CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (Aprovado em Reunião de Diretoria em 28/10/1999)

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1 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (Aprovado em Reunião de Diretoria em 28/10/1999) EXPEDIENTE CFM Nº de 22/06/99. CONSULENTE: DR. ANTÔNIO PEREIRA FILHO DIRETOR TESOUREIRO DO CRM-SP PARECER Nº 274 /99, DO SETOR JURÍDICO. EMENTA: ANUIDADES ANISTIA PARA DÉBITOS DE PESSOAS FÍSICAS E JURÍDICAS. 1.Trata-se de consulta formulada pelo CREMESP, nos termos do ofício n.º 5220/99: PESSOA FÍSICA 1) Médico aposentou-se e esqueceu-se de solicitar o cancelamento do registro. Apresenta documentos comprovando a aposentadoria, bem como Declaração de Imposto de Renda demonstrando que o Instituto Nacional do Seguro Social INSS é sua única renda. Pode-se conceder anistia? 2) Médico deixa o País para estudar e permanece alguns anos fora. Não solicitou o cancelamento de seu registro, mas ao retornar comprova através do passaporte e documentos obtidos no exterior, que não exerceu a medicina no Brasil durante o período. Pode-se conceder a anistia? 3) Médico muda de Estado e não cancela seu registro secundário. Passa a pagar o Conselho Regional de origem (inscrição primária). Quando localizado e cobrado de sua dívida, solicita anistia comprovando regularidade de pagamento ao Conselho Regional do Estado de origem. É possível anistiar? 1

2 4) O médico portador de doença incapacitante que não providenciou o cancelamento do registro, somente o fazendo após alguns exercícios, quando apresenta os documentos hábeis, tais como atestados e/ou relatórios médicos, comprovando e demonstrando sua situação. É possível anistiar? 5) O médico alega absoluta falta de recursos financeiros para saldar o débito, mesmo que parceladamente, junto ao Regional. Como proceder e quais os documentos que devem ser exigidos para demonstrar a situação? PESSOA JURÍDICA 1) A empresa encerra suas atividades sem proceder o cancelamento do registro no Regional. Decorridos alguns anos, o responsável apresenta o distrato social e/ou baixa junto ao Cadastro de Contribuinte do Município CCM e/ou Receita Federal. É possível conceder a anistia retroagindo no tempo? 2) A empresa procede o registro no Regional, porém não registra em cartório uma vez que os sócios desistiram efetivamente de instalar a empresa. É cabível a anistia? 3) A empresa procede o registro tanto no Regional como em cartório, porém não entra em atividade. É cabível a anistia? 4) A empresa existe de fato e de direito, porém por divergência de posições entre os sócios não é possível concretizar o distrato social. A empresa demonstra documentalmente sua inatividade. É possível a anistia? 5) Uma entidade que não tenha sido declarada de filantropia (ambulatórios de igrejas ou comunitários), mas que na prática o faz, é possível anistiar? 2

3 2.Instada a manifestar-se esta Assessoria Jurídica passa a tecer breves comentários acerca da cobrança das anuidades e da possibilidade da anistia dos débitos nos casos sob comento. 3.Antes de dar-se prosseguimento à análise da questão de fundo do presente parecer, necessária se faz breve digressão acerca da competência dos Conselhos de Fiscalização de Profissões Liberais para fixar, cobrar e executar anuidades, conforme ditames da Lei n.º 9649/98, art. 58, 4º, in verbis:... $ 4º Os conselhos de fiscalização de profissões regulamentadas são autorizados a fixar, cobrar e executar as contribuições anuais devidas por pessoas físicas ou jurídicas, bem como preços de serviços e multas, que constituirão receitas próprias, considerando-se título executivo extrajudicial a certidão relativa aos créditos decorrentes. 4.Invocando interesse social e econômico de alta relevância, a Constituição Federal assegura que o instituto da anistia é uma faculdade impregnada no poder de tributar, refletindo, assim, o pensamento da mais abalizada doutrina. Merece destaque, por esclarecedora, a lição de José Souto Maior Borges, extraída de sua obra Isenções Tributárias:... O poder de isentar apresenta certa simetria com o poder de tributar. Tal circunstância fornece a explicação do fato de que praticamente todos os problemas que convergem para a área do tributo podem ser estudados sob o ângulo oposto: o da isenção. Assim como existem limitações constitucionais ao poder de tributar, há limites que não podem ser transpostos pelo poder de isentar, porquanto ambos não passam de verso e reverso da mesma medalha. 3

