VIDEOECONOMIA COMO OS VÍDEOS, A EDUCAÇÃO E OS CHIPS PODEM GERAR CRESCIMENTO ECONÔMICO SAMUEL VIDAL

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1 VIDEOECONOMIA COMO OS VÍDEOS, A EDUCAÇÃO E OS CHIPS PODEM GERAR CRESCIMENTO ECONÔMICO SAMUEL VIDAL

2 Videoeconomia: Como os vídeos, a educação e os chips podem gerar crescimento econômico Nas últimas décadas têm ocorrido grandes avanços tecnológicos na área de informática. Os computadores possuem chips com capacidade de armazenamento 1000 vezes maior do que os computadores de 20 anos atrás e a velocidade da Internet aumentou em média 20 vezes no mundo nos últimos 10 anos. Esses avanços também proporcionaram um grande aumento na disseminação de vídeos. Por outro lado o uso das ferramentas digitais tem apresentado pouco impacto na melhoria da qualidade da educação. Uma melhor educação gera cidadãos mais produtivos, aumentando as taxas de crescimento econômico dos países e reduzindo a pobreza. No Brasil, o resultado de provas nacionais como o IDEB 1 tem mostrado notas baixíssimas, principalmente no Ensino Médio, onde a nota média dos alunos em 2009 foi 3,6 numa escala de 0 a 10, mesmo com o grande aumento do uso de ferramentas como o computador na última década. O que também chama a atenção é a presença de escolas analógicas nas primeiras colocações. Essas escolas com poucos recursos financeiros e precária infra-estrutura digital utilizam predominantemente estratégias tradicionais de ensino como o uso do quadro negro e a aplicação de ditados. Os computadores não são aproveitados ou no mínimo utilizados apenas em último caso. Se algumas escolas não digitais conseguiram resultados excelentes nos exames nacionais, imaginem o que seria possível fazer se os computadores, os softwares educacionais, a Internet, os DVDs e as lousas digitais, soluções que privilegiam a comunicação visual com o estudante, fossem usadas com alto grau de eficiência. Essa discussão não acontece apenas no Brasil. No mundo inteiro, os especialistas em educação procuram formas de melhorar o ensino e encontram-se angustiados diante da ausência de avaliações que indiquem os impactos das chamadas tecnologias da informação e comunicação (TICs) na sala de aula. Então temos o seguinte questionamento: Como capitanear o progresso tecnológico das ferramentas digitais nas últimas décadas para que se obtenha um grande avanço na qualidade da educação e consequentemente se tenha um maior crescimento econômico? A utilização dos vídeos na educação pode ser uma grande solução para superar esse desafio. O potencial é tão grande, alavancado pela crescente diminuição dos custos de armazenamento e transmissão de dados, que se ele for bem aproveitado acabará gerando um aumento expressivo da taxa de crescimento econômico nos países ou regiões. Esse avanço econômico pode ser denominado de VIDEOECONOMIA.

