SANTA BÁRBARA O BRAÇO MORTO DO ARROIO QUE AINDA VIVE NA MEMÓRIA

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1 UNVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DEPARTAMENTO DE URBANISMO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM CONSERVAÇÃO DE PATRIMÔNIO EM CENTROS URBANOS SANTA BÁRBARA O BRAÇO MORTO DO ARROIO QUE AINDA VIVE NA MEMÓRIA por Glenda Dimuro Peter Trabalho de Conclusão do Módulo I Profa. Dra. Sandra Pesavento Porto Alegre, 16 de novembro de 2004.

2 O Santa Bárbara Nelson Nobre Magalhães O Santa Bárbara ainda vive, Arroio de minha lembrança, É um pouco da saudade Dos meus tempos de criança. Cortava a nossa cidade, Presente da natureza, A sua paisagem verde, Tinha um toque de beleza. Tinha peixes... tartarugas, Pequenas embarcações, Tinha também poesia, Seus belos salsos-chorões. A mão de Deus quem o fez, Mas o homem por maldade O levou para mais longe Do coração da cidade. Hoje paga um alto preço! Um crime sem precedentes, Desviaram nosso arroio Aumentaram as enchentes. Suas pontes eram belas Num cenário sem igual Uma delas sempre eu lembro; A ponte lá do Ramal. Pontezinhas de madeira, As recordo com carinho: A ponte lá da Uruguai E também a do Moinho. O Santa Bárbara ainda vive, Arroio da minha lembrança, É um pouco da saudade, Dos meus tempos de criança. 2

3 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO DOS PRIMÓRDIOS ATÉ O FINAL DO SÉCULO XIX AS PONTES SOBRE O SANTA BÁRBARA O COMEÇO DA ANSIEDADE POR PROGRESSO DE ARROIO A CANAL O OLHAR COM SIGNIFICADO APRENDENDO COM OS ERROS BIBLIOGRAFIA:

4 1. INTRODUÇÃO Este trabalho relata a história do arroio Santa Bárbara, desde as primeiras ocupações da cidade de Pelotas até os dias de hoje. Através de narrativas, história, mapas, fotos, notícias de jornais e relatos foi possível perceber a verdadeira importância que esse arroio teve para a cidade, desde a sua fundação até meados do século XX, quando o descaso com o Patrimônio Ambiental fez com que o Santa Bárbara ficasse quase que totalmente poluído, com ocupações irregulares em suas margens e por fim fosse aterrado e seu curso natural desviado para uma zona ainda não urbanizada da cidade. Esse fato, além de quase acabar com a memória do arroio, trouxe outros problemas como constantes alagamentos do braço morto do arroio, como se a natureza sempre teimasse em trazer as águas para o local de origem. Digo quase porque ele ainda vive na memória de alguns, e ainda existem vestígios que comprovam a sua passagem pela zona central da cidade. Através desse trabalho, mostraremos a trajetória do arroio pelo tempo: veremos o arroio que realmente existiu e não apenas enxergaremos os cacos que dele sobraram. Será possível reconhecer quem foram os verdadeiros culpados pela morte do Santa Bárbara e o que pode ser feito para revivê-lo no imaginário daqueles que nunca viram suas águas correrem em seu curso natural e nem ao menos sabem de sua importância no passado da Cidade de Pelotas. 4

5 2. DOS PRIMÓRDIOS ATÉ O FINAL DO SÉCULO XIX O arroio Santa Bárbara tem uma posição muito importante na história da Cidade de Pelotas, já que o povoamento inicial se estabeleceu, em função das charqueadas, nas várzeas do canal São Gonçalo, do rio Pelotas e do arroio Santa Bárbara, pelo vínculo com o transporte hidrográfico. Na coxilha limitada pelo Canal de São Gonçalo e o arroio Santa Bárbara virá a erguer-se o povoado e freguesia de São Francisco de Paula, berço da futura cidade. 1 Alguns moradores da região em 1780, anos antes de ela ser elevada à cidade, por segurança afastaram-se das charqueadas. Segundo Lopes Neto: Devido às disparadas das tropas de gado selvagem, pelos males das enchentes e também pelo desassossego das escravaturas recém vindas, a cidade veio a se formar na coxilha 2 entre o arroio Santa Bárbara, o rio Pelotas e o canal São Gonçalo. Deve ser lembrado também que o mau cheiro próximo às charqueadas, oriundos do sangue, carne apodrecida e em decomposição, também contribuiu para que a população procurasse uma outra região para construir suas moradas. No início do século XIX, muitos eram os forasteiros que passavam por Pelotas e depois relatavam suas experiências em diários de viagem e livros. A maioria deles descrevia o local citando sempre o arroio Santa Bárbara, como José Caetano da Silva Coutinho, que escreveu em 1815: Este arraial, que fica no meio de um vasto 2 horizonte chato entre os arroios de Santa Bárbara e de Pelotas... Em 1816, Francisco de Paula D Azeredo disse: as indústrias... dão contudo lugar a um tráfego imenso, facilitado pelos grandes rios e vias aquáticas, onde se movem centenares de iates carregados dos produtos do país que vêm trazer abundância à Europa e à América, e dando a esta Província uma importância 2 imponente, que ela tem sabido conservar e aumentar. Através desse relato podemos observar que mesmo antes da Freguesia de São Francisco de Paula se tornar vila ou cidade, já tinha uma economia próspera. E grande era o tráfego entre os rios e, embora D Azeredo não tenha citado nomes, sabemos que o canal Santa Bárbara estava na rota das embarcações de menor porte. Para resolver os problemas de posses de terras e pagamento do foro entre o capitão-mor, Antônio Francisco dos Anjos, e alguns moradores e posseiros, foi realizada pelo engenheiro Maurício Ignácio da Silveira o que se considera a primeira planta da zona urbana de Pelotas, datada de 1815, quando a cidade ainda era considerada Freguesia. O primeiro loteamento de Pelotas (veja Figura 1) desenvolveu-se ao redor da capela São Francisco de Paula (atual Catedral São Francisco de Paula), pertencente ao capitão-mor. Nessa planta, as ruas da cidade ainda não alcançavam o arroio Santa Bárbara, mas em suas margens já havia a charqueada de José Vieira Viana, juntamente com uma olaria uma fábrica de sabão, conforme confirmou Nicolau Dreys em sua passagem por Pelotas: As charqueadas ocupam as margens do rio de São Gonçalo e do rio de Santa Bárbara, formando cada uma delas um círculo de população especial. 2 1 MAGALHÃES, Mario Osório. História e Tradições da Cidade de Pelotas. Pelotas: Ed. Armazém Literário, MAGALHÃES, Mario Osório. Pelotas: toda a prosa. Primeiro volume Pelotas: Ed. Armazém Literário,

