UMA INVESTIGAÇÃO, À LUZ DE BOURDIEU, DE RAZÕES QUE LEVAM ADULTOS A ESTUDAR INGLÊS

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1 UMA INVESTIGAÇÃO, À LUZ DE BOURDIEU, DE RAZÕES QUE LEVAM ADULTOS A ESTUDAR INGLÊS Resumo CORDEIRO, Rita de Cássia da Silveira Universidade Regional de Blumenau Eixo Temático: Cultura, Currículo e Saberes Agência Financiadora: FAPESC Este trabalho apresenta, de maneira parcial, uma pesquisa de mestrado em andamento, cujo foco é a análise, pelo prisma sociológico de Pierre Bourdieu, das razões que levam indivíduos adultos a se decidirem pelo estudo de Inglês como Língua Estrangeira (ILE). Nosso objetivo principal é contribuir com pesquisas em educação que abordem o estudo de Inglês e seu valor na sociedade, bem como propor uma reflexão a indivíduos que estejam em busca do domínio desse idioma. A metodologia escolhida para a obtenção de dados foi o uso de questionário on line pelo sistema Google. Tratando-se de uma pesquisa de caráter qualitativo, o questionário elaborado, além de perguntas fechadas, apresentava perguntas abertas, a fim de possibilitar a manifestação de idéias e opiniões por parte dos entrevistados, o que traz mais possibilidades de expansão das análises. As razões apresentadas pelos indivíduos pesquisados apontaram para uma maior valorização do Inglês e, por isso, uma necessidade de incluí-lo em suas estratégias de formação pessoal. Além disso, elas também acenam para o fato de que essas pessoas estão em busca de ampliar seu conhecimento de mundo e aumentar seu grau de satisfação pessoal e profissional. Sendo o universo de pesquisa composto por alunos adultos, parte-se do pressuposto de que suas escolhas são decidias pelos próprios indivíduos, ainda que influenciadas por outros fatores. Os conceitos de capital cultural, em todos os seus tipos, e violência simbólica são perfeitamente compreendidos pela situação aqui apresentada. Embora a pesquisa não esteja concluída, é possível perceber a legitimação da língua (capital simbólico) de um grupo dominante, fazendo com que outros grupos incorporem a aquisição do capital cultural daquele grupo aos seus valores simbólicos. Palavras-chave: Aluno Adulto. Capital Cultural. Língua Inglesa. Violência Simbólica. Introdução Este trabalho é um recorte de nossa pesquisa, ainda em andamento, pelo Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação da Universidade Regional de Blumenau, na linha Educação, Cultura e Dinâmicas Sociais. A investigação, de caráter qualitativo, tem o objetivo de compreender as razões que levam um indivíduo adulto a buscar o estudo de Inglês

2 7080 como Língua Estrangeira, em suas estratégias de formação pessoal, buscando uma formação que vá além daquela ofertada pelas grades curriculares das escolas 1, a fim de se tornarem usuários fluentes do idioma. Na busca pelo domínio do Inglês, um grande número de pessoas incorpora o seu estudo contínuo as suas estratégias de formação pessoal e profissional, tanto para si quanto para seus familiares. É especialmente peculiar o fato de que, mesmo após terem concluído sua educação básica, muitos indivíduos adultos buscam continuar seus estudos de Inglês, paralelamente a, ou após, sua formação profissional. Isso se torna ainda mais evidente, se levamos em conta que essa atitude não se repete com a mesma intensidade em relação a outros idiomas, nem mesmo o idioma materno. Embora o governo brasileiro incentive o estudo de Inglês como Língua Estrangeira, incluindo-o como disciplina nas grades curriculares do país, é crescente o número de pessoas que buscam intercâmbios culturais, acadêmicos e profissionais, em países onde o Inglês é a língua oficial. Além disso, o aumento da oferta de certificados