Universidade Estadual de Feira de Santana. Pós- Graduação em História. Mestrado em História. Daniela de Jesus Ferreira

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1 Universidade Estadual de Feira de Santana Pós- Graduação em História Mestrado em História Daniela de Jesus Ferreira Tempos de lutas e esperanças: a materialização da revista Seiva ( ) Feira de Santana - Bahia 2012

2 Daniela de Jesus Ferreira Tempos de lutas e esperanças: a materialização da revista Seiva ( ) Dissertação apresentada a banca examinadora da Universidade Estadual de Feira de Santana como exigência para obtenção do grau de Mestre em História, sob a orientação da Profª Drª Elizete da Silva. Banca Examinadora Prof. Dr. Elizete da Silva (orientadora) Prof. Dr. Eurelino T. Coelho Prof. Dr. Paulo Santos Silva Feira de Santana- Bahia 2012

3 A minha família. Aos comunistas baianos.

4 Agradecimentos Agradecer talvez seja a parte mais difícil de um trabalho de pesquisa, pois, depois de pronto, identificamos que este não foi construído sozinho. Mas, ao mesmo tempo, se torna fácil falar daqueles que contribuíram direta ou indiretamente para a produção de um trabalho que no final é delegado como seu, de sua autoria e responsabilidade. Principalmente quando no meio do caminho diversas reviravoltas acontecem no percurso da escrita. Obrigada à professora Elizete da Silva que aceitou orientar a minha pesquisa quando já estava perdida, sem orientador. Ela acolheu a menina das argolas e seus comunistas com toda dedicação e cuidado que uma boa pesquisadora, historiadora e pessoa humana que é. Sou-lhe grata às críticas, ao apoio, à leitura atenciosa que devotou nestes longos meses. Agradeço a minha banca de Exame de Qualificação, os professores Eurelino Coelho e Paulo Santos Silva que através da análise das letras apontaram um caminho melhor a seguir. Aos amigos e companheiros que suportaram a minha ausência, a minha chatice, que ouviram as minhas angústias e as muitas recusas para sair. Menciono as amizades de Nilza Bispo, Valter Ferreira, Luiza Macena, Jamile Amaral e a Luciane Almeida que chorou comigo quando fui aprovada na seleção do mestrado. Amigos que sempre torceram por mim e me apoiaram em tudo que puderam. Aos colegas da turma de mestrado e com carinho especial: a Aline Bispo, Adriana Oliveira, Alécio Gama e Mariana Emanuelle, que compartilharam aflições, choros, dúvidas, alegrias e boas conversas. Menciono a atenção do professor, Rinaldo Leite, que sempre esteve disposto a me auxiliar nessa trajetória, com sua leitura, discussões e indicação de material. Sou grata ao funcionário, Julival Cruz, por sua atenção e paciência, na Pós-Graduação em História. Registro também meu agradecimento, a Valter Guimarães, mestre e amigo que desde a Graduação em História incentivou-me a construir esta pesquisa. Pelas longas conversas que tivemos a respeito deste trabalho, pelas diversas críticas e caminhos que apontou ao longo dessa jornada. Seu apoio foi fundamental. 4

5 Agradeço aos meus familiares que estiveram sempre ao meu lado, facilitando minha pesquisa com o aconchego de casa, com o cuidado e a preocupação com minhas noites que viravam dias e com a correria. Eles tornaram a produção deste trabalho mais alegre e humano. Dedico a Ana e Aderbal, meus pais, que sempre fizeram de tudo para que eu pudesse ter o melhor estudo e sempre me incentivaram. As minhas irmãs Damile e Bruninha e aos irmãos Danilo e Daniel com quem dialoguei várias vezes sobre a pesquisa e que sempre me socorriam a qualquer hora quando meu computador parecia dar fim ao meu trabalho. Dedico a vocês esta dissertação, amores da minha vida. Obrigada a todos. 5

