DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO NÚCLEO DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES TEXTO COM REDAÇÃO FINAL

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1 CÂMARA DOS DEPUTADOS DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO NÚCLEO DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES TEXTO COMISSÃO DE EDUCAÇÃO E CULTURA EVENTO: Seminário N : 1155/07 DATA: 13/08/2007 INÍCIO: 9h32min TÉRMINO: 12h48min DURAÇÃO: 3h16min TEMPO DE GRAVAÇÃO: 3h16min PÁGINAS: 52 QUARTOS: 40 DEPOENTE/CONVIDADO - QUALIFICAÇÃO STEPHEN HEYNEMAN - Professor de Política Internacional da Universidade de Vanderbilt, dos Estados Unidos da América. CHONG JAE LEE - Presidente do Korea Education Development Institute, da Coréia. SUMÁRIO: Painéis Visão geral das reformas educativas: características comuns aos sistemas educacionais eficientes e A reforma educativa da Coréia, do Ciclo de Seminários Internacionais Educação no Século XXI: Modelos de Sucesso. OBSERVAÇÕES Há oradores não identificados. Há intervenção fora do microfone. Inaudível. Houve exposição em inglês, com tradução simultânea.

2 O SR. APRESENTADOR (David Rayol) - Senhoras e senhores, dentro de poucos instantes, estaremos dando início à solenidade de abertura dos Seminários Internacionais sobre Educação. Gostaríamos de solicitar a todos que ocupem seus lugares. Também solicitamos aos portadores de aparelho celular que façam a gentileza de desligá-los ou de configurá-los para o perfil silencioso. Recordamos que é proibido fumar nas dependências deste recinto. Muito obrigado. Autoridades presentes, senhoras e senhores, bom-dia. Tem início neste momento a solenidade de abertura do Ciclo de Seminários Internacionais Educação no Século XXI, Modelos de Sucesso, promovido pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, em parceria com o Sistema CNC/SESC/SENAC Confederação Nacional do Comércio, Serviço Social do Comércio e Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, com o apoio técnico do Instituto Alfa e Beto IAB. Senhoras e senhores, neste instante são convidadas a compor a Mesa de Honra as seguintes autoridades: o Exmo. Sr. Deputado Arlindo Chinaglia, Presidente da Câmara dos Deputados (palmas); o Exmo. Sr. Fernando Haddad, Ministro de Estado da Educação (palmas); o Exmo. Sr. Deputado Gastão Vieira, Presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (palmas); o Exmo. Sr. Senador Adelmir Santana, Vice- Presidente do Serviço CNC e Presidente do Conselho Deliberativo do SEBRAE (palmas); o Exmo. Sr. Vincent Defourny, Embaixador da UNESCO no Brasil (palmas); a Exma. Sra. Maria Auxiliadora Seabra Rezende, Presidente do Conselho dos Secretários Estaduais de Educação CONSEDE (palmas); o Sr. Professor João Batista Araújo e Oliveira, Presidente do Instituto Alfa e Beto IAB. (Palmas.) Convidamos os ilustres componentes da Mesa a ocuparem seus lugares. Senhoras e senhores, informamos que este seminário está sendo transmitido ao vivo pela TV Câmara, em Brasília, em UHF pelo canal 27, pelo canal 28 da Sky Net, e pelo canal 14 da Net, pelo canal 235 da Direct TV, e canal 16 da Tecsat; pela Rádio Câmara, em Brasília, na freqüência modulada 96,9 megahertz. 2

3 Fruto de bem-sucedida parceria entre o Sistema CNC/SESC/SENAC e a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, originou-se o projeto de criação de 3 seminários internacionais, a serem realizados no ano de 2007 na Câmara dos Deputados. Hoje, realiza-se o primeiro sobre reforma educativa. O segundo, programado para o dia 17 de setembro, sobre ensino médio diversificado. E o terceiro, educação infantil, no dia 15 de outubro. O objetivo deste seminário sobre reforma educativa é identificar nas experiências de vários países as variáveis comuns às políticas educacionais que produzem bons resultados, bem como as variáveis críticas dos processos de mudança nos países emergentes e as lições aplicáveis à reforma da educação do Brasil. Senhoras e senhores, neste momento, abrindo esta solenidade, fará uso da palavra o Exmo. Sr. Deputado Gastão Vieira, Presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Deputado Gastão Vieira) - Bom-dia a todos e a todas. Exmo. Sr. Presidente da Câmara dos Deputados, Deputado Arlindo Chinaglia; Exmo. Sr. Ministro da Educação, Fernando Haddad, que muito nos honra com sua presença, por intermédio de quem eu cumprimento também todos os técnicos, superintendentes e diretores do Ministério da Educação, das Universidades Federais e das instituições públicas que se fazem aqui representadas; Sra. Presidenta do CONSED, honra-nos muito a senhora ter aceito o nosso convite, porque os secretários estaduais de educação constituem um alvo preferencial das conseqüências que esperamos deste seminário; Sr. Senador Adelmir, que aqui representa a CNC, velho parceiro, amigo e companheiro nessa nossa luta em benefício da educação brasileira; Sr. representante da UNESCO no Brasil; meus colegas Deputados da Comissão de Educação; e aqueles que, atendendo a nosso convite, mesmo não sendo membros da Comissão, estão presentes a este evento nesta segunda-feira; Senhores Prefeitos, senhores secretários municipais de educação, senhoras secretárias municipais de educação, senhores especialistas. Um abraço carinhoso àqueles que se deslocaram do meu Maranhão par comparecerem a este evento; minhas senhoras e meus senhores. 3

