TRIBUTAÇÃO ECOLÓGICA Autor: Dr. Reinaldo Martins Ferreira OAB-RJ e OAB-MG 923-A

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1 TRIBUTAÇÃO ECOLÓGICA Autor: Dr. Reinaldo Martins Ferreira OAB-RJ e OAB-MG 923-A Para se compreender a tributação ecológica é necessário que se tenha uma noção ampla da necessidade e importância que é de se proteger o meio ambiente. Nesse contexto podemos destacar a atuação de dois agentes que se contrapõem em suas ações no campo da sustentabilidade, são eles: a) os geradores de resíduos e/ou poluidores que degradam o meio ambiente; b) os gestores desses resíduos que atuam na despoluição e descontaminação do meio ambiente, portanto, são preservadores e/ou protetores. A Lei , de 2010, estabelece o princípio do poluidor pagador e do protetor (preservador) recebedor. Isso significa dizer que na construção da Tributação Ecológica, aquele que gera resíduo tem o dever de pagar pela sua destinação final ambientalmente adequada; aquele que protege, ou seja, pratica a gestão dos resíduos gerados devem receber por esse serviço público que presta em favor de toda a humanidade. É indiscutível, portanto, que aquele que tem seu empreendimento voltado à proteção do ambiente deve receber do Estado por esse trabalho e uma das formas que o Poder Público pode remunerar essas empresas despoluidoras é por intermédio da Tributação Ecológica. A vigente Constituição Federal estabelece que a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os princípios que indica, entre os quais, está a defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação. A atividade de gestão dos resíduos gerados, em todos os seus processos e cadeias, visando a destinação final dos resíduos de forma ambientalmente adequada é, indiscutivelmente, uma forma de defesa do meio ambiente e, portanto, está entre aquelas atividades que merecem tratamento diferenciado a título de incentivo. O tratamento diferenciado a que se refere nossa Constituição e que já é um direito dos gestores de resíduos com a vigência da Lei , de 2010, só se efetivará com a intervenção do Estado nesse processo. A esse respeito, o Direito ensina que o Estado pode interferir na atividade econômica de três formas, a saber: por determinação, por participação e por indução. O professor Hugo de Brito Machado, entende que: A intervenção por indução é, a nosso ver, a menos traumática. Em outras palavras, é a forma de intervenção que menos agride a liberdade das pessoas. Com ela o Estado limita-se a tornar mais vantajosa a atividade que pretende estimular, e menos vantajosa a que pretende restringir. E o tributo é o melhor dos instrumentos dos quais o Estado pode dispor para esse fim. Tal afirmativa encontra guarida em nosso ordenamento jurídico tributário, através do qual o tributo pode e deve ser um instrumento para o estímulo daquelas atividades cujo incremento seja do interesse da coletividade. Atividades que o próprio Estado há de desempenhar para o bem de todos, como é o caso da gestão de resíduos sólidos com a destinação final ambientalmente adequada, cuja atividade é absolutamente indispensável à preservação do meio ambiente, sem as quais, a saúde pública não pode ser preservada.

2 Com essas considerações já podemos estabelecer o seguinte princípio que deve servir como base para a elaboração da proposta versando sobre a tributação ecológica para gestão de resíduos sólidos, é ele: (i) O tratamento diferenciado a que tem direito os gestores de resíduos sólidos deve ser interpretado no sentido de que sobre toda essa atividade não deve ser cobrado tributo algum; (ii) Os gestores dos resíduos sólidos gerados que atuam como preservadores e/ou protetores na despoluição e descontaminação do meio ambiente, serão remunerados por esse serviço, cujos recursos devem advir da intervenção estatal, através da Tributação Ecológica, onde os preservadores serão remunerados por cada processo necessário à destinação ambiental adequada. 1 FISCALIDADE ECOLÓGICA a) Poluidor pagador O Poder Público através de seus Órgãos Ambientais possui os meios legais de conseguir todas as informações necessárias dos geradores de resíduos a respeito da quantidade e tipo de poluição que geram. É oportuno ressaltar que essa informação será obrigatória e deverá ser prestada pelos geradores aos municípios quando da apresentação do Plano de Gestão de Resíduos Sólidos. A nível nacional está sendo elaborado o Plano Nacional de Resíduos Sólidos e, para esse fim, o Ministério do Meio Ambiente nomeou o Comitê Interministerial para acompanhar e discutir o processo de elaboração e implementação do Plano Nacional de Resíduos Sólidos. Neste tocante merece especial atenção a construção do Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos Sinir, importante instrumento da PNRS previsto na Lei /2010 e detalhado no Decreto 7.404/2010. O Sinir será implementado até o final de 2012 e conterá informações fornecidas pelos Cadastros Nacional de Operadores de Resíduos Perigosos, Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais, Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental, pelos órgãos públicos responsáveis pela elaboração dos planos de resíduos sólidos, por demais sistemas de informações que compõem o Sistema Nacional de Informações sobre Meio Ambiente Sinima e pelo Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico Sinisa, no que se refere aos serviços públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos. Os resíduos sólidos urbanos (RSU) - que corresponde aos resíduos domiciliares e de limpeza urbana (varrição, limpeza de logradouros e vias públicas e outros serviços de limpeza urbana) foram os que apresentaram uma maior quantidade de informações disponibilizadas em diversos sistemas de informações de fontes oficiais (IBGE, MCidades). Compreendem uma grande variedade de temas interligados tais como a questão da logística reversa, da coleta seletiva, da atuação dos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis, da compostagem, da recuperação energética, dentre outros e referem-se a questões que apresentam maior impacto nas relações entre entes federados, em especial Estados e Municípios, com reflexos no processo de elaboração dos respectivos planos de resíduos sólidos (planos estaduais, interfederativos e municipais). O Decreto no /2010 que regulamentou a PNRS em seus artigos 53 e 54 estabeleceu o vínculo entre os planos de resíduos sólidos e os planos de

