COMPETÊNCIA EM EDUCAÇÃO PÚBLICA PROFISSIONAL Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO A P O S T I L A

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1 COMPETÊNCIA EM EDUCAÇÃO PÚBLICA PROFISSIONAL Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO A P O S T I L A ANÁLISE E PRODUÇÃO DE TEXTOS TÉCNICOS REVISÃO GRAMATICAL DISCIPLINAS Linguagem, Trabalho e Tecnologia Cursos Técnicos: Química, Mecatrônica, Eletrônica, Eletroeletrônica, Administração, Informática, Informática para Internet, Contabilidade, Administração, Automação Industrial e Logística Representação e Comunicação em Língua Portuguesa Representação e Comunicação Organizacional Curso Técnico: Secretariado Autora: Professora Lucivânia A. S. Perico SÃO BERNARDO DO CAMPO AGOSTO

2 2 SUMÁRIO 1. A IMPORTÂNCIA DA COMUNICAÇÃO VOCABULÁRIO E ADEQUAÇÃO LINGUÍSTICA NOÇÕES DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA LÍNGUA CULTA X LÍNGUA COLOQUIAL... 7 EXERCÍCIOS CONTEXTO: CONSIDERAÇÕES SOBRE A NOÇÃO DE TEXTO COMPREENDENDO O CONTEXTO QUESTIONÁRIO INTERTEXTUALIDADE: AS RELAÇÕES ENTRE TEXTOS EXERCÍCIOS O TEXTO E SUAS RELAÇÕES COM A HISTÓRIA OS LIMITES DA RETÓRICA DE MERCADO QUESTIONÁRIO RESUMO ATIVIDADE RESENHA DIFERENCIANDO: RESUMO X RESENHA REDAÇÃO FILME TEMPOS MODERNOS REDAÇÃO TÉCNICA E COMERCIAL CURRÍCULO CARTA COMERCIAL MENSAGEM ELETRÔNICA ( ) RELATÓRIO ATA REQUERIMENTO DECLARAÇÃO OFÍCIO MEMORANDO CIRCULAR PROTOCOLO RECIBO ATESTADO AVISO EXPRESSÕES ESTRANGEIRAS MAIS UTILIZADAS CARTA PESSOAL MORFOLOGIA REVISÃO EXERCÍCIOS SIGNIFICAÇÃO DAS PALAVRAS SINTAXE REVISÃO EXERCÍCIOS REGÊNCIA NOMINAL E VERBAL REVISÃO CRASE REVISÃO EXERCÍCIOS REGÊNCIA E CRASE CONCORDÂNCIA NOMINAL REVISÃO EXERCÍCIOS CONCORDÂNCIA VERBAL REVISÃO EXERCÍCIOS ACENTUAÇÃO REVISÃO EXERCÍCIOS COESÃO, COERÊNCIA E CLAREZA TEXTUAL PONTUAÇÃO REVISÃO EXERCÍCIOS BIBLIOGRAFIA LTR/REP/RCP - Apostila de Redação Técnica

3 3 1 A IMPORTÂNCIA DA COMUNICAÇÃO Nós, seres humanos, temos um nível de sofisticação que nos diferencia de outros seres vivos, que é a capacidade de comunicação. A comunicação é a transmissão e a compreensão de informações entre as pessoas. Comunicar equivale a tornar uma ideia comum entre o emissor e o receptor da mensagem. É chamada de emissor a pessoa que emite a informação e o receptor é a pessoa que a recebe. Para que o processo de comunicação efetiva aconteça, são necessárias oito etapas. Tendo como ponto de partida o emissor, consideram-se três etapas: elaborar uma ideia, codificar e transmitir a mensagem. As cinco etapas seguintes, que envolvem o receptor, são: receber, decodificar, aceitar, usar a informação recebida e dar uma resposta. Durante esse processo podem ocorrer barreiras, que são ruídos ou interferências que podem causar distorção na comunicação. Essas barreiras podem ser: físicas, semânticas ou de ordem pessoal. As barreiras físicas são as que decorrem do ambiente físico, como barulho e distância. As barreiras semânticas são aquelas que limitam a compreensão das palavras e ações, como o uso de uma linguagem que não seja comum ao emissor e ao receptor. As barreiras de ordem pessoal decorrem da falta de sintonia emocional entre as pessoas que se comunicam. Vejamos o caso abaixo: Numa cidadezinha pequena do interior... o forró tava comendo solto! A moça preparou-se toda para ir ao baile, que era o único evento da cidade depois de muito tempo. Esperava encontrar o seu príncipe encantado no tal baile. Lá chegando, um rapaz franzino, meio desengonçado, que transpirava muito, aproximou-se dela e convidou-a para dançar. Ela não achou o rapaz muito interessante, porém, para não arrumar confusão, pois na cidade isso era considerado indelicado, acabou aceitando. Mas o rapaz realmente suava tanto, mas tanto, que ela, já não suportando mais, disse: - Você sua, hein? Diante disso, o rapaz sorriu, apertou-a com força e respondeu: - Também vô sê seu, minha princesa! Refletindo sobre o texto, que ruído interferiu na comunicação? É importante considerarmos que há dois de tipos de comunicação: verbal e não-verbal. A comunicação verbal falada realiza-se através da fala, como no caso de palestras. A comunicação verbal escrita ocorre por meio da escrita, como ocorre nas mensagens trocadas por e- mails. A comunicação não-verbal ocorre por intermédio de ações como gestos, expressões faciais, posturas e movimentos corporais. Saber comunicar-se efetivamente, iniciar e encerrar uma conversação, fazer e responder perguntas, gratificar e elogiar, dar e receber feedback são algumas das principais habilidades de comunicação, e elas são muito valorizadas no mundo do trabalho. As habilidades de fazer e responder perguntas envolvem entonação, volume de voz, expressão facial e gesticulação. As habilidades de gratificar e elogiar referem-se a recompensar emocionalmente alguém para que o outro se sinta valorizado, reconhecido e respeitado, como ocorre quando o elogio é percebido como verdadeiro e adequado. As habilidades de dar e receber feedback fazem parte das principais habilidades de comunicação. O feedback pode ser compreendido como crítica construtiva ou como crítica destrutiva. Como crítica construtiva traz consequências positivas e, como crítica destrutiva faz o contrário, causando dor, tristeza e sofrimento a quem o recebe. Sabedores de que é possível promover o desenvolvimento pessoal e profissional através da nossa forma de comunicação, torna-se fundamental planejá-la adequadamente, de forma ética e responsável. Somos seres sociais, devemos cuidar de nossas relações interpessoais em todos os momentos, a fim de criar, manter e melhorar esses relacionamentos. Certamente, podemos entender a comunicação como parte disso. Conceitualmente, o feedback é uma forma de comunicação pela qual o receptor da mensagem original transmite ao emissor a maneira como ela foi recebida. Em consequência, a pessoa saberá o efeito de seu comportamento sobre os outros. Oferecer feedback pode ser um fator que alavanca a modificação interna para o desenvolvimento pessoal, desde que o emissor (a pessoa que faz a crítica) Autora: Lucivânia A. S. Perico

