UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSU AVM FACULDADE INTEGRADA

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1 1 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSU AVM FACULDADE INTEGRADA INTERROGATÓRIO POR VIDEOCONFERÊNCIA: EVOLUÇAO TECNOLÓGICA APLICADA AO DIREITO E AS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS. Por Eva Malena Monteiro Assayag Orientador Prof. Francis Rajzman Rio de Janeiro 2012

2 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSU AVM FACULDADE INTEGRADA INTERROGATÓRIO POR VIDEOCONFERÊNCIA: EVOLUÇAO TECNOLÓGICA APLICADA AO DIREITO E AS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS. Apresentação de monografia à AVM Faculdade Integrada como requisito parcial para obtenção do grau de especialista em Direito e Processo Penal. Por Eva Malena Monteiro Assayag

3 3 AGRADECIMENTOS Às minhas amigas Marina Sodré, Rosane Moraes e, em especial à minha amigairmã Cynthia Peluso que foi minha maior incentivadora.

4 4 DEDICATÓRIA Dedico à minha família e, em especial à minha linda filha Rebecca.

5 5 RESUMO Analisam-se os aspectos relevantes da utilização da videoconferência no interrogatório do réu, dando ênfase as mudanças trazidas pela Lei n /2009. Na primeira parte, faz-se uma abordagem história e jurisprudencial do tema, bem como dos Princípios Constitucionais que abarcam a discussão. Ainda na primeira parte, será apresentada a parte técnica acerca da videoconferência e a importância dos avanços tecnológicos na área jurídica Na segunda parte, estuda-se os prós e os contras da nova modalidade de interrogatório, fazendo-se uma análise crítica da lei que trata do assunto. Destaca-se, por fim, a utilização da videoconferência em outros países e suas consequências. Palavras-Chave: Interrogatório do réu; Videoconferência; Garantias Fundamentais; Lei /2009.

6 6 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO DOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS RELACIONADOS AO TEMA Do devido processo legal (due processo f Law) Princípio da razoabilidade ou proporcionalidade Devido processo legal e processo penal garantista Do contraditório e da ampla defesa Do juiz natural Da identidade física do juiz Da imediação Da Publicidade dos atos processuais Da dignidade da pessoa humana Da razoável duração do processo DO INTERROGATÓRIO Do conceito e natureza jurídica Das características Das mudanças advindas com a Lei nº / Das mudanças advindas com a Lei nº /2008 e / DO INTERROGATÓRIO ONLINE Direito e tecnologia Inovações legislativas e tecnologia Aspectos técnicos da videoconferência Das mudanças advindas com a Lei nº / Pós e contras do sistema ANÁLISE JURISPRUDENCIAL DO DIREITO COMPARADO Dos tratados internacionais sobre o tema CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 65

7 7 1 - INTRODUÇÃO O presente trabalho pretende estabelecer, através de um método analítico, a utilização da videoconferência no interrogatório do réu. Na primeira parte deste estudo, estará em foco a análise dos princípios que abarcam a controvérsia, permitindo a formação de um alicerce teórico para o entendimento do tema. Na segunda etapa, breve análise sobre as características fundamentais do interrogatório, sua importância e a discussão acerca de sua natureza. Posteriormente, abordar-se-á sobre a noção técnica de videoconferência, destacando-se os seus pós e contras quando utilizada no interrogatório de réus, dando ênfase as mudanças trazidas pela Lei /09. Por fim, analisar-se-á o Direito Comparado acerca do tema e a posição jurisprudencial. Por meio deste estudo, procura-se determinar os benefícios e os prejuízos que a utilização do sistema audiovisual de coleta de prova à distância no processo penal pode propiciar para o réu e para o andamento do processo em si. Visa-se, sobretudo, conjugar o avanço tecnológico trazido pela videoconferência com as garantias fundamentais inafastáveis do processo penal. De fato, o novo, seja em qualquer seara da vida humana, traz debates e dúvidas. Assim, é também no direito, sobretudo por tratar-se de ramo do conhecimento que tem por finalidade a solução dos conflitos sociais. Nesse sentido, a história de nossa legislação mostra como os avanços tecnológicos trouxeram discussão quanto a sua aplicabilidade. Houve uma lenta evolução, da máquina de escrever ao computador e hoje já temos processos virtuais, assinaturas online, penhora virtual e tudo vem caminhando para informatização. A lei que regulamenta o interrogatório por videoconferência utiliza-se de termos vagos e indeterminados, não há consenso na jurisprudência e inúmeros são os autores que criticam a utilização de tal modalidade de interrogatório. Contudo, vários são seus benefícios, sobretudo no caso de réu que esteja em outra localidade, que afasta a necessidade de cartas de ordem, rogatórias e precatórias.