6 Resumo A sobrevivência do Comitê Regional do Partido Comunista da Bahia, após a forte repressão do Estado brasileiro em 1935, contribuiu para que alguns comunistas baianos enveredassem pelo caminho das letras através da articulação e produção de uma revista. A revista foi denominada Seiva, e tornou-se o primeiro periódico antifascista a circular no cenário do Estado Novo. Para driblar a censura que proibia e vistoriava toda e qualquer ação de oposição ao governo, a Revista teve a princípio característica literária. Produziu 18 edições ao longo da sua primeira fase, que perdurou de 1938 a 1943, quando foi proibida de circular pelo Governo Getúlio Vargas. Analisamos a Seiva, enquanto instrumento de ação e luta dos comunistas baianos na sociedade brasileira. Estavam articulados e cientes do papel que desempenhavam para o Partido e o comportamento que os intelectuais deveriam cumprir intervindo na realidade, opinando e dialogando sobre questões raciais e desigualdades sociais que afetaram o Brasil e a América Latina. Palavras-chave: Imprensa, Intelectuais, União Nacional. 6

7 Abstract The survival of the Regional Committee of the Communist Party of Bahia after the strong repression of the Brazilian state in 1935 contributed to some communist Bahia followed by the path of letters through the articulation and production of a magazine. The magazine was called Seiva, and became the first newspaper circulating in the antifascist Estado Novo scenario. To circumvent the censorship which prohibited and investigated any and all opposition to the government, the Journal had the characteristic literary principle. Produced 18 editions along its "first phase", which lasted from 1938 to 1943, when was prohibited by Government of Getulio Vargas. Analyzed the Seiva as an instrument of action and fight the Bahians Communists in Brazilian society. They were articulate and aware of the role they played for the Party and the behavior that intellectuals should meet intervening in reality, opining and talking about racial issues and social inequalities that affected Brazil and Latin America. Keyword: Press, Intellectuals, National Union. 7

8 Abreviaturas AIB Ação Integralista Brasileira ANL Aliança Nacional Libertadora AUB Associação Universitária da Bahia CNRC Comissão Nacional de Repressão ao Comunismo CR Comitê Regional DEIP Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda DEOPS Departamento de Ordem Política e Social DIP Departamento de Imprensa e Propaganda DNP Departamento Nacional de Propaganda DOP Departamento Oficial de Publicidade DPDC Departamento de Propaganda e Difusão Cultural IC Internacional Comunista IGHB Instituto Geográfico e Histórico da Bahia PCB Partido Comunista do Brasil SNI Serviço Nacional de Informação UNE União Nacional dos Estudantes URSS União das Repúblicas Socialistas Soviéticas 8

9 Sumário Introdução 10 Capítulo I Imprensa comunista: um panorama da produção de revistas e jornais do Partido Comunista do Brasil. 20 Surge a revista Seiva 39 O anseio por uma arte engajada 60 Capítulo II Ideias, problemas e olhares: visões da Seiva sobre a sociedade 67 Mulheres Olhares sobre o negro 80 Leituras comunistas de História e Política 94 Operário quem é você? 107 Luta antifascista: um programa comunista 112 Capítulo III As letras evidenciam os vestígios comunistas 116 Escritores da América: Lima Barreto, Euclides da Cunha e Castro Alves 127 Considerações Finais 139 Fontes 142 Bibliografia 144 Anexos 151 9