3 Antes de avaliar o potencial dos vídeos na educação é importante explicar a teoria do crescimento econômico para entender porque a educação é tão vital na melhoria do padrão de vida das pessoas. Na economia de um país o Produto Interno Bruto (PIB) é a renda total de todas as pessoas e depende da capacidade do país de produzir bens e serviços. O PIB representa a melhor medida de bem-estar econômico de uma sociedade 2. O crescimento econômico representa o aumento do PIB de um país através do aumento da produtividade. A produtividade se refere à quantidade de bens e serviços que um trabalhador pode produzir por cada hora de trabalho. Os principais fatores que determinam o aumento da produtividade são o capital humano, o capital físico, os recursos naturais e o conhecimento tecnológico. Vamos focar apenas no fator capital humano, que se refere diretamente a educação. O capital humano é o conhecimento e as habilidades que os trabalhadores adquirem por meio da educação, treinamento e experiência. O capital humano de um país depende da qualidade da educação. Uma população com maior escolaridade e melhor rendimento escolar atinge uma maior capacidade de raciocínio e síntese. Essa capacidade eleva a produtividade dos trabalhadores e consequentemente aumenta a produção de bens e serviços do país, gerando crescimento econômico. O pesquisador americano Eric Hanushek, que estuda a influência do rendimento escolar nas taxas de crescimento econômico ao redor do mundo, afirmou que se as notas dos estudantes brasileiros aumentassem em apenas 15%, em testes padronizados de avaliação como o IDEB, o Brasil somaria a cada ano meio ponto percentual as suas taxas de crescimento 3. O PIB do Brasil cresceu em média 3% ao ano nas últimas duas décadas, sendo que devido ao aumento anual de 1% na população, isso gerou um aumento médio de 2% ao ano na renda per capita brasileira. Se as notas médias dos alunos brasileiros passarem da nota 4 atual (considerando o ensino fundamental e médio juntos) para 4,6, configurando um aumento de 15%, isso elevará a taxa de crescimento econômico de 3% para 3,5% ao ano, considerando evidentemente que as taxas de crescimento econômico futuras serão similares as taxas das duas últimas décadas. Nesse caso, ao invés de a renda per capita crescer 2% ao ano, ela crescerá 2,5% ao ano, representando um aumento de 25%. Após 20 anos, ao invés de a população do Brasil ter uma renda média 48% superior ao valor atual, ele terá uma renda média 64% superior. A relação entre crescimento econômico e educação foi bem estabelecida no parágrafo anterior. Agora nos atentaremos as formas de melhorar a qualidade da educação. O Ministro Fernando Haddad afirmou em uma entrevista recente que não existe uma bala de prata para resolver os problemas estruturais da educação brasileira 4. Como alguns especialistas

4 explicam, a educação é um processo e depende de uma série de fatores para ter uma boa qualidade. Ela depende de uma boa gestão escolar, da qualificação de professores, de um aprendizado adequado nas séries iniciais, de uma boa grade curricular, de bons salários para os profissionais do setor, de avaliações para verificação da qualidade do aprendizado, enfim um grupo extenso de boas iniciativas que demandam elevados investimentos. No entanto esse texto não pretende discutir cada aspecto do processo educacional. A idéia central que se deseja transmitir é a seguinte: Se todas as etapas do processo educacional forem mantidas, o acréscimo em massa de vídeos a disposição dos alunos gerará uma melhoria no rendimento escolar. E esse acréscimo terá um custo muito baixo devido aos avanços tecnológicos presentes e futuros na área de armazenamento e transmissão de dados. Como foi citado anteriormente, um aumento de apenas 15% nas notas dos alunos brasileiros pode acrescentar 0,5% de crescimento ao PIB nacional todos os anos. Um pequeno avanço gerará um grande impacto econômico e esse avanço pode ser capitaneado pelo uso dos vídeos na educação. Um grande impacto através de uma política de baixo custo significa um investimento de elevado custo-benefício. Esse investimento pode ser feito tanto pelo Governo Federal quanto pelas grandes fundações educacionais (Itaú, Bradesco). A disponibilização em grande escala de vídeos com alta qualidade para os alunos aumentará o aprendizado. No entanto será mesmo que esse impacto pode ser tão expressivo a ponto de melhorar significativamente as notas das avaliações de aprendizado? Será que o custo para massificar os vídeos é tão baixo? O impacto e os custos dependerão da arquitetura de implementação. Precisamos desenvolver conteúdos diferentes e usar as ferramentas tecnológicas de uma forma diferente. Vamos fazer uma abordagem histórica da participação dos vídeos na educação. Eles foram utilizados em sua grande maioria no Brasil nas experiências educacionais de ensino a distância. A educação a distância apresenta características específicas, rompendo com a concepção da presencialidade no processo de ensino-aprendizagem. Para a EAD, o ato pedagógico não é mais centrado na figura do professor, e não parte mais do pressuposto de que a aprendizagem só acontece a partir de uma aula realizada com a presença deste e do aluno. Podemos afirmar que a EAD no Brasil, de 1994 até os dias de hoje, se desenvolveu a partir de cinco modelos 5, que são: 1- O modelo de tele-educação com transmissão ao vivo e via satélite em canal aberto para todo o País. O exemplo mais conhecido e de alcance nacional é o Telecurso da Fundação Roberto Marinho.

