SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA VARA CÍVEL DA COMARCA DE RECIFE MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO,

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1 EXMO. SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA RECIFE VARA CÍVEL DA COMARCA DE O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO, por intermédio da Promotora de Justiça abaixo subscrita, com fundamento nos arts. 27 e 29 da Constituição Federal, na Lei 7.347/85 (Lei da Ação Civil Pública) e na Lei 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor), vem propor a presente AÇÃO CIVIL PÚBLICA, com pedido de tutela antecipada, visando à defesa de interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos dos consumidores, em face da TIM CELULAR S/A, pessoa jurídica de direito privado, concessionária de telecomunicações, inscrita no CNPJ sob o n /000-00, sediada na Avenida Ayrton Senna da Silva, nº 633, Piedade, Jaboatão dos Guararapes/PE, pelos argumentos fáticos e jurídicos expostos a seguir.. DOS FATOS Em fevereiro de 205, noticiou-se amplamente na imprensa pernambucana o fato de que a TIM CELULAR S/A, gigante do setor de telecomunicações no Brasil e com imensa quantidade de usuários em Pernambuco, passaria a interromper unilateralmente o acesso dos usuários de serviços pós-pago à internet após o consumo da franquia de dados contratada. Posteriormente, a

2 empresa divulgou em seu sítio eletrônico que a partir de 27 de fevereiro de 205 será interrompida a conexão de dados dos usuários após atingirem o limite de uso da franquia mensal de internet dos planos pós-pagos. Como é de conhecimento geral dos consumidores, a praxe no mercado e prática adotada pela ora requerida é a diminuição de velocidade de acesso à internet após a utilização da franquia de dados contratada pelo usuário. É dizer, o usuário contrata determinada franquia de dados, contando com determinada velocidade de conexão móvel à internet, a qual é reduzida após o consumo de tal franquia. Ainda assim, apesar da redução de velocidade após o consumo da franquia de dados, o usuário ainda tem a possibilidade de usufruir do serviço de internet, notadamente para tarefas que demandem menos capacidade de conexão. Exemplificativamente, pode-se citar o aplicativo Whatsapp, amplamente disseminado e meio de comunicação para grande parte dos consumidores de serviços de telefonia móvel atualmente: como a velocidade de acesso requerida para os serviços do Whatsapp é pequena, o consumidor que tem a velocidade reduzida após o consumo da franquia contratada consegue acessar e utilizar o serviço sem maiores problemas. Resta claro, portanto, que a possibilidade de conexão com a internet em velocidade reduzida após a franquia de dados é uma vantagem ao usuário fornecida como parte integrante do contrato de consumo, ao longo dos anos. Na celebração da avença, presume-se, pela prática reiteradamente adotada, que se tem direito ao serviço de dados em velocidade reduzida mesmo depois do fim da franquia mensal. Caso se queira ampliar a velocidade de conexão após o término da franquia de dados e antes da mudança do período de aferição de consumo, o consumidor pode contratar um pacote extra de dados, ou mesmo, como é lógico, alterar seu plano de modo a dispor permanentemente da franquia ampliada de dados. 2

