Saúde e trabalho: o caso dos trabalhadores da indústria do vestuário de Formiga - MG

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1 Andrei Pereira Pernambuco Saúde e trabalho: o caso dos trabalhadores da indústria do vestuário de Formiga - MG Divinópolis 2007

2 Andrei Pereira Pernambuco Saúde e trabalho: o caso dos trabalhadores da indústria do vestuário de Formiga - MG Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado da FUNEDI/UEMG, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação Cultura e Organizações Sociais. Área de concentração: Espaço e Sociedade Orientador: Prof. Dr. Alysson Rodrigo Fonseca Co-Orientador: Prof. Dr. Paulo Sergio Carneiro Miranda Divinópolis Centro de Pós Graduação da FUNEDI/UEMG 2007

3 Fundação Educacional de Divinópolis/ Universidade Estadual de Minas Gerais Mestrado em Educação, Cultura e Organizações Sociais Centro de Pós-Graduação da FUNEDI/UEMG Área de concentração: Espaço e sociedade Dissertação intitulada Saúde e trabalho: o caso dos trabalhadores da indústria do vestuário de Formiga MG, de autoria do mestrando Andrei Pereira Pernambuco, aprovada pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores: Prof. Dr. Alysson Rodrigo Fonseca FUNEDI/UEMG Orientador Prof. Dr. Daniel Silva Gontijo Penha FUNEDI/UEMG Profa. Dra. Ivani Pose Martins de Pádua UNIFOR-MG Prof. Dr. Alexandre Simões Ribeiro Coordenador do Programa de Mestrado em Educação, Cultura e Organizações Sociais FUNEDI/UEMG Divinópolis, 30 de novembro de 2007 Av. Paraná, Divinópolis, MG Brasil tel: (037)

4 Autorização para a reprodução e divulgação científica da dissertação Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação por processos de fotocopiadoras e eletrônicos. Igualmente, autorizo sua exposição integral nas bibliotecas e no banco virtual de dissertações da FUNEDI/UEMG. Assinatura: Local e data:

5 Agradecimentos Agradeço a todos que colaboraram direta ou indiretamente para a realização desta pesquisa. Em especial: Ao meu orientador: Prof. Dr. Alysson Rodrigo Fonseca Ao meu co-orientador: Prof. Dr. Paulo Sérgio Carneiro Miranda Aos meus pais: José Emboaba Guimarães Pernambuco e Neuza Pereira Guimarães Pernambuco Às minhas irmãs: Ludimila Pereira Pernambuco e Núbia Cristina Pernambuco À minha noiva: Natane Moreira de Carvalho Aos amigos: Marcílio Almeida Stelzer, Aparecida de Fátima Castro Campos, Maria Francisca de Souza Lopes, Amilton Vale, William Bruno de Castro Silva, Danilo Barbosa, Eric Ferreira e Marcelo Vaz Aos colegas de mestrado: Fernando Franco Taitson, Cândido Silva Oliveira, Cristiane Margarete Rios e Elenice Ferreira de Souza Aos professores do curso de Mestrado da FUNEDI/UEMG Aos meus alunos: Lucila Regina de Castro, Meiriane Kely Ribeiro, Jorge Vilano de Castro, Evaldo Silva e Edimara Carla Melo Ao Centro Universitário de Formiga (UNIFOR-MG) A todos os proprietários e funcionários da indústria do vestuário de Formiga MG Ao presidente do SINDVESF: Danillo César Elias

6 Semeia um pensamento e colherás um desejo; semeia um desejo e colherás a ação; semeia a ação e colherás um hábito; semeia o hábito e colherás o caráter. (Tihamer Toth)