10 Introdução O objetivo desta dissertação é analisar a criação da revista Seiva como instrumento de ação, de luta dos comunistas baianos no seio conflituoso da sociedade brasileira, bem como demonstrar como estavam articulados e sabedores do papel que desempenhavam dentro do Partido Comunista do Brasil com a criação da primeira revista antifascista em pleno Estado Novo ( ). Em 1938, saiu o primeiro número da revista antifascista Seiva, mensário que teve duas fases. Esta dissertação busca contribuir para o conhecimento do papel desta Revista, já que existem poucos trabalhos que se debruçaram sobre ela, dentre eles Os Impasses da estratégia: os comunistas, o antifascismo e a revolução burguesa no Brasil ( ), publicado em 2009, do historiador Carlos Zacarias Sena Jr e a dissertação de Mestrado em História de autoria de Rafael Fontes A Seiva de uma juventude: intelectualidade, juventude e militância política, defendida em Nesse sentido, optamos por estudar, o período compreendido pela primeira fase da revista, de 1938 a 1943, por estar articulada com os objetivos que nos propusemos. Com isso, não excluímos a importância das cinco edições publicadas na década de 1950, apenas foram feitas escolhas. A Seiva nos oferece um amplo leque de questões que poderiam ser densamente estudadas. Neste texto, algumas temáticas foram mais exploradas que outras, como o papel dos intelectuais, das mulheres e da concepção de História dos articulistas. O uso da imprensa como fonte para escrever a História no Brasil, não é de longa data. Existia uma resistência para estudar a História por meio dos jornais, revistas e boletins que foram produzidos aos longos dos anos. Isso foi consequência de uma produção restrita aos documentos oficiais que não dava muita oportunidade a apropriação de outras fontes, como as produzidas pelos movimentos sociais. Após a abertura de um novo olhar sobre a produção historiográfica, aumentou o espaço de atuação do historiador com renovação temática e alargamento das fontes, revistas e jornais passaram a ser tratados não apenas como fontes, mas como objeto de estudo. Assim, a imprensa e especialmente as revistas começaram a ganhar destaque se tornando uma documentação importante para o conhecimento da História. Por isso, jornais e revistas possibilitavam acessar não só um mundo oficial, mas também um 10

11 mundo/grupos em que os governos, a classe dominante, tentavam manter distante, colocando-o no esquecimento. A exclusão de discursos de outros segmentos sociais que eram produzidos pelos próprios não era analisada. Tania de Luca afirma que: Vários fatores explicam tal situação, que não constituía particularidade brasileira. Não se pode desprezar o peso de certa tradição. Dominante durante o século XIX e as décadas iniciais do século XX, associada ao ideal de busca da verdade dos fatos, que se julgava atingível por intermédio dos documentos, cuja natureza estava longe de ser irrelevante. Para trazer à luz ao acontecido, o historiador livre de qualquer envolvimento com seu objeto de estudo e senhor de métodos de crítica textual precisa, deveria valer-se de fontes marcadas pela objetividade, neutralidade, fidedignidade, credibilidade, além de suficientemente distanciadas de seu próprio tempo. Estabeleceu-se uma hierarquia qualitativa dos documentos para a qual o especialista deveria estar atento. Neste contexto, os jornais pareciam poucos adequados para a recuperação do passado, uma vez que essas enciclopédias do cotidiano continham registros fragmentários do presente, realizados sob o influxo de interesses, compromissos e paixões. Em vez de permitirem captar o ocorrido, dele forneciam imagens parciais, distorcidas e subjetivas. 1 Recusando tal tradição exclusiva das fontes oficiais, buscamos conhecer os comunistas baianos através de suas próprias produções. O que se torna relevante pelas reflexões e visões de mundo sobre o tempo e que ficaram guardadas em materiais impressos, como as revistas. Desse modo, o estudo da revista, enquanto mecanismo de produção cultural, aglutinadora de intelectuais, facilitadora da circulação das ideias políticas torna-se uma fonte importante para o conhecimento dos homens, de suas trajetórias, dos grupos sociais. As revistas permitem desvendar o que os sujeitos pensavam; as relações com os grupos políticos, seu papel em determinado momento histórico. Podemos ver o jornal ou uma revista como porta voz de um grupo social, de uma classe. Tania de Luca fez isso ao estudar a Revista do Brasil nos livros, Leituras, projetos e (RE) vista (S) do Brasil. ( ) e em A revista do Brasil: um diagnóstico para a (N) ação, analisando o desenvolvimento da revista do Brasil, seus produtores e seus interesses. Um melhor conhecimento sobre o movimento operário ou estudantil pode ocorrer a partir dos seus escritos, os quais foram produzidos com os materiais que foram dados, com as condições reais que encontraram. Podemos compreender as transformações sociais a partir das perspectivas ideológicas que seguiam e das que pleiteavam. Sobre a História do Movimento Operário, Tania de Luca assegurou que: 1 LUCA. Tania Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY. Carla Bassanezi (org). Fontes Históricas. São Paulo, Contexto, p