internacionais de proficiência no idioma pode ser considerado um indicador de que não existe apenas o interesse em conhecer o idioma, mas também em dominá-lo da maneira mais fluente possível. Dessa forma, faz-se necessário o aprofundamento de estudos que busquem discutir não apenas a língua em si ou as metodologias para o seu ensino, mas também o valor atribuído ao seu estudo. Além de contribuir para a ampliação dessas pesquisas, este trabalho também propõe, aos indivíduos adultos interessados em dominar a Língua Inglesa, uma reflexão sobre o papel e o valor do estudo desse idioma em suas estratégias de formação pessoal. Pelos motivos aqui expostos, três questionamentos nos norteiam nessa busca: Que razões levam um indivíduo adulto a procurar o estudo e o domínio de Inglês como língua estrangeira? De que forma essa atitude se incorpora nas suas estratégias formativas? Que valor dá o adulto a esse aprendizado? Em se tratando de uma investigação qualitativa em educação, de cunho sociológico, buscamos em Quivy (1992), em seu Manual de Investigação em Ciências Sociais, orientações que nos auxiliassem a escolher a ferramenta mais condizente com as necessidades da pesquisa. Decidimo-nos pelo questionário, com perguntas fechadas e abertas, as quais foram inseridas no mecanismo de formulários Google, o que facilitou o acesso dos indivíduos 1 Refere-se, aqui, aos cursos e escolas livres estabelecidos, especificamente, para o ensino da Língua Inglesa e para a certificação dos falantes não nativos, de acordo com sua proficiência no idioma.

3 7081 pesquisados à ferramenta, e buscamos reduzir as limitações apontadas pelo autor, para pesquisas desse tipo. A superficialidade das respostas [...] não permitem a análise de certos processos [...]. Por conseguinte, os resultados apresentam-se muitas vezes como simples descrições, desprovidas de elementos de compreensão penetrantes. [...] A individualização dos entrevistados, que são considerados independentemente das suas redes de relações sociais. [...] Para que o método seja digno de confiança devem ser preenchidas várias condições: rigor na escolha da amostra, formulação clara e unívoca das perguntas, correspondência entre o universo de referência das perguntas e o universo de referência do entrevistado, atmosfera de confiança no momento da administração do questionário, honestidade e consciência profissional dos entrevistadores. (QUIVY, 1992). Sendo assim, elaboramos as perguntas de maneira a evitar sua incompreensão por parte dos indivíduos pesquisados ou gerar superficialidade e generalização de ideias nas respostas. Também procuramos adequar ao máximo as perguntas à pesquisa desenvolvida, estabelecendo, para isso, dimensões de orientação para uma identificação mais detalhada dos indicadores de pesquisa: DIMENSÃO CIENTÍFICO-CULTURAL aquisição de novos conhecimentos; comunicação com outros indivíduos de diferentes culturas; viagens; jogos de videogame; uso de programas de computadores; leitura e produção de variados gêneros textuais; compreensão de letras de música; compreensão de filmes em versão original; DIMENSÃO ECONÔMICO-PROFISSIONAL ascensão na carreira; melhores ganhos financeiros; negociações no exterior; desenvolvimento e implantação de novos projetos; DIMENSÃO DE CARÁTER PESSOAL cuidados com a saúde; melhoria da autoestima; relacionamentos, habitus adquirido no convívio familiar. Os aspectos considerados indicadores das razões de alunos adultos, em suas estratégias, para decidirem-se pelo estudo de Inglês foram: as mudanças nas vidas dos indivíduos pesquisados (as concretas e as almejadas); a aplicação da língua inglesa em suas vidas; o grau de validade atribuído por esses indivíduos ao aprendizado da língua.