5 2- O modelo de videoeducação com reprodução pré-gravada em forma de teleaulas. 3- O modelo semipresencial, com uma proposta de interiorização universitária que combina a educação à distância com a presencial em pólos regionais, que funcionam como unidades presenciais de apoio para acesso dos alunos a laboratórios, bibliotecas, e salas de aula para realização de tutoria presencial em parceria com as prefeituras municipais. Este modelo foi adotado inicialmente pela UFMT, por outras instituições e pela UAB. 4- O modelo de universidade virtual, com uma EAD caracterizada pelo uso intensivo de tecnologias digitais para a entrega de conteúdos e atividades para os alunos e para promover a interação destes com professores, colegas e suporte técnico e administrativo. Neste modelo as etapas presenciais são reservadas para a realização de provas, com as demais atividades sendo realizadas a distância. 5- O modelo em que os alunos dos cursos a distância permanecem períodos regulares na instituição (de forma presencial) onde realizam não apenas provas, mas atividades em laboratório, por exemplo. A maioria dos modelos de ensino a distância citados procuraram substituir a aula presencial por uma aula à distância usando fortemente os vídeos como ferramenta. Essa substituição da forma A pela forma B (aula presencial substituída pela aula à distância) motivou muitas críticas. O modelo de tele-educação da Fundação Roberto Marinho se baseou em uma experiência similar desenvolvida pelo Estado do Ceará a partir de O sistema de Teleensino cearense foi universalizado no estado em como resposta ao déficit de professores da rede pública. Com a universalização afirmava-se que como a qualidade do professor da televisão era superior a qualidade do professor presencial, o teleensino melhoraria o aprendizado. Na realidade nem a qualidade da aula era tão boa assim, pois ela estava apegada a um modelo curricular ultrapassado, nem o suporte dos orientadores presenciais era adequado. As outras etapas do ensino como a orientação das dúvidas e a avaliação do aprendizado ficaram prejudicadas porque não havia um professor na sala de aula, representando um regresso no aprendizado. O Estado do Ceará precisou voltar atrás e restabelecer o modelo tradicional. Isso demonstra a necessidade de critérios na introdução dos vídeos na educação. Mais recentemente as videoconferências, usadas principalmente no modelo de universidade virtual, tem atenuado essa falta de interação entre aluno e professor, utilizando sistemas bi e multidirecionais com interação por áudio e vídeo, integrando múltiplos espaços conectados ao vivo, para realização de aulas. No entanto ministrar uma aula para 400 alunos em 10

6 salas distintas de vídeo, por exemplo, mesmo com a comunicação ao vivo, não garante o mesmo nível de interação de uma sala tradicional presencial onde há a relação direta do professor com apenas 40 alunos. Não se pode falar ainda numa transição definitiva das aulas presenciais para as aulas virtuais. As melhores instituições de ensino fundamental, médio e superior são predominantemente presenciais. Por outro lado o ensino a distância, com a ajuda da videoconferência e de outras ferramentas digitais de última geração, que atenuam a deficiência da presencialidade, têm buscado oportunidades em alguns mercados educacionais não explorados pelo ensino tradicional. A cada dia aumenta a oferta de cursos virtuais pela Internet, principalmente de graduação e pós-graduação, onde um estudante de qualquer pequena cidade do interior do Brasil, que na maioria dos casos não possui uma instituição de ensino superior, pode cursar uma graduação estudando em casa. Além da Internet, outras plataformas como a TV por satélite residencial tem introduzido cursos de especialização à distância. A explosão do ensino a distância no Brasil é constatada pelo aumento no número de matrículas em cursos de graduação à distância. Veja o gráfico a seguir demonstrando esse aumento:

