Tatiana Guimarães Ferraz Andrade 1

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1 Principais Mudanças no regime de trabalho determinadas pela Lei /15 e seus impactos no dia-a-dia das transportadoras e dos motoristas de veículos de cargas e de passageiros Tatiana Guimarães Ferraz Andrade 1 A lei /15 foi sancionada pela Presidente Dilma Rousseff em 02/03/2015, atendendo às pressões dos caminhoneiros, os quais realizaram protestos e bloqueios nas principais rodovias do país na semana anterior. O texto da lei foi publicado no Diário Oficial 2 do dia 03/03/2015, com início de sua vigência após 45 dias. A lei regulamenta a profissão dos motoristas profissionais, mas tal assunto já foi objeto de regulamentação pela lei /12, conhecida como Lei dos Caminhoneiros. Contudo, desde sua publicação, a lei enfrentou diversas críticas em razão das dificuldades enfrentadas para aplicação das propostas, principalmente em decorrência da jornada de trabalho dos motoristas, o que acabou gerando aumento de custos pelas empresas, já que estas tiveram que fomentar o número de funcionários que pudessem cobrir os intervalos de descanso e a redução da jornada determinados pela legislação, sem contar o aumento do passivo trabalhista para aquelas que não conseguiram se adaptar às transformações. Assim, o novo projeto de lei passou a tramitar no Congresso Nacional, de modo a atender às reinvindicações da categoria. Ocorre que a sanção presidencial, sem vetos, trouxe nova polêmica à matéria, já levou em consideração o apelo das manifestações nas rodovias, ignorando a necessidade de se debruçar sobre os impactos das medidas a longo prazo. 1 Advogada. Especialista em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestre e Doutoranda em Direito do Trabalho e da Seguridade Social pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Leciona na Escola Superior de Advocacia (ESA OAB-SP). Palestrante e autora de diversos artigos publicados em sites, jornais e revistas especializadas e do livro As novas faces da subordinação e os impactos no Direito do Trabalho. Sócia de Ferraz Andrade Advogados. Site: 2

2 O pacote de mudanças inclui inúmeras concessões à classe como o congelamento do preço do diesel por seis meses, o perdão das multas por excesso de peso dos últimos dois anos, a suspensão do pagamento do financiamento e a isenção de pedágios sobre os eixos suspensos dos veículos que circularem vazios, dentre outras. Todos os tópicos acima destacados já são objeto de discussão pelas partes envolvidas, em especial quanto à isenção do pedágio, já que tal custo certamente será repassado aos demais usuários das rodovias. Sob o enfoque trabalhista, a lei trouxe diversas alterações, buscando abarcar, em especial, todas as situações que se relacionem com a jornada de trabalho dos motoristas profissionais empregados (de transporte rodoviário coletivo de passageiros e de transporte rodoviário de cargas). Em decorrência, foram alterados diversos artigos da CLT e do Código de Trânsito Brasileiro, sendo os principais pontos: a) JORNADA DE TRABALHO (FIXAÇÃO E INTERVALO PARA DESCANSO) A jornada diária será de 08 (oito) horas, permitindo-se a prorrogação por até 02 (duas) horas diárias ou (inovação da lei) por até 04 (quatro) horas, se previsto em acordo ou convenção coletiva (art. 235-C da CLT). É vedado ao motorista dirigir por mais de 5 (cinco) horas e meia ininterruptas, sendo necessários 30 (trinta) minutos de descanso dentro de cada 6 (seis) horas para o transporte de carga e 30 (trinta) minutos de descanso a cada 4 (quatro) horas na condução de veículo rodoviário de passageiros, sendo facultado o fracionamento e o tempo de direção, desde que observado o limite máximo de condução (art. 67-C do CBT). O tempo efetivo de trabalho permanece como aquele que o motorista estiver à disposição do empregador, excluídos os intervalos para refeição e descanso, além do tempo de espera (novidade) (art. 235-C, 1º, da CLT). O adicional para pagamento das horas extras permanece o previsto na Constituição Federal (salvo se houver norma mais vantajosa prevista em convenção ou acordo coletivo) e admite-se a compensação de horas (o chamado, banco de horas, instituído por acordo ou convenção coletiva - 5º do art. 235-C).

3 Em situações excepcionais (não tratadas pela lei), mas desde que registradas, a jornada supra poderá, ainda, ser elevada pelo tempo necessário até que o veículo chegue ao um local seguro ao seu destino e desde que não comprometa a segurança rodoviária (art. 235-D, 6º, da CLT). O empregado é responsável pela exatidão das informações contidas nas anotações de bordo ou no registrador instantâneo de velocidade e tempo, ou nos rastreadores ou sistemas e meios eletrônicos até que o veículo seja devolvido à empresa (art. 235-C, 14, da CLT). Salvo previsão contratual, a jornada de trabalho do motorista não tem horário fixo de início, final ou de intervalos (art. 235-C, 13, da CLT). b) INTERVALO PARA REFEIÇÃO E DESCANSO Previsão de intervalo mínimo de 1 (uma) hora para refeição (art. 235-C, 2º da CLT), com a novidade de que este período poderá coincidir com o tempo de parada obrigatória do veículo e prevendo como exceção deste intervalo mínimo, a redução ou fracionamento quando compreendidos entre o término da primeira hora trabalhada e o início da última hora, desde que previsto em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho (art. 71, º 5, da CLT). Não será computado na jornada ou devida qualquer remuneração o período que o motorista ou seu ajudante permanecerem descansando dentro do veículo no período de descanso espontaneamente (art. 235-C, º da CLT), No caso de transporte de passageiros, é facultado o fracionamento do intervalo de condução do veículo em períodos de no mínimo 5 (cinco) minutos, bem como a lei determina que será assegurado ao motorista intervalo mínimo de 1 (uma) hora para refeição, podendo ser fracionado em 2 (dois) períodos e coincidir com o tempo de parada obrigatória (art. 235-E, II e II). c) INTERVALO INTERJORNADA Dentro do período de 24 horas, são asseguradas 11 horas de descanso, podendo ser fracionadas, e podem englobar os períodos de parada

