UNIVERSIDADE SEVERINO SOMBRA COORDENAÇÃO GERAL DE POS-GRADUAÇÃO PROGRAMA DE MESTRADO EM HISTÓRIA OSNERA PINTO DA SILVA

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1 UNIVERSIDADE SEVERINO SOMBRA COORDENAÇÃO GERAL DE POS-GRADUAÇÃO PROGRAMA DE MESTRADO EM HISTÓRIA OSNERA PINTO DA SILVA CAMINHANDO PELOS MORTOS, CAMINHANDO PELA VIDA: CONFLITOS, ROMARIAS E SANTIDADE NO SUDESTE PARAENSE (c.1980 c. 2010) VASSOURAS 2012

2 UNIVERSIDADE SEVERINO SOMBRA COORDENAÇÃO GERAL DE POS-GRADUAÇÃO PROGRAMA DE MESTRADO EM HISTÓRIA CAMINHANDO PELOS MORTOS, CAMINHANDO PELA VIDA: CONFLITOS, ROMARIAS E SANTIDADE NO SUDESTE PARAENSE (c.1980 c. 2010) Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Severino Sombra, Vassouras/RJ, como requisito para obtenção do título de mestre em história social. Osnera Pinto da Silva Orientador: Dr. Jorge Victor de Araújo Souza Vassouras 2012

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4 OSNERA PINTO DA SILVA CAMINHANDO PELOS MORTOS, CAMINHANDO PELA VIDA: CONFLITOS, ROMARIAS E SANTIDADE NO SUDESTE PARAENSE (c.1980 c. 2010) Dissertação apresentada em, 28 de junho de BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. Jorge Victor de Araújo Souza (PPG/USS) Orientador Prof. Dr Ricardo Medeiros Pimenta (USS) Examinador interno Prof. Dr. Willian de Souza Martins (UFRJ) Examinador externo

5 DEDICATÓRIA Aos romeiros e romeiras da Romaria da Libertação e da Caminhada Irmã Adelaide que caminham incansavelmente por seus mortos, mas principalmente pelos vivos, pelo fim da matança no campo e por uma sociedade com mais justiça e igualdade. In memorian do padre Humberto Rialland, falecido em Em seu trabalho incansável ele muito contribuiu com a luta dos posseiros na região Sudeste do Pará. Por sua amizade e pelo grande incentivo e contribuição à minha pesquisa na Romaria da Libertação em 1997 e 2007.

6 AGRADECIMENTOS Aos romeiros e romeiras da Romaria da Libertação e da Caminhada Irmã Adelaide, porque o interesse em conhecer melhor a história dos eventos por eles elaborados em suas lutas proporcionou a minha participação na seleção desse curso de mestrado e também por colaborarem com minha pesquisa concedendo entrevistas e auxiliando minha participação nas caminhadas. Ao amigo, companheiro, irmão, camarada Vilmar, pela força e apoio durante o período de nossa estadia em Vassouras/RJ e depois já de volta no período da pesquisa, quando disponibilizou tempo para me ouvir e ombro amigo nas horas de angústia. Às religiosas Filhas do Amor Divino (FDC), em especial às irmãs Angelita Fernandes, Lourdes Follmann, Adélia Rossato e Joselina Amaral, pela acolhida e disponibilidade de tempo em contribuir com a pesquisa de campo e também pela cessão de documentos que contribuíram não só para o estudo, mas, sobretudo para a compreensão das romarias como eventos religiosos dentro de uma prática militante. Ao padre Paulo Joanil, por disponibilizar tempo contribuindo com entrevistas, sempre acessível e paciente, mas principalmente pela cessão de documentos que foram valiosos para este estudo. À amiga querida Nancy Cardoso, vizinha em Vassouras/RJ e a pessoa que teve muito carinho e cuidados sem igual para conosco (eu e Vilmar), por ter sempre se disposto a ler meus escritos dando sua valiosa opinião e pela cedência de livros para as leituras iniciais. Ao professor Rômulo Mattos, que caminhou comigo por algum tempo durante a pesquisa e que auxiliou na busca de documentos indicando o que buscar, onde buscar. Ao meu orientador professor Jorge Victor Araújo Souza, por confiar na minha capacidade quando eu mesma já duvidava e por orientar de forma sábia e paciente essa pesquisa. A todos os professores do curso de mestrado: Gisele Sanglard, Eduardo Scheidt, José Jorge Siqueira e Nancy Cardoso Pereira pelos ensinamentos durante todo o curso. À professora Ana Moura, pelo incentivo e por proporcionar aprendizagem mesmo nos momentos de descontração, mas principalmente por confiar em nossa competência, incentivando a produção de trabalhos.

