Gestão e Desenvolvimento de Projetos

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1 Rosilda Silvio Souza Gestão e Desenvolvimento de Projetos Adaptada por Roseli Helena de Souza Salgado

2 APRESENTAÇÃO É com satisfação que a Unisa Digital oferece a você, aluno(a), esta apostila de Gestão e Desenvolvimento de Projetos, parte integrante de um conjunto de materiais de pesquisa voltado ao aprendizado dinâmico e autônomo que a educação a distância exige. O principal objetivo desta apostila é propiciar aos(às) alunos(as) uma apresentação do conteúdo básico da disciplina. A Unisa Digital oferece outras formas de solidificar seu aprendizado, por meio de recursos multidisciplinares, como chats, fóruns, aulas web, material de apoio e . Para enriquecer o seu aprendizado, você ainda pode contar com a Biblioteca Virtual: a Biblioteca Central da Unisa, juntamente às bibliotecas setoriais, que fornecem acervo digital e impresso, bem como acesso a redes de informação e documentação. Nesse contexto, os recursos disponíveis e necessários para apoiá-lo(a) no seu estudo são o suplemento que a Unisa Digital oferece, tornando seu aprendizado eficiente e prazeroso, concorrendo para uma formação completa, na qual o conteúdo aprendido influencia sua vida profissional e pessoal. A Unisa Digital é assim para você: Universidade a qualquer hora e em qualquer lugar! Unisa Digital

3 SUMÁRIO INTRODUÇÃO PROJETO Fins da Educação Projeto Político-Pedagógico ou Projeto Pedagógico? Projeto Pedagógico Resumo do Capítulo Atividades Propostas GESTÃO DA ESCOLA Concepções Democracia e Gestão A Gestão Afastando-se do Escolar Gestão Escolar e Projeto Pedagógico O Diretor de Escola como Articulador do Projeto Pedagógico Resumo do Capítulo Atividades Propostas CONSIDERAÇÕES FINAIS RESPOSTAS COMENTADAS DAS ATIVIDADES PROPOSTAS REFERÊNCIAS... 39

4 INTRODUÇÃO O próprio título desta Disciplina já aponta para dois elementos indispensáveis para as Unidades Educacionais. Refiro-me à necessidade de que elas possuam projetos e um Projeto Pedagógico, bem como a importância da Gestão da Escola no seu desenvolvimento. Esses elementos combinados, a nosso ver, têm uma contribuição decisiva na qualidade do ensino. A partir dessas considerações, trabalharemos, nesta Disciplina, com concepções de Projeto, Projeto Pedagógico e Gestão Escolar. Faremos referências da importância do Projeto Pedagógico para o caminhar das Unidades Educacionais e da sua Gestão. Com relação à Gestão das Escolas, pretendemos discutir sobre o seu papel, atribuições que atualmente vem assumindo, conflitos e dificuldades. Também teceremos considerações acerca do papel do Gestor na construção do Projeto Pedagógico. Apresentaremos essa articulação, que consideramos necessária, como uma possibilidade de resgatar o Gestor para a sua função precípua, qual seja a de cuidar do ensino. Rosilda Silvio Souza 5

5 1 PROJETO Somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos. William Shakespeare Atenção Projeto é algo que impele para frente, para o futuro. Ter um projeto é vislumbrar o futuro. Você tem projetos? Como você definiria projeto? Projeto vem do latim projectus e significa lançar, arremessar para frente. Do sentido etimológico, projeto é algo que impele para frente, para o futuro. Ter um projeto é vislumbrar o futuro. Todas as pessoas têm projetos. Há pessoas que têm o projeto de fazer um curso: superior, de língua estrangeira, de informática, de música, de pintura etc. Outras têm o projeto de viajar para o Nordeste, para a Europa ou para outro lugar. Muitas pessoas têm o projeto de possuir uma casa própria. Várias querem um automóvel. A lista dos nossos sonhos, dos nossos projetos, é quase infinita, sobretudo no que se refere a alcançar coisas materiais. Para conseguirmos o que desejamos, a primeira coisa é projetá-la nos nossos pensamentos, é idealizá-la. Posteriormente, buscamos a concretização do nosso projeto por meio de um planejamento que nos possibilitará conquistar o que pretendemos. Ele nos ajudará na construção da realidade desejada, que, no nosso caso, é a realização do nosso projeto. O projeto é, pois, uma antecipação de si mesmo na medida da existência, numa vaga antecipação dele, mas uma compreensão, quer dizer, um poder-ser. O projeto, neste sentido, é inclusive anterior à possibilidade, pois só porque há projeto, há possibilidade. (VALLEJO, 2002, p. 86). Para a nossa vida, certamente, temos muitos projetos. E, para a educação, podemos ter um projeto ou projetos? O que vislumbramos? Voltemos a pensar na nossa vida. O que buscamos quando projetamos viajar, fazer um curso ou adquirir algo? Acredita-se que com todos os nossos projetos buscamos a felicidade. Afirma-se que todos os seres humanos querem ser felizes. Aristóteles afirma que a felicidade é o bem supremo do homem. E a Educação tem uma finalidade? Qual? Podemos dizer que essa finalidade pode ser um projeto? Primeiro vamos buscar uma resposta para a finalidade da educação. 7