4 7082 Evitamos deixar os questionamentos muito fechados, o que comprometeria o caráter qualitativo da análise, pois não daria espaço para que os indivíduos pesquisados expressassem suas visões particulares em relação à escolha pelo estudo de Inglês. Pensando na possível necessidade de aprofundamento das informações obtidas, o que é apontado por Quivy (1992), quando ele se refere a um método complementar para a investigação por questionário, incluímos um item para saber quais indivíduos se oporiam a uma posterior entrevista, caso necessário. A superficialidade das respostas [...] não permitem a análise de certos processos [...].Tomadas em si mesmas, as respostas de cada indivíduo particular podem, no entanto, ser consultadas para constituir uma selecção de entrevistados típicos, com vista a análises posteriores mais aprofundadas. (QUIVY, 1992). Após o ensaio piloto, enviamos por o link que permitia acesso ao questionário e obtivemos, até a data de elaboração deste artigo, cinquenta e uma amostras. Desenvolvimento Entendendo o aporte teórico A base teórica utilizada ao longo deste estudo está na obra de Pierre Bourdieu e em outras obras relacionadas à valorização do estudo de Inglês como língua estrangeira, que também buscaram as idéias desse pesquisador para fundamentação de suas análises. As discussões e reflexões que Bourdieu fez sobre valores culturais legitimados e seus conceitos de capital cultural, violência simbólica, e estratégia são fundamentais para nos auxiliar a compreender a maior valorização dada ao estudo do Inglês, pelos indivíduos pesquisados. Não podemos deixar de reconhecer que as línguas são, em nossa sociedade, um bem simbólico. É o próprio BOURDIEU (1987:148) quem diz que o conhecimento de diferentes línguas estrangeiras traz lucros e materiais simbólicos diversificados [...]. Também, a ideia de capital simbólico é bastante clara. Quando BOURDIEU (1990) define que este é a forma das diferentes espécies de capital, quando percebidas e reconhecidas como legítimas (p.154), não temos dúvida de que as línguas estrangeiras são bens simbólicos. Afinal, o seu conhecimento é capital cultural. Reconhecido como legítimo, transforma-se em capital simbólico. (PRADO, 1995, p.12)

5 7083 No Brasil, várias pesquisas foram realizadas sobre o papel do estudo de língua estrangeira nas estratégias educativas. No entanto, o foco dessas pesquisas está voltado para as estratégias familiares daqueles que são levados a buscar o estudo de uma língua estrangeira. A pesquisadora Maria Alice Nogueira da UFMG possui o maior número de trabalhos no país que abordam esse tema. A internacionalização na educação, as escolhas por intercâmbios, as estratégias familiares, as escolas internacionais no Brasil, etc. são algumas das temáticas pesquisadas pela professora e seus trabalhos utilizam, entre outros, as ideias e conceitos desenvolvidos por Pierre Bourdieu. Paralelamente ao sociólogo francês, outros autores que abordam o estudo da língua inglesa como segunda língua ou língua estrangeira, também servem de aporte a esta investigação. Queremos destacar aqui uma pesquisa desenvolvida em Hong Kong, por John Flowerdew, da Universidade de Leeds, Reino Unido, e Lindsay Miller da City University de Hong Kong. Nesse trabalho, os pesquisadores examinaram a questão da relação entre estrutura social e estratégias individuais, abordando a decisão de três alunos de engenharia que decidiram investir no estudo de Inglês. English is identified as an important form of cultural capital, which to a considerable extent determines the development of the three individuals, each of whom comes from a modest family background. [ ] An important figure in developing a contextual view of language is Bourdieu. For Bourdieu, differences in linguistic repertoires can be related to social background. (FLOWERDEW & MILLER, 2008) Segundo os pesquisadores, Bourdieu foi uma figura importante para a contextualização do ponto de vista da linguagem, ou capital linguístico, como capital cultural e sua relação com o papel social e a