7 Aos colegas de turma do mestrado: Jorge (e seus marinheiros), Vladimir (e seu comerciante), Ênio (com seus indígenas e guerras santas), Marcelo (e seu Maquiavel), André (história e fotografia), Douglas (a voz do rádio), Vilmar (e seus Parkatêjê), Bete (e o serviço social em Valença), Sirlene (e sua escola de enfermagem), Mari (e a memória da esposa de Villa Lobos), posso dizer que foi uma grande experiência de vivência e debate em sala de aula e, principalmente nos espaços informais. Às amadas Sandra Feijó (secretária do mestrado), minha amiga linda e loira, e Beth (Boop) Guilherme (biblioteca do mestrado), por todo apoio, carinho, incentivo, pelos cafés e pela amizade linda que nasceu entre nós. Às minhas filhas Marla e Sílvia e às minhas netinhas, Maria Eduarda e Maria Eloísa por serem a razão que faz meu coração bater sempre; ao meu filho Charles que confiou na minha proteção e amparo financeiro mesmo estando ausente; à Oziene e Mayara, e ao Bruno (quase filhos) pela paciência, amor, carinho, compreensão e apoio durante minha ausência no período de estudo. À comissão Pastoral da Terra (CPT), à Fundação Casa de Cultura de Marabá (FCCM) e às Paróquias de Jacundá, Rio Maria e Curionópolis, pela boa vontade em abrir seus arquivos para essa pesquisa. Aos amigos Airton, Edileuza, e Gláucia pela cedência de livros que ajudaram a costurar e a tecer os textos dessa pesquisa. A todos e a todas minha eterna gratidão.

8 AS PEDRAS GRITARÃO Há uma nação de homens Excluídos da nação. Há uma nação de homens Excluídos da vida. Há uma nação de homens, Calados, Excluídos de toda palavra. Há uma nação de homens Combatendo depois das cercas. Há uma nação de homens Sem rosto, soterrados na lama, Sem nome, soterrados pelo silêncio. Incontáveis. Formigas revolvendo socavões. Homens de lama e fulgor. Perseguidos pelo delírio dos metais: o ouro da terra, no sonho, o estanho das armas, na carne. Nesse tempo de palavras dilaceradas, levadas à moenda até o bagaço mais seco, o silêncio pesa como os olhos de uma criança depois da fuzilaria. Mas como gritar? Se os lançados da ponte não tem um nome que os distingue? Se calarmos, as pedras gritarão. (Comissão Pastoral da Terra. Cadernos de Conflitos no Campo Brasil, 1987).

9 RESUMO Esta dissertação analisa as romarias que ocorrem na região do sudeste paraense, a partir de um olhar sobre as práticas dos atores e suas interações. Essas romarias nasceram no contexto dos muitos conflitos que assolavam a região no decorrer da década de Tanto a Romaria da Libertação quanto a Caminhada Irmã Adelaide, surgem do medo que tomou conta das pessoas devido ao grande índice de violência e impunidade. As romarias nascem como uma forma de enfrentar o medo e também de dizer que estavam prontos para denunciar os vários tipos de injustiça que vinham sofrendo. Este trabalho visa contribuir com o debate em torno dessas romarias que buscam através de uma visão sócio-politico e religiosa a construção de um espaço de convivência com um mínimo de dignidade para os trabalhadores campesinos, ressaltando as práticas culturais como meio de oferecer um novo olhar em relação às formas de enfrentamento da violência no campo. Neste sentido, analisamos os conflitos no período na tentativa de demonstrar a que condições estavam submetidos os posseiros da região a partir do contexto da luta pela posse da terra, considerando a ausência do Estado e o papel exercido por alguns órgãos de mediação como elemento incentivador desse processo violento. O nascimento das romarias se deu a partir de dois crimes que chocaram a população que se levanta em oração e protesto na tentativa de dar um basta na situação. Analisamos ainda a participação da Igreja, como instituição que mediava os conflitos e apoia o evento das romarias como forma de protesto. Colocamos em evidência os espaços onde ocorrem as romarias e as relações engendradas nesses espaços, e por fim o processo devocional construído em torno das santas-mártires da luta pela terra, a reconfiguração dos espaços e da romaria a partir das modificações no processo histórico e nas políticas implementadas na região. O estudo demonstrou que ao longo desses anos apesar das muitas modificações resultantes das políticas implementadas para a região a partir das lutas do povo, a violência ainda é muito grande e nesse contexto, as romarias continuam em seu protesto, rememorando seus mártires e criando seus novos santos (as). Palavras-chave: Conflitos; Romaria; Martírio; Devoção; e, Santidade.

10 ABSTRACT This dissertation analyzes the festivals occurring in southwestern Pará, from a look at the practices of the actors and their interactions. These pilgrimages were born in the context of the many conflicts that ravaged the region during the 1980s. Both the festival and the Path of Liberation Sister Adelaide, arise from the fear that gripped the people due to high rates of violence and impunity. The pilgrimages are born as a way to face fear and also to say that they were ready to denounce the various kinds of injustice that had been suffering. This work aims to contribute to the debate on these pilgrimages looking through a socio-political and religious construction of a living space with a minimum of dignity for peasant workers, highlighting the cultural practices as a means to offer a new look about the ways of coping with violence in the countryside. In this sense, we analyze the conflicts in the period in an attempt to demonstrate that conditions were subjected to the settlers of the region from the context of the struggle for land, considering the absence of the state and the role played by some agencies as an incentive to mediate this process violent. The birth of the pilgrimages were made from two crimes that shocked the people who get up in prayer and protest in an attempt to put a stop to the situation. We also analyzed the participation of the Church as an institution that mediated conflicts and supports the event of the pilgrimage as a form of protest. We put in evidence the spaces where there are pilgrimages and relations engendered in these spaces, and finally the devotional process built around the 'holy-martyrs' struggle for land, the reconfiguration of spaces and the pilgrimage from the changes in the historical process and policies implemented in the region. The study showed that over the years despite the many changes resulting from the policies implemented for the region from the struggles of the people, violence is still very large and in this context, pilgrimages continue their protest, remembering their martyrs and creating their new Saints (s). Keywords: Conflict, Pilgrimage, Martyrdom, Devotion, and Holiness.

