Relações Brasil-Suécia: Reaparelhamento e Transferência Tecnológica no Âmbito da Força Aérea Brasileira

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1 Relações Brasil-Suécia: Reaparelhamento e Transferência Tecnológica no Âmbito da Força Aérea Brasileira Edson Tomaz de Aquino 1 Apoena Bezerra Evangelista 2 Bruna Fraga dos Santos 3 Joana Maria Barreto Andrade 4 Jorge Matheus Oliveira Rodrigues 5 Luiz Felipe Mota Nunes 6 RESUMO: O objetivo principal deste artigo é discutir o processo de compra de novos caças feito pelo Governo Federal, a fim de reaparelhar as Forças Armadas com a transferência de tecnologia de uso dual. Após longo processo de negociação, o Estado brasileiro opta pelo modelo Gripen da empresa sueca Saab, estabelecendo um novo patamar nas relações entre os dois países, ao nível de uma parceria estratégica. Para tanto, toma-se por base o conceito de Estado desenvolvimentista, adotado por CERVO & BUENO. Será feito um Estudo de Caso, a partir da análise de documentos oficiais e acadêmicos, bem como sites específicos da área. Como conclusão, verifica-se que a escolha dos caças suecos enquadra-se nos objetivos estratégicos de ambos os países, principalmente no caso brasileiro no concernente à transferência de tecnologia. Palavras-chave: Relações Brasil-Suécia; indústria de defesa; aeronaves caça; reaparelhamento; transferência de tecnologia; estratégia. 1 Doutor em Relações Internacionais e Professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe. 2 Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. 3 Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. 4 Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. 5 Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. 6 Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe.

2 INTRODUÇÃO Pensar em defesa nacional envolve estabelecer parâmetros de análise históricos e atuais. O Brasil, na década de 70, iniciava a sua indústria de defesa, sob o comando dos militares. Nessa época, preponderava-se a ideia de que era necessário fomentar a potência bélica concomitantemente ao desenvolvimento de outras áreas sociais. Durante a história do armamento brasileiro houve momentos de apogeu - como a época supracitada e momentos de declínio, os quais estão atrelados a diferentes políticas de governo. O aparelhamento da força aérea, em âmbito interno, sempre foi uma questão colocada em pauta. A rápida obsolescência da tecnologia dos caças e a constante necessidade de renovação faz com que diretrizes orçamentárias sejam discutidas e que processos licitatórios sejam anunciados. Durante os últimos 15 anos, a negociação com a indústria aeronáutica dos países europeus e americanos tomou forma, e com isso, outros fatores foram incluídos nela, inclusive a transferência de tecnologia e as relações comerciais. No início de 2014, o Governo Dilma anunciou a compra dos caças suecos a partir da assinatura de acordos, os quais trarão benefícios não só para a indústria aeronáutica brasileira, mas também para as relações bilaterais entre os países. Dessa forma, serão apresentados no artigo a relação entre Brasil e Suécia, indo desde suas relações comerciais, de investimentos industriais e infraestrutura, troca de tecnologia, até similaridades da agenda internacional de ambos os países. A expectativa, sobretudo, é o cumprimento dos acordos firmados, uma vez que assim realizados, proporcionarão um aprimoramento da indústria bélica e o intercâmbio de conhecimento entre os dois. DOCUMENTOS DE DEFESA E REAPARELHAMENTO DO DAS FORÇAS Os esforços dos ministérios da Defesa, das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), dão respaldo à indústria de defesa. O Livro Branco de Defesa Nacional (BRASIL,2012), em seu capítulo 4, intitulado A defesa e o desenvolvimento industrial, ressalta o desenvolvimento da indústria de defesa nacional e a independência tecnológica como políticas indispensáveis para o adequado