12 A História do movimento operário, que desfrutou de grande prestígio nos círculos acadêmicos brasileiros especialmente entre 1970 e 1990, encontrou na imprensa uma das suas fontes mais privilegiadas. Agora não se tratava mais de lidar com os jornais de cunho empresarial, capazes de influenciar a vida política, mas de manejar folhas sem periodicidade ou número de páginas definidas, feitas não por profissionais, mas por militantes abnegados, por vezes redigidos em língua estrangeira, sobretudo italiano ou espanhol, impressas em pequenas oficinas, no formato permitido pelo papel e máquinas disponíveis, sem receita publicitária e que, no mais das vezes, contava com a subscrição dos próprios leitores para sobreviver (...). 2 Para entender a história dos partidos, da política e suas disputas pelo poder, são fundamentais materiais como jornais, panfletos e revistas, 3 bem como materiais que foram produzidos para divulgação de ideias e da atuação de alguns segmentos na sociedade em geral. A história do Partido Comunista do Brasil também pode ser conhecida a partir de pesquisas nessas fontes internas. Fontes muitas vezes imprecisas e com páginas falhas, de difícil leitura, mas que podem auxiliar no conhecimento das memórias que seus militantes e adversários escreveram, por nos fornecerem informações que não ficaram nos registros oficiais e a proximidade com um passado relativamente distante ou com o tempo presente. Produções que na sua maioria não buscavam lucros, que possuíam poucos leitores (o analfabetismo era grande no Brasil na década de 1930 e 40) e que por muitas vezes não causavam impacto na grande imprensa brasileira. Essas fontes impressas podem trazer relevantes contribuições para o entendimento dos fatores que levaram jovens a se dedicarem de corpo e alma a um projeto político arriscado, das matrizes ideológicas, das ideias e pensamentos políticos que difundiam, bem como das estratégias usadas e dos conflitos provocados frente ao Estado conservador e opositor dos seus postulados programáticos. 2 LUCA. Tania Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY. Carla Bassanezi (org). Fontes Históricas. São Paulo, Contexto, 2005 p Com isso não afirmamos que não é possível fazer uma história dos partidos e da política com documentos institucionais e oficiais. 12

13 Referências Teóricas O debate sobre ideias e intelectuais sempre foi um terreno pedregoso e instigante para os historiadores que se debruçaram sobre o tema. A discussão sobre o papel do intelectual tem origem e espaços distintos. Um exemplo importante para se debruçar sobre a temática foi o caso Dreyfuss 4 na França, em 1894, que mobilizou diversos intelectuais, que intervieram na realidade francesa e pressionaram para um desfecho menos traumático. A História das ideias e dos intelectuais por vezes é confundida como algo único, o que é inexato. Sendo assim, segundo a concepção de Silva (...) a história intelectual deve levar em conta a dimensão sociológica, histórica e filosófica capaz de explicar a produção intelectual com base nos espaços sócio-profissionais e nos contextos 5. Isso incide no debate travado sobre as ideias que por longa data foram analisadas desencarnadas dos seus produtores. Os textos eram analisados sem levar em consideração seu contexto, seus produtores e a recepção das suas ideias. Uma historiografia preocupada com as ideias não pode perder de vista sua interlocução com a trajetória dos homens e das mulheres, as relações sociais devem ser levadas em consideração. Uma História Intelectual precisa está atrelada ao (...) posicionamento das ideias, situando-as em seu contexto (intelectual e histórico) de produção 6. Essa análise deve ainda preocupar-se com a intertextualidade, com as diversas leituras realizadas do texto, relacionadas ao seu contexto, do sujeito que a produziu. Em síntese, deve preocupar-se com a recepção do material exposto, divulgado, propagado. Por ser polissêmica, a concepção de intelectual abarca várias interpretações, dependendo do momento em que a concepção foi produzida. O imaginário, as 4 O oficial Alfred Dreyfuss foi acusado de traição em 1894, por supostas informações que teria transmitidos aos alemães inimigos da França. O caso levantou o debate entre os intelectuais pela ausência de provas e falta de veracidade no julgamento. Dentre os intelectuais que se destacaram nesta critica estava Emile Zolá, que escreveu inúmeras cartas e artigos sobre o assunto em defesa de Dreyfuss e da justiça. 5 SILVA, Helenice Rodrigues da. Fragmentos da história intelectual entre questionamentos e perspectivas. Campinas, SP: Papirus. 2002, p Idem. p