11 LISTA DE SIGLAS ADETUNE Associação de Defesa dos Trabalhadores Unidos de Nova Jacundá CEB Comunidade Eclesial de Base CESE Coordenadoria Ecumênica de Serviços CF Campanha da Fraternidade CNBB conferencia nacional dos Bispos do Brasil CONIC conselho nacional de igrejas Cristãs CONTAG Confederação dos Trabalhadores na Agricultura CPT Comissão Pastoral da Terra FCCM Fundação Casa de Cultura de Marabá FDC Filhas do Amor Divino FETAGRI Federação dos Trabalhadores na Agricultura GETAT Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins IBRA Instituto Brasileiro de Reforma Agrária INCRA Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária ITR Imposto Territorial Rural MEB Movimento de Educação de Base MIRAD Ministério Extraordinário para o Desenvolvimento e Reforma Agrária PJ Pastoral da Juventude PM Policia Militar PO Pastoral Operária RCC Renovação Carismática Católica SDDH Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos STR Sindicato dos Trabalhadores Rurais SUDAM Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia UDR União Democrática Ruralista

12 LISTA DE FIGURAS E IMAGENS FIGURA 01: Mapa da Região sudeste do Pará. Fonte: Laboratório Sócio-Agronômico do Tocantins LASAT. FIGURA 02: Croqui representativo da rota do crime. Fonte: Jornal O Liberal, 01/10/1980. Dossiê do Arquivo da CPT Marabá. IMAGEM 01: A cruz do memorial Santa Elizabete e Santa Elineuza. Fonte: Arquivo da Paróquia de Jacundá. IMAGEM 02: Cinzas das crianças Elizabete e Elineuza. Fonte: Arquivo da CPTMarabá. IMAGEM 03: Casa das irmãs FDC em Eldorado dos Carajás. Acervo da autora, IMAGEM 04: Cartaz de Irmã Adelaide Molinari. Acervo da autora, IMAGEM 05: Romeiros de Jacundá. Fonte: Acervo da Paróquia de Jacundá. IMAGEM 06: Saída - Caminhada Irmã Adelaide. Acervo da autora, IMAGEM 07: Morte de Irmã Adelaide. Acervo da autora, IMAGEM 08: Cartaz Invocativo. Acervo da autora, IMAGEM 09: Kit romeiro. Acervo da autora, IMAGEM 10: Camisetas da Caminhada Irmã Adelaide. Acervo da autora, IMAGEM 11: Santuário de Sta. Elizabete e Sta. Elineuza. Fonte: DVD produzido pela Verbo Filmes sobre a Romaria da Libertação, IMAGEM 12: Túmulo de Irmã Adelaide ao lado da Igreja N. S. das Graças Curionópolis. Acervo da autora, IMAGEM 13: Sala dos milagres no Santuário de Sta. Elizabete e Sta. Elineuza. Fonte: DVD produzido pela Verbo Filmes sobre a Romaria da Libertação, IMAGEM 14: Mesa com ex-votos. Fonte: DVD produzido pela Verbo Filmes sobre a Romaria da Libertação, IMAGEM 15: Ex-votos: membros curados. Romaria da Libertação. Acervo da autora, IMAGEM 16: Mesa e toneis usados pelos romeiros. Romaria da Libertação. Acervo da autora, IMAGEM 17: Fogões de barro usados pelos romeiros. Romaria da Libertação. Acervo da autora, 2007.

13 LISTA DE QUADROS QUADRO 1: Temas desenvolvidos na Caminhada Irmã Adelaide. Fonte: História de Luz. Fascículo 04, Rio Maria, QUADRO 2: Tipos de promessas encontrados num total de 150 entrevistados. Fonte: Questionários de entrevistas realizadas nas romarias de 1997, 2006 e 2011, elaborados pela autora. LISTA DE TABELAS TABELA 01: Resumo dos conflitos criados pela grilagem de terras na rodovia PA-150. Fonte: O Grito da PA-150. Diocese de Marabá. Ano I nº02, junho de TABELA 02: Número de assassinatos em conflitos agrários no Sul e Sudeste do Pará. Fonte: Comissão Pastoral da Terra. Conflitos no Campo Brasil. Goiânia/GO, TABELA 03: Conflitos pela posse da terra na região Norte. Fonte; Comissão Pastoral da Terra. Conflitos no Campo Brasil. Goiânia/GO, TABELA 04: Prisões ilegais efetuadas contra lavradores em conflitos de terra. Fonte: Comissão Pastoral da Terra. Conflitos no Campo Brasil. Goiânia/GO, TABELA 05: Número de ameaças de morte em conflitos de terra no Brasil. Fonte: Comissão Pastoral da Terra. Conflitos no Campo Brasil. Goiânia/GO,