8 8 Ademais é inegável que a utilização da videoconferência traga ao processo maior celeridade e economia, bem como amplia o respeito ao princípio do juiz natural e a identidade física do juiz, permitido uma maior proximidade do magistrado com a realidade fática do litígio. Os críticos do sistema salientam, em especial, a desumanização que a virtualidade promove ao ato, tornando-o impessoal, insensível e desconectado com o caráter subjetivo do procedimento, tendo em vista que é o momento do juiz conhecer os aspectos intrínsecos do acusado. Em bem da verdade, o interrogatório do réu in persona é a melhor maneira de se chegar ao postulado da autodefesa. Contudo, os princípios constitucionais não são absolutos, sendo possível a sua gradação, buscando sempre sua melhor aplicação no caso concreto. Para tanto, é necessário uma regulação específica e objetiva, a fim de se evitar o super dimensionamento do poder decisório do magistrado, o que termina originando subjetivismos infundados e arbitrários. De fato, verifica-se que a sociedade vive a era da hipermobilidade virtual e tal realidade já atingiu o Direito, criando uma verdadeira Informática Jurídica e trazendo uma grande mudança de paradigma nos procedimentos judiciais. Dessa forma, torna-se imperioso investigar qual seria a melhor maneira de se efetivar direitos fundamentais, priorizando a noção de Processo Penal Garantista, com as tecnologias informacionais que vêm dominando todas as áreas do conhecimento humano.

9 9 TEMA 2 - DOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS RELACIONADOS AO Nesse capítulo abordar-se-á, de maneira genérica, os princípios que se relacionam com o interrogatório por videoconferência, de forma a permitir a formação da base teórica do assunto Do Devido Processo Legal (due process of law) O princípio do devido processo legal foi concebido, inicialmente, com a finalidade de limitar ações reais, tendo origem na Magna Carta inglesa, de Sua inserção ocorreu, de fato, na Constituição americana, através da V Emenda. No Brasil, o princípio do devido processo legal só foi expressamente previsto na Constituição de 1988, em seu art. 5º, inc. LIV, entretanto, já era implicitamente reconhecido nas Cartas anteriores. No campo do processo penal, o devido processo legal proíbe que alguém seja acusado por fato que não seja previamente definido como crime ou condenado à pena sem prévia cominação legal, exigindo julgamento por um órgão público, imparcial, num processo obediente à ampla defesa e ao contraditório, no qual a jurisdição seja prestada de forma ditada pela legislação processual. Esclarece Luiz Flávio Gomes 1 que o significado essencial do aspecto material do devido processo consiste na necessidade de que todos os atos públicos sejam regidos pela razoabilidade e proporcionalidade, especialmente a lei, não podendo haver limitação ou privação dos direitos fundamentais do indivíduo sem que haja motivo justo. 1 GOMES, Luiz Flávio; PIOVESAN, Flávia. O Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos e o Direito Brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 186.