6 Rosilda Silvio Souza 1.1 Fins da Educação As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos poderia fazer crer. Rainer Maria Rilke Para que existe a educação? Pode-se dizer que é para a transmissão e preservação do patrimônio cultural, que é transmitido de uma geração a outra. Historicamente, sabemos que desde os povos mais antigos a educação consistia na transmissão dos valores culturais. Atualmente, essa finalidade parece ser insuficiente ou não mais consistir na finalidade primeira da educação, principalmente da educação escolar. Então, qual é o fim ou os fins da educação? Atenção A discussão e a elaboração do Projeto Pedagógico assumem uma grande dimensão: não se trata de definir apenas quais conteúdos, metodologia ou recursos utilizar, mas definir quais serão os valores que os guiarão. não há dúvida de que hoje a função principal da escola não é só ensinar, mas também educar, ou melhor, ensinar educando. Também é comumente aceito que toda educação fundamenta-se num conjunto de valores. Desses dois princípios se deduz, pois, que a instituição escolar, em seu planejamento e projeto, não pode, nem deve, prescindir da axiologia educativa, enquanto projeção de um conjunto de valores que pretendem humanizar o educando. Portanto, todo projeto, planejamento, organização e atividade escolar é inseparável do valor, pois é impossível concluir qualquer ação educativa sem referência expressa ou implícita, ao mundo dos valores. Desta forma, educação e valores são inseparáveis como são o corpo e a alma, a mente e o cérebro, no ser humano. Nesse sentido, a discussão e a elaboração do Projeto Pedagógico assumem uma grande dimensão, pois não se trata de definir apenas quais conteúdos, metodologia, recursos, mas, sobretudo, de definir quais serão os valores imprescindíveis nos quais serão pautadas as ações e que buscaremos contribuir para desenvolver. Há uma estreita relação entre o fim e/ou fins da educação e valores. Em relação aos valores, os fins são valores escolhidos e, por isso, perseguidos, relacionados, embora jamais alcançados em sua totalidade. Nem todos os valores são fins, mas todos os fins são valores preferidos, escolhidos, opções realizadas. (CAS- TILLO apud VALLEJO, 2002, p. 83). 69), Segundo Castillo (apud VALLEJO, 2002, p. Afirma-se que a educação tem como fim o desenvolvimento da nossa humanidade. Para Castillo (apud VALLEJO, 2002, p. 79), a herança biológica nos dá o ser, mas não o modo de ser, pois nascemos humanos, mas não humanizados; sociais, mas não socializados; morais, mas não moralizados... Aprendemos a ser humanos, sociais, morais... por meio da educação. O nascimento nos dá as capacidades, a educação desenvolve as faculdades e potencialidades que a herança nos proporciona. Esta é a tarefa de toda educação: fazer com que a pessoa que nasce aprenda a ser humana, entre os humanos, incorporando valores à sua existência. 8

7 Gestão e Desenvolvimento de Projetos À primeira vista, pode-nos parecer estranho esse pensamento de desenvolvimento da nossa humanidade. Contudo, se analisarmos também do ponto de vista das condições materiais de existência, percebe-se que muitíssimas pessoas vivem, ou melhor, sobrevivem em condições sub- -humanas. Em uma perspectiva ética, entende-se que também é pouco humano, ou desumano, relegar outros seres a uma condição degradante, aviltando a sua humanidade. Cortella (2000, p. 125) afirma que a prática educacional tem como objetivo central fazer avançar a capacidade de compreender e intervir na realidade para além do estágio presente, gerando autonomia e humanização. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDBEN (Lei nº 9.394/98), no Título II Dos Princípios e Fins da Educação Nacional estabelece no art. 2º: A manutenção ou permanência da indicação legal por um tempo mais longo possibilita que esses princípios e finalidades sejam proficuamente incorporados à prática educacional das escolas, pois sabemos de sobejo que a formação humana não se realiza em pouco tempo. Embora os fins possam ser estáveis, isso não significa facilidade de atingi-los, contudo significa uma necessidade de persegui-los, pois sem finalidade, a educação careceria de sentido, à mercê do acaso, ou então seria um caos de contradições, impróprias ao ser humano caracterizado por sua racionalidade. (VALLEJO, 2002, p. 81). A discussão da finalidade da educação é o ponto de partida de qualquer atuação educacional, portanto da elaboração de um projeto pedagógico, pois ela nos apontará o alvo que visamos atingir, o ponto de chegada. A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. A LDBEN assenta-se em princípios e aponta as finalidades da educação nacional. Essa Lei que estabelece as Diretrizes do País define que a Educação deve pautar-se em dois valores caros aos seres humanos: o da liberdade e o da solidariedade. A importância do direcionamento legal fundamenta-se no entendimento da necessidade de se desenvolverem valores imprescindíveis à formação humana. Embora possa haver ressalvas das definições das finalidades da educação serem elaboradas fora das instituições escolares, como ocorre na legislação (na Constituição, LDBEN), os dispositivos legais possibilitam um caráter de maior estabilidade. Multimídia Seguem alguns sites que ajudam a estudar o tema Projeto Pedagógico : a02v2361.pdf 9

