O processo de conservação e restauração da escultura Oscar no Museu Nacional de Belas Artes

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1 O processo de conservação e restauração da escultura Oscar no Museu Nacional de Belas Artes Mestrado em arquitetura na área de restauração e gestão do patrimônio, Especialista conservação e restauração, Graduada em escultura e Restauradora de escultura da Escola de Belas Artes (EBA/UFRJ) e do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) Av.Pedro Calmon, 550, sala 718, Cidade Universitária CEP: Rio de Janeiro RJ Tel/Fax Abstract This research intends to show the conservation and restoration process of the plaster casting with bronze patina Oscar sculpture (actor João Caetano representation Brazilian art), which original bronze is placed at Praça Tiradentes, Rio de Janeiro, in front of João Caetano Theater. This casting belongs to the Museu Nacional de Belas Artes and it has historical, artistic and cultural appraisal. This exposure will tackle the importance of a cultural heritage preservation through artistic restoration technics, demonstrating the materials and methods adopted. It will demonstrate how the commitment with the work of art gist, the technic mastery and conservation concept skills define the principles and criteria adopted before the intervention. Finally, it will show the importance of his return to the museum s exhibition space. INTRODUÇÃO O Museu Nacional de Belas Artes vem desenvolvendo um belo trabalho na área de conservação e restauração de obras escultóricas pertencentes a seu acervo. Esta ação vem colaborando para manter viva a nossa história, fazendo com que a obra volte a compor o espaço expositivo do museu, permitindo assim, sua fruição pelo expectador. Dentro deste grandioso acervo, destacamos a obra de Francisco Emanuel Chaves Pinheiro artista brasileiro ( ), que foi discípulo de Marc Ferrez, sofrendo forte influência da Escola Francesa na realização de suas obras. O presente trabalho tem como objetivo expor o processo de conservação e restauração de um bem móvel, moldagem em gesso com pátina em bronze, da escultura Oscar (representação do ator João Caetano arte brasileira) cujo original em bronze encontra-se localizado na Praça Tiradentes no Rio de janeiro, em frente ao Teatro João Caetano. Esta moldagem pertence ao Acervo do Museu Nacional de Belas Artes, é uma obra de valor histórico, artístico e cultural. Esta exposição abordará a importância de se preservar um bem móvel através da utilização de técnicas de restauro artístico, descrevendo quais os métodos e os materiais utilizados para a preservação do bem em questão. Visando, sobretudo, demonstrar como o comprometimento com a essência dos elementos a serem restaurados e o domínio das técnicas e compreensão dos conceitos de conservação definem os princípios e critérios a serem adotados antes do início da intervenção. Por fim, sinalizará a importância da volta deste bem ao espaço expositivo do museu.

2 1. CONSERVAÇÃO E RESTAURAÇÃO Na preservação de uma obra de valor estético e histórico que se encontra em estado de degradação, é preciso num primeiro momento levar em consideração, se tratando de um bem de valor patrimonial, que os procedimentos para sua preservação obedeçam aos princípios e critérios estabelecidos pelos órgãos de proteção Federal, IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e dos Órgãos Estaduais e Municipais e a conceitos de teóricos da área. Segundo Brandi 1 a obra de arte, como produto da atividade humana, apresenta duas instâncias que devemos respeitar, no momento da restauração. Estética corresponde ao motivo pela qual a obra de arte é obra de arte, a um sentimento envolvido; Histórica corresponde ao fato da arte ser produto da manifestação da criatividade humana, de certo tempo e certo lugar, como também do tempo e do lugar onde está inserido. Sendo a restauração, o momento metodológico do conhecimento da obra de arte, na sua consistência física e na sua dupla polaridade estética e histórica, em vista da sua transmissão ao futuro 2, numa intervenção restauradora devemos, principalmente, obedecer a esses dois aspectos, o estético e histórico. O momento de restauração da obra de arte é que irá dizer as condições e os limites desta ação, a qual deverá, considerando a instância histórica, limitar-se a desenvolver as sugestões implícitas nos próprios fragmentos ou encontráveis em testemunhos autênticos do estado originário 3. Com relação á instancia estética numa ação de restauração deve-se visar o aspecto da obra a unidade figurativa da obra de arte se dá concomitantemente com a intuição da imagem como obra de arte 4, com fins a sua unidade 5. Ao intervir na obra com fins à sua unidade potencial, Brandi 6 cita três princípios que devem guiar a restauração. O primeiro é que a integração deverá ser sempre facilmente reconhecível; mas sempre que por isso se venha a infringir a própria unidade da que visa a reconstituir. [...] deverá ser sempre invisível à distância que a obra de arte deve ser observada, mas reconhecível de imediato, sem a necessidade BRANDI, C. Teoria da Restauração. Trad. Beatriz Kühl. São Paulo: Atelier Editorial, 2004, s/n. 2 Ibid. p Ibid. p.47 4 Ibid. p.46 5 CUNHA, C. R. A atualidade do pensamento de Cesare Brandi. Disponível em: resenhas. Acesso em: 9 ago BRANDI, C. op cit. pp BRANDI, C. Teoria da Restauração. Trad. Beatriz Kühl. São Paulo: Atelier Editorial, 2004, s/n. 2 Ibid. p Ibid. p.47 4 Ibid. p.46 5 CUNHA, C. R. A atualidade do pensamento de Cesare Brandi. Disponível em: resenhas. Acesso em: 9 ago BRANDI, C. op cit. pp