4 saiba realmente fazer a crítica e o receptor (a pessoa que a recebe) esteja aberto a recebê-la como algo construtivo. Para fazer a crítica construtiva recomenda-se que o emissor descubra a razão de fazê-la, comunique-se diretamente com a pessoa, seja específico, descreva os fatos, assuma seu ponto de vista, observe a contingência, faça referência aos efeitos, crie um clima favorável, vá diretamente ao assunto, escute compreensivamente, foque o objetivo a ser alcançado, resuma ao final. Para receber a crítica de forma construtiva, recomenda-se que o emissor: escute compreensivamente, aceite-a como crítica construtiva, faça perguntas ao emissor, agradeça-lhe e, sempre que possível, solicite a crítica. A ética também deve pautar o ato de fazer e receber críticas, sob pena de, com críticas mal elaboradas e baseadas em objetivos escusos, gerar prejuízos não só para as relações interpessoais, mas sofrimento físico e mental a quem as recebe. Assim, observamos que o domínio da comunicação eficaz é fundamental para o sucesso pessoal e profissional, para tanto é importante nos comunicarmos com clareza e de maneira apropriada ao ambiente VOCABULÁRIO E ADEQUAÇÃO LINGUÍSTICA O texto a seguir circulou pela Internet como uma piada. Utilize-o como base para responder as questões dos exercícios 1 e 2. Correção ortográfica O gerente de vendas recebeu o seguinte fax de um dos seus novos vendedores: Seo Gomis, O criente de belzonte pidiu mais cuatrucenta pessa. Faz favor toma as providenssa. Abrasso, Nirso Aproximadamente uma hora depois recebeu outro fax: Seo Gomis, Os relatório di venda vai xega atrazado proque to fexando umas venda. Temo que manda treiz miu pessa. Amanhã to xegando. Abrasso, Nirso No dia seguinte, outro fax: Seo Gomis, Num xeguei pucausa de que vendi maiz deis miu em Beraba.To indo pra Brazilha. No próximo fax: Seo Gomis, Brazilha fexo 20 miu. Vo pra Frolinopolis e de lá pra Sum Paulo no vinhão das cete hora. E assim foi o mês inteiro. O gerente, muito preocupado com a imagem da empresa, levou ao presidente as mensagens que recebeu do vendedor. O presidente, um homem muito preocupado com o desenvolvimento da empresa e com a cultura dos funcionários, escutou atentamente o gerente e disse: - Deixa comigo que eu tomarei as providências necessárias. E tomou. Redigiu de próprio punho um aviso que afixou no mural da empresa, juntamente como os faxes do vendedor: A partir de oje nois tudo vamo fazê feito o Nirso. Si pricupá menos em iscrevê serto mod a vendê maiz. Acinado, O Prezidenti (Português Língua e Literatura pág. 145 e 146) 1. Geralmente, as piadas manifestam uma postura preconceituosa e nos permitem refletir sobre como são avaliadas as pessoas a partir do uso que fazem da língua, seja na sua forma oral ou escrita. a) Embora os erros ortográficos chamem imediatamente a atenção de quem lê o texto, o problema percebido pelo gerente nos textos do Nirso pode ser entendido de outra maneira. Explique. b) Por que a piada reflete uma visão linguística preconceituosa? 2. O comportamento do gerente deixa implícita sua opinião sobre diferentes variantes da Língua Portuguesa. a) Que opinião é essa? b) De que maneira a atitude tomada pelo presidente da empresa demonstra que o uso de uma variante não pode ser associado ao modo de avaliar o falante que a utiliza? LTR/REP/RCP - Apostila de Redação Técnica

5 5 Leia o texto e responda as questões que o seguem: Quem não se comunica... Havia no Rio de Janeiro nos anos 1920 um gramático famoso, professor do Pedro II, inimigo dos galicismos, dos pronomes malcolocados e da linguagem descuidada. Falava empolado e exigia correção de linguagem até em casa com a família. Uma vez, esse gramático foi passar férias em um hotelfazenda de Teresópolis. Lá, um dia, decidiu dar um passeio a cavalo pelos terrenos da fazenda. Por segurança, ia acompanhado de um cavalariço montado em um burrinho. Pelas tantas, o cavalo do gramático disparou. O cavalariço foi atrás em seu burrinho, gritando: Doutor, puxe a rédea! Doutor, puxe a rédea! Nada aconteceu, até que o cavalo saltou um valado e jogou o gramático numa moita de urtiga. Finalmente o cavalariço o alcançou, levantou-o e ajudou-o a se livrar de uns espinhos que se grudaram nele. Doutor, por que o senhor não puxou a rédea? Eu vinha gritando atrás, doutor, puxe a rédea, doutor, puxe a rédea! O gramático, já senhor de si, perguntou: E o que é puxar a rédea? É fazer isso, ó, e fez o gesto explicativo. Ah! Dissesses sofreia o corcel, eu teria entendido. (VEIGA, J. J. O Almanach de Piumhy. RJ: Record, 1998.) (Português Língua e Literatura pág. 154) 3. No texto transcrito, foram utilizadas duas variedades linguísticas. Quais são elas? Justifique sua resposta com elementos do texto. 4. Falar e escrever bem significa, além de conhecer o padrão formal da Língua Portuguesa, saber adequar o uso da linguagem ao contexto discursivo. O texto transcrito mostra uma situação em que a linguagem usada é inadequada ao contexto. Em que consiste essa inadequação? Artigo: A carreira nas alturas Revista Língua Portuguesa Ano 5 nº 63 Janeiro de 2011 QUESTIONÁRIO 1. Segundo o texto, por que há necessidade do domínio da norma culta da Língua Portuguesa? Justifique. 2. Quais as principais mudanças no mercado de trabalho que exigem um novo perfil profissional? 3. A Língua é um instrumento de prestígio e marginalização. Explique. 4. Na sua opinião, qual é o principal fator que implica na falta de domínio da norma culta da Língua Portuguesa? 5. De que maneira a leitura deste artigo pode auxiliar na sua formação profissional? 5. Você considera que a postura rígida do gramático em relação à correção da linguagem a ser utilizada pelos falantes é adequada? Justifique sua resposta. Autora: Lucivânia A. S. Perico

6 6 2 NOÇÕES DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA Todas as pessoas que falam em determinada língua conhecem as estruturas gerais, básicas, de funcionamento dessa língua. Embora sejam mais ou menos constantes dentro do idioma, essas estruturas básicas podem sofrer variações devido à influência de inúmeros fatores. Tais variações, que às vezes são pouco perceptíveis e outras vezes bastante evidentes, recebem o nome genérico de variedades ou variações linguísticas. Entre as causas que mais claramente determinam o surgimento das variações linguísticas destacamse: o grupo social a que o falante pertence (variação sócio-cultural), o lugar em que ele nasceu ou vive (variação geográfica) e a época (variação histórica). Variação Sócio-Cultural Esse tipo de variação pode ser percebido com certa facilidade: por exemplo, alguém diz: Ta na cara que eles não teve peito de encará os ladrão. (frase 1) Que tipo de pessoa comumente fala dessa maneira? Vamos caracterizá-lo, por exemplo, pela sua profissão: um advogado? Um trabalhador braçal da construção civil? Um médico? Um garimpeiro? Um repórter de tv? E quem usaria a frase abaixo? Obviamente faltou-lhes coragem para enfrentar os ladrões. (frase 2) Sem dúvida, associamos à frase 1 os falantes pertencentes a grupos sociais economicamente mais pobres. Pessoas que, muitas vezes, não frequentaram nem a escola primária, ou, quando muito, fizeram-no em condições não adequadas. Por outro lado, a frase 2 é mais comum aos falantes que tiveram possibilidades sócio-econômicas melhores e puderam, por isso, ter um contato mais duradouro com a escola, com a leitura, com pessoas de um nível cultural mais elevado e, dessa forma, aperfeiçoaram o seu modo de utilização da língua. Convém ficar claro, no entanto, que a diferenciação feita acima está bastante simplificada, uma vez que há diversos outros fatores que interferem na maneira como o falante escolhe as palavras e constrói as frases. Por exemplo, a situação de uso da língua: um advogado, num tribunal de júri, jamais usaria a expressão ta na cara, mas isso não significa que ele não possa usá-la numa situação informal (conversando com alguns amigos, por exemplo). Variação geográfica A variação geográfica é, no Brasil, bastante grande e pode ser facilmente notada. Ela se caracteriza pelo acento linguístico, que é o conjunto das qualidades fisiológicas do som (altura, timbre, intensidade), por isso é uma variante cujas marcas se notam principalmente na pronúncia. Ao conjunto das características da pronúncia de uma determinada região dá-se o nome de sotaque: sotaque mineiro, sotaque nordestino, sotaque gaúcho etc. A variação geográfica, além de ocorrer na pronúncia, pode também ser percebida no vocabulário, em certas estruturas de frases e nos sentidos diferentes que algumas palavras podem assumir em diferentes regiões do país. Leia, como exemplo, o trecho abaixo, de Guimarães Rosa, no conto São Marcos, no qual recria a fala de um típico sertanejo do centro-norte de Minas: - Mas você tem medo dele... [de um feiticeiro chamado Mangolô] - Há-de-o!... Agora, abusar e arrastar mala, não faço. Não faço, porque não paga a pena... De primeiro, quando eu era moço, isso sim!... Já fui gente! Gente. Para ganhar aposta, já fui, de noite, fora d hora, em cemitério... (...) Quando a gente é novo, gosta de fazer bonito, gosta de se comparecer. Hoje, não: estou percurando é sossego... Variação histórica As línguas não são estáticas, fixas, imutáveis. Elas se alteram com o passar do tempo e com o uso. Muda a forma de falar, mudam as palavras, a grafia e o sentido delas. Essas alterações recebem o nome de variação histórica. O trecho abaixo, de Carlos Drummond de Andrade, exemplifica a mudança da língua ao longo do tempo: LTR/REP/RCP - Apostila de Redação Técnica