8 Rosilda Silvio Souza 1.2 Projeto Político-Pedagógico ou Projeto Pedagógico? Os sonhos não envelhecem. Milton Nascimento Observe que nos meios educacionais ocorreram várias discussões acerca da utilização dos termos Projeto Político Pedagógico ou apenas Projeto Pedagógico. A princípio, poderíamos pensar que era uma discussão sem maior importância. Contudo, a sua relevância se fez sentir, pois atualmente ainda verificamos que essas discussões prosseguem. Na História da Educação Brasileira, houve uma época em que a educação foi considerada apartada das questões políticas e sociais. Quem ainda não ouviu a afirmação de que a educação é neutra?, ou que a educação não deveria se meter com política, que educação não tem nenhuma relação com a política? Tais afirmações, que advogavam a neutralidade da educação, colocavam-na como uma técnica que deveria ser aplicada em qualquer situação, para qualquer pessoa da mesma forma. Será que é realmente dessa maneira? Será que a técnica não possui uma intencionalidade? Será que ela não favorece mais a uns do que outros? A educação tem atingido igualmente as pessoas de diferentes condições econômicas? Para aceitarmos que a educação é neutra, ou seja, que ela não está a serviço de nenhuma política, de nenhum grupo social ou classe social, teríamos que considerar a educação e a escola apartadas da sociedade. Todavia, a educação é uma prática social e, enquanto tal, inserida em uma sociedade. A sociedade brasileira não é dividida em classes sociais? Com condições de vida e interesses muito diferentes? A partir do entendimento das relações sociais e da educação nesse contexto, muitos educadores defenderam e defendem que se deve acrescentar a palavra político ao referir-se a projeto, ou seja, deve-se pensar e grafar projeto político-pedagógico. Eles entendem que é preciso marcar posição, reafirmar-se como contraponto às posturas de neutralidade da educação. Atenção Toda ação educacional tem uma intencionalidade; portanto, a educação é essencialmente política. Segundo Gandin (2003), projeto político- -pedagógico possui dois elementos: projeto político, que reflete acerca de qual sociedade se quer ajudar a construir, e projeto pedagógico. Há educadores que, não desconhecendo as implicações políticas e considerando a educação como reflexo da sociedade, portanto, com determinações políticas e sociais, preferem a utilização do termo projeto pedagógico. Argumenta-se que toda ação educacional tem uma intencionalidade, que a educação é essencialmente política. Nesse sentido, seria quase uma redundância acrescentar o termo político à atividade educacional, ao projeto pedagógico. A par das argumentações, importante é considerarmos as determinações políticas e sociais na educação. É fundamental que se entenda que a contradição social também está presente na escola; dessa maneira, possibilita também espaços de atuação diferentes individual e coletivamente. Esses espaços para atuação no interior da escola podem ser de manter ou de contribuir para a mudança das condições sociais e políticas. Faz- -se necessária a elaboração de projetos que apontem as nossas definições, os nossos objetivos, que explicitem o futuro que almejamos. 10

9 Gestão e Desenvolvimento de Projetos 1.3 Projeto Pedagógico O que brilha com luz própria nada pode apagar. Atenção No Projeto Pedagógico agregam-se as prioridades, as intenções e as propostas da escola; ele possibilita a definição da identidade da escola. O Projeto Pedagógico é um caminho para a realização da finalidade da escola, e esta é concretizada por meio dos objetivos, que são materializados por meio de planos e projetos. No Projeto Pedagógico agregam-se as prioridades, as intenções e as propostas da escola; ele possibilita a definição da identidade da escola. A escola, ao elaborar o seu Projeto Pedagógico, também constrói a sua autonomia. Segundo Oyafuso e Maia (2004, p. 20), a autonomia da escola implica na construção de sua identidade como instituição, implica na formulação da política da escola, na construção coletiva de um plano de gestão que revele um ideal de homem e sociedade. Segundo Azanha é preciso não perder de vista que a autonomia da escola não se alcança com a mera definição de uma nova ordenação administrativa, mas, essencialmente, pela explicitação de um ideal de educação que permita uma nova e democrática ordenação pedagógica das relações escolares. Reconhecer a importância da construção da identidade é admitir que, na condição de instituição singular, cada escola apresenta características próprias, clientela diversificada, e práticas docentes que emanam das relações entre os sujeitos e o conhecimento. Acerca da autonomia na escola pública afirma-se que: Considerando contexto, limites, recursos e realidade própria, cada escola pública tem a possibilidade de definir e desenvolver seu projeto de escola. Ao ocupar seu espaço de autonomia para realizar o trabalho educativo, a escola faz mais do que adotar as diretrizes gerais formuladas para o sistema público como um todo. Com seu projeto, o caminho escolhido tem a sua marca, a escola assume feição própria, adquire personalidade. (CENPEC, Caderno 4, p. 2). Considera-se que por meio da elaboração e implantação do seu Projeto Pedagógico a escola conquistará a sua autonomia. Nesse sentido, a construção do Projeto Pedagógico é imprescindível para que a escola não fique a mercê das propostas elaboradas externamente e não se transforme em mera executora delas. O Projeto construído a partir dos princípios, das ideias e das ações dos integrantes da escola possibilitar-lhe-á luz própria. Atenção O documento no qual se registram as ideias, o que se pretende realizar, é chamado de plano. Acredita-se que o Projeto Pedagógico é um importante instrumento para favorecer o desenvolvimento pessoal de cada participante e do coletivo da escola. Segundo Rios (2001, p. 127), um projeto de escola não se faz sem a participação de todos os que a constituem e não é uma mera soma dos projetos individuais, mas sim uma proposta orgânica, em que se configura a escola necessária e desejada, e na qual se articulam, na sua especificidade, as ações de cada sujeito envolvido. 11