3 de instrumentos especiais, quando se chega a uma visão mais aproximada [...]. O segundo princípio é relativo à matéria que resulta da imagem, que é insubstituível só quando colaborar diretamente para a figuratividade da imagem como aspecto e não para aquilo que é estrutura [...]. O terceiro princípio se refere ao futuro: ou seja, prescreve que qualquer intervenção de restauro não torne impossível, mas, antes facilite as eventuais intervenções futuras. Um dos pontos que devemos também considerar numa intervenção, ainda segundo o referido autor, é a questão das lacunas e das pátinas. As lacunas como sendo aquilo que concerne à obra de arte, é uma interrupção no tecido da obra 7. Em sua visão a lacuna tanto pode ser considerada como aquilo que está em falta ou em excesso numa obra de arte, podendo ser necessário uma adição ou uma subtração. Isso dependerá de cada caso, por exemplo, no exame da obra: se for levada em consideração à instância histórica, os acréscimos deverão ser mantidos. Mas se prevalecer à instância estética os acréscimos deverão ser removidos. Caso essa adição ou refazimento alcançar uma nova unidade artística, então deverá ser mantido. O refazimento, mesmo condenável deverá também ser mantido, quando tal ação levou à destruição parcial dos aspectos que poderia levá-lo à valorização como ruína ou conduzi-lo à reintegração da unidade potencial. Com relação às pátinas, o mesmo fato anterior pode ser considerado, por exemplo: para a instância histórica, a pátina deve ser conservada, pois representa a passagem da obra pelo tempo, mas, se for considerada uma adição, então para a instância estética ela deve ser removida, pois a matéria jamais deverá prevalecer sobre a imagem. A limpeza deverá conduzir a pátina a um equilíbrio rebaixando-a a um nível que não irá interferir na leitura da sua imagem METODOLOGIA 2.1. Os procedimentos de conservação e restauração Vamos expor aqui procedimentos que seguimos para trazer de volta a figuratividade da obra possibilitando sua volta ao espaço arquitetônico do museu Investigação documental Pesquisa histórica, arquivística e bibliográfica: Análise histórica e artística da obra os registros de todas as intervenções realizadas desde sua criação, bem como os procedimentos utilizados. 7 Ibid. p.48 8 Ibid. passim. 3