formação dos indivíduos pesquisados. Eles destacam o fato de que o conceito de capital linguístico vai além do conhecimento de vocabulário e estruturas gramaticais. Ele está intimamente relacionado ao uso da língua, `a habilidade de produzir expressões apropriadas, de maneira apropriada em um dado contexto social. Para os autores, sem acesso a determinados meios sociais, os indivíduos tornam-se incapazes de adquirir o capital linguístico apropriado. Bourdieu (1973) used the term cultural capital to refer to those attributes which are acquired through membership of a particular social class or group. An important aspect of cultural capital is linguistic capital. What is at stake with the concept of linguistic capital is not simply access to the grammar of the language, but rather

6 7084 language use, the ability to produce the appropriate expression in an appropriate way in a given social context. People who do not have access to particular social milieux are unable to acquire the appropriate linguistic capital. (FLOWERDEW & MILLER, 2008) O conceito de capital cultural surgiu na França, durante a tentativa de Bourdieu de explicar como a produção simbólica de certas classes torna-se legítima, estruturando a dominação de uns grupos sobre os outros (Bourdieu, 1992). Para o autor, essa situação de legitimação dos bens simbólicos de um grupo em detrimento dos de outro explicaria o pior desempenho social (escolar, econômico, etc.) dos grupos dominados. Ou seja, o conceito serve para descrever os diferenciais de poder na luta entre diferentes grupos sociais. Essa luta, descrita pelo autor, configura uma disputa na qual os sistemas simbólicos (ou cultura) de um determinado grupo torna-se dominante numa dada configuração social, permitindo que os grupos em situação privilegiada imponham sua cultura sobre grupos em situação social desfavorecida. A essa imposição legitimada e encarada como um fato natural pela maioria dos membros de um grupo social, o pensador dá o nome de violência simbólica. Nas palavras de Bourdieu, numa formação social determinada, a cultura legítima, isto é, a cultura dotada de uma legitimidade dominante, não é outra coisa que o arbitrário cultural dominante (Bourdieu apud Almeida, 2007, p.47). Por arbitrário, o autor compreende aquilo que depende do resultado da luta entre os grupos. Ou seja, nas ideias do autor francês, toda dominação é reconhecida como legítima e, ao mesmo tempo, oculta o arbitrário (o resultado da luta de forças que a torna dominante) de sua legitimidade. O espaço social constante no pensamento de Bourdieu é um espaço de lutas, no qual as estruturas simbólicas têm importância fundamental na ordenação dos elementos presentes nesse espaço. A imposição das significações de um grupo sobre as de outro, definindo as primeiras como legítimas, constitui, para o autor, uma violência simbólica, na qual a força da imposição estabelecida dissimula as outras relações de força presentes em sua base e às quais ela acrescenta sua própria força. Segundo o pensador: Todo poder de violência simbólica, isto é, todo poder que chega a impor significações e a impô-las como legítimas, dissimulando as relações de força que estão na base de sua força, acrescenta sua própria força, isto é, propriamente simbólica, a essas relações de força. (BOURDIEU, 1992, p.19)

7 7085 Do nosso ponto de vista, essa abordagem, feita por Bourdieu, serve para explicar a ascensão da língua inglesa à condição de língua mundial. Para o autor David Crystal, responsável pela obra English as a Global Language (Crystal, 2003), a explicação para a permanência do inglês como língua mundial nos dias atuais deve-se a dois movimentos decisivos que modificaram a realidade social em todos os seus aspectos e contribuíram para a formação do mundo ocidental capitalista. O primeiro é a Revolução Industrial, ocorrida na Inglaterra nos séculos XVIII-XIX, que gerou uma consequente expansão da coroa britânica, devido ao seu poderio econômico, disseminando sua cultura e língua em várias partes do mundo, com um extenso