UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS PROJETO AVEZ DO MESTRE

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1 UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS PROJETO AVEZ DO MESTRE GUERRA ESTRATÉGICA DE INFORMAÇÕES E A SEGURANÇA NACIONAL Luciano Fabricio Riquet Filho ORIENTADOR: Prof: Marcos A. Larosa Rio de Janeiro Junho/2002

2 UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES INSTITUTO DE PESQUISAS SÓCIO-PEDAGÓGICAS PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU GUERRA ESTRATÉGICA DE INFORMAÇÕES E A SEGURANÇA NACIONAL Apresentação de monografia ao Conjunto Universitário Cândido Mendes como condição prévia para a conclusão do Curso de Pós- Graduação Lato Sensu em Gestão Estratégica e Qualidade por Luciano Fabricio Riquet Filho

3 AGRADECIMENTOS Agradeço ao Corpo Docente e funcionários da Diretoria de Projetos Especiais pelo irrestrito apoio e aos colegas de curso pelas inequívocas demonstrações de amizade e apreço.

4 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho de pesquisa à minha esposa e filhas pela compreensão que tiveram e incentivo que me proporcionaram no decorrer do curso.

5 METODOLOGIA Para a elaboração do presente trabalho realizou-se extensa pesquisa de livros, artigos e outros trabalhos relacionados com o assunto. A grande maioria das fontes de consulta foi obtida acessando-se sites da Internet no exterior. A seleção das fontes de consulta foi elaborada em função da estrutura do trabalho e do tempo disponível para leitura do farto material encontrado sobre o tema. A análise e correlação dos fatos pertinentes uma vez sintetizados levaram à conclusão pelo método dedutivo.

6 RESUMO Este trabalho aborda uma nova forma de guerra denominada Guerra Estratégica de Informações (GEI), surgida na esteira das emergentes tecnologias associadas à Era da Informação que estamos hoje vivendo. Com a crescente e rápida evolução da chamada Infra-Estrutura Global de Informações, formada pelo conjunto de sistemas de comunicações, redes de computadores e serviços com elevado índice de informatização, surgem novas vulnerabilidades que nos forçam a rever o conceito de segurança nacional. Com a apresentação do tema em questão objetiva-se chamar atenção dos setores do governo responsáveis pela segurança e defesa e de segmentos do setor privado co-responsáveis pela operação da infra-estrutura crítica de funcionamento do Estado para as novas ameaças, viabilizadas pelas tecnologias da informação e comunicação. Pautada em pesquisa bibliográfica o trabalho procura colocar o leitor a par da significativa importância das tecnologias da informação e comunicações na vida da humanidade e chamar atenção para o fato de que a crescente dependência da sociedade em sistemas informatizados, a par dos extraordinários criados, gera vulnerabilidades que, se exploradas, colocam sob severo risco a Segurança Nacional. Em seguida, o leitor é introduzido ao tema Guerra Estratégica de Informações (GEI) onde são apresentados conceitos de diferentes autores dessa nova forma de guerra, os objetivos típicos que se pretende atingir quando se executam ataques efetuados de acordo com seus preceitos, as armas empregadas e as conseqüências possíveis resultantes de sua execução. Finalmente é abordada a forma defensiva da GEI onde são delineadas algumas estratégias baseadas em medidas de proteção, dissuasão e de prevenção.

7 SUMÁRIO AGRADECIMENTO... II I DEDICATÓRIA...I V RESUMO... V METODOLOGIA... V I SUMÁRIO... V II INTRODUÇÃO... 8 CAPÍTULO I CAPÍTULO II...24

8 CAPÍTULO III...32 CAPÍTULO IV...42 CONCLUSÃO...51 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA...52 INDICE...54 FOLHA DE AVALIAÇÃO...55