4 5.À guisa de maior elucidação, mister se faz abordar a noção conceitual do instituto da anistia. Como observou argutamente João Roberto Santos Regnier 1, a anistia é a concessão feita a devedores em atraso para que possam pagar os seus débitos em novos prazos de uma vez ou em parcelas independentemente de majoração, multas e outras sanções a que normalmente estriam sujeitos. 6.Depreende-se daí que a anistia não guarda qualquer correlação com a remissão, posto que contempla somente as penalidades. Assim sendo, não abarcando o tributo, não constitui causa extintiva de crédito. 7.Ultrapassada essa questão, cumpre dar-se seguimento à análise da consulta formulada, iniciando a explanação no tocante às pessoas físicas. Respostas aos quesitos Pessoas Físicas 1º Quesito: 8.Primeiramente, questiona o consulente da possibilidade da concessão de anistia a médico que em virtude de seu esquecimento, aposentou-se e não cancelou seu registro profissional junto ao Conselho Regional. 9.Cumpre esclarecer que a aposentadoria e o cancelamento do registro são regimes distintos, isto é, ainda que demonstre que o INSS é a sua única renda, descabe a anistia em razão da aposentadoria não ser causa impeditiva de clinicar. Corolário dessa assertiva encontra-se no fato de que o médico, ainda que aposentado, está apto para praticar a profissão. Urge frisar, para tanto, que a aposentadoria regulariza a situação do médico apenas para fins da Previdência Social, não guardando qualquer relação direta com o exercício da medicina, que por sua vez, é uma profissão liberal. 2º Quesito: 10.No tocante ao segundo questionamento, que versa sobre o não cancelamento do registro por médico que deixa o País para estudar, uma simples leitura da Resolução CFM n.º 1216/85 conduz à intelecção de que mesmo não exercendo suas atividades no Brasil, o 1 José Roberto Santos Regnier, A Norma de Isenção Tributária, SP, Ed. Resenha Trbutária, 1975, pg

5 médico residente no exterior está obrigado a efetuar o pagamento das anuidades enquanto estiver registrado. 11.Resta claro, portanto, que é dever do médico que for residir no exterior requerer ao Conselho Regional o cancelamento de sua inscrição para que se exima do pagamento das anuidades. 3º Quesito: 12.Nesta linha de análise, pode-se esclarecer o pertinente à terceira indagação formulada. Primordialmente, há de se ressaltar o dever do médico de zelar pela uniformização de procedimentos de transferências de um Regional para outro congênere. Nesse diapasão, conforme ditames da legislação vigente, qual seja o Decreto n.º /58, cabe ao médico que almeja exercer a medicina em outra jurisdição fazer a comunicação por escrito de sua transferência ao Conselho Regional de origem. 13.Ademais, preconiza a Resolução CFM n.º 1.053/81 que tal transferência só se tornará efetiva após a inscrição respectiva no Conselho Regional para o qual tal ato foi solicitado. Resta indubitável em nosso entendimento que, não havendo comunicado no tempo hábil a transferência temporária a outro Regional, é dever do médico prestar contas, no constante às anuidades, a ambos os Conselhos em que estiver inscrito até que regularize a sua situação. 4º Quesito: 14.Posteriormente, o consulente faz alusão à hipótese de anistia de débitos a médico portador de doença incapacitante, que não providenciou o cancelamento do registro ao tempo da enfermidade acometida. A propósito, o art. 141 do Código de Ética Médica esclarece qual o procedimento necessário a ser tomado pelo médico para que se desobrigue do pagamento das anuidades sob o argumento de ser ou ter sido portador de doença incapacitante. Confira-se: Art. 141 O médico portador de doença incapacitante para o exercício da Medicina, apurada pelo Conselho Regional de Medicina em procedimento administrativo com perícia médica, terá seu registro suspenso enquanto perdurar sua incapacidade. 5

