UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES AVM FACULDADE INTEGRADA PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU

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1 1 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES AVM FACULDADE INTEGRADA PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU ASSÉDIO MORAL NAS RELAÇÕES DE TRABALHO AUTOR ANA PAULA CARDOSO SOUTO ORIENTADOR PROF. CARLOS AFONSO LEITE LEOCADIO RIO DE JANEIRO 2012

2 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES AVM FACULDADE INTEGRADA PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU ASSÉDIO MORAL NAS RELAÇÕES DE TRABALHO Monografia apresentada à Universidade Candido Mendes AVM Faculdade Integrada, como requisito parcial para a conclusão do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Direito e Processo do Trabalho. Por: Ana Paula Cardoso Souto

3 Agradeço todos que me ajudaram nesta fase e principalmente a meu marido e meu orientador 3

4 Dedico essa monografia aos meus pais e ao meu marido. 4

5 5 RESUMO O assédio moral, apesar de não ser um fenômeno recente, somente agora tem merecido estudos e suas consequências nas relações de trabalho. No Brasil, o debate desse tema é novo, tanto que não existe uma legislação especifica para regular sobre o assunto. O que temos são entendimentos jurisprudenciais dos Tribunais de todo o país. O assédio moral é caracterizado pela prática de atos agressivos dentro do ambiente de trabalho, hoje em dia tem uma grande importância grade das organizações. Na verdade isso é um problema humano e social, que não atinge somente o empregado, por consequência atinge o Governo. A prática do assédio se dada pelo empregador, causando um transtorno enorme no seu empregado, acabando com as condições básicas para trabalhar. O assediador atinge a dignidade humana do empregado e com isso altera o seu estado psicológico e prejudicando seu desempenho no ambiente de trabalho. Cada dia mais percebeu que os empregados têm recorrido ao judiciário para que seja sanado o dano que o seu empregador fez passar. Como não temos uma legislação específica no Brasil, o empregador acaba sendo a vítima, e suas alegações acabam sendo enfraquecidas e por consequência p seu pedido diminui.

6 6 METODOLOGIA O presente trabalho monográfico constitui-se em uma descrição das jurisprudências referente ao caso em tela. Logo, o estudo apresentado foi levado a partir do método de pesquisa bibliográfica, em que se buscou conhecimento de diversos autores brasileiros e de entendimentos jurisprudenciais, tudo sobre posição dos juristas brasileiros. Por outro lado, a pesquisa que resultou essa monografia foi à falta de lei que regulamenta o assunto tratado. Sempre tentando buscar os posicionamentos dos melhores juristas brasileiros e entendimentos jurisprudênciais..

7 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO... 8 CAPÍTULO I - ASSÉDIO MORAL BREVE HISTÓRICO DENOMINAÇÕES NO ESTRANGEIRO CONCEITO ESTUDO SOBRE ASSÉDIO MORAL NAS ORGANIZAÇÕES NO BRASIL CAPÍTULO II - SUJEITOS DO ASSÉDIO MORAL AGRESSOR PASSIVO A VÍTIMA OS ESPECTADORES ASSÉDIO MORAL X ASSÉDIO SEXUAL CAPÍTULO III - O ASSÉDIO MORAL E A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA DO DIREITO A INDENIZAÇÃO PELO ASSÉDIO MORAL DA PRESCRIÇÃO DO ASSÉDIO MORAL COMPETÊNCIA POSIÇÃO JURISPRUDENCIAL BRASILEIRA CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA... 39