7 Até o momento avaliamos como os vídeos estão sendo utilizados na educação brasileira. A presença da ferramenta no ensino à distância é decisiva para o sucesso dessa modalidade de ensino. Agora vou expor a minha proposta de inserção dos vídeos no aprendizado educacional. Nos modelos de educação à distância desenvolvidos até hoje têm se buscado a substituição da aula presencial pela aula à distância (substituição de A por B). O meu modelo somaria A+B. A aula presencial continuaria normalmente, aproveitando os processos educacionais vigentes e mantendo o professor em sala de aula. O vídeo se tornaria um instrumento de apoio. No entanto esse apoio seria maciço. A implantação começaria no ensino médio, o grande problema do nosso sistema educacional. O governo federal, os governos estaduais, ou mesmo fundações de grande porte produziriam 2100 horas de aulas em vídeo com as melhores técnicas de ensino e com excelentes recursos visuais. O conteúdo teria uma grade curricular adaptada aos exames nacionais como o IDEB e o ENEM. Cada aluno do ensino médio receberia no começo do ano 700 horas de vídeos em DVDs, pendrives ou HDs portáteis. As aulas em vídeo também ficariam disponíveis para download na Internet em um programa similar ao Kazaa 7, o conhecido mecanismo de compartilhamento de arquivos. O custo de fabricação de DVDs ou HDs por aluno seria muito baixo, devido a crescente redução de preços dos mecanismos citados. Mais a frente esses custos e o avanço das tecnologias de armazenamentos de dados serão melhor avaliados. Por enquanto os focos serão a produção dos vídeos e o impacto que eles podem gerar na qualidade da educação. A disponibilização de 700 horas anuais para os alunos do ensino médio garantirá que eles possam assistir 24 horas por dia qualquer aula do ano letivo em um DVD ou em um computador. Se o aluno quiser rever o assunto ensinado ou complementar o que não foi aprendido ele terá uma ferramenta mais poderosa do que o livro. Ao contrário do teleensino que substitui a maior parte do processo tradicional de ensino presencial, o modelo proposto tem a finalidade de somar uma nova ferramenta, aumentando o nível de aprendizado dos alunos. Em alguns casos o estudante tem grande interesse no aprendizado, mas encontra na sala de aula um professor deficiente, que muitas vezes não tem formação na área em que ensina. Nesse caso o aluno autodidata poderá dobrar a sua carga horária, ao assistir todas as aulas em vídeo da disciplina em casa. Isso configurará um aprendizado em tempo integral. Se o conteúdo se basear na proposta pedagógica cobrada no ENEM, eles servirão de referência e instrumento de apoio para os

8 professores. Evidentemente ficará a cargo dos professores o nível de utilização dos vídeos. O Ministério da Educação (MEC) desenvolve um programa que possui algumas semelhanças com o modelo proposto: o DVD Escola 8. O Projeto é voltado para a educação básica e oferece as escolas públicas de educação básica caixa com mídias DVD, contendo, aproximadamente, 150 horas de programação produzida pela TV Escola. A TV Escola é um canal de televisão do Ministério da Educação que capacita, aperfeiçoa e atualiza educadores da rede pública desde Além do aperfeiçoamento dos professores, o DVD Escola é usado como ferramenta pedagógica na sala de aula. O problema é que o conteúdo do programa abrange uma pequena parcela da grade curricular e não há distribuição dos DVDs para os alunos. Quanto à disponibilização de vídeos educacionais na Internet, o MEC possui um rico banco de arquivos em vários sites. O portal Domínio Público 9 possui um acervo de 856 vídeos enquanto o Portal do Professor 10 apresenta 1502 vídeos na sua página. O canal TV Escola possui uma extensa videoteca em seu site com conteúdo voltado para o aprendizado dos alunos. No entanto não há uma sistematização clara, um desencadeamento lógico de aulas, que possa configurar um curso completo de física do