alcance geográfico, influenciando povos das mais variadas origens e etnias. O segundo fato é o poderio político e militar alcançado pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial país, este, inicialmente formado por colonizadores oriundos da Grã-Bretanha que, devido à influência econômica e cultural resultante, acabou solidificando a língua inglesa na posição de língua padrão para as comunicações internacionais, posto anteriormente ocupado pelo francês. Mais recentemente, com quase 70% de falantes nativos da língua nascidos na América, além da liderança econômica e política exercida pelos Estados Unidos, um avanço ainda maior do domínio da língua inglesa teve como alavanca o desenvolvimento tecnológico, principalmente aquele ligado à área computacional. A criação de programas e sistemas variados, desenvolvidos em sua maioria por empresas americanas - como a Microsoft de Bill Gates - e o surgimento da rede mundial, creditado ao engenheiro britânico Timothy John Berners-Lee, projetaram a Língua Inglesa ainda mais, já que essas ferramentas se tornaram indispensáveis em todas as áreas de atuação humana, tanto no campo intelectual quanto no profissional. A respeito dessa primazia da língua inglesa sobre as outras línguas, o professor brasileiro, Ricardo Schütz (2009), em seu site 2, afirma que há estimativas de que 85% das publicações científicas do mundo, 75% de toda comunicação internacional por escrito, 80% da informação armazenada em todos os computadores do mundo e 90% do conteúdo da Internet são em inglês. 2 Ricardo Schütz, empresário brasileiro, dono e professor de uma escola de inglês no Rio Grande do Sul, publica textos apenas no site English Made in Brazil (www.sk.com.br), pelo qual é responsável. Maiores informações encontram-se nas referências deste trabalho.

8 7086 Obviamente, tendo se tornado um grupo social de prestígio mundial, ao mesmo tempo temido e respeitado por outros grupos, principalmente do ponto de vista político e econômico, os ingleses e americanos passam a impor seu idioma nas relações políticas, econômicas, científicas e culturais. Fazendo parte da cultura (um sistema simbólico) dos grupos que se tornaram dominantes na configuração social das relações internacionais, o Inglês é o idioma mais estudado como língua estrangeira por nativos de outras línguas, não sendo diferente no Brasil. Na busca por explicar a desigualdade no desempenho escolar das crianças da sociedade francesa, nos meados do século XX, Bourdieu rompe com o senso comum de que sucesso ou fracasso no campo escolar é apenas fruto de aptidões humanas naturais. Ainda, e talvez principalmente, o autor rompe com a Teoria do Capital Humano, desenvolvida por Theodore Schultz, ganhador do Prêmio Nobel em Economia em 1968, para quem a educação é o pressuposto do desenvolvimento econômico, bem como do desenvolvimento do indivíduo, que, ao educar-se, estaria valorizando a si próprio, na mesma lógica em que se valoriza o capital (Saviani, 2006). Essa teoria desloca para o âmbito individual os problemas da inserção social, do emprego e do desempenho profissional e faz da educação um valor econômico, equiparando capital e trabalho e legitimando a ideia de que os investimentos em educação devem obedecer aos critérios de investimento capitalista, pois considera a educação o fator econômico essencial para qualquer desenvolvimento (Saviani, 2006). A ruptura de Bourdieu mostra que a teoria de Schultz dissimula, nas palavras do pensador francês, o mais oculto e determinante socialmente dos investimentos educativos, a saber, a transmissão doméstica do capital cultural (Bourdieu,1996, p.73, grifo no original). O autor também declara que, a seu ver, o que é conhecido por dom ou aptidão nada mais é que fruto desse mesmo tipo de investimento. Analogamente ao conceito de capital desenvolvido por Marx, o capital cultural pode ser adquirido, acumulado e transmitido. Sendo assim, Bourdieu define três estados para esse tipo de capital: o estado incorporado, o objetivado e o institucionalizado. O estado incorporado é aquele no qual o capital cultural se tornou parte integrante das ações e pensamentos do indivíduo (ser), isto é, quando ele se torna parte do habitus individual, conceito esse que será trabalhado mais adiante. Para que essa realidade se fizesse presente, aquele que detém o capital cultural no estado incorporado investiu o que tem de mais pessoal: seu tempo. Por essa razão, o capital