8 8 INTRODUÇÃO Nesta monografia, foi tratado, com extrema importância e detalhes sobre o assédio moral. Sendo feito cuidadosamente um estudo com base no que falam os maiores autores sobre a matéria e de nossas vivencias e nas experiências que tivemos. Olhando para o passado, é possível dizer que o assédio moral é observado nas relações humanas desde os primórdios da História, mas somente neste milênio atual que passou a ter mais importância. Com a presença mais efetiva nas doutrinas, leis e jurisprudências em todo ordenamento jurídico mundial. Tem sido entendido como um modo de coação que se estabelece em qualquer tipo de relacionamento que seja sustentado na desigualdade social ou no poder autoritário. Por este motivo, é possível sua ocorrência em qualquer relação de trabalho, só que sua incidência é mais verificada nas relações de emprego. Neste contexto, este estudo visa analisar, no âmbito uma percepção história, os liames do reconhecimento da existência do assédio moral nas relações de emprego, contextualizando os desafios que se apresentam na mensuração do dano moral decorrente. O assédio moral é um instituto em construção, sendo desconhecido por muitas pessoas, bem como pelo mundo jurídico, motivo pelo qual é feita essa análise, conceituando e definindo os seus contornos e limites, verificando como o mesmo se dá e quais as suas consequências jurídicas, tudo a luz do preceito constitucional que tutela a personalidade humana.

9 9 Ele é demonstrado por atos e comportamento agressivo que visa à desmoralização do profissional, tornando o local de trabalho insuportável, e ensejando o pedido de demissão do empregado, que se encontra numa situação desesperadora. Ante o fato da relativa novidade do assunto, que está em desenvolvimento e que ainda sequer tenha uma expressa previsão legal no texto das leis trabalhistas. Além de ser vítima de uma agressão destruidora para defender seus direitos, os trabalhadores que sofrerão desse mal, começa uma verdadeira luta com Judiciário. Terão que convencer o poder judiciário de que foram humilhados e maltratados no local de trabalho e que têm direito a uma reparação pelos danos causados. No âmbito do Judiciário, os magistrados têm recebido cada vez mais reclamações trabalhistas com esse tipo de dano e como não existe uma lei para regulamentar o assunto, muitas vezes os trabalhadores não conseguem obter a reparação devida pelo dano sofrido. Por este motivo, este trabalho dedica atenção aos aspectos conceituais do assédio moral, a interpretação do judiciário sobre o tema e analise do ordenamento jurídico. Estas são as delimitações iniciais feitas para o desenvolvimento deste trabalho, sem prejuízo de outras questões decorrentes que serão igualmente enfrentadas, contudo sem qualquer pretensão de esgotar o assunto, muito pelo contrário, procura-se antes aguçar e estimular a mente do leitor, com fins de fornecer subsídios que contribuam para a contínua construção e divulgação do instituto do Assédio Moral. Assunto este que ainda está em vivo desenvolvimento regulamentação, que tem cada vez mais obtido comemoráveis publicações de artigos e livros por parte dos juristas, psicólogos, médicos e outros profissionais.

10 10 CAPÍTULO I Assédio Moral 1.1 BREVE HISTÓRICO As pesquisas envolvendo a figura do assédio moral iniciaram no ramo da Biologia, antes de serem desenvolvidas na esfera das relações humanas, Com os estudos do etologista Konrad Lorenz, o qual analisou a conduta de determinados animais de pequeno porte físico quando confrontados com invasões de território por outros animais, especialmente um animal maior, revelaram um comportamento agressivo com intimidações do grupo para expulsar o invasor solitário, isto chamou sua atenção, e este comportamento o biólogo chamou mobbing, termo inglês que traduz a ideia de turba ou multidão. 1 Mais tarde, na década de 60, o médico sueco Peter-Paul Heinemann realizando uma pesquisa, analisou um grupo de crianças no ambiente escolar. Curiosamente, os resultados da pesquisa foram muitos parecidos com a primeira pesquisa, eis que as crianças demonstraram a mesma tendência dos animais, a partir do momento que outra criança invadisse seu espaço. Esta foi então a pesquisa pioneira em detectar o assédio moral nas relações humanas. Deste então, muitas outras surgiram e trabalhos começaram a ser publicados, em especial relacionados à psicologia infantil. 2 Na década de 80, então vinte anos mais tarde, o psicólogo alemão Heinz Leymann, analisando o ambiente de trabalho descobriu o mesmo comportamento identificado nas pesquisas anteriores, mas, segundo o psicólogo, no ambiente de trabalho a violência física raramente é usada no assédio moral, 1 FERREIRA, Hádassa Dolores Bonilha. Assédio Moral nas Relações de Trabalho. 1. ed. Campinas: Russell Editores, p FERREIRA, Hádassa Dolores Bonilha. Assédio Moral nas Relações de Trabalho. 1. ed. Campinas: Russell Editores, p 38 a 39.

