CAROLINE LÚCIA COSTA MOIA CHICHORRO

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1 CAROLINE LÚCIA COSTA MOIA CHICHORRO Mestranda em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul Orientadora: Patrícia Reuillard Terminologia do licenciamento ambiental: metodologia de coleta de termos Este trabalho objetiva apresentar a metodologia utilizada para a recolha dos termos do Licenciamento Ambiental em língua portuguesa (variante brasileira - PtBr) e seus equivalentes em língua inglesa (variante norte-americana - EnAm), bem como uma pequena amostra dos resultados obtidos. Trata-se da primeira etapa de uma pesquisa de mestrado que buscará produzir uma proposta de glossário para a área. A motivação para a pesquisa advém da necessidade de criar um instrumento que possa facilitar a comunicação entre os analistas de meio ambiente e investidores estrangeiros ou demais interessados nas questões ambientais não falantes de português, sobretudo no estado de Mato Grosso, onde atuamos como analista na Secretaria de Estado de Meio Ambiente SEMA. O glossário que almejamos propor será uma obra voltada aos termos mais relevantes ao tema, dados em português, com seus respectivos equivalentes em inglês, beneficiando, também, os profissionais da tradução, intermediadores da comunicação, e outros profissionais da área ambiental. O Brasil desperta o interesse internacional porque possui um dos maiores remanescentes de floresta tropical do mundo, a floresta Amazônica, além de biomas importantes pela riqueza em biodiversidade, como o Cerrado e o Pantanal, e um grande potencial hídrico para abastecimento e geração de energia elétrica, elementos presentes no estado de Mato Grosso. Além da abundância em recursos naturais, o país apresenta um mercado consumidor em expansão, o que atrai empreendedores de outras partes do mundo. Prova disso foi sua classificação entre os cinco melhores destinos para investimentos estrangeiros diretos assim como o montante de US$ 64 bilhões recebidos nesta categoria de investimentos no ano de 2013 (BRASIL, 2014, p. 1). Por essa razão, visando assegurar a preservação do meio ambiente sem impedir o desenvolvimento econômico, o governo federal instituiu, em 1981, o licenciamento ambiental, por meio do qual os órgãos ambientais autorizam a localização, instalação e o funcionamento das atividades utilizadoras de recursos naturais consideradas potencialmente poluidoras ou que causem degradação ambiental. Este instrumento da Política Nacional de Meio Ambiente (Lei n /81) é considerado complexo porque se divide em três etapas, de modo que, até a conclusão do licenciamento ambiental, o Poder Público concede três licenças ao

2 empreendedor: licença prévia (autoriza a localização do empreendimento), licença de instalação e licença de operação. Para a fundamentação do trabalho, recorremos aos pressupostos teórico-metodológicos da Teoria Comunicativa da Terminologia (CABRÉ, 1999), que compreende os termos como unidades léxicas pertencentes às línguas naturais, com características e propriedades semelhantes a elas, e que adquirem estatuto terminológico no âmbito das comunicações especializadas. Na Linguística de Corpus (SARDINHA, 2004), disciplina que se ocupa da coleta e exploração de conjuntos textuais para fins de pesquisas linguísticas e adota uma visão da linguagem como um sistema probabilístico, buscamos orientação quanto ao uso e processamento de corpora, visando realizar uma pesquisa baseada em corpus. Para a busca de equivalentes, baseamo-nos nos estudos de jurilinguística (GÉMAR, 1998), que definem como equivalentes funcionais aquelas estruturas do texto de chegada que expressam as mesmas relações semânticas e efeitos pragmáticos do texto de partida. Iniciamos a pesquisa com a construção de uma árvore de domínio, elaborada com base nos principais atos normativos que instituem e regulamentam o licenciamento ambiental, a saber a Lei Federal n /1981 Política Nacional do Meio Ambiente, e as Resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA n. 001/1986 e n. 237/1997, além de manuais de orientação. Os mesmos documentos serviram de base para a construção de fluxogramas do licenciamento ambiental, complementados por informações técnicas fornecidas por analistas de meio ambiente da SEMA-MT, especialistas no tema. Tais diagramas foram construídos visando uma melhor compreensão do licenciamento e maior segurança na etapa de seleção dos termos, complementando a árvore de domínio. A pesquisa se realiza em dois corpora, um em português e outro em inglês. Ambos se constituem de textos escritos, coletados da web em formato PDF, organizados em diretórios segundo a língua e o tipo (legislação ou manuais). Posteriormente foram convertidos ao formato Word e limpos, excluindo-se informações não relevantes à pesquisa, como figuras, gráficos e notas de rodapé. O corpus em português foi constituído pela legislação referente ao licenciamento ambiental (apenas leis, decretos e resoluções), tanto do âmbito federal como do estado de Mato Grosso, além de manuais elaborados para orientar os investidores (FIESP, 2006; TCU, 2007 e SEBRAE, 2012). Esse conjunto é composto por 39 textos, totalizando aproximadamente tokens. Já o corpus em inglês foi construído a partir do corpus de legislação americana de temática ambiental organizado pelo grupo Termisul, formado por cinquenta títulos correspondentes a leis permanentes e gerais, Acts e Amendments, coletados do Código Americano (US Code). A tais documentos somaram-se mais doze, coletados a partir de nova busca realizada no referido