7 Resumo Atualmente, existem em Formiga MG, 150 pequenas e médias empresas, que atuam no ramo do vestuário, sendo estas, responsáveis pela geração de cerca de 2000 empregos diretos, além de comporem um dos setores que mais contribuem com a economia do município. Realizou-se então, um estudo transversal, objetivando analisar a relação entre saúde e trabalho no interior das indústrias do vestuário da cidade. A pesquisa foi realizada em 21 empresas e 200 trabalhadores constituíram a amostra. Os dados foram coletados por meio de questionário, observação in loco e aferição de medidas do mobiliário. Observou-se, em relação aos dados pessoais que, 79% dos funcionários são do sexo feminino; 57% se concentram na faixa etária entre 18 e 23 anos e 52% estudaram no máximo até o fim do 1º grau. Em relação ao histórico profissional, 95% trabalham com carteira assinada; 96% cumprem 44 horas semanais de trabalho e recebem salários entre R$351,00 e R$500,00. Verificou-se também a presença de um modelo de organização do trabalho híbrido, que apresenta características Tayloristas, Fordistas e Toyotistas. Nas questões relativas à saúde, observou-se uma prevalência de doenças ocupacionais de 18,5% e prevalência de sintomas álgicos de 36%. Sobre a avaliação do posto de trabalho, notou-se que, 9,5% das cadeiras possuem encosto anatômico, nenhuma cadeira possuía apoio para antebraço, 1,3% tinham regulagem de altura e 0,5% possuía rodas e 74% dos trabalhadores colocam suas peças em caixotes ou cavaletes que se situam de 0 a 105 centímetros da máquina. Os dados obtidos evidenciaram uma alta prevalência de doenças ocupacionais, assim como, de elementos intrínsecos e extrínsecos que favorecem a ocorrência deste tipo de doença. Tem-se ainda como agente agravante, o fato de que empregadores e empregados ainda não se atentaram para a diversidade de fatores de risco que vêm levando os trabalhadores ao adoecimento. Palavras-chave: Trabalho; saúde; indústria do vestuário; doenças ocupacionais.

8 Abstract Nowadays, there are 150 small and average companies in Formiga-MG acting in clothes branch, they provide about 2000 direct employments, and besides frame one of the fields that more contribute with the economy of the municipal district. It was accomplished a crosssectional study to analyze the relationship between health and work inside the industries of the clothes in this city. The research was achieved in 21 companies and 200 employees that constituted the sample. Datas were collected by questionnaire, notice in loco and gauging furniture measures. In according to personal data, 79% employees are women; 57% are among 18 and 23 years-old and 52% have studied until the end of the 1st degree. According to the professional report, 95% are registered; 96% execute 44 weekly hours and they receive wages among R$351,00 to R$500,00. It was also verified appearance a standard of organization of the hybrid work, which presents Taylorists, Fordists and Toyotists features. In questions about health, it was observed prevalence of occupational diseases in 18,5% and prevalence of ache symptoms in 36%. In respect of evaluation in the work s position, it was noticed there were 9,5% chairs with anatomical back, anyone has forearm support, 1,3% had height adjustment and 0,5% had wheels and 74% workers place their pieces in boxes or racks from 0 to 105 centimeters of the machine. Datas evidenced a raise prevalence of occupational diseases, as well as, intrinsic and extrinsic elements that promote occurrence of these diseases. As increased factor, there are cases that employees and employers do not alarm about the various risks, causing sicken workers. Key-words: Job; health; industry of clothes; occupational diseases.

9 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO Objetivos da pesquisa Objetivos gerais Objetivos específicos REVISÃO DA LITERATURA Aspectos histórico-organizacionais do trabalho e seus impactos sobre a saúde do trabalhador Conceituação de trabalho Evolução do trabalho Organização do trabalho A organização científica do trabalho e o adoecimento dos trabalhadores Ergonomia: transdisciplinaridade a serviço do trabalhador Conceituação de ergonomia Caráter transdisciplinar da ergonomia Campo de atuação da ergonomia Análise ergonômica do trabalho (AET) LER/DORT: um desafio contemporâneo Conceituação das LER/DORT Histórico das LER/DORT As principais LER/DORT Estágios de evolução das LER/DORT Multifatorialidade etiológica das LER/DORT Diagnóstico das LER/DORT Tratamento transdisciplinar das LER/DORT... 54

10 2.4 A indústria do vestuário no Brasil e na cidade de Formiga-MG A indústria têxtil no Brasil A indústria do vestuário A cidade de Formiga MG A indústria do vestuário em Formiga MG METODOLOGIA APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Considerações iniciais Dados pessoais Sexo (gênero) dos trabalhadores Faixa etária Etnia Situação conjugal Escolaridade Moradia Saneamento básico Histórico profissional Empresa Maquinário Organização do trabalho Horário de trabalho Características do trabalho Horas extras Remuneração