11 sendo marcado por condutas insidiosas, de difícil demonstração, como o isolamento social da vítima Em 1998, na França a psicóloga, psiquiatra e psicoterapeuta de família, Marie-France Hirigoyen, publicou um livro sob o título Le harcèlement moral: la violence perverce au quotidien, ed. Syros, onde a autora constata que o assédio moral não se restringe a casos pontuais, e sim a um comportamento permanente, comum, destrutivo, distanciado daquele fato isolado (discussão ou atrito) que ocasionalmente ocorre entre os indivíduos em uma organização. O livro lançado pela psicanalista e vitimologista 50 francesa reacendeu a discussão acerca do assédio moral na esfera jurídica. Desde antão o tema foi do conteúdo da cadeira de Direito inserida na disciplina denominada Criminologia. O objetivo desta ciência consiste em analisar as razões que levam um individuo a tornar-se vítima, os processos de vitimização, as consequências a que induzem e os direitos que podem pretender. 1.2 DENOMINAÇÕES NO ESTRANGEIRO Na Itália, a denominação adotada é mobbing, como sinônimo de violência silenciosa, acontecida na esfera psíquica do outro. 4 Em Portugal, Terrorismo Psicológico ou Assédio Moral, utilizando uma ou outra denominação. 5 Na França, o fenômeno é conhecido como harcélement moral, sendo associado à perversidade ou perversão moral, não se confundindo com patologia mental. 6 3 FERREIRA, Hádassa Dolores Bonilha. Assédio Moral nas Relações de Trabalho. 1. ed. Campinas: Russell Editores, p ALKIMIN, Maria Aparecida. Assédio Moral na relação de emprego.1. ed. 2005, 2. tir. Curitiba: Juruá, p GUEDES, Márcia Novaes. Terror Psicológico no Trabalho. 2. ed. São Paulo: LTR, p. 153.

12 Na Espanha, são empregados os termos acoso moral e mobbing, para definir o terror psicológico no trabalho. 12 Na Inglaterra, recebe a denominação de bullying bullying at work place, com origem no termo bully como substantivo, significa mandão, pessoa prepopente; como verbo, intimidar, aterrorizar. Com o termo bullyng vêm indicados vários tipos de condutas agressivas e vexatórias como a discriminação e o assédio moral e sexual. 7 Nos Estados Unidos, também é conhecido como harassment, tendo como significado ataques constantes e repetitivos que visam atormentar e provocar a vítima. A psicóloga francesa Marie-France Hirigoyen, chama a atenção para uma outra forma específica de assédio moral, denominada whistle-blowing, direcionada para quem costuma expor os setores que não funcionam satisfatoriamente em uma empresa, ou seja, aqueles que denunciam os problemas de funcionamento de um sistema sofrem, evidentemente, represálias de parte do próprio sistema. [...] destinada a silenciar quem não obedece às regras do jogo. 8 No Japão, o assédio moral é conhecido como Ijime, que significa a prática da violência moral em todos os setores da vida da pessoa, ou seja, na escola, família, ambiente de trabalho etc CONCEITO Não existe previsão específica sobre o assédio moral em nosso ordenamento jurídico, entretanto, a fim identificar o fenômeno e estudar as suas consequências jurídicas, busca-se a conceituação introduzida por Marie-France Hirigoyen, na 6 ALKIMIN, Maria Aparecida. Assédio Moral na relação de emprego.1. ed. 2005, 2. tir. Curitiba: Juruá, p GUEDES, Márcia Novaes. Terror Psicológico no Trabalho. 2. ed. São Paulo: LTR, p HIRIGOYEN, Marie-France. Redefinido o assédio moral. p. 80. In: FERREIRA, Hádassa Dolores Bonilha. Assédio Moral nas Relações de Trabalho.