9 GUERRA ESTRATÉGICA DE INFORMAÇÕES E A SEGURANÇA NACIONAL A vitória sorri para aqueles que antecipam as mudanças na natureza da guerra e não para os que esperam para se adaptar após a sua ocorrência. Giulio Douhet INTRODUÇÃO A humanidade encontra-se no alvorecer de uma nova era: a Era da Informação. Alavancada pelos extraordinários avanços nas tecnologias da informação e da comuni-cação, ela anuncia grandes transformações e mudanças na forma de organização da sociedade e de valores e interesses nacionais. Porém da mesma forma que essas tecnologias transformam a vida das pessoas trazendo benefícios em todos os campos das atividades humanas, elas alteram a natureza dos conflitos, que surgem sob novas formas explorando métodos não tradicionais. É de se esperar que no futuro próximo os conflitos sejam bastante diferentes de tudo que aprendemos de nossa experiência passada. Um novo conceito conhecido como Guerra Estratégica de Informações (GEI) tem sido amplamente discutido no âmbito de Centros de Excelência e na esfera de responsabilidade de Departamentos e Ministérios de Defesa de países do Primeiro Mundo. Este

10 conceito tem por base o fato de que a Informação e as tecnologias da informação terão papel preponderante na Segurança Nacional tendo em vista que a interconectividade dos vários sistemas que compõem a infra-estrutura de informações, propiciada por estas tecnologias, expõe novas vulnerabilidades. Faz-se mister portanto abordar o impacto que as tecnologias da informação exercem na Segurança Nacional e adaptar seu conceito de acordo com as novas formas de ameaça. Neste trabalho procuraremos mostrar a GEI como uma realidade a ser encarada e estudada com profundidade tanto pelo setor público quanto pelo setor privado de modo que suas implicações e efeitos funestos sobre a Segurança Nacional sejam perfeitamente compreendidos e assimilados, possibilitando assim a implementação, em tempo hábil, de uma estratégia defensiva calcada na proteção das infra-estruturas críticas, na dissuasão de potenciais adversário e em medidas de prevenção. Essas considerações justificam a importância do tema que já deveria ser objeto de maiores atenções no âmbito de nosso país. No intuito de despertar o interesse e motivar estudiosos para o assunto a abordagem pautou-se na apresentação dos antecedentes à Era da informação e de suas perspectivas buscando-se primeiramente identificar os impactos sobre a sociedade causados pelas chamadas Primeira e Segunda Revoluções da Informação e, em segundo lugar, uma projeção daquilo que o futuro próximo nos reserva como fruto da aplicação das tecnologias da informação e da comunicação. Em seguida expusemos os riscos gerados por estas tecnologias e seus efeitos sobre a Segurança Nacional não sem antes resgatar exemplos do passado. No capítulo três é feita então uma introdução do que se constitui em Guerra Estratégica de Informações para em seguida delinearmos estratégias de defesa contra essa modalidade de guerra.

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12 CAPÍTULO I A ERA DA INFORMAÇÃO ANTECEDENTES E PERSPECTIVAS Através da História, os avanços nos vários campos do conhecimento sempre exerceram influência direta na maneira como a humanidade conduziu suas atividades. Hoje, fruto da verdadeira revolução em andamento na ciência e tecnologia, nos encontramos no limiar de uma nova era a Era da Informação cujo impacto no sistema internacional e no relacionamento humano é de todo incerto. O mundo tem sofrido dramáticas transformações e podemos considerar que isso decorre em grande parte das novas tecnologias de informação e comunicação. No entanto, é lícito afirmar que os avanços neste campo da ciência sempre se fizeram presentes na História do homem e entender seu impacto no passado e no presente é fundamental para se ter uma perspectiva do futuro. Não importam os motivos ou as razões, o Homem sempre teve a necessidade de se comunicar e trocar informações. De certa maneira, a própria civilização encontra sua base nessa necessidade. No entanto, alguns parâmetros sempre se constituíram em fatores complicadores para que o ser humano pudesse se comunicar: distância, tempo e localização. Afinal, um indivíduo pode sinalizar para ou falar com outra pessoa diretamente mas não se a distância entre elas for

13 muito grande; a distância entre duas pessoas que desejam se comunicar pode ser reduzida, mas isso demanda tempo, tempo esse que, às vezes, não se dispõe; finalmente, a localização da pessoa com quem desejamos nos comunicar, ou a nossa própria, pode tornar impossível a comunicação. Outros importantes aspectos tais como privacidade, segurança das comunicações, autenticidade e certeza da entrega da mensagem sempre tiveram influência no desenvolvimento de tecnologias relacionadas ao processo de comunicação. Desde a mais remota antigüidade, o ser humano sempre buscou métodos de comunicações que reduzissem o impacto adverso criado pela distância, tempo e localização. Tambores, tochas, fogueiras, pictografia e escrita em argila foram alguns dos primeiros recursos utilizados pela humanidade para superar as barreiras às comunicações. Códigos, cifras, bem como o uso de agentes de confiança e o emprego de selos e assinaturas também sempre se fizeram presente no processo de comunicação e foram sendo aperfeiçoados ao longo do tempo. Todos esses métodos primitivos sofriam algum tipo de limitação e alguns deles dependiam de condições ambientais (vento, visibilidade, etc.) favoráveis; para garantir a segurança das

