ARIANNE TOGASHI GONÇALVES. O CORPO E OS PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO: um Estudo sobre o Ensino da Biologia

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1 UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS - RIO CLARO LICENCIATURA E BACHARELADO CIÊNCIAS BIOLÓGICAS ARIANNE TOGASHI GONÇALVES O CORPO E OS PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO: um Estudo sobre o Ensino da Biologia Rio Claro 2009

2 1 ARIANNE TOGASHI GONÇALVES O CORPO E OS PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO: Um Estudo sobre o Ensino da Biologia Orientador: Prof. Dr. Romualdo Dias Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - Câmpus de Rio Claro, para obtenção do grau de Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas. Rio Claro 2009

3 G635c Gonçalves, Arianne Togashi O corpo e os processos de subjetivação : um estudo sobre o ensino da biologia / Arianne Togashi Gonçalves. - Rio Claro, SP : [s.n.], f. : il. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura e Bacharelado - Ciências Biológicas) - Universidade Estadual Paulista, Instituto de Biociências de Rio Claro Orientador: Romualdo Dias 1. Biologia - Estudo e ensino 2. Subjetividade no ensinar ciência. 3. Universidade. 4. Vivissecção. I. Título. Ficha Catalográfica elaborada pela STATI - Biblioteca da UNESP Campus de Rio Claro/SP

4 2 Dedicar meu trabalho. Quão injusto seria citar nomes. Se neste falo sobre a subjetividade, da constituição do meu ser, só poderia dedicar a cada ser que passou pela minha vida. Cada amigo, e muito mais, os inimigos. Cada um que passou e ficou pelo tempo que deveria, para deixar um pouco de si em mim, e talvez de mim neles. Cada sorriso, cada abraço de acolhimento para os conflitos que nós mesmos criamos. Muito mais que palavras, agradeço aos ouvidos, porque palavras muitas vezes foram desnecessárias, na verdade sempre foram. À vida, à família que construí e aos momentos que vivi nestes anos de Rio Claro, que antes pareciam tão longos, mas hoje sinto que foram curtos demais. Aqui descobri um novo significado de casa e família, pois pude ser quem sou nua e sem máscaras. Agradeço ao melhor presente que poderia receber: a lembrança. A lembrança de viver cada momento aparentemente tão simples: Acordar cedo para ir à aula, e perceber que a melhor aula que tive, foi aquela que sai da sala com o amigo e passei o tempo inteiro desta conversando, sem nem perceber as horas passando, porque para mim esse é quem possui o conhecimento: Quem vive o que fala! Agradeço a oportunidade de estar e viver o maior e melhor centro de produção de conhecimento: o mundo. À academia, por ter sido o cenário de todos esses encontros. À família que desde o princípio dessa caminhada sempre me fortaleceu com palavras, paciência e amor. Pelo respeito em aceitar minhas escolhas, por mais que meus caminhos não foram como os sonhados. Aqui aprendi o valor da vida, aprendi a respeitá-la, independente da forma com que se apresenta no mundo. Àquele que sempre, sempre mesmo, esteve do meu lado, fisicamente e espiritualmente. Quem me mostrou a vida e o mundo como é, quem abriu as portas da minha gaiola, e me ensinou o prazer de viver a vida como ela é, sem me proteger, e assim descobri o que é amar. Cada conforto e cada confronto que me proporcionou. Por ser amigo, companheiro, confidente e amante. À minha filha, uma gatinha vira-lata que sem nunca ter dirigido uma palavra a mim, com seus olhares sempre impôs suas vontades e insatisfações, e a todos os bichos que convivi que me ensinaram ao longo de minha vida que os humanos estão longe de ser o animal mais evoluído. Mesmo sem citar nomes sei que cada um que é importante em minha e vida, se identificará em alguns dos sentimentos colocados aqui.

