A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL

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1 Série Análise Criminal VOLUME 1 A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL Distribuição Gratuita

2 Série Análise Criminal VOLUME 1 PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL Luiz Inácio Lula da Silva A ANÁLISE CRIMINAL MINISTRO DA SECRETARIA ESPECIAL DOS DIREITOS HUMANOS Paulo de Tarso Vannuchi E O PLANEJAMENTO GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Sérgio Cabral Filho SECRETÁRIO DE ESTADO DE SEGURANÇA DO RIO DE JANEIRO José Mariano Beltrame OPERACIONAL INSTITUTO DE SEGURANÇA PÚBLICA Série Análise Criminal Distribuição Gratuita DIRETOR-PRESIDENTE Mário Sérgio de Brito Duarte VICE-PRESIDENTE Robson Rodrigues da Silva COORDENADOR DOS CONSELHOS COMUNITÁRIOS DE SEGURANÇA Paulo Augusto Teixeira

3 A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL

4 Este livro foi produzido por meio de convênio firmado entre o Instituto de Segurança Pública e o Programa de Apoio Institucional às Ouvidorias de Polícia e Policiamento Comunitário da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, financiado pela União Européia. O conteúdo desta obra é de responsabilidade exclusiva dos autores e do Instituto de Segurança Pública.

5 Projeto Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal Volume 1 A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL 2008 RIO DE JANEIRO 1ª EDIÇÃO

6 Coleção Instituto de Segurança Pública Coordenador Mário Sérgio de Brito Duarte Série Análise Criminal Organizadores Andréia Soares Pinto e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Volume 1 A Análise Criminal e o Planejamento Operacional Autores Ana Paula Mendes de Miranda IPP / Simoni Lahud Guedes UFF / Doriam Borges IUPERJ / Cláudio Beato UFMG Elenice de Souza UFMG / Paulo Augusto Souza Teixeira ISP 2006 by Instituto de Segurança Pública Tiragem: 150 exemplares Impresso no Brasil É permitida a reprodução, total ou parcial, e por qualquer meio, desde que citada a fonte. Revisão Frederico César Girauta Maria Cláudia Ajuz Goulart Carmem Lúcia Teixeira Jochen Iara Cruz Fróes da Silva Projeto Gráfico Alexandre Lage da Gama Lima Thiago Venturotti Nunes Carneiro Diagramação Francisco Kelson Moreira de Sousa Organizadoras do volume Andréia Soares Pinto Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Ficha Catalográfica Johenir Viégas Elenice Glória Martins Pinheiro Coordenação Técnica Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Equipe técnica Lucas Botino do Amaral Daniel Keidel Bou Haya Coordenação Administrativa José Motta de Souza Apoio Administrativo Alexandre Corval Florisvaldo Moro José Renato Biral Belarmino A532a A Análise Criminal e o Planejamento Operacional / Organizadoras Andréia Soares Pinto e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro; Coordenador Mário Sérgio de Brito Duarte; [autores] Ana Paula Mendes de Miranda...[et al.]. Rio de Janeiro: Riosegurança, p. (Série Análise Criminal, v. 1) ISBN Análise Criminal manuais, guias, etc. I.Pinto, Andréia Soares (Org.) II Ribeiro, Ludmila Mendonça Lopes (Org.) III. Duarte, Mário Sérgio de Brito (Coord.) II. Título. III. Série. CDD:

7 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO (Mário Sérgio de Brito Duarte e Robson Rodrigues da Silva)... 7 INTRODUÇÃO (Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro e Andréia Soares Pinto) INFORMAÇÃO, ANÁLISE CRIMINAL E SENTIMENTO DE (IN) SEGURANÇA: CONSIDERAÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA (Ana Paula Mendes de Miranda) COLETANDO E EXTRAINDO INFORMAÇÕES DOS BANCOS DE DADOS CRIMINAIS: A LÓGICA DAS ESTATÍSTICAS DAS ORGANIZAÇÕES POLICIAIS (Doriam Borges) O SISTEMA CLASSIFICATÓRIO DAS OCORRÊNCIAS NA POLÍCIA MILITAR DO RIO DE JANEIRO E A ORGANIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA POLICIAL: UMA ANÁLISE PRELIMINAR (Simoni Lahud Guedes) PRODUÇÃO, USO DE INFORMAÇÕES E DIAGNÓSTICOS EM SEGURANÇA URBANA (Cláudio Beato) EXPLORANDO NOVOS DESAFIOS NA POLÍCIA: O PAPEL DO ANALISTA, O POLICIAMENTO ORIENTADO PARA O PROBLEMA E A METODOLOGIA IARA (Elenice de Souza) OS CONSELHOS COMUNITÁRIOS DE SEGURANÇA E OS DADOS OFICIAIS (Paulo Augusto Souza Teixeira) PERFIL DOS ORGANIZADORES E AUTORES