14 representações de um intelectual variam a depender da situação, da época histórica que ele/ela se faz presente, que atua e que interfere ou não, na sociedade em geral. Neste sentido, Sartre sugeriu que o intelectual surge então como produto histórico, atuando entre o universalismo de profissão e o particularismo de classe. 7 Ele não paira sobre o espaço. Relevante nestes estudos sobre os intelectuais é a concepção formulada pelo italiano Antonio Gramsci, que concebe todos os homens como intelectuais, conquanto, com características de classe. Ou seja, não existe possibilidade de qualquer atividade humana sem atividade intelectual. Para Gramsci todo ser humano desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um filósofo, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção de mundo, possui uma linha consciente de conduta moral 8. Para uma melhor compreensão dessa percepção do ser intelectual em Gramsci é preciso entendê-lo a partir da realidade social. Deve-se notar que a elaboração das camadas intelectuais na realidade concreta não ocorre num terreno democrático abstrato, mas segundo processos históricos tradicionais muito concretos 9. Antonio Gramsci opina que: (...) todos os membros de um partido político devam ser considerados como intelectuais é uma afirmação que pode se prestar a ironia e à caricatura; contudo, se refletirmos bem, nada é mais exato. Será preciso fazer uma distinção de graus; um partido poderá ter uma maior ou menor composição do grau mais alto ou do mais baixo, mas não é isto que importa: importa a função, que é diretiva e organizativa, isto é, educativa, isto é intelectual. 10 Esta forma de conceber o intelectual auxilia na análise dos integrantes do Partido Comunista do Brasil (PCB) e de suas ideias, já que o debate teórico foi fundamental para o desenvolvimento do PCB, o qual, desde sua formação, teve dificuldades em afirmar-se ideologicamente fosse por sua herança anarquista fosse pelo seu pouco envolvimento com o marxismo. O relacionamento com a teoria foi motivação de vários estudos e muitas polêmicas entre os integrantes do Partido e para 7 SARTRE. Jean- Paul. Em defesa dos intelectuais. São Paulo. Ática p GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 4º Ed Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, p GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Os intelectuais, o princípio educativo, jornalismo. 5º edição. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira p Idem. p