5 3 Sumário Resumo... 4 Apresentação... 5 Introdução... 6 O Projeto Arquitetônico de Biologia Institucional... 9 A Taxonomia A Fisiologia O Sensível de Biologia e os cientistas de Alma A Medicina A Medicina Antroposófica, A Homeopatia e o Vitalismo Crer e Saber Objetos de Estudo/Vítimas da Ciência Simulações: Projetos de Pesquisa e Objetos de Estudo A Vida Transgênica Transformar ou Conservar Conclusão Referências Bibliográficas ANEXOS Depoimento Aluno A Depoimento Aluno B Depoimento Professor A Depoimento Professor B... 44

6 4 Resumo Esta pesquisa analisa a concepção do corpo a partir dos aspectos que explicitam suas implicações sobre as metodologias empregadas nas práticas de ensino em estudos biológicos como, por exemplo, a vivissecção, bem como sobre os efeitos observados nos corpos dos estudantes. Nossa pesquisa delimita o seu objeto de estudo em um recorte que considera a dinâmica de constituição do corpo em sua dimensão material, esta que se assenta nas condições biológicas do existir humano. Propusemos outra passagem pelo trânsito de territórios nos quais os nossos corpos se investem de simbolismo e de elementos oriundos do universo cultural. Esta passagem na metodologia da análise implica nossa condição de pesquisadores situados na fronteira que se desenha entre os estudos da Biologia, Filosofia e Psicanálise. Consideramos o corpo em sua constituição, mas analisamos os modos como esta base material vem sendo tratada nos processos de subjetivação da sociedade contemporânea. Assim, nosso recorte incide sobre o corpo que se faz no espaço que cada sujeito abre para as relações com a alteridade. Acrescentamos que ao optarmos pelo estudo sobre políticas de subjetivação a partir de suas implicações corporais, observamos o cuidado com este corpo que padece, não somente por um aspecto físico, compreendido como participante da ecologia da natureza, mas também como aquele que sustenta os sentimentos, emoções, compreendido como a ecologia dos ambientes grupais e o aspecto da constituição de si, compreendido como a ecologia do ambiente subjetivo.

7 5 Apresentação Considero importante, para início de conversa, expressar a motivação em realizar esta discussão, uma vez que questionamos sobre a impessoalidade e rejeição da subjetividade no processo de ensinar e executar a ciência. Este trabalho é resultado de esforços de pensamentos a partir de uma inquietação, um desconforto que me acompanhou por todos os longos anos de graduação. Muitas vezes isso ocorreu sem perceber o que estava realmente errado, talvez fosse por estar sentindo ao invés de racionalizar. O que me motivou a estudar Biologia se mostrou um empecilho a realizá-la com o bom desempenho esperado. Meu amor pela vida, por um animal, por uma planta gerou desconfortos, para mim, conseqüentemente para alguns professores e muitas discussões com colegas, uma vez que minha intencionalidade era incoerente com a verdade da ciência, a verdade comum. Coloquei-me a questionar muitas vezes minhas dificuldades, mas hoje acredito que muitas destas não eram por incompetência de habilidades, mas sim por uma incapacidade de me adequar, me moldar aos padrões exigidos de um biólogo, um cientista racional desprovido de qualquer influência de sua vida pessoal, de sua história, de seus amores. Fiz biologia por que amo a vida, e qualquer forma de vida, não hierarquizei o valor desta a partir de sua espécie e por um fim científico. Sou apaixonada pela vida e não pela ciência que a estuda através da morte. Escrever este trabalho foi um desafio. Permeia as idéias geradas por sensações. Acredito que esta busca de uma razão, seja diferente das muitas outras razões vistas na ciência. É a razão com a raiz na emoção, que procura uma compreensão para buscar novos modos de se relacionar com ela. Criamos imagens, cascas, rótulos e nos apegamos a eles. Conseguir enxergar o que talvez não queira ver, mesmo estando tão próximo, tão próximo que não dá para encostar, tão dentro, tão misturado com tantos outros sentimentos, sensações e pensamentos.

