Um canário cheio de idéias 1

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1 Um canário cheio de idéias 1 Luis Filipe Ribeiro O conto Idéias de Canário foi originalmente publicado na Gazeta de Notícias, em 1895, e depois incluído no livro Páginas Recolhidas, em Nesse texto Machado de Assis desfere uma crítica demolidora aos ideais cientificistas do nosso Século XIX, complementando de forma brilhante o ataque que fizera na obra-prima que é O Alienista, aparecido em 1881 em A Estação e recolhido em livro no ano seguinte em Papéis Avulsos. Em O Alienista ele ironiza, até as raízes, a figura do cientista positivista, terminando por colocá-lo no hospício por ele mesmo idealizado e pelas mesmas razões que ele diligentemente construíra. Fica ali o positivismo, o pensamento científico dominante entre nós na época, reduzido a matéria de loucura. Já em Idéias de Canário o rumo perseguido é bastante diferente, ainda que os seus objetivos possam, em parte, coincidir. Neste conto, Macedo a personagem central é descrito como um homem dado a estudos de ornitologia e caracterizado como alguém que não trabalha, vive numa casa magnífica e tem que ocupar-se em alguma coisa para justificar sua existência. Ou seja, um modelo acabado de nossa esquálida aristocracia. O narrador principal não participa da história, mas depois de caracterizá-lo, passa-lhe a palavra para que narre ele mesmo sua própria aventura. Mas não o faz sem cobrar um bom preço. Vejamos: Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração. A astúcia narrativa de Machado é fantástica! O narrador que, de fato, contará a história é, de saída, desqualificado a mais não poder. Não é um estudioso, um cientista, alguém que tenha o reconhecimento das instituições dedicadas à elaboração e à validação do conhecimento. É simplesmente alguém dado a estudos de ornitologia. Mas é este mesmo sujeito quem refere a alguns amigos algo de tão extraordinário que ninguém lhe deu 1 Comunicação apresentada na UERJ, por ocasião do I Seminário Machado de Assis, 8 a 11 de agosto de

2 crédito. Ou seja, antes de ser relatada, a aventura já não merece crédito de ninguém, chegando alguns a supor que o Macedo virou o juízo. Até aí nada de muito estranho! Mas a pergunta que fica e insiste em nos provocar é: se o caso não merece crédito por que o escritor decide não só relatá-la, mas, além disso, publicá-la? Na imprensa e, depois, em livro? A questão, definitivamente, não é esta! O problema é muito outro! O que Machado faz, com astúcia de mestre, é deslocar o foco da enunciação de cima de sua imagem para projetá-lo em um outro que termina sendo o responsável pelos fatos narrados. Se absurdos ou inverossímeis, Machado poderá piscar o canto do olho como a dizer: Eu não avisei?. O processo de desqualificação do narrador, desqualifica igualmente a matéria narrada o que termina por gerar um estranho, mas não incompreensível, paradoxo. A narrativa desqualificada ganha foros de cidade ao receber a assinatura literária de Machado de Assis. Ele é e não é, ao mesmo tempo, responsável pelos fatos narrados. Isto que a lingüística chama pomposamente de modalização nada mais é que o estudado distanciamento de um enunciador relativamente à matéria narrada. Nisto são mestres os fofoqueiros e os nossos políticos. Referem aos fatos, que na verdade eles construíram, mas tomam o cuidado de afirmar que não concordam com tais afirmações. Esta desresponsabilização discursiva assume, em Machado, a característica de uma estratégia de sobrevivência em um meio culturalmente hostil. Nem foi outra a sua atitude, em 1881, ao construir as Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que atribui a responsabilidade narrativa a um aristocrata mau caráter, cafajeste e de um pragmatismo social de duvidosa moral. O desqualificado narrador nos surge aqui como uma imagem de autor, porque é ele, o Macedo, quem, de fato, fala e conta a sua própria história, como se autor fosse. E será esta história que chamará nossa atenção e ficará registrada em nossa memória, como um primor de narrativa literária. Não lhes parece, no mínimo, estranho?! É que o problema que se desenha nesta narrativa é um problema real em nossa sociedade, quer do XIX, quer dos dias de hoje. Daí o encanto e o frescor que dela continuam irradiando! O problema não só é real, mas é crucial, e continua a incomodar a nós todos que lidamos com a construção do conhecimento. Trata-se do do diálogo e do enfrentamento de duas maneiras de pensar o mundo e seus arredores. E, mais que isso, duas formas distintas de lidar com o próprio pensamento. 2

