PROJETO CRISE - UMA TENTATIVA DE REDUZIR O PROB~~ DAS ENCHENTES NO VALE DO ITAJAf

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1 263 PROJETO CRISE - UMA TENTATIVA DE REDUZIR O PROB~~ DAS ENCHENTES NO VALE DO ITAJAf Autores BEATE FRANK (1) HÉLIO DOS SANTOS SILVA (1) CLÁUDIO LOESCH (1) ADEMAR CORDERO (1) Resumo: Idealizado após a grande cheia de julho de 1983, o "Projeto Crise" ã uma atividade interdisciplinar cujo objetivo ã fazer com que as comunidades do Vale do Itajaí aprendam a conviver com a realidade da bacia hidrográfica, ou seja, com as frequentes cheias. O conviver, neste contexto, está relacionado com a capacidade de mobilização a partir de informações adequadas, trazendo assim uma considerável redução nos prejuízos. Trabalhos em pesquisa operacional, cartografia, hidrologia e meteorologia continuam sendo desenvolvidos para atingir o objetivo traçado. Os temas dos principais trabalhos são: (a) montagem de um Sistema de Informações Úteis durante cheias (Sistema Cruzamento, Sistema Emergência); (b) desenvolvimento e implantação de modelos de previsão de níveis a partir de dados de vazão e precipitação em vários pontos da bacia; (c) realização da previsão de níveis em ãpoca de cheias (operação do CEOPS), repassando esta informação à defesa civil; (d) produção de cartasenchente para os municípios do Vale; (e) desenvolvimento do estudo climatológico (precipitação) e balanço hídrico da bacia do Itajaí; (f) implantação de um sistema de monitoração do tempo para o Estado de Santa Catarina. O trabalho aqui apresentado visa divulgar o uso de medidas não-estruturais no combate às cheias, alãm de exemplificar a participação da meteorologia com finalidade prática e específica. (1) Professores da Universidade Regional de Blumenau - FURB

2 INTRODUÇÃO Qualquer relatório sobre a grande enchente que abateu sobre o Vale do Itajaí em julho de 1983 poderia servir como introdução a este trabalho, com o seguinte preâmbulo. Naquele ano já tinham ocorrido duas cheias de pequeno e médio porte, respectivamente em março e maio, cheias estas de certa forma suportáveis pela população. As emissoras de rádio divulgavam a previsão do nível do rio em Blumenau e a partir desta informação, as pessoas orientavam suas atividades de evacuação das casas. Tal comunicação é bastante familiar à população da cidade, devido à frequência com que as cheias ocorrem. Uma análise mais técnica do que ocorreu em julho de 1983, seria a seguinte. Desde o início da cheia, a fragilidade da rede de informações hidrometeorológica ficou evidenciada. As notícias relativas à previsão eram desencontradas. No segundo dia, o sistema telefônico e o abastecimento de energia elétrica entraram em colapso, assim como o transporte viário municipal e intermunicipal. Nos dias que se seguiram, a falta de remédios, alimentos e água potável, em grande parte da cidade de Blumenau (assim como em diversas outras cidades do Vale) tornou-se um problema sério que foi apenas suavizado com a chegada de mantimentos via helicóptero. Ao longo dos dez dias que durou a enchente, a falta de meios de comunicação e a auséncia total de informação sobre a catástrofe gerava um clima de tensão e pãnico em toda a população, clima este que a Defesa Civil não podia melhorar, por também estar completamente despreparada para esta situação. Em resumo, quase um terço ( habitantes) da população blumenauense ficou flagelada, dez mil casas foram inundadas, todo o centro da cidade, assim como um grande número de indústrias. Os prejuízos foram incalculáveis. As consequências no comportamento das pessoas são nitidamente perceptíveis.e~ujo5 ne~+p.. 5e1l\-t\tclo 55.0 otese~voll/ido~ pelo.. VF5C. O presente trabalho descreve como a Universidade Regional de Blumenau (FURB) se mobilizou diante da catástrofe vivida pela cidade e região. 2 - METODOLOGIA Como deixa entrever o relato feito na introdução, a grande carência no Vale do Itajaí durante a grande enchente foi a INFOro~AÇÃO, tanto para a tomada de decisão dos órgãos da Defesa Civil - previsão do tempo, previsão de níveis, áreas inundadas, etc - como para orientação da população - previsão de níveis, transporte viário, acesso à alimentos e água, entre outros. Em resumo, durante a CRISE faltou todo o tipo de informação. Surgiu assim, o PROJETO CRISE, com a finalidade de dar suporte às ações da Defesa Civil em época de enchentes. A importância deste Projeto torna-se evidente a partir do conhecimento do período de retorno das enchentes. A