3 saneamento básico, no que tange ao componente de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos urbanos. A estrutura desta Versão Preliminar do Plano Nacional de Resíduos Sólidos constitui-se do Diagnóstico da Situação dos Resíduos Sólidos no Brasil, capítulo este elaborado pelo Ipea Instituto Pesquisa Econômica Aplicada, órgão vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. No capítulo 1 é apresentado apenas o Sumário Executivo do Diagnóstico. O Diagnóstico completo encontra-se apresentado em documentos à parte que se encontram à disposição no site do MMA e do IPEA para consulta. Como indicador de geração de resíduos resume a evolução do consumo aparente4, em peso, das embalagens dos diferentes materiais. Neste gráfico é possível visualizar a participação, em termos de massa, do papel/papelão que se destaca dos demais (4.154 mil toneladas em 2008); aço (886 mil toneladas), plástico (782 mil toneladas) e vidro (1.041 mil toneladas) apresentam a mesma ordem de grandeza, enquanto que o alumínio tem uma participação menor (347 mil toneladas).

4 Sobre o volume de resíduos gerados deve incidir um tributo, ou seja a base de cálculo do tributo ecológico para o poluidor pagador deverá ser o valor atribuído ao volume de resíduos gerados. A hipótese de incidência é a geração de resíduos sólidos. Quando o gerador, através do plano de gestão de resíduos sólidos, der destinação final ambientalmente adequada de seus resíduos gerados, o valor dessa gestão deverá ser deduzido da base de cálculo dos resíduos gerados. b Protetor recebedor A nível nacional os gestores de resíduos sólidos devem ser beneficiados na tributação direta com uma carga tributária mínima na forma como ocorre com o Simples Nacional, que poderia ser chamado de Simples Nacional Ecológico. Nos tributos indiretos, ou seja aqueles que obedecem ao princípio da nãocumulatividade (PIS, COFINS, ICMS e IPI), o benefício tributário deverá ocorrer através do crédito presumido na entrada com base no valor da última operação do resíduo gerado ou outra forma mais adequada. Esse crédito não será deduzido na operação seguinte e constituirá a remuneração do protetor recebedor. Nos casos em que a destinação final depender de vários processos envolvendo empresas distintas, como é o caso do PET, cada operação deve gerar um crédito presumido. Com relação ao ISS nos casos em que a cadeia de sustentabilidade formada com o gerador se caracterizar na forma de prestação de serviço, deve-se conseguir junto ao município uma isenção que, por questão Constitucional, a alíquota somente poderá ser reduzida para 2%. c O consumidor Em favor do consumidor o Estado pode intervir e incentivá-lo a cooperar com a coleta seletiva através de descontos nos tributos, tais como: a nível de estado, no IPVA; a nível de município, no IPTU e ISS.

5 No setor privado o consumidor poderá obter descontos em suas compras com a devolução das embalagens para reciclagem 2 AÇÕES POLÍTICAS PARA IMPLEMENTAÇÃO DA TRIBUTAÇÃO ECOLÓGICA Entendemos que a TRIBUTAÇÃO ECOLÓGICA deverá ser implementada através de uma Lei Federal na modalidade de lei complementar, em conformidade com o que dispõe o inciso III do art. 146, que cabe à lei complementar estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre: a) definição de tributos e de suas espécies, bem como, em relação aos impostos nela discriminados, a dos respectivos fatos geradores, base de cálculo e contribuintes; b) obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributários; e c) adequado tratamento tributário ao ato cooperativo praticado pelas sociedades cooperativas. Todavia, nada impede que os Estados, independentemente da União venha legislar sobre a tributação ecológica relativo aos tributos de sua competência. No entanto, entendemos não ser essa a melhor forma, pois as experiências passadas mostram que a pulverização legislativa nessa área tem acarretado vários problemas para os gestores de resíduos e o mais comum deles é conceder um tratamento fiscal a um gestor de uma determinada categoria que pode ser estendida às outras. Nos ocorre no momento que o mais indicado para a TRIBUTAÇÃO ECOLÓGICA a nível nacional seria uma legislação tributária nos moldes do simples nacional, específica para a gestão de resíduos sólidos que poderia se chamar de Simples Nacional Ecológico.

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