UNIVERSIDADE DO OESTE DE SANTA CATARINA ÁREA DAS CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS PROGRAMA DE MESTRADO EM EDUCAÇÃO

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1 UNIVERSIDADE DO OESTE DE SANTA CATARINA ÁREA DAS CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS PROGRAMA DE MESTRADO EM EDUCAÇÃO INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO: Possibilidades de Inclusão Digital VANDERLÉA LUIZA DA SILVA Orientador: Prof.ª Dr. ª Nadir Castilho Delizoicov Joaçaba 2007.

2 UNIVERSIDADE DO OESTE DE SANTA CATARINA ÁREA CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS PROGRAMA DE MESTRADO EM EDUCAÇÃO INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO Possibilidades de Inclusão Digital VANDERLÉA LUIZA DA SILVA Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Educação da Universidade do Oeste de Santa Catarina Unoesc, Campus de Joaçaba, para obtenção do grau de Mestre em Educação, sob orientação da Prof.ª Dra. Nadir Castilho Delizoicov. JOAÇABA - SC 2007

3 AGRADECIMENTO Primeiramente agradeço a Deus pela vida e pela possibilidade de chegar até aqui. Agradeço imensamente a minha Mãe Julia Paes da Silva e ao meu pai Telmo José da Silva, por terem me apoiado sempre e principalmente por terem me ensinado a nunca desistir. Agradeço a minha irmã Vanderlene Maria da Silva que viveu comigo as aflições, as angustias e alegria dessa fase da minha vida. Aos meus irmãos Reginaldo da Silva e Luiz Antonio da Silva que sempre tiveram uma palavra amiga nas horas que eu mais precisava. Agradeço também as minhas amigas e amigos que não desistiram de mim, mesmo quando atarefada com as atividades do mestrado não podia me fazer presente: a Cristiane, a Anelides, o Zaidir, a Josiane, a Aryana,a Tânia, a Rosi, a Dona Iracema, o Seu Antonio, o Edson, o Jacson, o Marcelo, entre tantas outras, outros. Agradeço muito o apoio que recebi dos meus colegas de trabalho do SESC, sempre cobrindo minhas ausências, em especial a Daisy Fin Machado, gerente do SESC Chapecó, que apoiou-me sempre que precisei, liberando-me para as inúmeras idas a Joaçaba. Agradeço também aos colegas dessa jornada em especial a Maristella Muller Drews, ao Jairo Santos e a Marinilse Netto, pela amizade, e companheirismo. Agradeço de coração à Professora Doutora Nadir Delizoicov orientadora que não poupou esforços para me orientar nessa árdua jornada. Enfim, agradeço a todos que de uma forma ou de outra contribuíram nessa caminhada.

4 "Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza." Boaventura Santos

5 RESUMO Este trabalho buscou verificar como estavam sendo utilizados os Centros de Informática na Educação - CIEd nas escolas das redes de ensino público do Município de Chapecó SC -, mais precisamente se os mesmos estavam, ou não, contribuindo para a inclusão digital dos docentes. A pesquisa foi realizada junto a oito professoras do ensino fundamental séries iniciais -, que atuavam em escolas da Rede Municipal de Educação e da Rede Estadual de Educação e que dispunham de Centros de Informática. O instrumento utilizado para a coleta de dados foi a entrevista semi-estruturada. A análise das entrevistas evidenciou que todas as professoras tinham acesso às ferramentas de informática, particularmente ao microcomputador. O seu uso se restringia à pesquisa na internet para a localização de material para o preparo de atividades destinadas aos alunos, comunicação através de , chats, bem como à digitação de textos. Consideramos que o Programa Nacional de Informática na Educação PROINFO e a Política Municipal de Informática na Educação de Chapecó, constituem importantes iniciativas para a inclusão digital, porém, muito ainda tem a ser feito. Palavras-chave: educação e inclusão digital, informática, formação de professores.