10 Rosilda Silvio Souza Na elaboração do projeto, é necessário considerar criticamente os limites e as possibilidades do contexto escolar e do contexto mais amplo do que este faz parte, definindo os princípios norteadores da ação, determinando o que se deseja alcançar, estabelecendo caminhos e etapas para o trabalho, designando tarefas para cada um dos sujeitos e segmentos envolvidos e avaliando continuamente o processo e os resultados. O Projeto Pedagógico é também um espaço a ser preenchido pela utopia daqueles que desejam transformar a realidade das coisas: tornar as pessoas melhores e a sociedade mais justa. (CENPEC, Caderno 4, p. 4). O processo de elaboração do Projeto Pedagógico é tão importante como o seu registro. O documento no qual se registram as ideias, o que se pretende realizar, é chamado de plano. A sua elaboração deve contar com a colaboração de todos os segmentos da escola, na qual o Diretor de Escola atuará como coordenador desse processo, articulando as intenções, as propostas e a definição do caminho para o alcance dos objetivos. Nessa perspectiva, a gestão da escola assume papel preponderante na coordenação dos esforços, no repensar da atuação dos profissionais e na reflexão acerca da qualidade do trabalho que se pretende alcançar. Multimídia Pesquise acerca do Projeto Pedagógico da Escola da Ponte, em Portugal, e da EMEF Amorim Lima, em São Paulo. Os sites são, respectivamente: Resumo do Capítulo Todo Projeto Pedagógico estabelece valores/fins que justificam as escolhas curriculares, desde o conteúdo, passando pela metodologia e formas de avaliação. Por meio do projeto Pedagógico a escola define suas características, ou melhor, sua identidade. Para que os objetivos e as metas estabelecidos no Projeto sejam alcançados, a participação de todos os segmentos que atuam na escola é muito valiosa. Por isso, o gestor tem papel de destaque na organização do Projeto, facilitando a participação e propiciando condições para que todos tenham espaços nas decisões e nos encaminhamentos da escola. Saiba que não é tarefa fácil, nem passível de ser garantida por lei. Demanda esforço e construção conjunta. Na prática, temos escolas cujos Projetos se aproximam do ideal de gestão democrática, mas há muito que ser feito para aproximar o que está escrito nos documentos e a realidade das escolas. Essa deve ser a busca do gestor escolar desse início de século. 12

11 Gestão e Desenvolvimento de Projetos 1.5 Atividades Propostas 1. Qual deve ser a principal finalidade da educação? 2. Qual a diferença entre Projeto Pedagógico e Projeto Político? 3. Por que a escola deve ter um Projeto Pedagógico? 4. Quais os itens que devem estar presentes em um Projeto Pedagógico? 5. Qual a relação entre projeto e utopia? 13

12 2 GESTÃO DA ESCOLA 2.1 Concepções Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar nos sonhos que se têm ou que os seus planos nunca vão dar certo ou que você nunca vai ser alguém. Renato Russo Caro(a) aluno(a), recentemente, o termo administração foi substituído por gestão. Atenção Tanto na administração ou gestão de alguma coisa, são necessários o planejamento, a organização e a avaliação. Entende-se por administração a organização racional dos recursos para desenvolver determinada atividade. No entendimento de Colombo (2004, p. 7), acreditamos que gerir é mais amplo e profundo do que administrar, pois, além de planejar, organizar, controlar e avaliar, também engloba a busca e a implementação de inovações e de melhorias nos processos relacionados ao negócio, identificando oportunidades e agindo preventivamente perante possíveis ameaças. Verifica-se que tanto na administração ou gestão de alguma coisa, são necessários o planejamento, a organização e a avaliação. Você sabe o quanto o planejamento é importante para os seres humanos, aliás, só eles têm essa capacidade. O planejamento é um processo no qual se organizam as ideias, as propostas que se pretende alcançar, definindo recursos, procedimentos, prazos, além de como e quando avaliar o alcance dos objetivos. Pode-se afirmar que planejar é projetar o futuro, é colocar-se a caminho da realidade desejada. Nesse sentido, planejamento e projeto são sinônimos. O planejamento busca incorporar as inovações existentes para que a atividade a ser desenvolvida obtenha a melhor qualidade possível. Embora deva ser flexível, o planejamento visa a evitar as improvisações que poderiam comprometer a realização da atividade. Entendendo-se essas dimensões do planejamento e que tanto na administração como na gestão o planejamento é um elemento imprescindível, pode-se afirmar que administrar e gerir têm a mesma significação. Por isso, encontramos a utilização dos dois termos para designar as mesmas atividades. Nesse sentido, afirma-se que: À semelhança das produções na área da administração empresarial, hoje denominada gestão empresarial, os textos e inclusive a legislação educacional 15

13 Rosilda Silvio Souza passam a utilizar a palavra gestão como sinônimo de administração, tendência observada nos últimos anos, quando da substituição das expressões administração da escola ou administração da educação por gestão da escola ou gestão da educação, inovação que pode ser interpretada de diferentes maneiras. Uma opção interpretativa apregoa que a substituição sugere uma tentativa de superação do caráter técnico, pautado na hierarquização e no controle do trabalho por meio da gerência científica, que a palavra administração (como sinônimo de direção) continha. Neste caso, sua substituição pelo termo gestão pode significar a adoção de uma lógica na organização do trabalho, cujo pressuposto seria evidenciar os aspectos políticos inerentes aos processos decisórios. (MURANAKA; MINTO apud OLIVEIRA; ADRIÃO, 2002, p. 75). No entanto, quando se qualifica a administração vinculando-a à participação e à democratização, tem-se utilizado o termo gestão. Nesse sentido, encontramos a expressão gestão democrática. No caso da educação, gestão democrática da educação ou, então, gestão democrática da escola. Pode-se entender que essa posição objetiva reafirmar os aspectos políticos das práticas administrativas, da gestão escolar, da gestão da educação e da atividade educacional. 2.2 Democracia e Gestão O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Carlos Drummond de Andrade Você já deve ter ouvido afirmações indicando que a participação é uma garantia para a democratização da gestão da escola pública. A participação da população na escola é vista como um mecanismo para impedir que o Diretor de Escola aja contra os interesses dela. Segundo Paro (2003, p. 24), a natureza de seu cargo, que é o que o tem levado a agir necessariamente contra os interesses da população. Para o autor, o Diretor de Escola, porque investido de um cargo público, por meio de concurso, o faz agir necessariamente contra os interesses da população (grifos nossos). No que se fundamenta essa afirmação? Você concorda? Paro afirma ainda que é da natureza do cargo do Diretor essa atuação contrária aos interesses da população com a qual convive cotidianamente. Um cargo tem vida própria? As pessoas não imprimem aos seus cargos funções, ações às suas ideias, concepções, valores? E se não houvesse mais o cargo ou a atividade de Diretor de Escola resolveríamos o problema da democracia na escola? Vivemos em uma sociedade democrática? Têm-se considerado de fato as injunções sociais na escola? Atenção A gestão democrática de uma escola implica o envolvimento e a participação de todos os seus segmentos. A partir de uma concepção de que a gestão da escola é necessariamente autoritária, foram implantados os conselhos de escola visando a garantir a democracia no interior das unidades escolares. Nas palavras de Paro (1987, p. 160), uma teoria e prática de Administração Escolar que se preocupe com a superação da atual ordem autoritária na sociedade precisa propor, como horizonte, a organi- 16