6 Figura 1: Mapa das ruas da Freguesia de São Francisco de Paula 1815 Fonte: GUTIERREZ, Ester J.B. Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas Pelotas: Editora Universitária UFPel, Em 1830, a Freguesia de São Francisco de Paula foi elevada à categoria de vila, sob o mesmo título. Em 1834, existiu uma lei na Vila que começava definindo seus limites: Nos limites urbanos desta vila são compreendidos por ora, os prédios que se acham entre os arroios Santa Bárbara, e a rua das Fontes (atual rua Almirante Barroso) desde o rio São Gonçalo até a sanga norte, que corre pelos terrenos sem edifícios permanentes a José Rodrigues Barcellos e Antônio Francisco dos Anjos. 3 Conforme poder ser observado na Figura 2. Essa lei comprova que mesmo antes da Vila de São Francisco de Paula se tornar cidade, o arroio Santa Bárbara já fazia parte dos limites urbanos. Figura 2: Mapa dos limites urbanos da Vila de São Francisco de Paula Fonte: GUTIERREZ, Ester J.B. Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas Pelotas: Editora Universitária UFPel, GUTIERREZ, Ester J.B. Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas Pelotas: Editora Universitária UFPel,

7 No dia 27 de junho de 1835, um decreto do presidente da Província outorgava à Vila de São Francisco de Paula a elevação à cidade. Após muitas discussões sobre o nome da cidade, foi aprovado o nome Pelotas, em homenagem, segundo palavras de Domingos José de Almeida na Assembléia Legislativa de 1835, ao fato histórico (estabelecimento das charqueadas) que aglomerara com rapidez do raio a gente e a riqueza da localidade. 4 Na verdade, pelota era como se chamava uma canoa de couro utilizada para a travessia dos rios, que deu nome ao arroio da região e posteriormente ao município. Neste mesmo ano, o engenheiro Eduardo Kretschmer levantou a planta da cidade, projetando sua ampliação (o segundo loteamento). Manteve o traçado regular anteriormente estabelecido, com as ruas principais correndo na direção norte-sul e as secundárias no sentido leste-oeste. Desenhou uma quadrícula de 142 quarteirões dois quais 40 somente delimitados (ainda não estavam oucpados), o que demonstra uma preocupação com crescimento da futura cidade, adotando a mesma malha regular utilizada no primeiro loteamento. O principal motivo da hierarquia das ruas norte-sul em relação às ruas lesteoeste era o sentido de escoamento das águas pluviais, como pode se observar no Código de Posturas de 1834: Sendo mais fácil o escoamento das águas da Vila pelas ruas que estão de leste a oeste, conforme nivelamento dos edifícios e a inclinação dos terrenos. 5 Isso se dava porque a leste encontramos a várzea do Pepino e a oeste a do arroio Santa Bárbara. Em meados do século XIX, como podemos ver no mapa da Figura 3, a cidade estava expandindo-se em direção ao Santa Bárbara, e muita coisa começou a acontecer em suas margens. 4 GUTIERREZ, Ester J.B. Negros, Charquedas e Olarias: Um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas: Editora Universitária UFPel, WEIMAR, Günter. Urbanismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora Universidade/UFRGS/Prefeitura de Porto Alegre,

8 Figura 3: Mapa das ruas da Cidade de Pelotas 1835 Fonte: GUTIERREZ, Ester J.B. Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas Pelotas: Editora Universitária UFPel,