7 7 Antigamente Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. (...) Os mais idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n água. 2.1 LÍNGUA CULTA X LÍNGUA COLOQUIAL Convencionalmente, costumamos como correta a língua utilizada pelo grupo de maior prestígio social. Essa é a chamada língua culta, falada e escrita, em situações formais, pelas pessoas de maior instrução. A língua culta é nivelada, padronizada, principalmente pela escola e obedece à gramática da língua padrão. A língua coloquial, por outro lado, é uma variante espontânea, do cotidiano, sem muita preocupação com as normas. O falante, ao utilizá-la, comete deslizes gramaticais com frequência considerável. Outra característica da língua coloquial é o uso constante de expressões populares, frases feitas, gírias etc. No quadro a seguir, estão resumidas as diferenças que mais facilmente podem ser observadas entre língua culta e língua coloquial: USO COLOQUIAL / POPULAR Pronúncia mais descuidada de certas palavras e expressões: nóis, num vô, num qué, cê ta bem? Não utilização das marcas de concordância. Ex.: Os menino vai bem. Uso constante de a gente no lugar de nós. Emprego de expressões do tipo: né, então, aí, pois é. Mistura de pessoas gramaticais. Ex.: Você sabe que te enganam. Uso livre da flexão dos verbos. Ex.: Se ele fazer, se ele por... Eu truxe o seu presente. Uso de gírias. USO CULTO Maior cuidado com a pronúncia: nós, não vou, não quer, você está bem? Utilização dessas marcas. Ex.: Os meninos vão bem. Uso regular da forma nós. Raro uso dessas expressões. Uniformidade no uso das pessoas gramaticais. Ex.: Você sabe que o enganam. Tu sabes que te enganam. Utilização da flexão verbal conforme as normas gramaticais. Ex.: Se ele fizer, se ele puser... Eu trouxe o seu presente. Não utilização de gírias. EXERCÍCIOS 1.Leia o texto abaixo: Cedo ou tarde, uma dúvida cruel pinta na sua cabeça: Que profissão escolher? Ou ainda: Em que faculdade entrar? E é justamente nessas horas que aparece uma porção de gente pra dar os palpites mais infelizes. (...) É por isso que a Editora Abril está lançando o Guia do Estudante. Porque o que ele mais tem é exatamente o que você mais precisa saber: tudo sobre todas as profissões universitárias e técnicas, o mercado de trabalho, os cursos e o nível de todas as faculdades brasileiras, onde e como conseguir bolsas de estudos e muitas dicas de profissionais bem-sucedidos. Uma verdadeira luz pra você acertar na escolha da profissão que mais faz sua cabeça. O melhor de tudo é que a decisão será sua e de mais ninguém. Com os pés no chão. Sentindo firmeza. Pode contar com o Guia do Estudante pra encarar essa parada. Ele vai dar a maior força pra você. (Veja, nº 976) (Aprender e praticar gramática pág. 47) Autora: Lucivânia A. S. Perico

8 8 a) A que grupo social faz parte o consumidor que o anúncio pretende atingir? b) Transcreva alguns trechos do texto que confirmem sua resposta à questão anterior. c) Transcreva do texto um trecho onde se utiliza uma linguagem mais formal. 2.Suponha que você seja um criador de textos de campanhas publicitárias e que tenha sido contratado por uma indústria de calçados para produzir os textos de propaganda de uma nova linha de sapatos. Levando em conta as características próprias da linguagem de cada grupo social, escreva um pequeno texto dirigido a cada um dos seguintes tipos de público consumidor do produto: a) jovens adolescentes urbanos b) homens de elevado padrão sócioeconômico c) crianças de 5 a 8 anos de idade d) mulheres idosas 3.(Univ.Metodista-SP) Leia o trecho abaixo: Os nossos salário, cum relação ao que nóis fazemo e o lucro que os outros tem, é insignificante. Por que acontece isso? Eu tenho que trabaiá trezentos e sessenta e cinco dias por ano. O outro num trabaia nem... nem cem dias, ganha muito mais. Por que eu sô a máquina que dô descanso pra ele. (Luiz Flávio, Os peões do Grande ABC) Transponha a linguagem coloquial para o padrão escrito da linguagem formal. 4.(Unicamp-SP) O jornal Folha de São Paulo introduziu com o seguinte comentário uma entrevista com o professor Paulo Freire: A gente cheguemos não será uma construção errada na gestão do Partido dos Trabalhadores em São Paulo. Os trechos da entrevista nos quais a Folha de São Paulo se baseou para fazer tal comentário foram os seguintes: A criança terá uma escola na qual a sua linguagem seja respeitada (...) Uma escola em que a criança aprenda a sintaxe dominante, mas sem desprezo pela sua (...) Esses oito milhões de meninos vêm da periferia do Brasil (...) Precisamos respeitar a (sua) sintaxe mostrando que sua linguagem é bonita e gostosa, às vezes é mais bonita que a minha. E, mostrando tudo isso, dizer a ele: Mas para a tua própria vida tu precisas dizer agente chegou em vez de a gente chegamos. Isso é diferente, a abordagem é diferente. É assim que queremos trabalhar, com abertura, mas dizendo a verdade. Responda: a) Qual a posição defendida pelo professor Paulo Freire com relação à correção dos erros gramaticais na escola? b) O comentário do jornal faz justiça ao pensamento do educador? Justifique sua resposta. 5.Provocou polêmica o fato de um livro recomendado pelo Ministério da Educação endossar um erro de português. Na página 15 de Por uma vida melhor, o texto afirma: "Você pode estar se perguntando: 'Mas eu posso falar os livro?'. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico". Muita gente viu aí um erro do livro e do próprio Ministério da Educação. Há, porém, quem pense e diga o contrário, como o próprio MEC e a autora da obra, Heloísa Ramos. Do ponto de vista linguístico, de fato, não há sentido em dizer que alguém fala errado apenas porque não obedece à chamada norma culta. Se alguém diz "nós pesca os peixe", será compreendido por seu interlocutor. Para a linguística, o resultado é o que importa. Ao advertir seus leitores-estudantes do risco de "preconceito linguístico", a autora está apontando para o fato de que esse tipo de uso da língua, desconsiderando a norma culta, é mais comum entre pessoas com menos instrução e, portanto, em geral, em posição inferior na escala social. A autora e o MEC defendem o livro com o argumento de que reconhecem as variedades da língua portuguesa e a linguagem dos diversos grupos sociais. (...) (Fábio Santos, Jornal Destak. Disponível em: consultado em 20/07/2011) Com base nos nossos estudos sobre variação linguística, produza um artigo de opinião, assumindo um posicionamento sobre a polêmica apontada no artigo acima. Imagine que seu artigo será publicado no editorial de um jornal de grande circulação. Seu texto deve ter, no mínimo, 15 linhas. Não esqueça do título! LTR/REP/RCP - Apostila de Redação Técnica