3 E como se constrói esse mundo de enfrentamento e diálogo? É o próprio narrador que se encarrega de opor, com clareza meridiana, um mundo de riqueza e fartura a um mundo de carências e de pobreza. A loja de belchior, para dentro da qual é lançado pela ameaça de atropelamento por um tílburi em disparada, é assim descrita pelo nosso narrador: A loja era escura, atulhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dous cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Em síntese, um mundo em desordem, escuro e absolutamente estranho frente ao mundo de Macedo: organizado, claro e compreensível. Não nos esqueçamos que quem narra é habitante do lado de fora da loja, onde só adentra forçado por circunstâncias alheias à sua vontade. Ou seja, o rico só conhece a pobreza por dentro quando forçado a fazê-lo! E vejam que quem nos afirma isto não é Machado de Assis: ele seria suspeito pelas suas origens de advogar em causa própria... Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabeça enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente não achara comprador. Não se adivinhava nele nenhuma história, como podiam ter alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas. Assim o narrador desenha o dono da loja. Além de pobre e sujo, nega-lhe a própria dimensão humana, ao afirmar que não tinha história, nem uma vida que merecesse ser 3

4 chamada de vida. Tais atributos, no olhar de quem narra, só existem e só podem existir no lado de cá do mundo: o de Macedo e o nosso enquanto leitores de sua narrativa. O outro lado, ora o outro lado é só um detalhe narrativo... O único contraste em tal mundo ao qual de fato pertence! é a figura do canário: Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. Tão velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava-lhe estar vazia. Não estava vazia. Dentro pulava um canário. A cor, a animação e a graça do passarinho davam àquele amontoado de destroços uma nota de vida e de mocidade. Era o último passageiro de algum naufrágio, que ali foi parar íntegro e alegre como dantes. No olhar de Macedo, o canário não podia pertencer àquele mundo, já que tudo nele era luz, alegria, graça, vida. Ora, já vimos que tais qualidades não podem, legitimamente, pertencer ao outro lado do mundo. Nossos aristocratas não perdem a mania de ver e legitimar apenas e exclusivamente o seu próprio mundo. Não afirmava o enfatuado Brás Cubas que a única utilidade da vida de Dona Plácida fora ser alcoviteira de seus amores vadios? Sendo assim, o canário só pode ser um náufrago deste nosso mundo naquele oceano de pobreza e desolação, já que nele Macedo descobre qualidades que o fazem um dos nossos... Sua primeira providência é traçar uma estratégia para tirá-lo dali: afinal a solidariedade de classe não é coisa que despreze. Para isto começa um monólogo frente ao canário que, para sua surpresa, revela-se um diálogo com ele. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela vista, senti-me indignado do destino do pássaro, e murmurei baixinho palavras de azedume. Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente, não querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela? E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto: 4

5 Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu juízo. Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. São imaginações de pessoa doente; vai-te curar, amigo... No imaginário aristocrático de Macedo este é um mundo composto por donos e por suas propriedades. Logo quem não é dono, não faz parte do mundo. Os escravos e os homens brancos livres e pobres nunca tiveram ingresso para o espetáculo literário, antes do final do século XIX, quando Machado, de forma muito indireta, e os naturalistas os promoveram a habitantes da cena romanesca. Assim, o canário forçosamente teria que ser propriedade de alguém, mesmo que fosse o miserável da loja de belchior. Miserável, digamos, no olhar de Macedo. Um comerciante sempre será menos pobre que boa parte dos pobres de verdade... Indignado, o canário trilou. Seja no sentido próprio da sua forma de expressão canora, seja no sentido figurado que assumiu o verbo entre nós, o sentido de indignação. E será ele, dentro da narrativa comandada pelo outro, quem irá reafirmar a desqualificação de Macedo, chamando-o no mínimo de louco necessitado de tratamento. Não será demais imaginar que o canário e Machado de Assis compartilhem a mesma opinião sobre a nossa personagem... O golpe fatal é desferido em seguida: Como interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Então o teu dono não te vendeu a esta casa? Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol? Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas estou que confundes. Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém, salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado. Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo. 5