3 Código com base nas combinações environmental + license e environmental + permit, visando agregar possíveis atualizações da legislação e atos recentemente publicados. Também fazem parte desse corpus dois manuais. O corpus em inglês totalizou aproximadamente tokens. A diferença acentuada em relação ao número de tokens entre os dois corpora de estudo justifica-se pelo fato de um maior volume de textos da legislação americana, o que, para nós, deverá trazer certo benefício na busca dos equivalentes. Utilizamos o software AntConc, disponibilizado gratuitamente na rede, para a análise dos corpora e a consequente identificação dos termos e seus possíveis equivalentes. O programa traz variadas ferramentas para o estudo de corpus, das quais elegemos a word list (lista de palavras) para verificarmos as palavras com maior ocorrência; o cluster/n-gram (agrupamentos), que nos possibilita averiguar as combinações lexicais; bem como o concordance (concordanciador), que utilizamos para o estudo dos contextos de ocorrência das palavras. Os candidatos são selecionados avaliando-se sua frequência, distribuição, contexto e coerência com o tema. Posteriormente os candidatos são confirmados ou refutados com base na árvore de domínio e nos fluxogramas do licenciamento ambiental, por meio dos quais atestamos sua pertinência à área. As palavras ambiental, licenciamento, ambiente, licença e impacto figuram entre as vinte mais frequentes no corpus em PtBr, o que demonstra sua relevância para a área. Ao verificarmos os clusters/n-gramas com essas palavras, deparamo-nos com uma série de combinatórias léxicas que consideramos representativas da área e que nos deram indícios de que este repertório terminológico se constituirá, majoritariamente, de sintagmas terminológicos. Assim, conforme avançamos com o processo de investigação, as seguintes unidades terminológicas podem exemplificar a terminologia levantada até o momento para o licenciamento ambiental: licença prévia, licença de instalação e licença de operação; impacto ambiental, impacto significativo, impacto negativo e impactos cumulativos. Em relação aos equivalentes, o processo investigativo é semelhante, diferenciando-se apenas pelo fato de já termos pistas de que palavras procurar, em decorrência dos termos já levantados em português. Observamos, até o momento, que os termos mais frequentes apontados pela lista de palavras em inglês não correspondem aos termos mais frequentes trazidos pelo corpus do português. Na lista gerada em PtBr, ambiental é a primeira palavra e licença a sexta, enquanto a lista em EnAm traz section (seção) em primeiro lugar e act (lei) em sexto. A palavra environmental (ambiental) aparece na 50 a posição e permit (licença) apenas em 66 a. Assim, para os sintagmas terminológicos exemplificados do português, encontramos os respectivos equivalentes em inglês: licença prévia preliminary permit, licença de instalação construction permit/license, licença de operação operating license/permit; impacto ambiental environmental impact,