ensino médio em vídeo, por exemplo. A maioria dos vídeos serve apenas como complementação do aprendizado, pois não abordam diretamente os assuntos presentes na grade curricular do MEC. Após uma avaliação criteriosa do banco de arquivos do MEC, os melhores vídeos poderão compor uma parte das 2100 horas de gravação do modelo proposto. O ponto chave é a qualidade e não a quantidade. O programa mais parecido com o modelo proposto é a Educopédia 11. Ela consiste numa plataforma de aulas digitais produzida pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro em parceria com o Instituto Oi Futuro. Os alunos do 2 ano ao 9 ano navegam em lições interativas de várias disciplinas. Essas lições correspondem àquilo que está sendo trabalhado em sala de aula pelo professor presencial porque cobrem integralmente a grade curricular. A diferença em relação ao modelo proposto está no formato das aulas digitais. Apenas uma parte das aulas utiliza vídeos, enquanto outras utilizam jogos educativos e exercícios interativos como ferramenta. Acredito que o mais importante é que se tenha todas as aulas em vídeo, que possam ser assistidas tanto no computador quanto em DVDs. Outras opções como os jogos educativos devem servir como complemento. A relação custo-benefício de uma política educacional de produção de vídeos seria muito elevada. Após a filmagem das 2100 horas de aulas, sobraria apenas o custo de fabricação dos mecanismos de armazenamento como os DVDs e os custos da posterior gravação do conteúdo. Quando um

9 ente governamental ou uma organização do 3 setor desenvolve uma tecnologia social, ele busca replicá-la. Um exemplo é a construção de cisternas de placa no semi-árido nordestino com a finalidade de abastecer com água as famílias da zona rural. A construção de uma cisterna de placa beneficia apenas uma família. A produção de vídeos educacionais de altíssima qualidade por outro lado tem um potencial de replicação absurdo. Uma aula de alta qualidade pode beneficiar milhões de alunos. Esse potencial não está sendo aproveitado nem pelos governos nem pelas grandes fundações privadas. Talvez não exista outra tecnologia social com tamanha possibilidade de abrangência. E isso fica ainda mais evidente quando se percebe que a maior parte do tempo gasto em sala de aula pelos professores ocorre na etapa de explicação dos conteúdos, etapa da aprendizagem que os vídeos podem substituir ou complementar. O processo de produzir o conhecimento para milhões através dos vídeos no Ensino Médio, difere do processo de produzir aulas para um grupo restrito de alunos, como ocorre nas graduações à distância das instituições privadas. A distribuição dos vídeos para os professores é uma ótima maneira de o MEC estabelecer um modelo, uma referência de ensino a ser seguida de acordo com os parâmetros curriculares. Após a capacitação dos professores em cursos de aperfeiçoamento sobre o ENEM, possuir um conteúdo visual a sua disposição ajudará bastante. Ele sedimentará o aprendizado teórico dos cursos. A experiência prática transmitida pelas aulas ajudará a evitar grandes distorções na implementação da grade curricular. Evidentemente o processo educacional não se restringe apenas a explanação de conteúdos, ele envolve outros aspectos como a avaliação, o acompanhamento do aprendizado dos estudantes, o momento de tirar dúvidas e o incentivo ao desenvolvimento do senso crítico do aluno. No entanto, como foi citado anteriormente, a maior parte do tempo em sala de aula é despendido com a explanação de conteúdos. As aulas precisam apresentar conteúdos mais enxutos e voltados para questões práticas. Cláudio Moura Castro, colunista da revista Veja, comparou a alguns atrás a grade curricular da escola brasileira com o navio sueco Vasa que foi construído pelo rei Gustavo em O navio afundou devido ao peso provocado pelo excesso de canhões. Como o navio, a nossa grade curricular precisa de menos peso e mais qualidade. Além disso, é importante salientar que educar é contar histórias, uma forma poderosa de comunicação. Para que se tenha uma educação de qualidade é necessário que se conte uma história que seja saborosa e que transmita a mensagem com eficácia. A maioria dos professores está acomodada com a escrita de fórmulas complicadas no quadro negro, numa forma insípida e ineficaz de se contar uma história. Por outro lado as aulas em vídeo criativas podem mudar

