UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ CAROLINE MANOEL DE AZEVEDO O SUICÍDIO E OS CONTRATOS DE SEGURO DE VIDA

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1 UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ CAROLINE MANOEL DE AZEVEDO O SUICÍDIO E OS CONTRATOS DE SEGURO DE VIDA CURITIBA 2014

2 CAROLINE MANOEL DE AZEVEDO O SUICÍDIO E OS CONTRATOS DE SEGURO DE VIDA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Direito da Universidade Tuiuti do Paraná, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito. Orientadora: Profa. Doutora Geórgia Sabbag Malucelli Niederheitmann CURITIBA 2014

3 TERMO DE APROVAÇÃO CAROLINE MANOEL DE AZEVEDO O SUICÍDIO E OS CONTRATOS DE SEGURO DE VIDA Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado e aprovado para obtenção de título de Bacharel no Curso de Bacharelado em Direito da Universidade Tuiuti do Paraná. Curitiba, de de Curso de Direito da Universidade Tuiuti do Paraná. Professor Doutor Eduardo de Oliveira Leite Coordenador do Núcleo de Monografias Orientadora: Profa. Doutora Geórgia Sabbag Malucelli Niederheitmann Prof. Prof.

4 RESUMO Trata da questão sobre o pagamento de capital de seguro de vida em hipótese de suicídio. Perante a divergência do tema, analisa o embasamento jurídico diante da liberdade de contratar do indivíduo e as negativas de pagamento por parte das seguradoras. A matéria já foi sumulada pelos tribunais brasileiros, mas mostra-se complexa diante da obrigação da seguradora em provar a premeditação, sob pena de gerar o dever de adimplemento. Exibe-se, através de uma Revisão Bibliográfica, conceitos sobre a teoria dos contratos, os dados publicados sobre suicídio e os impactos sob a ótica jurídica, observando publicações sobre o tema abordado em sites, assim como jurisprudências. A pesquisa possibilitou concluir que o atual posicionamento da jurisprudência pátria tende a decidir em prol do beneficiário, parte vulnerável na relação contratual, uma vez que a prova de premeditação exigida da seguradora é de difícil obtenção e a boa-fé do segurado sempre será presumida. Não obstante, por razão das circunstâncias, o suicídio pode ser considerado como estado de inconsciência, assim configurando morte involuntária, resultando no dever de pagamento do capital ao beneficiário. Palavras chave: Seguro de vida. Suicídio. Pacto contratual. Ônus da prova. Premeditação.

5 O verdadeiro conhecimento vem de dentro. Sócrates

6 AGRADECIMENTOS Primeiramente a Deus pela vida e pelo despertar da fé em Santo Antônio de Pádua, fonte inesgotável de força nos momentos mais difíceis da caminhada. Ao meu marido Anderson, amor da minha vida, razão de todas as lutas, ser humano ímpar, que esteve sempre ao meu lado com quem divido todas as minhas conquistas. A minha professora orientadora Doutora Geórgia Sabbag Malucelli Niederheitmann pelo exemplo de pessoa dedicada, pelo auxílio e apoio que me prestou e por me fazer acreditar que tudo isso valerá a pena. A minha família e aos meus amigos por ser motivo de sempre seguir em frente, em especial a minha mãe a quem devo cada segundo da vida.

7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO TEORIA GERAL DOS CONTRATOS CONCEITOS E PRINCÍPIOS O CONTRATO DE SEGURO A REGULAMENTAÇÃO DAS SEGURADORAS O CONTRATO DE SEGURO DE VIDA O SEGURO DE VIDA À LUZ DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR O SUICÍDIO E SUA LEITURA NO DIREITO BRASILEIRO O SUICÍDIO E OS CONTRATOS DE SEGURO DE VIDA ÔNUS DA PROVA DA PREMEDITAÇÃO DO SUICÍDIO A NULIDADE DA CLÁUSULA CONTRATUAL QUE VEDA O PAGAMENTO DO CAPITAL NA HIPÓTESE DE SUICÍDIO CONCLUSÃO REFERÊNCIAS... 35