8 6 Introdução As inquietações, os desconfortos sentidos na pele, o não se sentir em casa, o questionar e procurar esclarecer, buscar e se reinventar, todos estes aspectos nos acompanham em nossos estudos sobre as implicações que uma determinada concepção de corpo, empregada nos métodos didáticos, tem para o processo educacional. Tomar consciência de que somos feitos de muito mais do que imaginamos ser, e muito além do que nos ensinam na escola se constitui em um desafio para quem transita nestas fronteiras de estudos interdisciplinares que aqui propomos realizar. Tudo que se é se perde quando meu corpo, este que é finito, padece? Nossas relações, nossas experiências construída por toda uma vida, permanece para constituição de si, para que então, possamos permanecer imortais em cada uma das nossas relações. É o infinito dentro do finito, são sentimentos dentro de um corpo, é a mente e o corpo que não se pode distinguir, separar, classificar, dizer onde começa ou termina. Será que somos somente sistemas que realizam funções básicas para nos mantermos vivos como espécie? A vida é nascer, crescer, reproduzir e morrer? Questiono aqui essa visão de um corpo que sustenta somente as necessidades biológicas, que não sente, não pensa, não se relaciona, não faz parte do mundo e o mundo dele. Somos feitos de um corpo, que necessita sim, de um suporte para respirar, mas o que é respirar? Encher de ar os pulmões, para que trocas gasosas sejam feitas através de alvéolos? E em seguida, expirar para eliminar os gases tóxicos? Respirar, também pode ser um contato mais próximo do mundo, e o mundo com o sujeito, como uma inspiração que possa expandir o corpo, o ventre para o mundo, e em uma expiração contrair, um pouco mais do mundo para dentro de mim, estando assim, mais voltado ao meu interior. Respirar pode ser muito mais do que o aprendido na escola, mas também a ter um pouco do outro em si. Aprender a respirar é estar em contato com o outro, com o seu ambiente, e também, estar em contato com a constituição de si.

9 7 Em tempos do mundo global, a busca por uma identidade, nos torna suscetíveis às intenções das máquinas produtoras de signos, moldando as relações e as reduzindo a formas pré-estabelecidas, tornando assim, o consumidor uniforme, fácil de ser manipulado e persuadido a consumir produtos, marcas, imagens e comportamentos. A intenção destes mecanismos é a de produzir a ilusão de inclusão no mundo atual. Regina Favre, expressa este empobrecimento da biodiversidade subjetiva como fast forms, nos poupam tempo, esforço e angústia de buscar quem e como ser e viver no mundo a partir da nossa relação com os acontecimentos. A Biologia em sua visão mecanicista, também estabelece sua relação com o animal (não humano), de forma instrumental: ratos de laboratório, sapos, cães e gatos, instrumentos de aula prática, rompe-se aqui a alteridade com outras formas de vida, rebaixando-as à uma involuntária devoção aos interesses do homem. Como os alunos, recebem essa metodologia de ensino prático? O quanto ela é prática e eficaz? Essas metodologias usadas a milhares de anos vêm sendo reproduzidas, sem mais serem questionadas, é a reprodução do pré-estabelecido. Guattari critica esses mesmos procedimentos, no corpo da psicanálise, diz que é necessário reorientar conceitos e práticas para fazer deles outro uso, para desenraizá-los de seus vínculos pré-estruturalistas com uma subjetividade totalmente ancorada no passado individual e coletivo. É preciso reinventar novos métodos de ensinar a Biologia (do Grego: bíos, vida + lógos, tratado) sem ser através da morte, de forma que estas experiências práticas se corporifiquem no aluno de modo eficaz e não agressivo, fazendo-se assim presente no estudo biológico o uso da ecosofia, proposta por Guattari, onde trata de possibilitar novos valores rompendo com a subjetividade capitalista. A intenção deste trabalho é enriquecer o debate do porque do modo de vida humano individual e coletivo, permanecer ossificado por uma espécie de padronização de comportamentos. É a relação da subjetividade com a exterioridade seja ela social, animal, vegetal, cósmica que se encontra assim comprometida numa espécie de movimento geral de implosão e infantilização regressiva. A alteridade tende a perder toda a aspereza 1. Como, por exemplo, a prática de 1 Guattari, F. Página 8

10 vivisseção em aulas de biologia, que despreza essa relação com a vida do animal não humano. 8