equipamento das Forças Armadas e para o próprio desenvolvimento nacional: A Estratégica Nacional de Defesa (END) estabelece o desenvolvimento da indústria de defesa nacional e a independência tecnológica como diretrizes indispensáveis para o adequado equipamento das Forças Armadas e para o próprio desenvolvimento industrial (BRASIL, 2012). A importância da Base Industrial de Defesa e do desenvolvimento autônomo das tecnologias indispensáveis à defesa nos termos da END (Brasil, 2012) também é vislumbrada quando da análise da Política Nacional de Defesa e da Estratégia Nacional de Defesa 7, ambas em suas versões mais atualizadas, de A Estratégia Nacional de Defesa (END) destaca três pontos, aos quais denomina de Eixos Estruturantes. São eles: 1. Organização e orientação das Forças Armadas a fim de melhor desempenharem sua destinação constitucional e suas atribuições na paz e na guerra. 2. O segundo eixo estruturante refere-se à reorganização da Base Industrial de Defesa, para assegurar que o atendimento às necessidades de tais produtos por parte das Forças Armadas apoie-se em tecnologias sob domínio nacional, preferencialmente as de emprego dual (militar e civil). 3. O terceiro eixo estruturante versa sobre a composição dos efetivos das Forças Armadas e, consequentemente, sobre o futuro do Serviço Militar Obrigatório. 7 A PND fixa os objetivos da Defesa Nacional e orienta o Estado sobre o que fazer para alcançá-los. A END, por sua vez, estabelece como fazer o que foi estabelecido pela Política (BRASIL, 2012). 2

3 Ademais, a END estabelece o alcance da independência nacional através da capacitação tecnológica autônoma, inclusive nos estratégicos setores espacial, cibernético e nuclear. Tal consideração nos remete às tecnologias duais, produzidas tanto para fins militares quanto para o uso civil a exemplo da aviação civil, muito beneficiada pelos avanços no setor militar, que se enquadra no cenário de impulso e fomento ao desenvolvimento nacional. Desta forma, a indústria de defesa desdobra-se também como propulsora da ciência e tecnologia na sua aplicação na economia, ao agregar valor aos produtos. Busca qualificar o país na divisão internacional do trabalho (AQUINO, 2015). Nesse sentido, a país passa a rever o modelo adotado durante a década de 90, quando da vigência do neoliberalismo, perpetrado pelo Consenso de Washington. Adota-se, portanto, um modelo de Estado desenvolvimentista, visando a superação das vulnerabilidades estruturais e consequente impulso ao desenvolvimento nacional. Como afirmam Cervo e Bueno: O Estado desenvolvimentista, de características tradicionais, reforça o aspecto nacional e autônomo da política exterior. Trata-se do Estado empresário, que arrasta a sociedade no caminho do desenvolvimento nacional mediante a superação de dependências econômicas estruturais e a autonomia de segurança (CERVO, BUENO. 2002, p.457). A Política Nacional de Defesa (PND), por sua vez, ressalta a importância do investimento do Estado em setores de tecnologia avançada (BRASIL, 2012) a fim de superar as vulnerabilidades existentes. E ainda: A persistência de ameaças à paz mundial requer a atualização permanente e o aparelhamento das nossas Forças Armadas, com ênfase no apoio à ciência e tecnologia para o desenvolvimento da indústria nacional de defesa. Visa-se, com isso, à redução da dependência tecnológica e à superação das restrições unilaterais de acesso a tecnologias sensíveis (Política Nacional de Defesa. BRASIL, 2012). Quando da listagem dos Objetivos Nacionais de Defesa, a PND aponta a necessidade de desenvolver a indústria nacional de defesa, orientada para a obtenção da autonomia em tecnologias indispensáveis, bem como de estruturar as Forças Armadas em torno de capacidades, dotando-as de pessoal e material compatíveis com os planejamentos estratégicos e operacionais (BRASIL, 2012). Não obstante, consta na PND o desejo de integração da Base