10 esse cenário. Uma aula de História sobre o Nazismo pode transmitir trechos do filme O julgamento de Nuremberg 13 para mostrar com mais realismo os campos de concentração de prisioneiros. As tecnologias de animação em 3D podem ajudar tanto em aulas de física sobre o sistema solar quanto em aulas de geografia sobre os deslizamentos nos morros das áreas urbanas, um tema tão atual. A empresa 3PD 14 possui um banco de soluções nessa área. Aulas de física poderiam ensinar os alunos a construírem aparelhos simples como um telefone, um rádio ou um motor térmico. Esses aparelhos seriam montados utilizando kits de ciências padronizados. Cada aula da área de exatas (Física, Química, Biologia e Matemática) poderia usar um desses kits. Eles permitiriam que o aluno em casa tivesse a oportunidade de replicar a experiência passada no vídeo. Aulas de matemática ensinariam finanças do dia-a-dia, desenvolvendo temas como poupança, financiamento imobiliário e juros no cartão de crédito. Existe um espaço enorme para implementar uma educação mais eficiente, com uma qualidade média nunca vista antes nos vídeos. Por fim, quanto a qualidade, seria importante uma avaliação tanto dos alunos que assistirem as aulas no local de gravação dos vídeos, quanto dos alunos que assistirem as aulas como complemento ao professor convencional, para medir a real influência na melhoria da educação. Como foi dito anteriormente, um avanço de 15% das notas dos alunos em avaliações como o IDEB, geraria um avanço econômico futuro extraordinário para o país. Até o momento foi mostrado que é possível produzir vídeos de alta qualidade para milhões de alunos com uma relação custo/benefício altíssima. No entanto na segunda fase, no momento de distribuição dos vídeos, o custo de fabricação dos mecanismos de armazenamento de dados e os custos da posterior gravação do conteúdo precisam de uma análise mais aprofundada. Em 1965 Gordon Moore, presidente da Intel, previu que seria possível dobrar a capacidade dos chips a cada 18 meses, se mantendo o mesmo custo de produção. Os chips, os circuitos eletrônicos miniaturizados que armazenam as informações no computador, têm seguido a Lei de Moore até os dias de hoje. Assim o custo da tecnologia de armazenamento de dados como vídeos, fotos e textos em computadores vêm caindo drasticamente nas últimas quatro décadas e esse processo deve continuar no curto e no médio prazo. Enquanto em 1970 um chip possuía mil transistores, um chip do mesmo tamanho em 2010 passou a ter 100 bilhões de transistores 15. Isso gerou a revolução que estamos vendo na área da informática. Os custos para armazenar 2100 horas de vídeos em computadores, em HDs portáteis, em pen drivers ou em DVDs na atualidade são baixos. Um HD portátil com 2 Terabytes de capacidade custa 300 reais no Brasil 16 e 100 dólares nos Estados Unidos 17. Considerando

11 que cada hora de um vídeo de boa qualidade tenha 1Giga, o HD de 2 Tera seria suficiente para a missão das 2100 horas. Teríamos um custo de 100 reais por 700 horas, o número de horas dedicadas para cada série do ensino médio. Assim teríamos um custo de 100 reais por aluno/ano. Se o conteúdo for armazenado em DVDs de 4Giga e com um custo de fabricação unitário de 1 real, teremos um custo de 170 reais por aluno/ano. Uma terceira opção seria disponibilizar os conteúdos para serem baixados na Internet. A tendência é que esses custos praticamente desapareçam em 5 anos ou 10 anos, não só porque a Lei de Moore se manterá com o avanço tecnológico, mas