sem pipocas, foda-se! Num filme deste género as pipocas são obrigatórias! Obrigatórias, reitero! Um dia quando for deputado no parlamento português faço uma lei a obrigar o uso de pipocas no visionamento de filmes adultos! António-mulher girava a cabeça muito depressa, observando cada canto do quarto. Antes que qualquer ideia se formasse na mente ouviu a porta abrir-se. Saltou para trás com o susto. Kunzi nem ergueu o olhar. Kunzi não se assustou. Manteve a mesma postura, nem leve estremecimento lhe perpassou nos ombros, nem leve vinco lhe alterou a posição dos lábios, puxados para baixo. Entraram dois homens. Um dele era ele próprio: António-homem. Reconheceu o bigode. E lembrou-se. Ele já vivera isto! Duas semanas atrás! Há quinze dias convidara um colega do trabalho para o bairro das putas. Era presente de aniversário e António pagava. Recordou com horror o que se passara. Tentou fugir para a porta. Caiu nos braços dele, António-homem de há duas semanas atrás. Braços fortes, musculados. Eh lá, a menina não vai a lado nenhum. Pegou nela, elevou-a do solo a vinte centímetros e lançou-a para cima da cama onde o roupão se abriu. Agora estava em pânico. Lembrava com nitidez o que se seguira. Não era capaz de falar, a boca aberta tentando expulsar para fora da garganta o grito inutilmente; os olhos esbugalhados, as mãos frente ao corpo, abertas, recusando a proximidade de António-homem. Mas ele veio em dois passos rápidos, as calças tiradas num ápice e jogando-se irritado (recorda pensá-lo) para cima da puta, julga que é esperta, não me venha com merdas, eu já paguei. 29

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