4 Antes de mais nada, Sr. Presidente, quero agradecer a V.Exa. o seu apoio para a realização desta série de seminários. Sua presença neste dia reforça, perante a Nação brasileira, a minha convicção de que está chegando ao Brasil a hora da educação. Muito obrigado, Sr. Presidente. Aproveito para agradecer também acaba de chegar aqui ao ex- Presidente desta Casa, Deputado João Paulo Cunha, que criou condições para que realizássemos, em 2003, o primeiro seminário internacional, quando discutimos a questão da alfabetização de crianças neste País. É hora de educação. É hora de reforma. Sinto que nos estamos aproximando do momento de tomar em nossas mãos a responsabilidade por definir o futuro educacional deste País. Já temos dados suficientes para saber o que está ocorrendo nas escolas e nos sistemas educacionais. De diagnósticos, já basta. Começamos a sentir na sociedade reconhecimento da necessidade de superarmos a crise da qualidade da educação brasileira. Para tanto, foi e é notável a contribuição de S.Exa., o Ministro Fernando Haddad, que, ao reconhecer de público que o estado educacional do Brasil não era o adequado nem o esperado, lançou uma série de ações que, indo no caminho correto, com certeza, traz a todos nós a necessidade de participar desse chamamento. O boletim da escola, batizado pelo Ministro de IDEB, está aí para quem quiser ver. Também se nota, em alguns círculos de maior poder de influência, a inquietação com o estado de calamidade da Educação. Até a imprensa, embora de forma ainda muito tímida, começa a tratar de maneira mais adequada algumas das importantes questões da Educação no País. É nesse clima e nesse contexto que organizamos esta série de seminários. E este primeiro, de modo particular, é um brado de alerta desta Casa, do Poder Legislativo brasileiro, a todos quantos nos sentimos responsáveis pelos rumos da Educação no Brasil. Este seminário não trará respostas, mas espero que todos saiam daqui com uma pergunta: Com base no que deu certo nos países onde a Educação dá certo, será que o Brasil não pode possuir uma proposta de reforma da Educação capaz de nos colocar, dentro de 20 a 30 anos, ao nível dos países mais avançados? 4

5 O desenho deste seminário foi cuidadosamente elaborado para trazer ao Brasil informações e reflexões atualizadas, fundamentadas e confiáveis da discussão, da sua organização. Os Deputados da Comissão de Educação, independentemente de partido, de posições doutrinárias, de origem e de experiência no trato da questão educacional, todos de consenso, os temas e a importância daquilo que aqui deveríamos discutir. Os conferencistas presentes não vieram aqui para nos dar lições sobre o que devemos fazer nem para apresentar modelos a serem copiados. O nosso objetivo é aproveitar, das experiências deles e nós mesmos saibamos tirar lições sobre por que as reformas educativas deram certo em outros países em tão curto espaço de tempo. Com isso, teremos melhores condições de refletir sobre os rumos da educação em nosso País. Permitam-me sintetizar, brevemente, o que vamos percorrer neste dia. Inicialmente, o Dr. Stephen Heyneman, que se encontra no plenário, compartilhará sua experiência e conhecimento direto de dezenas, quase uma centena, de países e nos fornecerá um quadro de referência. Ele nos apresentará critérios que nos permitam avaliar o que seja uma reforma educacional exitosa. E certamente vai nos brindar com exemplos e provocações que não quero antecipar. Antes de falar do nosso segundo convidado, quero falar do orgulho e da satisfação de contarmos, no nosso plenário, com o Senador Cristovam Buarque, Presidente da Comissão de Educação do Senado, nosso parceiro, companheiro nessa luta no Poder Legislativo pela educação brasileira. Seja muito bem-vindo, Senador Cristovam! Em seguida, ainda na parte da manhã, teremos o Dr. Chong Jae Lee, da Universidade Nacional da Coréia do Sul, que nos traçará um vasto panorama desses 50 anos de reformas e avanços na educação coreana, e apresentará, tenho a mais absoluta certeza, questões interessantes sobre o processo dessa reforma. Veremos como a educação é causa e conseqüência do extraordinário desenvolvimento econômico daquele País. Veremos que não se trata apenas de um país que conseguiu alcançar excelentes níveis de qualidade no ensino, mas que conseguiu esses níveis privilegiando a busca da eqüidade e da igualdade de oportunidades. 5