9 Mais ou menos nessa mesma época, em 1832, foi construído, às margens do arroio Santa Bárbara, o barco a vapor chamado Liberal, considerado o primeiro da província. Em uma época que somente navegavam embarcações movidas a remo e a vela, causou admiração quando um grupo de empresários, liderados por Domingos José de Almeida, mandou vir dos estados Unidos, um motor para a montagem da barca. Construída no Estaleiro havido no local onde hoje é o início da rua General Osório, numa curva do arroio santa Bárbara, ainda não aterrado. Serviu a Barca nas forças dos farrapos, construída que foi por um grupo de liberais, até que, requisitada pela marinha do Império, combateu contra seus próprios idealizadores. 6 Nesse local estabeleceu-se talvez o primeiro bairro de Pelotas, chamado não por acaso de Bairro do Estaleiro. Nesse ponto, o arroio Santa Bárbara fazia um acentuado cotovelo, onde hoje é o extremo sul da rua Marechal Deodoro (na época também chamada de rua do Estaleiro), e era situado onde se achou a Fábrica de Conservas do Sr. Leivas Leite, próxima da antiga caieira Carpena, 7 fato que indica que pequenas indústrias já estavam se instalando no local. As águas límpidas do Santa Bárbara permitiam que ali se lavassem toda a roupa da freguesia (veja Figuras 4 e 5). Ceroulas, corpetes, calçolas com babados e fitas expunham-se nos coradouros e varais; devia ser grato do transeunte, também, o espetáculo das pernas roliças e bem torneadas daquelas jovens aldeãs convidando ao pecado numa reboleira de mato, ali perto. 8 Uma rua da cidade, a atual rua Professor Araújo, durante muitos anos recebeu o nome de rua das Lavadeiras, por desembocar neste local. Era comum também o trânsito de pequenas embarcações de pesca ou passeio (Figuras 6 e 7). Figura 4 e 5: Fotos de lavadeiras às margens do Santa Bárbara Fonte: Nelson Nobre Magalhães. Início do século XX Figura 6 e 7: Fotos de embarcações nas águas do arroio Fonte: Nelson Nobre Magalhães. Início do século XX 6 LEÓN, Zênia de. Pelotas: sua história e sua gente. Pelotas: Editora Universitária UFPel, OSÓRIO, Fernando. A Cidade de Pelotas, volume 1. Organização e notas de Mario Osório Magalhães. Pelotas: Editora Armazém Literário, MAGALHÃES, Mário Osório. Passeios da Cidade Antiga (Guia Histórico das Ruas de Pelotas). Pelotas: Editora Armazém Literário,

10 No mesmo ano de 1932, a Câmara de Vereadores da então Vila proibiu a edificação e o levantamento de cercas nas margens do Santa Bárbara, isso para não privar o uso das lavadeiras, que se utilizavam desse único lugar em toda a vila destinado para essa atividade. Uma outra proposta, também apresentada pelos vereadores, foi a de colocar os despejos nesse mesmo arroio, em um ponto mais abaixo da lavagem de roupa, mais precisamente no passo do Santa Bárbara, lugar onde as águas corriam em direção ao cemitério, nas imediações da nova cacimba. Desde esta época o arroio começou a ser poluído pela mão do homem. Entre 1850 e 1876, num local denominado como Canteiro do Chuvisco, próximo à Praça antes denominada Constituição, foi construída uma forca que segundo Fernando Osório, ergueu-se sobre um embasamento de material. 9 Durou até a extinção da pena de morte, mas a tradição do nome do que acontecia por lá dura até os dias de hoje. Embora a Praça da Constituição não exista mais, a praça que hoje se situa próximo ao local da forca é comumente chamada de Praça dos Enforcados. Uma das portas da cidade estava localizada também às margens do arroio. Era a chamada Estrada do Fragata, que comunicava Pelotas com a Campanha Rio- Grandense, por onde chegavam os tropeiros conduzindo a matéria-prima das charqueadas, e concentrava um grande número de comerciantes, sobretudo mascates. Para o gado, a Tablada, o Logradouro Público e a Praça da Caridade pareciam ser suficientes. Faltava espaço para as carretas. 10 Foi assim que, num vazio na margem direita do arroio Santa Bárbara, foi localizada a Praça da Constituição, que logo passou a ser chamada, de acordo com a sua função, de Praça das Carretas. Esta praça era um espaço natural, com árvores primitivas e era mais um espaço aberto para estacionamentos das carretas que um lugar de lazer, contemplação ou divertimento. Servia às atividades de transporte e de abastecimento da zona urbana, as carretas que saiam daqui levavam produtos como charque, sabão, rolos de corda, açúcar (que chegava nos navios vindos do nordeste) para as regiões serranas. Após alguns anos as estrebarias da Companhia de Ferro Carris e Cais de Pelotas situaram-se ali. As margens do arroio não eram bem vistas pela classe senhorial. Certa vez, Domingos José de Almeida disse:... uma pequena curva do Santa Bárbara, ali com menos de 15 palmos de largura e quase sempre seco, servindo este pequeno terreno tão somente para foco de imoralidades, fundição de crioulos e entretenimento de escravos da cidade. 10 No dia 2 de abril de 1878, o jornal Correio Mercantil apresentava uma notícia que falava: Observam-se ali coisas horrorosas. Homens e crianças algumas delas mais terão oito anos. Em parceria impudica e afoita uma linguagem desbragada e arrasta uma série de atentados à moralidade, que nem mesmo nos é permitido tornar mais explícito para fazer compreendê-la. Através desses relatos podemos perceber que este lugar era freqüentado por escravos, negros adultos e crianças, além das tradicionais lavadeiras. 9 OSORIO, Fernando. A cidade de Pelotas. Organização e notas de Mario Osório Magalhães. Pelotas: Editora Armazém Literário, GUTIERREZ, Ester J.B.Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas Pelotas: Editora Universitária UFPel,

