DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM EM LEITURA E ESCRITA NAS ESCOLAS MUNICIPAIS DE CORNÉLIO PROCÓPIO: ESTRATÉGIAS E DIFICULDADES DOS PROFESSORES

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1 DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM EM LEITURA E ESCRITA NAS ESCOLAS MUNICIPAIS DE CORNÉLIO PROCÓPIO: ESTRATÉGIAS E DIFICULDADES DOS PROFESSORES Glaucea Valéria Batista Vitor (PIBIC//UENP) Roberta Negrão de Araujo (UENP) Marília Bazan Blanco (orientador) Centro de Ciências Humanas e Educação - Campus Cornélio Procópio - Universidade Estadual do Norte do Paraná Resumo O presente trabalho tem como objetivo realizar um levantamento dos casos de dificuldade de aprendizagem em leitura e escrita em alunos das escolas municipais de Cornélio Procópio e discutir quais são as estratégias utilizadas pelos professores no atendimento dessas crianças e quais as dificuldades enfrentadas. Participaram da pesquisa 42 professores, de 11 escolas municipais de Cornélio Procópio, por meio de um questionário. De acordo com os resultados, foram identificados 166 casos de dificuldades de aprendizagem de leitura e escrita e um caso confirmado de dislexia. Os professores mencionaram fazer uso de estratégias diferenciadas no atendimento das crianças com dificuldades de leitura e apontam que o número grande de alunos por turma e a ausência de diagnósticos dificulta o atendimento. Palavras-chave: Dislexia; Dificuldade de leitura; atendimento educacional especializado; avaliação multiprofissional. Fundamentação teórica As dificuldades de aprendizagem afetam cerca de 15% a 30% das crianças em idade escolar (SUEHIRO, 2006), sendo que as dificuldades na leitura e escrita estão entre as mais frequentes, relacionadas ao fracasso escolar. De acordo com Rotta (2006), as dificuldades de aprendizagem podem atingir 15% a 20% dos alunos da primeira série, chegando até 50% nos seis primeiros anos de escolaridade, estando entre os fatores responsáveis pelo fracasso escolar. Um estudo brasileiro realizado com crianças de escolas particulares demonstrou que 12,1% apresentam dificuldades em leitura e escrita (LIMA; SILVA, 2004 apud SALLES, 2005), e segundo Rotta (2006), 33,91% de crianças que cursavam a primeira série no Rio Grande do Sul apresentaram dificuldade para a alfabetização. Dentre as possíveis causas das dificuldades de leitura, a dislexia do desenvolvimento pode afetar de 5% a 10% da população, e é definida como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado pela dificuldade específica de leitura, não explicada por déficit de inteligência, falta de oportunidade de aprendizado, motivação geral ou acuidade sensorial diminuída, seja visual ou auditiva (MUSKAT et al 2011, p.2). É comum, muitos profissionais, dentre eles os professores, terem pouco conhecimento sobre o que é dislexia, suas causas e dificuldades advindas, e assim, podem não realizar um