4 Registros fotográficos: Levantamento da iconografia da obra através da pesquisa de registros fotográficos (desde sua criação), anteriores e após intervenções de restauro Levantamento físico Local da obra: Identificação e descrição do local - Planta de localização (onde se localiza o edifício onde se encontra a obra, em relação à cidade orientação) e Planta baixa (Compreensão do espaço e localização do elemento escultórico). A identificação do local, além de servir para orientar, também contribui para o diagnóstico de danos, na avaliação das condições climáticas da região onde se localiza a edificação a qual a obra esta inserida. Neste caso utilizamos somente a planta baixa Investigação científica analítica e estrutural A investigação científica compreende: as técnicas analíticas e as estruturais. As analíticas identificam os materiais utilizados na execução e as estruturais auxiliam na análise da forma e no diagnóstico do estado de conservação, segundo a integridade do suporte 9. Nas técnicas de investigação analítica e estrutural temos os exames nas obras de arte que podem ser: globais ou de superfície, também conhecidos como não destrutivos e os exames pontuais ou destrutivos: são realizados a partir de amostras ou fragmentos retirados do objeto para um reconhecimento de sua composição e estrutura. Por exemplo, temos os exames não destrutivos, como: exame Organoléptico; Microscópio estereoscópico (lupa binocular); fotografia com luz normal (luz branca); Fluorescência de Raios X, Radiografia, etc. Já nos exames destrutivos temos: o corte estratigráfico; testes micro químicos ou estratigráficos; microscopia ótica, etc. esses são alguns exames que pode ser feitos neste tipo de obra. Na conservação e restauração da obra foi necessário utilizarmos exames organolépico: observação a olho nu das características dos materiais constitutivos do objeto de arte: suporte, base de preparação, camada pictórica, verniz, etc. Identificação das intervenções e degradações da obra; fotografia com luz normal (luz branca): esse método tem como objetivo testemunhar o estado de conservação da obra antes da restauração. E também registrar as diversas etapas da restauração de uma obra como o controle ou testemunho de novas descobertas. A fonte de iluminação pode ser a luz natural (luz solar), lâmpada incandescente, lâmpada fluorescente e o flash Técnicas de identificação e localização dos danos Na identificação e localização dos danos nas obras de arte temos o levantamento fotográfico dos danos, o diagnóstico dos danos e o mapeamento de danos (caso seja um bem integrado). Levantamento fotográfico dos danos: Registros fotográficos de todos os danos presentes na obra, antes da ação de intervenção. 9 NUNES, M. A. Sistemas Construtivos e Suas Representações: retábulos executados entre o século XVIII e XIX da arquitetura religiosa de Florianópolis f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. s/n. 4

5 Diagnóstico de danos: Após o levantamento fotográfico dos danos inicia-se o diagnóstico, identificando os tipos de danos e suas causas. Na obra em questão identificamos segundo levantamento fotográfico, os seguintes danos: sujidade, perda de volumetria, perda de pátina e intervenções anteriores que alteram a unidade da obra. Vejamos a descrição dos danos nas figuras a seguir, todas as fotos do processo da conservação da escultura foram cedidas pelo Museu Nacional de Belas Artes 10. (fig.1 á fig.7) Sujidade por toda peça Fig.1 Escultura em vulto Intervenções anteriores que alteram o aspecto da obra Fig.2 Detalhe da mão Fig.3 Detalhe do panejamento 10 Coleção Museu Nacional de Belas Artes/IBRAM/MINC 5

6 O processo de conservação e restauração da escultura Oscar no Museu Nacional de Belas Artes Intervenções anteriores que alteram o suporte da obra Fig.4 Detalhe do suporte do braço Fig.5 Detalhe da bainha da espada Perda de volumetria / Perda de pátina Fig.6 Detalhe da espada Fig.7 Detalhe da base 3. A INTERVENÇÃO DE CONSERVAÇÃO E RESTAURAÇÃO Técnicas e materiais utilizados Limpeza mecânica A limpeza de uma obra poderá ser superficial ou profunda. A limpeza superficial é iniciada com um pincel macio e seco ou um aspirador de pó com baixa sucção. O que se pretende, com esse tipo de limpeza e retirar a poeira leve e todas as sujidades particuladas encontradas na superfície da obra. Na limpeza profunda recorre-se a utilização de um bisturi para remoção de partículas de maior aderência. Limpeza química Método de limpeza utilizado para remover a poeira endurecida, materiais gordurosos, ceras, resinas, goma laca, repinturas e vernizes deteriorados agregados à obra de arte. Na obra em questão utilizamos os dois métodos, na limpeza química foram feitos testes anteriores, para não atingir a figuratividade da obra. Foram feitos de solubilidade testes com saliva e aguarrás. A limpeza definitiva da peça foi feita com aguarrás e rinçagem com água deionizada. 6

