UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ. Rodrigo Manrich dos Santos A REMOÇÃO DO SERVIDOR MILITAR DO ESTADO NO PARANÁ

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1 UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ Rodrigo Manrich dos Santos A REMOÇÃO DO SERVIDOR MILITAR DO ESTADO NO PARANÁ CURITIBA 2010

2 A REMOÇÃO DO SERVIDOR MILITAR DO ESTADO NO PARANÁ CURITIBA 2010

3 Rodrigo Manrich dos Santos A REMOÇÃO DO SERVIDOR MILITAR DO ESTADO NO PARANÁ Monografia apresentada ao curso de Direito da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade Tuiuti do Paraná como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito. Orientador: Thiago Lima Breus CURITIBA 2010

4 TERMO DE APROVAÇÃO Rodrigo Manrich dos Santos A REMOÇÃO DO SERVIDOR MILITAR DO ESTADO NO PARANÁ Esta monografia foi julgada e aprovada para a obtenção do grau de Bacharel em Direito no Curso de Direito da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade Tuiuti do Paraná. Curitiba, de de Prof. Dr. Eduardo de Oliveira Leite Coordenador do Núcleo de Monografia Universidade Tuiuti do Paraná Curso de Direito Orientador Prof. Thiago Lima Breus Universidade Tuiuti do Paraná Curso de Direito Prof. Universidade Tuiuti do Paraná Curso de Direito Prof. Universidade Tuiuti do Paraná Curso de Direito

5 Ao meu filho, Guilherme, que mesmo sem saber foi quem inspirou e deu forças para enfrentar a jornada, obrigado pelo carinho transmitido nesses cinco anos em que lhe faltei. A primeira e mais talentosa professora, Sra. Clelia Salete Manrich, muito obrigado Mãe. Ao excelente corpo docente da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade Tuiuti do Paraná e, em especial, ao Professor Orientador Thiago Lima Breus, obrigado pelos ensinamentos. Aos colegas pela paciência que demonstraram nesse longo convívio, que o fim do Curso não signifique o fim da parceria.

6 RESUMO O objeto da pesquisa é a Remoção do Servidor Militar do Estado no Paraná. Em primeiro plano, identifica qual é a competência que a Constituição atribuiu a Polícia Militar e apresenta sua estrutura. Em seguida, examina o procedimento de movimentação de pessoal na seara da Administração Pública Militar, demonstra que a remoção deve preencher os requisitos legais próprios do ato administrativo para se conformar com o ordenamento jurídico. Expõe a maneira pela qual o procedimento ocorre interna corporis. Constata que o Poder Judiciário tem invalidado atos de remoção quando presentes vícios de finalidade ou carência de motivação. É relevante o estudo porquanto a remoção do servidor militar é procedimento que reflete nos direitos individuais dos servidores e na segurança pública. Palavras-chave: Servidor Militar do Estado do Paraná; Ato administrativo; remoção; requisitos legais.

7 LISTA DE ABREVIATURAS ADI... Ação Direta de Inconstitucionalidade ABERGS... Associação dos Bombeiros do Estado do Rio Grande do Sul BG... Boletim Geral BPAMB... Batalhão de Polícia Ambiental BPEC... Batalhão de Patrulha Escolar Comunitária BPGD... Batalhão de Polícia de Guarda BPM... Batalhão de Polícia Militar BPTRAN... Batalhão de Polícia de Trânsito Cap.... Capitão Cb.... Cabo Cel.... Coronel CIA... Companhia CIA FRONT... Companhia Independente de Policiamento e Operações de Fronteira CIA IND... Companhia Independente CIA P CHOQ... Companhia de Polícia de Choque CIA POL GDA... Companhia de Polícia de Guarda CIA P PORT... Companhia Independente de Polícia Portuária CIPM... Companhia Independente de Polícia Militar CPC... Comando do Policiamento da Capital CPI... Comando do Policiamento do Interior EM... Estado Maior LOB... Lei de Organização Básica Maj.... Major Pel... Pelotão PGE... Procuradoria Geral do Estado PMAM... Polícia Militar do Amazonas PMMT... Polícia Militar do Mato Grosso PMPR... Polícia Militar do Paraná QPM... Quadro Policial Militar RISG... Regulamento Interno de Serviços Gerais RPMON... Regimento de Polícia Montada Sd.... Soldado Seç.....Seção Sgt.... Sargento STJ... Superior Tribunal de Justiça Sub-Ten... Sub-Tenente Ten.... Tenente Ten-Cel...Tenente-Coronel TJPR... Tribunal de Justiça do Estado do Paraná