8 7 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho aborda a questão do suicídio do segurado e o pagamento de capital advindo de contrato de seguro de vida. A matéria em questão já sumulada gera ainda controvérsia diante da obrigação das seguradoras de comprovar a premeditação do ato atentatório frente o direito de contratar do segurado que, em primeira análise, tendo em vista a boa-fé e a lealdade contratual, deve ter a obrigação satisfeita. A grande problemática se apresenta na questão da premeditação do contrato de seguro visando um futuro suicídio. Uma vez que, juridicamente se imponha ao segurador o dever de pagar o capital em caso de não premeditação, percebe-se a linha tênue que envolve o ônus probatório e a boa-fé presumida do segurado. Destaca-se a dificuldade em definir se o segurado agiu com a intenção de beneficiar terceiro ou se passava por desequilíbrio emocional e mental, ou até, inconsciência, a ponto do fato ser considerado como morte acidental. Partindo da premissa de que o contrato de seguro de vida é baseado na imprevisibilidade, se estudará qual tem sido a posição adotada pelo Direito para pacificar a questão de forma a não incentivar este grave ato e ao mesmo tempo garantir a segurança jurídica do contratante de seguro, o qual diante de adversidades que o levem ao suicídio tenha a obrigação contratual satisfeita. Com o objetivo de cumprir o que foi exposto acima, o presente trabalho trará conceitos de Direito Civil no tocante a Teoria Geral dos Contratos, sobre Direito do Consumidor, sobre o suicídio e desequilíbrios emocionais e posicionamentos jurisprudenciais sobre a matéria. O trabalho encontra-se estruturado em introdução, cinco capítulos e conclusão. No primeiro capítulo, apresentamos a introdução. No segundo, a Teoria Geral dos Contratos e um breve histórico da sua evolução, explanando a respeito dos princípios inerentes aos contratos. No terceiro capítulo, trataremos sobre o contrato de seguro, suas características e especificidades, assim como das empresas seguradoras. O quarto capítulo será dedicado à reflexão sobre o contrato de seguro de vida, a formação da relação jurídica como se apresenta nos dias de hoje e sua análise à luz do Código de Defesa do Consumidor.

9 8 No quinto capítulo, abordaremos o suicídio, seus conceitos, fazendo ligação entre o evento e as implicações jurídicas relacionadas ao contrato de seguro de vida, incluindo as súmulas já existentes dos tribunais superiores assim como trataremos do ônus probatório por parte da seguradora e a nulidade da cláusula que veda o pagamento de capital em caso de suicídio. Por fim, no sexto capítulo, elencaremos a conclusão do trabalho e as percepções sobre o tema.

10 9 2 TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 2.1 CONCEITOS E PRINCÍPIOS Ao abordar um ponto relacionado a contratos é necessário mencionar os conceitos principais do tema. Desde os primórdios o ser humano procura atingir seus propósitos e objetivos de vida, sendo na incessante busca pela sobrevivência, seja almejando condições melhores para si e sua família. A inteligência e a evolução tecnológica propiciaram conquistas que aperfeiçoaram a vida em sociedade. Avançando a sociedade o modo de viver se adapta e em seu percalço segue o Direito buscando delinear as relações sociais. Diz Siviero (2008, p.1): O ponto de partida do direto é a sociedade. É a partir dela que tudo é organizado, que se produzem normas jurídicas. O produtor das normas tem como limite a vontade e o respeito da complexidade social. Organização pressupõe coexistência de sujeitos diferentes. Ela procura o bem de todos os indivíduos envolvidos através do controle social. Com o advento da Constituição Federal de 1988, conhecida como a constituição cidadã, houve grande valoração do princípio da dignidade humana, de forma que nos contratos entabulados se leve em conta não apenas os objetivos comerciais, mas também o respeito mútuo entre as partes contratantes. Vale ressaltar, principalmente, o artigo 1º, incisos III e IV da Carta Magna, que traz: a República Federativa do Brasil, [...] constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [...] III a dignidade da pessoa humana; IV os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. A Constituição Federal elevou os direitos fundamentais a status de cláusula pétrea, dando a eles posição central no ordenamento jurídico. É o que se extrai do apontado por Lora (2008), como definição do princípio da dignidade humana: É apontado como elemento fundante, informador e unificador dos direitos fundamentais e uma das bases do Estado de Direito Democrático, conforme previsto no inciso III, artigo 1º da Constituição Federal, servindo também como elemento orientador do processo de interpretação, integração e aplicação das normas constitucionais e infraconstitucionais.

