A Parábola Cotidiana do Sr. José A Caverna, uma poderosa diatribe de Saramago contra o capitalismo. Gabriel Lopes Pontes

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1 A Parábola Cotidiana do Sr. José A Caverna, uma poderosa diatribe de Saramago contra o capitalismo Gabriel Lopes Pontes Por muitos anos, o prêmio Nobel de Literatura pareceu seguir um estranho padrão. Era como se a postura deliberada das sumidades que compunham sua comissão julgadora fosse a de buscar os merecedores de seus lauréis dentre os mais desconhecidos dos desconhecidos, escritores solitários perdidos em pueblecitos espanhóis remotos, vilarejos transilvanos ermos ou aldeolas bálticas perdidas na bruma. Nesse garimpar insano dos sábios de Estocolmo, vieram à tona escrevinhadores de domingo sem nenhuma projeção nem mesmo em suas províncias; velhotes de olhar esbugalhado, comportamento taciturno e balbuciar demente diante dos raros microfones que conseguiam a façanha de flagrá-los em suas sazonais saídas de seus retiros ascéticos; obscuros criadores de obras rarefeitas e de mínima tiragem, escritas num linguajar incompreensível e num estilo bisonho; abordando uma temática insossa e mascarando, sob o rótulo (falso) de inovação estilística, a mera falta da menor familiaridade com a mais elementar carpintaria literária. Depois de encher o saco do leitor comum com a constante revelação desses ilegíveis portentos, os responsáveis pela distribuição das polpudas coroas do monarca sueco aos luminares das belas-letras aparentemente se mancaram e, no que talvez tenha sido uma tentativa de tornar o prêmio mais popular e, consequentemente, mais lucrativo, parece que passaram a usar o gosto do cidadão comum como termômetro e bússola para a outorga da palma. O resultado é benéfico para quem gosta de boa leitura e para quem escreve bem, afinando-se o critério da comissão com o que há mesmo de bom na Literatura contemporânea. A louvável tendência de uns anos pra cá tem sido, portanto, a de premiar artistas de grande aceitação, criadores de uma linguagem verdadeiramente particular, original e capaz de tragar o leitor num vórtice delirante de beleza insólita. O prêmio foi para o colombiano Gabriel García Márquez, o amável Gabo dos longos bigodes de morsa plácida, de olhar melancólico e que algum imbecil sem a mais vaga ideia do que seja a nobilíssima arte da literatura assassinou na internet atribuindo-lhe, como despedida da vida, um poema indigno de figurar até mesmo na contracapa do caderno de

2 um colegial deslumbrado e com pretensões a versejador. Só mesmo um cretino de marca maior poderia querer impingir a autoria daqueles pseudo-versos altamente sofríveis a um homem que tornou memorável cada linha que escreveu, que se deu ao luxo de abrir seu imortal Cem Anos de Solidão com um parágrafo que é praticamente um alexandrino, que fez de cada um dos seus romances um desfiar contínuo e cantante de pérolas do mais alto valor. Mas deixa isso para lá. Os gênios costumam ser vítimas dessas canastrices com as quais os medíocres procuram aparecer às suas custas. Este simpático Gabo teve um começo de vida difícil em sua Cartagena de Las Índias, onde ouviu das velhas da família as primeiras estórias habitadas por personagens fantasmais, tão cotidianos quanto o carteiro ou o bêbado da esquina e que iriam povoar seu universo. Universo este que ele insiste em chamar apenas de realista e que, querem o vulgo e a intelectualidade, seja traduzido pelo pomposo e contraditório epíteto de realismo fantástico. Fora da terra natal seus dias também não foram dos mais sorridentes. Enviado por um jornal a Paris, onde habitava um cubículo cujo único adorno era uma fotografia de Mercedes, a companheira da sua vida e, segundo ele próprio, o personagem mais fantástico que jamais conheceu, viu seu entusiasmo pelo que parecia ser uma grande oportunidade esfriar rapidinho, quando uma das inumeráveis crises políticas do seu país, que o coronel Aureliano Buendía iria simbolizar tão bem ao promover e perder três dúzias de guerras civis, levou o seu jornal à falência e o isolou, totalmente esquecido e sem vintém, numa Paris já não tão gentil. Obrigado a mendigar, guardou como uma grande mágoa, até a sua morte (a real, recentemente ocorrida, não a da internet), a áspera recusa de um cidadão que lhe ofereceu uma moeda, em escutar sua explicação para tão humilhante atitude. Nos primeiros claudicantes passos de sua carreira de narrador, dormia num catre infecto de um tabique mínimo, meia-parede com outros inumeráveis tabiques em que se dividia um famigerado prostíbulo. Este leito miserável era o único pelo qual podia pagar dois pesos, e, mesmo assim, sendo obrigado a deixar como penhor na portaria os originais do seu primeiro romance, O Enterro do Diabo, cuja análise, por parte do especialista de uma editora argentina, incumbido de selecionar os novos títulos a serem lançados por sua empresa, resultou num não muito simpático conselho de que Gabo mudasse de ofício.