10 Princípio da Razoabilidade ou Proporcionalidade A idéia de proporcionalidade surgiu, em sede constitucional, a partir de sua reiterada utilização pelo Tribunal Constitucional da Alemanha, no período do segundo pós-guerra. Tal princípio não é expresso em nossa Magna Carta, sendo tratado como postulado constitucional implícito. Segundo a doutrina, tal princípio é constituído de três subprincípios ou elementos: adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito. A adequação (idoneidade ou pertinência) refere-se à necessidade da medida adotada ser adequada à consecução do fim objetivado, ou seja, deve-se analisar se a medida é apta, idônea, apropriada para atingir o resultado perseguido. A necessidade (ou exigibilidade) traz a idéia de que só será válida a restrição de direito se não for possível adotar outra medida menos gravosa que seja capaz de atingir o mesmo objetivo. Já a proporcionalidade em sentido estrito só é analisada depois da verificação dos dois elementos anteriores e, se caracteriza pela necessidade de averiguar se os resultados positivos obtidos superam as desvantagens decorrentes da restrição ao direito. Diz respeito a um sistema de valoração, no qual se opera um juízo de ponderação entre a restrição imposta e a medida adotada. Em termos de utilidade prática, a aplicação desse princípio está intimamente relacionada ao conflito de direitos fundamentais. Assim, na tarefa de escolher dois bens jurídicos relevantes, deve o magistrado ponderar qual assume posição mais importante dentro da realidade fática descrita Devido Processo Legal e Processo Penal Garantista Primeiramente cabe transcrever a conceituação de Garantismo de Ferrajoli 2 : 2 FERRAJOLI, Luigi. Direito e Razão. Teoria do Garantismo Penal. Tradução de Ana Paula Zomer e outros. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 271.

11 11 Garantismo, com efeito, significa precisamente a tutela daqueles valores ou direitos fundamentais, cuja satisfação, mesmo contra os interesses da maioria, constitui o objetivo justificante do Direito Penal, vale dizer, a imunidade dos cidadãos contra a arbitrariedade das proibições e das punições, a defesa dos fracos mediante regras do jogo igual para todos, a dignidade da pessoa do imputado, e, consequentemente, a garantia da sua liberdade, inclusive por meio do respeito à sua verdade. É precisamente a garantia desses direitos fundamentais que torna aceitável por todos, inclusive pela minoria formada pelos réus e pelos imputados, o Direito Penal e o próprio princípio majoritário. Tem-se com fundamentos básicos do modelo garantista de processo penal de Ferrajoli: a jurisdicionalidade (Nulla poena, nulla culpa sine judicio); inderrogabilidade do juízo; separação das atividades de julgar e acusar; presunção de inocência e contradição (nulla probatio sine defensione). Verifica-se que tal modelo garantista reforça o due process of law, servindo como proteção aos direitos fundamentais e à produção de um processo penal justo. Nessa perspectiva, apenas com um processo penal que garanta os direitos do imputado é possível diminuir a discricionariedade judicial, permitindo uma maior independência dos magistrados e controle da legalidade. O juiz, em verdade, deve atuar como garantidor dos direitos do acusado Do Contraditório e Da Ampla Defesa O princípio do contraditório e da ampla defesa são, pela maioria da doutrina, tratados como postulados indissociáveis, tendo em vista sua complementariedade: do contraditório é que surge o exercício da defesa e é a defesa que garante o contraditório.

12 12 De acordo com Didier Jr. 3, a ampla defesa é direito fundamental de ambas as partes, consistindo no conjunto de meios adequados para o exercício do adequado contraditório. Trata-se do aspecto substancial do contraditório Tais princípios estão intimamente ligados ao princípio do devido processo legal, vez que não é possível se verificar o due process of law sem a outorga da plenitude de defesa. A ampla defesa abrange tanto o direito à autodefesa quanto à defesa técnica por um advogado habilitado, bem com o direito a não ser prejudicado por obstáculos alheios à sua vontade ou pela dificuldade de acesso às provas de suas alegações. Em verdade, tal garantia apresenta-se de forma genérica, não sendo possível delimitar seu alcance aprioristicamente. 4 No que toca à autodefesa, tem-se que essa compreende o direito de audiência e o direito de presença, sendo o seu exercício passível de não ser concretizado, de acordo com a vontade do acusado, tendo em vista o direito ao silêncio. A defesa técnica, de forma diversa, tem seu exercício obrigatório, sob pena de nulidade. Nesse sentido, tem-se que o contraditório se apresenta na idéia de bilateralidade da audiência ou contraditoriedade real e indisponível, assegurando a presença das partes em todos os atos, bem como a possibilidade de se manifestar sobre eles 5. Cabe ainda ressaltar, que esses postulados estão presentes em vários dispositivos legais advindos de Tratados Internacionais 6, sendo inquestionáveis sua relevância para o desenvolvimento de um processo mais justo e igualitário. 3 DIDIER JR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil. 7. ed. Bahia: Editora Podivm, p GRECO, Leonardo. Garantias Fundamentais do Processo: o Processo Justo. Revista Jurídica, p BONATO, Gilson. Op. cit. p Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável (CADH, art. 8.1); Todo homem tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública (DUH, art. X) Todas as pessoas terão direito a que sua causa seja ouvida equitativa e publicamente (PIDCP, art. 14, 1)

