Nacionalismo no mundo atual: o exemplo basco

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1 1 Nacionalismo no mundo atual: o exemplo basco A violência volta a causar apreensão na fronteira da Espanha com a França. A explosão de um carro-bomba com cerca de 30 kg de explosivos causou ferimentos em 42 pessoas na quarta-feira, 9 de fevereiro de O ataque, atribuído ao grupo separatista ETA, que no dialeto basco euskera, é a sigla da expressão Euskadi Ta Askatasuna, e em português significa Pátria Basca e Liberdade, ocorreu por volta das 9h30 (6h30 de Brasília) nas proximidades do Palacio de Congresos de Madri, um centro de convenções na capital espanhola. Convém destacar que naquela tarde, coincidentemente, o rei Juan Carlos estaria em visita àquela região. De uma maneira geral podemos entender a dinâmica dos conflitos geopolíticos mundiais a partir da análise de suas causas, essas muitas vezes remontam a períodos em que as ciências humanas não possuíam condições de uma abordagem que permitiria entendermos hoje as razões de tanta violência. Diante disso as várias interpretações de um mesmo fato geram visões distorcidas da realidade. Exemplo claro pode ser entendido ao discutirmos a Questão Palestina, afinal de contas quem tem mais razão os árabes ou os judeus? Mas essa discussão fica para uma próxima oportunidade. Os conflitos mundiais que se intensificaram após o período da Guerra Fria ( ), podem ser classificados, de acordo com a sua origem, em dois grandes grupos. Os conflitos étnicos, quando as diferenças dos grupos sociais quanto à cultura, língua, traços físicos etc. são determinantes. Como exemplo podemos citar a região do Cáucaso, na Rússia, onde o grupo tchecheno-ingushes reinvindicou a criação de um país, a Chechênia. Os conflitos religiosos, como os que acontecem na fronteira da Irlanda do norte (Ulster) constituída essencialmente por protestantes, com a Irlanda do Sul (Eire), cuja maioria da população é católica, apesar de todos serem irlandeses. Entretanto são comuns conflitos ideológicos, resquícios do período da Guerra Fria, como as intervenções estadunidenses na América latina, em particular na América Central, com destaque para Cuba. Muitas vezes não conseguimos identificar uma única causa para a questão, somando-se assim os fatores étnicos, religiosos e ideológicos.

2 2 O nacionalismo, ideologia segundo qual o indivíduo deve lealdade e devoção ao Estado nacional compreendido como um conjunto de pessoas unidas num mesmo território por tradições, língua, cultura, religião ou interesses comuns, constitui uma individualidade política com direito de se autodeterminar. Dentro desse conceito, o nacionalismo assume inúmeras formas e pode-se originar com base em diversas necessidades: de uma comunidade étnica, religiosa ou cultural, sob dominação, tornar-se independente (separatismo); de um grupo ou comunidade impor sua nacionalidade e se transformar em soberano no Estado; ou de o próprio Estado-nação impor seus ideais aos cidadãos como forma de sobreviver como unidade. Com o fim da Guerra Fria e o desmantelamento da URSS, projetos de autonomia nacional são despertados em diversas partes do mundo, como a recusa das repúblicas bálticas (Estônia, Letônia e Lituânia) em se integrar à Comunidade dos Estados Independentes (CEI) e as lutas separatistas no Timor Leste, no país basco, na Irlanda do Norte e no Tibete, entre outros. Além disso, como forma de reafirmar distinções em Estados cada vez mais multiétnicos, explodem movimentos nacionalistas dentro de vários Estados e movimentos de grupos de identidade, como o da comunidade negra. Em muitos países ressurge o nacionalismo autoritário: é o neonazismo na Áustria, na França e na Itália, e o movimento dos skinheads na Inglaterra, na Alemanha e no próprio Brasil. O sentimento nacionalista tem suas raízes na Revolução Francesa, quando surge o Estado nacional moderno. A burguesia volta-se contra a nobreza e o clero e proclama que o poder não emana de Deus nem do soberano, mas do povo e da nação. A lealdade ao rei é substituída pela lealdade à pátria. No final do século XVIII e no decorrer do XIX, a ascensão do sentimento nacionalista coincide com a Revolução Industrial, que promove o desenvolvimento da economia nacional, o crescimento da classe média, a exigência popular de um governo representativo e o desejo imperialista. A primeira forma de nacionalismo ocorre a partir da própria Revolução Francesa, dentro do contexto do liberalismo, como uma negação dos Estados monárquicos, aristocráticos e religiosos e de afirmação da identidade nas regiões submetidas ao domínio estrangeiro, como na Itália dominada pela Áustria e na Irlanda subjugada pelo Reino Unido. Posteriormente, o nacionalismo ganha novas nuances, servindo muitas vezes para fortalecimento do estado autoritário ou totalitário, como é o caso do nazismo e fascismo no período entre-guerras ou as ditaduras militares na América Latina, na segunda metade do século XX.