9 7087 cultural nesse estado não pode ser transmitido diretamente e sua aquisição dá-se de uma maneira imperceptível ao indivíduo, ou seja, de forma inconsciente e disfarçadamente: [...] é por intermédio do tempo necessário à aquisição que se estabelece a ligação entre o capital econômico e o capital cultural, [...] ficando o tempo livre máximo a serviço do capital cultural máximo [...]. Além disso, [...] o tempo durante o qual determinado indivíduo pode prolongar seu empreendimento de aquisição depende do tempo livre que sua família pode lhe assegurar, ou seja, do tempo liberado da necessidade econômica que é a condição da acumulação inicial (tempo que pode ser avaliado como tempo em que se deixa de ganhar). (BOURDIEU, 2006, p.76) Além disso, o capital cultural no estado incorporado mantém suas condições originais de aquisição, não pode ser acumulado além das capacidades daquele que o detém e acaba com a morte do seu portador. A transmissibilidade do capital cultural dá-se no estado objetivado deste. Explicando: o capital cultural no estado objetivado pode se apresentar em suportes materiais, como livros, viagens, obras de arte, etc. e pode ser tão bem transmitido quanto o capital econômico. No entanto, algumas propriedades do capital cultural no estado objetivado dependem da relação com o estado incorporado. Por exemplo, Bourdieu mostra que o ato de se deter uma coleção de quadros não significa que aquele que a detém vá usufruí-la; portanto, os benefícios que o agente detentor terá desse capital objetivado está diretamente ligado ao domínio que tem sobre ele, ou seja, ao seu capital cultural incorporado Por fim, o estado institucionalizado do capital cultural é dado por uma certidão de competência, ou seja, um diploma. Desse modo, esse documento dá ao seu detentor uma garantia de valor do capital cultural instituída, convencionada, juridicamente aceita e constante, neutralizando os limites biológicos daquele que a detém. Todos que possuam diploma de bacharel em Direito terão o mesmo valor socialmente, independentemente de sua idade, e concorrerão aos mesmos postos nos grupos sociais aos quais pertencem. Consequentemente, também estarão garantindo o valor em dinheiro do seu capital, ou seja, convertendo o capital cultural em capital econômico. A capacidade de se comunicar em Língua Inglesa faz com que falantes nativos de outros idiomas tenham a possibilidade de se inserir nos grupos com maior poder de ação na sociedade. Por esse motivo, a exigência do domínio de Inglês como língua estrangeira está presente em todos os campos de ação, seja nas instituições de ensino, nos ambientes sociais diversos e no mercado de trabalho. Nos meios de maior projeção social, o uso fluente da

10 7088 Língua Inglesa pelos seus membros é esperado por todos, independentemente da língua nativa de cada um. Os indivíduos buscam, além de dominar o idioma, uma comprovação de sua habilidade, através de certificados emitidos por instituições renomadas. Instituições de todos os tipos, em vários países no mundo, inclusive onde o Inglês não é primeira língua, exigem algum tipo certificação internacional, em nível Intermediário ou superior, quando recebem candidaturas de possíveis estudantes ou colaboradores cujo idioma nativo não seja o Inglês. As razões e a análise Com base nas observações feitas ao longo de nossa carreira e de acordo com as dimensões de orientação expostas na introdução deste artigo, apresentamos aos entrevistados algumas razões que poderiam estar entre as que geralmente impulsionam adultos ao estudo de Inglês. Deixamos, também, uma opção para que os indivíduos pesquisados incluíssem ali qualquer outra razão