9 9 3 CONTEXTO: CONSIDERAÇÕES SOBRE A NOÇÃO DE TEXTO Sem dúvida alguma, a palavra texto é familiar a qualquer pessoa ligada à prática escolar. Ela aparece com alta frequência no linguajar cotidiano tanto no interior da escola quanto fora de seus limites. Não são estranhas a ninguém expressões como as que seguem: "redija um texto", "texto bem elaborado", "o texto constitucional não está suficientemente claro", "os atores da peça são bons mas o texto é ruim", "o redator produziu um bom texto", etc. Por causa exatamente dessa alta frequência de uso, todo estudante tem algumas noções sobre o que significa texto. Dentre essas noções, algumas ganham importância especial para redação, que se propõe ensinar a ler e a escrever textos. Nesta lição introdutória, vamos fazer duas considerações fundamentais sobre a natureza do texto: Primeira consideração: o texto não é um aglomerado de frases. A revista Veja de 1º de junho de 1988, em matéria publicada nas páginas 90 e 91, traz uma reportagem sobre um caso de corrupção que envolvia, como suspeitos, membros ligados à administração do governo do Estado de São Paulo e dois cidadãos portugueses dispostos a lançar um novo tipo de jogo lotérico, designado pelo nome de "Raspadinha". Entre os suspeitos figurava o nome de Otávio Ceccato, que, no momento, ocupava o cargo de secretário de Indústria e Comércio e que negava sua participação na negociata. O fragmento que vem a seguir, extraído da parte final da referida reportagem, relata a resposta de Ceccato aos jornalistas nos seguintes termos: Na sua posse como secretário de Indústria e Comércio, Ceccato, nervoso, foi infeliz ao rebater as denúncias. "Como São Pedro, nego, nego, nego", disse a um grupo de repórteres, referindo-se à conhecida passagem em que São Pedro negou conhecer Jesus Cristo três vezes na mesma noite. Esqueceu-se de que São Pedro, naquele episódio, disse talvez a única mentira de sua vida. (Ano :91.) Como se pode notar, a defesa do secretário foi infeliz e desastrosa, produzindo efeito contrário ao que ele tinha em mente. A citação, no caso, ao invés de inocentá-lo, acabou por comprometê-lo. Sob o ponto de vista da análise do texto, qual teria sido a razão do equívoco lamentável cometido pelo secretário? Sem dúvida, a resposta é esta: ao citar a passagem bíblica, o acusado esqueceu-se de que ela faz parte de um texto e, em qualquer texto, o significado das frases não é autônomo. Desse modo, não se pode isolar frase alguma do texto e tentar conferir-lhe o significado que se deseja. Como bem observou o repórter, no episódio bíblico citado pelo secretário, São Pedro, enquanto Cristo estava preso, foi reconhecido como um de seus companheiros e, ao ser indagado pelo soldado, negou três vezes seguidas conhecer aquele homem. Segundo a mesma Bíblia, posteriormente Pedro arrependeu-se da mentira e chorou copiosamente. Esse relato serve para demonstrar de maneira simples e clara que uma mesma frase pode ter significados distintos dependendo do contexto dentro do qual está inserida. O grande equívoco do secretário, para sua infelicidade, foi o de desprezar o texto de onde ele extraiu a frase, sem se dar conta de que, no texto, o significado das partes depende das correlações que elas mantêm entre si. Isso nos leva à conclusão de que, para entender qualquer passagem de um texto, é necessário confrontá-la com as demais partes que o compõem sob pena de dar-lhe um significado oposto ao que ela de fato tem. Em outros termos, é necessário considerar que, para fazer uma boa leitura, deve-se sempre levar em conta o contexto em que está inserida a passagem a ser lida. Entende-se por contexto uma unidade linguística maior onde se encaixa uma unidade linguística menor. Assim, a frase encaixa-se no contexto do parágrafo, o parágrafo encaixa-se no contexto do capítulo, o capítulo encaixa-se no contexto da obra toda. Uma observação importante a fazer é que nem sempre o contexto vem explicitado linguisticamente. O texto mais amplo dentro do qual se encaixa uma passagem menor pode vir implícito: os elementos da situação em que se produz o texto podem dispensar maiores esclarecimentos e dar como pressuposto o contexto em que ele se situa. Autora: Lucivânia A. S. Perico

10 10 Para exemplificar o que acaba de ser dito, observe-se um minúsculo texto como este: A nossa cozinheira está sem paladar. Podem-se imaginar dois significados completamente diferentes para esse texto dependendo da situação concreta em que é produzido. Dito durante o jantar, após ter-se experimentado a primeira colher de sopa, esse texto pode significar que a sopa está sem sal; dito para o médico no consultório, pode significar que a empregada pode estar acometida de alguma doença. Para finalizar esta primeira consideração, convém enfatizar que toda leitura, para não ser equivocada, deve necessariamente levar em conta o contexto que envolve a passagem que está sendo lida, lembrando que esse contexto pode vir manifestado explicitamente por palavras ou pode estar implícito na situação concreta em que é produzido. Segunda consideração: todo texto contém um pronunciamento dentro de um debate de escala mais ampla. Nenhum texto é uma peça isolada, nem a manifestação da individualidade de quem o produziu. De uma forma ou de outra, constrói-se um texto para, através dele, marcar uma posição ou participar de um debate de escala mais ampla que está sendo travado na sociedade. Até mesmo uma simples notícia jornalística, sob a aparência de neutralidade, tem sempre alguma intenção por trás. Observe-se, a título de exemplo, a passagem que segue, extraída da revista Veja do dia 1º de junho de 1988, página 54. CRIME: TIRO CERTEIRO Estado americano limita porte de armas. No começo de 1981, um jovem de 25 anos chamado John Hinckley Jr. entrou numa loja de armas de Dallas, no Texas, preencheu um formulário do governo com endereço falso e, poucos minutos depois, saiu com um Saturday Night Special - nome criado na década de 60 para chamar um tipo de revólver pequeno, barato e de baixa qualidade. Foi com essa arma que Hinckley, no dia 30 de março daquele ano, acertou uma bala no pulmão do presidente Ronald Reagan e outra na cabeça de seu porta-voz, James Brady. Reagan recuperou-se totalmente, mas Brady desde então está preso a uma cadeira de rodas. (...) Seguramente, por trás da notícia, existe, como pressuposto, um pronunciamento contra o risco de vender arma para qualquer pessoa, indiscriminadamente. Para comprovar essa constatação, basta pensar que os fabricantes de revólveres, se pudessem, não permitiriam a veiculação dessa notícia. O exemplo escolhido deixa claro que qualquer texto, por mais objetivo e neutro que pareça, manifesta sempre um posicionamento frente a uma questão qualquer posta em debate. Ao final desta lição, devem ficar bem plantadas as seguintes conclusões: a) Uma boa leitura nunca pode basear-se em fragmentos isolados do texto, já que o significado das partes sempre é determinado pelo contexto dentro do qual se encaixam; b) Uma boa leitura nunca pode deixar de apreender o pronunciamento contido por trás do texto, já que sempre se produz um texto para marcar posição frente a uma questão qualquer. (SAVIOLI, F.P. & FIORIN, J.L. Para entender o texto: leitura e redação. 17ª ed. São Paulo: Ática, 2007 pág. 11 a 14) LTR/REP/RCP - Apostila de Redação Técnica