13 Do Juiz Natural O princípio do juiz natural, também denominado juiz competente ou ainda juiz legal, teve origem no Direito anglo-saxão e ligava-se a idéia de vedação de tribunal de exceção. Nessa esteira, tal princípio estava conectado ao princípio da legalidade, exigindo que somente um órgão previamente constituído para o processo de crimes, também anteriormente definidos, seria competente para o respectivo julgamento 7. Por influência do Direito norte-americano, ao princípio do juiz natural acrescentou-se a exigência da regra de competência previamente estabelecida ao fato. No Direito pátrio, o discutido princípio foi previsto em seu duplo aspecto, reconhecendo como juiz natural o órgão do Poder Judiciário cuja competência, previamente estabelecida, derive de fontes constitucionais 8. O princípio do juiz natural visa, sobretudo, assegurar a imparcialidade no julgamento, atendendo aos ditames de segurança jurídica e servindo de mecanismo de legitimação da atuação do Poder Judiciário Da Identidade Física do Juiz O princípio da identidade física do juiz significa a vinculação da pessoa do juiz ao processo. Segundo Souza Neto 9, o princípio da identidade física do juiz consiste na vinculação deste, que inicia a instrução, ao processo e ao julgamento da causa. Toda pessoa acusada de um delito terá direito, em plena igualdade, a pelo menos às seguintes garantias: d) de estar presente no julgamento, ou de defender-se, pessoalmente ou por intermédio de defensor de sua escolha (PIDCP, art d); Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua inocência enquanto não se comprove legalmente sua culpa. Durante o processo, toda pessoa tem direito, em plena igualdade, às seguintes garantias: d)direito do acusado de defender-se pessoalmente ou de ser assistido por um defensor de sua escolha e de comunicar-se, livremente e em particular, com seu defensor (CADH, art. 8.2.d); 7 PACELLI, Eugênio de Oliveira. Curso de Processo Penal. 11ºed. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, p Idem. Ob. cit. p SOUZA NETO, José Laurindo. Op. cit. p. 99.

14 14 O princípio da identidade física do juiz era contemplado, no Direito brasileiro, apenas no campo do Direito Processual Civil 10. Na seara penal, tal princípio só foi introduzido com o advento da Lei nº /08, que alterou o art. 399, 2º do CPP 11, deixando expressa a vinculação do juiz instrutor à sentença. No que diz respeito à introdução de tal princípio no campo do processo penal, é imperioso analisar se sua aplicação é absoluta, já que não há, na redação do artigo 399, 2º do CPP, nenhuma das ressalvas expressas no CPC. Sobre o tema, o TRF2 12 entendeu que cabe a relativização do princípio da identidade física do juiz, quando o julgador que presidiu a instrução estiver impossibilitado de proferir a sentença. O relator do processo, Juiz Federal convocado Aluisio Gonçalves de Castro Mendes, admitiu 13 que o artigo 132 do CPC deve ser aplicado de forma análoga ao processo penal, como bem apregoa o artigo 3º do CPP 14. Nesse sentido, afirma ele que: A necessidade de relativização fica até mais evidente no Processo Penal, diante de processos com réus presos, que não poderiam, obviamente, aguardar o retorno de licença ou férias, para que fossem sentenciados. Do mesmo modo, se o juiz foi promovido, removido ou designado para outra vara, não deve perdurar a vinculação, diante do afastamento do juiz da vara competente para o processamento e julgamento. O princípio, todavia, é de grande importância para se impedir a prática alternadamente entre juízes na 10 Art O juiz, titular ou substituto, que concluir a audiência julgará a lide, salvo se estiver convocado, licenciado, afastado por qualquer motivo, promovido ou aposentado, casos em que passará os autos ao seu sucessor 11 Art Recebida a denúncia ou queixa, o juiz designará dia e hora para a audiência, ordenando a intimação do acusado, de seu defensor, do Ministério Público e, se for o caso, do querelante e do assistente. 2 º O juiz que presidiu a instrução deverá proferir a sentença 12 nº ; TRF 2º Região. 13 Nesse mesmo sentido se posiciona Luiz Flávio Gomes. 14 Art. 3º A lei processual penal admitirá interpretação extensiva e aplicação analógica, bem como o suplemento dos princípios gerais de direito.