3 265 análise de frequência da série histórica de picos de cheias (período = 135 anos) resulta num período de retorno de aproximadamente 35 anos para níveis máximos como os de julho/83 e agosto/84 (Nível da Água (NA) = 15.50m), enquanto que um período de retorno de 10 anos é obtido para as cheias que atingem o NA = 12.00m. Este último NA faz a cidade de Blumenau entrar em colapso. Um dos conceitos básicos implícitos na finalidade deste Projeto é que as enchentes não podem ser eliminadas. As obras estruturais apenas atenuam o problema. Conscientizar as pessoas sobre este fato é uma atividade paralela ao desenvolvimento do Projeto, mas sem dúvida fundamental para sua execução plena. No que consiste o Projeto Crise? O projeto Crise consiste em um conjunto de subprojetos nas áreas de Meteorologia, Hidrologia, Cartografia e Pesquisa Operacional, visando sempre I em última análise, reduzir o prejuízo potencial de uma enchente no Vale do Itajaí. Como? (a) Através da vigilância meteorológica, detectar com a max1ma antecedência, a configuração si~ótica que pode dar origem a uma enchente; (b) (c) Através de um sistema de previsão (rede de coleta de dados e modelos matemáticos apropriados), dispor continuamente de informações corretas sobre níveis, precipitação e previsão de níveis em todas as localidades críticas; Através de um sistema de informações úteis durante cheias, poder orientar as pessoas no transporte viário e na busca de fontes de auxílio; (d) Através da elaboraçâo de cartas-enchentes, auxiliar a Defesa Civil como também orientar o plano diretor de desenvolvimento da cidade. É evidente que a realização de todas estas propostas não é uma atividade para a Universidade. Enquanto a pesquisa técnico-científica é de sua competência, a operacionalização de qualquer sistema só é possível mediante acordo com o órgão governamental competente. Assim, por exemplo, a operação do Centro de Operações do Sistema de Alerta (CEOPS) da Bacia do Itajaí, desde sua implantação em 1984, está sob a responsabilidade da FURB, mediante acordo com o Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE). Tal Sistema de Alerta é composto por cinco postos telemétricos de chuva e nível, dos quais um em Blumenau e quatro a montante, e alguns modelos matemáticos de previsão nível-nível, que permitem uma estimativa do nível em Blumenau com até 10 horas de antecedência. Para aprimorar o Sistema de Alerta, está em desenvolvimento um modelo estocástico linear para previsão de vazões e níveis em oito localidades do Vale até Blumenau. O Sistema de Informações Úteis durante Cheias, implantado para a cidade de Blumenau, compõem-se na realidade de dois sistemas: Programa Cruzamento e Programa Emergência.

4 266 o programa Emergência é basicamente um cadastro de todas as fontes de auxílio existente no município, classificadas em seis categorias (alimentos e água, saúde, roupas e agasalhos, abrigo, energia.e comunicação) subdivididas em itens. Para cada fonte, o cadastro contém endereço completo, telefone, porte e cota de inundação. A função do Programa é informar, por exemplo, quais as farmácias que ainda estão em funcionamento se o nível do rio seencontra em 13 metros. O programa Cruzamento dá orientação para o transporte viário na cidade. É operado com o auxílio de um mapa da cidade (escala 1:10.000) que contém a codificação dos cruzamentos de ruas. Dados o nível atual do rio, o ponto de partida e o destino de um veículo, o Programa fornece o caminho mais curto entre os dois pontos, contornando sempre os trechos inundados. Carta-enchente é um mapa que apresenta faixas de risco de inundação. Usando em parte metodologia própria, estão sendo elaboradas cartas-enchentes para diversos municípios da região. Certamente a proposta mais arrojada do Projeto Crise é a vigilância meteorológica. Sua importância pode ser deduzida do fato de o tempo de concentraçâo da bacia ser 24 horas para Blumenau e 14 horas para Rio do Sul. Inicialmente, para conhecer em detalhe o comportamento do campo de precipitaçâo na bacia, está sendo desenvolvido um estudo climatológico. Em seguida, será feita a aplicaçâo de um modelo de análise objetiva à rede de estações existente no Estado. Considera-se estas duas corno etapas preparatórias à implantação de um sistema de vigilância. 3 - RESULTADOS Como resultado pode-se afirmar inicialmente que é possível que a Universidade se ocupe ativamente com um problema regional de sérias consequências econõmicas e sociais, sem correr o risco de perder o rigor técnico-científico. A importância do Projeto Crise para a comunidade do Vale do Itajaí ficou demonstrada na enchente de agosto/84. Nesta oportunidade, o alerta partiu do CEOPS para a Coordenação Estadual de Defesa Civil. Em parte devido a este alerta houve uma significativa redução de prejuízos em alguns setores. Desde aquela época, a busca de todo o tipo de informação acerca do regime de chuvas e de enchentes tem levado muitas pessoas ao Projeto Crise. O estudo do fenômeno enchentes em Santa Catarina demonstra claramente a necessidade da existência de um sistema de acompanhamento do tempo para todo o Estado. Certamente a iniciativa que parte da Universidade de Blumenau, no sentido de estruturar tal sistema de vigilância, poderá resultar num esforço conjunto para a concretização da proposta.

5 AGRADECIMENTOS A FURB agradece ao DNAEE, DNOS, INMET, à empresa de Pesquisa Agropecuária de Santa Catarina (EMPASC), Governo do Estado de Santa Catarina, Prefeitura Municipal de Blumenau e aos Sindicatos Patronais de Blumenau, sem cujo apoio este Projeto não existiria.

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