11 4.3.8 Outras atividades Questões relativas à saúde Saúde X Indústria do vestuário Tratamento da saúde Afastamentos do trabalho Medidas preventivas Acidentes do trabalho Local de trabalho Dor CONCLUSÃO REFERÊNCIAS ANEXOS

12 11 1 Introdução O trabalho é um dos temas que consegue ser demasiadamente antigo e contemporâneo ao mesmo tempo. Sua concepção sempre esteve ligada a uma visão negativa, como sofrimento, tortura e labuta desde o inicio da humanidade (COTRIM, 1994). Atualmente, em nossa sociedade marcada pelo consumo, trabalhar se torna cada vez mais necessário e termina por ser visto como um dever do cidadão, já que o produto do trabalho, o salário, tornou-se indispensável para a sobrevivência do indivíduo na sociedade, enquanto consumidor (SANTOS, 2000). Esta atividade que possui importância significativa na vida do homem, também é sua fonte de sustento e de realização, o faz sentir-se útil, valorizado, produtivo e permite seu desenvolvimento pessoal e social. Porém, quando realizado em situações adversas, o trabalho pode ocasionar prejuízos à saúde, provocar incapacidades temporárias e/ou permanentes, diminuir a produtividade, elevar os índices de absenteísmo, e até mesmo causar a morte do trabalhador (DELIBERATO, 2002). Neste contexto, um grupo de doenças ocupacionais vem se destacando. As lesões por esforços repetitivos (LER) ou os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT), como são denominados pela Previdência Social, que se constituem num dos mais sérios problemas de saúde enfrentados pelos trabalhadores e seus sindicatos nos últimos anos no Brasil e no mundo. Cerca de 80% a 90% dos casos de doenças relacionadas ao trabalho notificadas nos últimos 10 anos no país são representados pelas LER/DORT, o que evidencia a gravidade e a abrangência do problema, que vem atingindo proporções epidêmicas, já sendo considerado o novo flagelo da humanidade (OLIVEIRA, 1999a). Esse é, sem dúvida, um dos reflexos mais diretos das mudanças ocorridas nas condições de organização do trabalho e no ambiente laboral com a introdução de processos

13 12 automatizados, com o aumento do ritmo e da pressão para execução da tarefa e com a redução dos postos de trabalho, além da ameaça iminente do desemprego (COUTO, 1998; SETTIMI et al., 2000). Os profissionais de saúde e segurança do trabalho, por sua vez, atropelados pelo grande contingente de trabalhadores adoecidos, principalmente por LER/DORT, têm dificuldade em compreender que os determinantes causais vão além de um agente específico (uni causalidade), como estão habituados a pensar. Muitos estão certos de que se trata de modismo e acabam culpabilizando os trabalhadores, numa atitude mais cômoda do que admitir que não conseguem prevenir. Centram as explicações para a ocorrência da doença em fatores individuais, tais como gênero, alterações hormonais ou suscetibilidade psíquica, ignorando aspectos sociais, exigências reais do trabalho e a relação do trabalhador com o trabalho e com o ambiente em que vive (CHIAVEGATO FILHO e PEREIRA JR., 2004). Neste sentido, a temática saúde do trabalhador recebe cada vez mais atenção por parte de pesquisadores e estudiosos, no intuito de esclarecer e identificar os principais fatores de risco que levam o trabalhador a adoecer (MENDES, 2003). Entretanto, este objeto de estudo se mostra ainda com diversas faces ocultas, principalmente no que se refere às patologias do sistema musculoesquelético ocasionadas pelo trabalho. É então, neste contexto que se propôs a realização deste estudo a fim de analisar a relação entre o ambiente de trabalho e o adoecimento dos trabalhadores da indústria do vestuário do município de Formiga, MG, sem, em momento algum, desconsiderar as externalidades do ambiente de trabalho que, por ventura, possam contribuir para o adoecimento. Desta maneira, acredita-se que, identificando e conhecendo melhor os principais fatores causadores de doenças ocupacionais, pode-se criar um programa de prevenção efetivo que permita incrementar a saúde e a qualidade de vida de trabalhadores envolvidos no setor de produção da indústria do vestuário.