3 3 No caso do povo basco, o nacionalismo ganha um caráter separatista, ou seja, de autodeterminação e soberania nacional. O fator determinante dos conflitos são as diferenças étnicas existentes na região. A origem do povo basco é desconhecida e possuem mais de cinco mil anos de história. A língua falada pelo basco, o euskera, parece pertencer ao tronco indoeuropeu, fonte do latim e das demais línguas ocidentais. Alguns lingüistas o consideram uma língua isolada e muito antiga, provavelmente uma evolução da língua dos primeiros povos que migraram para a Europa. Outros o consideram, através de comparações, da mesma origem das línguas até hoje faladas na região do Cáucaso. Há ainda estudiosos que tentam ligá-lo a línguas africanas e ao idioma dos etruscos. De qualquer forma, é uma língua falada ou compreendida por pelo menos pessoas, e que já era falada muito antes de os romanos levarem o latim à Península Ibérica. O movimento nacionalista separatista foi criado no fim do século 19 sobre a base de uma ideologia étnica, antiespanhola e ultracatólica de seu fundador Sabino Arana. Hoje existem mais de 500 mil bascos habitando quatro províncias espanholas (Vizcaya, Guipuscoa, Alava e Navarra) e três francesas (Labourd, Baixa Navarre e Soule). Em finais da década de cinqüenta, com o surgimento do grupo ETA, cujo símbolo é uma tocha com uma serpente enlaçada, intensificaram-se na Espanha os atentados terroristas em prol da criação de um país basco. O grupo terrorista se originou de um grupo de estudantes nacionalistas contrários ao imobilismo do Partido Nacionalista Basco, fundado em 1894, diante das atrocidades do franquismo em relação ao povo basco. Apesar disso conseguiu sobreviver na clandestinidade sob o governo do ditador Francisco Franco ( ). Depois da morte do ditador (1975), com o processo de redemocratização na Espanha, os bascos ganharam uma

4 4 certa autonomia, com a constituição de 1979, passando a ter um órgão de governo próprio e liberdade para divulgar sua língua e cultura sem nenhuma restrição mas a exigência de um Estado Nacional Basco livre e autônomo não permitiu que a paz retornasse à região. A luta pela independência de Euskal Herria, um país basco que vai de Adour até Ebro na Espanha, e que inclui a região autônoma espanhola do país basco, Navarra, e o país basco francês, no sudoeste do país vizinho, teve inicio no século XIX e se intensificou ao longo do século XX. Nesse período o fato que se imortalizou na história dos conflitos foi o registro que o pintor Pablo Picasso fez do bombardeio à antiga capital basca Guernica pelos aliados alemães do ditador Franco, em abril de 1937, imagem da desumanidade do homem contra seus iguais. Figura 1. Guernica de Pablo Picasso. Era uma segunda- feira, dia de feira-livre na pequena cidade de Biscaia. Das redondezas chegavam a suas estreitas ruas os camponeses do vale de Guernica, no país dos bascos, trazendo seus produtos para o grande encontro semanal. A praça ainda estava bem movimentada quando, antes das cinco da tarde, os sinos começaram os seus badalos. Tratava-se de mais uma incursão aérea. Até aquele dia fatídico - 26 de abril de Guernica só havia visto os aviões nazistas da Legião Condor passarem sobre ela em direção a alvos mais importantes, situados mais além, em Bilbao. Mas aquela 2ª feira foi diferente. A primeira leva de Heinkels-11 despejou sua bombas sobre a cidadezinha precisamente às 16:45 horas. Durante as 2 horas e 45 minutos seguintes os moradores viram o inferno desabar sobre eles. Estonteados e desesperados saíram para aos arredores do lugarejo

5 5 onde mortíferas rajadas de metralhadora disparada pelos caças os mataram aos magotes. No fim da jornada contaram-se mortos e 889 feridos, numa população não superior a 7 mil habitantes. Quase 40% haviam sido mortos ou atingidos. No final do século XX (1998) o grupo ETA anuncia um período de trégua unilateral reduzindo a praticamente zero os atentados terroristas etarras na Espanha. Nesse inicio de século não haviam sido registrados atentados de grande intensidade na região, fato que dava a falsa idéia de que o nacionalismo exacerbado havia ficado para trás. Entretanto, novamente a violência ganha intensidade. O grupo terrorista ETA demonstra a sua insatisfação com a falta de soberania do seu território, e ameaça intensificar os atentados, principalmente na Espanha. Professor Ademir Aquino Suporte pedagógico do Ético Sistema de Ensino

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