14 Gestão e Desenvolvimento de Projetos zação da escola em bases democráticas. E para a Administração Escolar ser verdadeiramente democrática é preciso que todos os que estão diretamente ou indiretamente envolvidos no processo escolar possam participar das decisões que dizem respeito à organização e ao funcionamento da escola. Em termos práticos, isso implica que a forma de administrar deverá abandonar seu tradicional modelo de concentração da autoridade nas mãos de uma só pessoa, o diretor que se constitui, assim, no responsável último por tudo o que acontece na unidade escolar, evoluindo para formas coletivas que propiciem a distribuição da autoridade de maneira adequada a atingir os objetivos identificados com a transformação social. Com essas informações podemos entender que a centralização da autoridade nas mãos de uma só pessoa, o Diretor, é um empecilho à democratização social. Em que se caracteriza a autoridade do Diretor? De decidir sobre a organização e funcionamento da escola? Não há regras ou uma legislação para isso? Pode o Diretor organizar a escola de maneira diferenciada do que estabelece a legislação? Onde está o âmago da escola? Na sua organização ou no trabalho educacional que desenvolve com os alunos? A organização escolar determina como será realizado esse trabalho? Certamente que a organização da escola influencia o trabalho desenvolvido, contudo não a determina. A História da Educação não tem demonstrado muitos acontecimentos que subverteram as ações escolares à revelia de sua organização controladora? A ideia de certa passividade dos professores ante a autoridade do diretor parece-nos pouco verossímil diante da realidade atual. É possível uma transformação social sem a mudança das pessoas? Verificamos, nas últimas décadas do século passado, o que se chamou de processo de redemocratização do País. Implantaram-se mudanças nas instituições políticas visando à sua democratização. Ampliou-se a quantidade de partidos políticos, reestabeleceu-se o voto direto para eleição de Prefeitos ao Presidente da República, implantou-se uma Assembleia Constituinte para elaborar uma nova Constituição, passou a haver a liberdade da imprensa etc. Contudo, a transformação social tão sonhada ainda não ocorreu. A concentração de renda no País é uma das maiores do mundo, o desemprego é enorme, a pobreza atinge uma quantidade assustadora da população, a qualidade da educação, dos serviços de saúde, sobretudo públicos, continua sendo um grande problema nacional. Então, nada mudou? Não, muita coisa mudou. Algumas coisas melhoraram. Contudo, assistimos assustados, pelo menos alguns, à crise social tão fortemente demonstrada pela violência em todos os seus matizes, entre elas a da miséria, a falta de credibilidade da população nas instituições políticas e sociais. Vemos, constantemente, apontamentos acerca da crise de valores, de paradigmas que vive a sociedade atualmente. Apesar desse quadro, podemos dizer que a escola atualmente é mais democrática. Em que aspecto isso pode ser afirmado isso? A escola, em todos os níveis, teve um significativo aumento do seu atendimento. Afirma-se que no ensino fundamental o atendimento quase se universalizou. O acesso ao ensino superior cresceu enormemente, graças ao crescimento das universidades privadas. Também não temos gerações sendo reprovadas, embora com a ajuda da implantação da organização escolar em ciclos. E, há uma participação maior no interior das escolas por meio de reuniões e de instituições, como o Conselho de Escola e a Associação de Pais e Mestres (APM). Contudo, o Diretor de Esco- 17