Industrial de Defesa na América do Sul, o que demonstra não apenas o reconhecimento da necessidade de desenvolvimento da área, mas também a inclinação pacífica e cooperativa do processo de reaparelhamento das Forças. Nesse sentido, cabe citar a END: A Base Industrial de Defesa será incentivada a competir em mercados externos para aumentar a sua escala de produção. A consolidação da União de Nações Sul- Americanas (UNASUL) poderá atenuar a tensão entre o requisito da independência em produção de defesa e a necessidade de compensar custo com escala, possibilitando o desenvolvimento da produção de defesa em conjunto com outros países da região (Estratégia Nacional de Defesa. BRASIL, 2012). 3

4 Ainda de acordo com a END, Serão buscadas parcerias com outros países, com o propósito de desenvolver a capacitação tecnológica e a fabricação de produtos de defesa nacionais, de modo a eliminar, progressivamente, a dependência de serviços e produtos importados (BRASIL, 2012). Deve-se salientar que a indústria da defesa possui peculiaridade no tocante as normas da OMC (Organização Mundial do Comércio). Por ser estratégico à segurança nacional, esse segmento da indústria não está atrelado às restrições impostas pela entidade, como subsídios governamentais, normas às licitações para compras externas e regime tributário. Com efeito, é evidente a correlação entre Defesa e o Desenvolvimento do país. Não obstante, destacam-se também o interesse brasileiro em se capacitar a fim de adquirir autonomia no desenvolvimento tecnológico, bem como a necessidade de reaparelhamento das Forças. Considerando a inserção do Brasil no cenário internacional, evidencia-se ainda a necessidade de ajuste da capacidade de defesa brasileira ao papel que o país pretende desempenhar. Ainda que o Brasil não possua contenciosos com seus vizinhos e as ameaças a sua segurança não sejam eminentes, o país tem sinalizado sua aspiração em ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Sua participação contínua em missões de paz reflete esse desejo, o que respalda os investimentos na área militar. Nesse sentido, cabe pontuar que o plano de reaparelhamento das Forças Armadas, divulgado em 2012, prevê investimentos de cerca de 120 bilhões de dólares, a serem investidos num prazo de 20 anos. Embora o país seja reconhecido pela sua cultura de paz, o plano reflete o estágio de defasagem operacional das Forças, pelos poucos investimentos recebidos, principalmente na década de 90, período em que o Estado se ajustou aos ditames do Consenso de Washington, que envolveram privatização de empresas estatais, ampla abertura comercial e corte nos investimentos, em consonância com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Estão previstos investimentos na construção de submarinos, fortalecimento da defesa antiaérea, compra de novos aviões de caça, com transferência de tecnologia, reaparelhamento da força terrestre e meios de defesa cibernética, com a proteção da rede de internet. É nesse cenário que se estabelece o processo de negociação entre Brasil e Suécia a fim de acordar a compra dos caças Grippen, da empresa sueca Saab. RELAÇÕES BRASIL-SUÉCIA ACORDO EMBRAER-SAAB O processo de escolha dos aviões de caça remonta ao ano de 1994, ainda no governo Itamar. Nesse ano, o governo brasileiro passa a procurar interessados em oferecer um novo avião de caça para substituir os Mirage e os F-5, que já estavam perto de atingir seu limite operacional. No governo seguinte, Fernando Henrique Cardoso lança o programa de modernização da Força Aérea Brasileira (doravante, FAB). O edital é lançado em 2001 e se apresentam os seguintes modelos: Sukhoi e MiG-29, da Rússia; Mirage, da França; F/A-18 e F-16, dos Estados Unidos; Eurofighter, do consórcio europeu envolvendo Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha; e Gripen, da Suécia. Vale ressaltar que FHC termina seu segundo mandato sem tomar uma decisão acerca da compra dos caças apesar das diversas reuniões realizadas a fim de que um modelo fosse escolhido (WINAND; SAINT-PIERRE. 2003). Quando do início do governo Lula, o processo licitatório é, mais uma vez, adiado, devido à ênfase no combate à fome e o enfoque nos programas sociais deixando o projeto de reaparelhamento das Forças Armadas em segundo plano. O processo foi retomado apenas em 2003, com novas propostas realizadas pelos fabricantes. 4