8 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO A DISCIPLINA CONSTITUCIONAL DA SEGURANÇA PÚBLICA A COMPETÊNCIA DA POLÍCIA MILITAR A POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ A ESTRUTURA PMPR A APLICAÇÃO DO REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO À PMPR A NATUREZA JURÍDICA DA REMOÇÃO A REMOÇÃO E OS REQUISITOS DO ATO ADMINISTRATIVO Competência Finalidade Forma Objeto Motivo e Motivação A INVALIDADE DO ATO ADMINISTRATIVO E A REMOÇÃO Da invalidade do ato de remoção por falta de motivação Da invalidade do ato de remoção por desvio de finalidade CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANEXOS Código da Polícia Militar do Estado - Lei de Junho de Portaria do Comando-Geral nº 825, de 26 de junho de

9 7 1 INTRODUÇÃO A Polícia Militar, órgão da administração direta do Estado e componente do sistema da segurança pública, é responsável pela polícia ostensiva e a preservação da ordem pública. É uma instituição que exerce funções fundamentais para a manutenção do Estado de Direito, consolidou-se como o principal mecanismo do sistema de segurança pública. Sua estrutura básica, para a execução da atividade fim é composta por unidades militares denominadas de Batalhões ou Regimentos, os quais são distribuídos proporcionalmente no território por critérios funcionais ou de responsabilidade territorial. A fim de preencher seus quadros efetivos, a Polícia Militar utiliza-se do concurso público para contratar seus servidores. Após a formação técnica, o integrante da corporação é designado para assumir encargos em uma determinada unidade, compondo o efetivo. Ocorre que a atividade de segurança pública é dinâmica e está sempre influenciada por fatores sociais, como a variação da densidade demográfica, as transformações econômicas, ambientais e políticas. Devido à natureza da atividade desempenhada, a necessidade de movimentar o efetivo militar de uma unidade a outra é constante, ora em substituição das perdas, ora para modernizar a atividade fim. Esta pesquisa buscará compreender, sob o ponto de vista jurídico, como ocorre o procedimento administrativo de remoção do efetivo da Polícia Militar do Paraná e quais são os requisitos exigidos para a adequação deste ato administrativo ao ordenamento jurídico. Para desenvolvimento do tema, preliminarmente, verificar-se-á qual é a competência que a Constituição Federal de 1988 atribuiu a Polícia Militar, bem como qual estrutura possui o órgão para o desempenho de seus encargos. Buscou-se amparo na doutrina administrativista e nos julgados dos Tribunais Pátrios. Constatou-se que, frequentemente, o Poder Judiciário tem invalidado atos de remoção de servidores, por entender contrário às prescrições legais.

10 8 Ao eleger o tema A Remoção do Servidor Militar do Estado no Paraná procurou-se conciliar o cumprimento da imposição curricular do Curso de Graduação em Direito ao interesse relacionado à minha atividade profissional, nos nove anos de serviços prestados junto a PMPR. A pesquisa se concentra na instituição paranaense, pois, como se verá, cada Estado possui competência para organizar administrativamente sua força policial, cada qual com Leis e Regulamentos próprios e distintos entre si, o que impede que as considerações tecidas sirvam para todas as instituições policiais militares.

11 9 2 A DISCIPLINA CONSTITUCIONAL DA SEGURANÇA PÚBLICA A segurança pública é um tema que sempre esteve inserido nas normas nacionais, pois está diretamente relacionada ao dever do estado de proteção da sociedade e a consequente possibilidade de imposição de sanções aos seus cidadãos. O marco normativo moderno que disciplina a segurança pública é a própria Constituição de 1988, nela se encontra um capítulo específico sobre a temática. Art A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: I - polícia federal; II - polícia rodoviária federal; III - polícia ferroviária federal; IV - polícias civis; V - polícias militares e corpos de bombeiros militares. Toda essa sistemática não tem razão de ser senão para assegurar os direitos e garantias individuais consagrados no art. 5º, em especial, o direito fundamental a segurança, previsto em seu caput: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos seguintes termos [...]. O art. 144 define a quem compete promover a segurança pública, a quem ela beneficiará e de que forma será exercida. O dever de promover a segurança pública volta-se principalmente aos Estados membros, contudo, a responsabilidade pela segurança pública é de todos, não prescindindo da participação da sociedade, quer pessoas físicas ou jurídicas. Para que a Administração Pública cumpra essa função essencial, o Constituinte dividiu o encargo a uma multiplicidade de órgãos policiais, uns subordinados a União e outros aos Estados, cada qual com competência distinta, formando o sistema de segurança pública. Essa divisão, segundo o Constitucionalista Alexandre de Moraes, tem dupla finalidade: o atendimento aos reclamos sociais e a redução da possibilidade de