que tiveram para se decidir por estudar Inglês e que não houvesse sido contemplada no questionamento. A Tabela 1 apresenta essas razões e a porcentagem de entrevistados que assinalaram cada uma delas, de um total de 51. É importante ressaltar que, como cada pessoa poderia assinalar quantas razões desejasse, a totalização dos percentuais supera 100%. Tabela 1 Razões sugeridas e assinaladas Que razões levaram você a estudar inglês? Escolhida por (x) entrevistados % Relativo Tem curiosidade pela língua 27 55% Gosta da língua 28 57% Deseja comunicar-se com pessoas em outros países 36 73% É uma forma de investir na sua carreira 38 78% Tem interesse por notícias estrangeiras 9 18% Gosta de filmes e programas de tv em inglês 27 55% Deseja viajar 36 73% Quer conhecer novos lugares e culturas 33 67% Quer compreender as músicas em inglês 30 61% Gosta de cantar em inglês 16 33% Deseja ser capaz de ler um texto científico sem traduzir 36 73% Precisa viajar frequentemente a negócios 0 0% Faz ou deseja fazer amizade com pessoas de outros países 17 35% Precisa escrever textos em inglês para sua carreira profissional / acadêmica 21 43% Sentia-se mal ou incomodado(a) por não se comunicar em outro idioma 18 37%

11 7089 Quer ler poemas e romances em língua inglesa 8 16% Deseja trabalhar no exterior 13 27% Quer participar de intercâmbios 13 27% Tem interesse em estudar no exterior 26 53% Acredita que esse tipo de conhecimento lhe confere status 12 24% Outra 4 8% Fonte: Dados organizados pela(s) autor(as), com base nos questionamentos realizados As razões apontadas exclusivamente por quatro entrevistados foram: a necessidade de conhecimento do idioma considerado universal atualmente, o gosto por ler livros em inglês, achar fascinante para alguém ser capaz de comunicar-se em mais de uma língua e necessidade na área profissional. Quando solicitados a avaliar as razões escolhidas, destacando as que tiveram maior grau de importância na decisão pelo estudo de inglês, os entrevistados apontaram com maior frequência as opções mostradas na Tabela 2. A solicitação introdutória para essa etapa foi: Dentre as razões escolhidas acima por você, assinale a(s) que teve (tiveram) maior grau de importância na sua decisão pelo estudo de Inglês. Tabela 2 Razões que tiveram mais importância na decisão pelo estudo de Inglês Razões selecionadas Assinalada por (x) entrevistados % Relativo Deseja comunicar-se com pessoas em outros países 28 55% É uma forma de investir na sua carreira 33 65% Deseja viajar 31 61% Quer conhecer novos lugares e culturas 28 55% Deseja ser capaz de ler um texto científico sem traduzir 30 59% Tem interesse em estudar no exterior 21 41% Fonte: Dados organizados pela(s) autor(as), com base nos questionamentos realizados Solicitamos aos entrevistados que avaliassem a validade do estudo de Inglês para sua formação profissional, pessoal e cultural. Em relação à formação profissional, 89% dos entrevistados consideraram o estudo de Inglês muito válido (67%) ou válido (22%). Muitas justificativas apresentadas por eles remetiam à exigência do idioma na área em que atuavam, entre elas a tecnológica, científica, administrativa e a acadêmica, além da universalização do idioma na divulgação de informações. No aspecto cultural, 93% consideraram o estudo de Inglês muito válido (71%) ou válido (22%), justificando suas escolhas pelo desejo de viajar, conhecer outras culturas, ampliar sua percepção de mundo e tornarem-se indivíduos globalizados. Quanto à formação pessoal, 94 % acreditam que esse estudo é muito válido