14 Objetivos da pesquisa Objetivo geral Analisar a relação saúde e trabalho na indústria do vestuário de Formiga MG Objetivos específicos Caracterizar os trabalhadores quanto ao perfil sócio-econômico-cultural e histórico profissional; Analisar os aspectos da organização do trabalho nas indústrias estudadas; Analisar os principais fatores de risco para o adoecimento de funcionários; Identificar a prevalência de doenças ocupacionais e de sintomas álgicos entre os trabalhadores; Avaliar o índice de absenteísmo provocado pelas doenças ocupacionais; Avaliar as condições ergonômicas do mobiliário industrial.

15 Aspectos histórico-organizacionais do trabalho e seus impactos sobre a saúde do trabalhador: Conceituação de trabalho Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participa o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põem em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana (MARX, 1985, p. 202). Para Garcia e Silva (2002) o trabalho é, dentro da história da humanidade, um elemento que se confunde com a própria vida, já que é ele o instrumento utilizado pelo próprio homem a fim de satisfazer as suas necessidades mais primárias. Para os autores, o homem interage com a natureza a fim de garantir sua existência, sem, contudo humanizá-la, já que, nesta interação homem-natureza, além de transformá-la, o homem acaba por sofrer influências da mesma e também se transforma, passando a se adaptar ao meio em que vive e às suas necessidades. Desta maneira é que surge um grande dilema filosófico: no trabalho, o homem humaniza a natureza, ou será a natureza que naturaliza o homem? De acordo com Cotrim (1996), pode-se definir o trabalho como o processo pelo qual, na criação de bens, transformam-se os elementos que compõem a natureza. Essa transformação é realizada pelo homem através da união que ele faz da sua capacidade física e

16 15 mental. Ainda para o autor, além de transformar a natureza, humanizando-a, o trabalho transforma o próprio homem. Isto significa que, pelo trabalho, o homem se autoproduz, desenvolve habilidades e imaginação, aprende a conhecer a força da natureza, conhece as próprias forças e limitações, relaciona-se com os companheiros e vive o afeto de toda relação. Com o trabalho o homem altera o mundo e si mesmo. Segundo Oliveira (1999b) o ser humano busca no trabalho não só o necessário para sua sobrevivência, mas a realização dos seus sonhos, através do recebimento de um salário que não somente lhe permita comer, vestir-se, mas que lhe permita também ter prazer e conforto social. Segundo Santos (2000), por trabalho entende-se aquilo que se faz para se manter e se desenvolver pessoalmente. Os produtos advindos do trabalho se tornam, a cada dia, mais necessários em nossa sociedade marcada pelo consumo. Para a aquisição de tais produtos é imprescindível o recebimento de um salário ao final do mês. Portanto, trabalhar torna-se um dever que, em algumas situações, pode até vir a ser prazeroso e proporcionar realização pessoal a quem o desempenha, porém, nunca perdendo sua acepção de trabalho. O trabalho dá sentido à vida porque transforma a natureza e espiritualiza o homem. A maioria de nós não se dá ao trabalho de pensar sobre o valor ético do trabalho. Quase sempre pensamos sobre o trabalho, apenas, por seu valor econômico, mas é preciso que meditemos sobre sua significação moral. O ser humano sempre estará trabalhando, mesmo quando o sentido aparente de seu trabalho for um divertimento a semelhança de dançar, ler, cantar, jogar, ouvir e falar (SANTOS, 2000, p. 42). Cotrim (1996) alega que a concepção do trabalho sempre esteve predominantemente ligada a uma visão negativa, como tortura, sofrimento, labuta, que vem desde o início da humanidade. Segundo ainda o mesmo autor, para Rousseau, o trabalho é como uma