11 9 O projeto arquitetônico da Biologia institucional A individualidade do corpo aberto perde-se e se dispersa na pluralidade dos órgãos. (Michel Tibon-Cornillot) A Biologia moderna, institucional, desenvolveu-se nos moldes da teoria mecanicista da vida, inspirado em René Descartes, no século XVII. Esta teoria visando à análise científica racional afirma que as plantas, animais, inclusive os corpos humanos são autômatos, como máquinas semelhantes ao relógio. Na quinta parte do Discurso do Método, ele faz uma descrição fisiológica - o corpo é uma máquina de terra, e suas funções dependem das funções dos órgãos. Supunha-se que a mente se comunicava com o corpo-máquina por uma glândula cerebral, estabelecendo assim a interação entre espírito e matéria. Outra forte influência de Descartes na biologia acadêmica foi a do método reducionista, em que a compreensão de um fenômeno ou a solução de um problema estava ligada a necessidade de dividir as dificuldades em quantas partes fosse necessária para resolvê-las, além de conduzir com ordem os pensamentos, começando com os mais simples e seguindo para os mais complexos e então fazer uma síntese da realidade complexa, que foi decomposta em partes menores. A última etapa consiste em fazer toda enumeração, classificação e revisões para nada se omitir. Foi nestes moldes que a ciência moderna se estabeleceu, criou suas verdades e deu grande impulso à tentativa de limitar o fenômeno da vida ao nível molecular, prestigiando, dando status às pesquisas voltadas à biotecnologia. Enquanto isso, áreas de investigações holísticas ocupam posições insignificantes na hierarquia da ciência, como por exemplo, a etologia, estudo do comportamento animal, em que não somente a matemática pode explicar e provar. É necessário quebrar barreira do ceticismo para compreender um fato. Como as questões levantadas sobre como os pombos sabem o caminho de volta para casa, ou como o animal de estimação sabe que você está a caminho de casa. A verdade é que os mecanicistas sempre temeram, e continuam a temer, que a

12 10 aceitação da realidade de algo misterioso ou místico na esfera da vida implique o abandono das certezas laboriosamente adquiridas pela ciência. 2 O todo não é somente a soma das partes, existe algo de não palpável ou visível à racionalidade humana, que liga estas partes dando o que chamamos de vida. É como se partes de um corpo seccionado, uma vez remontado pudesse ser chamado de corpo, de vida novamente. Então, como podem biólogos, quererem compreender a vida, se para realizá-la fazem em suas práticas perder-se o fenômeno que buscam estudar? Não é possível ciência nenhuma explicar a vida, pois esta não consiste somente em um funcionamento sistêmico de diversos órgãos trabalhando juntos, mas também de uma vida subjetiva, ainda que a busca de uma explicação para a vida funcional seja através de práticas que fazem que o foco de estudo se perca pelo método realizado. Como estudar a vida através de vivisseções? Desmontar animais e plantas pode dar uma vaga noção das estruturas materiais que sustentam a vida, mas nunca provaram e nunca irão provar através destes métodos o verdadeiro significado de vida. A natureza é feita de organismos, não de máquinas. E não só apenas os organismos vivos, mas também os sistemas não biológicos, como as moléculas, as galáxias, o cosmos. 3 Através da fragmentação, o método reducionista, facilita a quebra na relação de subjetividade do pesquisador com a vida, uma vez que manipular estruturas (órgãos, tecidos, células) cada vez mais específicas o distancia de um questionamento ético em relação ao seu objeto de estudo. O problema é posto ao acreditar que os resultados obtidos nos extratos inferiores possam possibilitar uma compreensão dos níveis mais complexos. Cada nível inaugura um funcionamento, um conhecimento específico. Pode dizer-se num certo sentido que a fronteira que separa o vivo da matéria é feita de uma série de fronteiras que se articulam entre si num sistema de encaixamento cujo conhecimento de conjunto poderia permitir a definição do vivo. 4 A partir disso, vemos, hoje, os estudos biológicos erguidos e sustentados sob as idéias reducionistas, mecanicistas e antropocêntricas. 2 Sheldrake, R. Página 20 3 Sheldrake, R. Página 21 4 Tibon-Cornillot, M. Página 75