6 ABSTRACT The essay has the objective to verify how the access to Information Technology (IT) is in State and City Council Schools in Chapeco/SC mainly the way (domestic or public) teachers have access to this technology and identify how the CIEd has being used, that is, if there was or wasn t the digital inclusion. The research was done in State and City Council Schools that have the CIEd. To collect data we used semi-structured interviews. Eight teachers participated on the research; all of them have been working at these schools, which had CIEd at the time of the research. We observed that all teachers were using this technology (IT) in their houses, at friends house or at their work. We considered that at least in the schools where CIEd had been in use there had been the digital inclusion and we also observed that much improvement has been accomplished but much more will have to be done. Key words: education, digital inclusion, information, technology,

7 LISTA DE SIGLAS ANEL Agencia Nacional de Telecomunicações ARPA - Agência de Projetos e Pesquisas Avançadas Norte americana CAI - Computer-Aided Instruction Ou Instrução Auxiliada Por Computador CENIFOR - Centro de Informática Educativa CERN -Centre Européen Poour Recherche Nucleaire CIEd - Centros de Informática na Educação CNPq - Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas CONSED - Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Educação CPU - Central Processing Unit ou Unidade Central de Processamento CRE Coordenadoria Regional de Educação. DEIED - Departamento de Informática na Educação a Distância ENIAC - Electronic Numerical Integrator And Computer ou Computador e Integrador Numérico Eletrônico EU Unidade Escolar EUA Estados Unidos da América FINEP Financiadora de Estudos e Projetos FSF - Free Software Foundation FUST - Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações. GEREI Gerencia Regional de Educação e Inovação. GETED Gerência de Tecnologias Educacionais. GLP - General Public License GNU - Sistema Operacional. IBM - International Business Machines ICAI - Instrução Inteligente Auxiliada Por Computador LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação LEC - Laboratório de Estudos Cognitivos do Instituto de Psicologia MEC Ministério da Educação

8 8 MILnet, BITnet, Csnet e NSFnet - Redes de Internet nos EUA. MIT - Massachussts Institute of Technology NEPs Núcleo de Educação Profissional. NSF - National Science Foundation NTE Núcleo de Tecnologia Educacional. NTIC Novas Tecnologias de Informação e Comunicação. OEA - Organização dos Estados Americanos ONU Organização das Nações Unidas PEC - Programas Educacionais por Computador PPP Projeto Político Pedagógico. PRONINFE - Programa Nacional de Informática na Educação. PROINFO Programa Nacional de Informática na Educação. RNP- Rede Nacional de Ensino e Pesquisa SED Secretaria Estadual de Educação e do Desporto. SEE Secretaria Estadual de Educação SEED - Secretaria de Educação à Distância SEI - Secretaria Especial de Informática. SESU Secretaria de Ensino Superior. SI Sala Informatizada. SME Secretaria Municipal de Educação SIE Sistema de Informática para a Educação. TCU Tribunal de Contas da União TIC - Tecnologias de Informação e Comunicação TICs Tecnologias de Informática e Comunicação UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. UNICAMP Universidade Estadual de Campinas UNIVAC - Universal Automatic Computer UNOESC Universidade do Oeste de Santa Catarina USP Universidade de São Paulo

9 SUMARIO RESUMO ABSTRACT LISTA DE SIGLAS SUMARIO INTRODUÇÃO CAPITULO I - A ORIGEM DO COMPUTADOR E DA INTERNET: Alguns aspectos Da necessidade à popularização Algumas das transformações sociais e tecnológicas que marcam o fim do século XX e inicio do século XXI CAPITULO II - INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO A informática na educação: um pouco da história Programa Nacional de Informática na Educação ProInfo Política Municipal de Informática na Educação Informática e Professores O processo de ensino-aprendizagem a partir das abordagens Instrucionista e Construcionista CAPITULO III - INCLUSÃO DIGITAL Inclusão digital: possibilidades Inclusão Digital: na rede pública de educação de Chapecó/SC Analise dos dados Perfil das professoras Análise das entrevistas Visão sobre os CIEd? Instrumentalização para a utilização dos CIEd? Contribuição dos CIEd para as aulas Contribuição dos CIEd para a inclusão digital CONSIDERAÇÕES BIBLIOGRAFIA CONSULTADAS BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ANEXOS