3 Realmente, esta obra de iniciante era mesmo uma obra de iniciante, mas já traía a extensão do caminho que ele iria trilhar. Sucesso mesmo, Gabo só conheceria quando Cem Anos de Solidão, da noite para o dia, começasse a vender, segundo as suas próprias palavras, como cachorro-quente. Esta é, indubitavelmente, a sua obra matricial, da qual todas as outras se originam e em volta da qual orbitam, salvo O General em Seu Labirinto, O Amor Nos Tempos do Cólera e Do Amor e Outros Demônios, além do volume dos Doze Contos Peregrinos, todos estes ambientados fora do contexto macondiano. Ela iria granjear-lhe uma imensa popularidade, apontada pelos que o admiravam e torciam por ele, como exatamente e paradoxalmente o principal impedimento na sua corrida rumo ao Nobel. A sua conquista, exatamente por sua indiscutível justiça, surpreendeu a todos os que, como eu, já estavam acostumados a ver o prêmio ir parar nas mãos de algum provinciano hermético e anônimo; motivou um carnaval colombiano fora de época e inaugurou (ainda bem!) uma postura bem mais razoável por parte da comissão julgadora. O Nobel foi também para Günter Grass, o alemão que, se tivesse se dedicado apenas à cerâmica; aos desenhos em bico-de-pena afiado e afinadíssimo; às inúmeras e bemsucedidas experimentações com materiais tão díspares quanto a suave aquarela e o robusto giz-de-cera, às gravuras em metal técnica que chega a ser antipática de tão difícil e que ele domina com surpreendente perícia ; nas quais ele cria imagens ora de pungente lirismo, ora do mais puro expressionismo germânico, não precisaria ter escrito sequer uma sílaba para que legasse à Humanidade uma obra perene. Mas Grass fez mais do que isso. Em seus livros, ele visitou e revisitou sua Alemanha natal ao longo do século XX, que ele retrata e decanta tão bem, lançando sobre ambos, a Alemanha e o século, uma visão impiedosa, onde as mais escabrosas situações, as mais obscenas ocorrências, as mais amorais condutas são vividas pelas mais hipócritas, sórdidas e asquerosas personagens, numa tradução original desta Alemanha que foi a grande protagonista dos dois últimos séculos, vivendo neles um brechtiano papel de diva enlouquecida, bêbada e sifilítica, sob a luz em coluna dos descomunais holofotes que Speer, mestre de cerimônias e queridinho de Hitler, direcionou e endereçou para o infinito; das tochas com que ele atulhou as ruas em tétricos desfiles noturnos à moda druidesca; das chamas do reichstag que um Goering obeso e abjeto mandou incendiar. Por