14 comunicações consumia-se tempo codificando ou criptografando as mensagens. A própria transmissão e decodificação da mensagem demandava tempo, fator esse que se agravava à medida que ocorriam distorções características do método empregado, uma vez que a ocorrência de tal fato demandaria um prolongado processo de confirmação do conteúdo. Com o passar do tempo, a capacidade do ser humano em se comunicar continuou sendo prejudicada pelos fatores de tempo, distância e localização, em que pese os constantes porém lentos progressos observados nas tecnologias de informação. Em meados do século XIX esse panorama começou a ser modificado à medida que novas tecnologias amadureciam. Nesses pouco mais de 150 anos que transcorreram desde então ocorreu uma verdadeira revolução no campo da informação e das comunicações. Por conveniência, dividiremos esse espaço de tempo em três períodos históricos distintos e identificaremos os impactos deles decorrentes. 1.1 A PRIMEIRA REVOLUÇÃO DA INFORMAÇÃO Podemos enquadrar a primeira revolução da informação na moldura temporal que se estende por um período de 100 anos a partir de meados do século XIX. Neste período, três adventos viriam

15 transformar não só as comunicações, mas também a vida das pessoas: o telégrafo, o telefone e o rádio. Especialmente na sociedade industrial, essas tecnologias alteraram profundamente a maneira de as pessoas se relacionarem e também a condução das atividades de homens de negócios, militares e de política externa. O telégrafo que passou a ser operado de forma regular a partir de 1845 deflagrou uma onda de comunicações por todo o planeta. A operação deste meio de comunicação, patenteado pelo inventor norte-americano Samuel Morse em 1840 consistia na transmissão de sinais elétricos através de fios, que eram registrados em papel na forma de pontos e traços. A invenção de Morse se espalhou rapidamente e teve significativo impacto em amplo espectro das atividades humanas. Já em 1851, o telégrafo expandiu a internacionalização dos mercados financeiros com a conexão entre as Bolsas de Valores de Londres e Paris. No fim do século XIX, os governos de vários países da Europa se comunicavam por meio do telégrafo e as transações comerciais também dele dependiam. A par disso, as comunicações interpessoais se desenvolveram enormemente. Mensagens podiam ser transmitidas com rapidez, rompendo barreiras físicas representadas por montanhas e rios e, com isso, criaram-se maiores oportunidades para expansão de negócios. O advento do telégrafo

16 tornou permeável as fronteiras físicas entre países e isso trouxe inclusive questionamentos acerca da soberania da Nação-Estado. As atividades militares também foram afetadas pelo telégrafo. Já na Guerra Civil Americana, seu uso para orientar o emprego de tropas, prover apoio logístico e enviar informes de inteligência de nível tático e estratégico, referentes a movimentos de tropas inimigas foi de fundamental importância para o desencadeamento de ações militares. A capacidade de se transmitir mensagens por este canal quase que em tempo real transformou as atividades diplomáticas e de relações exteriores de países europeus em fins do século XIX e início do século XX. O volume de tráfego diplomático cresceu exponencialmente permitindo a troca de informações entre embaixadores e respectivas chancelarias com freqüência até então nunca vista. Essa rapidez trouxe, para os decisores, maior facilidade na coordenação das ações da política externa de seus países. A Europa tornava-se menor em conseqüência do telégrafo! Não tardou, e as informações passaram a fluir entre continentes, com a ligação da Europa com os EUA através de cabos submarinos. No plano internacional, as implicações de cabos submarinos para a diplomacia e política externa foram impressionantes. Interligados diretamente com as