15 15 mesma vara, especialmente quando houve colheita de prova, como depoimentos e interrogatório. Cumpre, contudo ressalvar que o princípio em questão não proíbe a possibilidade de se expedir carta precatória, a fim de proceder ao interrogatório do réu. Nesse sentido afirma Luiz Flávio Gomes 15 : Lembremos que nosso país possui uma dimensão continental, traduzindo verdadeiro absurdo imaginar-se que um acusado, por exemplo, que resida em Manaus, tenha que se deslocar até a cidade de Curitiba, onde tramita o processo, para ser interrogado (sobretudo quando sua presença é facultativa, consequência lógica do direito ao silêncio constitucional do qual é titular) Da Imediação O princípio da imediação caracteriza-se pela relação de proximidade entre o julgador e os participantes do processo, permitindo uma melhor avaliação e controle das provas. Segundo destaca Juliana Fioreze 16 : O princípio da imediação visa, em última análise, aproximar o magistrado da prova oral, para que no momento da prolação da sentença tenha condições de chegar o mais próximo da verdade, propiciando uma decisão justa, devendo ser esta o ideal do Direito. Pelo exposto, verifica-se uma íntima relação entre o princípio da oralidade, da imediação e da identidade física do juiz, tendo todos a finalidade de permitir um maior contato do julgador com a caso, na busca da solução mais justa e verdadeira para causa, ajuda no convencimento do juiz e na sua melhor percepção acerca da 15 GOMES, Luiz Flávio; CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Comentários às reformas do Código de Processo Penal e da Lei de Trânsito. São Paulo: RT, p FIOREZA, Juliana. Videoconferência no Processo Penal Brasileiro. Curitiba: Juruá Editora, p. 225.

16 16 personalidade das partes envolvidas, contribuindo inclusive para o momento de determinação da pena Da Publicidade dos Atos Processuais O respeito à publicidade dos atos processuais é uma dos pilares de um Estado Democrático de Direito. Assim, os atos de todos os poderes, isto é, Legislativo, Executivo e Judiciário devem pautar-se na publicidade, a fim de legitimar a atuação dos órgãos perante a sociedade. O texto constitucional prevê, por um lado que os julgamentos serão públicos e, por outro, que poderá haver restrição à publicidade quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem. Nessa mesma linha, o Código de Processo Penal 17 garante a publicidade dos atos, trazendo, todavia, limites a sua aplicação. A publicidade dos atos processuais tem como escopo maior afastar qualquer desconfiança que possa surgir acerca da imparcialidade e independência com que se exerce a justiça penal e são tomadas as decisões, sendo interessante não só a comunidade, mas ao próprio acusado. No que toca à sua limitação, cabe ao juiz, diante do caso concreto, ponderar os interesses ou valores envolvidos, de forma a aplicar o mencionado princípio da maneira mais coerente e justa Da Dignidade Humana O princípio da dignidade da pessoa humana caracteriza-se como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, constituindo-se como alicerce de todo o arcabouço jurídico. 17 Art. 792 As audiências, sessões e os atos processuais serão, em regra, públicos e se realizarão nas sedes dos juízos e tribunais, com assistência dos escrivães, do secretário, do oficial de justiça que servir de porteiro, em dia e hora certos, ou previamente designados. 1o Se da publicidade da audiência, da sessão ou do ato processual, puder resultar escândalo, inconveniente grave ou perigo de perturbação da ordem, o juiz, ou o tribunal, câmara, ou turma, poderá, de ofício ou a requerimento da parte ou do Ministério Público, determinar que o ato seja realizado a portas fechadas, limitando o número de pessoas que possam estar presentes. 2o As audiências, as sessões e os atos processuais, em caso de necessidade, poderão realizar-se na residência do juiz, ou em outra casa por ele especialmente designada.