11 COMPREENDENDO O CONTEXTO REFINE SEU VOCABULÁRIO CORPORATIVO No último 28 de março, o jornalista William Bonner recebeu o prêmio Melhores do Ano, da TV Globo, na categoria jornalismo. Ao ser perguntado sobre qual era o sabor daquele troféu, especialmente após substituir um dos maiores ícones do jornalismo brasileiro o apresentador Cid Moreira, Bonner respondeu enfaticamente: Eu não substituí o Cid, eu o sucedi. Seria impossível substituí-lo. Os verbos substituir e suceder podem, a princípio, parecer quase sinônimos. No entanto, para Bonner, a opção por suceder foi muito mais feliz. Suceder soa mais natural que substituir, enquanto substituir é muito mais apropriado para uma lâmpada do que para uma pessoa. Pequenas sutilezas como essa fazem toda a diferença na comunicação. Muita leitura e um dicionário sempre à mão na hora de escrever são as principais dicas para quem deseja refinar o vocabulário. É importante ressaltar a diferença entre refinar e rebuscar. O primeiro conceito está muito mais próximo de lapidar, trabalhar para escolher as palavras que melhor exprimem a mensagem desejada. Já o segundo significa florear, sofisticar sem necessidade. Não faz sentido em um jantar familiar dizer Por obséquio, passe-me o sal. Note que no exemplo de William Bonner, ele não usa nenhum rebuscamento. No entanto, ele procura a palavra exata para exprimir sua mensagem. O refinamento assemelha-se a um trabalho mais artesanal. Em entrevista a Folha de São Paulo, Marina Silva também constrói com palavras a sua posição na campanha eleitoral para presidente. O Brasil precisa de um sucessor, e não de um continuador ou de um opositor. O opositor tende a jogar tudo na lata do lixo, e o continuador acha que já está tudo pronto. Escolher as palavras certas pode ser um diferencial positivo na carreira de um profissional. Por isso, mãos à obra. (Disponível em: consultado em 29/07/10) QUESTIONÁRIO 1. Por que para o jornalista William Bonner seria impossível substituir Cid Moreira? 2. O profissional deve buscar um vocabulário refinado ou rebuscado? Explique. 3. Para a análise de um texto é necessário que se considere o contexto (relação entre o texto e a situação em que ele ocorre). Em que contexto está inserida a fala de Marina Silva? 4. Considerando o contexto, para Marina Silva, quem é o continuador e quem é o opositor (cite nomes)? Justifique sua resposta. 5. Trace um paralelo entre os discursos de William Bonner e Marina Silva justificando a razão de optarem pelo verbo suceder. Autora: Lucivânia A. S. Perico

12 12 4 INTERTEXTUALIDADE: AS RELAÇÕES ENTRE TEXTOS Observe os trechos que seguem: Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores. Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. (DIAS, Gonçalves. Canção do exílio) Do que a terra mais garrida Teus risonhos, lindos campos têm mais flores; Nossos bosques têm mais vida Nossa vida, no teu seio, mais amores. (Hino Nacional Brasileiro) Nossas flores são mais bonitas nossas frutas mais gostosas mas custam cem mil réis a dúzia. (MENDES, Murilo. Canção do exílio) Os três textos são semelhantes. Como o de Gonçalves Dias é anterior aos dois primeiros, o que ocorre é que estes fazem alusão àquele. Os dois primeiros citam o texto de Gonçalves Dias. Com muita frequência um texto retoma passagens de outro. Quando um texto de caráter científico cita outros textos, isso é feito de maneira explícita. O texto citado vem entre aspas e em nota indica-se o autor e o livro donde se extraiu a citação. Num texto literário, a citação de outros textos é implícita, ou seja, um poeta ou romancista não indica o autor e a obra donde retira as passagens citadas, pois pressupõe que o leitor compartilhe com ele um mesmo conjunto de informações a respeito das obras que o compõem um determinado universo cultural. Os dados a respeito dos textos literários, mitológicos, históricos são necessários, muitas vezes, para compreensão global de um texto. A essa citação de um texto por outro, a esse diálogo entre textos dá-se o nome de intertextualidade. Compreender um texto implica também acessar conhecimentos prévios, adquiridos em experiências anteriores a que tenhamos sido expostos em nosso convívio social: leituras, filmes, aulas, palestras, sermões, conversas. A intertextualidade acontece quando utilizamos esses conhecimentos para elaborar um novo texto. Essa utilização pode ser em explícita ou implícita. Voltemos aos três textos colocados no princípio desta lição. O poema de Gonçalves Dias possui muitas virtualidades de sentido. Entre elas, a exaltação ufanista da natureza brasileira. Para ele, nossa pátria é sempre mais e melhor do que os outros lugares. Os versos do Hino Nacional retomam o texto de Gonçalves Dias para reafirmar esse sentido de exaltação da natureza brasileira. Já os versos de Murilo Mendes citam Gonçalves Dias com intenção oposta, pois pretendem ridicularizar o nacionalismo exaltado que pode ser lido no poema gonçalvino. Um texto cita outro com, basicamente, duas finalidades distintas: a) para reafirmar alguns dos sentidos do texto citado; b) para inverter, contestar e deformar alguns dos sentidos do texto citado; para polemizar com ele. Em relação ao texto de Gonçalves Dias, o Hino Nacional enquadra-se no primeiro caso, enquanto o de Murilo Mendes encaixa-se no segundo. Quando um texto cita outro invertendo seu sentido, temos uma paródia. Os versos do Hino Nacional parafraseiam versos de Gonçalves Dias; os de Murilo Mendes parodiam-no. Compare agora estas duas estrofes, de dois poemas: Meus oito anos Oh! Que saudade que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais Que amor, que sonhos, que flores Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais! [...] (Casimiro de Abreu) Meus oito anos Oh que saudades que eu tenho Da aurora de minha vida, De minha infância querida Que os anos não trazem mais Naquele quintal de terra Da Rua de Santo Antônio Debaixo da bananeira Sem nenhum laranjais! [...] (Oswald de Andrade) LTR/REP/RCP - Apostila de Redação Técnica

13 O texto de Casimiro de Abreu foi escrito no século XIX, o texto de Oswald de Andrade foi escrito no século XX. As semelhanças entre os textos são evidentes, pois o assunto deles é o mesmo e há versos inteiros que se repetem. Portanto, o texto de Oswald cita o texto de Casimiro, estabelecendo com ele uma relação intertextual. Observe, porém, que o 2º texto tem uma visão diferente da apresentada pelo 1º. No 1º texto, tudo na infância parece perfeito, rodeado por amor, sonhos e flores ; já no 2º texto, esses elementos são substituídos por um simples quintal de terra, um espaço concreto e comum, se idealização. Além disso, com o verso sem nenhum laranjais, Oswald ironiza Casimiro, como que dizendo: na minha infância também havia bananeiras, mas não havia os tais laranjais que o Casimiro cita em seu poema. Observe que Oswald, com seu poema, não apenas cita o poema de Casimiro, ele também critica esse poema, pois considera irreal a visão que Casimiro tem da infância. Certamente, na visão de Oswald, infância de verdade, no Brasil, se faz com crianças brincando no quintal de terra, embaixo das bananeiras, e não com crianças sonhando embaixo de laranjais. Podemos dizer que o texto de Oswald é uma paródia do texto de Casimiro. A percepção das relações intertextuais, das referências de um texto a outro, depende do repertório do leitor, do seu acervo de conhecimentos literários e de outras manifestações culturais. Daí a importância da leitura, principalmente daquelas obras que constituem as grandes fontes da literatura universal. Quanto mais se lê, mais se amplia a competência para apreender o diálogo que os textos travam entre si por meio de referências, citações e alusões. Por isso, cada livro que se lê torna maior a capacidade de apreender, de maneira mais completa, o sentido dos textos. Vamos analisar o poema de Murilo Mendes: Canção do exílio 13 Minha terra tem macieiras da Califórnia onde cantam gaturamos de Veneza. Os poetas da minha terra são pretos que vivem em torres de ametista, os sargentos do exército são monistas, cubistas, os filósofos são polacos vendendo a prestações. A gente não pode dormir com os oradores e os pernilongos. Os sururus em família têm por testemunha [a Gioconda. Eu morro sufocado em terra estrangeira. Nossas flores são mais bonitas nossas frutas mais gostosas mas custam cem mil réis a dúzia. Ai quem me dera chupar uma carambola de [verdade e ouvir um sabiá com certidão de idade! (MENDES, Murilo. Poemas. In: --. Poesias ( ). Rio de Janeiro, J. Olympio, p.5) Observe a seguir o poema de Gonçalves Dias: Canção do exílio Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar sozinho, à noite Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu'inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. (DIAS, Gonçalves. Gonçalves Dias: poesia. Por Manuel Bandeira. Rio de Janeiro, Agir, p. 11-2) Autora: Lucivânia A. S. Perico