13 área da psicologia do trabalho, sendo indispensável ao direito na construção de um conceito jurídico Marie-France Hirigoyen, assim conceitua assédio moral no trabalho como: Toda e qualquer conduta abusiva manifestando-se, sobretudo por comportamentos, palavras, atos, gestos, escritos que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em perigo seu emprego ou degradando o ambiente de trabalho. 10 A maioria das jurisprudências faz expressa remissão ao conceito da psicóloga francesa: ASSÉDIO MORAL - ABUSO DE DIREITO POR PARTE DO EMPREGADOR. Segundo a autora Marie-France Hirigoyen, o assédio moral no trabalho é qualquer conduta abusiva (gesto, palavra, comportamento, atitude...) que atente, por sua repetição ou sistematização, contra a dignidade ou integridade psíquica ou física de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de trabalho. O assédio moral se configura pela utilização tática de ataques repetitivos sobre a figura de outrem, seja com o intuito de desestabilizálo emocionalmente, seja com o intuito de se conseguir alcançar determinados objetivos empresariais. Se, por um lado, o objetivo pode ser apenas e tão somente a "perseguição" de uma pessoa específica, objetivando a sua iniciativa na saída dos quadros funcionais, pode, também, configurar o assédio moral na acirrada competição, na busca por maiores lucros, instando os empregados à venda de produtos, ou seja, a uma produção sempre maior. O assédio ocorre pelo abuso do direito do empregador de exercer o seu poder diretivo ou disciplinar: as medidas empregadas têm por único objetivo deteriorar, intencionalmente, as condições em que o trabalhador desenvolve o seu trabalho, numa desenfreada busca para atingir os objetivos empresariais. O empregado, diante da velada ameaça constante do desemprego, se vê obrigado a atingir as metas sorrateiramente lhe impostas - ferindo o decoro profissional ALKIMIN, Maria Aparecida. Assédio Moral na relação de emprego.1. ed. 2005, 2. tir. Curitiba: Juruá, p HIRIGOYEN, Marie-France. Assédio Moral: a violência perverso no cotidiano. Tradução de Rejane Janowitzer. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, RIO GRANDE DO SUL. Tribunal Regional do Trabalho (4ª Região - Quarta Turma). Recurso Ordinário n Rela. Maria Beatriz.

14 EMENTA: DO ASSÉDIO MORAL E INJUSTA DESPEDIDA. Hipótese em que não havia impedimento contratual ou legal para a despedida sem justa causa. Também não se tem como configurado o alegado assédio moral. A prova testemunhal aponta para a total ausência de afinidades entre a coordenadora e a reclamante, porém não a define como causa específica da rescisão contratual, tampouco há comprovação de que a reclamante tenha tido dificuldades maiores que aquelas inerentes à execução do contrato de trabalho em que a relação caracteriza-se pela subordinação do empregado. Provimento negado. [...] Os episódios narrados pela reclamante, em tese, podem se adequar perfeitamente à hipótese de assédio moral - fato social há muito conhecido, novo apenas enquanto fenômeno juslaboralista - que Marie-France Hirigoyen, em "Assédio Moral: violência perversa no cotidiano", assim conceitua: "toda e qualquer conduta abusiva manifestando-se, sobretudo comportamentos, palavras, atos, gesto, escritos que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, põe em perigo seu emprego ou degradar o ambiente de trabalho" e, no conceito de Margarida Barreto, em "Uma Jornada de Humilhações", é caracterizado pela "exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada detrabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s), desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego" (www.assédiomoral.org.br). Uma das características do assédio moral é que visa justamente a conduzir a vítima à demissão. Segundo Marie- France "a pessoa atacada é colocada numa posição de debilidade e agredida direta ou indiretamente por uma ou mais pessoas de modo sistemático, frequentemente por largo tempo, com o objetivo e/ou consequência da sua demissão do mundo do trabalho". Essa análise é, contudo, apenas no plano em abstrato. 12 A doutora Margarida Barreto faz a definição 13 o assédio moral no trabalho como a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s), RIO GRANDE DO SUL. Tribunal Regional do Trabalho (4ª Região- Oitava Turma). Acórdão Recurso Ordinário n Rela. Ana Luiza Heineck Kruse 09 de março de Diário Oficial do Estado do RGS Justiça. Data de Publicação: 23 mar Jurisprudência Gaúcha. Disponível em: em 24 mar Esta definição também é utilizada pela jurisprudência como se pode observar pelo acórdão transcrito.