11 10 O Código Civil Brasileiro de 10 de janeiro de 2002, em seu artigo 421 diploma que A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. As consequentes evoluções sociais foram se refletindo na seara contratual de tal forma que a positivação da função social dos contratos é, talvez, a questão mais importante e mais nebulosa em matéria contratual trazida pelo Código de (SANTIAGO, 2006, p.21) Nesta vertente, cabe ressaltar o caminho histórico elaborado por Santiago (2006, p.42): Com o desenvolvimento do sistema capitalista, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, pregados fervorosamente na Revolução Francesa, mostraram-se ineficientes para a proteção dos indivíduos. O desequilíbrio e a desigualdade econômico-social entre as pessoas tornaram-se evidentes, provocando injustiças e insatisfações por parte dos segmentos menos abastados. [...] A rapidez na celebração dos contratos, exigida pela economia de consumo, e a necessidade de criar negócios homogêneos a serem celebrados com grande número de pessoas fazem com que não haja tempo para uma discussão detalhada das cláusulas contratuais, e consequentemente a parte mais forte no negócio acaba por impor à outra parte as condições consideradas essenciais para a contratação. Isso gera a padronização das cláusulas contratuais. Desta forma, pode-se entender que deste cenário sobrevieram diversas normativas com o intuito de regular as relações contratuais com a preocupação inclusive, de proteger a parte hipossuficiente do contrato, tentando minimizar a desigualdade jurídica. Surge, assim, o regime contratual atual cerceado de princípios que norteiam as relações jurídicas. A função social do contrato visa abarcar as relações entre as partes, impondo-se a lealdade do negócio, e ainda em face da coletividade, considerando o impacto do contrato na sociedade em que fora celebrado. Pode-se entender que o grande objetivo da função social do contrato seja coibir qualquer abuso de direito além de limitar as cláusulas de forma a criar um equilíbrio contratual que beneficie os dois polos da relação. As obrigações assumidas em um contrato têm o objetivo de satisfazer interesses contrapostos que estarão em consonância com a autonomia da vontade,