14 Você leu duas canções do exílio diferentes. A de Gonçalves Dias enaltece a pátria, considera-a superior à terra do exílio. Murilo critica, com mordacidade, o Brasil e julga-se exilado em sua própria terra por não compartilhar dos valores nela vigentes. Cada texto é um pronunciamento sobre dada realidade; cada texto revela a visão de mundo de quem o produz. Mas não é só na literatura que isto acontece! A intertextualidade é uma forma de diálogo entre textos, que pode se dar de forma mais implícita ou mais explícita e em diversos gêneros textuais. O intertexto serve para ilustrar a importância do conhecimento de mundo e como este interfere no nível de compreensão do texto. Ao relacionar um texto com outro, o leitor entenderá que a intertextualidade é uma das estratégias utilizadas para a construção dos mesmos. 14 Chico Tirando Palha de Milho,2000,acrílica sobre tela 164x125 cm Caipira Picando Fumo, 1893, Almeida Júnior( ), óleo sobre tela,202x141cm.pinacoteca de São Paulo, SP, Brasil No caso específico do anúncio publicitário, por exemplo, o intertexto, quando usado, é uma forma diferente de persuasão, com o objetivo de levar o leitor a consumir um produto e também difundir a cultura. A televisão, muitas vezes, divulga sua programação e estimula sua audiência através de seus próprios produtos comunicacionais fazendo referências uns aos outros. Em alguns episódios de desenhos animados, como os Simpsons, por exemplo, nota-se esta referência. Os desenhos animados também são direcionados, e em alguns casos, principalmente, aos adultos. Prova disto está na utilização de obras da arte (clássica, surrealista, etc.) como elementos que compõem seus argumentos. A maioria das crianças não faz ideia da existência da "Capela Cistina". (É bem verdade que muitos adultos também estão na mesma situação!). Mas tudo isso para dizer que a intertextualidade só faz sentido e, só é percebida, quando o público e/ou audiência a que destinam-se, tem um conhecimento prévio acerca do assunto. Quanto à intertextualidade na publicidade, pode-se dizer que ela assume a função não só de persuadir o leitor como também de difundir a cultura, uma vez que se trata de uma relação com a arte (pintura, escultura, literatura etc). Assim, quando há a utilização deste recurso, boa parte do efeito de uma propaganda ou do título de uma reportagem é proveniente da referência feita a textos préexistentes. Esses textos ora são retomados de forma direta, ora de forma indireta, levando o destinatário a reconhecer no enunciado o texto citado. Veja a seguir outros intertextos: LTR/REP/RCP - Apostila de Redação Técnica

15 15 Clichê: é o enunciado que se transformou em uma unidade linguística estereotipada por ser muito proferido pelas pessoas. Num jornal sobre esportes foi criada uma charge com o enunciado: Por trás de todo grande time há um grande treinador. Tal enunciado remete a outro pertencente ao patrimônio social Por trás de todo grande homem há uma grande mulher. O enunciado do jornal, na época, pretendia elogiar a conduta do treinador pelo fato do time Vasco ter ganhado o campeonato. Outro exemplo destacado foi o da publicidade do SESI a respeito de um concurso de empresas sobre a qualidade no trabalho. O slogan da publicidade era: Se o trabalho dignifica o homem, o trabalho em equipe o torna um vencedor. Observa-se que a partir de um clichê O trabalho dignifica o homem, utilizado numa estrutura com valor condicional Se o trabalho..., ressalta-se em seguida a importância do trabalho em equipe... o trabalho em equipe o torna um vencedor. Proverbial: é um enunciado popular que expressa de forma sucinta uma mensagem. O título de uma reportagem sobre funcionários e ações trabalhistas: Depois do suor, o desamparo que remete ao provérbio Depois da tempestade vem a bonança. Sendo que ao contrário desse (depois dos fatos negativos vem o positivo), o título da reportagem sugere que depois de todo esforço suor, os funcionários não obtiveram o que almejavam: o reconhecimento. Foram vítimas do desemprego, o desamparo. Palavrão: é o enunciado que apresenta uma palavra grosseira ou obscena. O jornalista Agamenon, responsável por uma matéria do Segundo Caderno do jornal O Dia, cuja característica é o humor, nomeou uma de suas matérias de Cuba se Fidel. No mesmo, observa-se a alusão ao palavrão se fo... e um jogo entre este e o nome do presidente de Cuba, Fidel Castro, por causa da semelhança fonética Fidel e fo. Bíblico: quando o enunciado menciona uma passagem da Bíblia. O título de uma reportagem sobre o turismo na Ilha Grande A fé move turistas nas trilhas da Ilha Grande se referindo à passagem bíblica que diz: A fé move montanha. Literário: quando o enunciado refere-se a verso(s), a passagem(ns) ou a título(s) de obra. - Exemplo de título de obra: A publicidade da marca Ceramidas usa como slogan o seguinte enunciado: Dona Flor e seus dois produtos, que, por sua vez, se reporta a uma das obras de Jorge Amado intitulada Dona Flor e seus dois maridos. Observa-se assim que na publicidade Dona Flor é representada pela marca Ceramidas e os dois produtos pelo xampu e pelo condicionador. Uma matéria da revista Isto É intitulada: E o vento levou sobre produtos para cabelo é o título de uma obra de Margaret Mitchell. Essa matéria mostra como os produtos mencionados deixam os cabelos leves e soltos. - Exemplo de verso: O título de uma reportagem: Infinito, mas enquanto durou se referindo ao verso de Vinícius de Moraes que seja infinito enquanto dure que, por sua vez, faz alusão ao pensamento de Sofocleto: O amor é eterno enquanto dura. Musical: quando a letra de uma música se reporta a outra letra já existente. Num trecho do rap Sem saúde, de Gabriel O Pensador, o compositor diz:... me cansei de lero-lero / dá licença mas eu vou sair do sério... mencionando uma das músicas de Rita Lee. Autora: Lucivânia A. S. Perico

16 16 Com base em tudo o que vimos a respeito de intertextualidade, podemos destacar a importância do conhecimento de mundo e como esse fator interfere no nível de compreensão do texto. Pois, embora o aluno-leitor não identifique o intertexto, vai entendê-lo. Mas ao relacionar um texto com outro, compreenderá o texto lido na sua profundidade e por consequência será capaz de refletir sobre o recurso adotado pelo autor para quando for compor textos. Dessa forma, na aula de Português, por exemplo, o aluno compreenderá que a intertextualidade é um das estratégias utilizadas para a construção de um texto. No caso específico da publicidade, quando utiliza a intertextualidade é uma forma diferente de persuasão cuja intenção é de levar o leitor a consumir um produto e de também difundir a cultura. A intertextualidade deve fazer parte do planejamento de texto daquele que escreve, pois, afinal, é a cultura do país e do mundo que estão em movimento. Cabe a ele, então, reconhecer intertextos e a redigir utilizando também esse recurso. Leia este anúncio: EXERCÍCIOS 1.Que tipo de linguagem é utilizado na construção do texto: a verbal, a visual ou ambas? 2.Leia apenas a frase situada na parte inferior do anúncio. Qual é o seu sentido? 3.Observe a figura central do anuncio: a roupa, os cabelos, o meio-sorriso da pessoa fotografada e o cenário de fundo. Por esse conjunto de elementos, notamos que não se trata de um anúncio comum, pois há nele a voz de outro texto bastante conhecido. Que texto é esse? 4.Ao lançar mão desta intertextualidade, o anunciante pode correr alguns riscos, pois o leitor pode não conhecer a obra de Leonardo da Vinci. a) Levando em conta que o produto anunciado é um amaciante de roupas (portanto algo refinado, que nem todos utilizam) e que o anúncio foi publicado numa revista de público predominantemente feminino e de classe média, é provável que a maior parte dos leitores perceba o recurso de intertextualidade empregado ou não? Por quê? b) Quanto aos leitores que não conhecem Da Vinci, eles poderiam, mesmo assim, ser atingidos pelo apelo do anúncio, de modo que seu objetivo principal promover o produto fosse alcançado? Por quê? 5.Imagine como seria um anúncio tradicional desse produto ( compre..., use..., experimente... ) e compare ao anúncio lido. Levante hipóteses: que vantagens há, para o anunciante, em criar um anúncio com esse tipo de inovação? (Português: Linguagens pág.111, 112 e 113) 6.Retome os poemas Canção do exílio. Observe que quando você redige um texto, você elabora seu pronunciamento sobre uma determinada realidade. Por isso, num texto, você deve fazer uma reflexão pessoal e não repetir lugares-comuns. Escreva agora sua canção do exílio mostrando como você vê sua pátria. Seu texto deve ser em verso, mas não precisa ter rima. É importante que nele você arrole imagens que indiquem a concepção que você tem de seu país. Sua produção deve ter um título e, no mínimo, 20 linhas. LTR/REP/RCP - Apostila de Redação Técnica