14 SUMÁRIO Introdução Região Sudeste do Pará: uma fronteira em constante conflito CAPÍTULO 01: DO MEDO DOS VIVOS SURGEM AS ROMARIAS PARA OS MORTOS Sudeste do Pará: região dos conflitos e do medo Terras concentradas: o carro abre alas dos conflitos A Igreja como mediadora dos conflitos Da chacina de Tucuruí à Romaria da Libertação Outro crime, mais uma (e a mesma) romaria: Caminhada Irmã Adelaide Nenhuma justiça para Elizabete, Elineuza ou Adelaide... CAPÍTULO 02: DE ROMARIA EM ROMARIA BUSCANDO A LIBERTAÇÃO Romarias e Santuários Situando as cidades, conhecendo as santas As cidades: espaços de vivências e de santidade Elizabete, Elineuza e Adelaide: martírio, mística e memória A Romaria como forma de expressão das vítimas da violência no campo Caminhar, rezar, brincar Caminhar com Adelaide Caminhar com as santinhas O comércio e as mudanças Comerciando no santuário As mudanças na Romaria da Libertação... CAPÍTULO 03: MARTÍRIO E SANTIDADE NO SUDESTE PARAENSE Martírio como testemunho cristão Adelaide, mártir da justiça, mártir pelo reino Elizabete e Elineuza, mártires da inocência Devoção e Santidade: as santas do povo Sobre a santidade As promessas como impulso mobilizador As relações de controle... CONSIDERAÇÕES FINAIS... FONTES... ENTREVISTAS UTILIZADAS... BIBLIOGRAFIA

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16 INTRODUÇÃO É com os pés, ao que se diz, que se ora nas melhores romarias. (Rubem César Fernandes, 1994). 1. Região Sudeste do Pará: uma fronteira em constante conflito Olhar a região Sudeste do Pará significa pensar a fronteira como lugar de acolhimento de pessoas que foram chegando de vários lugares do país para tentar uma nova vida, seja em busca de trabalho, de terras ou de riquezas minerais. Mas significa também pensar essa fronteira como lugar de muitos conflitos, principalmente os conflitos pela posse da terra. Esses conflitos configuram-se de várias formas, como ameaças, intimidações, despejos, massacres, chacinas, entre outros. Nas últimas três décadas, como resultante desse processo conflituoso centenas de trabalhadores rurais foram assassinados. Confirmando as diversas vidas perdidas nos conflitos agrários, a historiadora Rosa Acevedo Marín conclui que, Na região sudeste do Pará, observa-se a passagem do massacre para o genocídio. E essa ação é entendida enquanto extermínio de uma determinada categoria social, simbolizada tanto por indígenas, quanto por posseiros e sem terra 1. No documento Os pobres possuirão a terra, os bispos fizeram o seguinte pronunciamento: Os problemas enfrentados pelos camponeses e camponesas, trabalhadores e trabalhadoras do campo brasileiro, notadamente pelos pequenos produtores rurais, posseiros, meeiros, arrendatários, semterra, acampados e assentados, assalariados rurais e pelas diferentes comunidades ribeirinhas, extrativistas, quilombolas e povos indígenas, estão presentes no horizonte das preocupações pastorais de nossas igrejas.2 Como ficou demonstrado na fala dos bispos e pastores acima, são muitas as categorias do campo em conflitos e desassistidas dos poderes constituídos, e são essas categorias ou parte delas que reinventaram as romarias no sudeste paraense, que têm se apresentado de uma forma um tanto peculiar, em protesto contra essa realidade social 1 MARÍN, Rosa Elizabeth Acevedo. Conflitos Agrários no Pará. In: Contando a História do Pará, vol II: os conflitos e os grandes projetos na Amazônia contemporânea (século XX). Belém: E. Motion, 2002, p Os pobres possuirão a terra: pronunciamentos de bispos e pastores sinodais sobre a terra. São Paulo: Paulinas; São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, CEBI Centro de Estudos Bíblicos, 2006, p