3 Apesar disso, a TIM alterou as condições contratuais e pretende impor aos consumidores o corte total do serviço de internet após o fim da franquia de dados, unilateralmente e sem oferecer qualquer compensação aos clientes com contratos vigentes. A mudança que se pretende, pois, é a seguinte: antes, a velocidade de conexão era reduzida e alguns serviços, que demandam capacidade inferior de conexão, permaneciam disponíveis; a partir de 27 de fevereiro, interrompe-se o acesso à internet para todos os serviços. Os valores pagos pelos planos, entretanto, permanecem os mesmos, mesmo para os contratos já vigentes quando da alteração contratual. Paralelamente, por coincidência ou não, noticiou-se o lançamento de novos planos pós-pagos, denominados Liberty Express, pelos quais o consumidor paga quantia fixa por mês, com determinada franquia de dados, mas tem acesso integral ao aplicativo Whatsapp independentemente do esgotamento da referida franquia até o fim do mês de apuração do consumo. Ressalte-se que, embora a demandada afirme à fl. 33 do Procedimento Preparatório nº 004/205-8, ora anexo, que a promoção que permite a utilização do Whatsapp após o consumo da franquia de dados ( ) foi disponibilizada, até o momento, para usuários da modalidade de serviço 'controle', a oferta consta como disponível para usuários de serviços pós-pagos no sítio eletrônico da demandada, conforme se verifica do documento de fl. 9 do PP anexo. Da mesma forma, a TIM fez veicular em seus canais de comunicação com os consumidores que, a partir de agora, os consumidores teriam as opções de contratar pacote adicional de dados após o fim da franquia ou alterar o plano. Tal novidade, no entanto, apenas mascara o fato de que a única verdadeira inovação foi o fato de que, em face da alteração contratual, com o término da franquia, o consumidor não pode optar por navegar com a velocidade reduzida: ou contrata 3

4 pacote adicional, altera o seu plano, ou simplesmente perde totalmente o acesso à internet naquele mês. Conjugando as informações disponíveis, percebe-se que há, além do prejuízo ao consumidor pelo corte de um serviço, indireta indução do mesmo à contratação dos planos com Whatsapp ilimitado. Como mencionado acima, o acesso a tal serviço já era ilimitado, visto que a velocidade reduzida após o fim da franquia de dados era suficiente para a utilização do mesmo não mais será (e o consumidor deverá contratar novo plano) unicamente por conta da alteração unilateral das condições contratuais pela Tim, que passará a cortar o serviço quando o usuário consumir a sua franquia mensal de dados. Ainda, ressalte-se que, de acordo com informativo veiculado pela demandada, mesmo que haja interrupção do serviço de dados e o cliente opte por não contratar o pacote adicionar ou migrar para uma franquia superior, alguns serviços dependentes de internet como, por exemplo, o aplicativo Blah e o aplicativo Meu Tim poderão continuar sendo acessados pelos clientes. Isso quer dizer que, com o fim da franquia de dados, o consumidor poderá utilizar apenas aplicativos vinculados a serviços oferecidos pela própria Tim, muitas vezes onerosos. Neste caso, é plenamente dedutível que tal benesse aproveita mais à própria operadora do que ao consumidor. Tais condutas, em conjunto e separadamente, lesam os direitos dos consumidores dos serviços de acesso móvel à internet, gerando excessiva onerosidade à parte hipossuficiente da relação de consumo, conforme oportunamente se exporá. Ademais, é digna de menção a agressão à neutralidade da rede, prevista no Marco Civil da Internet, igualmente a ser abordada. 4

5 2. DO DIREITO 2.. DA LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO O artigo 29, III da Constituição Federal de 988 dispõe que: "Art. 29. São funções institucionais do Ministério Público: (...) III promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos. Ao mesmo tempo, a Constituição consagra, no art. 70, V, a defesa do consumidor como princípio fundamental da ordem econômica, in verbis: Art. 70. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...) IV - livre concorrência; V - defesa do consumidor; O Código do Consumidor, regulamentando e explicitando a norma constitucional, concedeu ao Ministério Público legitimidade ativa ad causam para a defesa dos interesses e direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos dos consumidores. Em seu art. 8, III, estabelece que: Art. 8. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas poderá ser exercida em juízo individualmente, ou a título coletivo. Parágrafo único - A defesa coletiva será exercida quando se tratar de: 5