15 aqueles que se preocuparam em conhecê-lo, estudá-lo, reconhecer e compreender seus influxos teóricos que moldaram as formas de pensar e agir dos comunistas. Alguns autores afirmam que os comunistas brasileiros se preocupavam mais com as questões da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e menos com o debate de ideias do próprio Partido ou com a realidade brasileira. 11 O que refletia o conhecimento confuso que se possuía do marxismo, que não era a teoria mais conhecida, já que em terras brasileiras o positivismo era muito forte. Só após a Revolução Russa ocorreu um impulso para a leitura de Marx ou textos marxistas, como atesta Joaquim Q. de Moraes: do anarquismo operário e do positivismo intelectual os mais entusiastas e determinados passaram ao comunismo. 12 Ainda segundo o autor, o marxismo se fez às pressas por aqui: Dentre os positivistas, a primeira adesão importante ao marxismo foi a do professor Leônidas de Rezende, que se esforçou, numa compreensível tentativa de adaptar suas convicções antigas às novas idéias do presente, em aproximar o pensamento de Augusto Comte ao de Karl Marx. Mais tarde viriam outros, o mais célebre dos quais seria Luís Carlos Prestes. 13 afirma que: O historiador marxista inglês Eric Hobsbawm, no seu livro, Revolucionários Somente com a Primeira Guerra Mundial e a crise de 1929 é que estas velhas tradições e certezas são quebradas e os intelectuais, em grande número, se voltam diretamente para Marx. E o fizeram via Lênin. A história do marxismo entre os intelectuais do Ocidente é, pois, em grande medida, a história de suas relações com os partidos comunistas que substituíram a socialdemocracia como principais representantes do marxismo. 14 Dessa forma, quando esse conteúdo teórico marxista começou a ser tratado entre os intelectuais do Partido Comunista do Brasil, evidenciava algumas tendências, 11 Ver: KONDER. Leandro. A derrota da dialética a recepção das ideias de Marx no Brasil. São Paulo. Expressão Popular FERREIRA, Jorge. Urss: mito, utopia e história. Revista Tempo. Rio de Janeiro. nº 5, julho, Sette Letras p MORAES. João Quartim de. A evolução da consciência política dos marxistas brasileiros. In: MORAES. João Quartim de. História do Marxismo no Brasil: os influxos teóricos. Vol. II. Campinas, SP. UNICAMP p Idem. p HOBSBAWM. E.J. Revolucionários. Rio de Janeiro. Paz e Terra p

16 ao dogmatismo e outras que buscavam novas interpretações do marxismo e da realidade brasileira. Uma série de conflitos de ideias e de práticas foi travada dentro do Partido Comunista do Brasil contribuindo para a expulsão de integrantes como Astrojildo Pereira, Otávio Brandão e a saída de Leôncio Basbaum. Divergiam sobre a presença de Luis Carlos Prestes, sobre a política de proletarização do PCB e sobre a questão camponesa. A política obreirista, da III Internacional Comunista (IC), contribuiu para tornar a relação militante/intelectual complicada. O intelectual passou a ser visto com desconfiança. Nesse contexto, verificou-se o aprofundamento das discussões sobre o marxismo, sobre autores comunistas (franceses, russos, americanos) que pudessem contribuir para a formação teórica dos quadros do Partido e também, como catalisador de novos integrantes. Esta meta só seria realizável com demonstrações práticas e com um poder de convencimento que mobilizasse os trabalhadores a se apropriarem das concepções e formas de atuação partidária. A retórica não poderia ser vazia. Estes intelectuais deveriam se preocupar com os diversos aspectos da teoria e como colocá-las em prática. O reconhecimento da realidade brasileira não ficava inteiramente mascarado pelo imaginário soviético. Eric Hobsbawm pode contribuir para o entendimento das relações entre os intelectuais comunistas e suas respectivas instituições partidárias. Segundo ele: (...) seja qual for a tendência geral da simpatia política entre os intelectuais, não pode haver dúvidas sobre o caminho atribulado daqueles que efetivamente aderiram aos partidos comunistas. Tal fato é normalmente atribuído à crescente conversão destes partidos, sob a liderança dos soviéticos, a posições dogmáticas rígidas que não permitiam qualquer desvio de uma ortodoxia que acabou por englobar todos os aspectos concebíveis do pensamento humano, deixando, portanto, muito pouco espaço para as atividades pelas quais os intelectuais se caracterizam. 15 Com o objetivo de analisar a Revista Seiva, não podemos perder de vista que a leitura está atrelada à história do sujeito, ao grupo social ao qual ele está inserido. Que a mesma não é isolada e necessita de todo um arcabouço que depende muito do que se lê, como se lê, onde se lê; o que implicará diferentes formas de apropriação. Para os comunistas brasileiros e baianos, particularmente, a representação e apropriação da 15 HOBSBAWM. E. J. Revolucionários. Rio de Janeiro. Paz e Terra p