15 Rosilda Silvio Souza la continua sendo o responsável último por tudo o que acontece na escola. Poderíamos dizer que, via de regra, ele é visto como culpado pelo que ocorre na escola, porque em geral o que se destaca são os problemas, os equívocos; dificilmente se evidenciam os acertos, as coisas boas, sobretudo nos meios de comunicação de massa, principalmente na televisão. Por que as responsabilidades não foram divididas? Não se advoga que cada um é responsável pelas suas ações? Por que isso parece que não tem valido para a escola? Os professores não são responsáveis pelas suas ações e os demais profissionais também não são? Qual tem sido a ação do Conselho de Escola? Quem executa o que ele decide? Todos os membros do Conselho de Escola executam o que foi definido coletivamente? Paro (2003) refere-se ao Diretor como chefe da escola, reafirmando que é o cargo de maior autoridade na escola. Estranhamos o termo chefe da escola. Vejamos em que se fundamenta esse estranhamento. Primeiro, porque nos parece uma associação da escola à empresa. Por que essa insistência em associar a escola, a sua organização, à empresa, à indústria? Na escola não temos uma produção alheia ao trabalhador, como na indústria. Também, o processo de trabalho não é decidido à sua revelia. Nas escolas, pelo menos nas públicas, não é o professor que planeja e executa o seu trabalho? Segundo, porque etimologicamente chefe é aquele que é o cabeça. O cabeça é que vê, pensa, promove o bem comum. Nesse sentido, somos da opinião de que o Diretor de Escola também é um chefe. E o seu cargo é de chefia. Conforme o sentido etimológico de chefe, de ser o cabeça, os outros profissionais também não o são, ou seja, também não podem ver, pensar e promover o bem comum? Ser chefe não significa necessariamente ser capataz ou feitor conforme romanceado nos livros que tratem da escravatura. O Diretor é a maior autoridade? O que é autoridade? Uma definição para autoridade é de possuir influência, prestígio. Diz-se também daquele que tem possibilidade de decidir. Quem exerce mais influência na escola? Quem tem mais possibilidade de decidir sobre o seu trabalho? Será que não é de fato o professor o que possui o cargo de maior autoridade na escola? Não é ele que realiza a atividade fundamental da escola? Não é no trabalho do professor e do aluno que se alicerça a finalidade da escola, portanto, detentor de maior prestígio? Infelizmente, os profissionais da educação, Diretor de Escola, Professores, Supervisores, Coordenadores, não têm recebido o merecido respeito social; na verdade, há um desprestígio social desses profissionais. Tal desprestígio se reflete, entre outras coisas, nas difíceis condições de trabalho desses profissionais, nas condições salariais, na qualidade e estrutura dos cursos de formação profissional e no desrespeito à sua ação. A preocupação com a justiça social, com a melhoria das condições de vida da população e de sua participação nas diferentes instâncias da sociedade é muito relevante, inclusive para a implantação da democracia e para uma vivência democrática. A democracia é um princípio a ser perseguido na vida social. A democracia como princípio articula-se ao da igualdade ao proporcionar, a todos os integrantes do processo participativo, a condição de sujeitos expressa no seu reconhecimento como interlocutor válido. Como método, deve garantir a cada um dos participantes igual poder de intervenção e decisão, criando mecanismos que facilitem a consolidação de iguais 18

16 Gestão e Desenvolvimento de Projetos possibilidades de opção e ação diante dos processos decisórios. Nestes termos, os conselhos de escola apresentam-se como espaços públicos privilegiados, nos quais tensões e conflitos, ao serem superados, desestabilizam práticas monolíticas ou pretensamente harmoniosas de gestão, ao mesmo tempo em que se configuram como espaços institucionais de soluções locais para os problemas do cotidiano escolar. (MURA- NAKA; MINTO apud OLIVEIRA; ADRIÃO, 2002, p. 77). Conforme apontamos, o pretenso poder do Diretor sobre a escola seria o impedimento para a democratização da gestão escolar. Qual é, de fato, o poder do Diretor? O Diretor de Escola pode decidir sobre o quê? Entendemos que não precisaríamos muito tempo trabalhando como Diretor de Escola para logo percebermos a falácia do poder do Diretor. Um estudo da legislação acerca das suas competências e atribuições também não deixaria dúvidas acerca do seu poder de decisão. Acreditamos que esse poder tão difundido existe apenas no imaginário dos profissionais, inclusive no de alguns teóricos sobre gestão escolar das Universidades. Alguns Diretores também possuem esse imaginário, o que às vezes os faz desembocar na arbitrariedade. Atenção Em uma gestão democrática, o diretor deve contar com órgãos colegiados que o auxiliem no desenvolvimento dos projetos. São exemplos os Conselhos de Escola e Grêmios Estudantis. Se pensarmos que o autoritarismo também é encontrado em outros segmentos da comunidade escolar, o que se propõe para barrá-lo? Via de regra, aponta-se que apenas o Diretor de Escola é autoritário. Os professores e demais funcionários raramente são acusados como autoritários. Por quê? Pais, professores e demais funcionários também não se formaram sob a égide do autoritarismo? Conseguiram eles passarem incólumes a ele? Será que algumas vezes não vemos autoritarismo onde é exercício da autoridade? Constitui autoritarismo o exercício da autoridade? Os outros profissionais não possuem autoridade? Segundo Silva Júnior (1990, p ), ao longo do Brasil, crescem a disputa e a animosidade entre especialistas e professores. Estes autoproclamados proletariado do sistema escolar investem contra a burguesia apontada do sistema: diretores, orientadores, supervisores, coordenadores e assistentes pedagógicos. Não sem razão, argumenta-se com a inchação burocrática, com a neurose do controle, com as marcas e deformações, enfim, produzidas pelo autoritarismo e que, numa visão ingênuo-reducionista, se apagariam com a eleição do diretor da escola pela comunidade. A crítica ingênua, segundo a qual apenas o professor teria condições de interpretar e encaminhar satisfatoriamente as soluções das questões educacionais funda-se, na verdade, num estranho postulado. A seu ver, o professor teria passado incólume pelas determinações do contexto autoritário de toda uma época. Como a escola poderia isentar-se do autoritarismo e da falta de solidariedade marcadamente presentes na sociedade? Entendemos que uma possibilidade de contribuir para a melhoria da gestão da escola e do ambiente escolar não está na forma de provimento de seus profissionais, nem na atuação de conselhos. A complexidade humana e social, os conflitos de interesses e intenções existentes na sociedade, da qual a escola é uma parte, não nos possibilita acreditar nessas simplificações. A importância do Conselho de Escola manifesta-se na possibilidade de várias pessoas com atuações diferentes imbuídas por interesses comuns, por um projeto comum, discutirem e encaminharem problemas que lhes são afetos. A assunção da responsabilidade é de todos, na 19