11 3. AS PONTES SOBRE O SANTA BÁRBARA Em 1845, quando a cidade de Pelotas já avançava sobre o arroio, os vereadores pensaram em construir uma ponte de madeira. Não se sabe ao certo qual seria a localização exata dessa ponte que deveria ser erguida pela Prefeitura. O que se sabe é que existiram trechos onde havia os chamados passos do arroio, lugares onde era possível atravessar com o gado e a cavalo. Existiu o Passo do Apois (Passo Real) no fim da atual Rua Tiradentes, o Passo do Aquino, na atual rua Professor Araújo e alguns outros. Por volta do ano de 1847, surgiu a idéia de erguer uma ponte de pedra e alvenaria. Sua construção seria um grande marco para o progresso da cidade, pois facilitaria o acesso à Estrada do Fragata e permitiria que pessoas, veículos e gados atravessassem o arroio a seco. Essa ponte deveria ter 20 metros de comprimento por 17,80 de largura e 5 de altura e estaria localizada na atual rua Marechal Floriano. Sua construção foi difícil. Em 1847 o Palácio do Governo da Província do Sul mandou dinheiro para as obras. O volume I da Bibliografia Sul Riograndense, registra que Friedrich Haydtmann, arquiteto e diretor prático de obras, contratado para o Província, fez, em 1850, a ponte sobre aquele trecho do Santa Bárbara, o que permitiu o desvio das tropas do primitivo trajeto. Mas com o tempo e o crescimento da cidade, aquela obra de engenharia haveria de ser aperfeiçoada. 11 Roberto Dietrich tomou a direção da construção e seguiu seu plano, que previa a colocação de um pavimento de ferro, o qual foi fabricado na fundição do Barão de Mauá, na Ponta da Areia. 12 Depois de iniciadas as obras, a cidade foi assolada por uma repentina enchente a construção ficou paralisada. Em 1957, o chefe da Segunda Seção de Obras Públicas mandou que fossem colocadas canoas no arroio para fazer a travessia de visitantes e para não interceptar o trânsito ao cemitério (que já estava localizado na Estrada do Fragata). A obra reiniciou no ano de 1865 e em 1867 estava enfim concluída. Muitos a chamavam de ponte de pedra, ou ponte do Ritter, pois próximo a ela estava localizada a cervejaria Ritter (veja Figuras 8 e 9). A autoria da construção foi atribuída a José Vieira Pimenta, construtor português de inúmeras obras de Pelotas, que finalizou a obra iniciada por Dietrich. Ainda hoje existe uma placa nas amuradas que restaram da ponte com o nome de Pimenta e de outros que colaboraram para a construção da ponte: Assembléia Provincial e os Presidentes Barão e Conde da Boa Vista e o Homem de Melo. Existe uma outra placa conservada que diz que a ponte fora reformada em Desde então, as pesadas rodas das carretas, naquele ponto, deixaram de se afundar no chão lamacento das margens, percorrendo, seguras a nova passagem. Desapareceram canoas e caiques, que transportavam passageiros de um lado a outro. Não mais se afogavam animais ao atravessarem, a nado, as águas correntosas, naquele ir e vir das bandas do Fragata para as charqueadas, a oeste ao 13 sul da cidade. 11 NASCIMENTO, Heloisa Assumpção. Nossa cidade era assim. Pelotas: Livraria Mundial, GUTIERREZ, Ester J.B.Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas Pelotas: Editora Universitária UFPel, NASCIMENTO, Heloisa Assumpção. Nossa cidade era assim. Pelotas: Livraria Mundial,

12 Em passagem por Pelotas, Augusto de Pinho descreveu a ponte de pedra em 1869: Sobre o rio Santa Bárbara há uma ponte de um só arco, construída com gosto e solidez, que dá passagem para uma larga praça que já conta com um bom número de prédios, seguindo pela estrada que fica em continuação a esse largo, encontra-se 14 o cemitério... Em 1870 estabeleceram a cobrança de um pedágio nessa ponte, que cessou em Figura 8: Fotos da Ponte de Pedra, também chamada de Ponto do Ritter. Início século XX. Fonte: Nelson Nobre Magalhães. Figura 9: Vista da Ponte de Pedra. À esquerda estava situada a Praça das Carretas e à direita (atrás da ponte) a Fábrica de cerveja Ritter, mais atrás o Hospital. Fonte: Nelson Nobre Magalhães. Uma outra ponte também foi construída e reconstruída várias vezes na rua Riachuelo, atual Lobo da Costa. Em 1958 existia uma ponte de madeira de 20,90 metros de comprimento, por 5,70 de largura e 3 de altura. Esta ponte sofreu reformas até 1876, quando um trecho do arroio foi canalizado. Em 1885, recebeu nos acessos suportes de alvenaria, por empreitada de Joaquim Dias Ferreira. No ano de 1908 foi demolida e substituída por uma ponte metálica, com estrados e corrimãos de ferro. 14 MAGALHÃES, Mario Osório. Pelotas: toda a prosa. Primeiro volume Pelotas: Ed. Armazém Literário,