12 11 mas não podem esses interesses ferir o fundamento constitucional da dignidade da pessoa humana. 204): Nessa linha, as palavras de Tartuce (2005 apud ROSENVALD, 2005, p. Não se pode esquecer que o contrato é importante fonte obrigacional. Nesse sentido, Nelson Rosenvald, um dos mais brilhantes juristas da nova geração sintetiza muito bem como deve ser encarada a obrigação atualmente: A obrigação deve ser vista como uma relação complexa, formada por um conjunto de direitos, obrigações e situações jurídicas, compreendendo uma série de deveres de prestação, direitos formativos e outras situações jurídicas. A obrigação é tida como um processo uma série de atos relacionados entre si -, que desde o início se encaminha a uma finalidade: a satisfação do interesse na prestação. Hodiernamente, não mais prevalece o status formal das partes, mas a finalidade à qual se dirige a relação dinâmica. Para além da perspectiva tradicional de subordinação do devedor ao credor existe o bem comum da relação obrigacional, voltado para o adimplemento, da forma mais satisfativa ao credor e menos onerosa ao devedor. O bem comum na relação obrigacional traduz a solidariedade mediante a cooperação dos indivíduos para a satisfação dos interesses patrimoniais recíprocos, sem comprometimento dos direitos da personalidade e da dignidade do credor e devedor. Se contrato é uma convenção entre pelo menos duas partes visando constituir, modificar ou extinguir direitos, estando suas obrigações impostas no instrumento, limitadas aos fundamentos constitucionais, é dado às partes a possibilidade de buscar na lei os efeitos desejados para a efetiva satisfação dos envolvidos. Dentre os princípios que permeiam o contrato estão: a autonomia da vontade, a força obrigatória do contrato, a função social, a boa-fé, o equilíbrio contratual e a relatividade contratual. Segundo Dias (2014, p.492), em se tratando da autonomia da vontade as partes são livres para contratar podendo, dentro da lei, estabelecer o que melhor lhe aprouver. Esta liberdade abrange o contratar, o com quem contratar e o que e como contratar. Desta forma, podemos entender que a autonomia da vontade confere aos contratantes a livre disposição quanto aos limites e consequências advindas do ato, desde que respeitando os ditames da Lei Maior. Quanto à força obrigatória do contrato, ou força vinculante, elenca o autor que este princípio está diretamente ligado ao da autonomia, visto que, para possibilitar que as partes exerçam com plenitude sua liberdade de contratar, é necessário que haja respeito à relações estabelecidas, com o devido cumprimento

13 12 das avenças. Assim, se já se delineou o objeto e as limitações do acordo, só resta cumprir as obrigações impostas por ele. Vindo reforçar o que já se definiu anteriormente como a função social, este princípio nas ideias do autor é: Um dos novos princípios que passaram a plasmar a relação contratual partir da segunda metade do século XX. Este princípio determina que o contrato passe a importar para toda a sociedade, de modo que os terceiros passam a influenciar e ser influenciados pela existência do contrato. (DIAS, 2014, p.494). Através dos conceitos sobre a função social do contrato, pode-se extrair que ela se dá em dois níveis: Intrínseco, que abarca as relações entre os contratantes, e em nível extrínseco, onde o contrato é visto levando em conta a sociedade em que as partes estão inseridas. Em se tratando da boa-fé, este princípio deve ser encarado como norma geral, uma vez que impõe aos contratantes a observação da honestidade, do cuidado, da lealdade, da informação e do agir com ânimo de cumprir com todas as obrigações avençadas. Se a função social do contrato diz respeito ao impacto social causado pelo que foi pactuado entre as partes, a boa-fé vincula os contratantes de modo a manter a clareza e a informação relativamente ao objeto contratual, estabelecendo entre eles o equilíbrio de condições que possa resultar no completo adimplemento da obrigação assumida. A boa-fé já estava presente no artigo 85, do Código Civil de 1916, vejamos a literalidade do artigo: nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nela consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem. Há duas espécies de boa-fé: a objetiva e a subjetiva. A objetiva é encarada como norma jurídica, cláusula geral comum no universo dos contratos. É como uma característica inerte ao contrato, de onde se supõem que as obrigações sejam assumidas como foi pactuado. É a justa expectativa do contratante, dever jurídico principal dos polos do negócio. Já a boa-fé subjetiva refere-se diretamente ao comportamento do indivíduo, vinculada a não consciência da ilicitude da conduta, ao agir acredita estar procedendo de forma correta. Comum do Direito de Família, no Direito das Coisas e no Direito das Sucessões. Essa boa-fé é apenas um estado de ânimo.