6 I - interesses ou direitos difusos assim entendidos, para efeito deste Código, os transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato; II - interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os transindividuais de natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas legadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base; III - interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os de origem comum. Ainda, a Lei 7.347/85 estatui ser cabível a ação civil pública para a responsabilização por danos morais e patrimoniais causados ao consumidor (art. º, II), assim como legitima para o seu ajuizamento o Ministério Público (art. 5º, I). Desta feita, não há qualquer dúvida a respeito da plena legitimidade do Parquet para o ajuizamento da presente ação civil pública, uma vez que os fatos relatados denotam a ocorrência de violação aos direitos de vários consumidores vinculados por contrato à demandada DA ALTERAÇÃO UNILATERAL DO CONTRATO E DA ONEROSIDADE EX- CESSIVA AO CONSUMIDOR Conforme anteriormente exposto, verifica-se a ocorrência de alteração unilateral do contrato de prestação de serviços de telefonia móvel por parte da Tim. A alteração unilateral, embora permitida por regulamento atinente a tais serviços se cumpridos determinados requisitos, mesmo que se reconhecesse sua legalidade, não pode violar o equilíbrio econômico-financeiro do contrato. É dizer, de acordo com a normatização específica do setor de comunicações, é possível que sejam realizadas alterações pontuais no contrato, até para atualizar os preços praticados; ainda assim, diante do sistema jurídico de proteção ao consumidor, inclusive de sede constitucional (art. 70, V), em nenhuma hipótese será possível desequilibrar unilateralmente a balança contratual, aumentando os ônus dos consumi- 6

7 dores ou diminuindo os da fornecedora, sem a respectiva compensação à parte prejudicada. É exatamente o que pretende a demandada. Como visto, o consumidor de planos pós-pagos da Tim sempre usufruiu do serviço de internet móvel, ainda que com velocidade reduzida suficiente para o acesso ao Whatsapp, por exemplo, após o fim da sua franquia de dados, sem prejuízo da possibilidade de adquirir pacote adicional para restabelecer a velocidade. Agora, o consumidor não terá tal opção: para manter o acesso à internet, independentemente da velocidade, deverá comprar pacote adicional de dados. É clara, portanto, a supressão de um serviço antes desfrutado pelo consumidor, sem que tenha qualquer compensação por isso. Nesse diapasão, rememore-se o direito básico do consumidor ao restabelecimento do equilíbrio econômico-financeiro do contrato: Art. 6º São direitos básicos do consumidor: (...) V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas; Ora, se é reconhecida pelo Código a possibilidade de revisão de cláusula contratual que, por fato extrínseco ao contrato, torne a prestação excessivamente onerosa ao consumidor, o que se pode afirmar da situação em que fornecedora de serviços, do alto da sua posição privilegiada na relação de consumo, altera unilateralmente o contrato para retirar serviços à disposição do consumidor sem que lhe ofereça qualquer compensação por isso? É certo, aqui, que as prestações desproporcionais e os fatos supervenientes que causam onerosidade em excesso ao consumidor são causados diretamente por alteração unilateral do contrato de adesão pelo fornecedor dos serviços, em direta violação à lei consumerista. 7

8 Do exposto, resta claro o desequilíbrio contratual imposto pela demandada, através de alteração unilateral, aos usuários dos seus serviços pós-pagos. Assim, forçoso concluir que, à retirada de uma vantagem do consumidor deve corresponder necessariamente um abatimento na sua contraprestação. É dizer, se as condições dos serviços contratados sofrem decréscimo quantitativo ou qualitativo, deve haver também um decréscimo na obrigação que cabe ao consumidor, qual seja, o valor da mensalidade. Neste sentido, deve-se ter em consideração a ilegalidade da alteração contratual unilateral que onera em demasia o consumidor, à luz do Código de Defesa do Consumidor: Art. 5. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: ( ) X - permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço de maneira unilateral; ( ) XIII - autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou a qualidade do contrato, após sua celebração; É flagrante a ilegalidade da prática, portanto, assim como a nulidade de cláusula de contrato de adesão introduzida para prevê-la. Retirar serviços antes à disposição do consumidor sem abater o correspondente valor da contraprestação paga mensalmente pelo usuário equivale a aumentar a onerosidade do contrato para o consumidor. Neste contexto, salta à vista, também, a criação de novos planos que, embora sejam apresentados como novidade, prometem ao consumidor exatamente 8