17 União Soviética como o melhor lugar do mundo se tornou um fascínio dentro do País. Segundo Roger Chartier: A apropriação tal como a entendemos visa uma história social dos usos e das interpretações, relacionados às suas determinações fundamentais e inscritos nas práticas específicas que o produzem. Dar assim as condições e aos processos que, muito concretamente, sustentam as operações de construção de sentido (na relação de leitura mais também em muitas outras) é reconhecer, (...) que nem as inteligências nem as idéias são desencarnadas e, contra os pensamentos do universal, que as categorias dadas como invariantes quer sejam filosóficas ou fenomenológicas, devem ser construídas na descontinuidade das trajetórias históricas. 16 As ideias que os comunistas brasileiros produziram não estavam isoladas ou surgiram do nada, mas eram vinculadas a uma época, à sua temporalidade. Dessa forma, os textos que chegavam às suas mãos ou os que os mesmos produziam não estavam isentos de intenções e motivações. Tanto a forma como liam, quanto o material de impressão tem importância. Ao tratar dessa problemática Chartier alerta: (...) por isolar as idéias ou os sistemas de pensamento das condições que autorizavam sua produção, por separá-las radicalmente das formas da vida social, esta história desencarnada instituiu um universo de abstrações onde o pensamento parece não ter limites já que não tem dependências. 17 O que foi lido pôr homens e mulheres que se declaravam comunistas foi retido por cada um deles de forma diferenciada. Fosse esta uma leitura oral, pública ou privada, em grupo, ou em espaços restritos. As circulações destes materiais proporcionaram atuações diversas de cada sujeito. A prática de cada um demonstrava a forma como cada letra, cada frase foi absorvida, como suas concepções eram formadas à medida que liam, à medida que mudavam de leitura, à medida que participavam de grupos sociais diferenciados e que vivenciavam as experiências cotidianas no Partido Comunista. A busca do conhecimento sobre os homens e suas ideias através das fontes impressas contribuiu para um maior leque de possibilidades historiográficas e do reconhecimento mais próximo da realidade de muitos sujeitos excluídos do cenário da historiografia oficial. O uso dessas fontes fornece informações sobre os diversos 16 CHATIER, Roger. A beira da falésia: a história entre incertezas e inquietude. Porto Alegre. UFRGS p Idem. p

18 homens e mulheres, nos mais variados lugares da sociedade, o espaço que cada um ocupou na ordem política dominante e a força dos seus impressos no âmbito social. Para isso, utilizamos de um suporte documental que corresponde às 18 edições da primeira fase da Revista, livros de memórias e jornais que reportam para o tema e o período estabelecido. A Revista Seiva como fonte primordial e objeto de estudo, as memórias pelo reconhecimento que ela permite de épocas e sujeitos; das conclusões que chegaram e dos problemas não solucionados da realidade nacional. A conexão desses materiais possibilitou o auxílio no preenchimento de lacunas que ficavam abertas em uma ou outra fonte. Através destes materiais procuramos compreender como os articulistas da Seiva dialogavam com os problemas vigentes na sociedade baiana e brasileira, a partir da concepção comunista que forjavam e possuíam. Para uma melhor compreensão dos textos da Revista a grafia foi atualizada. Assim, memória, revista, livro e jornal se entrecruzam. Estrutura da dissertação A dissertação está dividida em três capítulos. O primeiro capítulo - Imprensa comunista: um panorama da produção de revistas e jornais do Partido Comunista do Brasil - aborda o papel do impresso na produção do conhecimento, a importância dada a ele pelo Partido Comunista do Brasil, desde seu surgimento em 1922, como forte aliado no seu crescimento e divulgação. Traçamos um sucinto relato das produções do Partido Comunista do Brasil para entender a lógica da publicação da revista Seiva, sem perder de vista as intenções, as tensões, as dificuldades que atravessaram na trajetória desse impresso. Neste capítulo, traçamos o perfil da Revista através da catalogação de seus diretores, textos, articulistas, papel dos intelectuais, temáticas, tensões e influências na Revista. No segundo capítulo, Ideias - problemas e olhares: visões da Seiva sobre a sociedade - analisamos os rumos seguidos pelo mensário na discussão de suas ideias e difusão. Seguimos o traçado da Seiva para identificarmos os temas mais recorrentes, tanto da sociedade nacional como da situação internacional. Abordamos os olhares sobre os problemas raciais; a presença feminina na Revista, a Segunda Guerra Mundial, as leituras dos comunistas sobre a História e a política, bem como a repercussão na 18