6 Na parte da tarde, ouviremos a Profa. Ayne Hayland, que aqui se encontra, e discorrerá sobre a evolução, mais do que revolução educacional em seu pequeno País, a Irlanda. Trata-se de um País pequeno, embora venha experimentando vertiginoso desenvolvimento econômico, também acompanhado, como no caso da Coréia, de impressionantes melhoras na educação. Há diferenças marcantes entre esse caso e o da Coréia. E são essas diferenças que nos podem ajudar a entender melhor o que é constante e o que é variável numa reforma educativa. A pequena dimensão da Irlanda, para a nossa perspectiva continental do Brasil, também deve servir de base de comparação para tantos Estados brasileiros pensarem em suas reformas educativas. Finalmente, ouviremos o caso do Chile. E aí há surpresas que não quero antecipar, cujo anúncio deixarei para o experiente Prof. Simon Schwartzman, que se encontra presente. O Chile é comumente apresentado como modelo de reforma educativa na América Latina. Tendo em vista as lições que queremos tirar deste caso e que podem ser muitos úteis e considerando as similaridades culturais e históricas com esse País, optamos por convidar um pesquisador brasileiro, mas que também é profundo conhecedor do Chile, para nos oferecer uma reflexão sobre essa importante experiência. Ao final dos trabalhos, os coordenadores da mesas, que serão sempre Parlamentares, e o Prof. João Batista de Oliveira, co-responsável pela concepção e organização desse seminário, ajudar-nos-ão a organizar as idéias apresentadas, de forma que possamos, todos nós, avançar em nossas reflexões. Antes de concluir, gostaria de aproveitar esta oportunidade para registrar alguns agradecimentos, em meu nome e dos Deputados que compõem a Comissão da Educação. Primeiramente, aos conferencistas, especialmente aos estrangeiros, e também ao Prof. Simon Schwartzman. Sejam bem-vindos ao Brasil, à Câmara dos Deputados e à comunidade de educadores que aqui vieram para ouvi-los e aprender com a sua valiosa experiência! Agradeço a todos. Gostaria de agradecer, de forma especial, imposta pelo cotidiano, pela convivência, por tudo aquilo que fizemos nos últimos 2 meses para organizar esse seminário, aos Deputados e aos técnicos da Comissão de Educação. Quero 6

7 agradecer a todos, de forma muito especial, por intermédio do Dr. João Vicente Abreu Neto, que se dedicou inteiramente para que este seminário chegasse hoje com o êxito que já estamos antecipando. Agradeço à Iracema e a todos os funcionários que, de forma dedicada, repito, organizaram este evento. Mas quero agradecer, de modo particular, ao Presidente da CNC, Dr. Antônio Oliveira Santos, pela decidida e decisiva contribuição da Confederação Nacional do Comércio, que aportou não apenas recursos financeiros, essenciais para viabilizar este evento, mas também envolveu toda a sua competência técnica e seus recursos institucionais para que este dia acontecesse. Registro o apoio permanente do Dr. Roberto Veloso e das equipes técnicas da CNC de Brasília e do Rio de Janeiro por essa indispensável colaboração, mais do que colaboração, por esta compreensão de que precisamos, juntos, criar caminhos para lutar pela melhoria da educação brasileira. Quero registrar, com prazer, a presença de todos aqueles Srs. Parlamentares, repito, que aqui estão neste dia. Em meu nome, apresento a saudação, também, a todos os Deputados Federais, Estaduais e Prefeitos presentes. E é com especial alegria que registro e agradeço pela presença aos Secretários do MEC, aos quais já referi; aos Secretários Estaduais de Educação aqui representados pela Presidenta do CONSED; aos Secretários Municipais e à UNDIME; à Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação; ao SINPRO, do Distrito Federal; ao SINEP, do Distrito Federal, e aos professores, pesquisadores e estudantes universitários. Finalmente, quero registrar um agradecimento pessoal, e permitam-me fazêlo neste momento. Agradeço a todas as crianças, aos professores, aos diretores, àqueles que fazem a Educação no meu Estado, o Maranhão. Foi ali que praticamente consolidei a minha dedicação à causa educacional, lidando com pessoas pobres, num Estado pobre em que todas as dificuldades são crescentes. Mas é ali que me realimento de que esta, realmente, é a grande causa que todos nós devemos abraçar. A cada uma dessas pessoas, que contribuíram com o seu voto para que aqui eu estivesse, eu dedico este seminário, a compreensão de que nada mais fácil do que cumprir o papel de um Parlamentar responsável, diante de uma população que dele muito espera. 7

8 Muito obrigado a todos. (Palmas.) O SR. APRESENTADOR (David Rayol) - Senhoras e senhores, neste momento fará uso da palavra o Exmo. Sr. Vice-Presidente do Sistema CNC e Presidente do Conselho Deliberativo do SEBRAE, Senador Adelmir Santana. O SR. SENADOR ADELMIR SANTANA - Bom-dia a todos. Saúdo a Mesa, na pessoa do Presidente da Câmara, Deputado Arlindo Chinaglia, e todos os presentes, Senadores, Deputados, Prefeitos, Governador. Vejo aqui o Governador do Piauí, Sr. Wellington Dias, meus senhores e minhas senhoras, gostaria apenas dizer que, para o Sistema CNC/SESC/SENAC, que vem mantendo constantes parcerias com a Comissão de Educação, com a Comissão de Turismo, com a Comissão de Turismo e Desenvolvimento do Senado, é sempre um prazer estar próximo e patrocinando eventos como esse. Todos nós temos consciência das dívidas sociais que temos com o País, notadamente na área da educação. É do nosso interesse que esse assunto seja amplamente discutido e, por isso, mesmo estamos promovendo esse encontro, juntamente com o Presidente da Comissão de Educação da Câmara. Quero, portanto, dizer da minha alegria por estar representando esse sistema nesta manhã, em nome do nosso Presidente, Antônio de Oliveira Santos. Temos a honra de estar juntos com o Poder Legislativo, com a Comissão de Educação, com o Poder Executivo na pessoa do Ministro Haddad, discutindo essas questões, questões essas que também são preocupações do nosso sistema. Espero, portanto, que todos nós tenhamos o melhor proveito das conferências que serão realizadas aqui, dos exemplos de outros países que, certamente, em grande parte, poderão ser aplicados em nosso País. Parabéns a todos pelo evento e sucesso. (Palmas.) O SR. APRESENTADOR (David Rayol) - Com a devida permissão dos componentes, convidamos para tomar assento à Mesa de Honra, o Exmo. Sr. Governador do Estado do Piauí, Sr. Wellington Dias. (Palmas.) Queremos registrar e agradecer pela presença da Sra. Diretora de Educação Profissional do SENAC nacional, Lea Viveiros de Castro. Senhoras e senhores, neste momento anunciamos o pronunciamento do Exmo. Sr. Fernando Haddad, Ministro de Estado da Educação. (Palmas.) 8