14 13 Em que pese o equilíbrio contratual é definido por Dias (2014, p.495) como: Também denominado de Justiça Contratual, determina que não pode haver desequilíbrio na estrutura econômica contratual fora da previsão das partes. Assim, se fatos futuros, supervenientes, determinam uma modificação do equilíbrio econômico do contrato, em que, por exemplo, uma parte está pagando mais do que está recebendo (e não se trata de um contrato aleatório), é necessário (re) equalizar a avença, dando aos envolvidos direito de permanecer no acordado, com a justiça reestabelecida. Em se referindo à relatividade contratual, ainda nas palavras do autor (DIAS, 2014, p. 493), O contrato vincula unicamente as partes nele envolvidas, não havendo em se falar de efeitos erga omnes. Assim, o credor só pode exigir o cumprimento do devedor. Este princípio apresenta algumas especificidades, senão vejamos: A) Estipulação em favor de terceiro (artigo 436 do Código Civil): A estipulação em favor de terceiro é relação entre o estipulante e o promitente em favor do beneficiário. Este somente passará a estar vinculado ao contrato quando aceitar a avença em sua integridade. B) Promessa por fato de terceiro (artigo 439 do Código Civil): é o compromisso do promitente em obter a anuência de um terceiro para a realização de determinado fato. O promitente deverá obter a vinculação do terceiro e, uma vez conseguido isto, terá adimplido sua parte na avença, sendo assim, uma obrigação de resultado. C) Contrato com pessoa a declarar (artigo 467 do Código Civil): em um contrato desta natureza a parte estabelece a faculdade de se fazer substituir por outra pessoa. Assim, tendo elencado e definido as bases principiológicas que rodeiam a atividade contratual, poderemos passar a tratar especificamente do contratado de seguro, foco norteador deste trabalho.

15 14 3 O CONTRATO DE SEGURO O renomado doutrinador Silvio de Salvo Venosa (VENOSA, 2008 apud ALVIM, 1983:7) aborda com especialidade a origem do seguro, senão vejamos: O seguro surge inicialmente no direito marítimo na Idade Média. Embora possuísse institutos próximos, a Antiguidade não conheceu esse contrato. Em princípio, quando ainda era pequena a atividade comercial, surgiram as sociedades de contribuição mútua entre os navegantes, semelhantes às de beneficência. Quando algum proprietário de navio sofria prejuízo ou perda, outros integrantes do grupo o socorriam com contribuições para a aquisição de outros bens. (Alvim, 1983:7). Em sua fase inicial, o seguro cobria os navios e as respectivas cargas. A insegurança das viagens aguçou o espírito dos negociantes a especular sobre o risco. O contrato de seguro com os contornos atuais foi surgindo paulatinamente, em decorrência das necessidades sociais, como sói acontecer com os institutos de origem mercantil. Sua ampla difusão partiu da Inglaterra no século XVII, tendo sua adoção se generalizado a partir do século XIX, então também acolhido pelo nosso Código Comercial. Nosso Código Civil em seu Titulo VI, elenca e delineia as várias espécies de contratos. Abordaremos em especial o que é elencado no capítulo XV, artigos 757 e seguintes, sobre os contratos de seguro. Na própria definição legislativa pode-se extrair a definição da obrigação nos contratos de seguro, qual seja: Pelo contrato de seguro, o segurador se obriga, mediante o pagamento do prêmio, a garantir interesse legítimo do segurado, relativo à pessoa ou a coisa, contra riscos predeterminados". Nos contratos de seguro, o contratante tem o objetivo de, diante de um evento futuro e danoso do qual não deu causa, ter seu bem ressarcido. Os riscos inerentes da vida em sociedade oferecem perigo de perda patrimonial, por esta razão o contratante de seguro quer se antever aos acontecimentos, assegurando-se das possíveis perdas. Os riscos estão ligados ao desenvolvimento da sociedade, pois com o avanço tecnológico e científico se tornou possível a previsão de alguns riscos. Como exemplo, podemos destacar as estatísticas de risco levantadas pelas seguradoras, estudos estes que baseiam o mercado securitário ao estipular seus preços. Nas lições de Fábio Ulhoa Coelho (COELHO, 2010, p.487): Há duas grandes espécies de seguro, de acordo com a natureza do interesse segurado: o de