10 INTRODUÇÃO A informática passou a fazer parte da minha vida em 1995, quando pela primeira vez sentei-me em frente a um computador para fazer o primeiro curso, com objetivo de aprender a mexer com o, na época, assustador computador. Lembro que fiz dois cursos, um deles era Editor de texto fácil. Éramos, aproximadamente, 10 pessoas por turma. Aprendemos a ligar e desligar o computador e a digitar texto. Porém, depois desse curso não tive mais acesso a computadores, até que em meados de 1997 entrei para a faculdade de Pedagogia na UNOESC Chapecó, atual Unochapecó. Sempre curiosa e com vontade de ter acesso aos computadores novamente, fiz a carteirinha para o laboratório de informática da universidade e nas horas de folga lá estava eu mexendo nos computadores. Elaborei meu primeiro (que alegria); participava dos chats e pesquisava sobre assuntos relacionados ao meu curso. Mas houve um dia em que levei o maior susto. Não lembro exatamente o que estava fazendo, mas lembro bem quando a tela do computador ficou vermelha com a mensagem ERRO FATAL, que desespero! Imediatamente pensei não tenho condições financeiras de ter um computador em casa, e terei que pagar esse. O que farei? Não encontrei outra solução, a não ser chamar o rapaz que era responsável pelo laboratório. Com o coração aos pulos esperei que ele chegasse até onde eu estava, tal foi minha surpresa e felicidade quando ele disse, tranqüilamente, que como o micro estava ligado em rede era só desligar e liga-lo novamente que funcionaria normalmente.

11 11 Daquele dia em diante passei a freqüentar diariamente o laboratório e agora sem medo, afinal os computadores estavam em rede, (há, nessa época não tinha noção o que significava a frase os micros estão em rede ), mas não importava, sabia que eu podia mexer e dar vazão àquela curiosidade que me assolava. Não voltei a fazer cursos para aprender a utilizar, percebi que os curso que havia feito em 1995 foram pouco significativos. Então fui aprendendo à medida que utilizava: tentativa/ acerto/erro. Fazia minhas pesquisas, digitava meus trabalhos da faculdade, enfim, definitivamente a ferramenta computador já fazia parte da minha vida, tanto que passei a ajudar colegas da faculdade e amigos a utilizarem-no também. No final do 1998, participei de uma seleção para estagiários na UNOESC Chapecó. A prova da qual participei para a seleção devia ser respondida diretamente no microcomputador e salva em disquete. Mas eu não sabia salvar em disquete, ainda assim não desisti, fiz os gráficos e consegui salvar! A melhor parte da história é que dentre os candidatos eu fui selecionada, e passei a ter o computador como ferramenta de trabalho diário. Possivelmente em função de minhas características pessoais, desvendar esse mundo informatizado foi e continua sendo uma aventura um tanto apaixonante. Partindo desse gosto e de observar o quanto essas ferramentas facilitaram e facilitam o cotidiano e também por perceber o quanto algumas pessoas têm dificuldade em fazer uso das mesmas, busquei estudar um pouco mais. Foi assim que cheguei ao seguinte dilema: Estão (mídia em geral - tv, jornais, revistas e a própria internet) falando muito em informática na educação, mas como está acontecendo esse processo, ou melhor, será que está acontecendo? Partindo dessas interrogações e de minha própria história pessoal, pensei em como as pessoas que, como eu, não dispõem de computador em suas residências estão tendo acesso a este artefato tecnológico? Será que estão tendo acesso? Será que a escola esta conseguindo