9 O SR. MINISTRO FERNANDO HADDAD - Muito bom-dia a todos e a todas. Em primeiro lugar, quero saudar os educadores presentes, os estudantes universitários, os dirigentes educacionais, os membros da Mesa, na pessoa do Presidente da Câmara dos Deputados, Deputado Arlindo Chinaglia; os organizadores deste evento, na pessoa do Presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, Deputado Gastão Vieira, e compartilhar com S.Exa. a esperança de que possamos estar vivendo um momento novo na educação brasileira. Digo isso porque sinto, sinceramente, que a sociedade vai despertando para a causa da educação com mais energia, com mais vigor, com mais intensidade. E nós, do Ministério da Educação, não acreditamos que possamos resolver administrativamente as graves questões educacionais brasileiras. Entendemos que a questão da educação passa por decisões políticas importantes, a questão da avaliação, a questão do financiamento, a questão da gestão educacional, da valorização dos professores, mas que o conjunto de decisões administrativas e políticas não será suficiente para a superação da nossa dívida educacional. Para isso, temos que contar, mais do que vontade política dos dirigentes, mas com a mobilização da sociedade, com a incorporação da educação como valor, antes de mais nada. Deputado Gastão vieira, se me permite a referência, o Plano de Desenvolvimento da Educação foi lançado em março deste ano, e as medidas foram encaminhadas ao Congresso Nacional em abril deste ano. Aproveito a oportunidade para agradecer à Comissão de Educação a diligência com que se tem debruçado sobre os projetos. Tem alterado positivamente e aprovado os projetos em ritmo muito intenso, o que demonstra um grande compromisso com o País. Tenho observado que, nesta caminhada que fazemos pelo País, visitando Estado por Estado da Federação, na presença de todos os Secretários Municipais Secretários Estaduais de Educação, dos Prefeitos e dos Governadores e Governadoras de Estado, a radiografia feita em 2005, chamada Prova Brasil, que nos ajudou na combinação de desempenho com o fluxo escolar, dá publicidade ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica de cada escola, de cada sistema e 9

10 de todo o País, e fixa pela primeira vez na nossa história metas de qualidade, não apenas metas de quantidade. Isso tem, de certa maneira, sensibilizado não apenas a classe política, que tem interesse imediato em mostrar serviço na área educacional, mas também os dirigentes e o magistério, que percebe uma oportunidade única de levar sua bandeira às diversas regiões do País. Isso nos enche de esperança, no sentido de iniciar um caminho de recuperação da qualidade da educação básica, com vistas a fazer com que o País possa freqüentar, nos exames internacionais, uma posição mais adequada e mais condizente com o seu potencial natural e humano. Como os senhores sabem, o Plano de Desenvolvimento da Educação procura, por meio de mais de 40 ações, dar respostas a vários problemas da educação brasileira. Ele vai da Bolsa de Iniciação à Docência, para o fortalecimento das nossas licenciaturas presenciais, até a bolsas de Pós-Doutorado, para manter em território nacional os doutores recém-formados, enquanto aguardam a realização de concurso público ou uma colocação em uma instituição particular ou em um instituto de pesquisa. Ele vai do apoio à educação infantil, por meio do Pró-Infância, até à diversificação do ensino médio, que hoje vive uma crise aguda. Enfim, ele passa por todas essas questões. É evidente que uma coisa é anunciar um plano de ação. Temos o orgulho de ter feito isso no primeiro trimestre do segundo mandato do Presidente da República. Logo no primeiro trimestre, em março, dissemos ao País qual seria nosso plano de trabalho para todo o mandato, o que significa dizer que o plano ganha em estabilidade, independentemente de quem o conduz. Ganha igualmente do ponto de vista de uma perspectiva não apenas para este mandato, mas também de médio e longo prazos, uma vez que as metas de qualidade foram estabelecidas para 2021, com metas intermediárias a cada 2 anos, que poderão ser monitoradas e acompanhadas por todo o País, sobretudo pelas famílias dos educandos, que vão poder associar-se à escola pública e promover a qualidade do ensino. Contudo, repito, uma coisa é o anúncio de um plano, outra coisa é sua execução, que depende do Ministério da Educação que evidentemente não abre mão de suas responsabilidades, do convencimento de gestores municipais e 10