7 Torna-se assim indispensável á realização de testes preliminares avaliando e identificando os danos, de modo a garantir o êxito na execução do procedimento, mantendo a estrutura e o aspecto da obra. Retirada de intervenções que alteram o suporte da obra Este item se refere as lacunas, como vimos, como sendo segundo Brandi aquilo que está em falta ou em excesso na obra de arte, impedindo a leitura final da obra. Na restauração anterior, da obra apresentada, temos intervenções com materiais incompatíveis com os da obra. (fig. 8) Fig. 8 Detalhe da retirada de intervenção da bainha da espada Recomposição da volumetria A volumetria de uma obra de arte é fundamental para sua leitura final, pois somente após a recuperação da sua estrutura (suporte/volume), podemos trazer de volta seu aspecto visual, neste caso a finalização com a pátina. Este procedimento será realizado após a verificação e identificação de sua causa, como em todos os casos, de acordo com a necessidade de cada obra, como: reconstituições de partes de esculturas, ornamentos, altares, etc., seja através de rebatimentos, pesquisas históricas ou por decisões de órgãos de proteção, cuja intenção é trazer de volta a unidade da obra. A volumetria poderá, no caso da obra de gesso, ser realizada com o próprio gesso e adesivo, umedecendo sempre o local antes de aplicar o novo gesso, sendo necessário ás vezes, o uso de sisal, tarugos ou barras metálicas (de preferência de latão ou aço, para não enferrujar), para estruturá-la, isso dependerá da necessidade de cada obra. O material utilizado deve apresentar características físicas, químicas e biológicas próximas a do original, para se evitar alterações futuras, como: rachaduras, fissuras, craquelês (neste caso da pátina). Nesta restauração utilizamos além do gesso e adesivo, arame (para amarração), barra chata (sustentação do braço) e tarugos de latão (para reforçar o interior da base). (fig.9 á fig.15) 7

8 Fig.10 Detalhe da espada Fig.9 detalhe da bainha Fig.11 Detalhe da base Recomposição da volumetria Modelagem de barra chata Estrutura para sustentar o braço da escultura Fig.12 Construção da barra de sustentação do braço Fig.13 Barra de sustentação do braço finalizada Fig.15 Detalhe do braço com volumetria refeita e a barra de sustentação Fig.14 Detalhe do braço com a barra de sustentação 8

9 Recomposição da pátina Na recomposição de uma pátina deve-se ter a consciência da técnica e dos materiais que foi utilizada em sua composição. Pois ao repor ou intervir em uma pátina a sua técnica é que vai orientar a utilização de materiais e produtos que não alterem a obra futuramente. Seja no uso de materiais ou produtos tradicionais, ou no uso de novas tecnologias, a obra deverá permanecer estável, utilizando-se de materiais ou produtos que possuam características próximas do original. No momento de reintegração a expressão de autenticidade da matéria não pode ser influenciada pelo retoque 11. Deve-se manter a unidade da obra sem interromper a sua leitura. A reintegração da obra apresentada foi feita com guache talens, com a técnica de ilusionismo. Proteção da obra A proteção da obra deverá atender a necessidades específicas de cada caso, buscando proteger ao máximo a obra utilizando protetivos compatíveis e que não danifiquem futuramente a obra em seu aspecto. Neste caso utilizamos o paralóide B72 para a proteção final da peça. (fig.16) Fig.16 Escultura finalizada com protetivo 11 BALLESTREM, A. Limpieza de las esculturas policromadas. Trad. para espanhol Paul Getty Trustl y Proyecto Regional de Patrimonio Cultural y Desarrollo. Los Angels, v. 2, 2 ed., s/n. 9