2 trabalho adequado com esses alunos em sala de aula. Assim, embora se aceite que a dislexia seja um transtorno do neurodesenvolvimento inerente ao indivíduo, a família, escola e professores fazem parte do processo de ensino e aprendizagem desses indivíduos, devendo, portanto, ser também considerados. A observação da vida escolar do aluno dá-se a princípio pelo professor da sala de aula, este tem a função de dar subsídios necessários para que o processo de alfabetização seja entendido pela criança de um modo simples, eficaz e contextualizado, relacionando fatos escolares com a realidade cotidiana, ou seja, que o aluno aprenda na escola e fora dela. O diagnóstico formal de uma dificuldade de aprendizagem constitui uma sondagem inicial do aluno pelo professor, e depois uma avaliação dos profissionais qualificados, além de entrevistas realizadas com a família (ZORZI, 2003; KLEIN, 2004). O atendimento de crianças com transtorno de aprendizagem requer uma equipe multidisciplinar e interdisciplinar, composta por: pedagogo, pediatra, neuropediatra, psicólogo, psiquiatra infantil, fonoaudiólogo, otorrinolaringologista, oftalmologista, educador especial, fisioterapeuta, terapeuta educacional e assistente social (ROTTA, 2006). De acordo com a INSTRUÇÃO Nº 015/ SUED/SEED (PARANÁ, 2008) as crianças com transtornos funcionais específicos, como por exemplo, a dislexia, devem ser atendidas nas salas de recursos multifuncionais nas escolas regulares, em regime de contra turno, com avaliações e trabalhos pedagógicos específicos para as dificuldades apresentadas. Dessa forma, tanto os professores das salas de recursos quando quanto os das classes comuns devem apresentar conhecimentos teóricos e práticos a respeito desse transtorno, para que possa desempenhar sua função pedagógica de forma adequada. Frente a essa realidade, o presente trabalho tem como objetivo realizar um levantamento dos casos de dificuldade de aprendizagem em leitura e escrita em alunos das escolas municipais de Cornélio Procópio e discutir quais são as estratégias utilizadas pelos professores no atendimento dessas crianças e quais as dificuldades enfrentadas. Materiais e métodos A presente pesquisa configura-se como uma pesquisa de levantamento, da qual participaram 42 professores, de 11 escolas municipais de Cornélio Procópio, por meio de um questionário com questões abertas e fechadas. Além disso, realizou-se também uma entrevista estruturada com a responsável pela Educação Especial na Secretaria Municipal de Educação de Cornélio Procópio, para a obtenção dos dados sobre os atendimentos no município. Os dados foram analisados qualitativamente. Resultados O município de Cornélio Procópio possui 15 escolas municipais. Embora, após autorização da Secretaria Municipal de Educação, os questionários tenham sido entregues em todas as escolas, obtivemos retorno de apenas 11 escolas. Além disso, o número de questionários respondidos por escola foi pequeno: em média, quatro questionários. A tabela abaixo apresenta o número de alunos com dificuldades acentuadas de leitura e escrita: Tabela 1- Alunos com dificuldades de aprendizagem nas escolas municipais de Cornélio Procópio Série Meninas Meninos Pré-escolar 1 0 1º ano º ano 19 33

3 3º ano º ano º ano Total Fonte: Os autores A partir dos questionários, identificou-se então 166 alunos com dificuldades acentuadas em leitura. Destes, 25 alunos possuem diagnóstico de deficiência intelectual, transtorno de aprendizagem ou outro problema médico que pode estar relacionado à dificuldade apresentada. Dentre as causas apresentadas pelos professores, foram citados fenda palatina, implante coclear, TDAH, tumor cerebral, esquizofrenia e Síndrome de Asperger. Conforme informações da Secretaria Municipal de Educação, existe apenas um caso de dislexia confirmado matriculado na rede municipal de ensino. Uma vez identificadas as dificuldades, esses alunos devem ser encaminhados para avaliação multiprofissional, para a identificação das causas dessas dificuldades e indicação de atendimento especializado mais adequado para o seu caso. De acordo com o que foi apresentado pelos professores, alguns alunos apresentam dificuldades provavelmente decorrentes de alterações físicas, como fenda palatina e implante coclear, necessitando, por exemplo, de atendimento diferenciado do indicado para uma criança que possa ter dificuldades decorrentes de deficiência intelectual ou dislexia. Somente a partir da avaliação multiprofissional é possível identificar se as dificuldades são decorrentes de um transtorno neurobiológico, como a dislexia, ou de outros fatores, como físicos ou educacionais. A tabela abaixo apresenta o número de alunos que estão em processo de avaliação ou recebem atendimento educacional especializado na escola ou atendimento especializado fora do ambiente escolar. Tabela 2- Alunos em processo de avaliação e em atendimento especializado. Série Alunos em Alunos AEE Atendimento especializado avalição Pré- escola º ano 2 3 Fonoaudióloga, Visiáudio, psicólogo e professora de apoio 2º ano Sala de recurso, sala de apoio, reforço e psicólogo 3º ano 6 10 Fonoaudiólogo, sala de recurso, psicólogo e neuropedagoga. 4º ano 3 10 Sala de recurso e reforço escolar 5º ano 2 7 Sala de recursos e psicólogo Total Fonte: os autores A partir dos dados obtidos, identificou-se que 45 crianças estão em processo de avaliação e que 51 recebem algum tipo de atendimento especializado, seja na escola ou clínico. Conforme apontado por Rotta (2006) e Zorzi (2003), os atendimentos especializados e a parceria entre escola e serviços de saúde é de extrema importância para a superação das dificuldades das crianças.