12 10 intervenção das Forças Armadas na segurança interna (2007, p. 767). Ou seja, o Constituinte vislumbrou a necessidade de um conjunto de órgão com funções específicas para combater a insegurança, cada vez mais presente no cotidiano nacional e, por razões históricas, afastou as Forças Armadas desse mister. Ao definir as atribuições, o Constituinte delimitou a competência da União por meio de um rol taxativo de deveres: Art. 144 [...] 1º A polícia federal, instituída por lei como órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se a: I - apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei; II - prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o contrabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência; III - exercer as funções de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras; IV - exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária da União. 2º A polícia rodoviária federal, órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da lei, ao patrulhamento ostensivo das rodovias federais. 3º A polícia ferroviária federal, órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da lei, ao patrulhamento ostensivo das ferrovias federais. Com efeito, ressalvadas as competências federais, aos Estados membros foi atribuída à responsabilidade central da segurança pública. Sobre o tema, os atuais ensinamentos de José Afonso da Silva: Quando a Constituição atribuiu as Polícias Federais a competência na matéria, logo se vê que são atribuições em campo e questões delimitados e estritamente enumerados, de maneira que, afastadas essas áreas especificadas, a segurança pública é de competência da organização policial dos estados, na forma mesma prevista no art. 144, 4º, 5º e 6º. (2009, p. 637). No Paraná, em linhas gerais, o Constituinte Estadual ratificou a sistemática nacional. No entanto, no que diz respeito à estrutura, instituiu a Polícia Científica, por meio de Emenda Constitucional, como órgão da segurança pública autônomo. O art. 46 da Carta Estadual define:

13 11 A segurança Pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos é exercida, para a preservação da ordem pública e incolumidade das pessoas e do patrimônio, pelos seguintes órgãos: I - Polícia Civil; II - Polícia Militar; III - Polícia Científica. (Incluído pela Emenda Constitucional 10 de 16/10/2001) Parágrafo único: O Corpo de Bombeiros é integrante da Polícia Militar. Logo, o Estado dispõe, para a realização da segurança pública, da Polícia Civil, da Militar, da Científica e do Corpo de Bombeiros. Destaca-se no Paraná, a instituição da Polícia Científica como órgão independente da Polícia Civil. Formato que, segundo alguns, é inconstitucional 1. Em contrário, o Corpo de Bombeiros ainda integrado à Polícia Militar tornouse exceção no Brasil. Há uma tendência nacional pela independência 2 dos bombeiros, em alguns Estados, como no Paraná e no Rio Grande do Sul, por exemplo, ainda resiste o modelo de Corpo de Bombeiros vinculado e dependente da Polícia Militar. Quanto às competências, extrai-se do texto constitucional federal que incumbe à Polícia Civil, excetuada a competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as militares. Cabe a Polícia Militar a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública e, ao Corpo de Bombeiros Militar, além das atribuições definidas em lei, incumbe à execução de atividades de defesa civil. O parágrafo 6º do art. 144 da CF ainda acrescenta que as polícias militares e os corpos de bombeiros militares são forças auxiliares e reserva do Exército, outorgando-lhes uma competência especial, pois poderão ser convocados pela União para compor o efetivo das Forças Armadas, nas hipóteses enumeradas pelo Decreto nº : 1 Tramitam no STF duas Ações Diretas de Inconstitucionalidade: a) ADI 2616, proposta pelo Governador do Estado, sob o argumento de que a instituição da Pol. Científica autônoma padece de vício de constitucionalidade, por contrariar o art. 144 da CF e suprimir competência da Pol. Civil; b) ADI 2574, proposta pelo Partido Liberal Social, sob os mesmos argumentos. Ambas estão aguardando julgamento. (consulta no endereço eletrônico do STF em junho de 2010). 2 Ainda no final do século passado, alguns Estados do Brasil começaram a emancipar seus Corpos de Bombeiros Militares (desvincular das Polícias Militares). Atualmente, no Brasil, são 23 Estados com as Corporações completamente desvinculadas das Polícias Militares, gozando de grandes avanços no quesito técnico profissional e reaparelhamento. Em nenhum outro lugar do mundo, o Corpo de Bombeiros está ligado à atividade Policial. (ABERGS Associação dos Bombeiros do Estado do Rio Grande do Sul).