15 desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistirem do emprego Para a mesma autora, humilhação é o sentimento de ser ofendido, menosprezado rebaixado, inferiorizado, submetido, vexado e ultrajado pelo outro.. É sentir-se um ninguém, sem valor, inútil, magoado, revoltado, perturbado, mortificado, indignado, com raiva. 15 O assédio moral 16, também conhecido como terrorismo psicológico ou psicoterror, é uma forma de violência psíquica praticada no ambiente de trabalho, e que consiste na prática de atos, gestos, palavras e comportamentos vexatórios, humilhantes, degradantes e constrangedores, de forma sistemática e prolongada, com clara intenção discriminatória e perseguidora, visando eliminar a vítima da organização do trabalho. 17 Maria Aparecida Alkimin, com base no Dicionário Aurélio e no segundo livro pesquisadora francesa Marie-France Hirigoyen, justifica a utilização do termo assédio moral: [...] a expressão assédio deriva do verbo assediar que significa perseguir com insistência... importunar, molestar, com pretensões insistentes; assaltar (...), ao passo que a expressão moral pode ser compreendida em seu aspecto filosófico, referindo-se ao agir ético, ou seja, de acordo com as regras morais ou normas escritas que regulam a conduta na sociedade, o ser e dever-ser, visando praticar o bem e evitar o mal para o próximo. Conforme Hádassa Ferreira: Pode-se dizer que o assédio moral é um processo composto por ataques repetitivos que se prolongam no tempo, permeado por artifícios psicológicos que atingem a dignidade do trabalhador, constituindo em 14 Barreto, Margarida. Uma Jornada de Humilhações PUC/SP, Disponível em: acessado no dia 21 de dezembro de BARRETO, Margarida Maria Silveira. Violência, saúde e trabalho: uma jornada de humilhações. São Paulo: EDUC, p ALKIMIN, Maria Aparecida. Assédio Moral na relação de emprego.1. ed. 2005, 2. tir. Curitiba: Juruá, p ALKIMIN, Maria Aparecida. Assédio Moral na relação de emprego.1. ed. 2005, 2. tir. Curitiba: Juruá, p. 36 e 37