11 estaduais em torno dessa mesma causa e da repercussão na ponta do desejo expresso em cada ação do PDE. Queremos justamente sensibilizar as pessoas, independentemente de sua perspectiva educacional. Sabemos que sempre haverá divergências em relação ao que deve ser feito na educação, mas uma coisa pode e deve unir-nos: a causa em si, o desejo de oferecer aos brasileiros e às brasileiras educação pública de qualidade, da educação infantil à educação superior. Portanto, sinto que vivemos o momento em que se pode resgatar a dívida histórica que temos para com o povo brasileiro. Não é simples o equacionamento de uma área tão complexa quanto a educação. Embora devamos respeitar a experiência internacional, temos de levar em consideração as idiossincrasias da nossa formação nacional, que é única, eu diria. Ainda convivemos com o fardo histórico exclusivo e muito pesado da escravidão, do patrimonialismo do Estado, do reacionarismo religioso. Tudo isso permeou a nossa formação e serviu de elemento contraproducente a uma educação republicana, a uma educação de qualidade para todos. Vamos vencer gradualmente esse desafio, no entanto vamos fazê-lo mudando a cultura, as mentalidades. Isso não será feito por meio apenas de decisões administrativas, mas também por intermédio do envolvimento de toda a sociedade, porque, se há algo que pode fazer a educação mudar radicalmente, esse elemento é a sua incorporação como valor social. Enquanto ela não for incorporada como um valor social e, portanto, como um valor de todos, não será apenas pelo desejo e compromisso dos educadores estes, sim, têm um compromisso de vida com a educação que a educação vai alterar-se. As famílias precisam ser sensibilizadas, a classe política precisa ser sensibilizada. Na condição de educador, digo que nós, educadores, responderemos a esse desejo da sociedade. Contudo, é preciso incorporar a educação como valor. Eu não conheço nenhuma experiência que tivesse obtido êxito na área de educação que não tenha sido precedida de uma mudança cultural, de uma mudança profunda do olhar sobre a educação por parte de toda a sociedade. Sempre gosto de fazer uma comparação, uma analogia com a causa democrática, com a qual a educação está intimamente relacionada. Não há 11

12 democracia onde a sociedade não tenha incorporado a própria democracia como um valor. Não é possível, como se diz, implantar a democracia em um país. A democracia vem da base, do desejo de cada indivíduo de se expressar como cidadão que pertence a uma comunidade política. O mesmo vale para a educação. Não há educação de cima para baixo. Ela é uma construção social e coletiva que tem de ser feita com generosidade, com espírito republicano, com espírito de parceria e em regime de colaboração, no caso de um país federativo como o Brasil. Eu desejo muito sucesso a este seminário. Aguardamos ansiosos, nós todos do Ministério, pelos resultados. No que depender de nós, do Ministério da Educação, todas as sugestões, recomendações e críticas que possam ajudar no aperfeiçoamento de nosso trabalho serão imensamente bem recebidas. Muito obrigado. (Palmas.) O SR. APRESENTADOR (David Rayol) - Senhoras e senhores, neste momento, para que se pronuncie e, em seguida, declare encerrada esta abertura solene, fará uso da palavra o Exmo. Sr. Presidente da Câmara dos Deputados, Deputado Arlindo Chinaglia. O SR. PRESIDENTE DA CÂMARA DOS DEPUTADOS (Arlindo Chinaglia) - Bom-dia a todos os presentes. Cumprimento o Exmo. Sr. Ministro da Educação, Fernando Haddad; o Exmo. Sr. Deputado Gastão Vieira, Presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados; o Exmo. Sr. Vincent Defourny, Embaixador da UNESCO no Brasil, o Exmo. Senador Adelmir Santana, Vice-Presidente do Sistema CNS e Presidente do Conselho Deliberativo do SEBRAE; a Exma. Sra. Maria Auxiliadora Seabra Rezende, Presidente do CONSED; o Exmo. Sr. João Batista Araújo e Oliveira, Presidente do Instituto Alfa e Beto; o Exmo. Sr. Governador do Piauí, Wellington Dias; os Exmos. Sras. e Srs. Deputados, as demais autoridades presentes. Como os senhores vêem, tenho em mãos discurso preparado pela Assessoria, mas, em que pese à qualidade do trabalho realizado, sinto-me motivado a falar de improviso, diria imprudentemente. Mas vou seguir esse caminho. Já foram feitas, no período republicano brasileiro, 11 reformas educacionais. Ouvi o Ministro elaborar corretamente o conceito de que democracia se constrói. 12