12 12 ensinar a utilizar o computador e fazer dele uma ferramenta para as aulas? Foi assim que emergiu a problemática que resultou neste estudo. Passei a prestar mais atenção aos noticiários que se referiam a esse tema. Incrível como de uma hora para outra, pelo menos aos meus olhos, as pessoas passam a ver como é necessário entrar na rede, adicionar um endereço eletrônico aos cartões de visitas, fazer uma homepage, etc. Comecei a perceber também que os jornais (impressos e televisivos) passaram a dedicar um bom espaço e tempo para divulgar a internet. Para alguns críticos da área, como por exemplo Franco (1999), esse momento histórico caracteriza-se por uma revolução digital que marca o fim do século XX e inicio do século do século XXI, e é mais parecida com uma esperta campanha de marketing da indústria da informática. Mas isso não significa que devemos ignorar o potencial alternativo, e até certa forma democrático, da rede. Nos dias atuais, a informática tornou-se ferramenta de domínio necessário a praticamente toda a população, seja no trabalho, no supermercado, na universidade ou na agência bancária. Por outro lado, nem toda a população tem acesso ao computador. No Brasil em 2006, segundo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), 27,8% das pessoas são usuárias da internet e 33,1% da pessoas são usuárias de computador. Autores como Silveira (2001), acreditam que a comunicação fundamental da sociedade atual já é a comunicação mediada por computador, outros como Castells (2006) chamam essa fase de Revolução das Novas Tecnologias da Informação. Revolução essa que contribui para acirrar as desigualdades sociais, pois, tanto pode consolidar desigualdades sociais como também eleva-las, aprofundando a distância entre aqueles que já convivem com ela e os que dela estão excluídos. Para uma pessoa que tem acesso e utiliza a rede mundial de computadores, a navegação pode estimular a criatividade, favorecer a realização de pesquisas sobre inúmeros temas e

13 13 encontrar com maior velocidade resultados de suas buscas. Por outro lado, quem está desconectado desconhece o oceano informacional da rede, ficando impossibilitado de encontrar uma informação básica, ou de descobrir novos temas, ou ainda, de despertar para novos interesses a partir dessa ferramenta. Nesse contexto, a escola, como espaço de produção e disseminação do saber, pode fomentar a inclusão a essas ferramentas, proporcionando acesso e os subsídios necessários para que os educandos se apropriem e apreendam como utilizar essas ferramentas em beneficio da promoção do saber. Se não bastassem os motivos já expostos, para a aprendizagem do uso da informática, podemos citar, ainda, a qualificação profissional para o mercado de trabalho. Já é notório que, em praticamente todos os anúncios de emprego, o domínio da informática é uma exigência básica. Ou seja, se não constar no currículo do candidato que este domina pelo menos os programas básicos de informática, pode estar fora do processo seletivo. Isso é justificado em função de que o sistema produtivo do contexto atual está fundamentado na utilização maciça de tecnologia, principalmente aquelas relacionada à informática. A partir dessa problemática, torna-se fundamental inserir na escola o aprendizado do uso dessa ferramenta, seja através de laboratórios de informática ou centros de informática na educação (CIEd). A discussão de que a relação entre a escola e as formas de produção esta sendo utilizada como justificativa para preparar os alunos para as exigências do mercado de trabalho e que a escola precisa se reformular para incluir a todos no mundo digital pode, muitas vezes, deixar de lado outras possibilidades que a escola tem como agente de formação dos indivíduos, colocando seu papel como única e exclusivamente relacionado às necessidades do mercado. A estrita visão do mercado pode não considerar a formação do cidadão com capacidade de questionamento para analisar as informações que lhe são passadas pela mídia