4 fim, fosforesceu num último brilho pálido, esta Alemanha em patética queda sob a luz dos obuses russos reduzindo a chancelaria a escombros, das explosões do bombardeio yankee fazendo da linda catedral de Colônia um amontoado de farelo, das bombas incendiárias varrendo Düsseldorf, Bremen, Frankfurt. Quanto à capital, cantava-se por suas ruas: Berlim, deiner tanz ist der tod... (Berlim, tua dança é a morte). É impressionante travar conhecimento com os trabalhos plásticos de Grass depois de termos nos deleitado com sua obra literária, seja ensaística ou ficcional. Verificamos uma tal complementaridade entre seus escritos e seus desenhos, gravuras ou esculturas, que se torna desnecessário procurar nestes últimos a sua assinatura para ficarmos sabendo que é ele o autor. Grass foi um dos poucos escritores (um outro a fazê-lo foi o abominável Saint-Exupéry, que se saía tão mal como romancista quanto como aquarelista) a também criar as capas dos seus livros. E, certamente nenhum outro poderia cumprir a tarefa com tanta adequação. Um detalhe curioso: Grass quer dizer grama em alemão e grama é o único ingrediente da sopa da qual se compunha exclusivamente a dieta de um dos mais importantes personagens daquele O Enterro do Diabo, obra primeva de um Gabo ainda vacilante no manobrar dos instrumentos do seu mister, mas que, apesar disso, já esboçava o deslumbrante painel que iria compor ao longo das décadas, plantando, neste romance de estreia, as sementes do seu código único, que seu invulgar talento iria saber irrigar e fazer florescer. E o Nobel também foi para o José Saramago. Este pequeno, pacato e profundamente niilista português que teria, segundo uma lenda que não confirmei, mas que cito aqui por seu sabor anedotário, sido um analfabeto sapateiro que só pela sexagésima primavera teria desvendado o mágico mistério de transformar sinais gráficos em sons. Qualquer que tenha sido o momento em que ele se tornou íntimo das letras, não resta dúvida que a Humanidade, a partir dele, passou a viver num mundo mais rico. Mais que criar um estilo pessoal, o que Saramago fez foi, literalmente, inventar uma nova maneira de escrever, entre outras coisas praticamente não fazendo parágrafos. Ao adotar esta postura, não deixa de aproximar-se de Gabo quando este traz à luz um O Outono de Patriarca que é um único e deslumbrante parágrafo sobre o solitário ocaso de um ditador latino-

5 americano, cuja sacada é atulhada de vacas e cujo gigantesco testículo repousa num banquinho, exibindo uma hérnia que é um símbolo de prestígio caribenho. Na literatura saramaguiana são as vírgulas que determinam onde a frase termina e qual pontuação lhe cabe, sendo que a intenção da frase é indicada pela métrica, não chegando os sinais de interrogação ou exclamação a precisarem ser representados. O travessão vai para o espaço e a interferência do autor, se desdobrando em comentários secundários e trazendo primores dos ditos populares, antes de voltar ao tronco principal da narrativa, se faz onipresente. A amálgama desses fatores resulta em livros altamente originais, narrados numa forma que, à primeira vista, pode parecer atordoante, mas que é enganosamente escorreita e de leitura sumamente agradável. Este seu estilo único e que desperta, em quem o lê, aquela velha pergunta: Puxa, porque é que ninguém nunca pensou nisto antes em muito aproxima a palavra escrita da palavra pensada. Sua Literatura, mais do que um diálogo com o leitor, é um ininterrupto desenrolar de ideias, como se o autor tivesse ligados, ao seu cérebro (brilhante), eletrodos que conduzissem seu pensamento a uma maquininha que os registrasse incontinenti e os fosse expelindo digitados, corrigidos, impressos, prontos para serem lidos, para conquistarem milhares de fãs apaixonados ao redor do mundo inteiro, rumo a Estocolmo. Sua popularidade talvez se deva, em grande medida, ao caráter de seus personagens, que são ao mesmo tempo completamente particulares e absolutamente comuns. O seu impagável Sr. José, protagonista de Todos os Nomes, por exemplo, é a personificação do sujeito medíocre, apagado, anônimo, mas há nele, enquanto personagem literário, uma força de colosso. Um terceiro aspecto da sua Literatura que a torna ainda mais atraente e a liga, de certa maneira, tanto àquela de Gabo quanto àquela de Grass, é a de que este Olimpo das belasletras contemporâneas tem em comum, além do Nobel e de outros muitos e altos méritos, o fato de que, em suas obras, o absurdo aparece não só como razoabilíssimo mas como já previsível e mesmo esperado, o insólito reveste-se de uma placidez cotidiana, o inusitado é o óbvio do óbvio, o chocante não choca, o surpreendente não surpreende, o assombroso não assombra, estes elementos antes agradam, encantam, deleitam.