17 respectivas Capitais, órgãos do Poder Executivo e, eventualmente, Comandos Militares, através de linhas telegráficas que atravessavam os oceanos, os representantes diplomáticos podiam transmitir seus relatórios e mensagens a partir dos países nos quais estavam credenciados. Podemos aquilatar o impacto gerado pela instalação de cabos submarinos pela mensagem transmitida pelo Presidente Theodore Roosevelt, em 1903, que percorreu o Globo em apenas nove minutos. O Mundo também tornava-se um lugar menor para se viver. Nunca até então, qualquer método de comunicação havia reduzido de forma tão significativa as restrições impostas pela distância e localização dos interlocutores e, também, pelo tempo consumido na tramitação das informações. Evidentemente, tais fatores ainda traziam óbices na capacidade de as pessoas se comunicarem, mas outros métodos logo viriam conferir maior eficiência e rapidez no processo de comunicações. Na esteira do sucesso criado com o surgimento do telégrafo, uma outra invenção viria revolver ainda mais a história das comunicações: o telefone. Inventado por Alexander Graham Bell em 1876 o telefone teve profundo impacto em praticamente todo campo da atividade humana. Menos de vinte e cinco anos após sua invenção, o telefone era extensivamente usado na Europa e nos EUA,

18 tornando-se um serviço de amplitude universal. Linhas telefônicas locais e interurbanas permitiram a criação de uma vasta rede de comunicações que possibilitou a ligação direta pessoa a pessoa. No início do século XX, o mundo das comunicações havia se alterado profundamente com o advento do telégrafo e do telefone e os efeitos adversos gerados pela distância, tempo e localização haviam se atenuado extraordinariamente. Contudo, a localização ainda exercia restrição de monta para o ato de se comunicar, uma vez que as posições dos interlocutores eram fixas em função do local de instalação dos equipamentos utilizados na transmissão e recepção de mensagens. Então, em 1894, Guglielmo Marconi, italiano de origem, enviou pela primeira vez um sinal de rádio através de uma distância de três quilômetros. Quando ele demonstrou a possibilidade de transmitir mensagens entre estações de terra e navios e entre navios, as Marinhas dos EUA e Grã- Bretanha logo adotaram essa nova tecnologia para ampliar a capacidade de comunicações marítimas. Em dezembro de 1901, Marconi enviou uma mensagem através do Atlântico, cobrindo a então impressionante distância de Km em poucos segundos.

19 Embora em seus primórdios, somente sinais de código Morse pudessem ser transmitidos pelo rádio, o uso deste meio de comunicação se expandiu paulatinamente. A partir de 1906, com a descoberta da maneira de se transmitir voz e música pelo rádio, seu uso espraiou-se com impressionante rapidez. Na década de 1920, somente nos EUA, mais de 600 estações de rádiodifusão estavam operacionais. Homens de negócio de visão logo viram o potencial do rádio para divulgação e publicidade além deste meio possibilitar a abertura de novos horizontes nos campos do entretenimento e da educação. O advento do rádio não passou despercebido pelos segmentos militares. Durante as Primeira e Segunda Guerras Mundiais, o rádio foi amplamente utilizado para o exercício do Comando e Controle, além de permitir grande flexibilidade no emprego de tropas decorrente do incremento em sua mobilidade. Basta citar que a Guerra Relâmpago ( Blitzkrieg ) adotada pelos alemães nos primeiros anos da II Guerra Mundial jamais teria sido implementada sem o advento do rádio. A par dessas aplicações, os Governos passaram a utilizar o rádio como instrumento de informação e, algumas vezes, de desinformação para

20 divulgar o andamento da guerra, promover o nacionalismo e espalhar propaganda de guerra OS IMPACTOS DA PRIMEIRA REVOLUÇÃO DA INFORMAÇÃO Ao término da II Guerra Mundial, as tecnologias da primeira revolução da informação haviam tido espetacular impacto na vida e no trabalho das pessoas. Ações de governo, transações comerciais e financeiras e a condução da guerra sofreram profundas modificações decorrentes do surgimento dessas novas tecnologias. Como nunca antes, as pessoas passaram a tomar conhecimento de fatos e eventos em curto espaço de tempo, independentemente do local de sua ocorrência perto ou afastado. Apesar da magnitude das mudanças trazidas com a evolução das comunicações, a estrutura do sistema internacional então vigente pouco se alterou. Estas tecnologias haviam surgido na época em que os Estados Europeus eram os principais atores do cenário internacional e esta situação perdurou durante todo o período em que mantiveram a primazia. Fora do Continente Europeu, o resto do mundo era dividido em colônias e áreas de influência dominadas pelas principais Potências Européias; dentro dele, o sistema de Balanço de Poder era preservado graças a atuação da Grã- Bretanha, Potência mundial de maior expressão.