13 Uma terceira ponte foi construída em 1882, pela Companhia Ferro Carril e Cais de Pelotas, situada no prolongamento da Rua Sete de Abril, atual Dom Pedro II (veja Figura 10). Em 1888 a Câmara Municipal mandou alargar esta ponte pelo alinhamento a rua. Em 1907 foi demolida e substituída por outra, segundo Alberto Coelho mandada vir da Europa pela Empresa Industrial e Construtora do Rio Grande do Sul para servir a projetada estrada de Ferro de São Lourenço e por ela cedida a Intendência Municipal na administração do dr. Antero Leivas. 15 Figura 10: Vista da ponte de ferro da Rua Sete de Abril (atual Dom Pedro II). Fonte: Nelson Nobre Magalhães. Segundo lembranças do historiador pelotense, Nelson Nobre Magalhães, existiram ainda pequenas pontes, algumas apenas para pedestres, sendo uma na atual rua Uruguai (nas proximidades da Fábrica de Papel), uma de madeira na rua Telles, uma ponte de ferro na atual Professor Araújo, outra de madeira cerca do Moinho Pelotense (particular) e ainda a ponte do Ramal (antiga linha ferroviária) que se localizava no bairro do Estaleiro (veja Figura 11). Figura 11: Foto da Ponte do Ramal. Fonte: Nelson Nobre Magalhães. 15 GUTIERREZ, Ester J.B.Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas Pelotas: Editora Universitária UFPel,

14 4. O COMEÇO DA ANSIEDADE POR PROGRESSO Abadie Rosa Faria deixou Pelotas em 1910 e em 1917 escreveu Pelotas de Agora para o Almanaque de Pelotas relatando suas impressões sobre a cidade:...depois de uma ausência de quase um lustro, Pelotas já era outra. Impressionarame aquele súbito avanço. A remodelação ia-se impondo...surgiam fábricas, centros de produção manufatureira...e era assim também no perímetro central...a ponte de pedra fora reedificada. Ao lado do Santa Bárbara havia uma praça ajardinada. Para além, o caminho do parque, que dizem agora esplendente, era um novo bairro, que se intensificava com as magníficas instalações da Força e Luz. Com a Proclamação da República e a extinção do trabalho escravo, o Brasil inicia sua inserção em um sistema mais avançado de capitalismo, o que gera uma mudança nas relações de trabalho. Em Pelotas, o processo não é diferente. A urbanização das cidades, de um modo geral, exclui e promove a segregação social dentro do espaço urbano. A partir das duas últimas décadas do século XIX, a cidade passou a crescer em mais de uma direção, seguindo para as periferias, definindo seus três principais bairros: Fragata, Areal e Três Vendas. Foi na década de 1910 que se verificou uma grande modernização urbana da cidade. Durante quase todo esse período, o cargo de Intendente foi ocupado pelo engenheiro, formado na Bélgica, Cypriano Corrêa Barcellos. Em 1911, o então intendente Dr. Carlos Barbosa Gonçalves manifestou a intenção de construir uma ampla avenida beira-rio. Esta avenida começaria no arroio Santa Bárbara e iria até a Praça Domingos Rodrigues, localizada na parte central do porto de Pelotas. Isso se faria com o sacrifício da Rua do Pântano (nome sugestivo, já que esta era a última rua da cidade, no extremo sul, próximo à várzea do São Gonçalo e que hoje nem existe no mapa da cidade) que se manteve com algumas casas até o século XX. O projeto do intendente não vingou. Talvez se tivesse sido concluído, a cidade de Pelotas hoje teria um grande atrativo natural. Atualmente esta zona da cidade possui uma grande ocupação irregular e é esquecida pelo governo municipal. Na época, foi considerado um devaneio do intendente, hoje poderia ser a solução de alguns problemas de Pelotas. A cidade foi se aproximando cada vez mais da várzea do arroio Santa Bárbara, que em 1921 já estava completamente envolvido pela malha urbana. Com a urbanização veio também a retirada da vegetação, que impedia a ação erosiva das águas pluviais. Ruas foram abertas e pavimentadas, impermeabilizando ainda mais o solo. Edificaram-se prédios que dificultavam ainda mais o escoamento natural das águas. A primeira vez que o homem interviu no curso natural do arroio Santa Bárbara foi na execução da Praça Cypriano Barcellos, ainda no século XIX. Parte do terreno foi conquistado do arroio, cujo curso, ao sair da ponte de alvenaria, inclina-se com forte inflexão para leste, vindo a beirar os prédios da Rua Paisandú (atual Barão de Santa Tecla) com frente a oeste, que se prolonga a embocadura da Rua Riachuelo (atual Lobo da Costa) que era banhada no seu término por essas águas. 16 A Câmara Municipal mandou que se cavasse um canal em linha reta em toda a largura da Praça da Constituição, desde a Rua Marechal Floriano até a Lobo da 16 Biblioteca Pública Pelotense Livro de Atas da Câmara Municipal de Pelotas maio