17 17 5 O TEXTO E SUAS RELAÇÕES COM A HISTÓRIA Todos conhecem as aventuras do Super-homem. Ele não é um terráqueo, mas chegou à Terra, ainda criança, numa nave espacial, vindo de Crípton, planeta que estava para ser destruído por uma grande catástrofe. É dotado de poderes sobre-humanos; seus olhos de raio X permitem ver através de quaisquer corpos, a uma distância infinita; sua força é ilimitada, possibilitando-lhe escorar pontes prestes a desabar e levantar transatlânticos; a pressão de suas mãos submete o carbono a temperaturas tão altas que o transforma em diamante; sua apurada audição permite-lhe escutar o que se fala em qualquer ponto. Pode voar a uma velocidade igual à da luz e, quando ultrapassa essa velocidade, atravessa a barreira do tempo e transfere-se para outras épocas; pode perfurar montanhas com o próprio corpo; pode fundir metais com o olhar. Além disso, tem uma série de qualidades: beleza, bondade, humildade. Sua vida é dedicada à causa do bem. O Super-homem vive entre os homens sob a aparência do jornalista Clark Kent, que é um tipo medroso, tímido, pouco inteligente, míope. Clark Kent é apaixonado por Lois Lane (quando os quadrinhos vieram para o Brasil, o nome dela era Miriam Lane, depois passou a ser Lois), sua colega, que, na verdade, ama loucamente o Super-homem. Já vimos que todo texto é um pronunciamento sobre uma dada realidade. Ao fazer esse pronunciamento, o produtor do texto trabalha com as ideias de seu tempo e da sociedade em que vive. Com efeito, as concepções, as ideias, as crenças, os valores não são tirados do nada, mas surgem das condições de existência. As concepções racistas, por exemplo, aparecem numa época em que certos países, necessitando de mão de obra, iniciam a escravização de negros. A ideia de que certas raças são inferiores a outras não é uma maldade dos brancos, mas uma justificativa apaziguadora da consciência dos senhores de escravos. Essas concepções ganham um impulso maior quando os países europeus, precisando de matérias-primas, iniciam o processo de colonização da África e da Ásia. A colonização é, assim justificada por um belo ideal: expandir a civilização. Todo texto assimila as ideias da sociedade e da época em que foi produzido. Neste momento, você poderia estar dizendo que o texto do Super-homem prova exatamente o contrário, pois nada tem ele a ver com a realidade histórica, na qual não existem super-homens. Quando se afirma que os textos se relacionam com a história, não se quer dizer que eles narram fatos históricos de um país, mas que revelam os ideais, as concepções, os anseios e os temores de um povo numa determinada época. Nesse sentido, a narrativa do Super-homem mostra os anseios dos homens das camadas médias das sociedades industrializadas do século XX, massacrados por um trabalho monótono e por uma vida sem qualquer heroísmo. Esse homem, mediocrizado e inferiorizado, nutre a esperança de tornar-se um ser todo-poderoso assim como Clark Kent, que se transforma em Super-homem. As condições de impotência do homem diante das pressões sociais geram um ideal de onipotência refletido na narrativa do Super-homem. Além disso, as concepções de sociedade em que esse texto foi produzido estão presentes na ideia de Bem. Como nota Umberto Eco, famoso autor italiano, um indivíduo dotado dos poderes do Superhomem poderia acabar com a fome, a miséria e as injustiças do mundo. No entanto, ela não faz nada disso. Ao contrário, o bem que pratica é a caridade, e o mal que combate é o atentado à propriedade privada. Lutar contra o mal é assim combater ladrões. Dedica sua vida a isso. Como se vê, as ideias produzidas num determinado tempo, numa dada época estão presentes no texto. Cabe lembrar, no entanto, que uma sociedade não produz uma única forma de ver a realidade. Como ela é dividida pelos interesses antagônicos dos diferentes grupos sociais, produz ideias contrárias entre si. A mesma sociedade que gera as ideias racistas produz ideias antirracistas. Por isso, controem-se nessa sociedade textos que fazem pronunciamentos antagônicos com relação aos mesmos dados da realidade. Há algumas ideias que predominam sobre suas contrárias numa dada época. Elas refletem os interesses dos grupos sociais dominantes. Fazer uma reflexão pessoal é analisar essas ideias de maneira crítica, verificando até que ponto elas têm apoio na realidade. Para entender com mais eficácia o sentido de um texto, é preciso verificar as concepções correntes na época e na sociedade em que foi produzido. Assim, não se corre o risco de considerar, por exemplo, como pronunciamentos idênticos um texto sobre a democracia ateniense e um sobre a democracia nas sociedades capitalistas modernas, que, na verdade, tratam de concepções distintas. As ideias de uma época estão presentes nos significados dos textos. Observe a figura a seguir: quais mudanças discursivas ocorreram ao longo da história? Autora: Lucivânia A. S. Perico

18 18 Cabe lembrar ainda que as ideias de uma época são veiculadas por textos, uma vez que não existem ideias puras, ou seja, não transmitidas linguisticamente. Assim, analisar as ideias de um texto é estudar o diálogo entre textos, em que um assimila e registra as ideias presentes nos outros. Vamos fazer agora a análise de dois textos cujo discurso mudou ao longo da história. A CARTEIRA PROFISSIONAL (1976) Por menos que pareça e por mais trabalho que dê ao interessado, a carteira profissional é um documento indispensável à proteção do trabalhador. Elemento de qualificação civil e de habilitação profissional, a carteira representa também título originário para a colocação, para a inscrição sindical e, ainda, um instrumento prático do contrato individual de trabalho. A carteira, pelos lançamentos que recebe, configura a história de uma vida. Quem a examina, logo verá se o portador é um temperamento aquietado ou versátil; se ama a profissão escolhida ou ainda não encontrou a própria vocação; se andou de fábrica em fábrica, como uma abelha, ou permaneceu no mesmo estabelecimento, subindo a escala profissional. Pode ser um padrão de honra. Pode ser uma advertência. MENSAGEM DO SENHOR MINISTRO (1988) Alexandre Marcondes Filho Criada em 1932, a Carteira de Trabalho e Previdência Social resistiu ao passar dos anos, assimilando com muita presteza as profundas modificações que se registraram, nestas décadas, na composição, distribuição e qualificação da nossa força de trabalho. Sem nenhum exagero, pode-se afirmar que este documento, por muitos ainda hoje conhecido como carteira profissional, converteu-se num dos mais importantes instrumentos à disposição do trabalhador, fazendo as vezes de cédula de identidade, título de crédito, atestado de antecedentes, de boa conduta e de residência, para citar apenas algumas de suas múltiplas utilidades. Em sua simplicidade, a CTPS reflete a carreira do trabalhador e sua evolução profissional. Cabelhe, pois, protegê-la atenta e cuidadosamente, porque enquanto pelos seus aspectos externos essa Carteira revela traços importantes da personalidade e da formação do seu possuidor, os registros internos, habitualmente insubstituíveis, se constituem nas melhores garantias da preservação e da efetivação dos seus direitos trabalhistas e previdenciários. Almir Pazzianotto Pinto LTR/REP/RCP - Apostila de Redação Técnica