5 Em 2005, o projeto F-X é encerrado e os concorrentes oferecem propostas alternativas de compra direta ou aluguel das aeronaves. O programa é rebatizado de F-X2, permanecendo na disputa apenas o Dassault Rafale, o Boeing F/A-18 e o Saab Gripen NG, tendo este último a preferência da FAB, embora Lula demonstrasse que o governo fecharia com os franceses. Por fim, em 2011, o governo Dilma adia a decisão novamente e os americanos assumem a preferência. A Boeing, fabricante do modelo, chega a assinar acordo com a Embraer para vender o avião cargueiro brasileiro, o K-C 390, como forma de fortalecer sua posição junto ao governo brasileiro. Nesse cenário, a FAB inicia um processo de votação entre o Rafaele (França), o Gripen (Suécia) e o Hornet (EUA), levando em conta diversos fatores como: informações técnicas, questões diplomáticas, contratos de transferência de tecnologia (off-set), pacote de armamentos, logística e suporte por ao menos cinco anos. (SILVA et al., 2011). A tabela a seguir expõe as características levadas em conta pela FAB para a escolha dos caças: TABELA I: DADOS TÉCNICOS DOS CAÇAS CONCORRENTES Avião Rafale F3 Hornet F18 Gripen NG País França EUA Suécia Vantagens O Brasil firmou uma parceria militar prioritária com a França. Tem escala industrial estabelecida e boa relação custo benefício. É mais barato e tem um projeto aberto para desenvolvimento. Desvantagens O avião é caro e tem Congresso americano É o único problemas de escala. pode vetar a monomotor na Só a França o utiliza. transferência de disputa e ainda não tecnologia no futuro. existe além do protótipo de demonstração. Preço (com armas e R$ 263 milhões R$ 188 milhões R$ 131,6 milhões suporte) Armamentos Mísseis ar-ar, mísseis ar-terra e bombar. Mísseis ar-ar, mísseis ar-terra e bombar. Mísseis ar-ar, mísseis ar-terra e bombas. Propulsão Biturbina SNECMA Biturbina GE F414- Monoturbina GE M88-2E4, de a 400, de a F kg de empuxo Kg de empuxo Peso vazio kg kg Composição 25% de materiais 40% de titânio 60% de liga de estrutural compostos alumínio Carga G +9/-3,2 (limite +11g) +7,5/-3,0 (limite +10 g) +9/-3,0 Controle de Voo Controles eletrônicos digitais de autoridade Controles eletrônicos digitais de autoridade Controles eletrônicos digitais de autoridade plena (FADEC+ plena (FADEC+ plena (FBW, de FBW, de quádrupla redundância) FBW, de quádrupla redundância) quádrupla redundância) Fonte: Desenvolvido com base em dados apresentados no jornal Folha de S. Paulo, de 02 de agosto de 2009, pg. A10, e na revista Forças Armadas em Revista, ano 4 n. 15,

6 O modelo dos Estados Unidos era o mais cotado principalmente porque era considerado pelos militares como um modelo de alta potência e alta escala de produção (SILVA et al., 2011). Tal situação persistiu até que, em 2013, ocorreu a eclosão do escândalo da espionagem da Agência Nacional de Segurança dos EUA escândalo este que incluía altos membros do governo e até mesmo a presidente. O caso afastou o Brasil dos Estados Unidos, reforçando as desconfianças quanto ao cumprimento do acordo de transferência de tecnologia. Na área da cooperação militar entre os dois países, ainda é lembrado o fracasso do acordo nuclear dos anos 70. Com relação ao modelo francês, uma questão foi levada em conta: a França tem um histórico ruim em seus acordos militares, principalmente no tocante à transferência de tecnologia, sendo considerado um país que não cumpre totalmente seus acordos (SILVA et al., 2011). Sendo assim, fica