13 Interpretei que não há modelos. Ainda e é de minha responsabilidade que haja fios condutores universais, como o próprio voto universal, temos o dever, no Brasil, de identificar o leito básico que deu certo ou que criou condições em outros países, porque se é verdade e é a importância da participação da sociedade para a transformação cultural do Brasil, para que se reflita na educação, isso provocou em mim a lembrança de um livro que li há muito tempo sobre Lenin, que conduziu a revolução russa e dizia que é fácil tomar o poder, o difícil é mudar a cultura. Digo isso provocativamente aos educadores presentes, para lhes dizer que a mudança cultural, da mesma maneira que é instrumento para transformar a educação, naturalmente também pode ser transformada pela educação, numa relação dialética. E o sistema educacional brasileiro, é verdade, vem se esforçando e vem conseguindo fazer a inclusão social. Mas não é menos verdade que é parte dessa avaliação o fato de que a escola no Brasil, às vezes sutilmente, corrobora, consolida as diferentes camadas sociais, até porque eqüidade não se traduz apenas em acesso universal, que ainda não existe. Se há uma maioria, comparativamente a outros períodos da história, que consegue ter acesso à escola pública, também é verdade que não consegue ter acesso a uma escola de qualidade. E aí se consolidam as divisões sociais em nosso País. Portanto, temos alguns desafios: fazer avançar o acesso ao ensino público e, ao mesmo tempo, dar qualidade a ele, para que a eqüidade de fato seja realidade. Como dar qualidade à escola, se os professores de hoje e respeitosamente faço o registro talvez tenham sido vítimas de um processo insuficiente quando ainda estavam aprendendo e apreendendo nas escolas do Brasil? Como dar qualidade à escola, se ainda, pelo menos até onde sei, estamos aqui? E agradeço as palavras ao Ministro, que registrou que na Câmara dos Deputados e, de resto, no Congresso Nacional, creio, temos conseguido debater e votar em tempo hábil o que vem do Executivo. E faço o registro de quem não é da área sou da área de saúde. Ainda não temos um programa de educação continuada para os mestres, até porque grande parcela deles labutam para, por meio de sucessivas tarefas e/ou empregos, conseguir remuneração que lhes dê a própria dignidade familiar do ponto de vista financeiro. 13

14 Há um terceiro ponto que quero registrar, provocativamente. Incomoda-me muito quando se absolutiza a questão da educação, até porque, se é difícil fazer mudanças estruturais e, como aqui destacado pelo Ministro, culturais, como apresentar para aqueles que têm dificuldades presentes apenas um futuro supostamente sorridente? Ou seja, ao defendermos uma escola de qualidade e constatarmos que ela muitas vezes depende do trabalho de gerações, este é o desafio: o que fazer imediatamente para que tenhamos essa relação? Mais uma vez cito o Ministro, inclusive para orientar minha reflexão e dar aqui alguma coerência. Com que metas trabalhar? A avaliação dará as respostas a isso. Tenho, pela experiência na área de saúde, verdadeiro pavor dos métodos desenvolvidos nos últimos anos no que diz respeito à avaliação, que pegava o aluno depois de ter se formado para fazer o julgamento de algo irrecuperável, já que a escola deveria ser avaliada muito mais intensamente, porque os alunos, uma vez formados, não têm como recuperar o mau ensino ministrado. Tenho mais um quarto ponto que quero, por minha exclusiva responsabilidade, perguntar aos mestres e àqueles que vêm de outros países e que enriquecem este debate, e tentaremos aprender com eles: há projeto de desenvolvimento educacional eficaz que não esteja vinculado a um processo de desenvolvimento nacional? No Brasil, 65% dos alunos vivem em áreas em que talvez não conseguirão empregos daqui a alguns anos, até porque, não sei exatamente como está agora. O nível de desemprego para quem tem curso universitário chega a ser maior do que para aqueles que não têm. Será que não temos um sistema desequilibrado? Quero, então, cumprimentar o Ministro. Um segmento, creio, entre outros me merece o aplauso: as escolas técnicas federais, que evoluíram, serão 152; agora, num plano de expansão, mais 150. Parece-me que esse é um esforço não só para formar técnicos na condição entre aspas de subcidadãos, porque retiraram do currículo matérias de ciências humanas, e há reposição curricular desses cursos, mas quem sabe para dar oportunidade não para aquela escola para os outros, como era dito aqui pela elite brasileira, quando se tratava das escolas técnicas. Não! Mas, quem sabe, os cursos técnicos, inclusive superiores, mereçam uma reflexão sobre seu papel, 14

15 principalmente quando, após a ditadura militar, esta é a primeira vez que o Estado faz um planejamento para investir 502 bilhões de reais em infra-estrutura. Por tudo isso, quero cumprimentar todos os presentes. Fiz questão até de me expor, e tomem isso não como a fala do Presidente da Câmara dos Deputados, mas de um Deputado que não se dedica a essa temática. Quando me dediquei, era militante de sindicato fui Presidente do Sindicato dos Médicos e da CUT e convivia com vários que lutavam e lutam para melhorar as condições de trabalho dos profissionais da área da educação. Portanto, quero dizer mais uma vez da importância de seminários como este e cumprimentar o Deputado Gastão Vieira e todos os integrantes da Comissão por esse esforço continuado. Encerro, na condição de Presidente da Câmara dos Deputados: nós temos de sair deste papel tradicional, dada a correlação de forças que existe entre os Poderes, situação em que nós somos, eu diria, estimulados, cobrados, a decidir sobre aquilo que foi formulado, notadamente pelo Executivo. Isso é bom, porém insuficiente. Então, espero que deste seminário a Comissão de Educação consiga apresentar para a Câmara um plano de prioridades para a educação, para que nós, o conjunto da Câmara dos Deputados, possamos pressionar para representar o povo brasileiro por uma melhor educação em nosso País. Mais uma vez, meus agradecimentos e cumprimentos a todos. Um abraço a todos. (Palmas.) O SR. APRESENTADOR (David Rayol) - Senhoras e senhores, concluído o pronunciamento do Exmo. Sr. Presidente da Câmara dos Deputados, neste momento defaz-se a Mesa de Honra. Solicitamos a todos que permaneçam em seus lugares, pois, logo após o deslocamento das autoridades que compuseram a Mesa, iniciaremos os trabalhos técnicos desta manhã. Muito obrigado. (Pausa prolongada.) Senhoras e senhores, cumprindo a programação deste seminário internacional, teremos neste momento a primeira palestra, Visão Geral das Reformas Educativas - Características Comuns aos Sistemas Educacionais 15