16 humilhações verbais, psicológicas, tais como o isolamento, a não comunicação ou a comunicação hostil, o que acarreta sofrimento ao trabalhador, refletindo-se na perda de sua saúde física e psicológica. 18 Assim concluímos que o assédio moral é caracterizado pela prática de atos agressivos dentro do ambiente de trabalho e que ele é exteriorizado de forma sutil por meio de um processo que culmina na exposição da vítima a situações incômodas e constrangedoras ESTUDO SOBRE ASSÉDIO MORAL NAS ORGANIZAÇÕES Os estudos sobre os maus-tratos aplicados aos indivíduos no local de trabalho não são algo recente. 19 O tema no Brasil, passou a ter maior divulgação com a apresentação da dissertação de mestrado da Drª Margarida Barreto 20, defendida em maio de 2000 e publicada pelo Departamento de Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), denominada Uma jornada de humilhações, tendo como material básico as pesquisas desenvolvidas por Marie-France Hirigoyen 21 A comunicação entre as duas pesquisadoras, culminou com o I Seminário Internacional sobre Assédio Moral no Trabalho, realizado em São Paulo, no dia 30 de abril de 2002, o qual aqueceu a discussão e chamou a atenção de parlamentares e sindicatos de diversas categorias, que agora, já manifestam maior entendimento sobre o assunto. 18 ALKIMIN, Maria Aparecida. Assédio Moral na relação de emprego.1. ed. 2005, 2. tir. Curitiba: Juruá, p. 36 e AGUIAR, André Luiz Souza. Assédio Moral: o direito à indenização pelos maus-tratos e humilhações sofridos no ambiente de Trabalho. São Paulo: LTr, p BARRETO. Margarida. Ginecologista e médica do trabalho (CREMESP 15713); mestre em Psicologia Social (PUC-SP) com a tese "Uma Jornada de Humilhações" (baseada em 2072 entrevistas de homens e mulheres de 97 empresas industriais paulistas); graduada em Medicina pela FMSP-BA. Disponível em: 21 FERREIRA, Hádassa Dolores Bonilha. Assédio Moral nas Relações de Trabalho. 1. ed. Campinas: Russell Editores, 2004.p. 41.

17 17 CAPÍTULO II SUJEITOS DO ASSÉDIO MORAL 2.1 O AGRESSOR O sujeito ativo do assédio moral é o agressor, aquela pessoa que visa a desestabilizar emocionalmente outrem para alcançar determinado objetivo. Hirigoyen (2000) traça de uma forma bastante fidedigna, o perfil do agressor do assédio moral. Para ela, essa pessoa depende da opinião alheia para sobreviver, só pensa em si, e seu objetivo é satisfazer suas próprias necessidades, à custa de violência psicológica. Conforme Barreto, que divulgou trabalho de campo realizado com mais de duas mil pessoas entrevistadas, verifica-se que o assédio moral é praticado em 90% dos casos pelo chefe, em 6% por colegas e pelo chefe juntos, em 2,5% apenas por colegas e em 1,5% por subordinados. Conforme essa mesma pesquisa constata-se que sua ocorrência se dá em 50% dos casos varias vezes por semana, 27% uma vez por semana, 14% uma vez por mês e 9% raramente. Como visto nessa pesquisa, o agressor ostenta diversos perfis, podendo o assédio ser praticado pelo chefe, por subordinados ou por colegas de trabalho de mesma hierarquia, dependendo de qual tipo está se detectando, se ascendente, descendente, horizontal ou misto, e qual a estratégia do agressor envolve repetidos atos de violência, praticados periodicamente. No caso do assédio moral ascendente, o agressor é movido pela inveja. Seu objetivo é ter a mesma vida que a vítima e, para alcançar esse objetivo, ele não poupa esforços. Tal sentimento advém da sensação de desgosto por aqueles que detêm tudo aquilo que lhe falta ou que simplesmente sabem obter prazeres nas pequenas coisas da vida. Na hipótese de assédio moral descendente, o agressor é um narcisista, um megalômano que se acha demasiadamente importante, especial, que tem muita necessidade de ser admirado e possui fantasias em que se vê rodeado das vantagens