6 O canário, compartilhando com Macedo a ideologia dos proprietários, inverte seu discurso e sua visão de mundo. O mundo é sim constituído de proprietários: os canários. E a sua explicação é irretorquível do ponto de vista da lógica dominante. Tudo indica a relação de servidão do dono da loja em relação ao canário que, com estudada gentileza, chama-o de criado, quando na verdade o tem como escravo, já que não há paga para o seu trabalho. Aliás, como afirma, Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo. Está dado o problema: duas versões diferentes para um mesmo real. Quem pode afirmar que uma é mais verdadeira que outra? Porque o mundo tem que ser propriedade dos homens de alguns homens, é claro! e não de qualquer outra espécie viva? Por que o mundo tem que ser propriedade, em suma? Ao canário a propriedade é confortável e garante-lhe uma vida segura. Quanto à liberdade, esta está fora de sua experiência do mundo, pelo menos até aqui... Macedo reage, mas reage como sabia e como podia. Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as idéias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, saía do bicho em trilos engraçados. Prefere, ao pasmo provocado pelas teorias do canário, a fixação na forma. E, mesmo aí, ele só faz confirmar sua desqualificação, ao admitir que o canário cantava e ele é que ouvia no seu canto linguagem humana. Cada um é livre para ver e ouvir o que quer que deseje. Provocado por Macedo, o canário definirá o mundo da seguinte maneira: O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira. Relativamente à sua situação de enunciador, não se pode dizer que o conceito de mundo do canário seja incorreto. Seu conceito difere do nosso, é verdade, mas, nós temos outra experiência do mundo. Sua definição não está errada; ela apenas difere da nossa (nós e Macedo). Para nós ela soa absurda, até pela diferença. Mas quem aceitava o conceito de 6

7 mundo de Galileu Galilei e de Nicolau Copérnico, nos estertores da Idade Média, tão absurdo ele soava na época? Mas, deixemos sublinhado que o canário não admite a controvérsia: Fora daí, tudo é ilusão e mentira. Ou seja, sua visão de mundo deixa de ser uma versão, para adquirir foros de verdade absoluta, bem à moda do pensamento dominante no Brasil do Século XIX. E será, em especial, no quesito de conceito de mundo que a questão há de eclodir com estardalhaço. Macedo, um proprietário consciente de seus avatares de classe, adquire o canário ao dono da loja de belchior. Instala-o em seu jardim aristocrático e inicia uma série longa de diálogos, que a brevidade nos obriga a omitir. Mas será na questão de conceito de mundo que as coisas vão, de algum modo, complicar-se. Indagado por Macedo, em seu novo habitat, sobre o que seria o mundo, o canário há de trilar: O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira. Claro está que Macedo pode concordar e concorda com tal definição, ainda que saiba de suas limitações. Mas sendo o mundo do canário coincidente com a casa de Macedo, tudo bem! Perdoa-se a limitação em nome da identificação. Macedo sabe que o mundo é maior que a sua casa, mas a metonímia sabe-lhe bem, já que o canário, agora, tem um mundo que coincide com o lado de cá da vida! E o esperto pássaro reafirma seu dogmatismo epistemológico, ao reafirmar que fora de seu pensamento tudo era ilusão e mentira. Tudo estaria bem, se Macedo não adoecesse de tanto e tão exaustivamente dedicar-se a estudar o canário. Durante sua enfermidade, o canário aproveitando o descuido de um criado ao alimentá-lo, escapole da gaiola e ganha o mundo fora dela. Macedo, desnecessário dizê-lo, desespera-se com a perda não só do canário, mas da possibilidade de brilhar no mundo científico, ao revelar um aspecto da realidade absolutamente desconhecido até então: o mundo dos canários falantes e pensantes. Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por alfabetar a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as 7