16 Eficientes, a ser proferida pelo Professor Doutor Stephen Heyneman, da Universidade de Vanderbilt, Estados Unidos. Para coordenar esta atividade, convido o Exmo. Sr. Deputado Gastão Vieira, que já se encontra à mesa. Com a palavra o Sr. Coordenador. O SR. PRESIDENTE (Deputado Gastão Vieira) - Vamos dar início aos nossos trabalhos, convidando o nosso palestrante para tomar assento à mesa. A tradução simultânea será feita pelo canal 4. Antes de iniciar e rapidamente vamos fazê-lo, quero anunciar a presença neste plenário dos Deputados Eliene Lima, Ariosto Holanda, Rita Camata, Nilmar Ruiz, João Paulo Cunha, Átila Lira, Dr. Ubiali e Carlos Abicalil. O SR. STEPHEN HEYNEMAN (Exposição em inglês. Tradução simultânea.) - Bom-dia a todos. Como eu vou falar em inglês, quero ter certeza de que estão ouvindo a tradução em português. Estão ouvindo? (Pausa.) Ótimo. Independentemente do que possam imaginar, o Ministro da Educação e eu não coordenamos as nossas falas. Entretanto, o que vão ouvir de mim se encaixa bastante com o que o Ministro já falou. Eu vou oferecer uma visão geral das reformas educativas e as características comuns aos sistemas educacionais eficientes. Da maneira como vejo, tenho 3 responsabilidades hoje. A primeira é explicar os critérios necessários para avaliar uma reforma de sucesso na educação e prestar atenção especial na forma como sabemos que um país implementou uma reforma de maneira eficiente. A segunda responsabilidade é mencionar os países que implementaram reformas educativas eficientes e também chamar a atenção para as características em comum dessas reformas. Finalmente, espero identificar algumas lições desses países, que podem ser úteis para outros países. O que é uma reforma educativa? A primeira tarefa, que é identificar os critérios necessários para avaliar a reforma educativa, depende de que todos nós tenhamos uma compreensão clara do que significa uma reforma educativa. Talvez possamos começar a definir reforma educativa declarando o que ela não é. Reforma educativa não significa melhoria da educação. Todos os sistemas de 16

17 educação, de Malawai até o México, estão melhorando. Os manuais são atualizados e modernizados constantemente, os livros; os salários dos professores aumentam; os currículos são revisados. Tudo isso são melhorias importantes, mas nenhuma delas é indicativa de uma reforma educativa. A reforma educativa e é aí que eu digo a mesma coisa que o Ministro disse pode ser identificada quando a mudança exige um desafio às estruturas tradicionais, ou à filosofia, ou à governança. Reforma educativa é interessante para todos nós, não porque aconteça todo dia, mas porque não acontece todo dia. Reforma educativa é uma coisa rara, porque é difícil negociar com o público. Os efeitos da reforma educativa são interessantes para nós, porque, por definição, envolvem as nossas hipóteses e crenças pessoais sobre idéias e experiências para nossas crianças. E porque qualquer mudança proposta envolve risco. A reforma educativa pode afetar um sistema inteiro, como sistemas primários ou secundários, ou pode envolver partes desse sistema, como a governança ou as finanças. Neste seminário, vamos nos concentrar nos esforços nacionais que envolvem aspectos amplos do sistema educacional. Eu diria que toda reforma educativa envolve risco. Quando as reformas fracassam, os Governos podem cair, apenas por recomendar uma reforma que pode ser percebida como uma ameaça aos acertos administrativos atuais. Vamos pensar no exemplo das revoltas em Paris, quando o Governo da França recomendou as matrículas na educação superior. Mas os motivos pelos quais a reforma educativa envolve riscos são óbvios para todos. O futuro de nossas crianças depende de sua navegação pelo sistema de educação. Se o sistema mudar, as chances de sucesso para nossas crianças podem mudar também. A reforma pode tornar o seu sucesso mais difícil, em vez de menos difícil. E quando quer que as chances para o sucesso de nossas crianças fiquem mais difícil, mesmo que isso aconteça apenas nas nossas percepções, em uma democracia, o retorno para o Governo e os oficiais eleitos pode ser imediato. Quais são os tipos de reforma educativa? Há 2 tipos. É importante para todos nós compreender suas diferenças e mantê-los separados. 17