13 11 A TAXONOMIA Todo o estudo da biologia desenvolveu-se graças à taxonomia, uma tentativa de por ordem ao caos, pois acreditavam que sem ela não poderia haver ciência ao contrário, cada estudo se limitaria a desenvolver um saber para cada indivíduo. É nesse sentido que Buffon afirma: de fato, na natureza só há os indivíduos; e os gêneros, as ordens e as classes só existem na nossa imaginação. 5 Carl von Linné, no século XVIII durante a grande expansão da história natural, buscou classificar os seres vivos em uma hierarquia. Linné pesquisou o caráter constituinte, a marca própria da planta e animais. Segundo Cornillot, tratava-se na verdade de caracterizar as propriedades comuns a certos indivíduos, através das quais eles se distinguem dos outros. Ao aplicar este processo de classificação, os biólogos passaram a reduzir o ser vivo, à seu caráter. 6 Ao só considerar um caráter, ao nomeá-lo, ao retê-lo sozinho no espírito; em suma, ao reduzir a planta ao caráter, o pensamento liberta-se do caos das imagens sensíveis. Pode então efetuar o seu trabalho de classificação. (...) É reduzindo o campo perceptivo, concentrando a atenção em um caráter, que num mesmo movimento se privilegia uma seqüência perceptiva, e se forja um conceito classificatório 7. Esta é a verdade aplicada na ciência, que diz sempre basear-se em fatos e provas. A manipulação da verdade é sempre omitida ou justificável aqueles que crêem nela! Onde a ciência se diferencia dos mitos religiosos? A taxonomia começa, portanto, a ordenar o visível a partir de uma procura dos elementos hierarquicamente mais fundamentais, num movimento de redução que passa do conjunto individual ao estudo das suas partes. Para ordenar o visível, fez-se importante o estudo das partes, as características visíveis dos seres vivos, é este ramo da pesquisa biológica que vai fazer nascer a fisiologia e dominará o fim do século XVIII 8 5 Tibon-Cornillot, M. Página 45 6 Tibon-Cornillot, M. Página 46 7 Tibon-Cornillot, M. Página 46 8 Tibon-Cornillot, M. Página 46

14 12 A FISIOLOGIA Neste processo de classificação da vida em grupos que possuíam UMA ou poucas características em comum, teve como conseqüência a análise das características destes indivíduos. A fragmentação do organismo vivo em órgãos, tecidos, células, cromossomos e genes, permitiu que os reducionistas estabelecessem uma continuidade fundamental entre a matéria e o vivo. Procuram a partir dos elementos fundamentais do vivo, agir sobre eles, a fim de provar experimentalmente a justeza das hipóteses iniciais, orientar a sua dinâmica para objetivos científicos, técnicos ou econômicos. 9 Algo que chamou muito minha atenção nos anos de estudo na graduação foi perceber a contradição de hábitos pessoais e as práticas profissionais, de alguns de meus professores, que em muitas conversas mais individuais, íntimas, percebia a influência religiosa de seus discursos, mas a partir do momento em que são professores ou pesquisadores, deixam de lado suas crenças, suas ideologias e vestem as verdades da ciência. Em uma primeira aula prática, de uma disciplina, em meu último ano de graduação, lembro-me do professor explicando o procedimento do experimento de aula, em que animais seriam submetidos a uma prática vivissecionista, foi quando percebi que mais uma vez, teria que explicar meu posicionamento perante a prática a ser realizada. Após o término da explicação, procurei o professor em particular para explicar minha posição não favorável à prática executada em aula. Procurei ser educada e não ofensiva como muitos em minha posição seriam, e como Newton já havia dito, toda ação tem uma reação, e mesmo que nossas relações não possam ser colocadas em fórmulas acredito que não foram de mesma intensidade, antes mesmo que pudesse explicar meus motivos o professor se armou contra mim, a ponto de eu já sensibilizada com a situação começar a chorar. Neste ponto, já não tinha mais razão que me colocasse a altura de uma argumentação de meus pontos. Então, fui obrigada a me sentar com colegas e realizar o experimento, neste momento a única coisa que conseguia fazer era chorar. Chorava, por me sentir frágil e impotente por 9 Tibon-Cornillot, M. Página 116