17 vivenciada pela população da região: a da violência contra o homem campesino, líderes religiosos, sindicalistas e outros, e, principalmente, em protesto contra a impunidade dos criminosos, mas também contra outras tantas injustiças sociais. O presente trabalho tem a pretensão de estudar essas romarias, analisá-las, compará-las, bem como, analisar os elementos que combinados podem explicitar as situações de conflitos e de violência na luta pela posse da terra. Os crimes que deram origem as romarias aconteceram no decorrer da década de 1980 na esteira dos conflitos agrários na região. Nossa pesquisa abarca as décadas de 1980 a 2010, o que possibilitará observar mudanças e permanências nesses eventos ao longo de sua vigência, bem como, dar visibilidade às formas encontradas pelos camponeses para lidar com as adversidades encontradas para sua inserção e/ou permanência no campo. O estudo dessas romarias parte do pressuposto de que com a forte migração para essa região do estado nas décadas de 1970 e 1980 formou-se uma zona de conflito entre três categorias: posseiros, grileiros e fazendeiros3 que se tornou bastante acirrada em finais dos anos de 1970 e nas décadas posteriores, com destaque para a década de 1980 quando em decorrência desses conflitos, dezenas de pessoas foram assassinadas, sendo muitos desses alvos os líderes sindicais e também religiosos. O sudeste paraense, assim como outras regiões do país, é uma área conflituosa insuflada, talvez, pela certeza da impunidade de mandantes e assassinos, que em boa parte dos casos sequer são indiciados. Nessas disputas pela terra, mandantes e assassinos não tem um limite quanto a quem vão matar. Assim, num contexto de extermínio, ninguém é poupado, nem mesmo as crianças e muito menos religiosos/as. Em meio a essa configuração, a impunidade dos criminosos, e outras formas de injustiça social, indignou ainda mais uma grande parcela da população dos municípios de Jacundá, Goianésia do Pará Curionópolis e Eldorado dos Carajás que resolveram protestar e buscar conforto através de caminhadas 3 Posseiro, no Brasil, o lavrador que trabalha na terra sem possuir nenhum título legal, nenhum documento reconhecido legalmente e registrado em cartório que o defina como proprietário é classificado como ocupante de terra, nos censos oficiais, ou como posseiro, na linguagem comum. Ver: MARTINS, José de Souza. O Massacre dos posseiros: conflitos de terras no Araguaia-Tocantins. São Paulo: Brasiliense, A categoria meeiro é definida como sendo aquele trabalhador que planta em terreno alheio repartindo o produto de seu trabalho com o dono das terras, sem possuir vínculo empregatício. Grileiro, significa aquele que se apropria ilegalmente de terras alheias com documentos falsificados ou pela ação violenta. Ver: HÉBETTE, Jean. A velha questão da terra na Amazônia; a estrutura fundiária amazônica da colônia até hoje. In: Cruzando Fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia. Vol. II. Belém: UDUFPA, Sobre a grilagem na região, ver ASSELIN, Victor. Grilagem: corrupção e violência em terras do Carajás. Petrópolis, Vozes/CPT,

18 religiosas, nas romarias. Assim, nasceram duas romarias na região: A Romaria da Libertação, para cultuar duas crianças, Elizabete e Elineuza, assassinadas em 17 de setembro de 1980, e a Caminhada Irmã Adelaide, para reverenciar a memória da religiosa, Adelaide Molinari, assassinada em 14 de abril de1985. As romarias representam o movimento de centenas de romeiros e romeiras em caminhada, em oração e em protesto contra a violência e contra a impunidade de quem comanda o crime. Essas romarias denunciam também várias outras formas de injustiça social, como fome, desemprego, falta de serviços de atendimento à saúde, etc., e esse tipo de performance faz desse povo, protagonista de romarias bastante peculiares. Todavia, para dar visibilidade a esses dois eventos precisaremos investigar os crimes que deram origem aos mesmos. No primeiro caso, a chacina de uma família inteira e nesse caso, temos as duas crianças que foram santificadas pela população. Esse crime teve como acusado, um cabo da Polícia Militar (PM) de Marabá, Manoel Dias Aragão, junto com mais duas outras pessoas: um mecânico e um ex-policial da PM do Maranhão que foram indiciados como autores do crime 4. O policial acusado de cometer essa barbárie havia sido destacado para a localidade de Goianésia do Pará, com a finalidade de manter a ordem diante dos conflitos lá existentes, conforme informou o Pe. Humberto Rialland5 que, juntamente com o Pe. Paulo Joanil eram, à época os párocos responsáveis pela paróquia de Jacundá que englobava Goianésia e outras localidades da circunvizinhança. Em meados da mesma década (1985), no município de Eldorado dos Carajás foi assassinada, a religiosa, Adelaide Molinari. Alguns fazendeiros, os srs. José Batista Veloso, Aloysio Ribeiro Vieira e José Eduardo de Abreu Vieira (acusados de serem os mandantes), e o sr. José de Ribamar Rodrigues Lopes (acusado de ser o pistoleiro), foram denunciados pelo crime. Entretanto nenhum deles foi condenado por falta de provas. Esse crime originou a Caminhada Irmã Adelaide. Essas romarias procedem para os locais considerados sagrados pelos romeiros: no caso de Irmã Adelaide, sua sepultura; no caso das crianças, Elineuza e Elizabete, o local onde foram queimadas pelos assassinos. Nesse lugar, que fica às margens da PA-263, entre Goianésia do Pará e Tucuruí, ergueu-se um monumento e uma capela em memória das duas crianças. 4 Processo nº 147/90. Poder Judiciário. Comarca de Curionópolis Pará, p. 01. Entrevista concedida, em 09 de setembro de 2005, para a realização de minha monografia de conclusão da especialização em História Social, Romaria da Libertação: memórias do medo, caminhada de esperança, pela Universidade Federal do Pará,