21 Como corolário desta situação os Estados Europeus para preservar suas posições na estrutura global de Poder fizeram extensivo uso das novas tecnologias com o propósito de aprimorar as comunicações com os pontos mais afastados de seus respectivos Impérios e aperfeiçoar a capacidade de Comando e Controle de Forças militares. Assim, não foram criados espaços ou oportunidades para o surgimento de outros atores capazes de se estabelecer no cenário internacional e alterar a estrutura e funcionamento do Sistema de Poder então vigente. O volume do comércio internacional e as relações comerciais à nível global no final do século XIX e início do século XX se mantiveram em escala muito baixa impedindo que esse segmento da atividade humana assumisse posição de expressão no cenário internacional. Outras organizações, intergovernamentais e não governamentais também ficaram à margem no sistema de relações de Poder Internacional em vigor. 1.3 A SEGUNDA REVOLUÇÃO DA INFORMAÇÃO À medida que a II Guerra Mundial chegava ao fim, mais e mais pessoas tomavam consciência que o mundo havia se tornado um lugar menor para se viver. Mesmo assim, poucos conseguiram discernir no horizonte que novos avanços

22 tecnológicos afetariam de forma ainda mais dramática a capacidade humana de comunicação. A segunda revolução da informação, com fulcro na televisão, na primeira geração de computadores e nos satélites além de reduzir ainda mais as restrições impostas pela distância, tempo e localização viria a enriquecer o processo das comunicações em decorrência das características específicas de cada um destes meios. Enquanto o resto do mundo se recuperava da devastação criada pela II Guerra Mundial, os EUA reorientavam sua economia passando de uma base industrial para se fixar na área de serviços. A informação tornou-se uma commodity e gerenciála assumiu fundamental importância. Pouco a pouco este fenômeno adquiriu dimensões globais e o processo de coleta, tratamento e disseminação das informações passou a ser uma característica distinta das sociedades industriais. À medida que o uso destas novas tecnologias espalhou-se no seio da sociedade, a influência por elas exercida ensejaram a mudança de relações culturais e valores intrínsecos. Vejamos como cada uma destas tecnologias contribuiu para aperfeiçoar as comunicações e o fluxo de informações. a) TELEVISÃO Em muitos lares, a televisão passou a ser o centro da vida familiar alterando o modo de interação

23 entre as pessoas e a maneira como elas despendiam seu tempo. Inventada na década de 1920, pouco interesse despertou até o término da II Guerra Mundial. Sua penetração no mercado norte-americano deu-se com enorme rapidez. Basta citar que em 1955 setenta e dois por cento dos lares americanos possuía uma televisão ao passo que 10 anos antes, este percentual não passava de um (1). Nos anos 60, a TV se fazia presente em praticamente todos os lares dos países industrializados. Seus efeitos na sociedade e na opinião pública foram extraordinários. Por causa da televisão, homens e mulheres podiam ver pessoas e ocorrências em locais fora de seu campo visual imediato, coisa impossível antes de seu advento. Para muitos, a expansão da influência política, cultural e econômica norte-americana se deu graças a televisão. O impacto da TV nos negócios e na política também foi significativo. Com relação a este segundo aspecto, podemos relacionar dois fatos que nos dão de forma inequívoca a real dimensão da influência deste meio de comunicações: 1) atribui-se a vitória de John Kennedy nas eleições de 1960 ao televisionamento do debate entre ele e Richard Nixon; e 2) A transmissão de imagens da Guerra do Vietnam diretamente nos lares americanos também contribuiu, acredita-se, para acelerar a crescente oposição àquele conflito, no final dos anos 60.