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9 APRESENTAÇÃO SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 7 Foi por uma postura racional que, segundo Max Weber, a civilização ocidental se distinguiu no cenário mundial sustentada pelos pilares da ciência, do capitalismo e da democracia 1. Nesse sentido, a otimização de recursos na busca de um lucro sempre renovável, a organização racional do trabalho e a ciência moderna, menos contemplativa e cada vez mais compromissada com o progresso tecnológico, foram fatores decisivos para o surgimento do atual conceito de cidadão e da moderna sociedade industrial. Em termos de Administração Pública, o conceito weberiano de lucro renovável pode ser traduzido por uma gestão eficiente, eficaz e efetiva que utiliza a ciência para a alocação racional dos recursos públicos, definindo objetivos, traçando metas factíveis e construindo indicadores adequados de avaliação e de produtividade. O chamado planejamento estratégico deve contemplar, portanto, um diagnóstico adequado da realidade, dos recursos disponíveis e dos óbices que eventualmente dificultem a consecução desses objetivos. No campo da segurança pública, mais precisamente no que diz respeito ao controle da criminalidade e das violências, função que entendemos ser uma das premissas do Estado-nação, uma gestão que se pretenda moderna não deve abrir mão da Análise Criminal como instrumento otimizador de suas ações, com todas as novidades que o progresso científico-tecnológico pode hoje nos proporcionar. Um de seus objetivos é o de habilitar profissionais na manipulação de softwares estatísticos e de geoprocessamento para a produção e análise de informações necessárias ao planejamento e à execução de políticas públicas de segurança eficazes. O livro que ora temos o prazer de apresentar trata exatamente da Análise Criminal e faz parte de um conjunto de estratégias desencadeadas pelo Instituto de Segurança Pública, com vistas à modernização da segurança pública estadual. Particularmente, objetiva familiarizar atores do chamado sistema de justiça criminal e segurança pública (polícia, Ministério Público, justiça e presídios) com o instrumental científico-tecnológico construído pelo Instituto para uma gestão racional da segurança pública, tanto no plano estratégico, como no tático-operacional. Ele foi elaborado por 1 WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 14 ed. São Paulo, Pioneira, 1999.

10 8 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL ocasião do Curso de Capacitação em Técnica Quantitativas e Análise Criminal, um dos projetos 2 do convênio firmado com a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) e realizado pelo ISP com o financiamento da União Européia. Mesmo entendendo que a Análise Criminal seja mais do que a coleta de dados quantitativos para a produção de uma estatística criminal confiável, esta é, sem dúvida, sua primeira etapa. Assim, torna-se importante primeiramente a construção de bases de dados abrangendo informações sobre as práticas dos atores do sistema de justiça criminal, juntamente com um ferramental analítico adequado; depois, a sensibilização desses próprios atores para que, por meio de uma postura moderna, possam de fato utilizar em toda sua plenitude o instrumental disponibilizado pelo ISP, quer na projeção de cenários, na elaboração de inferências, no estabelecimento de padrões ou no mapeamento de tendências criminais. Evidentemente que estamos falando de um processo de modernização que, como todo processo, apresenta uma ordem de etapas que precisa ser respeitada. Seguindo essa ordem, o ISP vem procurando cumprir sua vocação institucional de subsidiar a Secretaria de Estado de Segurança na elaboração de políticas públicas. Nesse sentido o estado do Rio de Janeiro já conta, desde 1999, com o Programa Delegacia Legal, dispondo de uma base de dados confiável das ocorrências registradas em todo o território fluminense. A partir deles, o ISP produz a estatística criminal do estado que é divulgada mensalmente na página eletrônica do Instituto 3 e no Diário Oficial do estado. Por meio do mesmo convênio com a SEDH e a União Européia, o ISP também desenvolveu o projeto SIAD 4 (Sistema de Integração de Análise de Dados), com o objetivo de integrar dados da Polícia Civil, da Polícia Militar e das Guardas Municipais 5 ; e desenvolveu, ainda, uma metodologia própria para a realização de pesquisas de vitimização que visam compreender o fenômeno da sub-notificação criminal, mais comumente conhecida como cifra negra. Seu primeiro resultado foi a Pesquisa de 2 Tanto esse quanto outros projetos ou programas aqui citados serão, de alguma maneira, abordados nos artigos que compõem o presente livro Cf. nota 2. 5 O piloto desse projeto foi iniciado no Município de São Gonçalo e a expectativa é de que, muito em breve, ele possa ser expandido para todo o estado.