17 16 atividade contra a natureza. Já para Nietzsche o trabalho é uma dura tarefa e é o melhor dos policiamentos para refrear nossas potencialidades de sonhar, imaginar e o que chamamos hoje de criatividade. O trabalho caracteriza-se em nossos dias como uma atividade basicamente compulsória e heterônoma. Compulsória porque a pessoa trabalha não por um ato interior de vontade, mas pela obrigação de ganhar dinheiro para viver. Heterônoma porque a pessoa trabalha obedecendo a regras, horários, padrões e finalidades estabelecidas pelo empregador (OFFE, 1996, p. 35). Na antigüidade grega, todo trabalho manual era desvalorizado por ser feito por escravos, enquanto a arte e atividade teórica, considerada a mais digna do homem, representava a essência fundamental de todo ser racional. Para Platão, por exemplo, a finalidade dos homens livres é justamente a contemplação das idéias. Na idade média São Tomáz de Aquino procurava reabilitar o trabalho manual, dizendo que todos os trabalhos se equivalem, mas, na verdade a própria construção teórica do seu pensamento, era calcada na visão grega, tendia a valorizar a atividade contemplativa. Este olhar negativo é mudado historicamente pela revolução Luterana, sendo um de seus fundamentos para se chegar ao céu ou para uma adaptação de uma ética religiosa mais adequada ao espírito do capitalismo comercial Evolução do trabalho Para Antônio (2003), da idade média aos dias atuais, passamos por uma grande evolução tecnológica. Toda força motriz necessária à produção era fornecida por homens e animais que, ao longo do tempo, foi sendo substituída pela energia elétrica, mecânica, química etc. Na evolução desse processo, o homem foi gradativamente deslocado para

18 17 atividades que as máquinas não conseguem realizar ou atividades que exijam conhecimento e raciocínio. Segundo Couto (1998), após a invenção do motor a vapor pode-se classificar a evolução do trabalho em quatro fases distintas: a primeira, de 1774 a 1890, conhecida como Revolução Industrial; a segunda, de 1890 a 1930, marcada pela Introdução da Administração; a terceira, de 1930 a 1973, cujo marco é a Organização do trabalho Fordista e, finalmente, de 1973 até os dias atuais, o Pós Fordismo. A revolução industrial, segundo Pereira (2001), teve início na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII e caracterizou-se por uma imensa transformação social, determinada pela produção em grande escala, mediante a utilização crescente de máquinas. O ritmo de trabalho acelerado e a produtividade passaram a ser essenciais, não importando o preço do desgaste humano e da natureza e imperavam sobre a população operária, submetendo-a a estafantes jornadas laborais, provocando o aparecimento e a proliferação de novas doenças: as epidemias de cólera, tuberculose pulmonar, alcoolismo e os acidentes de trabalho decorrentes de maiores jornadas de trabalho. Deliberato (2002), ainda acrescenta ao seu discurso acerca da perspectiva históricocultural da relação homem/trabalho, que a revolução industrial funcionou como marco exponencial do capitalismo caracterizado pela evolução tecnológica aplicada à produção e à conseqüente revolução, tanto nos processos produtivos como nas relações sociais. O autor chama a atenção para o fato de que a Inglaterra foi o foco das profundas transformações advindas da revolução industrial, que se processou em duas fases. A primeira, entre 1774 a 1850, que corresponde ao momento de transformações tecnológicas e sociais promovidas basicamente no setor têxtil, representada pela introdução, também em outros setores, da máquina a vapor em substituição à força manual, tração animal e energia hidráulica. A

19 18 segunda fase, entre 1850 a 1890, caracterizou-se pela expansão do uso da máquina a vapor em outros países da Europa, nos Estados Unidos e na Ásia. Ainda segundo o mesmo autor, esta expansão foi acompanhada por novos avanços no campo da tecnologia especialmente a descoberta da eletricidade e de vários tipos de combustíveis derivados do petróleo, usados como força motriz, invenção do rádio, dos motores de explosão e do automóvel, sem considerar ainda a evolução da química que passa a ser usada maciçamente na indústria. Para o autor, durante essa fase que se arrasta até os dias atuais, a produção industrial passa a adquirir um caráter de automatização e os meios de comunicação expandem-se, no momento em que a energia elétrica substitui, de forma definitiva, a energia a vapor e ocorre o aparecimento de uma nova alternativa energética, a atômica Organização do trabalho No momento em que as grandes transformações promovidas pela revolução industrial disseminam por todo o mundo é, segundo Oliveira e Barreto (1997) que surge o Taylorismo, que se encontrava presente em muita das novas tendências de mudança organizacional. Ainda para os autores, por Taylorismo, entende-se uma organização social do trabalho, que tem como objetivo dividir, simplificar e desqualificar o mesmo, expropriando do trabalhador o saber operário e transformando-o no operário-massa, invariavelmente representado pelo trabalhador não qualificado e menos organizado. Segundo Proença (1993), no início do século XX, o engenheiro estadunidense F. W. Taylor foi um dos primeiros a utilizar um método de organização do trabalho, conhecido no Brasil, a partir dos anos 1930, por Organização Científica do Trabalho (OCT), ou simplesmente Taylorismo, obtendo grande repercussão na industrialização nascente. Muito