6 15.Tal artigo é de uma clareza solar quando menciona a exigência de procedimento administrativo para o eventual esquecimento da dívida pelo Regional. Assim sendo, em virtude de tratar-se de condição especial, qual seja a referida enfermidade, optamos pelo cabimento da anistia. Advirta-se, entretanto, que nos atendo à legislação vigente, faz-se mister que o médico elabore um dossiê com relatos e atestados que comprovem sua situação para que se exime do pagamento da contribuição devida apenas pelo interregno em que portava doença incapacitante. Desta feita, caberá ao Regional a apreciação e deferimento dos documentos comprobatórios apresentados para eventualmente atender à clemência do médico de ser anistiado dos débitos vencidos. 16.Conquanto deva-se recolher o axioma ao poder de tributar correspondente ao poder de anistiar posto lastreado em base constitucional, cabe, nesta hipótese, a retroação benigna constante à anistia. 5º Quesito: 17.Por outro lado, no que concerne à possibilidade de o médico se escusar do pagamento de seus débitos quando da alegação de falta de recursos financeiros, vale ressaltar a Lei 6.994, de 26 de maio de 1982, que dispõe sobre a fixação do valor das anuidades e taxas devidas aos órgãos fiscalizadores do exercício profissional e dá outras providências, e, no 4º do seu artigo 1º, faz menção à isenção quando comprovado o estado de miserabilidade do contribuinte, verbis: Art. 1º (...)... 4º - Quando do primeiro registro, serão devidas, apenas, as parcelas da anuidade relativas ao período não vencido do exercício, facultado ao respectivo Conselho conceder isenção ao profissional comprovadamente carente. (grifamos) 18.No entanto, sendo a concessão da sobredita isenção uma faculdade dos Conselhos, cabe ao contribuinte interessado apresentar provas idôneas e robustas para análise dos respectivos Conselhos. Note-se que esta hipótese de isenção prevista na lei em questão não pode ser estendida pelos Conselhos de Fiscalização de profissões regulamentadas às pessoa jurídicas, na medida em que o texto legal é bem claro ao mencionar a expressão profissional comprovadamente carente. 6

7 19.Temos assim, portanto, esclarecidas as questões pertinentes às pessoas físicas, atendonos, por oportuno, às vindouras que tratam da possibilidade de anistiar pessoas jurídicas em dadas hipóteses. Respostas aos quesitos Pessoas Jurídicas 1º e 2º Quesitos: 20.Olvida-se do primeiro e segundo questionamentos circunstâncias que vão de encontro ao Princípio da Legalidade da existência e constituição das pessoas jurídicas. 21.Exsurge claramente do anteriormente exposto que o fato gerador da contribuição devida pelas pessoas jurídicas é o simples registro no Regional. Extrai-se daí que é irrelevante para os Conselhos de Fiscalização que uma empresa esteja em acordo com as exigências dos órgãos governamentais, qual seja, o seu registro no cartório. 22.Resta indubitável, portanto, que os Conselhos de Fiscalização ignoram a existência ou inexistência legal das pessoas jurídicas, bastando, assim, que sejam constituídas de fato, isto é, registradas nos quadros dos Conselhos Regionais. 3º e 4º Quesitos: 23.Tendo em vista que a simples inscrição no Conselho Regional gera a obrigação de pagamento das anuidades, as questões 3 e 4 da referida consulta tornam-se inócuas, posto que o único e insubsistente fato impeditivo da atuação da referida empresa reside em mera divergência entre sócios. 24.Com efeito, é extreme de dúvidas que o fato gerador da contribuição devida às entidades de fiscalização de profissões é a inscrição do profissional em seus quadros, ou o registro da empresa a elas vinculadas. Portanto, a partir da inscrição e/ou do registro, a anuidade deve ser cobrada dos profissionais e/ou empresas nos termos da legislação vigente. Para a cobrança da anuidade, pouco importa a data em que o estabelecimento tenha sido constituído ou entrado em atividade, pois o fato gerador da anuidade é o registro para o fim de fiscalização do estabelecimento, conforme já mencionado, o qual viabilizará o seu efetivo funcionamento, com a prestação dos serviços médico-hospitalares. 7

8 5º Quesito: 25.No que concerne à possibilidade de ser concedida anistia de anuidades cobradas pelos Conselhos de Fiscalização de Profissões Liberais às entidades filantrópicas, informamos que esta Assessoria exarou Parecer n.º 002/99, neste sentido, concluindo que considerando-se que os estabelecimentos hospitalares ou de saúde mantidos pela União, Estados, Municípios, suas autarquias e fundações não estão obrigados ao registro em Conselhos Regionais de Medicina, mas tão-só ao cadastramento, e que somente o registro é fato gerador da anuidade, aqueles estabelecimentos não estariam obrigados ao recolhimento de anuidades, taxas e emolumentos em favor dos referidos Conselhos. 26.Ademais, em face da Resolução CFM n.º 1207/85, informamos que é lícito aos Conselhos o parcelamento de débito em atraso de registros anteriores de médicos inscritos bem como de empresas registradas em até 3 prestações mensais, obedecendo sempre as regras de tal procedimento expostas na sobredita resolução. 27.Em razão do que exposto retro, verifica-se que o objetivo primordial dos Conselhos de Fiscalização ao serem tão taxativos no constante ao pagamento das anuidades e hipóteses de anistia de débitos vencidos, é de evitar que alguns membros da classe médica usufruam da disponibilidade do direito de exercer a profissão médica sem arcar com a contribuição devida para tal usufruto. É o parecer, sub censura. Brasília, 20 de agosto de Giselle Crosara Lettieri Gracindo Assessora-Chefe Raquel Mundim Moraes Oliveira Estagiária 8

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