17 17 Como bem leciona Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino 18 : A dignidade da pessoa humana como fundamento da República Federativa do Brasil consagra, desde logo, nosso Estado como uma organização centrada no ser humano, e não em qualquer outro referencial. A razão de ser do Estado brasileiro não se funda na propriedade, em classes, em corporações, em organizações religiosas, tampouco no próprio Estado (como ocorre nos regimes totalitários), mas sim na pessoa humana. Nesta esteira tem-se que a dignidade da pessoa humana traz ao indivíduo o reconhecimento de duas posições jurídicas: a) direito de proteção individual, frente ao Estado e frente aos demais indivíduos; b) dever fundamental de tratamento igualitário dos próprios semelhantes. 19 Apesar de presente em todas as áreas jurídicas, é no campo do processo penal que tal princípio encontra maior relevância, tendo em vista a importância do bem jurídico por ele tutelado Da Razoável Duração do Processso O processo, por ser essencialmente dinâmico e dialético, precisa de tempo para que seja transcorrido todo o iter necessário até o provimento final. Sobre o tema afirma Tucci 20 que trata-se de um instituto essencialmente dinâmico, não exaurindo o seu ciclo vital em um único momento. Ao contrário, destina-se a desenvolver no tempo, possuindo duração própria Segundo José Antonio Tomé García 21 as dilações indevidas são: 18 PAULO, Vicente; ALEXANDRINO, Marcelo. Op. cit. p Idem, Op. cit., p TUCCi, José Rogério Cruz e. Garantia da prestação jurisdicional sem dilações indevidas como corolário do devido processo legal, in: TUCCI, Rogério Lauria e TUCCI, José Rogério Cruz e. Devido processo legal e tutela jurisdicional. São Paulo: RT, 1993, p GARCÍA, J. A. T. Protección procesal de los Derechos Humanos Ante los Tribunales Ordinarios, Madri: Montecorvo, 1987, p. 119.

18 18 (...) os atrasos ou delongas que se produzem no processo por inobservância dos prazos estabelecidos, por injustificados prolongamentos das etapas mortas que separam a realização de um ato processual de outro, sem subordinação a um lapso temporal previamente fixado, e, sempre, sem que aludidas dilações dependem da vontade das partes ou de seus mandatários. Nesse cenário observa-se que o tema em questão versa sobre a necessidade de se encontrar um equilíbrio entre: processos demasiadamente expedito (aceleração antigarantista), em que se atropela os direitos e garantias fundamentais e, aquele indevidamente prolongado, que agrava todo conjunto de penas processuais ínsitas ao processo legal. Assim, o importante é buscar uma celeridade garantista no tempo do processo, compatibilizando os postulados da segurança jurídica com a da eficiência. Como bem salienta Aury Lopes Jr. e Gustavo Henrique Badaró 22 : (...)o processo penal deve ser agilizado. Insistimos na necessidade de acelerar o tempo do processo, mas desde a perspectiva de quem o sofre, enquanto forma de abreviar o tempo de duração da penaprocesso. Não se trata de aceleração utilitarista como tem sido feito, através da mera supressão de atos e atropelo de garantias processuais, ou mesmo a completa supressão de uma jurisdição de qualidade, senão de acelerar através da diminuição da demora judicial com caráter punitivo. É diminuição de tempo burocrático, através da inserção de tecnologia e otimização de atos cartorários e mesmo judiciais. 3. DO INTERROGATÓRIO Do Conceito e Da Natureza Jurídica 22 Idem. Op. cit. p.

19 19 Não há consenso quanto ao conceito e a natureza jurídica do interrogatório, sendo este abordado de inúmeras maneiras pela doutrina. Segundo Guilherme de Souza Nucci 23 : Denomina-se interrogatório judicial o ato processual que confere oportunidade ao acusado de se dirigir diretamente ao juiz, apresentando a sua versão defensiva aos fatos que lhe foram imputados pela acusação, podendo inclusive indicar meios de prova, bem como confessar, se entender cabível, ou mesmo permanecer em silêncio, fornecendo apenas dados de qualificação. No que toca à natureza jurídica do instituto em questão, Nucci 24 defende que o interrogatório seria, primordialmente, um meio de defesa, sendo, em segundo plano, um meio de prova, afirmando que (...) o interrogatório é, fundamentalmente, um meio de defesa, pois a Constituição assegura ao réu o direito ao silêncio. Logo, a primeira alternativa que se avizinha ao acusado é calar-se, daí não advindo conseqüência alguma. Defende-se apenas. Entretanto, caso opte por falar, abrindo mão do direito ao silêncio, seja lá o que disser, constitui meio de prova inequívoco, pois o magistrado poderá levar em consideração suas declarações para condená-lo ou absolvê-lo. Já Eugênio Pacelli de Oliveira 25 defende a natureza híbrida do interrogatório, dando ênfase, contudo, a sua noção de meio de defesa. Assim salienta: Que continue a ser uma espécie de prova, não há maiores problemas, até porque as demais espécies defensivas são também consideradas provas. Mas o fundamental, em uma concepção de processo via da qual o acusado seja um sujeito de direitos, e no contexto de um modelo acusatório, tal como instaurado pelo sistema constitucional das garantias individuais, o interrogatório do acusado 23 NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Processo Penal e Execução Penal. 4º ed.são Paulo: Editora Revista dos Tribunais p Idem. Op. cit. p PACELLI, Eugênio de Oliveira. Op. cit. p. 334.