9 o que ele desfrutava antes da alteração da cláusula contratual atinente e de forma ainda mais restrita. É dizer, retira-se do consumidor determinada vantagem sem que haja abatimento do preço; concomitantemente, oferece-se algumas vantagens das quais ele anteriormente desfrutava por um valor mais elevado, veiculando a oferta como se de novidade se tratasse. Isso equivale, portanto, a aumentar desproporcionalmente os valores cobrados dos consumidores que se virem obrigados a migrar para planos com maior franquia de dados, ou com o famigerado Whatsapp ilimitado. Como irrazoável alternativa, pode o consumidor continuar a pagar o mesmo que antes, mas sem desfrutar do acesso à internet até o fim do mês de apuração do consumo. Aqui, emerge a previsão constante do art. 5, IV, do Código de Defesa do Consumidor, o qual determina ser considerada cláusula contratual abusiva toda aquela que estabeleça obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade. Ainda, forçoso mencionar que é direito do usuário expressamente previsto na Lei 2.965/204 (Marco Civil da Internet) a manutenção da qualidade contratada da conexão à internet, por ser o acesso à rede essencial ao exercício da cidadania (art. 7º, V). Assim, não se pode reconhecer como legítima a unilateral decisão imposta pela demandada de simplesmente interromper o acesso dos seus usuários à internet, em oposição à prática anteriormente adotada e integrante do plano contratado pelos usuários, segundo a qual se garantia o acesso, ainda que com velocidade reduzida, até o fim do período de aferição de consumo. Por isso, é fundamental que sejam repelidas as supracitadas práticas da demandada, lesivas aos consumidores, através da declaração de nulidade da cláusula contratual inserida em contratos de adesão firmados antes de 27 de fevereiro de 205 que estabelece a interrupção total do serviço de dados após o fim da franquia contratada. 9

10 Assim, a demandada será compelida a manter o serviço de acesso móvel à internet, mesmo que com velocidade reduzida após o esgotamento da franquia de dados, ou realizar abatimento proporcional nos valores pagos pelos usuários de planos pós-pagos de telefonia móvel caso seja interrompido o acesso à internet com o fim da franquia mensal de dados DA AGRESSÃO À NEUTRALIDADE DA REDE A entrada em vigor do Marco Civil da Internet no Brasil (Lei 2.965/204), embora tardia, mostrou-se fundamental para conferir maior segurança jurídica aos contratos de forma geral relacionados à internet e firmar direitos dos usuários de internet no país, antes submetidos a uma espécie de limbo jurídico. Há que se destacar, nesse contexto, que um dos grandes méritos do referido diploma normativo foi o de prever como princípio da disciplina do uso da internet no Brasil a preservação e garantia da neutralidade de rede (art. 3º, IV). Em garantia à observância do princípio, tendo em conta a preservação da liberdade do usuário e da livre concorrência, assim dispôs o legislador: Art. 9º O responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação. ( ) 3º Na provisão de conexão à internet, onerosa ou gratuita, bem como na transmissão, comutação ou roteamento, é vedado bloquear, monitorar, filtrar ou analisar o conteúdo dos pacotes de dados, respeitado o disposto neste artigo.