12 7090 (69%) ou válido (25%) por permitir contato com pessoas de vários lugares, ser uma aquisição que não pode ser tirada e promover possibilidade de crescimento e satisfação pessoal. Por fim, pedimos que os indivíduos mencionassem mudanças em sua vida, provocadas pelo conhecimento de Inglês. Todos os comentários refletiram uma atitude positiva dessas pessoas em relação ao presente ou a planos futuros. Muitos disseram sentir-se mais capazes e declararam o desejo de aventurar-se em novas experiências que antes não eram possíveis pela falta de conhecimento do idioma. Confrontando as manifestações dos entrevistados em relação ao estudo de Inglês na vida adulta com os conceitos desenvolvidos por Bourdieu para a violência simbólica e o capital cultural, em seus diferentes tipos, percebe-se o valor inegável da Língua Inglesa para essas pessoas e a maneira sutil como a violência simbólica se estabelece, através da legitimação desse capital. A certeza de que a aquisição desse capital lhes trará maior satisfação em diversos campos de suas vidas, leva esses indivíduos a investirem no aprendizado desse idioma. Suas principais razões estão voltadas aos aspectos de conhecimento de mundo e aquisição de valores simbólicos. Ainda quando ligadas a questões profissionais, que geram a possibilidade de obtenção de capital financeiro, a questão cultural, de conhecimento de mundo e obtenção de informações, aparece em primeiro lugar. Desse modo, pode-se afirmar que a Língua Inglesa é, para os adultos do mundo moderno, um valioso capital cultural a ser adquirido e não faltam razões a esses indivíduos, para buscar obtê-lo da melhor maneira possível, pois ele representa a possibilidade de obtenção de outros tipos de bens simbólicos. Considerações Finais Este trabalho teve por objetivo trazer à tona a discussão sobre a valorização do estudo de Inglês como língua estrangeira por alunos adultos, pelo ponto de vista das estruturas de dominação apresentadas pelo sociólogo Pierre Bourdieu e seus conceitos de capital cultural e violência simbólica. Abordamos esses conceitos, fazendo uma breve análise de como o Inglês tornou-se um idioma dominante mundialmente. Por meio de questionário on line, levantamos informações a fim de investigar as razões de adultos que se decidiram a estudar esse idioma estrangeiro. Com base nos dados coletados, foi possível perceber que as razões que nortearam a escolha desses indivíduos pelo estudo do idioma estão relacionadas a aspectos específicos de sua formação pessoal e profissional, caracterizando o que Bourdieu define como capital

13 7091 cultural. Estando a pesquisa ainda em construção, acreditamos que ainda existam diversos pontos que deverão ser explorados e discutidos. No entanto, também cremos que os dados aqui apresentados já dão inteligibilidade e validade a esse tipo de pesquisa, tanto para os profissionais do ensino de Inglês quanto para aqueles que buscam o estudo desse idioma. REFERÊNCIAS ALMEIDA, A. M. F. A noção de capital cultural é útil para se pensar o Brasil? In: PAIXÃO, Lea Pinheiro e ZAGO, Nadir (orgs.). Sociologia da Educação Pesquisa e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, BOURDIEU, P. Escritos de Educação. Seleção, organização, introdução e notas Maria Alice Nogueira, Afrânio Catani. 8.ed. Petrópolis : Vozes, BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Linguisticas: os que falam querem dizer. Tradução Sergio Miceli [e outros]. São Paulo: EDUSP, BOURDIEU, P. A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Tradução Reynaldo Bairão. Rio de Janeiro : Francisco Alves, CRYSTAL, D. English as a Global Language. Cambridge: CUP, FLOWERDEW, J.& Miller, L. Social Structure and Individual Agency in Second Language Learning: Evidence from Three Life Histories. In: Critical Inquiry in Language Studies. Londres: Routledge, : 4, Disponível em <http://dx.doi.org/ / >. Acesso em 31 jul PRADO, C. L. Línguas Estrangeiras No Mercado De Bens Simbólicos: Um Estudo nos Centros de Línguas da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, QUIVY, R. & CAMPENHOUDT, L.V. Manual de Investigação em Ciências Sociais. Lisboa: Gradiva, SAVIANI, D. et. al. Teoria do Capital Humano. In: SAVIANI, D. et. al. Navegando na História da Educação Brasileira. Campinas: Graf. FE: HISTEDBR, Disponível em < do_capital_humano.htm>. Acesso em 29 set SCHÜTZ, R. O Inglês como Língua Internacional. In: English Made in Brazil. Online. 3 de junho de Disponível em <http://www.sk.com.br/sk-ingl.html>. Acesso em 29 set

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