24 A TV passou a ser vista como um poderoso veículo capaz de projetar valores morais e normas de comportamento social. Reconhecendo o potencial da televisão para influenciar posturas e atitudes, muitos governos, notoriamente os da ex- União Soviética e países do Europa Oriental, passaram a empregar este meio de comunicação para divulgar a versão oficial de fatos e eventos públicos e disseminar programas de governo. A junção da televisão com a tecnologia dos satélites no final dos anos 60 e no decorrer da década de 1970 ampliou ainda mais o poder de penetração deste veículo de comunicações gerando implicações ainda mais profundas para as relações internacionais. É interessante observar que nos primeiros anos que se seguiram à invenção da televisão, poucos foram os que souberam avaliar o potencial e a abrangência que este veículo de comunicações viria a ter. Ao contrário, as expectativas relativas ao uso dos primeiros computadores eram imensas. b) OS COMPUTADORES O primeiro computador eletrônico foi inventado por John Vincent Atanasoff na Universidade de Iowa em Pouco depois, durante a II Guerra Mundial, viu-se a necessidade de processar complexos cálculos matemáticos com rapidez para

25 resolver o problema de tiro balístico de artilharia. Por seu vez, os ingleses construíram uma série de dez computadores denominados Colossus que tinham a finalidade precípua de quebrar as cifras secretas utilizadas pelas Forças Armadas germânicas. Em 1946, era criado por J. Presper Eckert e John Mauchly na Universidade da Pennsylvania o primeiro computador de emprego genérico, o Electronic Numerical and Calculator (ENIAC). O ENIAC continha vávulas, pesava mais de 30 toneladas e consumia 175 KW de potência. Os computadores de primeira geração eram valvulares. Com a invenção do transistor em 1947, surgiam os computadores de segunda geração, de menor porte e mais rápidos que seus predecessores. Alguns anos mais tarde estes foram substituídos pelos computadores da chamada terceira geração que se utilizavam de circuitos integrados. Embora o desenvolvimento do computador tivesse sido motivado por razões militares, logo outros segmentos e áreas governamentais assim como setores ligados ao comércio e finanças passaram a fazer uso extensivo desta ferramenta. O computador aumentou extraordinariamente a capacidade de coleta, armazenamento e análise de informações tanto para indivíduos quanto para

26 organizações. Deve-se destacar seu uso na área das comunicações, especialmente no chaveamento e comutação de redes. Acoplado às linhas telefônicas por meio de MODEMS, um computador podia falar com outro, permitindo assim a transferência de dados com extraordinária rapidez, interligando locais os mais remotos na face da Terra. c) SATÉLITES A terceira tecnologia a integrar a segunda revolução da informação foi o satélite. Seu posicionamento no espaço veio a tornar possível a retransmissão de sinais de televisão e de telefonia para qualquer ponto da superfície da Terra, permitindo que as comunicações a nível global se processassem em tempo real. Com o advento do satélite e seu casamento com a televisão, as pessoas passavam a poder acompanhar ao vivo acontecimentos e eventos ocorridos do outro lado do Globo. É fácil de se imaginar as implicações disso nas interações humanas nos campos cultural, econômico, político e militar. Assim como os computadores, o desenvolvimento de satélites teve origem a partir de interesses das Forças Armadas dos EUA e da extinta URSS no uso desta tecnologia como instrumento de Comando e Controle de forças subordinadas e também na navegação, meteorologia,

27 reconhecimento, esclarecimento e vigilância. Em 1964, o primeiro satélite civil de telecomunicações foi lançado em órbita. Era o começo do maciço emprego de satélites que, em pouco tempo, viria a permitir o estabelecimento de comunicações a nível global. As comunicações por satélites experimentaram extraordinário avanço nas úlitmas três décadas. Os primeiros satélites possuíam algumas centenas de canais de comunicações. Hoje, cada um deles dispõe de milhares de canais para transmissão de sinais de telefonia, televisão e transmissão de dados. Satélites de transmissão direta (DBS Direct Broadcast Satellite) permitem a transmissão de sinais para qualquer ponto da superfície da terra onde exista uma antena de recepção. Outros tipos de satélite permitem o armazenamento dos dados coletados e a sua posterior retransmissão para um usuário específico. O acesso à satélites de comunicações tem crescido vertiginosamente aproximando ainda mais as pessoas através das distintas formas de comunicação que podem ser transmitidas por esse canal OS IMPACTOS DA SEGUNDA REVOLUÇÃO DA INFORMAÇÃO Analisar os efeitos da segunda revolução da informação sobre as relações e atividades humanas e seus impactos sobre o sistema internacional não