11 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 9 Condições de Vida e de Vitimização 6, realizada em 2006/2007 na Região Metropolitana do estado do Rio de Janeiro e recentemente divulgada pelo ISP. Aliás, foi após a divulgação dos dados dessa pesquisa, que o próprio Secretário de Estado de Segurança, Dr. José Mariano Beltrame, aventou a possibilidade de se iniciar uma série histórica para a avaliação das cifras negras no estado, o que já foi incluído no Planejamento Orçamentário para o próximo ano. Outro grande passo do ISP nesse processo foi a criação de um Observatório de Análise Criminal no Núcleo de Pesquisas em Segurança Pública e Justiça Criminal - NUPESP/ISP, que possibilita o monitoramento espacializado das incidências criminais no estado, com o georeferenciamento dos dados das ocorrências policiais obtidas no Centro de Comando e Controle 7 da Secretaria de Estado de Segurança - SESEG. Sabemos que ainda há muito caminho ainda para percorrer e, nesse aspecto, seria interessante contarmos também com dados sistematizados de outros atores do sistema de justiça criminal, além das polícias estaduais, problema que será discutido ao longo do presente trabalho. No entanto, é bom ressaltar que o sucesso do primeiro curso de análise criminal já nos aponta alguns avanços nesse sentido. Dessa forma, o ISP resolveu oferecer uma versão mais curta do mesmo curso para policiais, jornalistas, pesquisadores e gestores de segurança pública em geral, como uma capacitação a ser continuada neste e no próximo ano. E ainda no intuito da sensibilização, foi estabelecido um diálogo com a Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro para que o mesmo programa também seja oferecido na Academia de Polícia Militar D. João VI para Aspirantes recém-formados no Curso de Formação de Oficiais, o que atenderá à Matriz Curricular proposta pela Secretaria Nacional de Segurança Pública. Percebe-se, com isso, a imensa potencialidade que representa este trabalho que, inclusive, deverá ser acrescido de outros artigos ou volumes, num futuro muito próximo. MÁRIO SÉRGIO DE BRITO DUARTE Diretor-Presidente do Instituto de Segurança Pública ROBSON RODRIGUES DA SILVA Vice-Presidente do Instituto de Segurança Pública 6 Cf. Nota 2. 7 Órgão que administra o recebimento das chamadas emergenciais 190.

12 10 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL INTRODUÇÃO Existe hoje amplo reconhecimento de que nenhuma organização pública ou particular funciona bem sem recursos humanos capazes de desenvolver com eficácia, eficiência e efetividade as atividades que lhe são destinadas. No âmbito das instituições que compõem o sistema de justiça criminal, esta afirmação também é válida, razão pela qual muito se tem discutido sobre quais habilidades devem ser consideradas indispensáveis ao agente de segurança pública, para que esteja de fato capacitado a traçar ações de prevenção da criminalidade, principalmente a violenta. Entre as habilidades requeridas para o agente de segurança pública, encontrase a de empreender uma boa análise criminal nos momentos que antecedem o planejamento das políticas públicas e, em especial, após a implementação dessas. Isto porque uma política pública eficaz, eficiente e efetiva é aquela que consegue não apenas prevenir o crime, mas, sobretudo, elevar a qualidade de vida dos cidadãos. As ações que antecedem a elaboração da política e apontam suas virtudes e vicissitudes têm como sustentáculo as informações produzidas em sua implementação. Em boa medida, estas se encontram armazenadas nas organizações que compõem o sistema de justiça criminal na forma de dados quantitativos, os quais podem ter sua natureza e dinâmica, compreendidas através das técnicas de análise estatística. Daí porque a estatística criminal tem se revelado como um dos principais instrumentos no planejamento e avaliação das ações de segurança pública. A análise criminal é entendida como um conjunto de processos sistemáticos direcionados para o provimento de informação oportuna e pertinente sobre os padrões do crime e suas correlações de tendências, de modo a apoiar as áreas operacional e administrativa no planejamento e distribuição de recursos para prevenção e supressão de atividades criminais. Contudo, este instrumento parece ainda não integrar o cotidiano das organizações encarregadas da promoção da segurança pública na realidade brasileira. Consciente deste fenômeno e pressionado pela demanda contínua de diversos policiais no que diz respeito à capacitação em técnicas quantitativas e análise criminal,