11 Em outras palavras, pode-se dizer que não cabe ao fornecedor do acesso à internet filtrar o que o usuário acessa. Não pode autorizar a utilização de determinados serviços e não de outros, não pode liberar o acesso a determinados sítios eletrônicos e não a outros; em suma, deve apenas fornecer o serviço de dados contratado, nunca impor ao usuário os serviços ou aplicativos com que ele deve usufruí-lo. Tal previsão, saliente-se, é fundamental para que o usuário de serviços de internet ocupe verdadeiro papel de sujeito das atividades em rede, e não mero objeto de imposições e manipulações por agentes econômicos poderosos, como os fornecedores do serviço de acesso à internet. Aqui, não se pode sequer cogitar do afastamento da aplicação do dispositivo pela ausência de regulamentação do Marco Civil pelo Executivo. Embora haja previsão de regulamentação, por meio de decreto, das excepcionais hipóteses autorizadoras de discriminação ou degradação de tráfego, o comando veiculado pelo art. 9º, caput, acima transcrito, tem aplicabilidade direta e imediata. Ou seja, a regra imposta aos fornecedores de conexão à internet, veiculada pela lei (em obediência ao princípio da legalidade, em respeito ao art. 5º, II, CF/88), é imperiosa e de observância necessária e imediata; apenas as exceções à regra serão regulamentadas por decreto. É, assim, forçoso reconhecer que a discriminação ou degradação de tráfego, até que sobrevenha regulamentação, é absolutamente vedada. De não ser este o entendimento, haveria inaceitável subversão da estrutura lógica piramidal do ordenamento jurídico: a regra, para ser aplicada, necessitaria a regulamentação das exceções; o decreto, ato normativo que deriva diretamente da lei, condicionaria a aplicação da própria lei, que tem fundamento de validade diretamente na Constituição. Desta forma, o decreto assumiria relevância maior que a da lei que pretende regulamentar, bem como modularia temporalmente os seus efeitos por não ser editado oportunamente (a despeito da previsão relativa ao vacatio legis constante da lei), o que é ilógico e inconcebível, em face da verificação de plena validade, vigência e eficácia da Lei 2.965/204.

12 É necessário ter em vista de que a competência privativa do Presidente da República para expedição de decretos e regulamentos, de acordo com o art. 84, IV, CF/88, tem como finalidade a fiel execução das leis. Nesta linha, jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, amparada em festejada doutrina: "É cediço na doutrina que a finalidade da competência regulamentar é a de produzir normas requeridas para a execução de leis quando estas demandem uma atuação administrativa a ser desenvolvida dentro de um espaço de liberdade exigente de regulação ulterior, a bem de uma aplicação uniforme da lei, isto é, respeitosa do princípio da igualdade de todos os administrados (MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 2ª ed. São Paulo: Malheiros, p. 336)." (ADI 4.28-AgR, rel. min. Luiz Fux, julgamento em , Plenário, DJE de ) Cotejando-se o caso de que se trata com o excerto supra, percebe-se que o espaço de liberdade exigente de regulação ulterior que legitima a atuação administrativa por meio de decreto está relacionado à disciplina das exceções à regra de neutralidade da rede não havendo decreto, não há exceções; a regra de neutralidade é absoluta e imediatamente aplicável, cabendo ao intérprete a construção da norma jurídica a partir do texto da lei. Ressalte-se, por oportuno, que a vindoura regulamentação da discriminação ou degradação do tráfego na internet poderá decorrer exclusivamente de requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada dos serviços e aplicações e de priorização de serviços de emergência, conforme expressa disposição legal (art. 9º, º, I e II, Marco Civil da Internet). Assim, é válida a conclusão de que, a despeito da imediata aplicabilidade das disposições veiculadas pelo Marco Civil, mesmo quando sobrevier o decreto regulamentar previsto pelo art. 9º, º, não será possível prever a restrição