20 20 encontra-se inserido fundamentalmente no princípio da ampla defesa. Trata-se, efetivamente, de mais uma oportunidade de defesa que se abre ao acusado, de modo a permitir que ele apresente a sua versão dos fatos, sem se ver, porém, constrangido ou obrigado a fazê-lo. Por sua vez, Fernando da Costa Tourinho Filho 26 entende o interrogatório como um meio exclusivamente de defesa e argumenta: (...) se o réu tem o direito ao silêncio, o interrogatório não pode ser considerado meio de prova; do contrário, seria obrigado a responder. Fosse o interrogatório meio de prova, a Lei de Imprensa o exigiria também. Entretanto ali se diz que o réu será interrogado se o requerer. Se se tratando de meio de prova, a Lei Eleitoral não o teria dispensado, como realmente o dispensou durante mais de 30 anos. Seguindo uma linha semelhante, Ada Pellegrini Grinover 27 afirmar ser o interrogatório meio de defesa, que -se e conforme o acusado falar- pode eventualmente servir como fonte de prova. Ressalva a autora que, do direito ao silêncio, consagrado em nível constitucional, decorre logicamente a concepção do interrogatório como meio de defesa. Se o acusado pode calar-se, se não mais é possível forçá-lo a falar, nem mesmo por intermédio de pressões indiretas, é evidente que o interrogatório não pode mais ser considerado meio de prova, não é mais pré-ordenado à colheita de prova, não visa ad veritataem quaerendam. Serve, sim, como meio de autodefesa. Apesar da falta de consenso doutrinário, verifica-se que a questão da natureza jurídica do interrogatório se coaduna com questões de política processual, 26 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. 31º ed. 3º volume. São Paulo: Editora Saraiva p GRINOVER, O interrogatório como meio de defesa (Lei /2003), p. 186

21 21 uma vez que o instituto pode apresentar-se tanto como meio de defesa, como meio de prova. O Código de Processo Penal, de forma topográfica, inseriu o interrogatório como meio de prova, já a maioria da doutrina, o entende como meio de defesa. Assim, sobretudo com as inovações trazidas pela Lei /03, defende-se o caráter híbrido do instituto, servindo tanto para que o réu exercite sua autodefesa, no maior grau possível, como permite que o juiz construa sua convicção a respeito do caso. Nessa perspectiva, Juliana Fioreza 28 salienta: Na atualidade, tem-se defendido o caráter híbrido do interrogatório, servindo tanto como meio de defesa como de prova, pois, enquanto o acusado exerce sua autodefesa, narrando sua visão do ocorrido e indicando as provas que pretende produzir, o magistrado poderá buscar elementos para a apuração da verdade Das Características Tem-se por características fundamentais do interrogatório: pessoalidade judicialidade, oralidade e publicidade. A pessoalidade é caracterizada pelo fato de ser o interrogatório um ato personalíssimo do acusado, ou seja, não podendo ocorrer representação, substituição ou sucessão. A judicialidade demonstra a necessidade do interrogatório ser presidido por um juiz, cabendo a ele, de forma exclusiva, essa função. Nesse sentido, a oitiva do indiciado na fase do inquérito não se caracteriza como um interrogatório no sentido formal do termo. 28 FIOREZA, Juliana. Op. cit. p. 111.

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