20 19 jovem, Taylor preocupou-se com o esbanjamento de tempo, que significava para ele o tempo morto na produção. Então, ele iniciou uma análise racional, do tipo cartesiana, por meio da cronometragem de cada fase do trabalho, eliminou movimentos muito longos e inúteis. Desta forma, conseguiu dobrar a produção. Contudo, este método, bastante lógico do ponto de vista técnico, acabava produzindo fadiga e outros efeitos psicológicos e fisiológicos, advindo das condições de trabalho. Mesmo que Taylor continuasse afirmando que, após um dia longo de trabalho, seus funcionários eram capazes de ir para suas casas correndo e se sentindo muito bem. A cronometragem definiu para cada operário, um trabalho elementar, desinteressante, uma vez que era parcelado e que deveria ser realizado dentro de um tempo previsto pelos engenheiros (BART, 1978). Oliveira e Barreto (1997) ressaltam ainda que os princípios de organização do trabalho, consubstanciados no Taylorismo, procuravam criar um relacionamento hierárquico em postos de trabalho separados entre si, diminuindo ao máximo possível a comunicação entre eles, revelando o objetivo de dividir e fragmentar os trabalhadores. Tal intenção de atomizar os operários cada vez mais, fazia-se perceber através da remuneração diferenciada para cada um, bem como a adoção de prêmios de produção, visando incentivar a competição entre eles e a destruir o coletivo operário através da concorrência. Os novos processos acabaram por construir um modelo-operário tipo homem-máquina que, mal treinado, tem tentado se ajustar ao mercado de trabalho e tem sido obrigado a atender às necessidades capitalistas ao longo dos tempos, com falsos prêmios de produtividade e com qualidade de vida colocada de lado pelo sistema. Concordando com estas afirmações, Deliberato (2002) afirma que Taylor valorizou os trabalhadores e lhes forneceu condições de ganhar de forma proporcional à sua produção. No

21 20 entanto, a forma irracional de execução das tarefas levou-os a um desgaste físico quase desumano. Enfim, Taylor reduziu o homem a gestos e movimentos, sem capacidade de desenvolver atividades mentais que, depois de uma aprendizagem rápida, funcionava como uma máquina. O homem, para Taylor, podia ser programado, sem possibilidades de alterações, em função da experiência, das condicionantes ambientais, técnicas e organizacionais (NOULIN, 1992). A redução do trabalho mental também é enfatizada na medida em que a superespecialização da tarefa levou a simplificação do trabalho a um nível elevado, desprovendo o indivíduo de sua capacidade pensante (DALLAGNELO, 1994). No Brasil, até a década de 1970, segundo Fleury (1983), a organização do trabalho que predominava na indústria refletia os aspectos sociais, colocando em segundo plano os fatores técnicos relacionados ao objetivo de produtividade. Tal organização, denominada por ele de rotinização do trabalho, aproximava-se dos princípios Tayloristas, à medida que não permitia a qualificação e o aperfeiçoamento da mão de obra, além de eliminar o contato entre os operários, evitando, dessa forma, uma possível organização. Mantinham-se os salários em níveis baixos, induzindo a uma alta rotatividade da mão de obra. Segundo Hirata (1983), as empresas de todo o mundo passaram a buscar mais eficiência e competitividade e a adotar modelos participativos de gestão da mão de obra, com regras ditadas pelas necessidades do mercado, isto é, a procura regula e determina a produtividade. Neste contexto, Deliberato (2002) destaca a participação de Henry Ford, industrial, adepto do Taylorismo, que acreditava que uma das necessidades básicas para a prosperidade do trabalhador referia-se aos aspectos físicos do local do trabalho. Ele defendia como