15 Costa, conforme pode ser observado na Figura 12. O arroio foi desviado por meio do canal e o leito antigo passou a fazer parte da praça. Os proprietários dos terrenos do entorno aproveitaram-se da situação e também avançaram sobre o arroio que fora afastado. Em 1888 a praça foi nivelada, aterrada e neste lugar foi construído um cais de alvenaria de 125 metros. Figura 12: Vista da Ponte de Pedra com o leito do arroio canalizado pela primeira vez. À esquerda Praça Cypriano Barcellos. Fonte: Nelson Nobre Magalhães. Todos esses fatores contribuíram para o aumento das enchentes e inundações que passaram a assolar os arredores das várzeas da cidade. Em 1914 houve uma grande enchente onde os arroios atingiram a cota de 10,50 metros acima do nível normal. A partir desse ano houve inúmeras inundações, algumas memoráveis como a de 1941, 1956 e mais recentemente, neste ano de Nelson Nobre testemunhou a enchente de 1956: Na nossa pouca idade, não nos preocupava o perigo e, junto alguns garotos, da nossa idade, entramos água adentro para ajudar os ribeirinhos, na retirada de seus pertences. A cidade cresceu e não foram planejadas as ocupações das baixadas, várzeas, córregos e arroios, permitindo a existência de áreas inundáveis. Pelotas não tinha um plano público de zoneamento e as indústrias ocupavam áreas de seu interesse, que normalmente eram próximas ao Porto e à Ferrovia, ou mesmo dentro da área urbana, que se expandia rapidamente. Os trabalhadores dessas indústrias procuravam locais próximo ao seu trabalho para morar, e não importava se o saneamento era ineficiente, o acesso era difícil ou existisse a possibilidade de enchentes. Tornou-se comum a construção de casas em áreas próximas às mananciais de água, principalmente por pessoas de baixa renda. Indústrias, matadouros, curtumes e população não tinham nenhuma preocupação em despejar seus resíduos e esgotos diretamente nos cursos de água, até então despoluídos. E nas margens do Santa Bárbara não foi diferente. O Relatório da Diretoria de Higiene Municipal de 1916 dizia que: as minúcias deste relatório patenteiam o miserável estado sanitário do arroio Santa Bárbara, verdadeira cloaca imunda de toda a sorte de despejos de casas particulares e fábricas. E ainda alertava que: Tal situação, a ser mantida, se torna, cada vez mais, uma severa ameaça para a salubridade pública desta cidade, pois o arroio já perdeu em parte, e vão perder ainda mais, o grande volume de águas que pelas sarjetas nele ia ter para aumentar a sua descarga e melhorar a sua velocidade. 15

16 Neste mesmo ano, o Engenheiro Chefe Municipal solicitou castigo severo para aqueles que contaminarem as águas do arroio Santa Bárbara. Foram identificados treze fábricas, dentre as quais seis curtumes, o Matadouro Público e dezenas de casas e cortiços. Embora nesta época já houvesse preocupação do Poder Público com as questões de saneamento e higiene, a população parecia não se preocupar, colocando interesses pessoais e econômicos acima de tudo. Algumas fábricas preferiam jogar lixo em seus quintais a pagar pelo transporte de seus resíduos industriais para outros locais, mesmo que isso custasse a vida do arroio. O próprio Hospital da cidade, que estava localizado próximo às margens do Santa Bárbara depositava restos de lixo hospitalar por ali. O relatório da Intendência de 1922 afirmava que: Pelotas não pode permanecer com um lençol tão extenso de águas paradas ou terrenos encharcados em suas cercanias durante boa parte do ano. Em 1927, o engenheiro Saturnino de Brito já alertava em relatórios do Saneamento de Pelotas que deveriam ser regulamentadas servidões e utilizações do Santa Bárbara em função do seu saneamento, evitando assim conseqüências mais graves futuramente. Sugeria que o arroio fosse canalizado e que os terrenos de suas planícies fossem drenados. O Poder Público atuava tentando melhorar as condições dos arroios e de saneamento básico e prolongando avenidas, afinal a população estava sempre crescendo. Mas a população das zonas ribeirinhas ia crescendo descontroladamente, fato agravado pelo êxodo rural. As margens do Santa Bárbara foram prejudicadas também devido à sua proximidade com o centro da cidade. Como as fábricas se localizavam na maioria na zona central, os trabalhadores também tentavam se localizar próximos a elas. Com a falta de infra-estrutura adequada a situação cada vez se agravava mais. Em pouco menos de meio século o arroio estava totalmente poluído. No final do século XIX lavadeiras utilizavam suas águas límpidas para lavar a roupa suja, pescadores passeavam com suas embarcações. Mas o arroio, que era um patrimônio natural, acabou sofrendo com as conseqüências da má utilização das suas águas. Em relatórios do Saneamento de Pelotas, datado de 1947, havia o pensamento que não se deveria desprezar o que a natureza já havia executado, e que o leito atual, retificado e dragado desde sua foz no canal São Gonçalo até a ponte da Rua Sete de Abril (Dom Pedro II), poderia servir ao tráfego de pequenas embarcações, e revestido no trecho entre a Sete de Abril e a Ponte de Pedra, seria a solução útil à cidade, pois resolveria economicamente o problema do saneamento da zona atravessada e serviria ao tráfego fluvial. Outra solução apresentada foi a da criação de uma bacia defendida por um dique que iria do Porto à Estrada de Ferro, e que seria esgotada por meio de bombas. Assim como os devaneios do intendente Dr. Carlos Barbosa Gonçalves, essas propostas não foram levadas adiante. Do mesmo modo, se tivessem sido realizadas, nossa história hoje seria diferente. Na década de 60, começaram a crescer as manifestações populares para uma solução para o problema do arroio, que tinha se tornado um estorvo para os moradores de Pelotas. Enchentes constantes, mau cheiro, sujeira e transbordamento de valetas. Alguns culpavam o Poder Público pela falta de uma política governamental clara. Outros as indústrias e fábricas. O certo é que não soubemos valorizar esse 16