19 Instituída na década de 1930, a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) apresentava uma dupla função, mantida até hoje: além de resguardar os direitos do trabalhador funcionava também como um tipo de condensação das atividades profissionais deste, servindo de alerta aos empregadores: Quem a examina, logo verá se o portador é um temperamento aquietado ou versátil; se ama a profissão escolhida ou ainda não encontrou a própria vocação; se andou de fábrica em fábrica, como uma abelha, ou permaneceu no mesmo estabelecimento, subindo a escala profissional. Pode ser um padrão de honra. Pode ser uma advertência. Atendendo às orientações da CTPS de 1976, um funcionário admitido na LIGHT nome da empresa estadual de energia elétrica na época designado para o setor de pessoal da empresa, recebeu a seguinte orientação do seu chefe: Fique atento à carteira profissional do candidato e ao número de anos que permaneceu em cada empresa; entreviste-o bem próximo, para ver se ele não cheira a cachaça. Conte uma boa piada para fazê-lo rir e avaliar a sua saúde, a partir da qualidade dos seus dentes. Era esta a postura da empresa diante do trabalhador. O discurso escrito na CTPS foi reformulado e, em 1988, ela passou a ser atestado de antecedentes, de boa conduta e de residência, para citar apenas algumas de suas múltiplas utilidades. Permanecia o discurso anterior, agora aprimorado. Atualmente, a CTPS possui nas páginas iniciais quatro itens do Art.XXIII, da Declaração Universal dos Direitos do Homem, absolutamente utópicos para o momento atual: dizendo que Todo homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. Mas será que isso é verdade? Em seguida, há um trecho do Decreto-Lei nº229, de 28 de fevereiro de 1967, e na sequência um texto dirigido ao trabalhador, que diz assim: TRABALHADOR Esta é a sua Carteira de Trabalho e Previdência Social, instituída pelo Decreto nº , de 29 de outubro de 1932, e posteriormente reformulada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, que aprovou a Consolidação das Leis do Trabalho. É o documento obrigatório para o exercício de qualquer emprego, seja de natureza urbana, rural, de caráter temporário, permanente, ou mesmo em atividade profissional exercida por conta própria. Nela são registrados os salários e todos os elementos básicos para o reconhecimento de seus direitos perante a Justiça do Trabalho, bem como para a obtenção da aposentadoria e demais benefícios da Previdência Social, tanto para você como para seus dependentes. Além de registrar todas as relações de trabalho de seu portador, comprovando o vínculo que mantém com o empregador, a CTPS garante-lhe também o direito ao Seguro-Desemprego. Além de valer, também, como prova de identidade, conforme dispõe o artigo 40 da Consolidação das Leis do Trabalho, o conjunto de anotações da CTPS e seu estado de conservação espelham a conduta, a formação e o passado do trabalhador. Pelo conjunto das informações que encerra, serve, ao mesmo tempo, como documento de crédito e atestado de antecedentes, tornando-se instrumento de múltiplas utilidades ao seu portador. Pela sua importância, é seu dever protegê-la e cuidá-la. É o registro de toda a sua vida profissional e a garantia da preservação e validade de seus direitos como trabalhador e cidadão, contribuindo para assegurar o seu futuro e de seus dependentes. (sem assinatura) Observamos a mudança no discurso escrito, porém a CTPS permanece sendo, intrinsicamente, um atestado de conduta pessoal e profissional, uma vez que o conjunto de anotações da CTPS e seu estado de conservação espelham a conduta, a formação e o passado do trabalhador. Pelo conjunto das informações que encerra, serve, ao mesmo tempo, como documento de crédito e atestado de antecedentes (...), ou seja, as palavras mudaram, mas os conceitos não. Ao contrário do discurso percebido na figura relacionada ao ensino ( ). O artigo a seguir, extraído da revista Língua Portuguesa, dá conta da análise de campanhas publicitárias e sua relação com o contexto e a história. 19 Autora: Lucivânia A. S. Perico

20 OS LIMITES DA RETÓRICA DE MERCADO Polêmica mundial envolvendo campanha de agência brasileira mostra a dificuldade em controlar a interpretação dos consumidores O anúncio Aviões, da WWF, provocou reações indignadas nos EUA contra a agência DM9DDB: texto insensível Uma das mais tarimbadas agências do país, com vinte anos de janela, a DM9DDB se meteu num vespeiro, mês passado, com a repercussão mundial de uma campanha publicitária criada para a WWF, organização não governamental dedicada à conservação da natureza. A peça, composta pelo impresso Aviões e pelo filme Tsunami, lança uma centena de aviões contra o World Trade Center. No filme, a cena escurece para dar lugar a letreiros com a premissa retórica que sustenta o anúncio: "O tsunami matou 100 vezes mais pessoas do que o 11 de setembro". Em seguida, o apelo à reflexão: "Nosso planeta é poderoso. Respeite e preserve". Além do erro conceitual (tsunamis são fenômenos geológicos, não relacionados à destruição da natureza pelo homem) e da premissa controversa (o paralelo entre ato terrorista e mudança ambiental), a campanha pôs em xeque um dos pilares da retórica publicitária desde a era dos reclames: a interpretação (programada) das mensagens que veicula. Difícil localizar quem interpretou o anúncio da WWF, conforme o planejado pela DM9, como um alerta à devastação. Nos EUA, ela foi recebida antes como afronta ao sofrimento norte-americano no aniversário de oito anos do atentado. Foi condenada não só pela mídia especializada, como a revista nova-iorquina Advertising Age, mas por programas da rede NBC e pelo tradicional New York Times. Na primeira semana de setembro, o caso virou um jogo de empurra entre a agência e o braço local da ONG. Em nota, a DM9DDB alegou que o anúncio foi "fruto somente da inexperiência" dos profissionais envolvidos "de ambas as partes". Por sua vez, o braço brasileiro do WWF divulgou que a peça havia sido rejeitada. Depois, em nota conjunta, ambos admitiram que o anúncio foi aprovado em dezembro de 2008, "equivocadamente". Nenhum reparo prévio, no entanto, impediu que a peça fosse divulgada à imprensa por release da própria DM9, publicada num jornal de São Paulo antes de ter sua veiculação suspensa, inscrita no festival de Cannes e premiada com um diploma Merit pelo One Show, competição internacional da propaganda, o que deu lenha à repercussão mundial do caso. O prêmio foi cancelado, a pedido da agência, mas o estrago já havia sido potencializado por sites e blogs de todo o mundo. Na era da internet, com blogs bisbilhoteiros e repercussão em escala, de site a site, a possibilidade de interpretação indesejada de mensagens publicitárias tem crescido exponencialmente. No início de setembro, a Unimed Porto Alegre viu um anúncio seu virar alvo de blogs de estudantes e publicitários. A campanha "Cuidar", desenvolvida pela agência Escala desde o início do ano, partia do conceito de que, para uma cooperativa de médicos, não mero plano de saúde, cuidar é tão importante quanto curar. Daí desenvolver a série de anúncios em que letras de palavras, como "trabalho", "respeito" e "amor", fossem substituídas pelo corpo humano. No caso de "cuidar", no entanto, a letra i deu lugar a uma modelo esguia e ereta, o suficiente para que blogueiros a vissem como um muro a separar um verbo de um substantivo indesejado. LTR/REP/RCP - Apostila de Redação Técnica

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