22 21 condição essencial para a obtenção de satisfação no trabalho, a necessidade de ambientes de trabalho com amplas acomodações, limpas e ventiladas. Oliveira e Barreto (1997) consideram que em uma mesma ordem de raciocínio logo após a implementação do Taylorismo nas indústrias, ocorreu a introdução do Fordismo, o qual se utilizava dos mesmos princípios organizacionais do primeiro. Baseando-se nos mesmos princípios organizacionais, Ford levou às últimas conseqüências a desqualificação e divisão do trabalho propostas por Taylor. A principal diferença entre eles está no fato de que, enquanto o Fordismo privilegiava a produção em série, viável nas indústrias de montagem, produzindo peças idênticas e intercambiáveis, a organização Taylorista era baseada nos postos de trabalho e no rendimento individual, sendo aplicada nas indústrias de produção mais variada e em pequenos lotes (manufaturas). Finalmente, Deliberato (2002) considera que a visão Taylor-Fordiana representa, na verdade, o primeiro modelo científico de organização do trabalho, que visa racionalizar a produção de forma específica, mantendo uma gestão caracterizada pela mecanização, produção em massa e elevados índices salariais. Entretanto, com conseqüente decréscimo da qualidade de vida no trabalho, devido às jornadas de trabalho prolongadas, a fadiga física e mental dos trabalhadores e, especialmente, o esvaziamento do conteúdo significativo das atividades laborais, ou seja, uma simplificação no modo de executar o serviço, geram a insatisfação do indivíduo durante o cumprimento de suas tarefas. Braverman (1987) define o Fordismo fundamentalmente como a forma pela qual a indústria e o processo de trabalho consolidaram-se ao longo do século XX, cujos elementos constitutivos básicos eram dados pela produção em série, através da linha de montagem e de produtos mais homogêneos; através do controle dos tempos e movimentos pelo cronômetro Taylorista e da produção em série fordista; pela existência do trabalho parcelado e pela fragmentação das funções; pela separação entre elaboração e execução no processo de

23 22 trabalho; pela existência de unidades fabris concentradas e verticalizadas e pela constituição/consolidação do operário-massa, do trabalhador coletivo fabril, entre outras dimensões. Os princípios organizacionais fordistas, segundo Oliveira e Barreto (1997) foram vividos como mais um processo de desqualificação entre os operários, na medida em que expunham seu caráter opressivo, de expropriação do operário, tornando o trabalho repetitivo, monótono, com ritmos extenuantes, exigidos pela cadência do processo produtivo, como também pela imposição absoluta da hierarquia no interior das fábricas. No mundo ocidental avançado, as estratégias do período pós-guerra que se basearam na intervenção do Estado sustentaram um crescimento constante e um balanceamento entre a produção e o consumo em massa, enquanto as empresas geraram um nível elevado de produtividade ao aperfeiçoarem amplamente as estratégias Tayloristas já instituídas no modelo Fordista. Os administradores aumentaram substancialmente seus controles técnicos, através de uma centralização e racionalização adicional do processo de trabalho. Enquanto esta estratégia agudizava a distinção entre os trabalhadores da produção, da área técnica e da área gerencial, a força de trabalho foi pacificada pelos freqüentes aumentos dos salários, pela segurança no emprego, pelas oportunidades de crescimento e pela expansão do bem-estar social (HARVEY, 1990; LIPIETZ, 1992). O capitalismo Fordista combinou empresas com altos níveis organizacionais, centralização e integração vertical com sindicatos nacionais e com uma substancial expansão do Estado. Além disso, usava-se a elevada especialização e mecanização da produção, a burocratização das empresas, o planejamento extensivo e o controle burocrático de cima para baixo. Fordismo Alto é o termo que define o capitalismo do pós-guerra, ou do tipo maduro e hiperracionalizado de Fordismo (ANTÔNIO e BONANNO, 1996). Ele tinha uma força de trabalho segmentada, uma ampla e complexa organização do corpo profissional, gerencial,

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