19 Interessada em estudar a Romaria da Libertação fiz minha primeira participação no evento em 1997, para a realização do trabalho de minha monografia de graduação. Naquela ocasião fiquei muito impressionada com a diversidade dos participantes: jovens, crianças, adultos, velhos, namorados, famílias inteiras, pequenos agricultores, posseiros, fazendeiros e madeireiros, etc., todos em caminhada para reverenciar as santinhas, que é como os romeiros chamam as crianças assassinadas. Assim, empreendi minha primeira pesquisa sobre essa romaria. No período, busquei a origem da romaria e seu discurso político-religioso. Porém, não pesquisei sobre a Caminhada Irmã Adelaide, evento sobre o qual só tomei conhecimento depois, e que tem características similares à primeira romaria, como por exemplo: o culto à memória de uma santa não reconhecida oficialmente; a duração do evento ao longo desses anos e seu crescimento em número de romeiros; e, por ser um fenômeno devocional que insere em sua prática o protesto. Mais de uma década já se passou desde a primeira pesquisa. Essa nova investigação permitirá a busca de respostas para outras questões como: qual é a base que sustenta essas romarias ao longo desses anos? O que impulsiona ou mobiliza os romeiros? O que diferencia ou aproximam esses dois eventos? Essas são algumas questões, mas muitas outras poderão surgir no decorrer da investigação. Olhando a história como resultado da experiência humana, acreditamos que a partir dessa pesquisa podemos produzir um trabalho construído sob a ótica de quem vivenciou e vivencia os problemas da região e também as formas possíveis de combatêlos. Pois como escreveu Paul Vayne todo acontecimento é tão histórico quanto um outro, pode-se dividir o campo factual com toda a liberdade 6. Esse trabalho se insere no campo dos estudos da História Regional, entendendo região como território delimitado, passível de ser concebido como decomponível em sub-regiões, e, em segundo lugar, um sistema de valores e interesses que dá forma a uma identidade coletiva capaz de gerar atitudes de lealdade e apego por parte dos habitantes 7, que nos oferece(m) elementos insubstituíveis para estudos comparativos e esta contribuição apenas a justifica e a torna necessária 8. No espaço regional aflora, com maior clareza as práticas dos movimentos sociais, as identidades culturais, as 6 VAYNE, Paul. Como se Escreve a História. Brasília:UNB, p. 42. Ver: SILVA, Vera Alice Cardoso. Regionalismo: o enfoque Metodológico e a Concepção Histórica. In: SILVA, Marcos A. da. A República em Migalhas: História regional e local. São Paulo: Marco Zero, p Idem. p

20 práticas econômicas, o que possibilita o exame das diferenças existentes dentro de um espaço maior, o nacional. Para a historiadora Janaína Amado, A historiografia regional tem ainda a capacidade de apresentar o concreto e o cotidiano, o ser humano historicamente determinado, de fazer a ponte entre o individual e o social. Por isso, quando emerge das regiões economicamente mais pobres, muitas vezes ela consegue também retratar a História dos marginalizados, identificando-se com a chamada História popular ou História dos vencidos 9. Essa é a intenção dessa pesquisa: retratar um pouco da história desse povo marginalizado, porem de forma alguma visto como coitado, pois é uma gente de luta, que mesmo tendo que enfrentar o risco de perder a própria vida continua sempre buscando a realização de seus sonhos. A pesquisa justifica-se pela necessidade de demonstrar, a partir desse trabalho as diversas formas de inserção encontradas pelos trabalhadores do campo no enfrentamento da violência. E mais ainda, entender esse espaço da Amazônia, a partir da compreensão dos sujeitos, de suas vivências e concepções de mundo, de suas formas de lutar por justiça, de suas concepções políticas, dialogando com disciplinas das ciências sociais como a sociologia e a antropologia. Para a realização do trabalho elencamos alguns objetivos: analisar os conflitos na região onde ocorrem as romarias; apresentar as romarias como forma de manifestação da religião popular e a relação entre manifestação religiosa e os conflitos na região; e contribuir para a discussão acerca da manifestação religiosa da romaria como forma de sacralização/reverência/homenagem/protesto. Visando a concretização dos objetivos propostos, a estratégia de pesquisa se pautou na utilização de entrevistas, na leitura de relatórios, jornais da época dos crimes, Livrinhos e cadernos de cordel sobre a romaria, informativos da paróquia de Jacundá, Folders das romarias, livros de canto, processo criminal, alvará de soltura, entre outros documentos, e na leitura de bibliografias que pudessem me auxiliar na tessitura do trabalho. Assim, a escrita apresenta o resultado de diálogos comparativos e no cruzamento das fontes, onde as várias informações podem corroborar umas com as outras. Outra estratégia foi participar das caminhadas o que permitiria aproximar do evento em sua concretude para tentar compreender e registrar a amplitude de relações sociais inscritas nessas caminhadas. Utilizamos também, relatórios das paróquias e da Diocese de Marabá sobre as romarias e os crimes, para analisar os contextos em que estes ocorreram e que as 9 AMADO, Janaína. História e Região: reconhecendo e construindo espaços. In: SILVA, Marcos A. da. A República em Migalhas: História regional e local. São Paulo: Marco Zero, p