16 15 dano (também chamado ramo elementares ) e o de pessoas ( vida ou acidentes pessoais com morte ). Reafirmando essa definição, Fran Martins (MARTINS, 1984, p.415, 416) diz que o seguro de dano visa amparar o risco decorrente de evento incerto e o de vida diz respeito a uma indenização paga ao beneficiário diante da morte do segurado. Diz Martins (1984, p.416): Podem, ainda, os seguros de vida ser individuais ou coletivos, também chamados este seguros de grupo. Estes últimos, são os em que várias pessoas, pertencentes a uma associação, por exemplo, são seguradas em uma mesma apólice, cada uma concorrendo com certa importância [...]. No tocante às características, o contrato de seguro é bilateral, oneroso, aleatório, consensual e de adesão. O contrato de seguro é bilateral visto que ambas as partes devem cumprir obrigações. É o que ensina Alvim (1986, p.120): À luz desses princípios que norteiam os contratos bilaterais, no direito comum, deve-se entender o contrato de seguro. Ambas as partes assumem obrigações recíprocas. O segurado, de pagar o prêmio, não agravar o risco do contrato, abster-se de tudo que possa ser contrário aos termos do estipulado e cumprir as demais obrigações convencionadas. O segurador, de efetuar o pagamento da indenização ou da soma prevista no seguro de pessoa. Sendo as obrigações principais e correlativas, o inadimplemento por um dos contratantes rompe o equilíbrio do contrato. O contrato de seguro é oneroso uma vez que as partes têm como objetivo vantagens patrimoniais. O segurado busca garantir-se em uma futura perda por ocasião de sinistro que lhe afete o bem objeto do contrato e o segurador, o prêmio que recebe para que possa garantir a cobertura avençada. Em se tratando da aleatoriedade dos contratos de seguro, nas palavras de Alvim (1986, p.123): O seguro é tipicamente um contrato aleatório. Gira em torno do risco, acontecimento futuro e incerto cujas consequências econômicas o segurado transfere ao segurador, mediante o pagamento do prêmio. Se o evento previsto ocorre, uma soma bem maior que o prêmio será paga ao segurado; em compensação, reterá o segurador a quantia recebida, se o fato não se verificar. Não há equivalência nas obrigações, por força da natureza aleatória do contrato. O segurado perde ou ganha, mas o segurador escapa a essa condição, não em relação a um contrato isolado, mas no conjunto dos contratos celebrados, compensando os lucros e perdas de cada um. Eis por que o seguro é um negócio de massa. Sua estabilidade cresce na razão direta do volume da carteira.

17 16 Devemos destacar a discordância do autor Fábio Ulhoa Coelho (COELHO, 2010, p.492) no que tange a aleatoriedade do contrato de seguro. Segundo ele, após o advento do Código Civil de 2002 não se pode mais afirmar que o contrato de seguro envolva uma álea: Isto porque a lei não define mais a obrigação de a seguradora pagar ao segurado (ou a terceiro beneficiário) uma determinada prestação, caso venha a ocorrer evento danoso futuro e incerto. Este pagamento é, na verdade, um dos aspectos da obrigação que a seguradora contrai ao contratar o seguro: a de garantir o segurado contra riscos. A definição de consensual se dá pelo fato de depender do acordo das vontades contratantes e sendo esse consentimento o que basta para a formação do negócio jurídico em questão. Contudo, é preciso reduzir a termo o contrato de seguro, e perfectibilizar o avençado na apólice de seguro. Neste sentido: Com efeito, favorece a essa conclusão o fato de não ficar o segurador vinculado à simples emissão da apólice. É necessário remetê-la ao segurado, [...]. É pela remessa que se manifesta a vontade do segurador. (ALVIM, 1986, p.128) Em relação à apólice, preleciona Martins (1984, p.418): A apólice é o documento mais importante do contrato de seguro, porque é o instrumento da constituição do mesmo. Deverá conter todos os requisitos necessários para a caracterização da sociedade segurada e mais os dados constantes da proposta sobre o interesse segurado, montante da indenização, beneficiário, prazo de vigência do contrato. Sobre esse, deve a apólice minuciosamente especificar o dia, mês e ano em que se inicia e encerra a cobertura dos riscos. Deve a apólice, igualmente, fixar o valor do prêmio. Se por um lado ao contrato consensual basta o acordo de vontades, no contrato de seguro, além da mútua convergência de interesses, necessário se faz solenizar o objeto em apólice que deverá estar em poder também do contratante. Já nos referimos anteriormente à autonomia da vontade remetendo-nos inclusive ao equilíbrio contratual, onde o contrato possa espelhar um verdadeiro acordo que satisfaça ambas as partes. Mas a realidade econômica e dinâmica do mercado securitário não permite que se discutam todas as cláusulas que figurarão como norma nesse tipo de negócio, e neste ponto, surge o contrato de adesão. O Código de Proteção e Defesa do Consumidor traz a definição do contrato de adesão como sendo o que tem suas cláusulas estabelecidas unilateralmente pelo