14 12 Art. 4º - A Polícia Militar poderá ser convocada, total ou parcialmente, nas seguintes hipóteses: 1) Em caso de guerra externa; 2) Para prevenir ou reprimir grave perturbação da ordem ou ameaça de sua irrupção, e nos casos de calamidade pública declarada pelo Governo Federal e no estado de emergência, de acordo com diretrizes especiais baixadas pelo Presidente da República. A norma é taxativa, são circunstâncias especiais que justificam a convocação, infere-se que, quando da convocação, o comando das tropas fica a cargo do Chefe do Poder Executivo Federal. 2.1 A COMPETÊNCIA DA POLÍCIA MILITAR A normatização trazida pela Constituição, delimitando a competência da Polícia Militar, define a atividade a ser desempenhada pelo órgão. Essa prévia cognição é essencial para a abordagem do tema da remoção do servidor militar. O art. 144 da Constituição em seu parágrafo 5º fixa a competência das polícias militares: cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil. A Constituição do Estado do Paraná foi mais além: Art. 48. À Polícia Militar, força estadual, instituição permanente e regular, organizada com base na hierarquia e disciplina militares, cabe a polícia ostensiva, a preservação da ordem pública, a execução de atividades de defesa civil, prevenção e combate a incêndio, buscas, salvamentos e socorros públicos, o policiamento de trânsito urbano e rodoviário, de florestas e de mananciais, além de outras formas e funções definidas em lei. Prima facie, a Constituição Estadual parece ampliar as competências da Polícia Militar, impondo-lhe atividades que a Constituição da República não o fez. Em verdade, o art. 48 da Carta Estadual dispõe sobre a atribuição de polícia ostensiva juntamente com a competência dos bombeiros, de forma aglutinada em um só parágrafo, pois em nosso Estado o Corpo de Bombeiros e Polícia Militar compreendem a mesma instituição.

15 13 O artigo também inclui algumas espécies 3 de policiamento ostensivo, como o policiamento de trânsito e o rodoviário. Enumeração parcial e desnecessária, porquanto essas atividades decorrem naturalmente da execução da atividade de polícia ostensiva. Não obstante a impropriedade, o dispositivo em nada altera a competência nuclear da Polícia Militar, qual seja, a execução do policiamento ostensivo com o objetivo de manter a ordem pública. Para melhor compreensão dessas atribuições, faz-se necessário buscar o sentido dos termos polícia ostensiva e ordem pública. O vocábulo polícia há tempo se distanciou do seu significado epistemológico 4. Ordinariamente, pode servir para designar a instituição (genérica) encarregada da manutenção da ordem pública, podendo ser individualizada com os mais diversos adjetivos: federal, civil, militar e etc. Nesses termos, polícia ostensiva é a instituição policial qualificada com o adjetivo ostensivo, que por sua vez significa: 1. Que se pode mostrar ou ostentar; ostensível, ostensório. 2. Próprio para se mostrar; ostensível, ostensório. 3. Que se patenteia; aparente, ostensível, ostensório. 4. Que ostenta [v. ostentar (1)]; ostentativo; ostentoso, ostensível, ostensório. (FERREIRA, 2004). Não é esse o sentido da expressão polícia ostensiva inserida no parágrafo 5º do art. 144 da CF/1988. Quando a Constituição menciona que à Polícia Militar caberá a polícia ostensiva, significa que o desenvolvimento das atividades das Polícias Militares se dará por meio do exercício do poder de polícia. Para Alexandre de Morais, poder de polícia é a atividade do Estado consistente em limitar o exercício dos direitos individuais em benefício do interesse público. (2007, p. 117). 3 São tipos de Policiamento ostensivo: ostensivo geral, urbano e rural; de trânsito; florestal e de mananciais; rodoviária e ferroviário, nas estradas estaduais; portuário; fluvial e lacustre; de radiopatrulha terrestre e aérea; de segurança externa dos estabelecimentos penais do Estado; outros, fixados em legislação da Unidade Federativa, ouvido o Estado-Maior do Exército através da Inspetoria-Geral das Polícias Militares. (Decreto nº /1983, art. 2º, item 27). 4 Origina-se do grego politeia, sendo utilizado para designar todas as atividades da cidade-estado (polis), sem qualquer relação com o sentido atual. (MORAIS, 2007, p. 115).