15 13 não fazer na prática o que acredito, sei que poderia ter me recusado, mas minha fragilidade e muitas outras coisas influenciavam aquele momento, aquele rebaixamento de meus princípios. Aquela contradição interna e externa, que me remoia em meus sentimentos e em meus pensamentos. E esta experiência se mostrou exemplo da inutilidade desta prática, nenhum aprendizado pode ser fixado, pois estava tão nervosa que não conseguia me concentrar nos conhecimentos que o professor quis transmitir. Aulas práticas, em geral, devem ser estudas e realizadas com cautela para não causarem efeito contrário ao desejado! E simplesmente, por uma aula não ter sido realizada com giz e lousa, não quer dizer que seja prática. Uma aula prática tem de promover uma vivência positiva no desenvolvimento do estudante e não ser uma alternativa para entreter o aluno ou para preencher uma aula que o professor não pode comparecer. Mas esta história ainda tem outro ponto importante a ser discutido. O professor, em meio a sua euforia, pensou que meus motivos eram religiosos e disse: Eu também sou católico, mas o que posso fazer? Esse é meu trabalho!. O que posso eu fazer ao ver tanta incoerência? Porque tantas máscaras? Quando quis tirar a máscara, Estava pregada a cara 10. É isso que acontece, procuramos máscaras que combinem com a roupa 11 que usamos. Os cientistas não percebem as diferenças e particularidades de cada indivíduo, tanto fisiologicamente, quanto psicologicamente, mas se diferenciam quanto indivíduos pessoais e profissionais, são pessoas diferentes com histórias diferentes. O contexto de cada lugar dita as regras de como devem se comportar. É para isso que servem as máscaras e as roupas: elas nos permitem vestir diferentes subjetividades, vestir a alma com novos trajes, ser o que for mais aceitável ser em cada contexto social. A subjetividade não está sendo entendida aqui como coisa em si, essência imutável e centralizada no indivíduo, mas como produção social. Ela é essencialmente fabricada e modelada no registro do social e assumida por indivíduos em suas existências particulares. 12 O pesquisador se fragmenta em profissional e pessoal, deixa em casa seus valores seus princípios e ao vestir seu jaleco, veste também a racionalidade científica. 10 Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), A Tabacaria, Barcelos, T. M., Guattari, F. & Rolnik, S. Micropolítica Cartografias do Desejo. 1986, PP 31-34

16 14 O sensível da Biologia e os cientistas de alma. Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso Charles Chaplin MEDICINA Nos cosmos antigos e medievais, o corpo humano foi o mais das vezes concebido como um microcosmo ligado ao mundo, ao macrocosmo, formando com ele uma totalidade inseparável. (...) Com efeito, como a Lua influencia tudo o que sobre a Terra releva do úmido, um cirurgião que se atrevesse a incisar um corpo quando a Lua se levanta correria o risco de não conseguir parar a hemorragia. 13 Culturas antigas, não se colocavam a parte da natureza, percebendo a confluência entre fenômenos naturais e as respostas de seus corpos. Hoje, a natureza é ensinada como algo verde e distante, quando na verdade somos nós! 14 Intervir sobre, e no corpo, era assim intervir num sistema de força transcendente. Hoje, a maioria dos bebês são encaminhados ao mundo de forma impositiva, nem mesmo em um primeiro contato com a nova vida, respeitam nosso tempo natural. Por que tantos nascimentos de crianças sadias, de mães sadias, são feitas através de intervenções médicas? Quais as razões? Mulheres se anestesiam para não sentir o nascimento de seus filhos, submetem-se a um procedimento cirúrgico, marcam data. Durante milhares de gerações, os homens não escolheram nem o dia do nascimento dos seus filhos, nem a sua organização genômica. Podiam, é certo, suprimi-los à nascença, ou pouco depois (nunca se privaram dessa prerrogativa), 13 Tibon-Cornillot, M. Página Daniel DeLamonica