notável que a preço e transferência de tecnologia tornaram-se os fatores mais influentes na escolha. Com isso, o sueco Gripen se tornou o favorito, até ser o escolhido, no final de 2013, com um pacote de 36 aviões fornecidos por 4,5 bilhões de dólares, preço bem abaixo dos concorrentes. Após a divulgação, em 2014, o ministro da Defesa, Celso Amorim, assina em Estocolmo dois acordos que dão sequência ao processo de compra dos caças. Um dos acordos estabelece intenções entre os dois países em desenvolver projetos na área militar. O outro se refere à proteção de informações sigilosas sobre a compra dos caças e de outros projetos que possam ser desenvolvidos na parceria bilateral. O acesso aos códigos-fontes permite ao Brasil poder integrar outros equipamentos e sistemas operacionais às funções originais dos aviões. Em última instância, dissolvem-se possíveis relações de dependência em relação ao detentor da tecnologia. Outro ponto a ser destacado do acordo é o direito do Brasil vender o Gripen no mercado regional, tornando-se porta de entrada dos suecos na América Latina. Para o ministro da Defesa da Suécia, Peter Hultqvist, É um acordo importante que abre outras oportunidades para o Gripen, projeto que estabeleceu uma nova relação entre os dois países (DEFESANET, 2014). Para o então comandante da FAB, Juniti Saito, o Brasil possui um parque industrial apto a receber a nova tecnologia advinda do negócio entre os países. Posso garantir que estamos preparados e que vamos honrar todos os compromissos sobre confidencialidade de informações (RIBEIRO, Stênio. EBC, 2014) De acordo com nota divulgada no jornal EBC: A expectativa é que seis unidades da versão C/D cheguem ao Brasil no primeiro trimestre de 2016 e os outros quatro desembarquem por aqui no início de As primeiras unidades da versão NG são esperadas para Diante disso, o comandante da FAB destacou a importância do contato prévio dos pilotos e equipes técnicas de solo com uma versão similar à adquirida pelo Brasil, familiarizando-os com o equipamento (EBC, 2014). 6

7 Caça Gripen NG Demo. Fonte: https://www.flickr.com/photos/saabgroup/ /in/album / RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS E COMERCIAIS Dos países escandinavos, talvez a Suécia seja o país com quem o Brasil tenha mais familiaridade. Em 1826 as primeiras relações diplomáticas foram estabelecidas entre o Império brasileiro e o Reino da Suécia, e foram mantidas por longo período até uma visita de Dom Pedro II ao país nórdico cinquenta anos mais tarde. Após a chegada de uma leva de imigrantes suecos em 1890 ao Brasil o comércio entre ambos países foi intensificado. Em 1924 a Ericsson - gigante mundial em tecnologia da mobilidade e comunicação - chegou ao país, sendo um das primeiras empresas estrangeiras a investir no Brasil. As boas relações entre os dois países também se deve a convergência de percepção em diversos temas da agenda internacional. Em 2008, o Plano de Ação da Parceria Estratégica foi assinado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, visando diversificar o diálogo sueco-brasileiro para que este contemplasse diversas áreas de investimento como comércio e investimentos, bioenergia, defesa, meio ambiente, ciência, tecnologia e inovação, educação e cultura. 8 Um fator que propicia efetividade deste acordo e da proximidade de ambos países é a Suécia ser atualmente, a maior consumidora do etanol brasileiro na União Européia e importante aliada nos esforços para a criação de um mercado internacional de biocombustíveis e para a liberalização do comércio do produto no bloco (BRASIL,2015). Fortalecendo esta aproximação entre ambos países, foi inaugurado em 2011, em São Bernardo do Campo, o CISB Centro Brasil-Suécia de Pesquisa e Inovação que visa investir em esferas de tecnologia de ponta buscando aperfeiçoar as áreas da defesa, aeroespacial e cidades sustentáveis com ênfase na segurança pública, saneamento e tratamento de resíduos sólidos. 8 Informação disponível em < Acesso em 04/07/2015 7