porque o custo físico de produção de um HD portátil ou de um Blue-ray (substituto do DVD) é muito inferior ao custo de comercialização. As empresas vendem os seus produtos por um valor mais alto inicialmente porque precisam garantir o retorno do seu investimento nas tecnologias de desenvolvimento. Mas depois os preços derreterão porque a tecnologia de desenvolvimento foi paga. Um exemplo histórico dessa questão foi o DVD, que tinha preços muito altos tanto dos aparelhos quanto dos discos na virada do milênio e hoje, após o pagamento dos investimentos de desenvolvimento, está na casa dos cidadãos mais humildes. Assim, com a ajuda do avanço tecnológico e com o pagamento do desenvolvimento dos produtos, um HD portátil de 2TERA deve custar 10 vezes menos em 5 anos, fazendo com que o custo caia de 100 reais por ano para 10 reais por ano. O Blue-ray, o substituto do DVD, deverá custar daqui a 5 ou 10 anos o mesmo valor de um DVD na atualidade, armazenando até 10 vezes mais informação. Existe ainda as tecnologias em fase de desenvolvimento, como a criada pela Universidade de Swinburnena na Austrália 18, que promete guardar informações em 5 dimensões e garantir o armazenamento de 1,6 Terabytes de dados em apenas um disco. Outra opção seria a tecnologia da General Eletric que promete um disco de DVD com capacidade de armazenamento de 500 Giga. Essas duas revoluções permitiriam guardar pelo menos 500 horas de vídeo em apenas um disco. Já sabemos que o custo de armazenamento de vídeos vem caindo e deixando de ser um empecilho para a distribuição em massa dos conteúdos educativos. Por outro lado existem outras questões que precisam ser relevadas, como a presença dos aparelhos de transmissão de vídeos nas casas dos estudantes. A maioria da população pobre do Brasil não possui computador. O aparelho só está presente em 35% das residências 19. Enquanto cada aluno pobre não tiver um computador, a melhor plataforma para assistir os vídeos são os aparelhos de DVD, que custam menos de 100 reais na atualidade e estão na maioria absoluta das casas. As aulas podem ser visualizadas através dos discos de DVD ou através das entradas USB, que

12 permitem conectar pen drives ou HDs portáteis. Daqui a 5 ou 10 anos existe a possibilidade dos aparelhos de blue-ray dominarem o mercado dos DVDs e mudarem essa realidade. Se o DVD do aluno não tiver porta USB, a escola pode distribuir um aparelho que tenha essa funcionalidade, porque os DVDs que possuem essa característica são igualmente baratos. Quanto aos computadores, para se tornarem uma plataforma viável, é importante que os programas de doação em massa de laptops para crianças carentes sejam concretizados. Uma observação importante precisa ser feita sobre os HDs portáteis. Essa tecnologia vem sendo criticada porque permite um armazenamento colossal de dados, mas não possui a mesma segurança física de um HD interno do computador. O HD portátil é pequeno e pode ser transportado para todos os lugares. Nesse transporte uma simples queda pode ocasionar a perda de todos os dados, sendo necessário uma formatação para voltar a funcionar novamente. Para um usuário que durante meses ou anos armazenou seus programas, trabalhos, fotos e filmes específicos, isso representará literalmente a perda de uma parte da sua vida. Esse problema não se aplica ao armazenamento de vídeos para fins educativos. Como a idéia é produzir filmes de alta qualidade para milhões, se um HD portátil perder seus dados, o aluno poderá se dirigir a uma escola mais próxima e solicitar uma nova gravação dos vídeos. Além da revolução que está ocorrendo nos mecanismos de armazenamentos de dados, existe outra que vem ocorrendo na transmissão de dados, com o advento de tecnologias como a fibra ótica. Podemos utilizar o fluxo rápido e barato de informações ao invés do estoque. As conexões residenciais de Internet no começo dos anos 2000 eram raras e tinham velocidades de 56 Kbps. Em fevereiro