16 14 Na doutrina administrativista desenvolveram-se os conceitos de polícia administrativa e polícia judiciária, esta direcionada a obtenção de dados relativos à ocorrência de condutas tipificadas como infração penal e, aquela, se constitui do instrumento que possui o Estado para limitar a atuação dos particulares, com o fim de assegurar o exercício dos direitos fundamentais da coletividade. O exercício da polícia administrativa não é exclusividade dos órgãos de segurança pública, a atuação se dá nas mais diversas áreas, como na saúde, educação, trabalho, previdência e etc. Por isso, diz-se que o poder de polícia administrativa exercido pelos órgãos da segurança pública é apenas uma das faces da intervenção do Estado na conduta dos particulares. (MORAIS, 2007). O legislador Constituinte, ao definir que cabe a Polícia Militar a polícia ostensiva, constituiu o órgão de competência para o exercício da polícia administrativa. Competência que deve ser realizada por meio da execução do policiamento ostensivo. Policiamento ostensivo, por sua vez, não é termo novo na seara da segurança pública, o Executivo Federal já o tratava, mesmo antes da Constituição de 1988: Decreto 5 nº /1983 Art. 2º, item 27: policiamento ostensivo é ação policial, exclusiva das Polícias Militares em cujo emprego o homem ou a fração de tropa engajados sejam identificados de relance, quer pela farda quer pelo equipamento, ou viatura, objetivando a manutenção da ordem pública. Entretanto, policiamento ostensivo tem significado mais largo. Tecnicamente, policiamento ostensivo é aquele executado por Policiais identificados de imediato pelo uniforme ou equipamento que utilizam. Sua função imediata é preventiva, é revelar a presença física diuturna do aparato policial do Estado nas áreas públicas para que, assim, as condutas criminosas sejam inibidas. A atuação repressiva, em primeiro plano, não está contida no conceito de policiamento ostensivo, a repreensão é atividade secundária, só desempenhada quando 5 O Decreto nº /1983 aprovou o regulamento para as polícias militares e corpos de bombeiros militares, denominado R-200, seu art. 2º trás uma série de conceitos relativos à atividade policial militar, como policiamento ostensivo. (item 27).

17 15 o estado de tranquilidade é rompido, quando infrações penais são praticadas ou estão na iminência de acontecer. Entretanto, a possibilidade de uma atuação repressiva instantânea é o fator que sustenta a eficácia do policiamento ostensivo. Ou seja, a presença ostensiva da Polícia Militar não inspira condutas criminosas no local em que ela estiver, pois o potencial infrator teme a repreensão dos policiais, que poderá culminar na privação de sua liberdade. Este efeito só é possível devido à característica ostensiva que se atribuiu a Polícia Militar. O mesmo efeito não é alcançado com o policiamento velado. Ressalta-se que a execução do policiamento ostensivo - estar presente junto ao público - é a função principal que a Constituição impôs a Polícia Militar. É verdade que muitas outras atribuições lhe são delegadas. Em alguns casos, tantas são as funções imputadas, que a função primordial torna-se segundo plano. Resta delimitar o significado de ordem pública, porquanto seu conceito somase ao de polícia ostensiva, definindo as atividades do órgão. O citado R-200, aprovado pelo Decreto nº /1983, tratou de conceituar ordem pública: Art. 2º, item 21: Ordem Pública - Conjunto de regras formais, que emanam do ordenamento jurídico da Nação, tendo por escopo regular as relações sociais de todos os níveis, do interesse público, estabelecendo um clima de convivência harmoniosa e pacífica, fiscalizado pelo poder de polícia, e constituindo uma situação ou condição que conduza ao bem comum. Segundo Álvaro Lazzarini (1998), o conceito aprovado pelo Decreto se mostra inadequado e confuso. Ordem pública não pode se reduzir a um conjunto de regras formais, nem tão pouco delimitar a atuação ao exercício da fiscalização. Também é visível no conceito a confusão entre o ordenamento jurídico e a própria ordem pública, como se esta fosse o reflexo daquele. Ora, o conjunto de regras formais que visa regular as relações sociais de todos os níveis constitui o próprio ordenamento jurídico e não a ordem pública. Melhor definição se encontra nas lições de Meirelles, o qual conceituou ordem pública como situação de tranquilidade e normalidade que o Estado assegura ou