21 romarias foram pensadas; Cadernos de Conflitos da Comissão Pastoral da Terra (CPT), para discutir as questões que suscitam nos romeiros/as o desejo de mudança; fotografias; faixas e cartazes produzidos pelos romeiros; livros de Tombo da Paróquia de Jacundá, onde foram registrados acontecimentos considerados importantes na comunidade; DVD sobre a Romaria da Libertação produzido pela Verbo Filmes. Optei também pela construção de um trabalho que se utiliza da oralidade, na tentativa de conseguir uma maior aproximação com o objeto de estudo, pois para Michel Pollak,10 a história oral possibilita analisarmos os excluídos, os marginalizados, as minorias. Já para Mercedes Vilanova, ela tem o papel de desmistificar a história, deixando que os silêncios venham à tona. Desmistificar as interpretações historiográficas: esta função é a base de nosso ofício e das múltiplas utilidades das entrevistas. O primordial das fontes orais é que nos devolvem o senso comum e a orientação das bússolas através dos acontecimentos e dos tempos, para abrir-nos as portas do caminho insólito e fascinante em direção do invisível, o qual, como os silêncios, resulta ser sempre a rocha sobre a qual se sedimenta uma interpretação, senão certeira, ao menos profícua 11. É nesse sentido, considerando as múltiplas utilidades das entrevistas, que estamos utilizando a oralidade, como recurso que ajuda a entender o universo dos romeiros e romeiras em suas lutas cotidianas, como recurso que coloca à vista o seu modo de pensar, a sua ótica de mundo. O trabalho está organizado em três capítulos. No primeiro, intitulado: Do medo dos vivos surgem as romarias para os mortos, realizamos uma análise do contexto conflituoso na região, traçando um panorama dos conflitos e crimes através de dados tabulados a partir das pesquisas apresentadas pelos cadernos de conflitos da Comissão Pastoral da Terra da década de 1980 e também de dados apresentado pelo jornal regional da Diocese de Marabá, na década de 1980, O Grito da PA-150. Sob o título, De romaria em romaria buscando a libertação, o segundo capítulo apresenta as cidades onde ocorrem as romarias e a história de vida das crianças, santas Elizabete e Elineuza, e de Irmã Adelaide Molinari. Discute de maneira mais ampla os crimes que deram origem as romarias e apresenta uma análise comparativa dos dois eventos demonstrando ainda quais as mudanças que ocorreram (ou não) no interior e externamente aos dois eventos. 10 POLLAK, Michel. Memória, Esquecimento e Silêncio. Estudos Históricos. Rio de Janeiro. Vol. II, nº 03, 1989, p VILANOVA, Mercedes. A história presente e a história oral. Relações, balanço e perspectivas. Belém, Páginas de História. Laboratório de História/UFPA, v. 11, n. 2, p

22 No terceiro capítulo, Martírio e santidade no sudeste paraense, discutiremos os conceitos de martírio, fé, devoção e santidade e também como se dá o processo de santificação em torno dos santos, bem como, os caminhos que poderão levar à santificação de Irmã Adelaide Molinari e das crianças Elizabete e Elineuza ou as santas do povo. O aporte teórico que dá sustentabilidade ao trabalho e ajuda a compreender as diferentes formas de luta e inserção do homem do campo e o universo simbólico e místico desses povos na Amazônia e também em outras partes do país está baseado em estudos de autores como José de Souza Martins A reforma agrária e os limites da democracia na Nova República, entre outros; Octávio Ianni Ditadura e Agricultura: o desenvolvimento do capitalismo na Amazônia; Jean Hebette Cruzando Fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia. Os autores destacados estão entre vários outros autores, utilizados na tentativa de entender os conflitos e as vivências no campo. Buscando entender as romarias enquanto práticas inseridas no simbolismo das crenças católicas, me ancorei em autores como Natalie Zemon Davis Culturas do Povo; Rubém César Fernandes Romarias da Paixão; Isidoro Alves O Carnaval Devoto: um estudo sobre a festa de nazaré em Belém; Carlos Rodrigues Brandão Prece e folia, festa e romaria; e outros, que possuem estudos significativos sobre o assunto aqui pesquisado. Em autores como Pierre Bourdieu A economia das trocas simbólicas; apresentando os sistemas de reprodução social nas práticas religiosas; Marília Schneider Memória e história: Antoninho da Rocha Marmo ; Renata de Castro Menezes A dinâmica do sagrado; Kenneth L. Woodward A fábrica de Santos, busquei o fundamento para a necessária compreensão do que sejam as romarias tanto de uma forma mais generalizada quanto no contexto do sudeste paraense e das lutas campesinas, bem como, do processo de santificação dos mortos tanto na forma oficial como no imaginário do povo. PRIMEIRO CAPÍTULO DO MEDO DOS VIVOS SURGEM AS ROMARIAS PARA OS MORTOS Todo mundo acredita Que o homem traz uma sina Mas a miséria não vem 22

