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1 Chiquinho MIOLO 3/8/07 9:34 AM Page 14

2 Meu nome é Chiquinho Meu pai é alto e magro e se chama Chico. Meu avô é baixo e gordo e se chama Francisco. Eu me chamo Chiquinho e ainda não sei como sou. Já andei pensando nisso e acho que essa história de eu não saber como sou deve ser por causa da minha idade, pois o pessoal aqui de casa já tem opinião formada a meu respeito. Minha avó, por exemplo, que é a mais velha de todos, acha que sou um palito de fósforo e pronto. Isso porque sou magrela e pouco fanático por comida, principalmente pela sopa que minha mãe faz e sempre tem gosto de coisa de que não gosto. Por isso todos deram de me chamar palito de fósforo. Principalmente aquela chata da minha irmã, que, não sei por quê, acha uma graça dana- 15

3 da quando me chama de palito de fósforo e ri de um jeito tão irritante que me deixa louco da vida, com vontade de inventar apelidos horripilantes para ela. Mas, para falar a verdade, acho uma perda de tempo ficar inventando apelidos para os outros e sei que, se fosse para eu querer ser alguma coisa, é lógico que não seria um palito de fósforo. Preferiria, por exemplo, ser um pé de mesa, um pé de mesa bailarino. Para começar a dançar bem na hora da comida, quando todos estivessem na mesa. Já imaginou os pratos, os copos, os talheres todos pulando? E a cara das pessoas? Eu morreria de tanto rir, e ninguém desconfiaria de nada, porque não dá para ouvir um pé de mesa, mesmo quando ele está se matando de dar risada. Também não gosto do meu nome. Eu me chamo, na verdade, Francisco Ferreira Neto. Para mim, parece nome de outra pessoa. Combina mais com o meu avô do que comigo. Ele é que é o verdadeiro Francisco Ferreira. 16

4 Um dia desses passou pela minha cabeça procurar alguém que tivesse cara de Francisco Ferreira Neto e gostasse do nome. Eu daria tranqüilamente o meu nome de presente para ele e arranjaria outro para mim, mas pensei em vários nomes e não achei nenhum que combinasse comigo. Então peguei uma folha de papel enorme e rabisquei uma assinatura bem caprichada, que não dava para ler de jeito nenhum. Além de muito bonita e toda cheia de curvas, ela poderia representar qualquer nome. Quer dizer, eu poderia dar a ela o nome que quisesse, trocar de nome todos os dias ou até várias vezes ao dia. Ainda não achei nenhum nome para a minha assinatura, mas isso não tem nenhuma importância. 17

5 Chiquinho MIOLO 3/8/07 9:34 AM Page 18

6 Domingo vira quinta-feira Acordei logo de manhã sem saber o que fazer. Não que eu não tivesse nada. Havia as lições da escola e tudo o mais, mas ninguém acorda num domingo de manhã louco para fazer lição de casa. Se é para falar a verdade, acho essas lições muito chatas e também acho o domingo chato. Acho o domingo sem passeio o dia mais chato de todos. É aquele dia em que, se minha mãe e meu pai não programaram nenhum passeio, a gente fica trancado dentro de casa, andando de um lado para o outro, não fazendo nada e se cansando de não fazer nada. E eles falam que querem descansar. Com toda a razão, pois trabalharam a semana inteira. Mas, para que a gente não fique rondando, incomodando, perturbando o repouso 19

7 deles, mandam a gente fazer coisas o tempo todo. Então é um tal de faça isso, faça aquilo Por que não estuda, não faz a lição, não lê um livro, não arruma suas coisas e a bagunça do seu quarto? Dá para agüentar? Por isso decidi que o meu domingo não seria mais um domingo. Poderia ser qualquer outro dia, menos um domingo. Poderia ser uma quinta-feira, por exemplo. Pronto! Decidi que o domingo não seria mais domingo, mas quinta-feira. E, quando meu pai entrou no quarto para avisar que meus avós vinham almoçar em casa, foi como se nada tivesse acontecido. Quer dizer, se o domingo não era domingo, mas quintafeira, naquela hora eu não estava no meu quarto estava na escola e meu pai não estava na minha frente estava no trabalho. Então eu, que não estava, não respondi nada. E meu pai, que também não estava, saiu sem perceber nada. 20

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9 Tinha dado tudo certo. Cheguei até a pensar que todos os outros domingos também poderiam ser quintas-feiras. Mas bastou meu pai sair do quarto para eu ficar todo atrapalhado. Quer dizer, se o domingo não era domingo, mas quinta-feira, e se naquela hora eu estava na escola, quem estava no meu quarto não era eu. E, se não era eu, quem era, então? 22

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