18 O primeiro tipo é quando você tem uma mudança consciente de melhorias com base em suprimentos para uma melhoria com base na demanda, ou quando existe uma mudança na direção oposta: de melhorias com base na demanda para melhorias com base no suprimento. Melhorias com base em suprimentos existem quando se acrescentam novos recursos. São típicas de sistemas escolares sob condições normais. Melhorias com base na demanda ocorrem quando privilégios ou recursos podem ser retidos até que um progresso adequado seja efetivado. Isso é menos típico, mas esse tipo de reforma está se tornando cada vez mais comum no mundo todo. Reformas com base na demanda usam a competição e a falta para encorajar a motivação. Sistemas de voucher são usados para aumentar o que é chamado de resposta do suprimento das escolas ou dos professores, respondendo às necessidades de seus pupilos e de suas famílias, que a escola teme que possam partir, se não estiverem satisfeitos. É a mudança da base de suprimento para a base de demanda que envolve a reforma. Existem diversos exemplos. Tanto o Reino Unido quanto os Estados Unidos mudaram da distribuição de orçamentos escolares com igualdade para a recompensa das escolas por seu desempenho. O propósito foi motivar as escolas a se administrarem com mais propósito e mais vigor. Essa mudança envolveu um desafio a tradições de diversas espécies e foi um risco político. Mas também tivemos mudanças na outra direção. A Suécia mudou de exames de seleção acadêmicos padronizados para universidades para testes preparados por professores dentro das salas de aula. E então voltaram, quando as provas escritas pelos professores mostraram ser problemáticas. E agora, novamente, eles têm provas com base em autoridades centrais. Mas vocês vão ouvir, mais tarde, sobre o exemplo da Irlanda. A Irlanda eliminou os testes para selecionar estudos e alunos para entrar em escolas especializadas, incluindo as secundárias, eliminando os incentivos dos primeiros anos para evitar entrar em um trilho vocacional. Os irlandeses sentiram, acho que corretamente, que segregar os estudos em trilhas escolares secundárias, na verdade, estava providenciando incentivos perniciosos, porque são um desafio à filosofia. 18

19 Na Europa da década de 50, costumava-se testar todas as crianças com 11 anos ou 13 anos. E esse teste determinava para sempre o futuro da criança. Isso era visto como uma coisa justa e eficiente. Os soviéticos também faziam isso. Mas não se prestava atenção ao fato de que, com 13 anos, colocava-se um teto no futuro ocupacional da pessoa, o que tendia a gerar ressentimento e cinismo. Na Europa de hoje é o próprio aluno que escolhe a especialização na escola secundária. E não importa o que ele escolhe. Isso não corta a oportunidade de estudar numa universidade. Em alguns casos, como na Irlanda ou na Finlândia, essa escolha pode significar aumento na educação vocacional. Mas essa expansão tem base na demanda verdadeira e não foi estabelecida anteriormente por planejadores com hipóteses fixas sobre a porcentagem da população e que porcentagem da população deve seguir para a educação superior. Em cada caso, na Irlanda, na Suécia, nos Estados Unidos ou no Reino Unido, as mudanças foram reformas legítimas, porque todas envolviam um desafio radical a estruturas tradicionais, filosofias tradicionais ou padrões de governo tradicionais. Existe uma característica adicional desse primeiro tipo de reforma: todas as reformas foram feitas de forma consciente, depois de muitos debates e muito esforço. Isso não ocorre com o segundo tipo de reforma. O segundo tipo de reforma educacional ocorre quando os desafios a estruturas tradicionais, ou filosofia, ou governança não ocorrem como resultado de uma escolha consciente ou de debates e sim como uma resposta a uma pressão extrema de fora do sistema, uma força majoritária. Em cada uma das repúblicas da antiga União Soviética, por exemplo, onde eu trabalhei, o currículo teve de ser completamente modificado, por causa da mudança de um mercado de trabalho administrado para um mercado aberto, no qual estudantes graduados não recebiam trabalhos. As reformas educacionais tinham uma importância profunda e envolveram desafios majoritários muito importantes às tradições. Mas eram inevitáveis. Talvez pudessem ser atrasados, mas não poderiam ser evitados. De maneira semelhante, as salas de aula, agora, são gerenciadas por autoridades no nível escolar, nos países nórdicos da Europa. E por quê? Porque 19

20 percebeu-se que toda boa pedagogia tinha de ser decidida no nível da sala de aula, pelo professor da sala de aula, e monitorada pelo diretor da escola. A pedagogia moderna é complexa demais e envolve objetivos divergentes demais e fontes diferentes de informação para ser ditada e monitorada por uma autoridade central. Portanto, a administração escolar se tornou quase universal em sociedades que antes eram tradicionalmente organizadas de maneira central e controladas de maneira central. O antigo sistema soviético de organizar currículos acabou. Então, é uma força maior, por assim dizer. Esses são exemplos de reformas importantes, guiadas por influências exógenas, sobre as quais o sistema escolar e a sociedade têm pouco controle ou nenhum controle. Quando a zona econômica européia se torna uma força, causando a reforma educacional por toda a Europa, a influência do comércio globalizado é uma força maior para muitas partes do mundo, incluindo o Brasil. Países que deixam de aperfeiçoar a sua eficiência educacional ou a qualidade educacional podem perder espaço na competição da vantagem comparativa. Como podemos saber quando um país implementou uma reforma de sucesso? Existem 2 características, que podemos procurar ao identificar uma reforma de sucesso. Uma característica é estabelecida anteriormente à reforma. A outra é uma característica estabelecida posteriormente, depois que a reforma teve início. Como todas as reformas exigem um desafio à tradição, as reformas de sucesso exigem um consenso em relação à necessidade de mudança. Isso aqui é uma coisa muito importante. O consenso não precisa incluir a reforma em si e sim a necessidade de reforma, para que haja mudança radical. No meu país, os Estados Unidos, existem debates acalorados sobre escolhas de escola, pagamentos por mérito e muitas outras mudanças sugeridas. Esses debates vão continuar. Mas não existe debate sobre a necessidade de modificar radicalmente os sistemas escolares urbanos. Existe um consenso amplo, por todos os grupos sociais e partidos políticos, de que os sistemas escolares urbanos, nos Estados Unidos, estão fracassando. 20

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