13 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 11 o Instituto de Segurança Pública - ISP 1 propôs a realização do Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal para os agentes de segurança pública do estado do Rio de Janeiro. A proposta de realização do curso teve como sustentáculo o fato de que vários agentes de segurança pública argumentavam que a não utilização dos dados criminais produzidos pela delegacia legal e tratados pelo ISP se devia ao desconhecimento das ferramentas de análise criminal. A partir do convênio entre a Secretaria Estadual de Segurança Pública e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Governo Federal, com financiamento da União Européia, o ISP capacitou, entre os dias 7 de agosto e 11 de outubro de 2006, cinqüenta e três agentes de segurança pública, através de um curso estruturado em três módulos. O primeiro ministrou disciplinas capazes de dar suporte teórico à compreensão dos métodos quantitativos. Nesta etapa, portanto, foram abordados conteúdos relativos à introdução à estatística e à análise de dados, bem como programas mais utilizados neste sentido, quais sejam EXCEL e SPSS. A segunda parte visou dar suporte aos alunos na utilização dos dados de natureza criminal produzidos por cada uma das organizações que compõem o sistema de justiça criminal quais sejam: Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público, Judiciário e Sistema Penitenciário. Este módulo teve como finalidade familiarizá-los com a utilização desses dados durante o exercício de sua atividade cotidiana. Por fim, o terceiro módulo consistiu no compartilhamento de experiências de organizações policiais militares de outros estados da federação brasileira no uso de dados quantitativos enquanto ferramenta auxiliar na consecução do planejamento tático e operacional da unidade policial. O Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal foi, portanto, um projeto de aperfeiçoamento dos agentes de segurança pública através da introdução, na realidade prática destes agentes, de ferramentas de análise estatística enquanto instrumento auxiliar na mensuração dos resultados das políticas públicas implementadas e instrumento principal na elaboração de ações policiais preventivas eficazes. Alguns dos textos que integram o primeiro volume da série análise criminal foram produzidos pelos professores do curso ao longo das aulas. Ou seja, trata-se de 1 O Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro é uma autarquia ligada à Secretaria de Segurança Pública, que produz mensalmente estatísticas relativas à ocorrência de crimes no estado. Esses dados constituem uma gama de informações que poderiam servir como ferramentas no planejamento e avaliação de políticas públicas da área de segurança

14 12 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL trabalho construído não apenas a partir dos princípios teóricos e metodológicos que orientam a análise criminal, mas, sobretudo, a partir do diálogo com os principais usuários das ferramentas de informação e gestão que foram ensinadas no Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal. Assim, os estudos publicados neste volume representam uma tentativa de reunir as principais reflexões sobre análise criminal e, desta forma, mudar o quadro de não uso das ferramentas estatísticas enquanto instrumento e avaliação das políticas de segurança em razão do desconhecimento destas. A estrutura da obra em cinco capítulos reflete este propósito. O primeiro capítulo analisa conceitualmente o papel da informação, em especial a estatística, na seara da segurança pública, e a forma como os dados criminais têm sido produzidos e utilizados no estado do Rio de Janeiro. Nele é desenvolvido o instrumental teórico acerca da importância da informação no planejamento e avaliação das políticas de segurança pública, utilizado nos capítulos subseqüentes. O segundo capítulo apresenta uma discussão sobre os pressupostos da estatística criminal, principalmente no que diz respeito às possibilidades de aplicação dessa metodologia a diversas bases de dados criminais (ou não) disponíveis no Brasil. Já o terceiro capítulo parte de uma dessas bases de dados, com ênfase na base construída pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, para desenvolver a discussão sobre como foi montado e como hoje é operado o sistema classificatório das ocorrências policiais. Os capítulos 3 e 4 discutem a produção e o uso das informações criminais na elaboração de ações e diagnósticos em segurança pública. O primeiro deles parte do estudo de caso de Belo Horizonte e salienta que as diversas ferramentas estatísticas ensinadas no Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal, quando empregadas com o devido rigor metodológico, viabilizam a redução da incidência criminal e, por conseguinte, a melhoria da qualidade de vida urbana. O outro capítulo enfatiza as capacidades requeridas para o moderno policial na produção e no uso das informações estatísticas e de como estas competências são ativadas e dinamizadas através da metodologia IARA (metodologia orientada para a solução de problemas composta por quatro etapas: Identificação, Análise, Resposta e Avaliação - IARA). O último capítulo discute a transparência dos dados na seara da segurança pública a partir da análise das ações desenvolvidas de forma integrada pelas polícias