17 importante recurso natural. Município, fábricas, curtumes, mas principalmente nós, homens, seres humanos, fomos culpados pela poluição do arroio. Descaso, preguiça, interesses pessoais, desconhecimento, ambição, são algumas palavras que podem ser empregadas para a explicação desse fato. Assim, segundo relatório do Ródio, para regularização de enchentes e captação de água para fins de reforço do abastecimento da cidade de Pelotas 17, foram desenvolvidos na década de 50, projetos para canalização do arroio Santa Bárbara e construção de uma barragem do arroio, para a Estação de Tratamento de Água da cidade, assim sanando com dois problemas que atormentavam os pelotenses: enchentes e falta d água. No final da década de 60, o anseio pelo progresso estava cada vez maior. Sob a administração de Louzada, vários projetos urbanísticos eram criados prevendo a evolução da cidade. Não foi a toa que no ano de 1968 foi feito o Primeiro Plano Diretor de Pelotas, prevendo abertura de grandes avenidas perimetrais. Uma das razões da criação do SANEP, em 25 de outubro de 1965 sob a sigla SAAE - Serviço Autônomo de Água e Esgotos -, foi a assinatura do contrato de financiamento das obras da Hidráulica do Arroio Santa Bárbara em O projeto final foi elaborado pelo Escritório Saturnino de Brito e executado pela construtora Pelotense Ltda. com base no Anteprojeto do reservatório do Arroio Santa Bárbara concebido em 1953 pela Comissão de Estudos de Obras de Irrigação do Estado do Rio Grande do Sul e no projeto final de barragem do Arroio, cujas obras se encontravam em andamento sob comando do DNOS. Contrato assinado, financiamento acertado, coube agora o marketing do governo sobre suas benfeitorias para a cidade. O jornal Diário Popular de 28 de abril de 1968 trazia a seguinte manchete: Com a Radial, Norte e Oeste da Cidade ficarão mais próximos. E o texto seguia dizendo: Não bastará, contudo, a pavimentação desse trecho da Marcílio Dias para torná-la uma via radial, ainda que provisoriamente. Há necessidade de realizar outras obras no seu trecho final, ou seja, o ponto onde é interrompida pelo arroio Santa Bárbara, que é também onde a rua desemboca no Largo Aldrovando Leão (defronte à Cia. Pelotense de Eletricidade). Observando-se o citado local, agora, notar-se-á que o pequeno bar da esquina o Novo canto do Rio está fechado, que igualmente as casinhas, nos fundos, têm as portas e janelas cerradas, que já não são habitadas; sucede, na realidade, que a Prefeitura de Pelotas desapropriou tais prédios, pois aquilo que ali é hoje uma simples ruazinha vai ser alargada e pavimentada e construirá no futuro, o trecho final da grande avenida chamada Primeira Radial Norte Principal de Pelotas, além disso, nesse ponto, o leito do arroio santa Bárbara será aterrado, aliás, deve ser assinalado que será esse o primeiro ponto do Santa Bárbara a receber aterro; ali, justamente onde agora existe uma transitadíssima ponte de madeira, o Santa Bárbara será cortado pela primeira vez dentro da zona urbana. Fica claro com as notícias dos jornais que o Poder Público passava à populção uma idéia de modernidade. Citações como Primeira Radial Norte Principal de Pelotas em substituição a uma transitadíssima ponte de madeira com certeza davam idéias de progresso e avanços. Era notável o descaso com o leito do arroio e suas pontes que ainda sobreviviam no fim da década de 60. Aguardava-se com ansiedade a conclusão das obras da barragem. Manchetes dos jornais indicavam que a barragem ficaria pronta 17 RODIO S.A Arroio Santa Bárbara - estudos topográficos, geotécnicos e hidrológicos no Rio Grande do Sul. Relatório complementar No , Rio de Janeiro. 17