17 15 mas estas duas marcas do destino, o nascimento e a constituição biológica, estavam fora do alcance. Agora, deixou de ser assim. 15 A natureza, o cosmo, as forças externas ao nosso poder (que a ciências nunca aceitou), tem cada vez mais perdido espaço e importância nas vidas das pessoas. Não queremos participar nem mais do nascimento de nosso próprio filho. Esta é mais uma forma de mecanizar e mercantilizar a vida. A MEDICINA ANTROPOSÓFICA, A HOMEOPATIA E O VITALISMO Podemos perceber que os saberes tradicionais sob as plantas curativas, popularizadas como simpatias ou mesmo magias, foram distanciadas dos modelos e práticas científicas, desvinculando-as de um saber institucionalizado. O conhecimento intrínseco (inerente), ou a sensibilidade do ser curandeiro, xamã ou mago, para com estes elementos, foram rebaixados pela formalização da ciência. No entanto, os estudos de fármacos, à medida que aperfeiçoa os métodos de análise, estão sendo levados ao conhecimento tradicional de plantas medicinais e descobrem nelas os efeitos já antes previstos pelos curandeiros. Para Paracelso ( ), a análise terapêutica das plantas se baseia numa teoria geral de correspondências de sinais, caracteres, tintas, que se inscreve numa harmonia universal, o princípio trinário divino com as três divisões do universo mundo inferior, astral, divino, as três partes do homem espírito, alma, corpo -, as três forças constitutivas enxofre, mercúrio, sal. 16. Esta situação pode ser muito bem exemplificada através da Medicina Antroposófica, sendo na maioria das vezes, aplicada pela Homeopatia. Assim como Paracelso, Haller ( ) via o ser humano como um composto trimembrado, formado pelo corpo, pela força vital 17 e por uma alma espiritual pensante. A idéia se opunha ao mecanicismo já então hegemônico, que apresentam a vida como fruto da organização dos sistemas materiais que lhe servem de base. Haller a partir de sua idéia de força vital deu base para que Samuel Hahnemann ( ), no seio do romantismo Alemão, origina-se a Homeopatia. 15 Tibon-Cornillot, M. Página Tibon-Cornillot, M. Página Força Vital (Lebenskraft) é a força sem a qual a vida não poderia ser explicada. Tratar-se-ia de uma força específica, distinta da energia, estudada pela Física e outras ciências, que atuando sobre a matéria organizada daria como resultado a vida.

18 16 A grande arte da homeopatia consiste em encontrar o padrão de força vital natural que possa agir de forma singular e terapêutica sobre a força vital do paciente: o medicamento único. Há aqui a afirmação enfática do indivíduo, da individualidade. Cada indivíduo tem um medicamento. 18 No intuito de encontrar o medicamento único específico para cada indivíduo, Hahnemann, seguiu o pensamento de Hipócrates, o pai da medicina: Similia similibus curentur (os semelhantes curam os semelhantes). Este pensamento, de uma forma diferente, já era muito antes aplicado pelos curandeiros de comunidades tradicionais que acreditavam que os benefícios para o homem procurados nas plantas podem deduzir-se da sua semelhança com o homem, com o seu corpo, com o seu aspecto, assim com as patologias que o deformam. 19 Já a Medicina Antroposófica explica essa atuação do medicamento semelhante a partir da inversão do processo da substância material através da sua dinamização. Uma substância que contrai, faz expandir, se dinamiza ou vice-versa. Steiner (1980) observou que qualquer substância, ao ser dinamizada, vai libertando as suas forças formativas. Nas dinamizações baixas, manifestam-se aquelas forças comuns de coesão da matéria. 20 A conquista da Homeopatia por um espaço na medicina foi de grande importância, pois resgatou e reinventou uma ciência que atribui valores subjetivos ao corpo e à vida, respeita a individualidade de cada doença e não a reduz ao mau funcionamento de um órgão, uma peça, mas estabelece uma relação emocional, espiritual da cura com a enfermidade, esta que muitas vezes está muito mais relacionada ao ritual da cura do que no próprio principio (ativo). Remédios alopáticos funcionam como as medidas política. Ambos procuram mascarar a real causa da doença tratando os sintomas e não a causa dos sintomas, isso por que não conseguem enxergar (literalmente) o que liga a vida ao corpo material. O objetivo da descoberta já mudou de foco, não é mais a busca descoberta da cura, pelo conhecimento, mas sim pela glória e status que a descoberta traz. 18 Moraes, W. A. 2005, Página Tibon-Cornillot, M. Página Moraes, W. A. 2005, Página 349