6 Assim, se Gabo cria um apaixonado que traz à sua volta uma miríade de borboletas azuis e Grass faz um romance seu ser protagonizado por um menino que, chocado com o mundo dos adultos, se recusa a crescer, passando a se comunicar através do rufar de um tambor metálico, Saramago junta um soldado maneta e uma mulher que tem a propriedade de enxergar as almas ao voador frade Bartolomeu de Gusmão; se García Márquez coloca os escombros de um galeão espanhol perdidos na exuberância de uma selva tropical e o alemão vê Paris como uma cidade cujo clima romântico é mantido por casais pagos para se agarrarem em público, Saramago narra a espontânea conversão da Península Ibérica em jangada de pedra singrando o Atlântico; se em Macondo a chuva dura meses, o tabelionato onde o Sr. José trabalha é um minoico labirinto inescrutável; se Grass faz uma personagem feminina se suicidar pela inusitada via da ingestão exagerada de enguias, Saramago descreve uma antológica conversa entre D us e o diabo a negociar a alma de Jesus Cristo. Mas, para além da linguagem personalíssima, da riqueza literária de personagens socialmente pobres e do insólito tratado como cotidiano, a Literatura de Saramago tem seu esteio mais sólido, seu traço mais marcante e, quiçá, seu mais eloquente mérito, numa absolutamente nova mescla de crítica social com linguagem parabólica, prodígio que ele opera com impressionante naturalidade, e que se evidencia, deslumbrantemente, em A Caverna, um dos mais belos livros jamais criados e que seria sua obra-prima, se não constasse de sua produção um romance de uma iconoclastia demolidora que se chama O Evangelho Segundo Jesus Cristo. O personagem principal de A Caverna é Cipriano Algor - e algor significa o frio que prenuncia a febre. Oleiro simplório, Cipriano é um daqueles profissionais da manufatura utilitária em rápido processo de extinção, um artesão que tenta continuar uma tradição que o incontrolável avanço tecnológico empurra cada dia mais para uma obsolência jurássica. Este simpático pobre coitado levou uma vidinha plácida em sua granja de aldeia, tirando seu sustento da olaria em cuja porta uma amoreira-preta sombreia um banco de pedra. Neste rústico local de trabalho, viu Justa Inácia, sua companheira de toda vida, tombar sobre um dos tornos, fulminada por um enfarte. Tendo passado a viver com Marta, a filha única, Algor, com muito gosto, a vê casar-se com o decente, mas insípido, Marçal Gacho - e gacho significa a parte do pescoço do boi sobre a qual se apoia a canga - com quem mantém as melhores relações e que vai morar com eles. Marçal é guarda de um

7 potente complexo comercial-industrial conhecido pura e simplesmente como O Centro, único comprador da produção oleira de seu sogro. Sua grande aspiração é a concretização da promoção a guarda-residente, patente que lhe daria o direito de passar a residir, junto com a esposa e um eventual outro parente, neste monstruoso conglomerado de lojas da moda e restaurantes fast food; indústrias de base e de bens de consumo; escritórios de agências de viagens e escolas de línguas; laboratórios bioquímicos e clínicas de medicina nuclear; academias militares e núcleos de preparação de diplomatas; áreas de diversão e centros culturais; igrejas, sinagogas e mesquitas, canchas de rugby, campos de golfe e quadras de basquete; cadeias de telecomunicações, redes bancárias e complexos editoriais. O Centro, maximização do castelo kafkiano, tradução metafórica da megalomania capitalista, apoteose do progresso desmesurado, clone pós-moderno da Torre de Babel, se arvora no papel de D us e sintetiza tudo, reproduzindo entre suas paredes que não param de crescer para baixo, para cima, para os lados um mundo dentro do mundo em constante expansão, replicando literalmente tudo que há naquele que o envolve e que, a julgar pelo andar da carruagem, logo passará a conter. Reproduz com absoluta precisão e febril velocidade todos os monumentos do presente e do passado, todos os recantos paradisíacos, todos os fenômenos da natureza que fora dele existam na sua versão original, oferecendo aos que nele vivem ou que o frequentam tudo isso como uma atração do gigantesco shopping center que, em última análise, é. Mas o Centro é muito mais do que um mall de proporções inusitadas. Uma rígida burocracia o comanda e seus funcionários são investidos de uma autoridade hierática que os fazem agir com uma empáfia tão grande que desencoraja os fornecedores a entabularem uma conversa mais esticada. O Centro funciona, seus funcionários devem funcionar e quem tem o privilégio de habitar nele ou a infelicidade de viver fora dos seus limites, com ele mantendo alguma espécie de relação sempre subserviente deve respeitar a sua rígida hierarquia. Quando o visita com sua furgoneta velha, depois de ter passado pelo assimchamado cinturão industrial, onde os barracos proliferam com a mesma velocidade dos crimes evidente sátira à periferia de miséria que o capitalismo vai construindo ao seu redor e deixando na sua esteira Cipriano Algor tem que enfrentar longas horas na fila até ser atendido por um funcionário frio e ríspido. Numa dessas visitas quinzenais ao monstrengo que absorve sua modesta produção, o oleiro é surpreendido com a notícia,