14 14 cotidianamente, comprometendo, assim, a formação de um ser humano critico, com necessidades e aspirações. Essa preocupação com relação à formação de mão-de-obra para o trabalho consta inclusive na Lei de Diretrizes e Bases em seu Artigo 2º, quando encerra o mesmo dizendo que a educação deve buscar a qualificação para o mercado de trabalho. Também o artigo 35º, que trata das finalidades do ensino médio, em seu inciso II, refere-se à preparação para o trabalho. Isto significa que, a partir da LDB, a formação para o trabalho é também responsabilidade da escola. O professor, responsável pela condução do trabalho pedagógico, pode ter consciência destas relações e buscar formas que levem a uma prática que esteja voltada à formação do indivíduo como um todo, como alguém que possa atuar livremente dentro do ambiente que lhe apresenta a sociedade atual. Partindo dessas problemáticas, buscamos conhecer um pouco mais da realidade local. Com o objetivo de verificar como está se dando o acesso as NTIC (microcomputadores e seus periféricos) nas escolas das redes estadual e municipal de educação do município de Chapecó/SC. Mais especificamente, verificar se a implantação dos Centros de Informática na Educação (doravante CIEd) nessas escolas, potencializaram ou não a inclusão digital. Dessa forma, procurou-se verificar junto aos professores como estavam sendo utilizados os CIEd, realizando-se uma pesquisa qualitativa, utilizando-se de entrevistas semiestruturadas como instrumento para coleta das informações necessárias. Oito professoras participaram da pesquisa, todas lecionavam, na época, em escolas que dispunham de CIEd. A pesquisa realizada toma corpo nesta dissertação de mestrado. No primeiro capitulo, apresenta-se uma visão geral e cronológica sobre a história do surgimento do computador e da internet.

15 15 No segundo capitulo, apresentamos aspectos da história da informática na educação, e do Programa de Informática na Educação - ProInfo, assim como da Política Municipal de Informática na Educação da Secretaria Municipal de Educação de Chapecó-SC, dissertando sobre as opções seguidas em termos de equipamentos, software, política educacional e implantação dessas políticas. No terceiro capitulo, o leitor encontra referencias sobre a conceituação de inclusão digital e algumas possibilidades de sua viabilização, assim como os resultados da pesquisa empírica. Ao final deste trabalho, não esperávamos apresentar respostas acabadas, principalmente porque respostas são tidas como representações da verdade, e o que aqui apresentamos não pretende ser a verdade. É apenas o relato e interpretação de uma pesquisa de campo, que no contexto em que se fez, trouxe reflexões, mas que se refere a um local e em um tempo determinado. Esperamos sim que este trabalho motive e possibilite indicativos para novos estudos e observações da prática relacionada à temática em questão.

16 CAPITULO I A ORIGEM DO COMPUTADOR E DA INTERNET: Alguns aspectos 1.1 Da necessidade à popularização Uma das primeiras grandes criações, se não a primeira grande criação do homem em relação à comunicação foi, sem duvida, a escrita. O surgimento da escrita, ou da Tecnologia Intelectual como RAMAL (2002) prefere chamar, [...] é como uma nova memória, situada fora do sujeito, e ilimitada. Com ela não é mais necessário reter todos os relatos este auxiliar cognitivo vem, portanto, relativisar a memória para que a mente humana possa desviar sua atenção consciente para outros recursos e faculdades. (RAMAL, 2002, p.41). A escrita, sobretudo a escrita alfabética, refletiu significativamente nas formas de produção e de apropriação do conhecimento, nas formas de comunicação e nas formas de pensar dos indivíduos. Diferentes habilidades cognitivas se desenvolveram, novos tipos de memória foram exigidos e a própria oralidade palavra falada se modificou. A partir do uso da escrita, os discursos puderam ser separados das situações cotidianas em que se produziam. A transmissão de conhecimento não mais se encontrava limitada pelo tempo, pelo espaço e pelas condições físicas dos indivíduos. [...] Com a escrita, as relações entre indivíduo e a memória social mudam. O sujeito sai de si mesmo para projetar-se ou projetar num material concreto como o papel ou o pergaminho a sua visão de mundo, a sua cultura, sentimentos e vivencias. Ao fazer isso, pode analisar o próprio conhecimento das coisas e do mundo e faze-lo chegar até os homens de outras culturas e de outros tempos. Isso permite, ainda, fazer incursões ao próprio inconsciente: de uma forma muito mais palpável, o material da consciência esta objetivado e o indivíduo pode estudar a si mesmo pela análise de sua expressão. (RAMAL, 2002, p.41).