8 relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências. Feita essa análise filológica e psicológica, entrei propriamente na história dos canários, na origem deles, primeiros séculos, geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação, etc. Conversávamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando, saltando, trilando. Sublinhe-se que Macedo escreve e o canário trila. O próprio narrador encarrega-se de reforçar a sua desqualificação prévia, já desenhada por Machado. Recuperando-se da enfermidade, visita um amigo que vive em uma chácara nos arrabaldes. Naquele então, isto deveria significar Tijuca, Andaraí e equivalentes. Eis senão quando: Tinha já recolhido as notas para compor a memória, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes chácaras dos arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta: Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu? Era o canário; estava no galho de uma árvore. Imaginem como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doudo; mas que me importavam cuidados de amigos? Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular... Que jardim? que repuxo? O mundo, meu querido. Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima. Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já fora uma loja de belchior... De belchior? trilou ele às bandeiras despregadas. Mas há mesmo lojas de belchior? Duas coisas se hão de marcar aqui: primeiro, o reforço da desqualificação do narrador que, aparentemente, fala sozinho frente a um amigo e pouco se lhe dá o que venha este a pensar; em seguida, a continuidade do diálogo do canário com Macedo. 8

9 Se o narrador aparece falando sozinho, isto significa que o amigo não ouve o canário. Aliás este só fala a Macedo! De manhã, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e por-lhe água e comida. O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava qualquer preparo científico. O pássaro reconhece em Macedo, e apenas nele, a legitimidade científica para revelarlhe seus segredos filosóficos. Sem nos esquecermos nunca de que tudo isto ocorre numa narrativa construída pelo mesmíssimo Macedo. O quadro da desqualificação se completa de forma brilhante. Machado de Assis, da arquibancada, pode rir-se de sua criatura sem que isto diminua a seriedade das questões aí levantadas. No diálogo retomado entre Macedo e o canário, retorna agora, e de forma dramática, a questão do conceito de mundo. Para este, o mundo, agora, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima. Quem poderia, em pleno juízo, dele discordar? O mundo é ou não é um espaço infinito? o sol está ou não brilhando nele? Mas o nosso Macedo discorda!: Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já fora uma loja de belchior... E discorda indignado! Diz mais: se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo. Mas, espera aí, e o mundo então não é tudo? Não, para Macedo! Para ele o mundo é o seu mundo, onde não cabem muitas, muitíssimas coisas. Não cabem, por exemplo, os escravos, os pobres, as mazelas provocadas pela sua própria classe social e, principalmente, as verdades incômodas que questionam seu modo de ser e de ver o mundo. Já o canário é um exemplo brilhante de um ser em movimento, de alguém capaz de, a cada momento, analisar o mundo real e entender-lhe as dimensões e complexidades crescentes, sem apegar-se às verdades feitas e tidas por eternas. E fique claro que, na sua última definição de mundo inexiste a cláusula restritiva de que fora daí é tudo ilusão e mentira. Até por desnecessária! Mas, e principalmente, porque ele parece abrir mão do dogmatismo de proprietário a partir do qual as construíra. O mundo agora não pertence a 9

10 ninguém: é um mundo sem donos Nada mais nele combina com o pensamento platônico! Ao contrário, ele é todo Heráclito, todo ele é movimento, todo ele é capacidade de aprender e renovar. E não esqueçamos do detalhe de que o canário é alguém que vem das camadas populares da sociedade e ascende aos espaços da aristocracia. Qualquer semelhança com a trajetória biográfica de Machado não pode ser mera coincidência... Nosso escritor, nesta alegre alegoria, desfere um golpe mortal no pensamento pronto e acabado, entre nós dominante naquela época. Não nos esqueçamos de que a República, que viria dali a pouco, toda ela nasce do pensamento positivista, que nosso bruxo desmonta antes de que o evento histórico se produza. Macedo e a República são tão gêmeos quanto Pedro e Paulo em Esaú e Jacó. E ainda há quem diga que Machado de Assis era um absenteísta em matéria de política... Em verdade, há mesmo lojas de belchior? Rio de Janeiro, 5 e 6 de agosto de

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