18 até novembro de 1968 e diziam que na primeira etapa da obra ela forneceria 20 milhões de litros de água diários para Pelotas além de prevenir contra enchentes. Enquanto isso, as pontes que foram construídas no século XIX precisavam de manutenção. Notícia do jornal Diário Popular de maio de 1968 alertava que a ponte da Rua Urbano Garcia (atual Rua Professor Araújo) estava em estado de emergência e que necessitava de reparos. A Prefeitura respondeu que colocaria um aterro para solucionar o problema provisoriamente. Seis dias após essa notícia, em 31 de maio, o jornal Diário Popular noticiava: Ponte do Santa Bárbara: local vai ser aterrado. Queda da ponte na rua Urbano Garcia. O Acidente provocará o início imediato da aterragem do leito do Santa Bárbara, pois já se encontra pronto o novo leito, á altura da Lomba do Fragata. O desaparecimento dessa ponte provocará acréscimo de trânsito pela Floriano. A solução para o problema é a rápida abertura da avenida Perimetral que desembocará no Largo Androvando Leão e passará a ser via obrigatória para veículos de carga. Os jornais seguiam noticiando o que acontecia às pontes do santa Bárbara. Em 29 de junho do mesmo ano, a manchete do Dário era a seguinte: Água, umidade e ferrugem corroem ponte da Pedro II. A reportagem falava que a Prefeitura havia sido solicitada a chamar uma equipe de técnicos especializados a fim de realizar uma perícia sobre as condições de segurança da ponte sobre a Rua Dom Pedro II, para evitar o desmoronamento como ocorreu com a ponte da Urbano Garcia. Os técnicos vieram de outras cidades, já que Pelotas não contava com mãode-obra especializada. Falaram que o estado da estrutura metálica era precário e que a ponte não possuía contraventamento, o que fazia com que ela se movimentasse quando um veículo passava. Eram necessários reparos na estrutura metálica, limpeza, pintura, reconstrução do estrado de concreto e também limitar o peso dos veículos. A resposta do Governo era a autorização para a Secretaria Municipal tomar todas as decisões necessárias para as medidas de segurança. No dia 7 de novembro de 1968, era feito através dos jornais o convite para a inauguração da Barragem Santa Bárbara. Através da leitura dos jornais da época, principalmente desse ano de 1968, nota-se que já não importava mais reparar as antigas pontes: o arroio iria ser aterrado e elas não seriam mais necessárias. Assim, pouco a pouco elas foram ruindo e desaparecendo do cenário da cidade. A única que ainda permanece é a Ponte de Pedra. O novo leito do arroio já estava pronto, como diz a notícia á altura da Lomba do Fragata. Foi localizado em uma zona ainda não povoada da cidade, um pouco mais a oeste, em direção ao cemitério no bairro Fragata. O arroio Santa Bárbara, que possuía ao todo 15 km de extensão, desde sua nascente próximo ao Monte Bonito até desaguar no canal São Gonçalo, teve seu curso retificado e canalizado a partir da Barragem do Santa Bárbara. Segundo Guerra e Cunha, a canalização é uma obra de engenharia realizada no sistema fluvial que envolve a direta modificação da calha do rio e desencadeia consideráveis impactos, tanto no canal quanto na planície de inundação. Existem diferentes processos que consistem desde o alargamento da calha fluvial, a retificação do canal principal e a construção de canais artificiais e diques de contenção nas suas margens, além da remoção de obstáculos nos canais. 18 Muitos são os problemas apontados sobre a canalização de rios e arroios, tais como: mudança dos padrões de drenagem, perda dos meandros que aumentam a 18 GUERRA, A.T.; CUNHA, S.B. Geomorfologia, uma atualização de bases e conceitos. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil,

19 quantidade de sedimentos transportados e dando origem a novos depósitos que podem assorear o canal, mudança na flora e fauna do local etc. Para agravar a situação, a cidade continuou crescendo, e a população acabou por ocupar algumas áreas aterradas do antigo arroio. Estes terrenos pertencem à União e são ocupados por posseiros que têm dificuldade em regularizar a sua situação perante a Prefeitura Municipal. O mais absurdo exemplo de ocupação do antigo leito é o da Receita Federal. O seu prédio foi construído ao lado da Ponte de Pedra, na década de 90. Nessa época, o projeto foi aprovado pelos órgãos da Prefeitura e ninguém notou que ele previa a destruição da ponte para dar lugar à entrada principal. Um Promotor conseguiu uma liminar e as obras ficaram paradas por algum tempo. Sofrendo pressões por parte dos preservacionistas da cidade, o projeto foi alterado, fazendo a entrada ao prédio localizar-se na rua lateral (veja Figura 13). Figura 13: Prédio da Receita Federal de Pelotas. Projeto previa demolição da ponte para acesso à escadaria. Fonte: Glenda Dimuro Peter Foi uma grande conquista, pois esta é o único vestígio físico que ainda resta do saudoso arroio. Mas outros vestígios não nos deixam esquecer de sua existência... Embora a canalização do arroio tenha sido feita por vários motivos, dentre eles acabar com as enchentes, o seu antigo percurso, que chamamos de braço morto, traz lembranças dos tempos em que ele cortava a cidade. Estas zonas continuam sofrendo com os alagamentos, como se a natureza teimasse em colocar o Santa Bárbara em seu trajeto original. 19 É bem verdade que um grande trecho do antigo arroio nunca conseguiu ser agregado à malha urbana, causando grandes vazios urbanos, terrenos murados e abandonados em meio aos quarteirões existentes, ou então ocupados por pessoas de baixa renda, que constroem seus casebres em meio a terrenos alagadiços, em vazios urbanos entre os quarteirões da cidade, como podemos observar nas Figuras 14 e CORDEIRO, Leandro Hartleben. Identificação e caracterização da Bacia de Captação do Reservatório Santa Bárbara-Pelotas. Monografia apresentada como requisito parcial à conclusão do curso de Oceanologia da FURG

20 Figura 14 e 15: Vista de terrenos abandonados em meio à malha urbana. Na Figura 14 observamos um terreno murado e à esquerda vestígios da ponte na Rua Lobo da Costa. Na Figura 15, banhados ocupados por população de baixa renda. Fonte: Glenda Dimuro Peter Na Figura 16, nos mostra o aerofotogramétrico da década de 70. Em azul podemos observar o curso do arroio Santa Bárbara pela malha urbana de Pelotas e também o canal com o percurso desviado. Nota-se que os aterramentos não foram feitos todos na mesma época, mas ao longo de alguns anos, conforme as necessidades. Figura 16: Aerofotogramétrico da década de 70. Fonte: Prefeitura Municipal de Pelotas 20

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