8 dada sem maiores delongas e sem a menor piedade, de que seus trastes não interessam mais e que O Centro não só não vai continuar a comprá-los como ele deve retirar, em prazo exíguo e por conta própria, o estoque deles que lá está armazenado. Evidentemente que a notícia caí sobre o pacato artesão com o impacto de um coquetel Molotov, mas as peripécias não param por aí. Sua filha se descobre grávida e os pais de seu genro o infernizam para que sejam eles a serem levados para O Centro quando a tão almejada promoção sair. Pra completar, ele inicia um velado romance outonal com uma vizinha viúva, Isaura Estudiosa, que o encontrara no cemitério onde ambos tinham ido visitar seus esposos defuntos e aparece em sua propriedade um cão vindo não se sabe de onde, que a ele se afeiçoa e ao qual ele dá o adequado nome de Achado. Sabendo da desdita do pai, Marta se dispõe a ajudá-lo na elaboração e confecção de patéticas estatuetas de personagens variados que substituiriam os objetos domésticos que ele fornecia ao Centro. É a última esperança do velho Algor, sua última chance não só de sobreviver do seu próprio trabalho como de continuar se sentindo útil. Se a ideia de sua filha fracassar ele terá que desistir da vizinha, se despedir da quinta dos seus amores e abrir mão do cão Achado, pois é proibido que animais habitem as instalações destinadas aos funcionários e seus familiares. Ou seja, com rara habilidade, Saramago insere uma trama operária perfeitamente possível num contexto delirante, ambienta uma comovente estória de heróis anônimos num cenário entre o surreal e o futurista, urde uma tragédia suburbana num mundo onde o banal e o simbólico se interpenetram com a maior razoabilidade. Enfim, funde o teor social de romances como Germinal de Emile Zola, As Vinhas da Ira, do também Nobel Steinbeck e Como Era Verde Meu Vale, de Somerset Maugham, com um realismo fantástico na linha de Kafka, Veiga e Scorza. O Centro compra uma primeira leva de estatuetas para submetê-las a uma enquete e, chegando à conclusão de que são invendáveis, encerra suas relações comercias com Algor, que passa a viver nas suas instalações dada a promoção de Marçal Gacho. A princípio, o velho oleiro percorre os vastos espaços de seu novo lar, não se entusiasmando nem um pouco com suas inumeráveis atrações, que exercem sobre muitos o poder de uma droga viciante. Finalmente, infringindo as insuportáveis regras que regem o colossal complexo,

9 ele desce a um dos seus mais profundos sub-níveis, onde viola o segredo de uma monumental descoberta aparentemente arqueológica: nada mais nada menos que a caverna de Platão. A experiência transfigura a ele e ao genro, que ele induz a também conhecer a misteriosa gruta. Decidido a não viver mais neste Centro dos infernos, aconteça o que acontecer, Algor reaparece na sua antiga morada e visita a vizinha Isaura Estudiosa, aliás Madruga, a pretexto de ver o cão Achado, que tinha confiado aos seus cuidados, protagonizando os dois uma pungente cena de declaração de amor. Gacho abandona o emprego que passara a sufocá-lo e os dois casais, o velho e o jovem, acompanhados do seu amigo de quatro patas, partem para horizontes incertos e vagos, mas novos e desanuviados, enquanto O Centro transforma a caverna (até mesmo ela!) em fonte de lucro. Em suma, um romance em que o objetivo maior da busca da beleza é levado a cabo numa linguagem altamente pessoal; em que a fusão inaudita de crítica social e parábola literária gera uma devastadora diatribe contra o capitalismo e sua funesta capacidade de levar de roldão os seres humanos em sua busca insaciável de lucro; em que o recurso da metáfora e o linguajar cotidiano se mesclam numa reinvenção da métrica que renova e eleva a prosa.

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