10 A volta da escultura ao espaço de exposição do museu. Após a conservação e restauração da obra apresentada, destacamos que sua principal função só é confirmada em seu espaço expositivo, pelo expectador. Afirmamos como Brandi 12 ao citar Dewey, que á obra de arte é recriada toda vez que a experimentamos esteticamente. O espaço arquitetônico do museu é o veículo que permite essa relação, entre a obra e o público, possibilitando essa fruição. Podemos dizer que são vários os fatores que contribuem para a fruição da obra de arte no espaço de museu. Destacamos, segundo Montaner 13, alguns itens sobre a arquitetura de museus que colaboram para isso, como: o repertório tipológico (estilo do edifício e adequação espacial, neste caso para receber a esculturas); ordenação espacial (distribuição formal da planta: para a percepção do espaço dessas obras); materialidade de fundo (leitura dos elementos que compõem o espaço interior, como piso, tetos e paredes e a relação com as obras expostas); iluminação (artificial e natural e sua influência sobre a obra) suporte (relacionam-se com os objetos que estão sendo expostos e ao mesmo tempo, convertem-se em outro tipo de peça de valor artístico, colocando-se num nível intermediário entre a arquitetura do edifício e a identidade de cada peça 14 e circulação 15 com base em Clark e Pause diz que a circulação é o elemento de ligação dos espaços, ou seja, são as aberturas para a passagem do público visando a fruição da obra. Compreendemos assim que a obra de arte ocupa um espaço e ajuda a determiná-lo. Influencia diretamente na composição do ambiente/espaço, tanto no espaço interno como no externo, através de sua forma, cor e suporte, com também é influenciada por eles. Assim é de fundamental importância na sua relação com os espaços, á integridade de sua condição física e estética, para a composição e a leitura do espaço para o qual foi projetada. CONCLUSÃO Ao expor as técnicas de restauro e os procedimentos para a preservação da escultura. Concluímos que a restauração de uma obra, não só se dá através de uma ação prática sobre a obra, mas, deve ser baseada também na teoria, com conceitos, princípios e critérios, estabelecidos pela evolução do pensamento preservacionista, os quais irão nortear esta ação como um todo. Este trabalho trata da restauração de um elemento escultórico em gesso (bem móvel) que compões o espaço arquitetônico do museu. Logo este bem sofre a influencia de fatores que são inerentes ao espaço do edifício. Portanto, devemos tratar primeiro do local no qual a obra se encontra inserida ou vinculada, para depois tratar da obra. É primordial a identificação e determinação das causas dos danos, para depois tratá-los, eliminando ou prevenindo sua ação BRANDI, C. op cit. p.26. MONTANER, J. M. Museu contemporâneo: lugar e discurso. In Projeto, nº 144, São Paulo, 1990, p s/n. 14 Ibid. p PEREIRA, S. G. A cultura da transformação: o Paço e o tribunal f. Dissertação (mestrado em arquitetura) Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. s/n. 10

11 É de fundamental importância antes de uma ação sobre a obra, que sejam realizados: a investigação documental, o levantamento do local aonde a obra se encontra, o levantamento dos danos, identificando e determinando os danos através de um diagnóstico. Neste tipo de intervenção deixamos claros ser de extrema importância, que, nos procedimentos de limpeza, os produtos utilizados sejam previamente testados, para não causar danos à estrutura e consequentemente ao aspecto da obra. A investigação científica da obra é primordial na escolha da técnica a ser utilizada em sua restauração. Ao lidarmos com a preservação de um bem devemos levar em conta não só seus aspectos materiais e construtivos, mas, também os atributos, significados e simbologias que são inerentes às obras de arte. Para tanto é imprescindível conhecer o seu contexto histórico, seja o contexto histórico factual, social e cultural no qual a obra a ser restaurada teve origem, seja o papel que ocupa dentro da história da arte. O contexto histórico, no qual a obra se acha inserida, impõe-se como fator decisivo para que uma intervenção se dê. Isso porque é esse contexto que irá determinar as decisões que o restaurador deverá tomar no ato do restauro. Isto se explica porque, tanto os princípios e critérios de como intervir na obra a ser restaurada, estabelecidos pelos órgãos competentes, quanto às técnicas propriamente ditas do restauro, ou ainda as concepções artísticas inerentes à obra, são sempre o resultado do modo como o homem compreende e interpreta o seu mundo. Ao empregar os procedimentos técnicos no restauro, deveremos ter sempre uma visão retrospectiva (um conhecimento do passado da obra, ou seja, do estilo artístico a que ela pertence, dos materiais utilizados, das técnicas nela empregadas, etc.) e prospectiva (dos possíveis danos que a obra poderá vir a sofrer, dos novos usos que o espaço no qual ela se acha inserida possa ocorrer, etc.). Esse caráter retrospectivo e prospectivo da visão sobre a obra é o que permiti intervir sobre ela, no presente, de forma adequada. Por sua vez, esse tipo de visão é a mesma que o orienta na percepção do caráter artístico (estético) da obra. Concluímos assim que a obra em questão sofre a influencia não só de fatores ambientais comuns ao espaço onde estão inseridas, mas também é influenciado pelos aspectos que constituem a arquitetura de museu. Por exemplo: a iluminação contribui para a leitura da obra numa exposição (efeitos de claro/ escuro na volumetria), mas também pode comprometer o estado de conservação da obra (pela incidência da radiação ultravioleta) pelas lâmpadas, incandescentes ou fluorescentes. A circulação contribui para o acesso as obras pelo público e a união dos espaços, mas pode contribuir também para trazer mudanças climáticas ao local, influenciando na conservação das obras. Estes são alguns aspectos que nos fazem refletir sobre os espaços arquitetônicos de museus, na sua relação com a obra de arte. 11