17 Rosilda Silvio Souza autoria de sua atuação individual a serviço do desenvolvimento coletivo, tornando o todo superior à soma das partes. Na escola não estamos em lados opostos, não somos classes que se digladiam pela sobrevivência, mas profissionais que pela qualidade de sua ação contribuem para a realização da finalidade da escola. A autoridade de fato está no exercício da sua competência, entendida como um conjunto de qualidades presentes na ação profissional. (RIOS, 2001, p. 132). Silva Júnior (1990, p. 57) adverte que o direcionamento da discussão para a questão do poder e da gestão democrática obscureceu, entretanto, a percepção de questão ainda mais significativa: a relação necessária entre a administração da escola e o ensino que se realiza em seu interior e para o qual a administração deve concorrer, se efetivamente se preocupa com sua legitimação. Certamente que a participação é muito importante nas escolas, pois as discussões das ideias e a reflexão acerca de propostas e encaminhamentos são enriquecidas pela contribuição de um coletivo que tenha objetivos comuns e visem à melhoria da aprendizagem dos alunos. Nesse aspecto, destaca-se a importância do conselho de escola. Contudo, ele não deve ser entendido como uma panaceia, pois são muitas as dificuldades com que se defrontam os profissionais na escola, bem como a população atendida. Há uma questão que é um dilema para os profissionais da educação em geral, e na situação que estamos discutindo, e que é especialmente importante para o diretor: aproximar a sua fala, o seu discurso da sua ação, pois partir do exemplo é o melhor caminho para o exercício da autoridade em qualquer âmbito. 2.3 A Gestão Afastando-se do Escolar O que foi feito, amigo, de tudo o que a gente sonhou? Milton Nascimento Há pouco tempo, os Diretores de Escolas Públicas começaram a reivindicar o repasse de recursos para serem administrados pelas escolas. Essa solicitação vinha revestida do argumento de conquista da autonomia pelas unidades escolares. Entendia-se que se a escola tivesse recursos financeiros ela teria mais autonomia diante do Governo. Devido à falta de recursos materiais e às condições de precariedade das escolas, os Diretores incorporaram às suas reivindicações o repasse financeiro para ser administrado pelas unidades. Aliada a essa discussão estava a que apontava a necessidade da descentralização das ações, também entendida como descentralização do poder. O repasse de recursos para as escolas foi instituído pelo Poder Público, que define o montante e os setores da sua aplicação. Com esses recursos, as unidades educacionais têm conseguido comprar equipamentos, materiais pedagógicos, fazer reparo nos prédios escolares e investir em formação dos profissionais. Devido à precariedade dos prédios escolares, muitos Diretores têm investido muito desses recursos na busca de conservação das escolas ou de minorar as suas condições visando à melhoria do ambiente escolar. 20

18 Gestão e Desenvolvimento de Projetos Contudo, com o repasse dessas verbas, os setores responsáveis pelos prédios escolares têm- -se eximido da sua responsabilidade de acompanhar as condições das escolas, encaminharem reformas para as que necessitam e vistoriá-las, sobrecarregando as escolas, mais especialmente o Diretor dessas tarefas. Atenção As demandas a serem enfrentadas pelos gestores da escola são de diversas ordens, mas nada deve afastá-los do foco principal de sua ação, que são aquelas ligadas à garantia das aprendizagens dos alunos. Com o recebimento desses recursos financeiros, os Diretores de Escolas devem encarregar- -se de comprar material, procurar prestadores de serviço, acompanhar o serviço etc. Aliado a isso há todo um processo de prestação de contas dessas verbas que também exige muito zelo e atenção. Se por um lado esses recursos financeiros na escola trouxeram possibilidades de realização de algumas coisas materiais e, também, de investimento no Projeto Pedagógico, por outro lado, têm ocupado muito do tempo do Diretor, afastando-o ainda mais das atividades mais pedagógicas. Havia uma queixa do Diretor relacionada ao excesso de atividades mais administrativas e burocráticas que o impediam de acompanhar mais de perto o trabalho pedagógico da escola. A necessidade de gestão dessas verbas veio ampliar ainda mais o distanciamento do Diretor das questões de cunho mais pedagógico. Enquanto isso, percebe-se que o Poder Público tem repassado para a escola muito das suas incumbências com a manutenção dos prédios escolares, a aquisição de materiais e até a formação dos profissionais. Pergunta-se se com essas ações não haveria um gasto maior de recursos, pois a pulverização de verbas pode ser mais onerosa do que sua centralização na aquisição de materiais e de serviços. Muitos Diretores têm apontado as suas contrariedades em relação às inúmeras atividades que têm sido repassadas para as escolas e que constituem desvio da sua função; entre elas está o repasse de verbas, embora revestido do discurso de autonomia da escola. Percebe-se que aquilo que se achava ser a solução, acabou resultando em mais problema, mais utilização do tempo do Diretor em tarefas que o afastam do Escolar, das questões do Ensino. Multimídia Filme: Um diretor contra todos. Sinopse Trata-se de um professor que consegue o emprego de diretor em uma escola com péssima fama. Os alunos do colégio, marginalizados em vários sentidos, mostram ao novo diretor como as coisas funcionam ali. Uma verdadeira batalha é travada entre eles. Assista! 2.4 Gestão Escolar e Projeto Pedagógico Tenho em mim todos os sonhos do mundo. Fernando Pessoa Aponta-se que o Gestor ou Diretor tem exercido a função principal de controle, sobretudo do trabalho do professor. O Diretor de Escola, na Rede Pública, é por formação e experiência um professor, pois é condição para ser Diretor a experiência docente. 21