17 17 As mudanças geradas a partir do surgimento da escrita alteraram inclusive o tipo de memória. Até então, os conhecimentos eram registrados apenas na memória e transmitidos oralmente, a escrita desobrigou os povos de memorizar tudo, pois o que estava escrito, quando necessário, era só consultar, examinar, analisar. A escrita transformou profundamente o processo educativo. A incorporação da escrita como forma de produção e de conservação do conhecimento trouxe uma dupla diferença: era preciso ensinar o conhecimento que se tornava cada vez mais amplo e complexo, mas para isso era preciso primeiro ensinar a própria técnica da escrita. (FRANCO, 1999, p. 2). Quando a escrita passa a ser uma necessidade, e para o seu uso é imprescindível sua apreensão, foi necessário criar formas sistematizadas para aquisição desse conhecimento e não mais espontâneas como a oralidade. (RAMAL, 2002). A partir da escrita o autor e o leitor puderam compartilhar uma experiência sem que participassem do mesmo contexto situacional e local. Com essa tecnologia, tornou-se viável a construção de documentos, registros históricos, arquivos, ou seja, os contos, as histórias, os acontecimentos, os fatos passaram, na medida do possível, a ser registrados. Com o passar do tempo, foram escritos os primeiros livros manualmente, que eram copiados, também manualmente, pelos escribas e guardados em bibliotecas de difícil acesso. Assim foi até o surgimento da imprensa. Naquele tempo, a maioria da população era analfabeta, a leitura e a escrita eram restritas a apenas alguns intelectuais, que em sua maioria, eram religiosos. Mais tarde, o surgimento da imprensa possibilitou um aumento significativo da produção, da re-produção, do acesso e da acumulação de conhecimento criado na oralidade e na escrita, imprimindo-se e distribuindose livros e textos, possibilitando acesso a um número maior de pessoas. (RAMAL, 2002). A partir da escrita, torna-se possível um tratamento mais objetivo de dados e de experiências, por outro lado, surge a desconfiança de até que ponto há um efetivo entendimento das mensagens. Na comunicação oral, o ouvinte participa ativamente e o

18 18 narrador pode verificar a compreensão do que está sendo transmitido, o que não é o caso da escrita. Na experiência objetivada pela palavra escrita distanciada do autor, a interpretação e a significação dependem do leitor, o sentido original pode ser alterado, acrescido, lido a partir de outros olhares e interesses. Para buscar um caráter mais fidedigno da leitura da palavra escrita com a real intenção do autor surge a hermenêutica, essa busca da neutralidade exige aprimoramento da leitura e da escrita, capaz de afastar qualquer ótica impregnada pelo contexto ou pelas circunstâncias presentes, rumo à fidelidade, ao sentido original do texto. (RAMAL, 2002). Se é arriscado associar diretamente o surgimento da ciência ao da escrita, podemos, de qualquer forma, afirmar que a escrita deu impulso às estruturas normativas e desempenhou um papel fundamental na constituição do discurso científico. Não há como fazer ciência em contextos totalmente subjetivos. O distanciamento possibilitado pela grafia no papel traz o registro das experiências e das hipóteses, o conhecimento especulativo, o documento de comprovações, a compilação de teorias e de paradigmas em torno dos quais as comunidades científicas vão se agrupar. (RAMAL, 2002, p. 43). Nesse sentido, pode-se dizer que a escrita viabilizou de alguma forma a ciência, e com a possibilidade de registro outras criações humanas foram sendo concebidas. Isso poderá ser verificado a partir dos relatos que se seguirão. A começar, pela primeira máquina de calcular de que se tem noticia, criada em 1642 por Pascal. Funcionava através de engrenagens mecânicas e com ela era possível somar. Mas tarde, por volta de 1672, depois de muitas tentativas, finalmente é criada a primeira máquina de calcular capaz de desenvolver as quatro operações matemáticas (soma, subtração, divisão e multiplicação) e ainda raiz quadrada. Essa grande conquista foi atribuída ao matemático Gottfried Wilhelm Von Leibnitz que aprimorou a máquina de Pascal e obteve a calculadora universal. (ASSOCIAÇÃO CULTURAL DOS AMIGOS DA INFORMÁTICA, 2004). Dados dessa mesma fonte mostraram (seguindo uma linha temporal), que em 1822 o matemático inglês Charles Babbage, conhecido como o pai do computador descreve cientificamente uma máquina que poderia computar e imprimir extensas tabelas científicas.