13 da navegação apenas a serviços como Whatsapp ou serviços pagos fornecidos pela operadora de telefonia móvel. Isso tudo porque, além dos limites já impostos pela lei ao decreto a ser editado, mesmo quando se autorize excepcionalmente a discriminação ou degradação do tráfego, o responsável pelo fornecimento da conexão de dados, dentre outras obrigações, jamais poderá oferecer serviços em condições comerciais discriminatórias ou praticar condutas anticoncorrenciais, consoante a previsão do art. 9º, 2º, IV. Acaso o decreto preveja hipóteses de exceções à neutralidade que exorbitem os limites fixados pela lei, incorrerá em ilegalidade e deverá ser prontamente repelido pelo Judiciário, quando provocado. Por tudo isso, resta clara a ofensa, por parte da demandada, à neutralidade da rede, quando comercializa pacotes de internet que permitem a utilização somente do aplicativo Whatsapp, ou quando permite acesso apenas a serviços próprios, com o fim da franquia de dados. Ao fazê-lo, a Tim discrimina os demais serviços e ofende a liberdade de tráfego do consumidor, em agressão frontal ao que prevê o Marco Civil da Internet DO DANO MORAL COLETIVO O Código de Defesa do Consumidor consagra como direito básico do consumidor "a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos" (art. 6º, VI). Nesta esteira, dispõe ser também direito básico "o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos" (art. 6º, VII). Ressalte-se, ademais, a previsão constante do art. 8 do mesmo diploma, que estatui a possibilidade de defesa em juízo dos interesses do consumidor a título coletivo. No presente caso, a ora demandada atingiu a honra e a dignidade de diversos consumidores através da conduta abusiva.

14 Não se pode desconsiderar, em primeiro lugar, a frustração de grande número de consumidores com a repentina alteração contratual, prejudicial aos seus interesses, lesiva economicamente. Tal frustração é de maior monta se considerado o fato de que a maior parte dos usuários de serviços pós-pagos da demandada são consumidores de longa data dos serviços prestados pela Tim, e sempre puderam desfrutar do serviço de internet móvel até o fim do período de aferição de consumo, mesmo após o fim da sua franquia de dados. Talvez mais considerável ainda seja a angústia e indignação causadas aos consumidores quando se derem conta de que as promoções veiculadas pela Tim, de acesso ilimitado ao Whatsapp, nada mais são do que a reciclagem do serviço anteriormente à disposição, mas com restrições e a preços superiores. Conforme exposto, a velocidade reduzida após o fim da franquia de dados era suficiente para a utilização do referido aplicativo, assim como para acessar outros serviços. Agora, além de precisar pagar mais para continuar utilizando o Whatsapp ao fim da franquia de dados, o consumidor não terá a possibilidade de utilizar serviços além deste. Caso prefira manter as condições contratuais, pagando o mesmo valor de antes, não terá acesso sequer ao Whatsapp depois de consumir a franquia de dados contratada. Além do óbvio prejuízo financeiro, portanto, percebe-se o abalo à esfera moral dos consumidores por se verem induzidos a erro pela demandada, com a qual em muitos casos estabeleceram relações contratuais há anos, sofrendo cortes nos serviços contratados, sendo obrigados a contratar planos mais onerosos e levados a crer que toda a situação não passa de uma promoção da operadora de telefonia. Aqui, é evidente a violação ao princípio da boa fé objetiva que deve nortear as relações de consumo. Neste contexto, deve-se levar em conta que a reparação do dano moral coletivo tem destacada finalidade preventiva, ou seja, serve também para de-

15 sestimular a prática de novas lesões a direitos coletivos lato sensu. A condenação à reparação do dano moral coletivo, portanto, detém função híbrida, punitiva e preventiva. Desta feita, configurado o dano moral coletivo através de clara violação à boa fé objetiva e do abalo à esfera moral dos consumidores do Estado de Pernambuco coletivamente considerados, faz-se necessária a condenação da ré ao pagamento de indenização a título de reparação pelos danos morais coletivos causados. Para isso, destaque-se a feição pedagógica que deve nortear a fixação do quantum indenizatório nas relações de consumo, de forma que a demandada se sinta desestimulada a voltar a proceder de forma abusiva. É, portanto, imperiosa a necessidade de fixação do valor da reparação pelo dano coletivo em montante apto a, além de reparar os danos, desestimular a ora requerida à prática de novas ilicitudes da mesma natureza. 3. DA ANTECIPAÇÃO DE TUTELA Não restam dúvidas da verossimilhança das alegações aqui aduzidas, em vistas da confissão da demandada quanto à prática, inclusive por meio de comunicados aos seus consumidores veiculados por diversos meios. A questão, pois, é eminentemente acerca da interpretação do direito posto e da sua aplicação ao caso concreto, e a argumentação desenvolvida demonstra a existência do fumus boni iuris. É, ainda, fundado o receio de dano irreparável a número indeterminado de consumidores: dado o porte da empresa, vários consumidores já estão sofrendo, ou se encontram em vias de sofrer, a supressão unilateral dos serviços por eles contratados, sem que haja qualquer compensação por isso. É certo, outrossim, que a importância assumida pela internet atualmente permite concluir que a retirada desta possibilidade de comunicação aos consumidores é