18 16 deve assegurar às instituições e a todos os membros da sociedade, consoante às normas jurídicas legalmente estabelecidas (1998, p. 92). Com efeito, ordem pública é situação fática que transcende a figura jurídica. Resumidamente, pode-se afirmar que ordem pública é o estado de convivência pacífica entre os membros da sociedade. Quando há a deflagração de ilícitos penais, há a ruptura da convivência pacífica e, por consequência, alteração na ordem pública. O texto constitucional, ao dispor que às Polícias Militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública, em outras palavras, definiu que a função do órgão é a manutenção do estado de convivência pacífica entre os membros da sociedade por meio do policiamento ostensivo. Essa compreensão é importante, porquanto define o modo de agir do órgão, restringindo a atuação. Trata-se de delimitar e conter a atividade policial, para evitar a atuação ampla e irrestrita, que poderia ensejar em violação de direitos fundamentais, sob o pretexto da manutenção da ordem pública. Pontuada a competência, indaga-se qual é a forma pela qual o órgão vai desempenhar seu encargo. Entretanto, esta questão se distancia dos conceitos jurídicos e adentra na esfera da ciência da Administração Pública. Cada corporação considerada desenvolve seu próprio processo de policiamento ostensivo, nos quais é possível se encontrar semelhanças e diferenças. Não poderia ser de outra forma, pois o vasto território brasileiro com suas diferenças regionais impõe a variação na forma de execução do policiamento ostensivo, com as adaptações de cada região. Em última análise, a função precípua da Polícia Militar, definida pela Constituição da República, é promover a manutenção da ordem pública por meio do policiamento ostensivo, este realizado com a presença física de policiais no ambiente público antes da eclosão dos ilícitos.

19 17 3 A POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ As Polícias Militares do Brasil são originárias das primeiras forças que constituem hoje o Exército brasileiro. Afirma-se 6 que a criação da Polícia Militar do Paraná deu-se em 10 de agosto de 1854, na forma de uma unidade de caçadores, com a denominação de Companhia de Força Policial. A história da PMPR mostra sua participação em vários episódios importantes do País, como a Guerra do Paraguai, a Revolução Federalista, a Guerra do Contestado e a Revolução de Somente com o fim do Estado Novo é que a PMPR passou a voltar-se para a proteção do cidadão. Desde então, progressivamente o órgão tem evoluído, buscando adequar-se aos anseios da sociedade paranaense. 3.1 A ESTRUTURA PMPR A Polícia Militar do Paraná PMPR está organizada por um complexo de leis, cuja grande maioria é anterior a Constituição de 1988 e foram alteradas paulatinamente, com o propósito formal de se adequarem a evolução da instituição e da sociedade. A própria Constituição da República prevê no parágrafo 7º do art. 144 que a lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos responsáveis pela segurança pública, de maneira a garantir a eficiência de suas atividades. Segundo José Afonso da Silva, no plano federal a lei, como o Constituinte quisera, ainda não se concretizou (2009, p. 638). Portanto, naquilo que não confronta a Constituição da República, foi recepcionado o Decreto-Lei nº 677 de 02 de julho de 1969, o qual traz regras importantes como as hipóteses de convocação pela União das Polícias Militares, como deve ser a estrutura dos órgãos, a fiscalização exercida pelo Exército e etc Fonte: acesso em 25 abr.