de 2011, um relatório da Nielsen Company, que avaliou conexões de Internet ao redor do mundo, atestou que 69% das conexões de Internet do Brasil são iguais ou superiores a 512 Kbps 20. No Brasil em 2010, 27% das casas possuíam Internet. Os especialistas apontam que esse avanço exponencial continuará na próxima década. Até mesmo conexões super rápidas de 10 mega, que ainda são raridade, já começam a ser oferecidas por valores acessíveis como 69,90 reais por mês 21. Com 10 mega de velocidade é possível assistir um filme de alta definição em tempo real, ou baixar um filme de 2 horas de duração em apenas 10 minutos. Poderemos ter em menos de década uma conexão como essa na maioria das casas dos brasileiros. Então se as 2100 horas de aula em vídeos ficarem a disposição gratuitamente na Internet, os alunos assistirão as aulas a qualquer momento no computador sem precisar perder tempo com downloads. Um site específico para disponibilizar os vídeos seria criado e usaria um padrão de transmissão semelhante ao YouTube. O YouTube é o

13 principal site da Internet em carregamento e compartilhamento de vídeos em formato digital. A diferença do site de vídeos educativos em relação ao Youtube seria a maior qualidade e o maior tamanho dos vídeos. O avanço do uso da internet nos aparelhos portáteis como celulares e tablets também pode ser aproveitado para disseminação dos vídeo-aulas. Os celulares mais modernos possuem alta capacidade de transmissão de vídeos e funções interativas fantásticas como a tela sensível ao toque. A quarta geração da telefonia móvel, que está chegando ao mercado, permitirá velocidades de internet de até 100 mega. O tablet é um dispositivo fino em formato de prancheta que tem as mesmas funcionalidades de um computador pessoal, mas onde o teclado é substituído pela tela sensível ao toque. Assim o dispositivo é ao mesmo tempo portátil e completo. A tela grande e o formato similar a um livro tornam o tablet literalmente um vídeo-livro. Alguns educadores já suscitam até mesmo a possibilidade do tablet substituir em algumas ocasiões o livro tradicional no aprendizado. Tanto os celulares de 4 geração quanto os tablets ainda são ferramentas distantes da maioria dos nossos alunos pela questão do preço. Mas quando estiverem massificados a natureza portátil dos equipamentos garantirá disponibilizar 24 horas por dia as aulas para os alunos via vídeo. A TV digital seria outro padrão possível de transmissão de vídeos educativos através do fluxo rápido de informações. A TV digital utiliza a linguagem binária, formada por seqüências de dados numéricos (0 e 1), que é a mesma linguagem tecnológica dos computadores. Isso permite que ela possua recursos como interatividade com o usuário (compras pela TV, votação em pesquisas), mobilidade sem perda de sinal e visualização de diferentes programas no mesmo canal. Em 2016 a tradicional transmissão analógica se encerrará no Brasil, ficando o padrão digital como o único disponível. A Sky, a principal empresa de TV por satélite do Brasil, já possui o padrão digital a mais de uma década. O Sky HDTV 22, o mais avançado aparelho de recepção digital da empresa, possui importantes funcionalidades que podem ser muito úteis na transmissão dos vídeos educacionais. Ele permite a transmissão em alta definição e a gravação de até 400 horas de programação em definição normal, ou 100 horas em alta definição devido a memória interna de 500 giga. Além disso, o Sky HDTV grava os programas que o assinante agenda, sem a necessidade dele estar assistindo a programação no momento. Essas três funcionalidades (alta definição, gravação e agendamento de gravação) já são disponibilizadas por outras empresas de TV por assinatura e até mesmo por aparelhos que transmitem os canais da TV aberta digital. Então se o Sky HDTV ou qualquer outro aparelho semelhante transmitir 12 canais de vídeos educacionais, em uma

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