19 tomada de decisões que influenciaram posicionamentos políticos. Neste capítulo tratamos do corpo da Revista, analisando a concepção e a interpretação que possuíam os articulistas, intelectuais e escritores sobre a realidade. O terceiro e último capítulo - Leituras evidenciam os vestígios comunistas - aborda a produção e circulação das ideias pelos comunistas da Seiva, suas influências e leituras. As referências intelectuais e políticas que contribuíram para formação dos militantes comunistas na Bahia. Centramos o debate nos diversos autores, nos textos, poemas, escritores e o perfil político, indicando o caminho seguido pela Seiva, bem como a visão que tinham do poeta Castro Alves, dos escritores Lima Barreto e Euclides da Cunha, como símbolos de luta e intelectuais brasileiros politizados. Finalizamos com as considerações finais que dão a visão provisória do processo de investigação e que instigaram ao desenvolvimento da pesquisa, afirmando a riqueza da revista Seiva enquanto fonte documental para o conhecimento do seu tempo. Abrindo-se o leque para outras leituras e abordagens. 19

20 I Capítulo Imprensa comunista: um panorama da produção de revistas e jornais do Partido Comunista do Brasil. Afinal, quem são os comunistas? Quantas controvérsias giram em torno destes sujeitos e de sua doutrina definida de diversas formas! A Revolução Russa de 1917 tornou- os mais evidentes e consequentemente criou-se um imaginário em torno dela e de seus representantes. Principalmente ao analisarmos que uma revolução de tal envergadura aconteceu em um país considerado atrasado, no sentido do desenvolvimento do capitalismo e suas contradições. A Rússia, em 1917, representava uma sociedade comandada historicamente por czares, formada majoritariamente por camponeses, com um contingente crescente de operários nas indústrias existentes. As dificuldades políticas e econômicas na Rússia suscitavam nas classes trabalhadores perspectivas de mudanças imediatas no começo do século XX, colocando em pauta a luta de classes entre os setores historicamente excluídos da sociedade e seus governantes. Seus efeitos proporcionaram a Revolução derrotada de 1905, o fracasso na Primeira Guerra Mundial e guerra civil até a conquista do poder em 1917, pelo Partido Bolchevique. Segundo Broué: De fato, o czar e seus partidários, a Centúria Negra, que organizava as matanças dos judeus, assim como sua polícia e seus funcionários, podiam, no pior dos casos, ganhar tempo com a repressão, com sistemático recurso a dispersão das forças hostis, com a russificação das populações não russas e com a utilização do chauvinismo russo. A necessidade de terra dos camponeses os empurrava inexoravelmente em direção as propriedades da nobreza, mesmo que nem estas bastavam para satisfazer-lhes. A ação operária chocava em suas reivindicações, até mesmo nas mais insignificantes, com o poder do czar autocrata, bastião dos capitalistas e guardião da ordem. Uma modernização que colocasse a sociedade russa na mesma linha do modelo ocidental exigiria muitas dezenas de anos de diferenciação social no meio rural assim como a criação de um amplo mercado interno, que para sua realização haveria exigido, quanto menos, o desaparecimento das propriedades nobiliárias e a supressão das cargas que pesavam sobre os camponeses; tal modernização suporia ademais um ritmo de industrialização que a própria debilidade do mercado interno tornaria insustentável e que, por outro lado, não interessava aos capitalistas estrangeiros predominantes. Apesar do exemplo prussiano, a modernização da agricultura parecia impossível se não vinha acompanhada da industrialização. O imperialismo e a busca de saídas exteriores representaram por sua vez um papel de manobra e de válvula de segurança que alguns lhe atribuam; no entanto, em um mundo desigualmente desenvolvido, tais ambições esbarravam com fortes 20

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