19 19 Ainda no mesmo ano, construiu um modelo preliminar de sua Máquina de Diferenças 1. Então ele buscou a Royal Society para apóia-lo em uma proposta dirigida ao governo para que este financiasse a criação de uma máquina de tamanho grande. Durante os 10 anos seguintes, Babbage trabalhou na construção desta Máquina, mas por motivos de trabalho, saúde, dinheiro, e até mesmo pela própria complexidade do equipamento, em 1833 ele resolveu deixar de lado a Máquina de Diferenças e passar a trabalhar então em uma máquina ainda mais complexa: A máquina analítica. A Máquina Analítica, ao contrário de sua predecessora, foi concebida não apenas para solucionar um tipo de problema matemático, mas para executar uma ampla gama de tarefas de cálculo, de acordo com instruções fornecidas por seu operador. Seria "uma máquina de natureza a mais geral possível" - em nada inferior, realmente, ao primeiro computador programável para todos os fins. A Máquina Analítica deveria possuir uma seção denominada "moinho" e uma outra denominada "depósito," ambas compostas de rodas dentadas. O depósito poderia reter até cem números de quarenta dígitos de uma só vez. Esses números ficariam armazenados até que chegasse sua vez de serem operados no moinho; os resultados seriam então recolocados no depósito à espera de uso posterior ou chamada para impressão. As instruções seriam introduzidas na Máquina Analítica por meio de cartões perfurados. (ASSOCIAÇÃO CULTURAL DOS AMIGOS DA INFORMÁTICA, 2004). A máquina analítica, quando finalizada, ficaria tão grande quanto uma locomotiva, e seu funcionamento demandaria de um complexo mecanismo de relojoaria, de aço, cobre e estanho, tudo acionado a vapor. Qualquer desequilibro interno poderia provocar a destruição da mesma. Principalmente por esses motivos ela nunca chegou a ser construída. Ainda segundo informações da Associação Cultural dos Amigos da Informática (2004), a idéia de Babbage para a máquina analítica teria se tornado um computador programável real se a tecnologia do seu tempo tivesse sido capaz de construí-la. Apesar de não ter sido construída, a máquina pensada por Babbage já incluía cinco fatores decisivos para os computadores futuros: um dispositivo de entrada; facilidade de 1 Máquina de Diferenças: mecanismo feito de madeira e latão, que poderia ter alterado o rumo da história se tivesse sido construído efetivamente. Babbage concebeu a idéia de um dispositivo mecânico capaz de executar uma série de cálculos... Tal engenho seria movido a vapor, usaria cavilhas, engrenagens, cilindros e outros componentes mecânicos que então compunham as ferramentas tecnológicas disponíveis em sua época. Maiores informações ver site:

20 20 armazenar números para processamento; um processador ou calculador numérico; uma unidade de controle central para organizar as tarefas a serem executadas; um dispositivo de saída. Ele jamais conseguiu terminar sua máquina analítica, mas concebeu os princípios fundamentais do moderno computador. Mais tarde (1880), o americano Herman Hollerith, agente do censo nos EUA, após observar o difícil e lento processo de contagem, no qual um exército de funcionários trabalhou manualmente durante cinco anos para analisar, organizar e publicar os resultados, idealizou e desenvolveu um processador de dados 2 considerado o primeiro no mundo. Este foi usado para contar e tabular o censo americano de O trabalho era realizado com a utilização de cartões do tamanho de notas de dólar, com 12 fileiras de 20 furos, correspondendo à idade, sexo, lugar de nascimento, estado civil, número de filhos e outros dados do cidadão. Apuradores transferiam as respostas para os cartões, perfurando os lugares adequados. Depois colocavam os cartões em uma máquina de tabulação: cada vez que um pino encontrava um furo, a informação era registrada em um quadro de mostradores. Assim foram computadas as informações acerca de pessoas, no censo americano de Hollerith aperfeiçoou depois sua invenção e para a fabricação de suas máquinas fundou a empresa que veio a fazer parte da corporação conhecida hoje como IBM. (SACERDOTE, 2001). Com o uso desse instrumento o senso americano de 1890 ficou pronto em apenas seis semanas. A máquina, mesmo mecânica, já começava a facilitar o trabalho humano. Porém, esses computadores mecânicos apresentavam numerosas e complexas engrenagens dificultando seu uso. Em função disso, pesquisadores da área buscaram desenvolver um computador eletrônico, que viesse a utilizar álgebra binária, do verdadeiro ou falso, do 0 ou 1, que é a base dos sistemas computacionais de hoje em dia. 2 Processamento de dados consiste em uma série de atividades ordenadamente realizadas, com o objetivo de produzir um arranjo determinado de informações a partir de outras obtidas inicialmente.

21 21 Mas foi a partir da II Guerra Mundial que o desenvolvimento dos computadores eletrônicos ganhou mais força, quando os governos perceberam o potencial estratégico que estas máquinas ofereciam. Assim, os alemães desenvolveram o Z3 3, computador capaz de projetar aviões e mísseis. Pelo lado britânico, foi desenvolvido o Colossus 4, utilizado para a decodificação das mensagens alemães. (CRUZ, ROSA, 2000). Os estudos continuavam, tanto que em 1946 J.P. Eckert e John Mauchly, da Universidade da Pensilvânia, inauguraram o ENIAC- Eletronic Numerical Integrator and Computer, construído com válvulas eletrônicas. Era mil vezes mais rápido do que qualquer máquina anterior, resolvendo cinco mil adições e subtrações, 300 multiplicações ou 50 divisões por segundo. Encheu 40 gabinetes com 100 mil componentes, incluindo cerca de 17 mil válvulas eletrônicas. Pesava 27 toneladas e media 5,50 x 24,40 m e consumia 150 Kw. Apesar de seus inúmeros ventiladores, a temperatura ambiente chegava às vezes aos 67 graus centígrados. Executava 300 multiplicações por segundo, mas, como foi projetado para resolver um conjunto particular de problemas, sua reprogramação era muito lenta. (SACERDOTE, 2001). O ENIAC era diferente dos outros computadores por não ter sido projetado para uma única operação, podia ser usado de maneira geral, para fazer várias coisas. Nesse mesmo ano, John Von Neumann em conjunto com a Universidade da Pensilvânia, propuseram uma arquitetura formada por uma unidade que centralizaria o processamento da maquina (CPU) e também um programa que armazenaria os dados, que era a unidade de memória. Com o tempo, passaram a usar transmissores no lugar das válvulas. Com isso, os computadores puderam diminuir de tamanho, consumir menos energia, tornando-se mais acessíveis, física e economicamente, para outras pessoas e instituições. (CRUZ; ROSA, 2000). 3 Z3, construído pelos alemães, tinha como principal função a codificação de mensagens. Porém foi destruído em Berlim nos deixando pouquíssimas informações. 4 Os ingleses também foram em busca de tecnologias para decifrar códigos secretos construindo então, o Colossus (Serviço de Inteligência Britânico). Possuindo dimensões gigantescas, o Colossus funcionava por meio de válvulas chegando a processar

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