18 auferidas em decorrência do sucesso profissional. Acredita-se indispensável e essencial para a manutenção ou obtenção do sucesso da empresa em que trabalha. 18 Maquiavel (205, pág 102) contata que de todos os príncipes, são os mais novo no poder que não podem fugir à reputação de crueldade, já que os novos Estados oferecem sempre muitos perigos. Da leitura do texto acima transcrito, pode-se concluir que os chefes que está há menos tempo no poder têm a maior chance de praticar assédio moral. Isso porque ostentam a necessidade de ser cruéis, pois querem afirmarem-se como superiores, perante si e terceiros. O contrário senso, os chefes que está há mais tempo no poder já estão acostumados com a rotina do cargo, de tal forma que lidam melhor com as obrigações e os afazeres de sua função. Isso não quer dizer que um chefe experiente no cargo nunca praticará assédio moral, mas apenas que as chances, nesse caso, diminuem muito. Na modalidade de assédio moral horizontal, o agressor pode ser movido por vários motivos. Dentre eles, podem-se destacar a inveja de seu colega que consegue abstrair a felicidade das mesmas coisas que o agressor se julga merecedor; ressentimentos oriundos de brigas entre colegas ou mesmo diferenças ocasionadas por disputas pela atenção do empregador ou de qualquer outro colega de trabalho. O perfil do agressor, no caso de assédio moral misto, é um conjunto que engloba os perfis dos outros três tipos de assédio moral, assim, o perfil do agressor da referida modalidade de assédio moral prescinde de mais esclarecimentos. Ainda de acordo com os ensinamentos de Hirigoyen, o que se pode verificar em todas as situações susceptíveis do assédio moral é o fato de o agressor estar causando sofrimento à vítima causa nele uma sensação de prazer. Assim, quanto mais ele assediar a vítima, melhor vai estar consigo próprio. O ódio cultivado pela vítima é tamanho, que o simples fato de causar-lhe sofrimento gera no agressor uma sensação enorme de bem estar.

19 19 Fora do ambiente propicio para o assédio moral, o ambiente de trabalho, normalmente o agressor é uma pessoa agradável, como qualquer outra, participa de reuniões sociais, interage com os colegas e com os subordinados, inclusive com a própria vítima, fazendo e recebendo brincadeiras. O agressor não detecta divergências entre ele e a vítima, razão pela qual seu comportamento é exatamente igual ao dos demais. Às vezes, em decorrência da fragilidade do relacionamento construído entre o agressor e a vítima, aquele, fora do local de trabalho, faz algum tipo de comentário maldoso, dificilmente percebido pelas pessoas em geral, mas sempre detectado pela vítima como um tipo de provocação. Tudo acontece de uma forma muito sutil. No entanto, com o retorno ao local de trabalho, as divergências reaparecem, reaparecendo, também, o assédio moral. O agressor pode agir para satisfazer um interesse pessoal, para alcançar um objetivo maior ou simplesmente por vaidade para que outras pessoas, os espectadores, visualizem o fato e o admirem. Nesse caso, os espectadores ficam seduzidos pelo agressor, que acha que a vítima sofre perseguição por merecer, porque não desempenha a contento suas tarefas. Conforme descrito no site Assédio Moral no Ambiente de Trabalho, o agressor do assédio moral utiliza-se geralmente da seguinte estratégia: 1. Escolhe a vítima e a isola do grupo; 2. Impede-a de se expressar sem dar qualquer explicação para isso: 3. Inferioriza, fragiliza, culpa exageradamente a vítima por erros cometidos, levando, em alguns casos, esses comentários ao ambiente familiar; 4. Desestabiliza a vítima, fazendo com que ela, gradativamente, perca o interesse pelo trabalho, praticamente, obrigando-a a pedir demissão; 5. Impede que as testemunhas ajam de modo a coibir ou a minimizar o assédio por elas detectado. com o seguinte teor: Como por exemplo, pode-se citar o depoimento dado ao jornalista Edward