4 Quanto às estratégias utilizadas pelos professores no atendimento dessas crianças em sala de aula, identificaram: trabalho individualizado, jogos pedagógicos, atividades em duplas, reforço escolar, caderno de leitura, caderno extra com atividades mais simples e atividades paralelas, estimulo de participação, fazer o próprio aluno encontrar seu erro, recursos audiovisuais e acréscimo de 10 minutos no fim da aula para os alunos que não fizeram a atividade por preguiça. No que diz respeito às dificuldades enfrentadas pelos professores, os mesmos identificaram: prestar atendimento individual ou especializado devido a quantidade de alunos na turma, falta de diagnóstico para saber como trabalhar com o aluno, indisciplina, distração, dificuldade em acompanhar o conteúdo, falta de estrutura, interesse e apoio da família. De acordo com o relato dos professores, estes mencionaram fazer uso de estratégias diferenciadas no atendimento das crianças com dificuldades de leitura, mas não mencionaram nenhum tipo de intervenção específica para estas dificuldades. Além disso, apontam que o número grande de alunos por turma dificulta o atendimento. Outra dificuldade identificada pelos professores é a ausência de diagnósticos, o que provavelmente se relaciona a uma dificuldade na realização da avaliação multiprofissional. Sabe-se que esses profissionais nem sempre estão disponíveis na rede pública e o custo de atendimento particular é elevado, o que pode dificultar a realização de uma avaliação adequada, e consequentemente, atendimentos adequados e/ou orientações para os professores sobre como trabalhar com esses alunos em sala de aula. Considerações Finais Identificou-se, por meio dos dados coletados, um número expressivo de alunos com dificuldades de leitura e escrita, relacionadas a diversas causas, e apenas um caso confirmado de dislexia. Sabe-se que a avaliação multiprofissional é de extrema importância para um encaminhamento e intervenção adequados, e os professores queixaram-se da ausência de diagnósticos, o que pode estar relacionado a dificuldades na realização das avaliações. Referências MUSKAT, M.; NAVAS, A.; TOPCZWESKI, A.; ZORZI, J. A relevância do diagnóstico da dislexia e da intervenção de qualidade. Disponível em:. Acesso em 15/jul/2012. PARANÁ. SEED/SUED. Instrução 15/2008. Critérios para Sala de Recursos, séries iniciais do Ensino Fundamental. Curitiba, Disponível em: Acesso em 23 de agosto de ROTTA, N. T.; PEDROSO, F. S. Transtornos da linguagem. In: ROTTA, N.T.; OHLWEILER, L.; RIESGO, R. S. (Orgs). Transtornos de aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2006, p SALLES, J.F. Habilidades e dificuldades de leitura e escrita em crianças de 2º série: abordagem neuropsicológica cognitiva. Tese. (Doutorado em Psicologia). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005.

5 SUEHIRO, Adriana Cristina Boulhoça. Dificuldade de aprendizagem da escrita num grupo de crianças do ensino Fundamental. Revista de Psicologia da Vetor Editora, v. 7, nº 1, p , Jan./Jun ZORZI, J. Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: questões clínicas e educacionais. Porto Alegre: Artmed, 2003.

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