19 Rosilda Silvio Souza Nesse sentido, esperamos que o Diretor de Escola, a partir da sua experiência como professor, utilize-a no sentido de contribuir para que a organização do trabalho escolar possibilite a melhoria da qualidade do ensino e do desenvolvimento dos alunos em todos os seus aspectos. A vinculação a uma postura controladora e a uma concepção de mundo da classe dominante independe da atividade profissional que exercemos. Em dado momento, os homens, mesmo vivendo em uma condição opressiva, podem ser ou se transformarem em opressores. Segundo Freire (1980, p. 57), a própria estrutura de seu pensamento viu-se condicionada pelas contradições da situação existencial concreta que os manipulou. Seu ideal é serem homens, mas, para eles, serem homens é serem opressores. Este é o seu modelo de humanidade. Tal fenômeno provém de que os oprimidos, num dado momento de sua experiência existencial, adotam uma atitude de adesão em relação ao opressor. Todas as pessoas têm concepções, embora muitas vezes não consigam explicitá-las. Por estarem imersas na realidade, não conseguem ter uma visão nítida de si mesmas, bem como de elaborar uma reflexão crítica de suas práticas. Esse fato lhes impossibilita revelar as suas concepções acerca das coisas. Tal dificuldade contribui para que as ações sejam realizadas criticamente. Devido à força da ideologia dominante, disseminada pela classe abastada financeiramente por meio dos meios de comunicação de massa e de outras instituições sociais, incorporamos ideias e práticas dissonantes com a nossa condição social. A escola, como instituição social, reproduz ideias e práticas, muitas vezes inconscientemente, contrárias à condição dos alunos com os quais trabalha e até à dos profissionais que nela atuam. A incorporação e a reprodução da ideologia da classe dominante pela classe dominada têm sido objeto de muitos estudos. No Brasil, Paulo Freire e outros têm feito um alerta para isso e para o papel da escola como reprodutora das desigualdades sociais. Todavia, afirmam também que a escola pode atuar como um instrumento na luta pela transformação das condições sociais. Para isso, é necessária uma atuação intencional, refletida, planejada, para que os objetivos desejados possam ser alcançados. Nesse processo, é importante desenvolver mecanismos de avaliação das opções realizadas, das estratégias adotadas, visando a corrigir possíveis desvios de rota. Simultaneamente a esse processo de avaliação, é igualmente importante a realização de procedimentos de autoavaliação por parte das pessoas objetivando também rever ou olhar mais detidamente as ações desenvolvidas. Instituir um processo de reflexão individual e coletiva possibilitará a realização de práticas que tenham a intencionalidade de realizar as finalidades da escola. Isso significa desenvolver ações fundamentadas em opções conscientes de mundo, homem, sociedade e educação. Nesse sentido, a construção de atuações profissionais conscientes de suas responsabilidades sociais e políticas é também resultado de aprendizagem individual e coletiva. Para saber pensar e sentir; para saber querer, agir, é preciso aprender, o que implica o trabalho educativo. (SAVIANI, 1991, p. 15). A maioria das pessoas não teve um processo educativo que lhes propiciasse a aquisição de um pensamento reflexivo. Os profissionais da educação também são frutos desse processo educativo. Nessa perspectiva, a escola pode transformar-se em um local que favoreça a autoaprendizagem dos seus profissionais. Isso não significa negar o conhecimento que eles já possuam, mas ampliá-lo para que se efetive melhoria da qualidade de ensino e do trabalho da escola como um todo. 22

20 Gestão e Desenvolvimento de Projetos Via de regra, quando pensamos em aprendizagem, pensamos apenas na aprendizagem do aluno. Todavia, para a melhoria desta e do ensino, devemos ampliar a nossa concepção acerca do papel da escola. Para Alarcão (apud RANGEL et al., 2002, p. 31), a qualidade do ensino e da aprendizagem deve ser vista não simplesmente no contexto da sala de aula, mas no contexto mais abrangente da escola como lugar e tempo de aprendizagem para todos (alunos, professores, funcionários) e para si própria como organização qualificante que, também ela, aprende e se desenvolve. O que se propõe é criar uma escola como um local de aprendizagem, uma organização aprendente. Segundo Alarcão (apud RANGEL et al., 2002, p. 36), Senge, o criador do conceito de organização aprendente, define esta como organização que está continuamente expandindo sua capacidade de criar o futuro (1994, p. 14). Alarcão (apud RANGEL et. al., 2002, p. 37) afirma que na concepção de Senge et. al. (1994) reconhece-se à organização a capacidade de se pensar por meio do pensamento original de seus membros, livremente expresso. Mas simultaneamente a capacidade de se desenvolver e de lhes proporcionar, a eles também, condições de aprendizagem coletiva e individual. Daí a expressão, também hoje utilizada, de organização qualificante. Trata-se de uma aprendizagem individual em ambiência de coletividade, uma aprendizagem cooperativa do conjunto das pessoas na organização. Para a autora, A escola, como organização aprendente e qualificante de seus membros, necessita ter uma visão partilhada do caminho que quer percorrer e refletir sistemática e cooperativamente sobre as implicações e as consequências da concretização dessa visão. O que significa que a escola tem que ter um projeto de ação e em ação, projeto que conte com o empenho de cada um na realização do que é comum a todos. (ALARCÃO apud RANGEL et. al., 2002, p. 41). Reafirma-se a importância de a escola ter um projeto e desenvolvê-lo, contando com o envolvimento de todos na realização dos objetivos definidos pela unidade educacional. Construir uma escola no sentido de uma organização aprendente exigirá o empenho do Diretor de Escola. Atuando nessa perspectiva, ele buscará organizar e implementar ambientes de aprendizagem e de formação humana. Nessa busca, o Diretor não atuará de forma solitária, pois a construção de ambientes acolhedores, formativos, é uma tarefa de todos que neles convivem; sua atuação, porém, é imprescindível. O Diretor, atuando como coordenador geral das atividades escolares, poderá elaborar um planejamento no qual vislumbrará a escola que pretende ajudar a construir. Compartilhar os seus sonhos com os dos outros educadores é necessário para a elaboração de um projeto de escola. Nessa direção, todos poderão construir o projeto da escola em que atuam, a identidade da escola, o projeto pedagógico. 23

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