15 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 13 e pelas comunidades, e das informações produzidas pelos Conselhos Comunitários de Segurança do Rio de Janeiro. Com o primeiro volume da série análise criminal, desejamos suprimir uma lacuna na segurança pública, propiciando ao leitor um instrumento de apoio e reflexão que possa contribuir efetivamente para a melhor aplicação dos conteúdos apreendidos durante o curso. Esperamos que a interação entre os diversos campos de conhecimento possibilite a percepção de que o trabalho policial não se esgota no atendimento e registro de ocorrências, mas, é uma atividade voltada para a identificação e resolução de conflitos. Andréia Soares Pinto Coordenadora responsável pelo projeto Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Coordenadora Técnica

16 14 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL INFORMAÇÃO, ANÁLISE CRIMINAL E SENTIMENTO DE (IN) SEGURANÇA: CONSIDERAÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA 1 Ana Paula Mendes de Miranda A informação e a construção do conhecimento A informação é considerada usualmente como um conjunto de fatos (acontecimentos) e/ou dados a respeito de algo, que constituiriam o ato de informar, entendido como um processo de interação do sujeito com o mundo exterior. De acordo com a teoria da informação, enunciar uma mensagem permite a redução da incerteza sobre uma dada realidade. Nesse sentido, informar significa comunicar os fatos, tornando-os públicos, e privilegiando uma visão dos fatos como coisas, cujo relato isento propiciaria a percepção da realidade como ela é. Mas o que são dados? São elementos de informações ou representações de fatos que servem de base para a formação de uma análise, cujo resultado será influenciado por diversos fatores. O uso mais comum dos dados está relacionado à estatística. A criação da palavra Estatística é atribuída ao pesquisador alemão Gottfried Aschenwall ( ) com o sentido de ciência do Estado, que permitiria aos governantes ter um diagnóstico mais objetivo dos fatos concernentes aos seus domínios. Acreditava-se, então, que as cifras trariam mais credibilidade e legitimidade do que as descrições textuais. Tratou-se, portanto, de uma forma de conhecimento que surge como um dos elementos da teoria da arte de governar, relacionada ao desenvolvimento dos aparelhos administrativos do Estado, nos séculos XVII e XVIII. 1 Uma primeira versão deste artigo foi apresentada no Painel Políticas Públicas, Violências e Discursos, durante o Simpósio da Rede Interdisciplinar de Estudos Comparativos (RIEC): Direito, Justiça e Segurança Pública - Isaac Joseph, o espaço público e as políticas públicas, no VIII Congresso Luso- Afro Brasileiro de Ciências Sociais, em Coimbra, 2004.