20 18 Ainda assim, cada unidade da federação possui competência 7 para organizar sua Polícia. Com efeito, cada estado estrutura o órgão de modo à melhor satisfazer as necessidades locais. No que é pertinente à estrutura administrativa, a PMPR está basicamente organizada pela Constituição Estadual; Lei Estadual nº de 23 de Junho de 1954, denominada de Código da PMPR e Lei Estadual nº de 08 de Janeiro de 1976, chamada de Lei de Organização Básica. A Constituição Estadual, no art. 48, definiu a PMPR como força estadual, instituição permanente e regular, organizada com base na hierarquia e disciplina militares. Com exceção do contido na Constituição Estadual, aquelas normas possuem uma série de dispositivos que foram alterados por leis posteriores à medida que o órgão evoluiu. Ademais, possuem regras não mais aplicáveis por contrariarem preceitos constitucionais, mas que não sofreram revogação expressa. Esse arcaísmo legal impõe ao administrador uma hermenêutica apurada e que não prescinde do cotejamento com a Constituição da República. Superada essas preliminares, convém destacar os dispositivos que se relacionam com o tema remoção do servidor militar do Estado no Paraná. O primeiro apontamento denota que a PMPR é órgão permanente que compõe estrutura administrativa do Estado. A Lei Estadual nº de 08 de Janeiro de 1976, a Lei de Organização Básica, ordenou a estrutura administrativa interna da corporação, subdividindo-a em órgãos de direção, de apoio e execução: Art. 5º. A Polícia Militar é estruturada em órgãos de direção, órgãos de apoio e órgãos de execução. Art. 6º. Os órgãos de direção realizam o comando e a administração da Corporação, competindo-lhes: I - Incumbir-se do planejamento em geral, visando à organização da Corporação, às necessidades em pessoal e em material e ao emprego da Polícia Militar para o cumprimento de suas missões; II - acionar, por meio de diretrizes e ordens, os órgãos de apoio e os de execução; 7 Art. 25 Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que adotarem, observados os princípios desta Constituição. 1º - São reservadas aos Estados as competências que não lhes sejam vedadas por esta Constituição.

21 19 III - coordenar, controlar e fiscalizar a atuação dos órgãos de apoio e dos de execução. Art. 7º. Os órgãos de apoio realizam as atividades-meio da Corporação, atendendo às necessidades de pessoal, de animais e de material de toda a Polícia Militar. Atuam em cumprimento das diretrizes e ordens dos órgãos de direção. Art. 8º. Os órgãos de execução são constituídos pelas unidades operacionais da Corporação e realizam as atividades-fim da Polícia Militar; cumprem as missões ou a destinação da Corporação. Para isso executam as diretrizes e ordens emanadas dos órgãos de direção e são apoiados, em suas necessidades de pessoal, de animais, de material e de serviços, pelos órgãos de apoio. [grifo nosso] Como se vê, a estrutura básica para a execução da atividade fim o próprio policiamento ostensivo é composta por unidades operacionais 8, denominadas de Batalhões ou Regimentos, os quais são distribuídos proporcionalmente no território por critérios funcionais ou de responsabilidade territorial. A responsabilidade territorial é um dos princípios que orienta a execução do policiamento ostensivo. Trata-se de conferir a determinado grupo de militares comandados a responsabilidade pela manutenção da ordem pública em um dado espaço físico previamente delimitado, ou seja, a circunscrição territorial. A mencionada Lei de organização básica estruturou o Estado com o seguinte desdobramento: Art. 49. O Estado será dividido em áreas, em função das necessidades decorrentes das missões normais de Polícia Militar e das características regionais; essas áreas serão atribuídas à responsabilidade total dos batalhões ou companhias independentes de Polícia Militar. 1º. Cada área de batalhão de Polícia Militar será dividida em subáreas atribuídas às companhias de Polícia Militar subordinadas; as subáreas, por sua vez, serão divididas em setores de responsabilidade de pelotões de Polícia Militar. 2º. Na Capital e nas grandes cidades do Interior, as áreas de responsabilidade dos batalhões de Polícia Militar poderão deixar de ser divididas. 3º. Os Comandos de Batalhões, em todo o Estado, e os comandos de companhia e pelotão de Polícia Militar, no interior, deverão ser sediados na área, subárea ou setor de sua responsabilidade. 8 Unidades Operacionais, Organização Policial Militar (OPM), Unidade Militar, Batalhão de Polícia Militar ou Regimento de Polícia Militar são todos termos sinônimos.

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