23 Pela vontade Divina São coisas premeditadas Feitas por mãos assassinas12. (Cordel: Chacina de Goianésia. s/d). 2- Sudeste do Pará: região de conflitos e de medo Este capítulo apresentará um breve exame dos conflitos pela terra na região Sudeste do Pará na década de 1980 que resultou nos dois eventos religiosos mencionados em nossa introdução e na transformação de pessoas mortas nesses conflitos em mártires da terra e santas populares. Num sentido laico, o termo mártir é associado a alguém que sacrifica a sua vida por uma causa. No Brasil o termo é historicamente associado à figura de Tiradentes, por exemplo, num sentido político da palavra. Outras pessoas envolvidas em lutas políticas são também consideradas mártires em nossa historiografia. Assim, por exemplo, é possível falar em mártires de revoluções como: Farroupilha ou Pernambucana. Numa visão cristã; o mártir é uma pessoa submetida à pena de morte pela recusa de renunciar à fé cristã ou a qualquer de seus princípios. O mártir é sempre vítima de agressão e violência. O mártir cristão é aquele que prefere morrer a renegar seu Senhor e sua fé 13. As santinhas Elizabete e Elineuza (de quatro anos e um ano e quatro meses, respectivamente), mártires da inocência, são cultuadas pelos romeiros na Romaria da Libertação, que é organizada por moradores das cidades de Jacundá14 e Goianésia do Pará, ambas situadas na supracitada região. Essas duas crianças foram assassinadas em 17 de setembro de 1980, nas proximidades de Goianésia do Pará. Um policial militar da cidade de Marabá, o cabo Manoel Dias Aragão e mais dois comparsas, o ex-militar Élcio da Silva e o mecânico José Itamar Brito 15 foram indiciados como autores desse crime. 12 Os livrinhos de cordel com os quais eu trabalho são produzidos por cordeleiros da região, como Ives Borges, por exemplo, famoso por escrever um caderno de cordel para cada Romaria da Libertação. Outros, como o acima referido são anônimos e não consta nem data, nem local onde foram produzidos. O uso desses cordéis no trabalho tem a intenção de demonstrar como os artistas populares revelam sua leitura dos acontecimentos. 13 Ver: FOXE, John. O Livro dos Mártires. São Paulo: Mundo Cristão, 2003, p A palavra Jacundá refere-se ao nome de vários peixes abundantes na região, vindo daí o nome do lugar. Designa também uma dança indígena, que imita a pesca do jacundá. Sul e Sudeste do Pará: hoje. Associação dos Municípios do Araguaia e Tocantins - AMAT. Belém: UNICEF, 1996, p O Monstro da Chacina é PM. Jornal O Estado do Pará, de 27 de setembro de Dossiê Arquivo da CPT Marabá, pp. 19 a

24 Para os romeiros, essas crianças são mártires da luta pela terra, são santinhas para as quais prestam homenagens e cultos. Muitas pessoas afirmam ter alcançado graças por intermédio delas, outros acreditam que virão a alcançá-las por meio das promessas que fazem geralmente nos momentos de grande dor e aflição. As romarias são também um recurso para protestar contra a impunidade de assassinos e mandantes de crimes ou ainda para discutir assuntos referentes aos problemas sócio-políticos e econômicos recorrentes na região, tais como: fome, baixos salários, reforma agrária, impunidade de criminosos, etc. O segundo evento que também será analisado nesse trabalho, a Caminhada Irmã Adelaide, é outra romaria que acontece entre os municípios de Eldorado dos Carajás e Curionópolis, tem o objetivo de relembrar, homenagear e cultuar a religiosa Irmã Adelaide Molinari, assassinada em A análise historiográfica dessas romarias, todavia, precisa ser entendida não só do ponto de vista da religiosidade, mas também como a reflexão sobre as práticas de enfrentamento da violência no Sudeste paraense que faz parte do universo dos camponeses envolvidos. Os romeiros se valem de algo já existente (a romaria) para garantir sua proteção no momento do protesto. Há dois traços marcantes nessas romarias: um é justamente fazer o protesto minimizando o perigo, partilhando os riscos ao se fazer denúncias sobre a violência. E o outro está na própria prática religiosa, pois uma parte da caminhada é dedicada à realidade vivenciada e outra ao simbolismo que ordena a ação religiosa. O presente capítulo tem como objetivo identificar e compreender os conflitos pela terra vivenciados pela população, direta ou indiretamente, decorrentes do processo de ocupação e distribuição das terras, e também discutiremos a atuação das Igrejas junto aos camponeses na mediação desses conflitos, evidenciando os instrumentos usados nesse processo. A análise está voltada para a região do Sudeste paraense, cuja história é marcada pelo contexto da migração e dos conflitos, embora os conflitos pela terra sejam recorrentes em todo o estado do Pará e no Brasil. O mapa abaixo é ilustrativo da região16 e traz em destaque, marcados com cores diferentes os municípios onde ocorrem as romarias. Figura 01 Mapa da região Sudeste do Pará 16 A região Sudeste do Pará é formada por 18 municípios: Abel Figueiredo, Bom Jesus do Tocantins, Brejo Grande do Araguaia, Canaã dos Carajás, Curionópolis, Eldorado dos Carajás, Goianésia do Pará, Itupiranga, Jacundá, Marabá, Nova Ipixuna, Piçarra, Parauapebas, Palestina do Pará, Rondon do Pará, São João do Araguaia, São Domingos do Araguaia e São Geraldo do Araguaia. 24

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