18 17 fornecedor de produtos ou serviços, não havendo a possibilidade do consumidor modifica-las. Trataremos da abordagem do contrato de seguro à luz do Código de Defesa do Consumidor em capítulo posterior. Assim, O contrato de seguro está incluído entre os contratos de adesão. Realmente, o segurado não participa da elaboração de suas condições gerais. Foram elas preparadas pelo segurador, tendo em vista a experiência de cada ramo. (ALVIM, 1986, p.134). 3.1 A REGULAMENTAÇÃO DAS SEGURADORAS Antes de adentrar no mérito da regulamentação das companhias seguradoras no direito pátrio, Cláudia Lima Marques (2002, p.394 apud ALVIM, 1999, p.50) faz referência interessante sobre a primeira seguradora do Brasil: Segundo noticia Alvim, p.50, a primeira seguradora implantada no Brasil, em 1808, chamava-se justamente Boa-fé. O comentário acima fará todo sentido, curioso inclusive, quando adentrarmos no cerne do trabalho, que gira exatamente torno da presunção da boafé do contratante de seguro de vida. Traz o Código Civil, no parágrafo único do artigo 757: Somente pode ser parte, no contrato de seguro, como segurador, entidade para tal fim legalmente autorizada. Assim vamos abordar a legislação brasileira, positivada pelo Decreto-lei Nº. 73, de 21 de novembro de 1966, que define como operações de seguro privado os seguros de coisas, pessoas, bens, responsabilidades, obrigações, direitos e garantias. O referido decreto positiva que poderão operar em seguros privados apenas Sociedades Anônimas ou Cooperativas, que devem ser nominativas, devidamente autorizadas por Portaria do Ministro da Indústria e do Comércio, ficando proibido que explorem qualquer outro ramo de atividade. Através desse decreto foi criado o atual Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), que têm entre outras atribuições a de fixar diretrizes e normas da política de seguros privados, e a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), pessoa jurídica de direito público, voltada à promoção da política definida pelo

19 18 CNSP, jurisdicionada ao Ministério de Indústria e Comércio, autarquia federal que goza de autonomia administrativa e financeira. Ela tem competência para fiscalizar todas as seguradoras, exceto as especializadas em seguro saúde, que se encontram sob o controle de outra autarquia, a ANS (Agência Nacional de Saúde). (COELHO, 2010, p.488).