4 obrigatória, desde que seja garantido o mínimo de 8 horas ininterruptas no primeiro período e o gozo do restante dentro das 16 horas seguintes (art. 235-C, 3º da CLT).. O motorista apenas poderá iniciar nova viagem se observado o intervalo supra (art. 67- C, 6º do CBT). Caso o motorista tenha que acompanhar o veículo transportado por qualquer meio e considerando que o veículo disponha de leito ou a embarcação, este tempo será considerado como tempo de descanso (art. 235-D, 7º). d) VIAGENS DE LONGA DISTÂNCIA (art. 235-D da CLT) são consideradas como tais, as viagens que o motorista permaneça ausente da base da empresa e de sua residência por mais de 24 horas. Nestes casos, o repouso poderá ser feito no veículo ou em alojamento do contratante, do empregador ou do embarcador ou do destinatário, ou em qualquer outro local que ofereça condições adequadas. O repouso, poderá, ainda ser fracionado, em 02 períodos, cada um destes com no mínimo 30 (trinta) minutos a serem cumpridos na mesma semana da viagem e em continuidade a um período de retorno no retorno daquela (art. 235-D, 1º). Nestas viagens é permitida a cumulatividade de descansos semanais limitada ao número de 03 (três) consecutivos. Se o empregador adotar dois motoristas trabalhando no mesmo veículo, o tempo de repouso poderá ser realizado com o veículo em movimento, assegurado o repouso mínimo de 6 (seis) horas consecutivas fora do veículo em alojamento externo, ou, se houver cabine leite, com o veículo estacionado a cada 72 (setenta e duas) horas. Tal regra vigora para o transporte de cargas e de passageiros. Quando o veículo ficar parado, após o cumprimento da jornada normas ou das horas extraordinárias, o motorista ficará dispensado do serviço, mas, se exigida sua permanência, este tempo será considerado de espera.

5 Mesma hipótese, ou seja, será considerado tempo de espera se o motorista tiver que acompanhar o veículo embarcado por qualquer meio e o veículo disponha de leito ou a embarcação de alojamento. Por fim, poderão ser aplicadas regras especiais ao transporte de cargas vivas, perecíveis e especiais em longa distância, de modo a assegurar as condições de viagem e entrega ao destino final. e) REPOUSO SEMANAL - O repouso semanal será de 24 (vinte e quatro) horas por semana ou fração, além do intervalo de repouso diário de 11 (onze) horas, em total de 35 (trinta e cinco horas), e será usufruído quanto o motorista retornar ao seu domicílio, a não ser que a empresa ofereça condições adequadas ao efetivo gozo (art. 235-D da CLT). f) TEMPO DE ESPERA É considerado tempo de espera as horas em que o motorista ficar aguardando a carga ou descarga do veículo nas dependências do embarcador e o tempo gasto com a fiscalização da mercadoria nas barreiras ou alfandegas, sendo a inovação da lei não computar tais horas como jornada de trabalho e nem como horas extraordinárias (art. 235-C, 8º). As horas relativas ao tempo de espera serão indenizadas na proporção de 30% do salário hora-normal, sem prejuízo do direito ao recebimento da remuneração correspondente ao salário base-diário (art. 235-C, 9º e 10º). Outra novidade da lei se refere à espera a 2 horas ininterruptas e quando for exigida a permanência do motorista empregado junto ao veículo, caso o local ofereça condições adequadas, pois neste caso o tempo será considerado como de repouso para fins de intervalo. As movimentações necessárias do veículo no tempo de espera não serão consideradas como parte da jornada de trabalho, restando garantido, todavia, o descanso de 8 (oito) horas ininterruptas ( 11 e 12).

6 g) exames toxicológicos o motorista profissional deverá submeter-se a exames toxicológicos com janela de detecção mínima de 90 (noventa) dias e a programa de controle de uso de droga e de bebida alcóolica, sendo que sua recusa a participar de tais procedimentos será considerada infração disciplinar, passível de penalização. Conclusões: Como se verifica, do ponto de vista trabalhista, a lei buscou regulamentar de forma abrangente a profissão do motorista profissional, além do que já previa a lei anterior. Devido à quantidade de novas regras sobre o tema, recomenda-se às transportadoras extrema cautela e planejamento jurídico para adaptação à legislação, evitando riscos futuros de atuação pelos órgãos oficiais e de ações trabalhistas.

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