28 é tarefa simples tendo em vista sua recentidade. A absorção, a difusão e a própria operacionalização das tecnologias aplicadas à segunda revolução, pelos diferentes atores do cenário internacional, aqui identificados como sendo Estados, Corporações Multinacionais, Organizações Governamentais, Organizações Não- Governamentais (ONG) e indivíduos, se processaram de maneiras distintas, gerando mudanças nessas entidades e, também, na própria estrutura do sistema internacional. Dentre as entidades acima mencionadas, as Corporações Multinacionais talvez possam ser consideradas as que sofreram maior impacto da Segunda Revolução da Informação. As tecnologias associadas a esta revolução exerceram significativa influência na estruturação destas corporações além de terem contribuído para a regionalização e globalização dos negócios. Este fenômeno da regionalização se constituiu, por exemplo, em um dos fatores de peso no movimento pela integração política e econômica da Europa. Como exemplo maior da influência das tecnologias associadas à segunda revolução da informação sobre o setor de negócios, basta citar o que representou para o sistema bancário e financeiro internacionais a capacidade auferida

29 com a possibilidade de se transferir capital eletronicamente. As Organizações Não-Governamentais (ONG) também tiveram sua participação no cenário internacional realçada, porque ao se tornarem mais ativas e ao coordenar melhor suas ações passaram a ter maior influência nas atividades em que se viram envolvidas. Em que pese os impactos gerados pelas primeira e segunda revoluções da informação sobre as atividades humanas e o maior destaque assumido pelas Corporações Multinacionais e Organizações Não-Governamentais, a estrutura do Sistema Internacional manteve-se basicamente inalterada. No entanto, embora discutível, pode-se considerar que as tecnologias a elas aplicadas tiveram participação na extinção do Sistema de Balanço de Poder existente antes da Primeira Guerra Mundial (primeira revolução) e na criação e extinção do sistema bi-polar que vigorou no período que se estendeu do fim da II Guerra Mundial até O FUTURO No fim dos anos 80, uma nova revolução da informação começou a surgir no horizonte com o surgimento de tecnologias revolucionárias com particular destaque para a introdução de semicondutores com elevada capacidade de

30 armazenamento de dados, velocidade de processamento e alta confiabilidade; computadores avançados de grandes potência e confiabilidade, crescente miniaturização e custos decrescentes; fibras óticas capazes de transmitir 500 canais, em comparação com os pouco mais de 60 canais de um cabo coaxial de cobre; telefonia celular; satélites com capacidade de comportar milhares de canais para telefonia, televisão e transmissão de dados; redes de computadores capazes de transmitir bilhões de bits de dados por segundo; e técnicas para compressão e transmissão digital de dados 1. Vejamos sinteticamente os avanços que poder-seão atingir em algumas áreas específicas afetas ao fluxo, armazenamento e gerenciamento das informações, em decorrência destas novas tecnologias: a) VELOCIDADE DE TRANSMISSÃO A velocidade de transmissão de dados aumentará significativamente possibilitando maior rapidez no fluxo e, conseqüentemente, no tratamento da informação; b) CAPACIDADE DE TRANSMISSÃO A capacidade de transmissão crescerá ensejando aumento no volume de dados transmitidos; 1 Alberts, David S. e Papp, Daniel S. em Information Age Anthology, Part I: Information and Communication

31 c) FLEXIBILIDADE Espera-se atingir uma maior flexibilidade no fluxo de informações, eliminando-se, ou pelo menos reduzindo, a dificuldade de comunicações entre dois interlocutores, imposta pela eventual localização dos mesmos, em face à disponibilidade de diferentes caminhos para roteamento do fluxo de dados que se deseja transmitir; d) MAIOR ACESSO A redução dos custos de produção das tecnologias aplicadas à sistemas de informação permitirá às pessoas e organizações acesso mais amplo aos meios de comunicações; e e) MAIOR DIVERSIDADE DE TIPOS DE MENSAGENS Até a pouco mais de cem anos, as comunicações pelo método elétrico se limitavam à transmissão de pulsos elétricos representativos de letras e números através de fios. Hoje as comunicações se processam por meio da transmissão de voz, dados digitais e imagens. Esse complexo conjunto de mensagens contribuirá ainda mais para a conectividade global entre pessoas e instituições. Que importantes implicações serão proporcionadas pelos mencionados avanços? Em primeiro lugar um fortalecimento do indivíduo, em detrimento às tradicionais estruturas Revolution, Vol. I

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