17 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 15 A busca pela objetividade e neutralidade é algo já amplamente discutido na teoria do conhecimento 2, tendo sido bem demonstrada por Foucault (1990), que analisou a complexa relação entre os saberes e o poder, ao afirmar que todo saber é político, não apenas porque foi produzido pelo Estado, mas porque todo saber tem em sua origem relações de poder. A estatística entendida como ciência do Estado se constitui em um exemplo privilegiado dessa relação entre saberes e poderes, que vai desde a escolha dos temas a serem investigados até os conceitos, bem como outros aspectos metodológicos da produção de estatísticas públicas, tudo é produto de escolhas feitas pelos analistas. Assim, as estatísticas não podem ser compreendidas como uma cópia da realidade, mas sim como sínteses construídas a partir da observação das realidades. Conseqüentemente, todo recorte estatístico é constituído por diferentes interpretações de um mesmo fato, o que explica a existência de um grau aceitável e conhecido de erro, muito embora haja um discurso de que os números sejam sempre exatos. A inexatidão da informação estatística tem sido comumente interpretada como uma forma de manipulação intencional, com o objetivo de obter os resultados que interessam aos governos. Esta prática é tradicionalmente chamada de maquiagem, como referência ao hábito de utilização de produtos de beleza para disfarçar imperfeições e realçar pontos positivos, bem como para produzir máscaras e fantasias. Não há como negar que a metáfora se aplica bem a diversas formas de governos, nacionais ou internacionais, mais ou menos democráticos, que ao longo da história procuraram dissimular alguns fatos e exibir outros tantos. Porém, há que se problematizar mais a inexatidão estatística sob o risco de perdermos um instrumento de análise necessário para a construção de políticas públicas. Primeiro, é preciso se pensar para que servem os dados na segurança pública? Servem para, principalmente, orientar a administração quanto aos caminhos que deve seguir no planejamento, execução e redirecionamento das ações do sistema policial. Servem, também, para a população conhecer o que está acontecendo ao seu redor; e, depois, para que, conhecendo os dados e áreas de incidência, a população e os diferentes setores da sociedade civil possam objetivar as demandas por providências do Poder Público e contribuir para o esforço comunitário contra a insegurança. O uso da informação estatística possui um caráter estratégico porque permite dar significado a infinidade de dados que inundam a administração pública. A sua 2 Ver Kuhn (1974) e Morin (2005)

18 16 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL importância não está apenas na divulgação da informação, mas na transformação da informação bruta em algo que possa servir para orientar ações futuras. Portanto, é o contexto que vai determinar o sentido dos dados. O processo de quantificação para que seja útil à interpretação da realidade deve ser complementado pelas informações qualitativas, que fornecem mais detalhes sobre o fenômeno que se pretende estudar. A propósito da insegurança, cumpre sublinhar que os dados estatísticos das polícias dão conta apenas do que se pode chamar de (in) segurança objetiva, o que tem a ver pura e simplesmente com a quantidade das ocorrências criminais. Não dão conta da (in) segurança subjetiva, também conhecida como sentimento de insegurança (Roché, 1990 e 1998), que, independentemente dos dados objetivos, pode ser ampliada por inúmeros fatores, mas principalmente pelo impacto emocional destas ou daquelas ocorrências em função de quem seja a vítima ou o local onde tenham ocorrido. A informação como instrumento de políticas públicas O Brasil é uma república federativa, formada por 26 Estados, mais de Municípios e um Distrito Federal, cuja Constituição em vigor estabelece as competências relativas à segurança pública, no título V (Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas), em seu art. 144, como sendo um dever do Estado e direito e responsabilidade de todos, sendo exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio (Brasil, 2004) pelos seguintes órgãos: polícia federal, polícia rodoviária federal, polícia ferroviária federal, polícia civil, polícia militar e corpo de bombeiros militares 3. O Estado do Rio de Janeiro é o único do Brasil que publica mensalmente em Diário Oficial os registros de ocorrência em delegacias, de crimes ou outros eventos ocorridos em todo o seu território 4. Enquanto a cobertura de registros é de 100% no Rio de Janeiro, segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública, a média nacional é de 86%. 3 Embora as Guardas Municipais sejam citadas nesse artigo no 8, não estão listadas entre os órgãos responsáveis pela gestão da segurança pública. Por outro lado, a polícia ferroviária federal é citada, mas sua função é apenas proteger o que sobrou do patrimônio da Rede Ferroviária Federal, em processo de liquidação. 4 Essas informações estão disponíveis na internet, no site