4 impacto significativo significant impact, impacto negativo negative impact e impactos cumulativos cumulative impacts. Os equivalentes ainda não foram confirmados, pois a pesquisa está em andamento. No entanto, foi possível observar, para os termos de base licença em PtBr, a ocorrência, em inglês, de combinações tanto com o substantivo permit quanto com license. Aparentemente esses dois substantivos, permit e license, são utilizados como sinônimos, o que ainda precisará ser confirmado. Em relação aos equivalentes para as combinatórias de base impacto (impact), não enfrentamos problemas para a sua identificação. Salientamos que neste estágio da pesquisa estamos analisando o corpus em PtBr, mas que um estudo piloto já havia nos apontado dificuldades quanto à busca de equivalentes em inglês. Tais dificuldades são consequência, primeiramente, das diferenças entre os sistemas jurídicos adotados nos dois países, bem como das peculiaridades do licenciamento ambiental brasileiro. Os Estados Unidos adotam o sistema de Common Law, de origem inglesa, que se caracteriza pela tradição oral, com decisões baseadas nos costumes e na jurisprudência (sentenças de julgamentos análogos). Já no Brasil, o sistema jurídico adotado é o Civil Law, de base romana e de caráter positivo, com normas gerais e escritas, cuja principal fonte do direito é a lei, aplicada em casos concretos. Quanto ao licenciamento ambiental, especificamente, muito embora nossas normativas se espelhem na legislação americana, pioneira na adoção da avaliação de impactos ambientais na década de 70, o nosso sistema é, provavelmente, o único no mundo a ter um processo trifásico, com procedimentos separados para a concessão das licenças em diferentes estágios. Após repertoriarmos os termos da área em português e seus equivalentes em inglês, o próximo passo será a elaboração de um modelo de ficha terminológica que atenda às necessidades dos potenciais usuários da obra, visando à construção futura de um glossário de licenciamento ambiental. Palavras-chave: Terminologia; Licenciamento Ambiental; Glossário. Referências BARROS, Lídia Almeida. Curso Básico de Terminologia. São Paulo: Edusp, p. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução n. 237, de 19 de dezembro de Disponível em: < Acesso em: 20 ago

5 CABRÉ, Maria Teresa. Terminology: theory, methods and applications. Edited by Juan C. Sager; translated by Janet Ann De Cesaris. Amsterdam: John Benjamin Publishing Co., FAULSTICH, Enilde Leite de Jesus. Metodologia para projeto terminográfico. [s.l./s.n.] Disponível em: <http://www.riterm.net/actes/2simposio/faulstich.htm>. Acesso em 16 de julho de FEDERAÇÃO DA INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO FIESP. Licenciamento Ambiental e as micro e pequenas empresas, v. 1. São Paulo, GÉMAR, J. C. Les enjeux de la traduction juridique. Principes et nuances. Astti Seminar: Équivalences 1998: Traduction de textes juridiques: problèmes et méthodes Disponível em : - Acesso em 12/10/2014. KRIEGER, Maria da Graça; FINATTO, Maria José Bocorny. Introdução à Terminologia: teoria e prática. São Paulo: Contexto, MILARÉ, Edis. Direito do Ambiente. 4ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, PAVEL, Silvia; NOLET, Diane. Manual de Terminologia. Tradução de Enilde L. de J. Faulstich. Canadá, p. Disponível em: <www.fit-itf.org/download/presport.pdf>. Acesso em: 14 de agosto de SARDINHA, Tony Berber. Linguística de Corpus. São Paulo: Manole, SERVIÇO BRASILEIRO DE APOIO ÀS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS SEBRAE. Licenciamento Ambiental. Cuiabá: Sebrae, SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 7ª ed. São Paulo: Malheiros Editores LTDA, TRENNEPOHL, Curt; TRENNEPOHL, Terence. Licenciamento Ambiental. 5ª ed. Niterói: Impetus, TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO - TCU. Cartilha de licenciamento ambiental. 2.ed. Brasília: TCU, 2007.

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