12 Contudo, deixamos aqui nosso pensamento que demonstra a importância do espaço para a fruição da obra de arte, quando atribuímos a ele utilidade. BIBLIOGRAFIA Reunimos trinta raios e os chamamos de roda; mas é do espaço onde não há nada que a utilidade da roda depende. Giramos a argila para fazer um vaso; mas é do espaço onde não há nada que a utilidade do vaso depende. Perfuramos portas e janelas para fazer uma casa; e é desses espaços onde não há nada que a utilidade da casa depende. Portanto, da mesma forma que nos aproveitamos daquilo que é, devemos reconhecer a utilidade do que não é. (CHING apud JUNIOR 16 ). BALLESTREM, A. Limpieza de las esculturas policromadas. Trad. para espanhol Paul Getty Trustl y Proyecto Regional de Patrimonio Cultural y Desarrollo. Los Angels, v. 2, 2 ed., BOTALLO, M. Ética e preservação. Boletim Abracor, v. 5, n. 2-3, p.3-5, mar./ago BRAGA, M. Conservação e restauro: madeira, pintura sobre madeira, douramento, estuque, cerâmica, azulejo, mosaico. Rio de Janeiro: Rio, BRANDI, C. Teoria da Restauração. Trad. Beatriz Kühl. São Paulo: Atelier Editorial, COSTA, L. M. De museologia Artes e Políticas de Patrimônio. Rio de Janeiro: IPHAN, CUNHA, C. R. A atualidade do pensamento de Cesare Brandi. Disponível em: Acesso em: 9 ago CURY, I. (Org). Cartas patrimoniais. 2 ed. rev. aum. Rio de Janeiro: IPHAN, D'ALESSANDRO, L; PERSEGATI, F. Scultura e calchi in gesso storia, tecnica e conservazione. Roma. L'Erma" di Bretschneider, JUNIOR, A. A. Fabiano, Museu: um olhar sobre o espaço público, o espaço arte, o espaço arquitetura. In: Revista CPC, São Paulo, n.4, p.7-22, mai/out JUNIOR, A. A. Fabiano, Museu: um olhar sobre o espaço público, o espaço arte, o espaço arquitetura. In: Revista CPC, São Paulo, n.4, p.7-22, mai/out s/n. 12

13 O processo de conservação e restauração da escultura Oscar no Museu Nacional de Belas Artes PEREIRA, S. G. A cultura da transformação: o Paço e o tribunal f. Dissertação (mestrado em arquitetura) Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. MONTANER, J. M. Museu contemporâneo: lugar e discurso. In Projeto, nº 144, São Paulo, 1990, p NUNES, M. A. Sistemas Construtivos e Suas Representações: retábulos executados entre o século XVIII e XIX da arquitetura religiosa de Florianópolis f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. REGIS, D. V. A Capela do Santíssimo da Igreja do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro: aspectos científicos do estado de conservação f. Monografia (Especialização em Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis) Escola de Belas Artes, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. SOUSA, L. A. C. Uma contribuição científica ao estudo da policromia nas esculturas mineiras dos períodos Barroco e Rococó. In: SEMINÁRIO DA ABRACOR, 7, 1994, 13

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