20 Em 2004 e 2005, fui moralmente assediada por coordenadores do departamento da universidade onde trabalhei até o mês passado. Depois de um período de afastamento, encontrei um ambiente hostil. Deram-me um horário irracional. Em um dia, tinha de trabalhar doze horas ininterruptas. Quase todos os dias recebia ofícios de advertência, sem que nada tivesse feito de errado. (...) Elegi-me para a comissão de prevenção de acidentes e passei a ser ainda mais humilhada. Deram-me atividades de orientação de estagiários, com a justificativa de que eu não tinha qualificação para dar aulas. Numa reunião, o coordenador agrediu-me aos berros na frente de colegas e funcionários. Cheguei a ser colocada numa salinha sem nada para fazer. Nesse processo estressante, adoeci e voltei a sofrer convulsões depois de 24 anos sem ter esse problema. Também perdi mais da metade da minha renda. Desse relato, pode-se verificar a ocorrência da maioria das etapas acima mencionadas. Primeiro o agressor escolheu e isolou a vítima. Depois, impediu-a de se expressar, pois as advertências eram todas dadas por meio de ofícios e, quando ela tentou compor um órgão que iria prevenir o assédio moral do qual estava sendo vítima (a CIPA), foi ainda mais assediada. Esse processo implicou uma gradativa inferiorizarão e fragilização da vítima. O agressor a culpava exageradamente por erros cometidos desestabilizou-a, colocou-a em uma sala sem nada para fazer, fazendo com que, gradativamente, perdesse o interesse pelo trabalho. Diante desse estresse, a vítima não viu alternativa senão pedir demissão PASSIVO - A VÍTIMA O sujeito passivo do assédio moral é a vítima, aquela pessoa que sofre o abuso psicológico. O agressor não elege aleatoriamente a vítima dentre os empregados da empresa onde trabalha: ele a escolhe entre as pessoas que adoecem mais facilmente em consequência do trabalho, aquelas são consideradas velhas para ocupar certos cargos ou dentre as que têm salários altos, comparados à media dos outros trabalhadores. A vítima no ambiente de trabalho, não se revela um empregado desidioso, relapso ou negligente. Ao contrario, normalmente ela é uma pessoa responsável, que desempenha suas tarefas de uma forma bastante a contento, nos prazos estabelecidos. Essa pessoa se tornou vítima, não em decorrência de seu desempenho profissional, mas principalmente porque é bem-educada, ingênua, insegura e, em razão disso, não consegue defender-se das agressões.

21 21 Nesse sentido, ela se torna vítima por vários motivos. Porque sua situação de trabalho incomoda demasiadamente o agressor e, porquanto é pessoa psicologicamente frágil e, em razão disso, encontra muita dificuldade em revidar as agressões. Estudos e dados estáticos demonstram que as mulheres são as mais assediadas que os homens, Por questões culturais, elas desabafam mais facilmente com amigos ou colegas, enquanto os homens, constrangidos, guardam consigo a agressão sofrida. Eles geralmente mantêm silêncio, envergonham-se e sentem-se fracassados, muitas vezes se refugiam no álcool ou em outras drogas. Outro motivo porque se detecta uma maior numero de vitimas mulheres conforme Barreto 22 é o fato de que essa modalidade de violência é precedida, em 12% dos casos, por uma abordagem sexual frustrada. As manobras do assediador reduzem a autoestima da vítima, confundem-na e levam-na a desacreditar de si própria e a se culpar, sem propósito. A vítima reduz sua produção, a qualidade de seu trabalho e o seu psicológico ficam altamente comprometidos. Nesse sentido, cumpre transcrever o depoimento dado ao jornalista Edward (2005, p. 108): A empresa em que eu trabalhava foi privatizada e passei a ser pressionada a aderir a um plano de demissão voluntaria. Como resisti, fui passada de funções executivas para o preenchimento de formulários. Eu e outros colegas fomos abandonados num prédio antigo. Sem cadeiras, sentávamos em latões de lixo. No prédio novo, fomos expostos numa sala de vidro. Eu era chamada de javali porque não valia mais nada. Até hoje tenho problemas físicos e psicológicos decorrentes daquela época. Com à medida que o assédio se agrava, a vítima se vê obrigada a afastar-se do emprego temporariamente em razão do estresse psíquico gerado ou em decorrência de sintomas psicossomáticos. Como isso, passa a sofrer de depressão e, conforme o caso, até pensa em suicídio. Esses constantes afastamentos tornam-se pretextos para o 22 Upud Edward (2005, p. 108), em tese de doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

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