19 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 17 Este trabalho teve início em 1999, como parte do Programa de Qualificação Estatística e Relação com a Mídia. Participaram deste projeto diversos setores da sociedade, em especial, pesquisadores que estudam a temática da violência, criminalidade e segurança pública (Governo do Estado do Rio de Janeiro, 2000). Os objetivos principais foram dar transparência aos dados; incorporar conhecimento especializado no tratamento das estatísticas, proveniente ou não de fontes policiais; e desagregar os dados por Áreas Integradas de Segurança Pública (AISP) 5, a fim de produzir mapas de risco com indicação de pontos de concentração de ocorrências de crimes. Em 2000, foi criado o Núcleo de Pesquisa em Justiça Criminal e Segurança Pública (NUPESP), vinculado ao Instituto de Segurança Pública 6, tendo como finalidades principais produzir os relatórios estatísticos sobre o sistema de segurança pública estadual, além de desenvolver e coordenar estudos sobre a justiça criminal e segurança pública, que possam contribuir para o aprimoramento profissional dos policiais. Trata-se de um órgão que pretende promover a integração entre a metodologia acadêmica de pesquisa e a avaliação institucional do trabalho policial. Tradicionalmente, a gestão dos recursos policiais e o planejamento das ações têm sido orientados apenas pela experiência e bom senso dos agentes (investigadores, inspetores e oficiais de cartório) e autoridades policiais (delegados). Nesse sentido, considera-se que a realização de diagnósticos, a definição de metas, critérios de avaliação e a elaboração de medidas de desempenho consistentes é um trabalho que pode auxiliar tanto para avaliação da qualidade desse trabalho, quanto possibilitar o gerenciamento profissional da polícia, de forma a constituir-se numa política pública de segurança. Juntamente com a divulgação no Diário Oficial dos dados estatísticos sobre a criminalidade no Estado, o Instituto de Segurança Pública (ISP) passou a publicar 5 Trata-se da correspondência geográfica entre a área de um batalhão da Polícia Militar (responsável pelo policiamento ostensivo e a preservação da ordem pública) e uma ou mais circunscrições de delegacias da Polícia Civil (exercendo as funções de polícia judiciária e apuração de infrações penais) 6 O Instituto de Segurança Pública é uma autarquia, criada em dezembro de 1999, para assegurar, gerenciar e executar a política de segurança do Estado do Rio de Janeiro, elaborando o planejamento da força policial que mais atenda às necessidades da sociedade. O ISP está vinculado à Secretaria de Estado de Segurança Pública, mas tem receita própria e gestão descentralizada.

20 18 SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL o Boletim Mensal de Monitoramento e Análise 7, a fim de dar conta à população não só do significado dos números em relação às metas estabelecidas para o setor, como também do que eles representam em relação às séries históricas sobre os crimes que mais preocupam a população. Os crimes analisados mais profundamente são: homicídio doloso, extorsão mediante seqüestro, roubo de carga, roubo e furto de veículos, roubo a banco, roubo a transeuntes, roubo a residência, roubo em coletivo e latrocínio. Estes itens foram selecionados, pela Secretaria de Segurança Pública, por atender aos seguintes critérios: Crimes violentos, assim considerados internacionalmente, principalmente o homicídio e o latrocínio; Crimes contra o patrimônio com o uso de violência - popularmente chamadas de assaltos, tais como roubo a transeuntes, roubo em coletivos, roubo e furto de veículos; Crimes passíveis de intervenção mais direta do Poder Público, razão pela qual, por exemplo, o estupro, embora mereça atenção especial, não esteja incluído entre estes crimes 8. Paralelamente, outras formas de análise são realizadas e encaminhadas às polícias, de modo a mapear as áreas e horários com maior concentração de ocorrências registradas. Essas informações não são divulgadas para não prejudicar as atividades policiais, já que são utilizadas para planejar as ações operacionais das polícias. Dando continuidade ao Programa de Qualificação Estatística foi lançada a Série Estudos, em 2005, voltada para a análise de delitos relacionados a manifestações de violências interpessoais. No primeiro número, Dossiê Mulher, abordou-se os problemas das violências sexuais e agressões físicas no Rio de Janeiro e no mundo. Os profissionais que atuam no sistema de segurança pública, tradicionalmente, trabalham apenas com dados relativos aos crimes que estão sob sua responsabilidade direta. Embora, não haja nada de errado nisso, essa postura não permite perceber a regularidade com que determinados delitos ocorrem, o que dificulta o trabalho de planejamento. 7 Também disponível no site 8 Ver Boletim Mensal, op.cit

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