8 Em entrevista cedida em março de 2015 ao Centro de Pesquisa e Inovação Sueco- Brasileiro, o novo embaixador sueco Per-arne Hjelmborn afirmou que: "O Brasil é um parceiro estratégico para a Suécia e de longe o nosso maior mercado exportador na América Latina. São mais de 200 subsidiárias suecas e as empresas de origem sueca estabelecidas no Brasil empregam mais de pessoas. A forte presença industrial e o nosso longo histórico proporcionam ao Brasil uma certa vantagem competitiva em relação a outros mercados emergentes e é definitivamente algo que nós devemos desenvolver quando exploramos novas oportunidades para cooperação comercial e de investimentos. Há um enorme potencial inexplorado em novos setores como, por exemplo, alta tecnologia, tecnologias de informação e comunicação e biociências. Mas também em setores tradicionais como mineração e florestal, nos quais ambos os países são líderes, existem grandes oportunidades para o desenvolvimento de negócios e cooperações." 9 A partir desta proximidade e de negociações para o investimento e cooperação nos setores de tecnologia e defesa, em 2013 a primeira fábrica da SAAB (Aeroplano Sueco Limitada, numa tradução livre) foi instalada em São Bernardo do Campo, no ABC paulista após três anos de extensas negociações, sendo escolhida pela presidente Dilma Rousseff 10. A parceria Brasil-Suécia no tocante à cooperação em Defesa é possibilitada, dentre outros fatores, pelo histórico de neutralidade do país europeu em conflitos internacionais tal como a II Guerra Mundial. Além disso, o país não é membro da OTAN, bem como se encontra livre de ameaças terroristas e de tensões e conflitos, fazendo com que se encontre em plano secundário quando de pressões políticas ou por alianças militares. Cabe ressaltar que a aquisição dos caças suecos inaugura uma relação bilateral mais estreita. O projeto conjunto entre a Saab e a Embraer para a fabricação da aeronave em solo brasileiro deve se estender por 30 anos. O desenvolvimento conjunto dos aviões com o Brasil vai permitir que a Suécia reduza os custos de investimento no projeto. Além de promover uma parceria promissora coma a Embraer, uma das empresas aeronáuticas mais importantes do mundo, o projeto está vinculado à geração de empregos qualificados. A parceria entre a Saab e a Embraer pode também beneficiar a venda do jato de transporte militar KC-390 à Suécia, para substituir aeronaves C-130 Hércules, que deixaram de ser fabricados. O Gripen NG (New Generation) começa a ser produzido em Nos próximos 20 anos, a previsão é que o mercado de caças supersônicos absorva unidades. Desse total, a parceria entre a Saab e a Embraer tem condições de disputar unidades no mercado mundial, que exclui a Rússia e China. A intenção da parceria é conquistar de 10 a 15% desse mercado, com valor estimado de 30 a 35 bilhões de dólares (DEFESANET, 2014). A montagem final e a integração de sistemas operacionais será feita na unidade fabril de Gavião Peixoto, da Embraer, no interior de São Paulo. O acordo prevê o envio de 100 a 200 engenheiros para a Suécia, para atuarem no desenvolvimento do Gripen na Saab. Numa segunda fase, esse grupo repassará o conhecimento obtivo para equipes no Brasil. A Embraer se consolidou nos últimos anos entre as quatro maiores fabricantes de aeronaves comerciais do mundo. A Saab, por sua vez, vislumbra solidificar a posição como líder mundial na produção de avião de caça. A parceria reforça a plataforma de crescimento 9 Entrevista completa disponível em < Acesso em 05/07/ Disponível em < Acesso em 05/07/2015 8