20 19 4 O CONTRATO DE SEGURO DE VIDA No seguro de vida o objetivo é garantir aos herdeiros ou beneficiário valores futuros em razão da morte do segurado. No de acidentes pessoais, é garantir indenização em dinheiro em caso de invalidez, total ou parcial, temporária ou permanente. Para Fábio Ulhoa Coelho, o que a seguradora deve ao segurado não se pode chamar de indenização, visto que a vida não tem preço. O referido autor chama de adimplemento de obrigação pecuniária decorrente de contrato de garantia contra riscos. Por essa razão, o valor devido por contrato pela seguradora não é chamado na lei, de indenização como no caso de seguro de dano -, mas sim de capital. (COELHO, 2010, p.497). O artigo 789 do Código Civil nos traz que nesta modalidade de seguro, o capital segurado não tem limitação, podendo ser atribuído de forma livre pelo proponente quanto ao valor e quanto ao número de seguros sobre o mesmo interesse. Assim, [...] o beneficiário poderá, uma vez ocorrida a morte ou sobrevida daquele, reclamar o pagamento de todas as seguradoras. (COELHO, 2010, p.497) No seguro de pessoa é permitido contratar seguro de vida de outra pessoa, visto o que elenca o artigo 790 do diploma já citado: No seguro sobre a vida de outros, o proponente é obrigado a declarar, sob pena de falsidade, o seu interesse pela preservação da vida do segurado. O parágrafo único do mesmo artigo ainda especifica que se presume o interesse, quando o segurado é cônjuge, ascendente ou descendente do proponente. O Enunciado 186, III Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal positivou ainda a inclusão do companheiro no rol das pessoas tratadas no artigo 790 do Código Civil: O companheiro deve ser considerado implicitamente incluído no rol das pessoas tratadas no artigo 790, parágrafo único, por possuir interesse legítimo no seguro de pessoa do outro companheiro. O beneficiário do seguro de vida deve ser indicado expressamente na apólice, ou, elenca o artigo 792, que na falta da indicação o capital segurado deverá ser destinado metade ao cônjuge não separado judicialmente e a outra metade aos herdeiros, respeitando a ordem de vocação hereditária.

21 20 A norma é complementada com o disposto no parágrafo único: Na falta das pessoas indicadas neste artigo, serão beneficiários os que provarem que a morte do segurado os privou dos meios necessários à subsistência. No tocante ao tema sucessório, segue importante observação de Coelho (2010, p.498): O recebimento pelo beneficiário do capital devido pela seguradora, quando falece o segurado, não tem natureza de sucessão. É o próprio beneficiário o titular do direito de crédito de modo que não incide sobre a importância paga qualquer tributo de transmissão causa mortis. Por esta razão, os credores do falecido não podem executar os seus créditos sobre a mesma importância (CC, art. 794). É claro que, morrendo o próprio beneficiário, após ter-se tornado titular do crédito perante a seguradora, os herdeiros ou legatários daquele sucedem-no na importância contratada, hipótese em que o seu pagamento deve ser considerado herança ou legado. Em sendo um contrato oneroso, incumbe-se ao segurado a obrigação de pagar o prêmio à seguradora, acarretando a inadimplência na resolução do contrato. O prêmio ainda pode ser estipulado por certo tempo, ou conveniado por toda a vida do segurado. É a norma explícita do artigo 796 do Código Civil. No seguro de pessoas, é lícito que se estipule um prazo de carência a partir do qual se passará a contar o início da garantia. O artigo 797 declara que: No seguro de vida para o caso de morte, é lícito estipular-se um prazo de carência, durante o qual o segurador não responde pela ocorrência do sinistro. Nas palavras de Martins (1984, p.422): Sinistro é a ocorrência do dano previsto no contrato, acarretando a obrigação da seguradora de fazer a indenização prometida. É a verificação do acontecimento incerto que constitui o risco [...]. Assim, ocorrendo o sinistro, nasce o dever da contra prestação por parte da empresa seguradora. 4.1 O SEGURO DE VIDA À LUZ DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR O Código de Defesa do Consumidor - Lei 8.078/90, foi criado por força do advento da Constituição Federal, que traz a normativa, em seu artigo 5º inciso XXXII, O Estado promoverá na forma da lei, a defesa do consumidor e do elencado no Ato Das Disposições Constitucionais Transitórias - ADCT, no artigo 48, O

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