16 extremamente danosa e pode causar a perda de diversas oportunidades, de variada ordem, as quais não serão necessariamente restabelecidas se reconhecida a procedência dos pedidos apenas no julgamento final de mérito. Por isso, configurado o periculum in mora, requisito exigido para a concessão de tutela antecipada no art. 273, I, do Código de Processo Civil. Assim, preenchidos os requisitos legais, urge que seja concedido imediatamente provimento judicial apto a fazer cessar a prática abusiva, com fulcro no art. 84, 3, do Código de Defesa do Consumidor e no art. 273, I, do Código de Processo Civil. Por isso, requer-se, a título de tutela antecipada inaudita altera parte, para contratos vigentes no Estado de Pernambuco: a) a imediata suspensão de cláusulas inseridas em contratos de adesão firmados pela ré antes do dia 27 de fevereiro de 205 que prevejam a interrupção da conexão de dados após o consumo da franquia mensal de dados de usuários de serviços pós-pagos; b) a condenação da ré em obrigação de fazer consistente em garantir a conexão em velocidade reduzida, nos mesmos parâmetros dos vigentes até o dia 27 de fevereiro de 205, a todos os usuários de serviços pós-pagos contratados antes da referida data, após o consumo da franquia mensal de dados; c) alternativamente ao pedido anterior, a condenação da ré em obrigação de fazer consistente conceder abatimento de, no mínimo, 20% no valor dos planos pós-pagos contratados com serviço de internet incluído antes do dia 27 de fevereiro de 205;

17 d) a condenação da ré em obrigação de não fazer consistente em não comercializar planos que prevejam a possibilidade de utilização de apenas determinados aplicativos e serviços de internet, discriminando outros serviços conteúdos; e) a imposição de multa diária no valor de R$00.000,00 (cem mil reais) para o eventual descumprimento de cada uma das determinações judiciais, para que se dê efetividade ao provimento liminar, em consonância com o art. 84, 4, CDC. 4. DOS PEDIDOS Pernambuco: Em sede de tutela definitiva, para contratos vigentes no Estado de a) a confirmação de todos os provimentos liminares, inclusive com a cominação de multa diária por descumprimento, sendo declarada a nulidade das cláusulas em contrato de adesão acima mencionadas; b) a condenação da ré a reparar os danos morais coletivos causados, em valor a ser arbitrado pelo MM. Juízo, a ser revertido ao Fundo Estadual de Defesa do Consumidor; c) a citação da ré para, querendo, contestar a ação; d) a inversão do ônus da prova, nos termos do art. 6º, VIII, do Código de Defesa do Consumidor; e) a produção de todas as provas em direito admitidas, com a imediata juntada aos autos do PP nº 004/205-8;

18 f) a publicação de edital, nos termos do art. 94 do Código de Defesa do Consumidor; g) a condenação da ré nos ônus sucumbenciais, exceto honorários advocatícios. Para efeitos meramente fiscais, atribui-se à causa o valor de R$00.000,00 (cem mil reais). Pede deferimento. Recife, 24 de março de 205. LILIANE DA FONSECA LIMA ROCHA 8ª Promotora de Justiça de Defesa do Consumidor da Capital

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