19 17 CRER E SABER Há milênios o homem faz biologia sem o saber. Os gestos do cultivador, do horticultor, a reprodução por estaca, o alporque, a enxertia ou também os do criador surgiram com a civilização e aperfeiçoaram-se com o progresso dos seus meios e necessidades. Os antigos souberam rapidamente tirar partido das fermentações para preparar o vinho, o pão, os queijos. Aprenderam a utilizar o sal, o fumeiro, o frio para preservar os seus alimentos e dar-lhes mais gosto e realce 21 Somente agora, e bem devagar, a ciência começa a dar valor ao conhecimento tradicional. Este conhecimento tem um poder transformador na ciência, pois trás ao meio científico um aprendizado desenvolvido ao redor de uma história, uma subjetividade de cada observador aprendiz. Que através de práticas tradicionais, no convívio familiar aprende muito mais que informações técnicas. Não se limita a acreditar em uma verdade dita, mas observa, vivencia cada novo aprendizado, é essa emoção, essa vivência que falta no biólogo, no cientista, que mais acredita do que sabe. Essa diferença entre crer e saber coloca a ciência como qualquer religião, pois ela não sabe, crê. Por exemplo, qualquer pesquisador que usa o conhecimento ou informações de outra pesquisa feita, toma por base, conclusões alcançadas por outro cientista, mesmo que ele não a tenha realizado, vivenciado. Ela ambiciona alcançar o saber a partir da crença em teorias e métodos que por muitas vezes o torna fragmentado. O argumento contrário diz sobre a imutabilidade das verdades religiosas mas então a verdade da ciência, não pode ser chamada assim, pois esta é imutável. São sempre hipóteses. A verdade é uma percepção sobre algo, que tem sua validade em um determinado espaço e tempo. OBJETOS DE ESTUDOS / VÍTIMAS DA CIÊNCIA O modelo cartesiano emergente influenciou o início dos estudos biológicos e o desenvolvimento da ciência. Este decompõe, desmonta, o que acreditavam serem máquinas, já não sabiam olhar a totalidade do ser estudado, e é ainda hoje visto como objeto de estudo. As ciências ocidentais apareceram num contexto em que a ruptura entre o vivo humano e os outros vivos era uma evidência. Os animais e vegetais podem e devem ser instrumentalizados François Gros, 22 Tibon-Cornillot, M. Página 246

20 18 O cientista trata a vida como objeto para separar a vida subjetiva, do corpo material, assim o reduz a um corpo-objeto com função de servir a ciência. Estranho é viver em épocas de intensas e rápidas transformações tecnológicas e sociais, e ainda ter padrões de pesquisa tão antigos, precários e ineficientes. Tantas substituições tecnológicas são feitas no mercado, por que não aprimorar, inovar, reinventar um recurso de pesquisa tão utilizado? Será porque atribuímos um valor financeiro a vida de uma cobaia? E ele vale muito menos que inovações tecnológicas? O objetivo da descoberta já mudou de foco, não é mais a busca descoberta da cura, pelo conhecimento, mas sim pela glória e status que a descoberta traz. SIMULAÇÕES: PROJETOS DE PESQUISA E OS OBJETOS DE ESTUDO A fragilidade dos sentidos que participam na percepção do mundo exterior já fora analisada numerosas vezes pelos filósofos antigos: a dificuldade de distinguir a alucinação, a miragem, o simulacro, o logro, da realidade perceptiva foi compreendida há muito tempo. (...) A ciência cria situações perceptivas ilusórias cuja qualidade seja suficientemente consistente para provocar a adesão do julgamento que conceda a tais recepções perceptivas um estatuto de realidade. (...) Trata-se de levar até aos sujeitos perceptivos acantonados na particularidade da sua visão e do seu corpo, a multiplicidade de outras visões e de outros mundos nos quais podem finalmente participar 23 O imaginário é tão consistente (convincente) que o ilusório se torna real. Na ciência a simulação tomou a forma dos projetos científicos, e a simulação não atravessa a possibilidade da realidade. Trabalhos científicos bem elaborados, premiados, mas que são incompatíveis com a realidade do meio social e político envolvido (inseridos). Qual é o papel da ciência dentro da realidade vivida? Para quem essa ciência é exercida? Mais uma vez, simulações, o imaginário da ciência no paradoxo dela mesma. Pesquisa de medicações, manipulações genéticas e outras maravilhas da medicina experimental realizadas em animais não humanos, com fins humanos. Somos iguais a um rato? Não somos iguais a nos mesmos, seres humanos. Então como podemos especular resultados em seres tão diferentes de nós? A 23 Tibon-Cornillot, M. Página 245

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