9 da Embraer no mercado global e fortalece os laços entre Brasil e Suécia, principalmente no setor da indústria da defesa, constituindo-se como uma parceria estratégica para ambos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Mesmo a indústria de defesa nacional tendo passado por momentos de ápice e por momentos de declínio, a iniciativa de fomentar e desenvolver a área de segurança e defesa nacional não foi esquecido completamente. Em âmbito interno o reaparelhamento da Força Aérea Brasileira (FAB), bem como das Forças Armadas (FFAA) como um todo, ganha respaldo e apoio em documentos nacionais como, por exemplo, o Livro de Defesa Nacional. Em décadas passadas, em meio a alguns percalços e foco em outros setores, como o social, o pensamento de promoção da indústria de defesa, capacitação tecnológica e o reaparelhamento das FFAA foi adiado mas, a busca por parcerias com outros países a fim de promover o desenvolvimento tecnológico e, por conseguinte, acabar com a dependência de produtos e serviços estrangeiros hoje é uma realidade e é um assunto constante na agenda nacional. Em meio a propostas por parte de diversos parceiros comerciais, em 2014 o país escolhido para dar início ao reaparelhamento das FFAA, mais especificamente da FAB, foi a Suécia. O então ministro da Defesa, Celso Amorim, assina os acordos onde estabelece reais intenções entre ambos os países em desenvolver projetos na área militar e aborda a proteção de informações de caráter sigilosas sobre a compra dos caças Gripen. A Suécia é considerado um país neutro nos grandes conflitos internacionais, tais como a II Guerra Mundial. Apesar de europeu, o país não faz parte da OTAN. Não obstante, o país não sofre de ameaças terroristas ou tensões que o envolvam diretamente. Nesse sentido, a Suécia é colocada em segundo nas pressões políticas ou por engajamento em alianças militares. É oportuno ressaltar que a relação amistosa entre o Brasil e Suécia vem de longa data. As boas relações entre ambos os países acontecem também em diversas outras aéreas como: meio ambiente, ciência, educação, cultura entre outros. A partir disso, evidencia-se a confiança e boas relações já existentes entre o governo brasileiro e o sueco, parceria esta que já acontecia em outros setores e agora abrange de forma efetiva o projeto da compra e desenvolvimento dos caças, gerando benefícios para ambos os governos. A parceria entre a Embraer e a Saab fortalece ainda mais a relação existente entre os dois países. O desenvolvimento conjunto das aeronaves simboliza não apenas o aprofundamento das relações entre as nações, mas um impulso à Base Industrial de Defesa, possibilitando o pleno exercícios das funções da FAB, estabelecidas pela Constituição e pelos documentos de Defesa. 9

10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AQUINO, Edson Tomaz de. Indústria de Defesa Nacional: das cinzas ao horizonte das parcerias estratégicas. In: CHAVES, Daniel; WINAND, Érica; PINHEIRO, Lucas (org.). Perspectivas e Debates em Segurança, Defesa e Relações Internacionais. Macapá: Ed. Unifap; R.J: Autografia. 2015, p BRANDÃO, Marcelo. Brasil e Suécia assinam acordos sobre compra de caças. Disponível em: <http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2014/04/brasil-e-suecia-assinam-acordos-sobrecompra-dos-cacas-gripen-ng>. Acesso em: 06/07/2015. BRASIL. Estratégia Nacional de Defesa. Brasília, BRASIL. Política Nacional de Defesa. Brasília, BRASIL. Livro Branco de Defesa Nacional. Brasília, BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/index.php?lang=pt-br>. Acesso em: 06/07/2015. BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Reino da Suécia. Disponível em: < Acesso em 04/07/2015. CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil. Brasília. Editora UnB, CISB. Brasil, um parceiro estratégico para a Suécia. Disponível em: < Acesso em 05/07/2015. PODER AÉREIO. Empresa sueca de caças vai instalar fábrica em São Bernardo, no ABC. Disponível em: < Acesso em 05/07/2015. WINAND, Érica C. A.; SAINT-PIERRE, Héctor Luis. A questão da Defesa e as Forças Armadas Brasileiras nos primeiros meses do Governo Lula. Santiago do Chile,

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